Printer Friendly

Zoonotic helminthiasis transmitted by the inadequate consumption of fishes/Helmintoses zoonoticas transmitidas pelo consumo inadequado de peixes/Helmintiasis zoonoticas transmitidas por consumo inadecuado de pescado.

INTRODUCAO

Os seres humanos sao acometidos por numerosas zoonoses parasitarias de origem alimentar, sendo a grande maioria causadas por helmintos (1). Dentre estas parasitoses, destacam-se algumas helmintoses causadas por nematodeos, cestodeos e trematodeos, transmitidas pelo consumo de peixes crus ou mal cozidos, que apesar de serem pouco conhecidas pela populacao, sao responsaveis pela infeccao de um grande numero de individuos todos os anos em diversas regioes (2). Dados mundiais revelam que mais de 18 milhoes de pessoas podem albergar alguns destes parasitas e que anualmente 0,5 bilhao esta em situacao de risco para aquisicao destas infeccoes (3).

No passado, estas helmintoses limitavam-se apenas a areas restritas do planeta, caracterizadas por baixo desenvolvimento economico ou com habitos alimentares especificos. Entretanto, nas ultimas decadas, estas enfermidades expandiram-se por diversas regioes em virtude da globalizacao que permitiu um maior fluxo de alimentos e pessoas entre diferentes paises e causou a incorporacao da culinaria tradicional de algumas culturas no cotidiano de outras (2). Somado a isso, nos ultimos anos, ocorreu um aumento consideravel no consumo mundial de pescado, em decorrencia da crescente conscientizacao de seus beneficios nutricionais a saude humana, principalmente por pessoas que buscam uma alimentacao mais saudavel (4).

O habito de ingerir peixe cru, na forma de "sushis" e "sashimis" foi introduzido pelos primeiros imigrantes japoneses no inicio do seculo XX, com grande aceitacao na culinaria brasileira. Pratos de culinaria exotica como o "ceviche" peruano, "marinado" espanhol, "green herring" holandes, "gravlax" escandinavo, "lomi-lomi" havaiano e "gefilte fish" judaico, estao se tornando cada vez mais comuns no cotidiano gastronomico dos brasileiros, constituindo-se em risco a populacao, por tambem utilizarem em seu preparo, pescado cru ou levemente cozido (5).

Neste contexto, insere-se a importancia do conhecimento destas parasitoses por medicos veterinarios envolvidos com a producao, inspecao e comercializacao de pescado, os quais tem a responsabilidade de assegurar aos consumidores, produtos de qualidade, inocuos a saude humana. Portanto, nesta revisao sao abordadas as principais helmintoses zoonoticas transmitidas pelo consumo inadequado de peixes dulcicolas e marinhos, com o intuito de alertar a comunidade cientifica e autoridades sanitarias para este importante problema de saude publica e tambem incentivar a realizacao de novas pesquisas relacionadas a epidemiologia, prevencao e controle destas parasitoses.

ANISAQUIASE

Anisaquiase e o termo utilizado para designar a infeccao parasitaria humana causada pelos estagios larvais de alguns generos de nematodeos da Familia Anisakidae, principalmente Anisakis spp. e Pseudoterranova spp., sendo as especies Anisakis simplex e Pseudoterranova decipiens as mais comumente encontradas nos casos de infeccao em humanos (1). Anisaquideos adultos normalmente parasitam o estomago e intestino delgado de mamiferos marinhos como golfinhos, baleias, focas, leoes marinhos e morsas (6).

O ciclo evolutivo destes nematodeos inicia-se com a postura de quantidade de ovos pelas femeas que sao eliminados para o ambiente, juntamente com fezes dos hospedeiros definitivos. Uma vez no meio aquatico, ocorre no interior dos ovos, o desenvolvimento dos embrioes ate a formacao de larvas de segundo estagio (L2), que eclodem e locomovem na agua ate serem ingeridas por varias especies de crustaceos que atuam como hospedeiros intermediarios destes parasitas, uma vez que nestes ocorre o desenvolvimento das L2 em larvas de terceiro estagio (L3) (1).

Quando os crustaceos sao ingeridos por uma infinidade de especies de peixes, principalmente marinhos e moluscos cefalopodes, ocorre a liberacao das larvas L3, que penetram e invadem os tecidos destes hospedeiros, encistando-se a espera do hospedeiro definitivo (6). Ao ingerir os hospedeiros intermediarios ou paratenicos, ocorre o fechamento do ciclo evolutivo destes helmintos com o desenvolvimento dos estagios adultos e sexualmente maduros no trato gastrointestinal dos hospedeiros definitivos (2). A infeccao humana ocorre pela ingestao de peixes, lulas e crustaceos crus ou mal cozidos contendo larvas L3 em seus tecidos (6).

