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Wilton Azevedo: from graphic gesture to pixel/Wilton Azevedo: do gesto grafico ao pixel.

Introducao

Wilton Luiz de Azevedo nasceu em Sao Paulo em 1958. Designer grafico, ilustrador, desenhista, programador visual e professor. Quando crianca sonhava em ser desenhista, e nao imaginava se tornar professor, nem atuar na fronteira entre o desenho e o digital.

Porem, a vida o fez trilhar o caminho docente, artista e pesquisador, ao longo de sua carreira artistica nunca abandonou a potencial importancia que o gesto grafico, que o desenho espontaneo e humano traz para o desenvolvimento e evolucao das linguagens artisticas.

Graduou-se em Comunicacao na Escola Superior de Propaganda e Marketing --ESPM em 1980. No inicio de sua carreira, atua como ilustrador e artista grafico, se debruca ao estudo de pigmentos e resinas naturais com Marlene Almeida (1942) para aplicar em seus trabalhos como ilustrador, alem da dedicacao ao estudo de papeis artesanais com Diva Elena Bus (1943).

Em 1984 conclui o mestrado em linguagem, comunicacao e semiotica na PUC/SP, com a dissertacao O Ruido como Linguagem, com orientacao de Decio Pignatari (1927-2012). Em 1995, concluiu o doutorado na mesma instituicao com a orientacao de Arlindo Machado (1949). Comeca a expor em 1977, participando do Salao de Humor de Piracicaba. Em 1987 realiza a primeira exposicao de pintura por computador em Sao Paulo, no Clube de Criacao, o que lhe valeu uma exposicao no Museu de Imagem e Som em 1988. Publica os livros O Que E Design, pela Editora Brasiliense, e Os Signos do Design, pela Global Editora.

Artista plastico atuante desde a decada de 1980, ao longo de seu percurso, foi incorporando o uso da tecnologia e seus signos atraves de meios eletronicos, que se desdobram numa significativa producao artistica colocando Azevedo como um vanguardista no cenario contemporaneo da arte brasileira.

Em 1998 organiza, edita e e responsavel pela producao grafica do CD-ROM Interpoesia: poesia hipermidia interativa, com poesias de sua autoria e de Philadelpho Menezes (1960-2000). Foi professor do programa de pos-graduacao na Universidade Presbiteriana Mackenzie ate 2016, quando veio a falecer.

1. A cultura digital e as linguagens da arte

O surgimento da cultura digital no Brasil, na decada de 90, influenciou de maneira significativa a obra de Azevedo, que a partir de entao, passa a explorar essas possibilidades em suas criacoes.

Tecnologias contemporaneas criam novas possibilidades tanto de representacao como expressao. Alguns conceitos surgem por decorrencia do surgimento de softwares, equipamentos, computadores, e estes associados a meios de reproducao mais antigos devem ser contemplados como elementos expressivos de linguagem, muitas vezes, bastante peculiares. Estas ferramentas visam orientar quanto aos tracos de tecnologia na criacao do objeto visivel, assim como apresenta a competencia expressiva desses meios (Goncalves, 2005).

Pela obra e experimentacoes de teoricos e conceitos que se dedicaram a estudar e resignificar a evolucao das linguagens artisticas ao longo dos anos, do surgimento da cultura digital e de conceitos que foram incorporados ao universo da arte atraves do surgimento dos meios digitais, o percurso artistico e procedimental do designer e artista Wilton Azevedo, vai experimentando e descobrindo novas possibilidades, pois "pesquisa e a vontade e a consciencia de se encontrar solucoes, para qualquer area do conhecimento humano" (Zamboni, 2012:51), assim Wilton penetra no universo digital e na utilizacao de hipermidias.

