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With the methodology of the juridical works: historical judgement in Guerra civil no Rio Grande do Sul, by Tristao de Alencar Araripe (1879-1881)/Com a metodicidade das obras de jurisprudencia: o julgamento historico a partir da Guerra civil no Rio Grande do Sul, de Tristao de Alencar Araripe (1879-1881).

Uma memoria acerca da Farroupilha e lida e publicada na Corte

O ano de 1879 marca um novo capitulo sobre a memoria farroupilha, pois na oitava sessao do Instituto Historico e Geografico Brasileiro (IHGB), no dia 22 de agosto, Tristao de Alencar Araripe (1821-1908) dava inicio a leitura de uma memoria documentada acerca dos acontecimentos dos quase dez anos de conflito que conflagraram a provincia mais ao sul do Imperio, entre 1835 e 1845. Desde 1870 Araripe era um politico e um letrado consagrado. Em 1869, fora eleito para a Assembleia Geral pela provincia do Ceara e nomeado Desembargador da Relacao na Corte, sendo aceito como membro do IHGB (HRUBY 2012, p. 75-76). Em 1874, alcancou o topo da carreira politica do Imperio, sendo agraciado com o titulo do Conselho. A memoria intitulada Guerra civil do Rio Grande do Sul, lida aos membros do Instituto naquele ano, ganharia as paginas da revista desse Instituto em 1880. Nos anos que se seguiram, nao so a memoria foi publicada em livro, em 1881, como a partir de 1882 a Revista do IHGB (RIHGB) passou a publicar anualmente os documentos coligidos por Araripe para a futura escrita da historia do evento. (1)

Foi, contudo, a publicacao em livro da memoria de Araripe que despertou a reacao de uma parte dos letrados em Sao Paulo e no Rio Grande do Sul. Tao logo o livro se tornou conhecido, vozes se levantaram para defender a memoria do evento e oferecer outra interpretacao acerca do seu significado. A recepcao negativa do trabalho de Araripe deuse pelo julgamento historico do regime republicano instalado pelos farroupilhas, em 1836, e das suas principais liderancas, o qual questionava o carater heroico que lhes fora atribuido. (2)

De acordo com Araripe, a republica rio-grandense nascera de um "movimento revolucionario" notavel, que "comecou sob a forma de sedicao, vacilou sobre o seo procedimento, ate que em Novembro de 1836 tomou o caracter de rebeliao, e proclamou a republica" (ARARIPE 1880, p. 115-116). Como uma revolucao, o movimento fora tratado como uma ameaca potencial a ordem, produtor de anarquia na provincia sulina. Assim, muitas das tentativas da Corte de reprimir os rebeldes tiveram como consequencia, segundo Araripe, "vigorar as tendencias revolucionarias na provincia anarchizada" (ARARIPE 1880, p. 172). Alem disso, o autor da memoria tratava as liderancas da Revolucao de 1835 como caudilhos, termo pejorativo utilizado pela elite do Imperio para se referir aos chefes militares e as liderancas politicas que disputavam o poder nas Republicas do Prata. Desprezado pelos politicos brasileiros, em sua maioria bachareis educados na arte das palavras, o caudilho era visto como o tipo social responsavel pela situacao belicosa e anarquica da regiao Platina. Alem disso, o governo instituido pelos caudilhos farroupilhas nao zelava pelos direitos individuais e pela propriedade privada, valores maiores que deveriam ser resguardados, segundo a maxima da elite politica imperial.

No que se refere ao carater republicano e democratico da revolucao que separou a provincia do Imperio, Araripe afirmava que, "embora sob especioza denominacao democratica proseguisse o movimento revolucionario, a realidade da couza bem longe estava da sua epigrafe", uma vez que "nunca a democracia afastou-se mais de um governo do que do da republica de Piratinin" (ARARIPE 1880, p. 116-117). O autor da memoria elencava alguns pressupostos ausentes no governo instituido pelos farrapos que depunham contra seu carater republicano e democratico:

[...] nunca o xefe supremo d'essa intitulada republica, [...] foi erguido pelo voto popular em comicios regulares; antes pelo contrario o Prezidente da republica de Piratinin jamais teve outro titulo de legitimidade sinao o arbitrio de poucos caudilhos, autores da rebeldia (ARARIPE 1880, p. 116).

O trabalho elaborado pelo conselheiro Araripe atingia em cheio as apropriacoes que liberais e republicanos da provincia sulina faziam da Revolucao de 1835. Seus juizos acerca do carater separatista do movimento e de seus lideres acabaram por receber a atencao de alguns letrados rio-grandenses que buscaram contrapor os julgamentos do historiador do IHGB.

Atraves da imprensa rio-grandense surgiram as primeiras reacoes ao trabalho de Araripe. O jornal Gazeta de Porto Alegre publicava em 1881 uma serie com doze artigos do seu editor, Karl von Koseritz. Pouco tempo depois se iniciava a publicacao na "Seccao Historica" da Gazeta do trabalho de Ramiro Barcellos acerca da "revolucao de 1835", que posteriormente apareceu tambem nas paginas do Jornal do Commercio, em 1882, e ganhou o formato de livro no mesmo ano atraves da tipografia do periodico. Alem dessas, outras manifestacoes surgiram nas paginas dos periodicos locais. Contudo, sao os artigos de Koseritz que veiculam as criticas mais elaboradas publicadas na imprensa em resposta a memoria documentada de Araripe. Alem disso, elas serviram de suporte para a critica mais contundente a Araripe, formulada pelos rio-grandenses estudantes da Faculdade de Direito de Sao Paulo, agrupados no Club Vinte de Septembro, que mobilizaram novos criterios de cientificidade na contraposicao ao trabalho. Mesmo no Rio Grande do Sul, entretanto, havia falta de consenso acerca do significado do evento, o que fica claro nas diferentes manifestacoes literarias e politicas que trataram da Farroupilha (LAZZARI 2004; SOARES 2016). Contudo, o material aqui analisado compreende somente a memoria documentada de Araripe e a critica que lhe dirigiu Koseritz, uma vez que neles e possivel reconstruir as condicoes de enunciacao e refutacao de juizos historicos.