Esta helmintose e considerada uma zoonose grave, apesar de ser pouco conhecida pela populacao, com aumento de sua prevalencia nas ultimas decadas em diferentes paises do mundo como Alemanha, Holanda, Espanha e Franca (7). Entretanto cerca de 90% dos casos de anisaquiase em humanos concentram-se no Japao, onde mais de 2.000 pessoas infectam-se anualmente com esta parasitose (2). Em 2009, na Europa, a incidencia de casos de anisaquiase foi de 3,8/100.000 (8). Na America, casos de anisaquiase foram diagnosticados em individuos dos EUA, Canada e Chile, porem no Brasil, ainda nao ha notificacao de casos, mas sim o relato da presenca de L3 destes nematodeos em peixes marinhos da costa fluminense (9,10), alem de bacalhau importado comercializado no estado de Sao Paulo (4).

Apesar dos seres humanos serem hospedeiros acidentais no ciclo evolutivo destes helmintos, por raramente desenvolverem-se em individuos adultos, os sintomas da anisaquiase dependem da localizacao e das lesoes histopatologicas causadas pelas larvas (2). Quando limitadas a luz do trato gastrointestinal, podem causar infeccoes assintomaticas que so serao percebidas quando os parasitas forem expulsos pelas fezes ou vomitos, porem, quando ha penetracao tecidual pelas larvas, na mucosa gastrointestinal, o hospedeiro comumente apresenta dor abdominal, diarreia e vomitos (1). Exames histopatologicos geralmente revelam a presenca das larvas envoltas por granulomas eosinofilicos na mucosa gastrointestinal, com aspecto semelhante a tumores (2), que sao extremamente dolorosos nos casos severos, necessitando na maioria das vezes remocao cirurgica (11).

A similaridade dos sintomas da anisaquiase com outras doencas gastrointestinais como apendicite, ulcera, peritonite, neoplasias e doenca de Crohn (2) dificultam seu diagnostico, que deve ser sempre apoiado em uma cuidadosa avaliacao clinica do paciente associada ao seu historico. Em alguns casos, e tambem possivel se observar reacoes de hipersensibilidade mediadas por IgE aos antigenos do parasita, ocasionando quadros que variam de simples urticaria a reacoes de anafilaxia (11).

GNATOSTOMIASE

A Gnatostomiase e uma zoonose parasitaria causada por larvas de terceiro estagio do genero de nematodeo Gnathostoma spp., endemico de regioes onde as pessoas tem o habito de consumir peixes de agua doce crus ou mal cozidos (12). Anteriormente estes parasitas se restringiam ao sudeste asiatico, principalmente no Japao e Tailandia, porem, nos ultimos anos, tem se tornado um problema crescente na Europa e na America Latina (13). No Brasil ha apenas um relato da doenca notificado em 2008 pela ANVISA (Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria), em um individuo com historia de viagem ao Peru (14). Casos autoctones da doenca em humanos ainda nao foram identificados, porem este genero de nematodeo ja foi registrado em felideos silvestres e marsupiais brasileiros (15).

Os principais hospedeiros definitivos deste parasita sao carnivoros e suinos, tanto domesticos como selvagens, onde se observa a presenca dos machos e femeas adultas inseridos na parede gastrica, formando tumoracoes, que apos a copula, liberam seus ovos no trato gastrointestinal, os quais sao eliminados pelas fezes (14). Estes ovos liberam para o ambiente aquatico larvas de primeiro estagio (L1), as quais penetram em pequenos crustaceos, principalmente do genero Cyclops spp. tornando-se larvas L2, que sao posteriormente ingeridas por peixes, alem de crustaceos, anfibios, repteis, aves e roedores, liberando estas larvas que sofrerao nova muda para L3 e encistamento na musculatura destes novos hospedeiros intermediarios (1). Os hospedeiros definitivos infectam-se ao ingerir o segundo hospedeiro intermediario destes helmintos, que inicialmente penetram na mucosa intestinal, migrando para o peritoneo, figado, outros orgaos, retornando posteriormente para a mucosa estomacal reiniciando seu ciclo biologico (12).

Os seres humanos sao hospedeiros acidentais, uma vez que os parasitas nao conseguem atingir sua maturidade sexual (13), portanto a sua patogenia e decorrente dos processos inflamatorios provocados pela migracao das L3 pelo organismo apos penetrarem na mucosa gastrica e cairem na circulacao sanguinea em tres a quatro semanas (16), uma vez que estas sao capazes de se moverem 1cm/hora (12).