Ja que podemos ter acesso em qualquer lugar e hora a esses armazens de signos, arquivos que contem de maneira parcial e asseptica o conhecimento humano contido em um apertar de um mouse, passou a ser oportuno desvendar esta nova escritura que ha muito estamos tendo contato atraves de videoclipes, vinhetas de televisao, internet, CD-ROM, blog, fotolog e as cameras de bolso usadas como canetas. Ou seja, o que entendemos hoje por livro, texto e literatura, e suas consequencias narrativas, nao podera ser analisado pelos novos suportes digitais--hipermidia--se nao voltarmos a nossa atencao para a necessidade maior que o ser humano tem em produzir escrituras com ou sem "o sangue de seu proprio corpo", na intencao de lancar o exercicio do efemero em forma de eterno (Azevedo, 2007:3).

O conceito de hipermidia comeca a surgir na decada de 60, juntamente com conceitos da tecnologia da informacao, sendo potencializado a medida que os computadores passam a fazer parte do cotidiano das pessoas.

O computador pessoal tambem estendeu a capacidade e viabilizou o desejo humano de interagir, de intercambiar documentacao, de comunicar conhecimentos e, pela vida da midia em que se transformou, comunicar sensacoes e sentimentos. Os meios de comunicacao social--sejam eles a pintura rupestre ou um audiovisual editado eletronicamente--contem, em si, a natureza simultanea da tecnica e da arte, da informacao e da sensibilizacao de sentidos e emocoes.

Os meios tecnologicos entao penetram e comecam a dialogar com outras areas do conhecimento, como a teoria literaria e as producoes artisticas, antevendo os impactos que a digitalizacao do conhecimento traria para o ser humano. Essa relacao da arte com os meios tecnologicos foi grande objeto de estudo de Wilton Azevedo.

O artista parte da linguagem poetica do desenho, que utilizamos para nos expressar desde a pre-historia. Se utiliza de elementos visuais graficos, como a linha, o ponto e de elementos pictoricos como a cor e a luz e sombra, alem do som, que num processo de aglutinacao de valores esteticos e sensoriais, desdobram-se em codigos digitais, que somente o codigo binario do computador pode incorporar. Ainda, transforma o simbolo alfabetico, a letra e a palavra em representacoes simbolicas que o meio tecnologico absorve e os transforma em um conjunto de imagens que se sobrepoem na tela do computador dando um novo significado aos elementos da arte.

Nesse sentido, Lev Manovich alerta para a mudanca operada pela tecnologia ser tao decisiva para a producao de obras, como o foi a mudanca/passagem da utilizacao do afresco e da tempera para o oleo, operada no Renascimento, permitindo novas narrativas.

A programacao de computadores, a interface grafica homem-maquina, o hipertexto, a multimidia computadorizada, a formacao de redes (com e sem fio)--concretizaram as ideias por tras dos projetos dos artistas, mas ampliaram-nas muito mais do que o imaginado pelos artistas (Manovich, 2005:49).

Se o artista contemporaneo convive hoje em dia com realidades e naturezas cristalizadas na tela de um computador, sons e imagens, qualquer critica a esse respeito deve levar em conta a mistura dessas diferentes naturezas. A palavra e a forma devem ser repensadas nas relacoes tecnicas que convivem com elas e que dao visibilidade ao processo de fusao de linguagens na tela do computador, na obra digital.

Timm ainda aponta caracteristicas fundamentais que norteiam os caminhos dessas relacoes com os ambientes virtuais.

E verdade inclusive que muitos ambientes virtuais facilitaram o processo de integracao de arquivos de multiplas midias atraves de templates, muitas vezes engessadas na concepcao de simples menus, o que de certa forma elimina a magia da criacao da relacao entre sentidos, as vezes ocultos no conteudo de textos e imagens de varias naturezas, o que talvez tenha regrado um possivel fascinio do link que acompanhou muitas producoes experimentais, no inicio da implementacao dos hipertextos. (Timm, Schnaid & Zaro, 2004:13).

Nessa transicao para o digital, o artista possui projetos emblematicos, como a edicao do CD ROOM interativo em parceria com o poeta Philadelpho Menezes, intitulado POESIA HIPERMIDIA INTERATIVA, uma coletanea de poemas digitais, entre eles o poema digital Labios, onde texto, imagens em movimento e sons se fundem no suporte digital criando um novo signo artistico (Figura 1).

Essa nova linguagem hibrida, que surge a partir da coexistencia do verbo, do som e da imagem, criada por escritores, artistas, poetas e designers, abre amplas e novas possibilidades de entendimento e sensibilidade em torno das proprias linguagens da arte.

Tambem o que viabiliza esse convivio entre diferentes matrizes signicas e o aparato tecnologico digital. Cabe-nos refletir em que medida essa tecnologia intervem na logica de funcionamento das linguagens e ate que ponto as linguagens nos revelam outro modo de conviver com a tecnologia. O que notamos na ambiencia digital e que o significado das palavras e formas nao cabe mais somente nelas mesmas. E nesse universo, que Wilton Azevedo busca inspiracao e conceituacao para sua producao artistica.

Ha um significado que nao mais esta ligado a um signo comum ou poetico, mas sim a um signo que se mostra em expansao, dilatando-se. O significado esta la, mas so e detectado por seus componentes binarios, que estao entrelacados aos componentes binarios do som, da imagem e demais acontecimentos manifestados na tela do computador. Estamos falando de criacoes que tomam como linguagem a ser articulada aquela do meio de comunicacao mais dinamico do tempo presente, o digital. Sendo assim, o que cabe ao artista e selecionar e articular essas linguagens para expressar a sua forma poetica (Azevedo & Sales, 2012:53).

1. Escritura digital expandida

Wilton defende a partir dessas mutacoes sensoriais, a ideia de escritura digital expandida, onde nao temos mais o verbo, a imagem e o som, sendo que essas linguagens se fundem em um unico codigo atraves de recursos tecnologicos, a propria escritura digital expandida.

E o ambiente digital e, seguramente, um espaco-tempo em que os diferentes campos do conhecimento podem conviver; e nao apenas em forma de hipertextos (ligados uns aos outros) sobretudo, criando novos modos de significar e compreender as relacoes mundanas.

No caso de Volta ao fim (Figura 2), uma possivel sofisticacao do leitor e desejavel na criacao literaria digital. Se anteriormente precisavamos sair da nossa zona de conforto para adentrarmos os signos da criacao artistico-digital, que nos faz contemplar e entender outras formas de nos relacionarmos com o mundo, agora estamos diante uma midia que nos faz habitar as obras e nos relacionar com varias linguagens simultaneamente.

Estamos frente a frente com essas escrituras expandidas, diante dessas faces sonoras, de versos tateis e das imagens em movimentos analogicos-digitais (programadas em softwares) e assim podemos redescobrir uma beleza que nao nos remeta apenas as explicacoes acerca de quanto a arte e a literatura nos transformam, mas tambem que nos proporcione encantamento pelas formas, pelos sons, pelas cores e pelas percepcoes corporais. Tudo isso sob uma nova otica de fruicao, como na obra Volta ao fim, onde observamos todos esses valores como expectadores por meio de um monitor de computador.

No video Palimpgesto (Figura 3), o artista materializa o percurso onde os codigos graficos e as linguagens visuais e sonoras, vao sendo subvertidas para o software, ou seja, o dispositivo digital vai incorporando as linguagens e codigos humanos, transformando-os em um unico codigo, o digital. Durante o video, o codigo da palavra aparece distorcido, fora do seu contexto original, num processo de ressignificacao para a plataforma digital, que ocorre a partir do processamento do software, incorporado na linguagem do pixel. O video produzido por Azevedo, registra esse percurso de fusao entre as linguagens e signos materializados no suporte digital.

Outro video do artista, Encefalo (Figura 4), mostra a fusao de elementos visuais e linguagens no suporte computacional.

Conclusao

A partir dessas abordagens, podemos concluir que o artista se apropria de diversos elementos visuais: linha, forma, textura, cor, e de diversas linguagens: escrita, sonora, visual, e as subverte para o suporte digital.ao longo de sua carreira.

Esse percurso nos permite percorrer, vivenciar e reconhecer por meio de sua producao artistica as possibilidades que as novas tecnologias digitais vem proporcionando no terreno da potencialidade dos signos da arte e no surgimento cada vez mais claro de um codigo hibrido, interligando linguagens como som, imagem e texto, que Azevedo explorou no decorrer de seus trabalhos. Ou ainda, dimensionar e explorar como as linguagens expressivas humanas sao fundidas e absorvidas pelo suporte digital.

Com o falecimento de Wilton Azevedo em 2016, suas experimentacoes e sua obra se consolidam, deixando um legado artistico no entrelacamento entre o gesto grafico, a escrita, a fusao de linguagens artisticas e seus desdobramentos nos meios digitais.

Referencias

Azevedo, Wilton (2007). "Poetica das hipermidias, uma escritura expandida". Revista Boitata. ISSN 1980-4504. No. 4 (jul-dez): 1-17. [Consult. 2017-12-27]. Disponivel em URL: http://revistaboitata. portaldepoeticasorais.inf.br/revista/ edicao/numero-4-semestre-jul-dez-2007/4

Azevedo, Wilton; Sales, Cristiano (2012). "A literatura digital e sua escritura expandida: uma reflexao sobre a obra Volta ao fim". Revista Brasileira de Literatura Comparada. ISSN 0103-6963, vol. 14, n. 20: 49-62.

Goncalves, Claudio C. Babenko (2005). Para uma analise do fenomeno visual. Sao Paulo: Acadcom Grafica e Editora. ISBN 85-98437-02-6.

Manovich, Lev (2005). "Novas midias como tecnologia e ideia: dez definicoes" In: Lucia Leao (org.). O chip e o caleidoscopio: reflexoes sobre as novas midias. Sao Paulo: Editora SENAC. ISBN 8573594209:25-49.

Timm, Maria Isabel, Schnaid, Fermando, Zaro, Milton Antonio (2004). "Contexto historico e reflexoes sobre hipertextos, hipermidia e sua influencia na cultura e no ensino do Seculo XXI." Revista Renote Novas Tecnologias na Educacao. ISSN 1679-1916. V.2 N.1:1-16. [Consult. 2017-1227]. Disponivel em URL: http://seer.ufrgs. br/index.php/renote/issue/view/930/ showToc

Zamboni, Silvio (2012). A Pesquisa em Arte: um paralelo entre arte e ciencia. 4a edicao. Campinas: Autores Associados. ISBN 978-85-85701-64-2.

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

HUGO DANIEL RIZOLLI MOREIRA, Brasil, artista visual.

AFILIACAO: Secretaria da Educacao do Estado de Sao Paulo (SEE).Prefeitura Municipal de Sumare; Centro de Formacao de Educadores Municipais de Sumare (CEFEMS); Endereco postal: Rua Ipiranga 316-- Centro Sumare--SP. CEP 13170-026 Brasil. E-mail: rizollihugo@gmail.com

Caption: Figura 1. Imagem do video-poema digital Labios, Wilton Azevedo, 1998. Fonte: https://www.youtube. com/watch?v=l-ymC1qwykw&t=347s

Caption: Figura 2. Imagem do video Volta ao fim, Wilton Azevedo, 2013. Fonte: https://www.youtube.com/ watch?v=gUHLuxDukqA&t=2679s

Caption: Figura 3. Imagem do video Palimpgesto, Wilton Azevedo, 2013. Fonte: https://www.youtube.com/ watch?v=tz1rSzaP3Go

Caption: Figura 4. Imagem do video Encefalo, Wilton Azevedo, 2013, Fonte: https://www.youtube.com/ watch?v=84ZS3t1pDSw
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Moreira, Hugo Daniel Rizolli
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:2278
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