O condicionamento social dos julgamentos historicos

De acordo com Wolfgang J. Mommsen (1978, p. 19), as ferramentas conceituais dos historiadores sao socialmente constituidas. Para o historiador alemao, vemos o passado sob uma perspectiva definida pelo nosso proprio posicionamento na sociedade, compreendendo a historia da sociedade em virtude dos conceitos desenvolvidos a luz do presente, uma vez que toda historia e historia contemporanea (MOMMSEN 1978, p. 20). Assim, a estrutura dos julgamentos historicos seriam determinadas, segundo a perspectiva de Mommsen (1978, p. 22), nao so pelo objeto de investigacao, mas tambem pela tendencia epistemologica e as ferramentas conceituais do historiador. Nesse sentido, Mommsen (1978, p. 23) enumera os elementos constitutivos que destacam os esquemas teoricos e exegeticos que usamos, de maneira consciente ou nao, para organizar nosso conhecimento do passado e dar-lhes sentido: em primeiro lugar, a autoimagem do grupo social do historiador; em segundo, a nocao de quais fatores provocam a mudanca social; e, por fim, a perspectiva do futuro desenvolvimento social, que oferece o ponto de orientacao (o telos) para a interpretacao historica. Assim, analisando esses elementos, poderiamos tornar os julgamentos historicos compreensiveis intersubjetivamente e verificaveis objetivamente.

Minha primeira tentativa de interpretacao da Guerra civil do Rio Grande do Sul comeca, entao, pela analise do condicionamento social do julgamento historico de Tristao de Alencar Araripe. Assim, seguindo a estrutura da analise proposta por Mommsen, identifico, em primeiro lugar sua formacao como letrado e politico no Brasil imperial, para, em seguida, apontar o grupo social do qual o autor fazia parte.

Araripe ingressou na Faculdade de Direito de Olinda em 1841 e se formou bacharel em 1845, pela academia paulista (VAMPRE 1924, p. 338; STUDART 1907, p. 52), periodo no qual as revoltas regenciais mostraram aos estudantes das academias o perigo que uma interpretacao "exaltada" do liberalismo representava a unidade do imperio e a manutencao da ordem publica (KIRKENDALL 2002, p. 31-34; CARVALHO 2008, p. 130). Entendo que frequentar o ambiente das faculdades imperiais nesse momento foi fundamental para a definicao de valores conservadores que marcariam nao so sua identidade politica, mas igualmente a de grande parte da elite dirigente do Imperio. Araripe foi membro do Partido Conservador, o qual, desde o periodo do Regresso, fixara a linguagem politica da elite do Imperio. Sua formacao apontava, portanto, para a valorizacao da monarquia constitucional como promotora da ordem e mantenedora da unidade do Imperio.

Da mesma forma, e preciso ressaltar que o trabalho de Araripe fora apresentado no IHGB, e, posteriormente, aparecia nas paginas da revista do Instituto, considerado uma instancia legitimadora da escrita da historia nacional (GUIMARAES 2011, p. 118). O Instituto mantinha um relacionamento proximo com o Estado, indicado nao so pela presenca do imperador nas suas sessoes ou pela grande quantidade de funcionarios do governo que compunham suas fileiras, mas fundamentalmente devido ao entrelacamento dos temas de interesse que transparecem nas paginas da sua revista (GUIMARAES 2011, p. 252). Esse entrecruzamento da pratica historiadora promovida pelo Instituto e a politica do Imperio parece-me um aspecto importante para a compreensao da memoria documentada de Araripe, ainda que seja problematico buscar generalizar qual seria a posicao do IHGB acerca do passado nacional.

Trabalhos recentes apontam para a variedade de posturas sobre quais eram as funcoes e as maneiras de escrever a historia brasileira ao longo do seculo XIX, dentro e fora do Instituto (SANTOS 2013; 2015; ARAUJO 2015). Nesse sentido, sugiro apenas que Araripe partilhava com outros historiadores do oitocentos alguns principios caros a elite politica imperial, uma vez que, em seu trabalho historiografico acerca da Farroupilha, buscava defender a monarquia contra os desvios e a exaltacao das ideias de alguns setores da elite letrada nacional. Vale lembrar que desde a orientacao da Karl von Martius acerca do modo como se deveria escrever a historia do Brasil, tomada pelos historiadores brasileiros do IHGB "como uma especie de manual de introducao aos estudos historicos" (CEZAR 2011, p. 179), essa ja era uma premissa da pratica historiografica: ele deveria convencer os leitores, mas principalmente aqueles que portavam "ideas politicas immaturas", acerca "da necessidade de uma Monarchia", exortando que o historiador escrevesse "como auctor Monarchico-Constitucional" (MARTIUS 1845, p. 401-402; ver tambem CEZAR 2003).

Desde a decada de 1870, contudo, havia na Corte um Partido Republicano pregando o fim da monarquia. A radicalizacao de um setor dos liberais com o fim do periodo da Conciliacao, em 1868 (CARVALHO 2008 p. 21-27), era sentida tambem nas faculdades imperiais, especialmente em Sao Paulo. La, a propaganda republicana e abolicionista crescia, o que se pode atestar pela fundacao de associacoes e periodicos estudantis que pregavam a mudanca de regime politico (ANTONIOLLI 2017). Nao menos importante, deve-se considerar a passagem do magistrado pela presidencia da provincia do Rio Grande do Sul, entre abril de 1876 e fevereiro de 1877, periodo de intensa agitacao politica, no qual a memoria farroupilha servia de referencia para o discurso do Partido Liberal rio-grandense (PICCOLO 1993, p. 156; LAZZARI 2004, p. 208; HRUBY 2012, p. 168). Essas experiencias (de um lado, o crescimento da propaganda republicana; de outro, o resgate da memoria farroupilha como heranca de um setor importante da politica no Rio Grande) me parecem fundamentais para o exercicio de coleta e organizacao da documentacao referente a Farroupilha (LAMB 2012, p. 52-53; BOEIRA 2013, p. 235-236).

Logo, entendo a memoria de Araripe acerca da Farroupilha como uma resposta de um historiador do IHGB, conselheiro do Imperio e membro do Partido Conservador--que zelava, portanto, pela manutencao da ordem construida pelo regime monarquico -, as referencias de liberais e republicanos a um dos mais resistentes movimentos que ameacaram a unidade do Imperio no periodo regencial. A Guerra civil no Rio Grande do Sul pode ser lida, entao, como um trabalho que organiza e da ao evento um sentido mais afeito a linguagem politica, aos valores e preceitos da monarquia constitucional. Tratase, nessa perspectiva, de convencer e persuadir o leitor (riograndense, simpatico ao Partido Liberal; republicano, seja ele da provincia sulina, da Corte ou das faculdades imperiais, focos da propaganda oposicionista) das ameacas efetivas que um movimento revolucionario republicano representou a ordem e a unidade nacional, e mostrar que somente a monarquia, dadas as condicoes penosas em que se encontrava a populacao brasileira, seria capaz de garanti-las. Refiro-me a categoria explicativa retorica da nacionalidade, que buscava persuadir os brasileiros acerca do seu passado comum, e, portanto, de uma identidade partilhada no presente, atraves da historia e de outras formas de discurso (CEZAR 2006, p. 29). A memoria documentada pode ser entendida, entao, ao meu ver, como uma tentativa, no contexto de crise do regime, de conter e resistir a clara dispersao do discurso construido pelos saquaremas em torno da monarquia (MATTOS 2011). Assim, retomando a perspectiva de analise de Mommsen para compreensao dos julgamentos historicos, torna-se evidente um fator interpretativo ligado a mudanca social que transparece da leitura do trabalho de Araripe: a resistencia as formas violentas de alteracao de regime de governo, devido ao risco que representavam para a manutencao da estrutura social, e a aposta na continuidade da monarquia como solucao de longo prazo para a conservacao da ordem e do progresso gradual nas sendas da civilizacao.