Dependendo do local de migracao das larvas e dos sintomas subsequentes, a doenca manifesta-se sobre duas formas nos seres humanos: cutanea e visceral (13). A forma cutanea frequentemente caracteriza-se por edema migratorio, trajeto serpiginoso e forte prurido (14), ja a forma visceral caracteriza-se por febre, mal-estar, nausea, vomitos, anorexia, diarreia e dor epigastrica em decorrencia da migracao das larvas da parede do estomago para o figado e por outros orgaos (12). Embora de manifestacao rara, a gnatostomiase tambem pode acometer o sistema nervoso central, levando a quadros de meningite eosinofilica e paraplegia (13).

O surgimento da gnatostomiase em areas anteriormente nao endemicas, demanda de conhecimento mais amplo para a identificacao da doenca, o que a torna de dificil diagnostico, portanto, deve-se atentar para sua ocorrencia em individuos com alteracoes cutaneas ou com sintomas gastrointestinais inespecificos, pelo historico de viagens internacionais e consumo de peixe cru ou mal cozido (13).

CAPILARIOSE

Capilariose e ocasionada pelo nematodeo Capillaria philippinensis, transmitida aos seres humanos pela ingestao de peixes dulcicolas (1). Mais de 2000 casos de infeccoes em pessoas por estes parasitas ocorreram nas Filipinas e Tailandia, paises endemicos. Ocorrencias esporadicas tambem foram observadas ate o momento no Japao, Coreia, Taiwan, China, Indonesia, India, Ira, Emirados Arabes, Egito, Italia, Espanha e Reino Unido (17).

Os estagios adultos destes parasitas vivem intimamente aderidos a mucosa intestinal do jejuno (1), onde apos a copula, produzem dois tipos de ovos com caracteristicas distintas, que sao necessarias para a perpetuacao de seu ciclo evolutivo (6). O primeiro tipo de ovo, com casca grossa, que lhe confere protecao e eliminado para o exterior, juntamente com as fezes do individuo acometido, contaminando rios e lagos. No ambiente aquatico, estes ovos sao ingeridos por peixes de agua doce, liberando larvas que permanecem encistadas em seus tecidos, ate que sejam ingeridos crus ou mal cozidos por seres humanos, onde concluirao sua biologia, tornando-se nematodeos adultos no intestino delgado (6).

O segundo tipo de ovo apresenta apenas membrana vitelinica, com um embriao em seu interior, pois produzem larvas com a capacidade de desenvolverem na luz intestinal e serem auto-infectantes aos proprios hospedeiros definitivos, dando origem a novas geracoes de parasitas adultos na mucosa do intestino delgado (6). Embora nao se conhecam mais hospedeiros definitivos, alem do homem, acredita-se que aves piscivoras possam tambem apresentar formas adultas destes parasitas (1).

A sintomatologia destas infeccoes e caracterizada por quadros de diarreia intermitente, que levam os individuos acometidos a apresentar forte dor abdominal, borborigmos intestinais, edemas, fraqueza, caquexia e que se nao tratados a tempo podem vir ao obito. Na maioria dos casos os pacientes morrem em decorrencia da grande perda de eletrolitos, que podem resultar em falhas no funcionamento cardiaco e/ou septicemias (18).

DIFILOBOTRIASE

Difilobotriase e a denominacao utilizada para designar a parasitose intestinal causada por cestodeos do genero Diphyllobothrium spp., o qual possui mais de 50 especies, sendo 13 destas capazes de afetar tambem o homem (2). No Japao, o cestodeo Diplogonoporus granais, tambem e responsavel por causar infeccoes semelhantes em seres humanos (19).

A difilobotriase e considerada a mais importante zoonose transmitida pelo consumo de pescado, destacando-se tambem por ser a cestodiose humana com maior numero de casos em todo o mundo, superando ate mesmo o complexo teniase-cisticercose (2), com ampla distribuicao por paises da Europa, Asia, America do Norte e do Sul, que consomem frequentemente peixes dulcicolas ou anadromas crus ou mal cozidos (20). Estimativas recentes indicam que 20 milhoes de pessoas possam estar parasitadas por este cestodeo (21).

No Brasil, durante os anos de 2004 e 2005, o primeiro surto de difilobotriase, causada pela especie Diphyllobothrium latum, foi registrado no estado de Sao Paulo em 55 individuos que haviam consumido salmao chileno cru em restaurantes japoneses e que em sua maioria nunca havia saido do pais. Nesta ocasiao, apos investigacoes epidemiologicas, o Centro de Vigilancia Epidemiologica de Sao Paulo registrou os primeiros casos autoctones desta parasitose no Brasil (22).

