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When the "objects" become "holy": devotion and heritage in a church in downtown Rio de Janeiro/Quando os "objetos" se tornam "Santos": devocao e patrimonio em uma igreja no Centro do Rio de Janeiro.

O objetivo deste trabalho e a descricao e analise das nocoes de santidade e devocao presentes nas relacoes de trocas entre devotos e seus objetos de culto. O local dessa observacao e a Igreja de Nossa Senhora do Rosario e Sao Benedito dos Homens Pretos, localizada na Rua Uruguaiana, Centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Expostos nos espacos da igreja, em um museu, em missas e festividades, esses objetos ressignificam a relacao entre os devotos e suas crencas, o que nos coloca diante das trocas simbolicas, uma das questoes centrais da antropologia e que podem ser observadas na relacao dos homens com seus santos de devocao; no tema dos rituais; nas interpretacoes antropologicas sobre cura e milagre; nas questoes relativas a "santos" e "nao santos", "ceu" e "terra", "mortos" e "vivos", "objetos" e "pessoa". E na devocao a Nossa Senhora do Rosario e Sao Benedito, santos padroeiros, que podemos observar e descrever o conjunto de rituais da vida cotidiana de um grupo social.

A partir dessas trocas podemos perceber o emprego da categoria nativa do "trancado", que percorre a discussao religiosa do grupo e que se torna ponto importante para o debate sobre a "pluralidade religiosa" na contemporaneidade ao nos permitir analisar de que forma grupos e individuos sao capazes de classificar suas memorias, praticas e narrativas em suas relacoes com o outro e com suas divindades "sagradas" e "profanas" (PAIVA, 2009).

E o trancado que descreve um conjunto expresso dessas relacoes entre os devotos e sua crenca cujos "fios", uma especie de rede de concepcoes expressas simbolicamente nas acoes dos individuos, se entreligam para compor um todo. Alguns fieis assim explicam a religiosidade presente no espaco:
   Nao existe nesse mundo uma fe so, existe o que se vive. Imagine os
   cabelos trancados de uma moca: e uma parte que e parte, mas que faz
   parte de um todo, e e um todo que esta nas partes, mas tudo vai
   junto, entendeu? E como a nossa fe (...) (fiel durante a missa de
   Cura e Libertacao em 05/10/2006).

   E trancado, sabe. Aqui tem uma energia muito grande (fiel durante a
   festa de 13 de maio de 2006).


Nessa logica do trancado e possivel enquadrar diversas redes de relacoes que compoem a estrutura religiosa e simbolica do local, a partir dos "personagens", "santa" e "objetos". Nesse sentido, constata-se uma forte ressonancia nessas relacoes entre devotos e objetos a partir das categorias "patrimonio", "museu" e "santidade". Trata-se de perceber os "objetos" como dotados de "forcas", "poderes". E nesse sentido que o Museu do Negro, localizado na igreja, aparece como um locus dessa mediacao.

A pesquisa de campo permitiu desnaturalizar o uso de determinadas categorias, incluido o de "patrimonio", categoria classificada como "devocao", ou seja, como mecanismo integrativo da relacao social entre o devoto e suas divindades na igreja. A eficacia dos sistemas de classificacao presentes nessa relacao conduz a reflexoes sobre os devotos: o que pensam, por que fazem o que dizem fazer e o que, de fato, fazem.

A ETNOGRAFIA DE UM ESPACO

Sob os cuidados da Irmandade de Nossa Senhora do Rosario e Sao Benedito dos Homens Pretos, fundada em 1640, a igreja esta localizada em um ponto de convergencia de redes de transportes coletivos, camelos e alguns integrantes da Guarda Municipal (em grande parte evangelicos) que utilizam o espaco da igreja para beber agua, ir ao banheiro e almocar na garagem. Bicheiros, pedintes, criancas, moradores de rua, engraxates e cachorros misturam-se aos passantes na calcada. E notavel a presenca dos comercios anexados a estrutura da igreja: dois bares, dois saloes de cabeleireiros, uma loja de artesanato e uma floricultura.

No interior da igreja pessoas rezam pedindo "gracas" ou agradecendo as que foram alcancadas. Senhoras de nivel social mais elevado circulam ao lado de homens de terno e gravata, trabalhadores uniformizados, estudantes e demais fieis, moradores de diversas regioes da cidade do Rio de Janeiro. Alguns desses fieis se dirigem as laterais externas da igreja, onde se encontram mulheres negras que, vestidas de branco, ora se apresentam ou sao classificadas como "cartomantes", ora como "baianas". Elas "atendem" a populacao jogando cartas, buzios e lendo a mao dos fieis, que delas recebem algumas instrucoes para fazer suas tarefas, por exemplo, entrar na igreja para "pedir" ou "agradecer".