Segundo Mommsen (1978, p. 32), contudo, para nao se reduzir o julgamento historico a uma estrita determinacao social, e preciso compreender que ele e aberto para e esta sujeito a critica, ja que pode ser "testado" em termos das suas suposicoes subjacentes, assim como do material documental que mobiliza. Encaminho, entao, minha analise ao seu segundo momento, que trata da recepcao do trabalho de Araripe na Corte e no Rio Grande do Sul. Acredito que, na resposta de Koseritz a memoria documentada, podemos evidenciar alguns fundamentos do oficio do historiador os quais orientaram a critica aos julgamentos historicos enunciados pelo historiador cearense, assim como o questionamento da historiografia do produzida no IHGB.

O oficio do historiador face ao juizo do passado I: a memoria documentada lida na Corte

No relatorio anual do primeiro secretario do Instituto Historico e Geografico Brasileiro, lido durante a "Sessao magna anniversaria" da associacao, em 15 de dezembro de 1879, o entao secretario Jose Ribeiro de Sousa Fontes, ressaltou a leitura do trabalho "judicioso e imparcial" de Araripe, "ainda quando o assumpto nao fosse de tanta transcendencia". De acordo com Jose Ribeiro, a memoria "prepara mais proficua leitura dos documentos, porque o leitor a iniciara tendo ja nocao do complexo dos factos, das suas relacoes de successao e contingencia, e do exito d'elles" (RIHGB 1879, p. 302), algo que o proprio Araripe desejava com a escrita da memoria, como veremos. Mais adiante no relatorio, o secretario afirmou: "Pretende o autor que, lida a exposicao e consultados os documentos, podera cada um formar por si juizo sobre os protogonistas [sic] d'essa revolucao politica por que passou o sul do Imperio em um tempestuoso decennio" (RIHGB 1879, p. 303) . Tem-se, aqui, um aspecto importante: o juizo acerca do passado e deixado a cargo do leitor; voltarei a isso em breve.

As consideracoes do secretario, entretanto, vao alem. Mais do que facilitar a leitura dos documentos coligidos ou permitir que cada leitor formasse seu proprio juizo acerca dos fatos, a memoria de Araripe era vista como o proprio processo, responsavel por julgar os acontecimentos da Farroupilha: "A memoria tornar-se-ha, pela maneira que n'ella se trata do assumpto, um verdadeiro processo da revolucao riograndense" (RIHGB 1879, p. 303). O juizo sobre o passado, portanto, poderia ser atribuicao do leitor, mas nao deixava de ser, em parte, tambem do historiador, responsavel pela montagem do processo a partir do qual os acontecimentos historicos seriam julgados. Chamo a atencao para o jogo de metaforas judiciarias: seu uso e um aspecto marcante nao so da avaliacao do secretario do IHGB. Da mesma forma, Araripe fara grande uso delas, como tambem alguns dos seus criticos. Nesse momento, contudo, quero destacar outro aspecto: antes de se configurar como juiz (aquele que emite a sentenca), o historiador aparecia sobretudo como organizador do processo que levaria ao julgamento historico deixado a cargo do leitor, algo proximo da tradicao retorica de deixar falarem os fatos por eles mesmos (KOSELLECK 1997, p. 214).

Araripe, por sua vez, era da mesma opiniao. Queria apenas colaborar com a montagem do processo, e nao com o julgamento historico da Farroupilha. E o que ele afirmou no texto que publicou nas paginas da revista em 1880, considerando importante o servico prestado pelos historiadores do Instituto de "preparacao do processo istorico" (ARARIPE 1880, p. 126).

Em 1879, numa especie de prefacio oral que precedeu a leitura da memoria aos seus colegas, Araripe (RIHGB 1879, p. 242) destacava que o principal merito do seu trabalho repousava na colecao dos documentos que coligira e apresentava. Essa enfase nos documentos e o fato do texto apresentado aos colegas e publicado na revista se tratar de uma memoria (que o autor caracteriza tambem como "ensaio"), e nao de uma historia propriamente dita, indicam que a pratica de escrita obedecia a um criterio que se definira entre os consocios do Instituto, a partir do qual o tempo se apresentava como um agente "na demarcacao de uma perspectiva historica a servir de fundamento metodologico para as atividades do historiador" (OLIVEIRA 2009, p. 155), ja que, segundo Araripe:

Ainda nao temos a istoria da epoca d'este sucesso, nem e ainda tempo de escrevel-a, visto nao ter ainda xegado o remanso das paixoes para que o escritor, como juiz imparcial, possa expender a verdade sem preterir consideracoes individuaes. Escrever dos contemporaneos, emitindo juizo, e correr o perigo de exagerar a apologia pela amizade, ou engendrar censuras pelo odio. (ARARIPE 1880, p. 125, grifos meus)

Araripe alertava, entao, aos perigos de uma historia que nao primasse pelo distanciamento temporal. Ao mesmo tempo, a interdicao lancada pelo historiador tirava legitimidade de qualquer futura tentativa de escrita de uma historia do movimento que nao respeitasse o tempo necessario para que os animos estivessem todos acalmados. Somente com o remanso das paixoes a verdadeira escrita da historia poderia ter lugar. Uma escrita na qual o historiador estaria apto a tomar o lugar de um juiz imparcial. Para isso, era preciso que existisse um elemento que garantisse a imparcialidade daquele que iria julgar o evento: esse elemento era o tempo, porque:

O historiador e juiz; e o juiz deve ser competente, e julgar pelo processo.

A competencia da o tempo; o processo organiza-se pelos depoimentos, acumulando-se os documentos, em que estes se conteem. Escrever antes do tempo e ser juiz ilegitimo; e proferir sentenca sem processo regular.