O ciclo biologico destes parasitas e complexo, pois envolve tres hospedeiros, dois intermediarios e um definitivo (23). Inicia-se com a eliminacao de grande numero de ovos pelas fezes do hospedeiro definitivo, os quais liberam para o meio aquatico um embriao movel, denominado coracidio, que apos ser ingerido por crustaceos copepodas, presentes no plancton, desenvolve-se em procercoide (24). Quando estes crustaceos sao ingeridos principalmente por salmonideos (25), o procercoide e liberado, encistando-se como plerocercoide nos tecidos destes novos hospedeiros intermediarios, permanecendo assim, ate que estes peixes sejam ingeridos crus ou mal cozidos pelos hospedeiros definitivos desta parasitose (24). O estagio adulto do genero Diphyllobothrium spp. vive no intestino delgado de diversos mamiferos e aves piscivoras, onde pode atingir ate 15 metros de comprimento, o que faz com que este cestodeo seja um dos maiores parasitas encontrados no ser humano (2).

As infeccoes humanas por estes parasitas podem variar desde casos assintomaticos a manifestacoes clinicas como distensao abdominal, dor epigastrica, flatulencia, astenia, nauseas, vomitos, perda de peso, eosinofilia e diarreia (25). Uma importante consequencia desta helmintose e o desenvolvimento de anemia microcitica e megaloblastica, decorrente da grande absorcao de vitamina B12 pelo parasita, alem de obstrucao da luz intestinal em infeccoes macicas e prolongadas (26).

OPISTORQUIASE

A opistorquiase e designacao dada as infeccoes humanas causadas por varias especies de trematodeos hepaticos da Familia Opisthorchiidae transmitidas pelo consumo de pescado dulcicola (27). Dentre estas especies destacam-se: Clonorchis sinensis e Opisthorchis viverrini, endemicos da Asia, Opisthorchis felineus da Europa Oriental e Metorchis conjunctus da America do Norte (2). Estimativas mundiais indicam que 35 milhoes de pessoas possam albergar alguns destes trematodeos, sendo 15 milhoes apenas na China (28).

O estagio adulto destes trematodeos pode habitar os ductos biliares de diferentes grupos de mamiferos, inclusive o homem (1). Todas as especies destes helmintos compartilham ciclos biologicos muito semelhantes entre si, o qual se inicia com a liberacao de ovos nas vias biliares, que chegam ate o intestino para serem eliminados para o meio aquatico, juntamente com as fezes do hospedeiro definitivo (2). Uma vez no ambiente, estes ovos sao ingeridos por caramujos, onde eclodem, liberando miracidios que penetram nos tecidos destes moluscos passando por sucessivos processos de replicacao, ate formacao das cercarias, que serao liberadas para o meio aquatico infectando diversas especies de peixes de agua doce, com destaque para a familia Cyprinidae, alem de algumas especies de camaroes dulcicolas. A infeccao humana ou de outros mamiferos ocorre quando os peixes contendo metacercarias destes trematodeos sao ingeridos crus ou mal cozidos (29).

As varias especies de opistorquideos sao altamente patogenicas e em infeccoes cronicas podem provocar no organismo de seu hospedeiro severas patologias, tais como: pancreatite, colangite piogenica, calculos biliares, cirrose hepatica e colangiocarcinoma (2).

O Brasil ainda nao possui registros de casos autoctones de opistorquiase, nem mesmo condicoes ideais para o desenvolvimento do ciclo biologico desta parasitose, em decorrencia da nao existencia de seus hospedeiros intermediarios naturais, no entanto, a ingestao de peixes crus ou mal cozidos, oriundos de regioes endemicas, constitui-se situacao de risco a populacao, tornando o diagnostico e tratamento adequado destas trematodioses um desafio para servicos de saude do pais, como que foi constatado em 1989 por Leite et al. (30) em imigrantes asiaticos infectados com C. sinensis.

HETEROFIASE

Heterofiase e termo utilizado para agrupar todas as trematodioses causadas por varias especies de helmintos da familia Heterophyidae, parasitas intestinais de mamiferos e aves, com cerca de 35 especies zoonoticas, dentre as quais destacam-se Heterophyes heterophyes e Metagonimus yokogawai (2). Estimativas da prevalencia destes parasitas sao imprecisas, pois seus ovos sao praticamente indistinguiveis entre si, grande parte dos casos humanos ja registrados ocorreu no sudeste Asiatico, Oriente Medio, Balcas, Turquia, Espanha (2). Entretanto, apesar de imprecisos os numeros mundiais de individuos infectados podem chegar a 18 milhoes (31).