O devoto percorre alguns espacos do interior da igreja seja por tradicao familiar e religiosa ou por recomendacoes das "cartomantes". Um desses locais e o Museu do Negro, localizado no segundo andar e fundado em 1969 (dois anos apos incendio que destruiu o interior da igreja e varios documentos sob sua guarda). Os fieis para la se dirigem a fim de "conversar" e "tocar" determinados "objetos", entre eles, o Escravo Desconhecido. Trata-se de uma cabeca de negro esculpida no decorrer da decada de 1970 pelo argentino Humberto Cozzo, contratado pelo Iphan. Junto dele os fieis depositam oferendas, com expressao de devocao. O "objeto" retrata uma visao "magica ao ser significado como" preto velho ou babalao, o pai do segredo, nos cultos "afro-brasileiros". Cabe ao fiel dirigir-se a ele para pedir gracas, para contar e exigir segredo acerca de seus pedidos ao "pe do ouvido"--toques das maos no "rosto", balas e guimbas revelam um "trancado religioso" entre a diversidade de cultos e as crencas dos fieis.

Sobre o "mausoleu da Princesa Isabel", tambem confeccionado pelo artista argentino, alguns devotos rezam e depositam flores e ex-votos. E tambem nesse museu que muitos fieis se dirigem para oferecer flores, escritas e dinheiros a escrava Anastacia, uma princesa negra banto de olhos azuis, representada com mascara de ferro sobre a boca. Para muitos fieis, a escrava Anastacia, em conjunto com outras imagens de escravos e objetos com que eram torturados, parece compor uma "memoria do sofrimento", o que faz com que o escravo, sobretudo o culto a sua alma, seja tido como "santo" ou "entidade" capaz de proteger os individuos contra o mal e o infortunio, assumindo, assim, uma dimensao magicoreligiosa.

A NOCAO DE SANTIDADE

No Brasil, certos personagens que caem no "gosto devocional" dos fieis, como Sao Jorge e Padre Cicero, trazem a concepcao do milagre, da resposta aos pedidos, a questao do sacrificio e da vida de luta que constituem aspectos fundamentais no processo de sua atribuicao ao estatuto de "santos" (VAUCHEZ, 1987). Parece haver um esforco consciente dos agentes milagrosos para "purificar" o significado dos ideais da tradicao cultural do povo (TURNER, 1978).

Essas devocoes sao manifestacoes tradicionais da cultura e da religiosidade no pais: a intermediacao dos santos para a obtencao de uma "graca" pelo fiel, para conseguir emprego, curar doencas, pagar dividas, curar vicios, entre outras. Segundo uma devota, nao importa qual motivo nem o tamanho do desafio, ha "'santos' para todos os milagres, e gente para pedir de tudo". O "pedir com fe" indica que a condicao maior (e, para alguns, a unica) para receber uma graca do santo e acreditar nele (MENEZES, 2004, p. 242). (1)

A devocao a "personagens" nao oficialmente considerados santos, ao revelar certas praticas sociais, se assemelha as "condicoes de clandestinidade", descrita por Gruzinski (2004, p. 87):
   crencas e costumes antigos facilitaram esse recuo para a
   clandestinidade, ou melhor, tornam-na mais suportavel (...). As
   precaucoes e proibicoes que cercam as efigies clandestinas
   favorecem o segredo e as protegem dos curiosos, que se arriscam a
   morrer caso resolvam indevidamente levantar o veu que as cobre. Sao
   'exibidas' apenas em casos excepcionais.


Freitas (2000, p. 201), ao analisar os discursos acerca do processo de conversao de dois criminosos (Jararaca e Joao Baracho) em "santos populares" no Rio Grande do Norte, apos sua morte violenta pela policia, descreve a forma como o sofrimento fisico e moral pode tornar-se uma "chave simbolica" de mudanca identitaria. A autora se refere tambem a uma importante categoria no estudo da devocao e da santidade: os "santos incompletos" ou os "indefinidos" processos de fabricacao, que concorrem, em algum grau, "para a liberdade com que se discute sobre sua santidade" (p. 195).

A atribuicao da condicao de "santa" a Anastacia pode significar uma "categoria marginal", "incompleta", "indefinida" para a Igreja catolica, para alguns "irmaos" e para o "povo", (2) que nao mantem relacoes de trocas divinas com a escrava. Quando se fala em crenca e preciso introduzir a possibilidade de o "nativo" duvidar, visto que ele tambem necessita de "provas". A santidade tambem e uma categoria em disputa: nem todos concordam com a existencia da santidade associada a determinados personagens. A dicotomia entre "catolicismo popular e oficial" nao deve ser vista como uma oposicao rigida, mas como complementar (FERNANDES, 1988). No entanto, as nocoes de "oficial" e "nao oficial" estao associadas as ideias de "falso" e de "verdadeiro"; e possivel, nesse sentido, elaborar a perguntar: para quem? Para aqueles que creem e demonstram devocao aquele santo e "eficaz" e, portanto, "real". A nocao de oficialidade tambem esta vinculada ao discurso de poder: o que e legitimo ou nao, quem define ou nao a legitimidade. (3)

Burdick (1998), em seu um estudo sobre o racismo e sua expressao pela "religiao popular", destaca a escrava Anastacia como "santa" pelos devotos do cristianismo, "tracando" um elemento inalienavel dessa cultura em nosso pais enquanto forca social e politica. Como lembra o autor, a maioria das pessoas que se identificam como "negras" ou "pretas" e praticante de alguma forma do cristianismo.