Os contemporaneos nao sao historiadores; sao apenas testimunhas e organizadores do processo. (ARARIPE 1880, p. 125, grifos meus)

Era somente com a acao do tempo, quando o passado deixava de agir sobre o presente, que seria possivel atuar como juiz legitimo do processo. Era a distancia do presente em relacao ao passado que garantiria a legitimidade do trabalho do historiador como juiz. Essa distancia carregava em si uma perspectiva de tempo que tendia a valorizar o presente (e o futuro, a quem a tarefa da escrita da historia estava reservada) como unico ponto de vista legitimo, nao sobre si mesmo, mas sobre o passado. Essa e sem duvida uma temporalizacao do aspecto moralizante do trabalho do historiador (KOSELLECK 1997, p. 52), mas que nao lhe retira a responsabilidade pelo julgamento historico. Contudo, se Araripe parece acreditar que somente o futuro guardava as chaves para a formulacao de juizos acerca do evento, nao me parece ser devido a crenca numa justica que se realiza na propria historia, tal como no tribunal da historia hegeliano, mas gracas ao ganho cognitivo que a distancia temporal era capaz de instaurar (KOSELLECK 1997; 2006). O papel de proferir sentencas sobre o passado, portanto, ainda era reservado ao historiador (ou ao leitor). Sua atuacao legitima, contudo, so viria com o tempo. Contudo, mesmo no Instituto, o veto a historiografia do presente nao foi unanime, como lembra M. Oliveira (2009), apontando que, mesmo com a suspeita acerca de uma historia imediata, alguns socios do IHGB realizaram o registro de acontecimentos contemporaneos (ver tambem CEZAR 2004 e TIBURSKI 2011).

A tarefa do IHGB, segundo Araripe, nao era, portanto, a de escrever a historia da Farroupilha, mas dispor o material para que os futuros historiadores cuidassem da elaboracao da escrita. Nesse sentido, o trabalho assumia as feicoes das memorias historicas herdadas da tradicao das academias letradas do seculo XVIII, uma vez que se tratava de um genero propedeutico a historia (SILVEIRA 2016, p. 145). A propria selecao dos documentos operada por Araripe visava contribuir para que no futuro o historiador responsavel pela escrita pudesse melhor elaborar seu juizo sobre o evento, como se pode perceber no seguinte trecho:

Na selecao dos documentos procurei reunir todos aqueles, que vierao ao meo conhecimento, e que me parecerao convenientes para esclarecer os factos, e abilitar o escritor a emitir juizo sobre os acontecimentos, quer no tocante a cauza d'elles, quer na parte relativa ao caracter dos autores do drama reprezentado por dez annos na extrema meridional do imperio brazileiro (ARARIPE 1880, p. 129, grifo meu).

Mas julgar era tambem tomar parte, o que poderia afetar o pressuposto de imparcialidade do historiador, paradoxo que atravessa a pratica historiadora do seculo XIX. Vemos, por exemplo, no discurso de Januario da Cunha Barbosa, de 1839, que T. Cezar (2011, p. 95) considera ter produzido normas para a pratica historiadora no IHGB, o historiador representado como dispensador imparcial de juizos sobre os homens do passado, "austero sacerdote da verdade" (BARBOSA 1839, p. 13-14). Da mesma forma, no "Prologo" da segunda edicao da sua Historia geral do Brazil, Varnhagen (1877, p. XII) reanimou esse paradoxo reafirmando a historia como tribunal perante o qual o historiador deveria se portar como "um verdadeiro juiz", ainda que devesse narra-la com imparcialidade (VARNHAGEN 1877, p. I; ver sobre GUIMARAES 2011, p. 217). (3) Embora a primeira vista as prerrogativas do historiador de ser imparcial e dispensador de juizos parecam incompativeis, a analise de R. Turin acerca do ethos do oficio no oitocentos auxilia a compreender o paradoxo aparente. Turin argumenta que foi justamente o metodo historico, de critica erudita dos documentos aliada ao compromisso com a verdade, que valorizava a narrativa como neutra, ainda que patriotica (TURIN 2009, p. 17-18). Dessa forma, o aparato metodico para o tratamento das fontes que garantia um discurso historico imparcial mesmo que tal discurso assumisse o ponto de vista nacional, sustentava tambem a legitimidade e a pertinencia dos juizos formulados pelos historiadores.

Contudo, em sua memoria, Araripe nao se sentia a vontade, apesar de ter recolhido muitos documentos acerca do movimento rebelde dos rio-grandenses, de assumir o papel de juiz, o que se pode perceber no seguinte excerto:

Omitiremos as consideracoes politicas e moraes, que poderiao envolver julgamento dos omens e dos factos especiaes: o nosso fim e, com a simples expozicao narrativa, dispor o leitor a melhor comprehender o valor e significacao dos documentos, que, lidos dezacompanhados da lembranca dos sucessos, nao serao devidamente apreciados. (ARARIPE 1880, p. 128)

A escolha do genero de escrita parece desempenhar um papel que merece ser destacado. Pedro Telles da Silveira (2016, p. 143) indica que a memoria historica era, no seculo XVIII, um genero relativo ao debate erudito, anterior ao estabelecimento da narrativa historica, a qual possuiria um carater mais acabado e definitivo. No caso de Araripe, contudo, apesar da escolha do genero da escrita reivindicar algumas das caracteristicas da memoria historica do seculo XVIII, o aspecto da linearidade da narrativa oferecida pelo historiador ultrapassa as prerrogativas do genero. A reivindicacao do texto como uma memoria oferecia a Araripe, ao meu ver, duas vantagens: em primeiro lugar, um subterfugio que contornava a interdicao a historia de periodos recentes; em segundo, uma escrita que, justamente devido a seu carater preparatorio, concedia ao autor um espaco seguro para propor juizos que, posteriormente, poderiam ser revisados. A memoria de Araripe, assim, poderia ser lida como uma tentativa de propor um julgamento a avaliacao dos pares historiadores do IHGB, primeiro lugar de enunciacao do trabalho.

Portanto, mesmo que a distancia temporal nao permitisse um trabalho de historiador que assumisse as vestes de juiz imparcial, uma narrativa deveria orientar a leitura das fontes, para que ficasse bem entendido aquilo que o movimento foi, ou seja, a narrativa dos fatos, mesmo que diferente de uma historia propriamente dita, visava atribuir sentido, orientar o leitor na interpretacao dos episodios e acontecimentos que os documentos apresentavam. Nesse sentido, e interessante atentar para o primeiro capitulo da memoria, "Observacoes acerca da revolucao rio grandense, e sobre os documentos a ella referentes", que faz as vezes de prefacio do texto. Nele, Araripe condensou os pontos que depois seriam criticados e debatidos pelos letrados rio-grandenses. Suas observacoes, como vimos, configuram uma serie de juizos que condenavam o governo rebelde a nao ser uma republica, essa assim declarada republica a nao ser democratica, questionava o valor moral dos seus lideres, e caracterizava o novo regime como um governo militar, de anarquia, conduzido por caudilhos.