O ciclo biologico destes trematodeos envolve a presenca de um hospedeiro intermediario, representado por especies de caramujos aquaticos, o qual pode ingerir ovos, que liberam miracidios para seus tecidos, que posteriormente desenvolve-se em cercarias. As cercarias abandonam os caramujos, penetram nos tecidos de seu segundo hospedeiro intermediario, representado por peixes de agua doce, onde encistam-se como metacercarias. A infeccao humana ocorre pela ingestao de metacercarias presentes na musculatura destes peixes, quando consumidos cru ou mal cozidos (1).

Quanto a patogenia destes parasitas, esta parece ainda nao estar totalmente compreendida, entretanto, observa-se que algumas especies podem causar doenca fatal em seres humanos, pelo comprometimento de orgaos vitais, como coracao, cerebro e coluna vertebral, decorrente da invasao do sistema circulatorio por ovos. Ja os estagios adultos localizam-se na mucosa do intestino delgado, onde causam atrofia de vilosidades, hiperplasia de criptas, com graus variaveis de reacao inflamatoria (2). Os principais sintomas apresentados pelos individuos parasitados vao desde dor epigastrica, diarreia e anorexia em infeccoes leves a colicas abdominais, ma absorcao de nutrientes e perda de peso significativa (2).

No Brasil ate o momento, so foram registradas ocorrencias de heterofiase humana causada pela especie Ascocotyle (Phagicola) longa nos municipios paulistas de Registro e Cananeia, onde foram confirmados 10 casos positivos entre 102 pacientes suspeitos que haviam ingerido tainha crua (32,33). Oliveira et al. (34) observaram prevalencia de 100% de metacercarias deste parasita em tainhas adultas provenientes destas regioes. A similaridade dos ovos entre os trematodeos zoonoticos existentes (2), a ausencia de sintomatologia caracteristica e o desconhecimento dos medicos, prejudicam o correto diagnostico desta parasitose, tornando sua prevalencia subestimada no Brasil (34).

ECHINOSTOMIASE

Esta helmintose zoonotica e causada por diversas especies de trematodeos pertencentes a Familia Echinostomatidae, os quais habitam o intestino delgado de varias especies de aves e mamiferos (1). Apesar de a Familia Echinostomatidae possuir mais de 200 especies, apenas 11 destas apresentam potencial de parasitar seres humanos pela ingestao de carne crua ou mal cozida de peixes, com destaque para as especies Echinostoma hortense e E. japonicus (35).

A maioria dos relatos de infeccoes por estes parasitas em humanos concentram-se na Asia e Oeste do Pacifico e possivelmente Africa. Nos EUA registram-se casos esporadicos desta enfermidade (35). O Brasil possui apenas uma unica especie desta familia, com potencial zoonotico, denominada E. echinatum, que parasita normalmente aves, porem sua transmissao nao esta vinculada a ingestao de peixes crus ou mal cozidos, mas sim a moluscos (1).

O ciclo evolutivo destes parasitas varia de acordo com a especie, entretanto, no geral necessitam de dois hospedeiros intermediarios. Semelhantemente aos trematodeos das familias Opisthorchiidae e Heterophyidae, suas cercarias se desenvolvem e abandonam caramujos aquaticos, encistando-se em metacercarias nos tecidos de outros moluscos, anfibios ou peixes de agua doce. Os humanos e outros animais infectam-se ao ingerir os tecidos destes hospedeiros intermediarios crus ou mal cozidos, os quais podem conter grande numero de metacercarias (1).

Geralmente a apresentacao clinica desta enfermidade e leve, representada por quadros de diarreia, dor abdominal e fadiga, entretanto podem ocorrer graves ulceracoes e hemorragias na mucosa duodenal (36).

PREVENCAO E CONTROLE

A principal medida profilatica para qualquer uma das helmintoses zoonoticas apresentadas nesta revisao, baseia-se em evitar a ingestao de peixes de procedencia duvidosa, preparados crus, mal cozidos, levemente salgados ou defumados artesanalmente. O consumo de pescado nestas condicoes deve ser realizado apenas no caso de produtos certificados por orgaos oficiais de inspecao e submetidos a um previo congelamento a -35 oC por 15 horas ou -20 oC por 7 dias, entretanto o congelamento promove a inativacao apenas de nematodeos e cestodeos (37). Ja em situacoes em que o pescado e consumido cozido, a temperatura de coccao utilizada e de 70 oC por um periodo minimo de 1 minuto, este procedimento garante total inativacao dos estagios larvais de trematodeos, cestodeos e nematodeos (1), que pode tambem ocorrer por metodos industriais de irradiacao, tornando os produtos carneos de peixe inocuos ao consumo humano (22).