Fernandes (1988, p. 91), ao descrever a "politica" em torno da implantacao nacional do feriado de Nossa Senhora Aparecida, uma santa negra, apontava a existencia de uma "falha escondida" em todo o raciocinio elaborado, "porque o povo e o clero, no Brasil, nunca rezarao exatamente para a mesma imagem". Para ele, a santidade percorre tres caminhos: o catolicismo oficial, o popular e o afro-brasileiro:

Se o culto oficial catolico lida sobretudo com o problema da culpa e da purificacao e o catolicismo popular se ocupa principalmente com os infortunios da sorte e a protecao advinda das promessas de lealdade, o afro-brasileiro poe em destaque e se dedica a controlar os efeitos maleficos da competicao e das acusacoes (FERNANDES, 1988, p. 107).

Para muitos fieis, a escrava Anastacia, negra de olhos azuis com uma mascara de ferro sobre a boca, teria sido uma princesa africana do povo banto, que veio escravizada para uma fazenda em Abaete, na Bahia, no inicio do seculo XIX. O povo via com orgulho sua posicao de princesa, pois ela se recusava a obedecer a ordens e incentivava outros negros a lutar contra a escravidao:

Por este motivo, ou porque se negou ser amante do seu dono, segundo outra versao, foi amordacada com uma folha-de-flandres e ganhou uma gargantilha de ferro que a impedia de deitar. Com a lenda de que, purificada pela tortura, a escrava se tornou telepata e passou a se comunicar com os outros negros atraves dos olhos. Apos anos de martirio, Anastacia teria morrido de gangrena na garganta (Revista Veja, 30 mar. 1988).

Em outras descricoes, Anastacia teria recebido o instrumento de tortura quando trabalhava em um engenho de cana ate resolver tomar a bebida, que era negada aos escravos. O feitor a acusou de ladra e mandou colocar a mordaca. Outra versao se refere ao ciume e medo da aristocracia branca de perder seu esposo para uma "negra", "linda", "pura", "inocente" e "casta" A sinha teria dado a ordem de colocar a gargantilha de ferro no pescoco da escrava. Burdick (1998) descreve que Anastacia teria recebido a mordaca sobre o rosto porque suas palavras tinham o poder de influenciar os demais escravos e incentiva-los a rebeliao.

Quanto a devocao de Anastacia, segundo narrativa de alguns fieis, a igreja teria sido fechada pela Curia Metropolitana do Rio de Janeiro, na decada de 1980, devido a esse culto. Alguns devotos se referiram a missa celebrada por um representante eclesiastico na Igreja do Rosario, com o objetivo de revelar aos fieis a nao existencia de Anastacia. O motivo da proibicao ao culto seria a ausencia de documentos sobre a escrava. Para a Igreja catolica e necessaria a existencia de registros que datem a vida do santo, bem como de relatos de seus "milagres".

Segundo reportagem da revista Veja (1988), o monsenhor Guilherme Schubert, pesquisador do Instituto Historico e Geografico Brasileiro, teria comprovado que a escrava venerada nunca teria existido. Para ele, a devocao se originou em um desenho do ilustrador frances Jacques Etienne Victor Arago, que visitou o Brasil em 1817. Ele teria desenhado as duas formas mais comuns de castigo, em uma so figura: o grilhao e a mascara, observados em dois negros. Segundo Schubert, em 1971, uma ampliacao dessa gravura intitulada Castigo de escravos no Brasil, foi doada para o Museu do Negro, no Rio de Janeiro, com carta de um burocrata que explicava a identidade da pessoa retratada como "desconhecida". Ao constatar que o quadro impressionava os visitantes, Yolando Guerra, membro da irmandade e um dos responsaveis pela reabertura do Museu do Negro apos o incendio, teria criado "asas a lenda", como explica Schubert:

O resto e totalmente invencao do Senhor Guerra. Comovido pela apresentacao dos castigos e influenciado pelo interesse despertado entre os visitantes, comecou a escrever sobre o assunto e avancou pouco a pouco ate fazer uma biografia completa da escrava, que chamou Anastacia (Revista Veja, 30 mar. 1988).

Segundo alguns irmaos, Guerra conduzia o quadro para o altar e depois o levava para o museu seguido por uma multidao de fieis. Essa acao se assemelhava ao ritual de uma "digna e verdadeira procissao de fe", como descrito por uma fiel durante os trabalhos de campo. Ao pesquisar dados sobre o mito de origem do culto a Anastacia no Museu do Negro, no jornal A noticia, de 17 de abril de 1971, encontrei a informacao de que a obra seria do pintor holandes Rugendas, cuja gravura intitulada O castigo dos escravos, estava exposta no museu, integrando a mostra "Escravatura e Abolicao" organizada pelo Patrimonio Historico e Artistico da Guanabara. Tal exposicao integrava o conjunto de comemoracoes da transladacao dos restos mortais da Princesa Isabel e de seu marido, o Conde D'Eu, do Rio de Janeiro para Petropolis, a realizar-se em 12 de maio:
   Uma gravura de Rugendas, celebre pintor holandes que retratou
   o Brasil colonia, atualmente, em exposicao no Museu da Igreja
   de Nossa Senhora do Rosario e Sao Benedito, na Rua Uruguaiana,
   transformou-se da noite para o dia, sem nenhum motivo pelo menos
   aparente, em alvo de adoracao de fieis que frequentam aquele
   templo, os quais depositam flores num pedestal que se encontra
   ao lado do quadro e fazem pedidos para alcancar gracas. (...) Desde
   que a exposicao foi inaugurada, dias atras pelo Professor Trajano
   Quinhoes, diretor do Patrimonio, desenvolveu-se intenso movimento
   de fieis contemplando a gravura de Rugendas. Dia a dia o
   movimento de pessoas foi aumentando, e hoje muitos depositam
   flores num pedestal encimado por uma cruz, que se encontra ao
   lado da gravura.