Assim, Araripe parecia efetuar um julgamento a revelia da sua declaracao de intencoes. Tratava-se, entao, de um sentenca expedida pelo historiador juiz que nao desejava julgar? Em sua tese, H. Hruby (2012, p. 156) sinaliza a tomada de posicao de Araripe, "ao lado da ordem, dos paladinos da causa legal, dos brasileiros". Ve-se, portanto, que outro ator assume o papel de juiz do passado Farroupilha: nao so o leitor (como indicava o secretario do IHGB), nao so o tempo (como queria Araripe), mas tambem o proprio historiador era o dispensador de juizos sobre os acontecimentos historicos.

A peca de acusacao da Revolucao de 1835 estava pronta. Era, entao, a hora de os defensores dos rebeldes se apresentarem. O trabalho publicado nas paginas do periodico do Instituto, contudo, parece ter passado despercebido pelos letrados riograndenses, no Rio Grande do Sul e em Sao Paulo. Foi apenas com a publicacao em livro, no ano seguinte, em 1881, que a memoria do conselheiro Araripe entrou na arena de debates.

O oficio do historiador face ao juizo do passado II: a memoria lida na provincia

Tao logo a Guerra civil no Rio Grande do Sul foi publicada em livro, as reacoes de letrados da provincia do Rio Grande de Sao Pedro foram vistas em periodicos locais. A Gazeta de Porto Alegre (1879-1884) noticiava em 24 de maio de 1881 o recebimento do livro ofertado pelo autor, reconhecendo a importancia da memoria que passou a ser considerada a primeira obra de historia publicada sobre a Revolucao Farroupilha.

Ao receber o volume ofertado por Araripe, a Gazeta reconhecia que a memoria documentada devia ser analisada minuciosamente devido a importancia do assunto para a provincia. O redator do jornal, Karl von Koseritz (1830-1890), prometia, entao, artigos especiais nos quais trataria do trabalho, que passaram a ser publicados em 4 de junho de 1881, sob o titulo O livro do Sr. conselheiro Araripe.

Koseritz era imigrante alemao, redator e editor de jornais em Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, entre as decadas de 1850 e 1880 (PAREDES 2007, p. 244; CESAR 1971, p. 249-256; BOEIRA 2013, p. 226, n. 193). Alem disso, era monarquista, liberal e polemista, destacando-se na divulgacao de ideias cientificas e evolucionistas no Rio Grande do Sul, ainda que, como argumento adiante, o cientificismo nao estivesse no cerne de suas criticas a Araripe. De acordo com Igmar Grutzmann, Koseritz estava fortemente vinculado ao liberais do Rio Grande do Sul, sendo proximo da sua principal lideranca, Silveira Martins, tendo sido tambem redator do orgao do partido na provincia, o jornal A Reforma. Ainda segundo a autora, o jornal no qual Koseritz divulgara suas criticas ao conselheiro era "sua maior tribuna politica e o mais conhecido veiculo de suas ideias [...]" (GRUTZMANN 2007, p. 130-131; ver tambem CESAR 1971, p. 250).

Lazzari avalia que as criticas de Koseritz ao trabalho de Araripe buscaram alcancar a "relacao de equivalencia" entre o movimento rebelde de 1835 e o povo rio-grandense, pois essa era "uma associacao de obvio proveito politico para os chefes liberais do Rio Grande" que se arvoravam defensores dos interesses rio-grandenses diante da Corte. Ainda de acordo com o autor, o redator da Gazeta aproveitara a oportunidade de defender a memoria da Revolucao de 1835 em primeira mao, adiantando-se, dessa forma, aos rivais republicanos (LAZZARI 2004, p. 214). O trabalho de Lazzari ajuda a compreender os intersticios da disputa politica acerca da memoria dos farroupilhas, na qual os artigos de Koseritz se apresentavam como uma defesa e uma reclamacao de posse do passado rebelde pelos liberais rio-grandenses. Coincidencia ou nao, Koseritz fora eleito pelo Partido Liberal para a Assembleia Provincial no ano de 1883. Mas, se por um lado a analise nos ajuda a situar Koseritz no cenario politico do Rio Grande do Sul, por outro, ela nao se detem sobre as criticas de metodo e as censuras que o redator faz ao conselheiro, apesar de aponta-las.

Ao iniciar a serie de artigos, Koseritz deixa explicito seu objetivo. Eram os juizos do historiador do IHGB, que escrevera uma memoria sem o intuito de julgar os feitos dos rebeldes farroupilhas, que procurava revogar atraves desses textos, como se pode perceber, quando o historiador afirma

O que pretendemos nestes artigos, e rebater os juizos injustos, que amesquinhao o caracter do povo rio grandense e fal-ohemos com toda a cortezia que devemos ao respeitavel autor desse trabalho, que alias demonstra amor ao estudo e dedicacao as [sic] cousas patrias. (KOSERITZ 04/06/1881, grifo meu)

O periodista se via obrigado, entao, a "reconhecer o servico que o Sr. conselheiro Araripe prestou a historia da provincia" (KOSERITZ 04/06/1881). Esse e um lugar comum na recepcao da memoria documentada: a ela e reconhecido o merito pelo servico prestado nao a nacao, mas a provincia, por organizar e publicar um trabalho que ate entao so havia sido abordado de maneira esparsa e fragmentada. O fato de ser a provincia e nao a nacao a maior interessada numa narrativa sobre o evento indicava que esse era visto como um assunto que dizia respeito unicamente aos rio-grandenses.

Esse aspecto da critica ao trabalho do conselheiro Araripe estava ligado, nos artigos de Koseritz, a restricao da legitimidade sobre a escrita da historia do evento aos naturais do Rio Grande do Sul. Mesmo que o trabalho de Araripe tivesse seus meritos reconhecidos, a historia do evento deveria ser obra de um historiador rio-grandense, segundo o redator da Gazeta,

[...] diremos com franqueza, teriamos preferido que S. Ex. nao tivesse publicado a sua memoria, porque a primeira obra historica sobre a revolucao, devera ter sido escripta por um rio-grandense, que conhecendo as tradicoes de sua terra, teria desenvolvido pontos de vista mui differentes. (KOSERITZ 04/06/1881, grifo no original)

Este era considerado um ponto fundamental: somente o pertencimento a patria rio-grandense qualificaria o historiador para tratar dos fatos da revolucao, pois so assim seria possivel compreender as tradicoes que permitiriam interpretar o desenrolar do conflito. O melhor juizo sobre a Farroupilha seria aquele oferecido por um filho da provincia. Portanto, ele deveria ser, segundo Koseritz, parcial.