E recomendavel que estas medidas sejam adotadas no preparo de qualquer tipo de peixe, pois mesmo que algumas especies nao facam parte da cadeia epidemiologica natural destes helmintos, podem funcionar como hospedeiros paratenicos, ao predarem peixes menores que estejam infectados por estagios larvais, constituindo-se tambem em fontes de infeccao a animais e seres humanos (1).

No caso especifico de regioes endemicas para anisaquideos, a evisceracao do pescado deve ocorrer imediatamente apos sua captura, pois as larvas infectantes migram das visceras para musculatura dos peixes, quando mantidas apenas sob refrigeracao ate a comercializacao, o que aumenta seu potencial de infectividade aos seres humanos (38). Em casos de esta pratica ser adotada, as visceras destes peixes devem ser incineradas, pois se lancadas ao meio aquatico, servem como fonte de infeccao para outros peixes que as possam ingerir (38).

Dejetos humanos devem receber tratamento sanitario adequado, antes de serem lancados em mares, rios e lagoas, uma vez que constituem a principal via de eliminacao de ovos da maioria destes helmintos para o ambiente aquatico, contribuindo para perpetuacao de seus ciclos biologicos, entretanto, esta recomendacao e valida apenas para os parasitas que tem o homem como seu principal hospedeiro definitivo (39).

E fundamental para o controle das helmintoses transmitidas pelo consumo de peixes, a inclusao destas nos programas oficiais de saude desenvolvidos em todo o Brasil. Estes programas devem conter acoes de educacao higienico-sanitarias, que alertem a populacao, a importancia do correto preparo do pescado destinado ao consumo na prevencao destas zoonoses e alertem as pessoas em viagens internacionais para os riscos da ingestao de pratos com peixe cru em paises onde muitas destas parasitoses sao comuns.

Os profissionais de saude devem estar capacitados com conhecimentos tecnicocientificos para o correto diagnostico e conduta terapeutica adequada aos individuos acometidos por estas zoonoses. Salienta-se tambem que todos os casos diagnosticados devem sempre ser notificados aos Centros de Vigilancia Epidemiologica de cada estado, no intuito que estes possam tomar todas as medidas cabiveis, que impecam a instalacao de algumas destas parasitoses no pais e a ocorrencia de novos casos ja existentes.

CONSIDERACOES FINAIS

No Brasil, nos casos humanos identificados, fica clara a participacao de peixes importados de regioes endemicas consumidos inadequadamente, porem ha uma escassez de pesquisas que investiguem a participacao dos peixes da fauna brasileira, dulcicolas ou marinhos, como potenciais transmissores destes parasitas, alem da necessidade de mais estudos epidemiologicos que mostrem a real situacao da prevalencia e distribuicao destas doencas no pais.

O estudo das helmintoses zoonoticas transmitidas por peixes ainda e uma area de conhecimento dentro da parasitologia veterinaria que precisa ser mais explorada pela comunidade cientifica, merecendo tambem ser alvo de maiores investimentos pelas agencias nacionais de fomento a pesquisa.

REFERENCIAS

(1.) Acha P, Szyfres B. Zoonosis y enfermedades transmisibles comunes al hombre y a los animales. [3.sup.a] ed. Washington DC: Organizacion Panamericana de la Salud; 2003.

(2.) Chai JY, Darwin Murrell MK, Lymbery AJ. Fish borne parasitic zoonoses: status and issues. Int J Parasitol. 2005;35:1233-54.

(3.) Food Agriculture Organization. Relatorio final da conferencia regional FAO/OMS sobre inocuidade dos alimentos. Roma: FAO/OMS; 2004.

(4.) Prado SPT, Capuano DM. Relato de nematoides da familia Anisakidae em bacalhau comercializado em Ribeirao Preto, SP. Rev Soc Bras Med Trop. 2006;39:580-1.

(5.) Barros LA, Moraes Filho J, Oliveira RL. Nematoides com potencial zoonotico em peixes com importancia economica provenientes do rio Cuiaba. Rev Bras Cienc Vet. 2006;13:557.

(6.) Anderson RC. Nematode parasites of vertebrates: their development and transmission. 2a ed. Wallingford: CAB International; 2000.

(7.) Audicana MT, Ansotegui IJ, Corres LF, Kennedy MW. Anisakis simplex: dangerous-dead and alive? Parasitol Today. 2002;18:20-5.