A Igreja do Rosario e Sao Benedito dos Homens Pretos e apontada como local precursor da "religiosidade anastaciana" e dos nexos entre Anastacia e a religiosidade afro-brasileira: "acumulam-se historias sobre milagres e gracas alcancadas pelo intermedio da guerreira negra, da santa de ebano, da rainha negra, da filha de Oxum, Escrava Anastacia" (SOUZA, 2001, p. 141).

Em pesquisa de campo durante uma das festividades, 13 de maio de 2006, uma "irma", branca, de 67 anos, moradora de Copacabana, afirmou que Anastacia teria tirado seu filho do alcool. Desse modo, tanto fazia para ela que a igreja dissesse que era "santa" ou nao, pois o poder do milagre e um processo de legitimacao do fiel ao santo. Cercados de representacoes da escrava Anastacia, os fieis passaram a acreditar em um poder magico e divino de Anastacia, tornando-se o museu um espaco permitido para suas "trocas" com a divindade.

O documento escrito por D. Maria Salome, membro da irmandade, intitulado Templos historicos: escrava Anastacia (s.d.) e significativa fonte primaria, uma vez que contem relatos de devocoes de uma "irma". Nele ha referencias sobre a importancia do Museu do Negro como espaco de culto e de pesquisa, alem de dados acerca da historia da igreja. A autora se afirma "branca" e declara possuir duas maes: uma branca e outra negra, que teria transmitido suas crencas. (4) Salome considera Anastacia "simbolo de martirio da escravidao":

Atestam os devotos que ela e santa e escrava torturada. Ela esta ao lado dos modelos das estatuas da Princesa Isabel seu augusto esposo o Marechal Conde D' Eu, ambos venerados no museu do Negro, onde a escrava faz vigilia esperando a fe, na certeza que ela morreu em odor de santidade, e deve estar no Ceu, rodeada de anjos, intercedendo pelos homens que se afastaram de Deus. E os milagres se sucedem, como nova Esperanca dando-nos a consoladora certeza que nem tudo esta perdido. A conviccao religiosa e algo que transcende. E um escudo na luta contra a diversidade, contra o genio do mal que tenta destruir tudo que e bom e belo na terra, divorciando o homem da Sabedoria de Deus, que se deixa arrastar pela vereda sombria do vicio da cobica e de tudo o que e falso e transitorio como a propria vida (SALOME, s.d, p. 20).

A "irma" faz convite para conhecer o museu. Suas narrativas contribuem para pensarmos o Museu do Negro a partir da categoria analitica de "museu-devocao" (PAIVA, 2009):

Se voce nao visitou o Museu do Negro, patrimonio Nacional, vai la verificar a realidade dos fatos aqui descritos. Va conhecer Anastacia... Contemple a suavidade de seu olhar. Peca a ela e volte mais tarde para agradecer o milagre (SALOME, s.d. p. 20).

A identificacao do santo com seus fieis por meio da cor e o contexto historico da escravidao justificam sua devocao a escrava Anastacia. De acordo com uma irma negra: "Eu sou devota da escrava porque ela era uma escrava, ne?"

A mordaca no rosto, o grilhao de ferro no pescoco e o sofrimento tornam Anastacia um personagem que constitui um exemplo de vida, enquanto "princesa", "mulher" e "escrava". Conforme consta na oracao em um quadro no museu:
   Princesa Anastacia, escrava Anastacia. Princesa que se fez deusa
   que fizeram escrava, escrava que era princesa, dai-nos a beleza do
   teu corpo e a serenidade de tua alma. Amem. Deusa-escrava,
   escrava-princesa. Princesa-Deusa, que taparam na boca, mas nao
   suprimiu o grito rebelde, dai-nos tua rebeldia. Amem--Escrava que
   fizeram deusa, deusa que nasceu princesa, princesa que nasceu
   livre. Dai-nos a melancolia do teu olhar e a altivez do teu porte e
   livrai-nos da mordaca. Amem--Deusa-martir, escrava-deusa,
   princesa-lenda. Dai-nos teu amor e tua coragem. Amem. Deusa do
   povo, escrava de um povo. Princesa do teu povo. Dai-nos a fe do
   povo. A forca do povo, o amor do povo para que possamos ser
   mulheres e homens dignos do povo. Amem. Mulher-Escrava,
   deusa-mulher, mulher-princesa, dai-nos tua forca para lutarmos e
   nunca sermos escravos, porque nao somos tao rebeldes como tu. Assim
   seja. Amem.


No entanto, o culto a Anastacia nao indica que essa questao nao provoque conflitos entre os "irmaos" em relacao a esse culto, havendo, alias, aqueles que buscam "limpar" o culto na igreja:
   Eu, particularmente, sou efetivamente contra e passei bons bocados
   por isso. Eu sou um homem de luta, de brigas, sou leonino. E
   assim que eu cheguei la eu encontrei muitas ofertas ao longo de
   toda a igreja, a Anastacia, muitos santinhos para Anastacia, muita
   gente vinha me pergutar sobre Anastacia. (...) Entao eu repugnava
   essas pessoas eu dizia que essa historia nao existia, eu era
   ate agressivo e ainda sou, nao me arrependo. E ai eu dizia, isso nao
   existe, e uma invencao. Entao, eu ia tirando tudo, ia jogando fora. E
   de alguma forma eu ia comentendo alguns crimes para alguns tecnicos.
   Um crime aos historiadores, mas eu nao me preocupava. Eu
   tinha uma preocupacao com a fe. A minha preocupacao era com a
   fe. Era com a pureza da fe (membro da irmandade em entrevista,
   17/05/2007).


De maneira analoga ao que se passa com Anastacia, que nao e considerada "santa" pela Igreja catolica, ha praticas de devocao a Princesa Isabel no Museu do Negro. Nele, entretanto, nao ha tantos santinhos e pedidos de preces impressos ou escritos a mao para Isabel quantos sao depositados para a escrava.

Observa-se outro tipo de acao dos fieis quando o objeto de culto e o mausoleu da Princesa Isabel, no qual sao colocadas rosas e, as vezes, fltinhas coloridas de Sao Jorge e de Anastacia. Alguns fieis rezam diante da escultura, e muitos chegam a acreditar que os corpos de Isabel e de seu marido estao ali. Outros devotos rezam com admiracao a princesa, como "santa" devido a libertacao dos escravos.

Ha muitos ex-votos no mausoleu, como forma de presentear e de marcar presenca. Trata-se de um "rito de substituicao", nos termos de Charuty (1992), visto que esses objetos substituem a pessoa que fez a promessa, seja sob a forma de pernas, bracos, maos ou qualquer outra representacao corporal. Cabe compreender o sentido dessa representacao e das formas de culto a "Princesa" Um caso relatado pela organizadora do museu ilustra a questao: um pequeno buraco no mausoleu, em decorrencia de uma infiltracao, foi considerado por alguns fieis local para acender velas para Isabel e pelas almas de escravos.

A historia de vida serve para avaliar a atribuicao das categorias "heroi", "martir", "beato", "santo", por um individuo ou grupo. Na Igreja do Rosario, a vida da Princesa Isabel e cultuada como o "caminho a ser seguido a santidade"; "boa filha", "boa mulher", "boa mae", "Redentora" e "boa representante da nacao".

Isabel nasceu em 29 de julho de 1846, e todos os anos, nesse dia, a irmandade celebra missa em acao de graca por sua alma. Aos quatro anos, devido a morte de seus dois irmaos, unicos filhos e herdeiros do imperador D. Pedro II, foi aclamada Princesa Imperial, tornando-se a herdeira do trono brasileiro. Casou-se com Louis-Philippe-Marie-Ferdinard-Gaston d'Orleans, o Conde D'Eu, e demorou 10 anos para engravidar de uma menina que nao sobreviveu ao parto. A partir de entao, passou a manter vida religiosa e de promessas. Mais adiante engravidou e nasceu D. Pedro de Alcantara que, quando adulto, veio a renunciar ao trono, ao se casar com uma condessa tcheca. Ela teve mais dois filhos, D. Luiz e D. Antonio, que vieram a falecer enquanto prestavam servico militar. A morte dos filhos fez com que decidisse integrar as caridades organizadas pela Igreja catolica (BARMAN, 2005).

A relacao da irmandade com a monarquia foi legitimada pela Carta de Merce. Esse documento foi entregue por D. Luiz, chefe da Casa Imperial, na festividade comemorativa do sesquicentenario natalicio da Princesa Isabel. A irmandade recebera a carta que oficializa sua condicao de instituicao imperial em 06 de junho de 1996.

A revelacao de Isabel como santa se da de diversas formas: seja nas missas festivas do 13 de maio; na missa solene de comemoracao de seu aniversario, em 29 de julho, ou de abolicionistas como Jose do Patrocinio, em 30 de janeiro. Textos de autoria de "irmaos" demonstram a simbologia associada a Isabel como A Redentora, por ter libertado os escravos, o que a torna "santa" para esses devotos:

Se fechar os olhos para o mundo, imortalizada ja estava em vida, com a Lei Aurea, que a tornara Redentora e consagrada com a 'Rosa de Ouro'. Mais do que Princesa foi mulher. Se cingiu a coroa de Rainha, cinge agora o diadema de Santa, no resplendor da Gloria de ter libertado o Brasil do odioso preconceito, do racismo da cor preta. (Arquivo Central--IPHAN/RJ, 2007)

Em momentos de desespero, alguns membros da irmandade pronunciam seu nome, pedindo protecao: "santa Isabel, me proteja!", "o Isabel, olhe por mim, seu negro escravo liberto", "Isabel, reze por nossas almas". Uma "irma", negra, viuva, moradora da Zona Sul do Rio de Janeiro, declarou ser devota da Princesa Isabel ha 17 anos. Com dificuldades em engravidar teria rezado para Isabel. Ao ter seu pedido atendido, como pagamento de promessa, batizou sua filha com o mesmo nome da "santa". A imagem de Isabel como "Redentora" tambem se faz presente no discurso oficial eclesiastico. Sua vida "repleta de fe e de atitude crista" faz com que ela seja interpretada como "santa".

Nas festividades do 13 de maio nao ha um discurso oficial sobre a escrava Anastacia, pronunciado pelo padre ou pelos "irmaos" na missa. Entretanto, a vida da Princesa Isabel e narrada como exemplo de fe crista a ser "espelhado" pelos fieis. Anastacia, a "santa negra", assume a condicao de "santa clandestina", que integra as narrativas e praticas populares. Seu nome nao e pronunciado como "santa" pelo "catolicismo oficial". Assim, seu lugar de culto e reservado ao museu. Por outro lado, Isabel, a "santa branca", e admirada por um discurso oficial, em celebracoes e festividades na igreja, como aquela que muito contribui para a Igreja catolica e para os escravos. Ela revela uma vida contemplada pela religiosidade, um exemplo de "bondade", "humanidade" e "fe", a ser seguido pelos fieis.

A ideia de que homens religiosos possam participar, ao menos em certa medida, da propria santidade, da divindade e se beneficiar de seus atributos no cristianismo ocorre quando a Igreja, a virgem, os apostolos e os martires passam a ser considerados "santos" e "venerados" pela comunidade de fieis na Idade Media (VAUCHEZ, 1987). "Ser bom", "religioso" e "milagroso" passou a ser um caminho para a santidade. A partir dessas consideracoes, e possivel indagar: de que forma um povo atribui, manifesta e narra esse caso? Qual simbolismo esta em jogo?

Ao longo da historia observa-se a necessidade de "santificacao" de personagens ligados a monarquia, posicionados entre o "santo oficial" e o "nao oficial", entre o "heroi" e o "santo". Entre esses casos, pode ser citado o de Sao Luis, frances que, como Luis IX, reinou na Franca durante 44 anos, no seculo XIII (LE GOFF, 2002); a princesa Margareth (1242-1270) da Hungria, que teria ingressado em um convento e, mais adiante, consagrada como Virgem e depois como "santa" (KLANICZAY, 1990); a princesa Diana, da Inglaterra, que morreu na decada de 1990. Neste ultimo caso, o estatuto de santidade foi atribuido por meio da morte (WATSON, 1997). Esses casos possuem pontos comuns: a questao da comprovacao historica (no sentido de comprovacao de sua existencia) e a necessidade de atribuicao do termo santidade a alguem que seja "bom" para o povo e para uma nacao.

A Princesa Isabel, ao sancionar as leis do Ventre Livre e Aurea,5 assegurou seu poder taumaturgico, o que permite manifestar sua superioridade sobre seus adversarios (republicanos).

Enquanto "santa" e "Redentora", adquire autoridade e prestigio capazes de suscitar uma reacao de fe nos interessados. Se os integrantes do Instituto D. Isabel I (IDII) e os membros da Direcao Executiva (DE) visam expor esse discurso, o "povo" e demais "irmaos" nao esperam de sua relacao com o sagrado necessariamente um discurso sobre o processo de passagem de um individuo a condicao de santo. Eles querem experimentar a eficacia dessa atribuicao: a confianca no santo e seu poder de fazer milagres. Como aponta Vauchez (1987, p. 290), "Os fieis, e em breve os devotos do santo, nao se enganam: todos eles sabem que o homem de Deus e capaz de operar milagres e que praticamente nao pode recusar-se a realiza-los".

Os termos "santo" e "santidade" revelam "uma forca de integracao" que visa eliminar conflitos, atribuir significados a "marginalidade" de determinados grupos, tornar toleravel a "pobreza" ou as diferencas entre as "classes" para buscar consenso nas instituicoes e resolver, em parte, a dicotomia ordem/desordem capaz de "representar formas de comportamento e condicionamento visando a um controle social" (VAUCHEZ, 1987, p. 290).

Para alguns integrantes do IDII, para jovens do Circulo Monarquico que frequentavam a Igreja do Rosario em ocasioes festivas e para muitos "irmaos", Isabel e "santa" seja por seu papel "integrador" e "redentor", vivenciado em funcao do outro, principalmente, dos escravos negros. Segundo Bruno Cerqueira, membro do IDII: "Fidelissima aos mais altos ensinamentos cristaos da Igreja ela nao conseguia admitir a hipotese de vir a reinar numa nacao sob a qual pesasse o martirio da raca negra." (6) Assim, a vida da Princesa Isabel se aproxima de uma leitura biblica na qual o termo "santo" e utilizado para designar tudo o que esta proximo de Deus ou que lhe e consagrado.

A imagem de "mulher religiosa" aproxima-se da nocao de pessoa implicada na ideia de "santa", para fieis e "irmaos", bem como segundo o discurso do padre em missas e festividades. A narrativa sobre a vida religiosa de Isabel, nas missas, favorece o "trancado" de devocao, de um catolicismo popular aos personagens monarquicos. (7) A igreja contribui com as afirmativas e festividades realizadas pelos "irmaos" e, assim, afirma a existencia do "trancado", ou seja, a diversidade de relacoes de crencas e de praticas que o fiel "desperta", ao estabelecer relacoes com o que identifica como "sagrado". Como aponta Bastide (2006, p. 94), "E admiravel a forca da Igreja que canaliza todas essas forcas ocultas, serve-se de todas essas maquinas de criar mitos, mas para dirigir suas engrenagens, fazer convergir seus rendimentos e forcar-nos a ir desses deuses todos para Deus" (BASTIDE, 2006, p. 94).

No entanto, tais demonstracoes nao significam ausencia de conflitos entre os devotos, como descreve um "irmao": (8)
   Sabendo a historia desses caras, voce nao tera duvidas da
   importancia dessa mulher. Reboucas exilou-se com a familia real.
   Engenheiro, rico, negro, ele largou tudo para ir juntar-se com a
   familia imperial, com D. Isabel no exilio. Patrocinio morreu
   apaixonado; doente, mas apaixonado pelo exilio; e Nabuco, nem se
   fala. Com todos os seus textos, para minha informacao, tem, entre
   tantos textos, tem um que diz assim: "nao existe uma raca ingrata".
   E que os pretos nao seria ingrato em relacao a Princesa Isabel.
   Patrocinio nem se fala. Ele se ajoelhou nos pes de D. Isabel e a
   chamou de santa, 'santa Isabel'. Entao se voce quiser ser justo,
   fique do lado dessas pessoas e pague para ver. Agora, se voce
   quiser ficar ai com categorias nao praticas, um monte de teorias
   nao uteis, ai voce tire a conclusao que quiser e nao ame D. Isabel
   e tenha uma relacao hostil com a familia real, como muitos tem na
   irmandade. Mas ate pela historia, vai ser muito dificil apagarem
   essa relacao. Eu diria ate impossivel, porque, [por] mais que nao
   queira respeitalos, que nao queriam reservar-lhes um lugar de
   destaque na missa, por mais que se queira acabar com isso, isso ja
   esta entranhado na historia, na vida do povo (entrevista,
   17/05/2007).


CONSIDERACOES FINAIS

O Museu do Negro e um espaco de evidencia das "devocoes trancadas" estendendo, assim, a logica do espaco "museologico" ao se firmar enquanto um "museu-devocao" em que sao "depositados" "objetos" e "cultos" que nao encontram espaco no catolicismo oficial. E nesse espaco que a "colecao" propicia um entendimento dos sistemas classificatorios: o que e interpretado como "ordem" e "desordem" para determinado individuo e grupo em dado contexto? O que e "sagrado" e "profano"? No entanto, ele nao seria o unico espaco para a observacao das praticas do trancado, uma vez que pode ocorrer, durante festividades como o 13 de maio, o deslocamento de alguns objetos por diversos espacos da igreja.

As praticas de devocoes aos "objetos" contribuem para a classificacao do espaco como "museu-devocao". Seja atraves da repeticao ou pelo acesso a tradicao, os fieis diante das colecoes na igreja, sobretudo no museu, permitem a descricao do trancado enquanto um sistema de concepcoes culturais que sao herdadas, expressas em formas simbolicas por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e demonstram seu conhecimento e suas acoes em relacao a vida. Ao cochichar ao pe do ouvido de uma "escultura", levar oferendas, acender velas, fazer pedidos, levar ex-votos a Anastacia e Isabel, ao estender a mao em direcao aos "objetos", rezar diante de imagens consideradas "milagrosas", "oficiais" ou nao, os fieis parecem realizar o que Mauss (2003, p. 60) conceituou como "atitude de reserva": "O isolamento, como segredo, e um sinal quase perfeito da natureza ultima do rito magico. Este e sempre obra de um individuo ou de individuos que agem de modo privado; o ato e o ator sao cercados de misterios."

Fato e que os devotos materializam sua devocao de acordo com seus propositos (SLATER, 1984). Cada um, em seu ato, e tambem criador de sua fe (MAUSS, 1968). Ao acreditar no poder de Anastacia ou da Princesa Isabel, sejam elas consideradas "santas" por um grupo e "nao santas" por outro, o fiel, na duvida entre crer e nao crer, tende a ressignificar sua crenca em relacao a "santa". O que esta em jogo para o devoto e o resultado final: ele "aposta", para "ganhar" o milagre de ter seus pedidos concretizados.

Todo e qualquer objeto tende a tornar-se "sagrado" para aquele que cre em algo. Cabe ao pesquisador observar tais mediacoes. No caso descrito, os objetos representam santidades e impoem singularidade que deve ser compreendida a partir da nocao de devocao. "Santa", "mulher" sao representacoes simbolicas que circulam nas dadivas e estao fortemente ligadas a pessoa, carregando uma especie de "mana pessoal". Assim, os objetos deixados pelos fieis diante dessas imagens nao morrem. Eles passam a atuar como uma especie de "veiculos de seu "mana", de sua forca magica, religiosa e espiritual" (MAUSS, 2003, p. 197). Nao se desprendem de seu ritual. Ao receber a graca, o individuo deposita no local a "imagem" ou qualquer outra demonstracao de alcance de graca e atendimento de pedidos. O devoto, ao pedir ou tomar, atribui um novo significado ao objeto ou acredita que ele detem poder milagroso. Esses "objetos" assumem os diversos significados que os objetos materiais da vida social e cultural podem assumir mediante os processos de transformacao social e simbolica pela qual passam, ao ser deslocados do contexto de seus usos cotidianos para o contexto institucional (GONCALVES, 2007).

Esses objetos, ao ser identificados como "religiosos"--em decorrencia de sua historia de vida crista--ou como "magicos"--pelo posicionamento como "secretos" e "isolados" (mauss, 2003)--transformam a rede de relacao entre "colecoes", "museus" e "patrimonios" em "campos de batalha", nos quais se percebem a contestacao de identidades e de memorias coletivas. Essas categorias nao possuem fronteiras estaveis quando observadas as praticas de seus agentes. Nesse sentido, um museu pode tornar-se um espaco de observacao e um espaco de reza, da mesma maneira como "patrimonio" e "colecao" podem assumir distintas formas de interpretacao para um grupo. Desse modo, constata-se um excesso de ressonancia nessas relacoes entre espacos, devotos e objetos, que desnaturalizam as categorias "patrimonio", "museu", "objetos" e "santidade".

DOI: 10.12957/tecap.2014.16235

Andrea Lucia da Silva de Paiva (UFF)

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NOTAS

(1) Segundo Menezes (2004) a devocao e uma relacao de maior profundidade com um santo, na qual os pedidos (ocorrendo ou nao) representam apenas uma dimensao mais aparente. Segundo a autora o devoto pode pedir a um santo e lhe pagar uma promessa sem se tornar seu devoto--o que ocorre se ligarmos ao santo a sua cura (ou necessidade), por exemplo: pedir a Sao Benedito para nao deixar faltar alimentos uma vez que este e conhecido como o "santo padroeiro". Mas, a partir do momento em que alguem se denomina "devoto de um santo" compreende-se que estabeleceu com o santo um vinculo de amizade, fidelidade e gratidao. A autora analisa tambem a imagem do "devoto fervoroso" como aquele que nem chega a pedir ao santo uma vez que este ja reconhece suas necessidades a ponto de conceder ao devoto a graca antes que ela seja pedida. Nesse sentido, o devoto demonstra sentimentos de resignacao e de conformacao em relacao aos pedidos nao atendidos, uma vez que se ate o momento o santo nao concedeu a graca e porque ainda nao era o momento. Com base na analise da autora podemos problematizar a nocao de devoto, que percorre papeis sociais e acoes dotadas de simbolismo; "ser" e "estar" devoto sao condicoes estreitamente direcionadas com sua forma de interpretar a nocao de santidade, determinando, assim, as diversas modalidades do "pedir".

(2) A palavra "irmao" e termo generico que abrange homens e mulheres membros da irmandade que dela participam realizando tarefas e desempenhando papeis sociais diferenciados por genero. Os integrantes da irmandade se tratam como "irmaos" e tambem usam o termo "povo", para se referir aos demais fieis que frequentam a igreja. Em alguns momentos, observei que os termos "irmao" e "povo" equivalem a "fiel" e "devoto", se referindo ao conjunto dessas categorias (paiva, 2009).

(3) A igreja sofreu repressao por parte da Curia Metropolitana do Rio de Janeiro. A acao provocou a retirada da escultura da escrava Anastacia em 12 de maio de 1989. Segundo uma fiel do "povo", um representante da Curia Metropolitana teria celebrado uma missa na igreja quando explicou aos fieis que a escrava nao teria existido. Muitos teriam ficado surpresos com a revelacao enquanto outros diziam duvidar.

(4) Salome tambem se coloca como membro das Irmandades de Santa Efigenia e Sao Elesbao, Senhor do Bonfim, Imaculada Conceicao e da Nossa Senhora da Cruz dos Militares.

(5) Em sua primeira regencia Isabel sanciona a lei de 28 de setembro de 1871, co nhecida como a Lei do Ventre Livre, que declara livres todos os filhos de maes escravas nascidas apos aquela data; e a Lei Aurea, de 13 de maio de 1888, que proibia a escravidao no Brasil. Isabel foi regente tres vezes: 25 de maio de 1871 a 31 de marco de 1872; 26 de marco de 1876 a 25 de setembro de 1877; e 30 de junho de 1887 a 22 de agosto de 1888.

(6) Jornal Redencao, agosto de 1998, p.11.

(7) Ha tambem comemoracoes organizadas pela irmandade para abolicionistas, como Jose do Patrocinio, que foi membro da irmandade. Em 30 de janeiro e realizada uma missa em sufragio de sua alma. Demais cultos a membros da familia real e abolicionistas sao retratados no Museu do Negro por objetos, festividades e celebracoes religiosas.

Andrea Lucia da Silva de Paiva e professora adjunta do Instituto de Ciencias da Sociedade e Desenvolvimento, na UFF de Campos dos Goytacazes (RJ), onde desenvolve trabalhos sobre memoria, religiosidade, patrimonio, educacao e cultura popular. Doutora em antropologia cultural pelo PPG em Sociologia e Antropologia da UFF do Rio de Janeiro, mestre pelo PPG em Memoria Social e Documento da UniRio (2004), bacharel e licenciada no curso de ciencias sociais da UFRJ (2000).

Recebido em: 15/04/2014

Aceito em: 25/04/2014
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Title Annotation:texto en portugues
Author:de Paiva, Andrea Lucia da Silva
Publication:Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares
Article Type:Ensayo
Date:May 1, 2014
Words:6845
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