Nem mesmo a interdicao que Araripe prescrevia para o tratamento de um tema tao recente e delicado parece ter sido levada em consideracao por Koseritz. Em sua serie de artigos (22/06/1881), o redator considerava que "se achao extinctos os odios da guerra civil, que apagado e esquecido esta o facho da discordia interna [...]". Ignoravam-se, portanto, as ressalvas do historiador do IHGB acerca do tempo necessario para uma escrita da historia livre de prejuizos. O assunto poderia ser abordado, desde que de uma otica favoravel. Nesse sentido, a cautela do conselheiro Araripe em apresentar sua narrativa dos eventos da Revolucao como uma memoria historica foi ignorada na leitura que Koseritz fazia dela, pois a considerava como "a primeira obra historica sobre a revolucao".

Ao contrario da prescricao de distanciamento proposta por Araripe, Koseritz advogava justamente uma proximidade. Onde Araripe buscava o distanciamento temporal para uma melhor apreciacao dos fatos, Koseritz reclamava uma proximidade cultural. Enquanto para o primeiro a falta de distancia temporal impossibilitava o bom julgamento dos fatos e dos personagens, para o segundo era justamente a distancia cultural que impedia que a memoria de Araripe nao fosse uma interpretacao tao verdadeira quanto poderia ser. O fato de tal proximidade prejudicar a objetividade do historiador parecia um problema menor diante da perspectiva de um trabalho que poderia adquirir um carater mais rio-grandense e tambem mais verdadeiro.

Dir-nos-hao talvez, que o objectivismo proprio do historiador, teria soffrido neste caso:

Nao duvidamos, mas a apreciacao teria sido mais verdadeira, e sobretudo--mais rio-grandense.

Em relacao a [sic] historia pertence a primeira palavra de direito aos immediatamente interessados; embora sejao subjectivos em seu modo de encarar os successos, embora a paixao ainda nao amortecida, lhes empreste tintas mais carregadas,--o primeiro subsidio para a historia deve ser delles. (KOSERITZ 04/06/1881)

Dessa forma, a critica de Koseritz reclamava um pertencimento que Araripe nao possuia. A analise de Rodrigo Turin acerca do ethos do historiador oitocentista argumenta que esse vinculo visceral entre o autor e a historia que escreve era um dos requisitos basicos que compunha a retorica acerca do oficio, uma vez que, segundo ele, "Tres requisitos basicos dao forma ao ritual da escrita: o sentimento patrio, o dominio tecnico-cientifico e a pertinencia do produto em relacao ao seu uso" (TURIN 2009, p. 14). Faltava a Araripe o sentimento patrio para melhor julgar a rebeldia do povo riograndense. Ainda assim, o articulista cedia ao argumento e aceitava que a proximidade cultural em relacao a tradicao e a falta de distanciamento temporal teriam por consequencia uma narrativa de "tintas mais carregadas". Entretanto, isso nao retirava o direito e a necessidade de que o evento fosse, em primeiro lugar, objeto dos historiadores rio-grandenses.

Koseritz, contudo, fazia coro a Araripe num aspecto: o trabalho de dar linhas mais definitivas a escrita da historia caberia a posteridade. Segundo o redator, "mais tarde vira o historiador geral estudar essas obras e pesar o seu conteudo, separar o joio do trigo e construir assim o edificio da historia" (KOSERITZ 04/06/1881). Assim, ve-se esbocar sob as criticas de Koseritz uma diferenciacao entre a historia geral e a historia particular da provincia do Rio Grande do Sul. Essa ultima deveria ser, em primeiro lugar, feita pelos proprios interessados, no que se estabelecia o pertencimento como criterio de escrita. So depois viria a historia geral, na qual as cores carregadas do historiador particular seriam matizadas. Era esse historiador geral desconhecido, localizado nalgum lugar do futuro que estava por vir, quem deveria se encarregar de nuancar a leitura e o juizo apaixonado dos rio-grandenses que se dedicassem ao estudo da Farroupilha. Nao era, portanto, um trabalho para o historiador do IHGB, a quem simplesmente faltavam os subsidios para que fosse autor legitimo de uma historia da Revolucao de 1835.

Desde a primeira ate a ultima pagina do livro, ouve-se ali a voz da legalidade, esta voz, ainda saturada das paixoes do momento, injusta sempre, frequentemente cruel para com os rebeldes da Sparta do Sul.

Tudo quanto de nobre e grandioso houve na attitude desse povo heroico, durante o decennio de luctas, nao o sabe, nao o comprehendeu o auctor do livro. (KOSERITZ 04/06/1881, grifo meu)

Acredito, assim, que a parcialidade, na critica de Koseritz, se configurava ao mesmo tempo como uma necessidade e um defeito. Por um lado, era uma necessidade que permitiria apresentar a Revolucao de 1835 sob um ponto de vista mais simpatico e mais verdadeiro, devido ao conhecimento das tradicoes da provincia na qual ela se desenrolou, tal como requeria o ethos do historiador oitocentista. Por outro, porem, a parcialidade era um defeito que impedia Araripe de contemplar o evento em sua totalidade, uma vez que tomava o ponto de vista em muito desfavoravel aos feitos dos rebeldes. Parece, assim, haver apenas uma maneira de ser parcial corretamente, e nao era aquela adotada por Araripe. A avaliacao de Koseritz abordava, entao, o problema do ponto de vista adotado pelo historiador, aspecto, segundo R. Koselleck (1997, p. 105) que se tornara constitutivo da experiencia e do conhecimento historico moderno. Todavia, ao tomar partido--ou seja, ao assumir um ponto de vista especifico, o da "legalidade", pronunciando juizos sobre a Farroupilha -, Araripe nao se posicionava ao lado do "partido justo" (KOSELLECK 1997).

O redator da Gazeta reclamava igualmente da selecao de fontes feitas pelo conselheiro Araripe, uma vez que os arquivos da Republica Rio-grandense nao teriam sido acessiveis ao historiador, como se pode ver a seguir:

S. Ex. vio-se pois obrigado a lancar mao, so e exclusivamente, dos documentos officiaes existentes na secretaria do governo e dos subsidios que lhe puderao prestar os archivos publicos do Imperio.

Isto quer dizer, que o Sr. conselheiro Araripe so ouvio a voz da legalidade; que so enxergou os acontecimentos pelo prisma do governo legal e dos seus delegados; que portanto e unilateral em todas as suas apreciacoes e juizos.

E' este o grande, o immenso defeito do livro do illustre magistrado cearense. (KOSERITZ 04/06/1881, grifo meu)

A falta de documentos da Republica tinha uma so consequencia: Araripe fora parcial tambem devido ao seu equivoco como historiador na selecao dos documentos, e isso fora fundamental para que nao fosse capaz de ver o evento sob um ponto de vista rio-grandense. Essa, no entanto, e uma afirmacao apressada de Koseritz, pois, quando o livro foi publicado em 1881, os documentos coligidos pelo historiador do IHGB ainda nao haviam sido publicados pelo periodico da instituicao. A critica do periodista, alem disso, representava, talvez, uma certa antipatia em relacao a memoria documentada, pois, ao longo da narrativa, Araripe fazia remissao a alguns documentos emanados do regime republicano, o que indica, senao a ma vontade de Koseritz, uma leitura apressada da memoria. Nao obstante, a censura do articulista dava a entender que somente o desconhecimento por parte do historiador dos arquivos da Republica permitiria um julgamento tao erroneamente parcial. Era como se uma interpretacao positiva se impusesse a qualquer um que analisasse o passado Farroupilha de um ponto de vista correto (ou que se servisse dos documentos da Republica Riograndense). (4) Koseritz, por sua vez, valeu-se dos documentos da epoca para contrapor os juizos de Araripe, mostrando que era preciso subsidiar os argumentos contrarios com elementos que os tornassem plausiveis e verdadeiros. De outra forma, sem o embasamento documental, as apreciacoes do redator nao teriam forca contra a leitura "viciada" de Araripe. A partir do sexto artigo da serie, portanto, o redator da Gazeta passou a oferecer sobretudo correspondencias trocadas entre os chefes militares do conflito e tambem com o entao barao de Caxias, que serviam de fundamento a suas criticas (KOSERITZ 27/06/1881; 28/06/1881; e 02/07/1881).

As apreciacoes de Koseritz acerca da memoria, contudo, nao se detinham apenas nos aspectos relativos aos metodos utilizados pelo conselheiro. A critica do articulista recaia tambem sobre o proprio autor responsavel da primeira historia da Farroupilha, que era acusado de ter atuado como magistrado e nao como historiador em seu julgamento historico. Esse era um aspecto que limitava o alcance do seu olhar: seu "golpe de vista parece nao ir alem dos termos do codigo criminal" (KOSERITZ 07/06/1881). Ou seja, de acordo com o redator da Gazeta, Araripe so foi capaz de ver o passado farroupilha atraves da grade de leitura da legislacao do Imperio, o que lhe impunha limites no julgamento do passado. Tratava-se de uma incompatibilidade: a demarche do magistrado era incompativel com o tema que o historiador analisava em sua memoria. As palavras de Koseritz davam a entender que os juristas analisariam os fatos com uma frieza que lhe impediria de reconhecer o entusiasmo e o amor a patria.

Velho magistrado, homem methodico, filho do Norte, que nao comprehende esse vibrar especial da fibra do patriotismo nos campos do Sul, fez o Sr. Araripe um apanhado de dados parciaes, tomados dos archivos da legalidade; coordenou esses dados, esses capitulos e paragraphos com a methodicidade das obras de jurisprudencia; encarou todos esses grandes feitos, filhos do enthusiasmo e do amor a terra do Rio Grande, com o criterium do legista e--publicou uma obra que amesquinha o movimento popular do Rio Grande, que fere a verdade historica e deprime o caracter deste heroico povo. (KOSERITZ 04/06/1881)

Logo, para Koseritz, a censura se dirigia ao carater juridico do julgamento historico de Araripe, que isolava o evento da cultura rio-grandense a qual o produziu para pronunciar, como juiz e nao como historiador, sua sentenca. De fato, a separacao entre as atribuicoes do historiador e as do juiz nao pareciam ser tao facilmente diferenciadas. E o que se ve no final da memoria documentada escrita por Araripe. A partir do capitulo XXXII, intitulado "Os rebeldes do Rio-grande do Sul considerados ante o direito criminal e a justica do paiz", o historiador esbocava uma definicao legal do que se considerava sedicao e rebeliao, apoiandose na linguagem juridica dos codigos criminais do Imperio.

Ve-se, dessa forma, que a critica de Koseritz a Araripe nao se atinha somente aos juizos do historiador do IHGB. Era a maneira como o conselheiro executava o oficio historiografico que estava em questao. Dizia:

Talento, nao o e o Sr. Araripe e nobreza de coracao nao a mostra [...] Realmente--difficile est satyram non scribere, quando se le semelhantes offensas ao caracter deste nobre povo, que tao mal conhece o ex-presidente da provincia, o qual podera ser talhado para tudo, menos para algum Herodoto. (KOSERITZ 17/06/1881)

Alem disso, Araripe era criticado pelo redator da Gazeta por se apropriar das criticas que os legalistas faziam aos rebeldes a epoca, assumindo a perspectiva de suas fontes: "Nao e de estranhar, que o governo e os legaes da epocha, fizessem taes alegacoes, mas o historiador deve julgar por outra forma"

(KOSERITZ 13/06/1881, grifo meu). Da mesma maneira, os olhos de magistrado embacavam a visao do historiador, pois transformam os grandes feitos de um povo em fatos de um processo judicial, julgados a luz estreita e fria da lei, o que e possivel de ser observado no seguinte excerto:

O velho magistrado que julgou-se autorisado a formar juizo solemne sobre o caracter da revolucao desta provincia, esqueceu que o homem que sempre pertenceu a escola autoritaria e que mede os successos da historia dos povos pela estreita bitola da jurisprudencia criminal, nao e por certo competente para semelhante tarefa. (KOSERITZ 10/07/1881, grifo meu)

Assim sendo, era a competencia de Araripe como historiador que estava em questao: em primeiro lugar, ele nao estava autorizado a formar juizo sobre a Farroupilha; em segundo, atuara como magistrado, e nao como historiador; por fim, seu posicionamento politico, como defensor da legalidade e monarquista conservador, tambem fora alvo de criticas. As questoes levantadas por Koseritz a memoria, portanto, nao necessariamente mobilizavam os novos criterios de cientificidade reclamados pela geracao de letrados que, a partir de 1870, passou a formular criticas a historiografia produzida no IHGB. Os problemas colocados por Koseritz devem-se, antes, a dois aspectos que nao dialogam de maneira necessaria com o debate colocado pelo cientificismo dessa geracao: suas criticas tratam do historiador (monarquista, conservador, filho de revolucionario) e da pratica do oficio historiografico (selecao das fontes, adocao do ponto de vista dos contemporaneos, confusao entre as tarefas dos historiador e do juiz). Uma resposta a memoria de Araripe que levara em conta os criterios da vanguarda sera formulada por Joaquim Francisco de Assis Brasil, no livro Historia da Republica Riograndense, publicado em 1882, no qual criticava os autores que, analisando a historia, davam grande importancia a acao dos individuos e pouca atencao as leis do movimento historico (ANTONIOLLI 2017, p. 161 ss).

Assim, ainda que Araripe afirmasse isentar-se do julgamento ao evento e aos seus principais personagens, a recepcao da memoria por uma parcela dos homens de letras rio-grandenses deixava claro que a pretensao de isencao passara despercebida, ao menos, para esse publico. Nos artigos de Koseritz, portanto, a alegada imparcialidade do conselheiro imperial passara sem ser notada, e, ao contrario, a memoria era vista como uma injustica contra o povo rio-grandense. A tentativa do historiador em eximir-se da tarefa de juiz, organizando a narrativa dos fatos como uma memoria (e nao uma historia) foi ignorada, assim como os alertas para os perigos de uma historia acerca de um evento tao proximo temporalmente. O ultimo artigo da serie foi publicado em 19 de julho de 1881. Koseritz dava por encerrada sua tarefa de "rebater os falsos juizos do Sr. Araripe".

Consideracoes finais

Com a publicacao em livro da Guerra civil no Rio Grande do Sul, por Tristao de Alencar Araripe, em 1881, foi possivel perceber que foi recebida de formas diversas, na Corte e na provincia do Rio Grande. A diferenca no tratamento que a obra recebeu estava vinculada ao conteudo do trabalho do historiador. Assim, no IHGB a memoria era recebida como trabalho judicioso e imparcial (RIHGB 1879, p. 302), pois reafirmava os principios da historiografia empreendida no Instituto, nao apenas em relacao aos aspectos teoricos e metodologicos do oficio, mas tambem politicos, em consonancia com os objetivos do Estado: fundar a nacao e promover a civilizacao atraves da manutencao regime monarquico. Afinal, nao se pode esquecer que a memoria fora lida na presenca do Imperador, e, alem disso, recebera autorizacao do governo para consultar o Arquivo Imperial, assim como foi publicada, juntamente com os documentos que apresentam, na revista do IHGB. Contudo, a memoria nao teria a mesma sorte na provincia do Rio Grande do Sul.

Questionando os julgamentos historicos do historiador sancionado pelo IHGB a falar do conflito, Koseritz levantava restricoes a forma como Araripe realizou seu oficio historiografico. O redator do jornal da Gazeta fundamentava, entao, suas apreciacoes numa dupla acepcao de justica relativa a historia (que versam sobre o estabelecimento da verdade) (KOSELLECK 1997, p. 214): um primeiro, que trata da retidao dos procedimentos metodologicos, que nao foram seguidos por Araripe, segundo o redator; e, outro, que trata da formacao equitativa do julgamento, novamente ignorado por Araripe, que julgava como juiz, nao falava do ponto de vista rio-grandense, e, crime maior, adotava a posicao dos adversarios da revolucao. Nao e menos interessante, como contraponto, que, no Instituto, o mesmo trabalho tenha recebido outro tratamento. Na serie de artigos redigidos por Koseritz, via-se, assim, tanto uma censura a pratica historiadora de Araripe quanto uma desconsideracao do lugar que o IHGB representava para a escrita da historia no Brasil oitocentista, para falar como M. de Certeau (2006).

Noutro sentido, percebe-se, a partir das manifestacoes acerca da Guerra civil do Rio Grande do Sul, como, no seculo XIX, os responsaveis por assumirem a posicao de juiz do passado pareciam mudar constantemente no discurso dos historiadores: ora o papel de formular juizos cabia ao leitor; ora era o historiador que, como filosofo moral, deveria proferir as sentencas; ou ainda, era somente com o decorrer do tempo que se tornava possivel julgar, ficando a tarefa delegada as futuras geracoes. As criticas ao trabalho de Araripe, realizadas por Koseritz, contudo, centraram suas atencoes nao so nos julgamentos historicos proferidos, mas igualmente no autor da memoria, indicando, assim, os prejuizos da posicao social do historiador do IHGB a analise dos acontecimentos e personagens da Farroupilha.

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(1) O debate gerado pelo livro de Araripe ja foi bem explorado em trabalhos recentes. Limito-me a mencionar os mais recentes sobre o assunto: LAZZARI 2004, p. 208-226; GRIJO 2006; HRUBY 2012, p. 152-228; LAMB 2012, p. 44-65; BOEIRA 2013, p. 218237; RODRIGUES 2013, p. 164-169; e, SOARES 2016.

(2) Preservo a grafia dos nomes proprios, dos titulos dos traba lhos e dos excertos dos documentos consultados, optando por nao atualizar a ortografia.

(3) Para reflexao sobre as funcoes judiciaria e moral realizada pelos historiadores na sua pesquisa dos fatos e no julgamento de personagens e acoes, ver KOSELLECK 1997, p. 214.

(4) No que se refere aos documentos coligidos por Araripe, havia, de acordo com H. Hruby (2012, p. 163), equilibrio de fontes.

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

Juliano Francesco Antoniolli

jucahist@gmail.com

Doutorado em Historia pela

Universidade Federal do Rio Grande do Sul--Brasil

Texto produzido durante o curso de doutoramento, financiado pela CAPES, com primeira versao apresentada ao GT de Teoria da Historia e Historiografia da ANPUH-RS, em setembro de 2016. Agradeco a leitura e aos comentarios de Pedro Telles da Silveira, Mara Rodrigues, Renata Dal Sasso Freitas, Eliete Tiburski e Gabriela Correa da Silva.

RECEBIDO EM: 06/JUN./2018 | APROVADO EM: 10/JAN./2019

Juliano Francesco Antoniolli

https://orcid.org/0000-0001-8296-8880
COPYRIGHT 2019 Sociedade Brasileira de Teoria e Historia da Historiografia
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
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Author:Antoniolli, Juliano Francesco
Publication:Historia da Historiografia
Date:Jan 1, 2019
Words:9049
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