(8.) Orphanet Report Series. Rare Diseases collection. Prevalence of rare diseases. 2009 [cited 2012 Jan 06]. Available from: <http://www.orpha.net/orphacom/cahiers/docs/GB/Prevalence_of_rare_diseases_by_alpha betical_list.pdf>.

(9.) Caroline DRS, Luque JL. Larvas de Anisakidae na musculatura do pargo, Pagrus pagrus, no Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Rev Bras Parasitol Vet. 2009;18:71-3.

(10.) Dias FJE, Sao Clemente SC, Knoff M. Nematoides anisaquideos e cestoides Trypanorhyncha de importancia em saude publica em Aluterus monoceros (Linnaeus, 1758) no Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Rev Bras Parasitol Vet. 2010;19:94-7.

(11.) Zuloaga J, Arias J, Balibrea JL. Anisakiasis digestiva. Aspectos de interes para el cirujano. Cir Esp. 2004;75:9-13.

(12.) Herman JS, Chiodini PL. Gnathostomiasis, another emerging imported disease. Clin Microbiol Rev. 2009;22:484-92.

(13.) Moore DAJ, McCroddan J, Dekumyoy P, Chiodini PL. Gnathostomiasis: an emerging imported disease. Emerg Infect Dis. 2003;3:647-50.

(14.) Dani CMC, Mota KF, Sanchotene PV, Maia CPA, Mota KF, Pineiro-Maceira J. Gnatostomiase no Brasil--relato de caso. An Bras Dermatol. 2009;84:400-4.

(15.) Vicente JJ, Rodrigues HO, Gomes DC, Pinto RM. Nematodeos do Brasil. Parte V: Nematodeos de mamiferos. Rev Bras Zool. 1997;1:1-452.

(16.) Hale DC, Blumberg L, Frean J. Case report: Gnathostomiases in two travelers to Zambia. Am J Trop Med Hyg. 2003;68:707-9.

(17.) Lu L, Lin M, Choi W, Hwang K, Hsu Y, Bair M, et al. Human intestinal capillariosis (Capillaria philippinensis) in Taiwan. Am J Trop Med Hyg. 2006;74:810-3.

(18.) Saichua P, Nithikathkul C, Kaewpitoon N. Human intestinal capillariasis in Thailand. World J Gastroenterol. 2008;14:506-10.

(19.) Kino H, Hori W, Kobayshi H, Nakamura N, Nagasawa K. A mass occurrence of human infection with Diplogonoporus grandis (Cestoda: Diphyllobothriidae) in Shizuoka Prefecture, central Japan. Parasitol Int. 2002;51:73-9.

(20.) Eduardo MBP, Sampaio JLM, Goncalves EMN, Castilho VLP, Randi AP, Thiago C, et al. Diphyllobothrium spp.: um parasita emergente em Sao Paulo, associado ao consumo de peixe cru--sushis e sashimis, Sao Paulo, marco de 2005. Bol Epidemiol Paul. 2005;2:1-5.

(21.) Scholtz T, Garcia HH, Kuchta R, Wicht B. Update on the human broad tapeworm (Genus Diphyllobothrium), including clinical relevance. Clin Microbiol Rev. 2009;22:146-60.

(22.) Secretaria de Saude do Estado de Sao Paulo. Informacoes basicas sobre a Difilobotriase: Perguntas e Respostas. Sao Paulo; 2008 [cited 2011 Out 30]. Available from: <ftp://ftp.cve.saude.sp.gov.br/doc_tec/hidrica/doc/InfBasica09_Diphy.pdf>.

(23.) Rausch RL, Adams AM. Natural transfer of helminths of marine origin to freshwater fishes with observation on the development of Diphyllobothrium alascense. J Parasitol. 2000;86:319-27.

(24.) Ministerio da Saude. Alerta e recomendacoes referentes a casos de Difilobotriase no municipio de Sao Paulo. Brasilia; 2009 [cited 2011 Out 30]. Available from: <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=21312>.

(25.) Emmel VE, Inamine E, Secchi C, Brodt TCZ, Amaro MCO, Cantarelli VV, et al. Diphyllobothrium latum: relato de caso no Brasil. Rev Soc Bras Med Trop. 2006;39: 824.

(26.) Dick TA, Nelson PA, Choudhury A. Diphyllobothriasis: update on human cases, foci, patterns and sources of human infections and future considerations. Southeast Asian J Trop Med Public Health. 2001;32:59-76.

(27.) Shen C, Kim J, Lee J, Bae YM, Choi M, Oh J, et al. Collection of Clonorchis sinensis adult worms from infected humans after praziquantel treatment. Korean J Parasitol. 2007;45:149-52.

(28.) Zhou P, Chen N, Zhang EL, Lin RQ, Zhu XQ. Food-borne parasitic zoonoses in China: perspective for control. Trends Parasitol. 2008;24:190-6.

(29.) Lun ZR, Gasser RB, Lai DH, Li AX, Zhu XQ, Yu XB, et al. Clonorchiasis: a key foodborne zoonosis in China. 2005 [cited 2011 Out 30]. Available from: <http://infection.thelancet.com>.

(30.) Leite OHM, Higaki Y, Serpentini SLP, Carvalho AS, Amato Neto V, Torres DMA, et al. Infeccao por Clonorchis sinensis em imigrantes asiaticos no Brasil: tratamento com praziquantel. Rev Inst Med Trop. 1989;31:416-22.

(31.) Fried B, Graczyk TK, Tamang L. Food-borne intestinal trematodiasis in humans. Parasitol Res. 2004;93:159-70.

(32.) Chieffi PP, Gorla MC, Torres DM, Dias RM, Mangini AC, Monteiro AV, et al. Human infection by Phagicola sp. (Trematoda, Heterophyidae) in the municipality of Registro, Sao Paulo State, Brazil. J Trop Med Hyg. 1992;95:346-8.

(33.) Chieffi PP, Leite OH, Dias RM, Torres DM, Mangini AC. Human parasitism by Phagicola sp (Trematoda, Heterophyidae) in Cananeia, Sao Paulo state, Brazil. Rev Inst Med Trop. 1990;32:285-8.

(34.) Oliveira AS, Blazquez FJH, Antunes AS, Maia AAM. Metacercarias de Ascocotyle (Phagicola) longa Ransom, 1920 (Digenea: Heterophyidae), em Mugil platanus, no estuario de Cananeia, SP, Brasil. Cienc Rural. 2007;37:1056-9.

(35.) Chai JY, Lee SH. Food-borne intestinal trematode infections in the Republic of Korea. Parasitol Int. 2002;51:129-54.

(36.) Chai JY, Hong ST, Lee SH, Lee GC, Min YI. A case of echinostomiasis with ulcerative lesions in the duodenum. Korean J Parasitol.1994;32:201-4.

(37.) Food and Drug Administration. Bad Bug Book: Foodborne Pathogenic Microorganisms and Natural Toxins Handbook Anisakis simplex and related worms. Silver Spring; 2009 [cited 2011 Out 30]. Available from: <http://www.fda.gov/Food/FoodSafety/FoodborneIllness/FoodborneIllnessFoodbornePat hogensNaturalToxins/BadBugBook/ucm070768.htm>.

(38.) Abollo E, Gestal C, Pascual S. Anisakis infestation in marine fish and cephalopods from Galician waters: an updated perspective. Parasitol Res. 2001;87:492-9.

(39.) Eduardo MBP, Sampaio JLM, Susuki E, Cesar MLVS, Goncalves EMN, Castilho VLP, et al. Investigacao epidemiologica do surto de difilobotriase, Sao Paulo, maio de 2005. Bol Epidemiol Paul. 2005;2:1-12.

Recebido em: 29/11/11

Aceito em: 14/02/12

Daniel Fontana Ferreira Cardia [1]

Katia Denise Saraiva Bresciani [2]

[1] Doutorando do Programa de Pos-graduacao em Medicina Veterinaria--Faculdade de Ciencias Agrarias e Veterinarias Universidade Estadual Paulista (UNESP). Via de acesso Professor Paulo Donato Castellane, s/n[degrees], Jaboticabal, SP, Brasil. CEP: 14884-900. Email: cardia@posgrad.fcav.unesp.br

[2] Professora Adjunto do Departamento de Apoio, Producao e Saude Animal--Faculdade de Medicina Veterinaria--UNESP. Rua Clovis Pestana, n[degrees] 793, Aracatuba, SP, Brasil. CEP: 16050-680. Email: bresciani@fmva.unesp.br
COPYRIGHT 2012 Universidade Estadual Paulista. Facultade de Medicina Veterinaria e Zootecnia
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2012 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Cardia, Daniel Fontana Ferreira; Bresciani, Katia Denise Saraiva
Publication:Veterinaria e Zootecnia
Date:Mar 1, 2012
Words:4798
Previous Article:Hypoadrenocorticism in dogs: review/Hipoadrenocorticismo em caes: revisao/ Hipoadrenocorticismo en perros: revision.
Next Article:Computed tomography and magnetic resonance imaging aspects of hemorrhagic strokes in dogs/Aspectos de infartos hemorragicos em caes na tomografia...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2021 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |