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What remains and what is broken in the loss and destruction poetic in Raquel Ferreira's labyrinth house/O que resta e o que se quebra na poetica da perda e da destruicao na casa labirinto de Raquel Andrade Ferreira.

Introducao

O presente artigo versa sobre as obras "Era domingo e o almoco havia sido servido" e "Narrativas de uma destruicao--Parte V." da artista brasileira e pesquisadora em arte Raquel Andrade Ferreira, que fazem parte de sua tese desenvolvida na linha de pesquisa em poeticas do processo no Programa de Pos-Graduacao em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul--UFGRS, sob orientacao do prof. Dr. Helio Fervenza. A tese sob o titulo: Espaco da Perda e da Destruicao, o labirinto como metafora da casa e vice-versa na constituicao de uma poetica contemporanea, serviu como fundamento para podermos identificar motivacao no campo pratico como teorico para basilar nossa argumentacao. As duas obras sao abordadas levando em consideracao a relacao estabelecida entre o objeto e o gesto de uso levando em consideracoes algumas premissas: a relacao do objeto antigo com a sua tradicao simbolica na uma cultura local social e economica na cidade de Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, local onde reside a artista. Assim como, as relacoes de perda e transformacao da casa em espaco de destruicao, caos e labirinto evienciado por uma artista mulher.

Raquel Andrade Ferreira e natural de Herval e reside em Pelotas. Atualmente, e professora de Artes no Instituto Federal de Educacao, Ciencia e Tecnologia--Rio Grande do Sul, no campus Rio Grande. Desde o desenvolvimento de sua pesquisa na graduacao, a artista utiliza sua casa-atelie para a producao de seus objetos artisticos, isto e, o espaco domestico e o espaco de criacao e de cognicao. A casa e o mote de sua pesquisa em que amplia a significacao e percepcao da casa em labirinto, lugares de afetos, desafetos, de perda, destruicao e ressignificacao.

1. Era domingo e o almoco havia sido servido

A obra "Era domingo e o almoco havia sido servido", realizado em 2013 (Figura 1), exposta no Espaco de Arte Agape na cidade de Pelotas e constituido por alguns objetos, um prato ornado com uma estampa de uma paisagem preso a parede, e demais objetos domesticos--xicaras, bules e pratos quebrados e agrupados no chao, logo abaixo do objeto pendurado. Nessa disposicao, a artista incialmente nos revela duas relacoes com os objetos. A primeira relacao e suscitada quando nos deparamos com o prato decorativo pendurado na parede. O mesmo nos induz a sua apresentacao como peca decorativa em paredes de salas de jantar e na cozinha, de algumas residencias atuais, mas usualmente nas casas de familias economicamente abastadas. Os pratos decorativos eram simbolo de tradicao no passado, quando as familias faziam questao de imprimir suas iniciais e brasoes em loucas da mais fina porcelana.

Encontramos alguns desses em antiquarios que se sucedem na cidade de Pelotas onde Ferreira reside. Simultaneamente avistamos logo abaixo do prato decorativo, no chao, os cacos de objetos, deslocados de seu carater estetico e usual. Ao lermos o titulo, a segunda relacao nos leva a outro sentido daqueles objetos, a da destruicao de uma coberta de mesa. Essa percepcao nos conduz a mesa da artista ou a outras mesas, em que a disposicao de objetos em uma situacao domestica, mais especificamnete de um almoco dominical, em que tradicionalmente arrumamos a mesa com as melhores loucas, as cobertas de mesa ricamente adornadas para reunir a familia estao quebrados. O unico prato preservado e o prato ovalado com a paisagem, que geralmente e o continente da comida principal, ou seja, a artista preserva um unico prato em que a natureza e estampada em sua placidez classica e todo o resto do aparato de um suposto almoco foi destruido. Nesse interim identificamos a representacao de uma relacao de afeicao que e perdida, nos induzindo a crer que o ritual do almoco de domingo ruiu. Nesse momento Ferreira nos faz sentar a mesa da casa labirinto, conceito que desenvolve em sua tese:

E um espaco mental que foi se constituindo dentro da casa. [...] se o labririnto evoca a experiencia da perda de orientacao, atraves da desconstrucao de um sentido unico, verifico que as experiencias dadas nos meus trabalhos apontam para outra percepcao espaco- temporal que sao proprios dos espacos labirinticos. [...] como um conceito que engendra um mundo objetivo e subjetivo da casa, que faz dela um abrigo confortavel e ao mesmo tempo um espaco de transmutacao do que nos constitui, do que ganhamos e do que perdemos, proprio do cotidiano (Ferreira, 2015: 92).

Ou seja, a obra nos da a ver o que a casa abriga cotidianamente e que nem sempre e visivel, que sao os conflitos interpessoais geralmente expurgados quando nos reunimos em torno de habitos sociais, ou seja, quando sentamos juntos numa mesa de domingo, num belo domingo de sol e "quebramos os pratos", ditado brasileiro para nos referirmos ao desabafo das dores, dos conflitos e das diferencas. A artista desacoberta por meio da destruicao dos objetos no ambito domestico, a desorientacao, a perda e a desordem da casa.

2. Narrativas de uma destruicao--Parte V

Na obra "Era domingo e o almoco havia sido servido" a artista, nos apresenta o que resta de um almoco na casa labirinto, casa desorientada, no que tange a configuracao tradicional de objetos e mobiliario, que comumente rege a configuracao que representa tambem a estrutura familiar e social. A mesa da casa de Ferreira ja nao estao mais os pratos, pois a louca foi quebrada, quebraram-se os pratos no almoco de domingo, poderiamos reafirmar. Lembremo-nos que no titulo da obra o sujeito e indeterminado, somos todos sujeitos convidados a imaginar o que haveria ocorrido depois que o almoco foi servido e assim juntar e catar os restos da louca pois quem nao quebrou os pratos destruiu os elos. Segundo Baudrillard:

... os moveis e os objetos existem ai primeiro para personificar as relacoes humanas, povoar o espaco que dividem entre si e possuir uma alma. A dimensao real em que vivem e prisioneira da dimensao oral que tem que significar. Possuem eles tao pouca autonomia nesse espaco quanto os diversos membros da familia na sociedade. Seres e objetos estao alias ligados, extraindo os objetos de tal conluio uma densidade, um valor afetivo que se convencionou chamar sua "presenca" (Baudrillard, 1997:22).

No caso dessa obra os objetos aludem a personificacao de fatos corriqueiros ao sentarmos em uma mesa, o conflito e o apaziguamento, esse ultimo apartado nas representacoes factuais e objetuais da artista. Na obra "Narrativas de uma destruicao-Parte V.", a destricao, o gesto de quebrar e potencializado, pois trata-se de um video em destruida.

A obra de video registra uma performance realizada em agosto de 2012 no espaco conhecido como "Garagem experimental da casa da Alice" projeto de extensao do Centro de Artes da UFPel. Essa performance foi registrada em video e fotografia, em tempo real. Esse trabalho foi apresentado na exposicao coletiva Artes e Oficios para Todos I, que ocorreu em setembro de 2012 no Galpao das Artes e Oficios da cidade de Sao Paulo. Consiste em uma acao onde um armario antigo, do tipo cristaleira, e destronado atraves de um gesto de destruicao violento. Seu interior encontrava-se repleto de alguns objetos de louca e porcelanas decorativas, mas tambem alguns outros de uso diario, tais como: xicaras, pratos, sopeiras, jarros. (Figura 2, Figura 3).

O armario aqui em questao foi adquirido em um Antiquario na cidade de Pelotas, oriundo de expedicoes de garimpo em feiras e lojas de antiguidades, realizadas constantemente por Ferreira. A cidade de Pelotas teve uma formacao original dentro do Estado, foi nucleo das charqueadas, as mesmas fazendo fortunas e fomentando a importancia economica e a tornando por excelencia um centro industrial e comercial. O charque era exportado para a Europa em frotas de navios, esses quando retornavam ao sul do pais traziam os objetos, mobiliarios e diversos adornos. Embora Pelotas tenha aos poucos se destituido do poderio economico, ainda se evidencia por meio de seus predios, objetos e adornos construidos e adquiridos durante o periodo de riqueza (Magalhaes, 2011).

O modelo de armario escolhido, tipo cristaleira, e comumente encontrado em muitas casas e geralmente localizado em lugares de grande visibilidade guardando objetos decorativos em salas de estar e e esse enquanto continente de relicarios que e destruido pela artista. Nao ha como deixar de apontar o gesto que destroi como a contramao do gesto que o conserva os guardados herdados simbolizando o periodo em que charqueadores revelavam um estilo de vida afortunado de refinamento de maneiras e espiritos. Aristocratas, cheios de prestigio (Magalhaes, 2011). Ferreira quebra, danifica, inutiliza, avaria, estraga, fende, racha, lasca, fratura, despedaca como ato de destruicao (Figura 4, Figura 5, Figura 6).

Ela revela que "... a quebra nos meus trabalhos como uma destruicao, visto que e uma acao voluntaria de demolir, de arruinar, de causar estrago" (Ferreira, 2015:149). Segundo Vilem Flusser o gesto de destruir significa "... derogar unas reglas por las que las cosas se ordenan, de manera que essas cosas se desmoronam" (Flusser, 1994:80). Ou seja, a artista enaltece que ao praticar atos de destruicao dos objetos do cotidiano de uso domestico sao operacoes de perda ou ainda uma vontade de transformar as coisas em consequencia gerar o desapego (Ferreira, 2015). Embora reconhecamos a relacao estreita com um ato paradoxal de destruicao de tradicao cultural da cidade que habita, e necessario evidenciar os vinculos com o campo da arte, fundamentalmente com gestos de destruicao de artistas.

Desde o inicio dos anos 1960, Raphael Montanez Ortiz produziu uma serie de trabalhos cujos gestos e procedimentos artisticos sao da ordem da destruicao na serie Achados Arqueologicos (Figura 7). Nesse periodo, o artista o artista destroi objetos do mobiliario domestico fabricados industrialmente, tais como camas, sofas, poltronas, cadeiras, almofadas, ente outros. Ferreira posteriormente destroi, assim como o artista, entretanto os objetos e em alguns momentos seus continentes, escolhidos e provenientes do espaco domestico da casa e nao numa dimensao industrial. Na epoca o gesto de destruicao de Ortiz liberava os objetos de sua memoria (Ferreira, 2015:242), de uma memoria capital.

Os gestos de Ferreira se por um lado dilaceram objetos e os sentidos, a memoria atribuidos a eles numa instancia cultural em que sao conservados como relicario da opulencia economica na cidade de Pelotas, por outro lado alcanca outros significados mais amplos quando os aproximamos de um gesto comumente empregado no contexto da casa, a lida feminina. Obviamente que, os gestos de quebrar pratos se opoem ao gesto mais comum no trabalho dos dias, comumente papel feminino na casa, ou seja de lavar, guardar, ajeitar as loucas (Figura 8, Figura 9). Nao podemos descartar essa relacao factual nos imbuida dia a dia:

Cotidiano e aquilo que nos e dado a cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia apos dia, nos oprime, pois existe uma opressao presente. Todo dia, pela manha, aquilo que assumimos ao despertar, e o peso da vida, a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condicao com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano e aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. E uma historia a meio-caminho de nos mesmos, quase em retirada, as vezes velada. (Certeau, 2009:31)

O autor nos redireciona as maneiras pela qual o gesto passa a ser no cotidiano o que nos prende e o que nos torna humanos historicos, e que consequentemente nos indica uma condicao feminina: "mulheres nao quebram os pratos". De qualquer maneira, Ferreira se opoem a essa condicao feminina por meio do desapego aos objetos da casa, da cozinha, postados a mesa. A partir de tais questoes podemos identificar similitudes com a obra da artista americana Martha Rosler que se utiliza em sua pratica artistica do ambiente domestico e dos objetos que o habitar. No video Semiotica da cozinha, de 1975 (Figura 10), a artista se coloca postada diante de uma camera, atras de uma mesa coberta de objetos e utensilios de cozinha. Partindo de uma sequencia alfabetica, nomeia cada um desses objetos acompanhado de gestos agressivos que evidenciam com in tensidade o movimento do uso. Esse video pode ser considerado uma critica ao papel tradicional da mulher no ambiente da casa. Notamos tambem que ao agarra-los com agressividade, a artista expressa o esgotamento e a quebra de convencoes de comportamentos triviais do cotidiano feminino. Ao destruir os objetos, a cristaleira desvela quem quebrou os pratos depois do almoco servido.

Conclusao

E importante destacar que a producao de Ferreira se movimenta no continuo do cotidiano, com meios e materiais que estao ao nosso alcance e em uso nas nossas casas, mas sem alusao a algo para alem de seu uso. Por isso, poeticamente a artista os retira da essencialidade e de sua estabilidade, os direcionando as estruturas inconscientes e ideologicas. Desde a tenra idade sabemos como usar uma simples faca para cortar o pao, pegar alca de uma chavena, porem, quando a artista propoe outros gestos para acionarmos seus usos, uma outra maneira de os manipularmos, esse ato gera novos significados, uma ruptura e a relacao das pessoas com eles, bem como questoes de genero e socio culturais. Segundo Rosa Martinez no celebre texto O trabalho dos dias:

Ha exercicios manuais que sao como pequenas iluminacoes pois nos conscientizam de que nossa vulnerabilidade e paradoxalmente nossa forca, de que nossa inevitavel dor forma parte da logica do ser vivente e de que o tedio que invade os recantos de nossas habitacoes cotidianas vibra uma lacerante verdade sobre o sentido de nosso estar no mundo (Martinez, 1998:1).

A verdade de Ferreira se insinua nas ruinas dos aparatos usuais domesticos, nos cacos de uma louca servida durante um almoco de domingo na casa labirinto.

Referencias

Baudrillard, Jean (1997) O Sistema dos Objetos. Sao Paulo: Perspectiva. ISBN: 85-273-0104-0.

De Certeau, Michel (2009) A Invencao do Cotidiano 1. Artes de fazer. Petropolis: Vozes. ISBN: 978-85-326-1148-2.

Ferreira, Raquel Andrade (2015) Espacos da perda e da destruicao : o labirinto como metafora da casa e vice-versa, na constituicao de uma poetica contemporanea. Porto Alegre: Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul & Programa de Pos-Graduacao em Artes Visuais.270pp.[Consult. 2107-12-20]. Disponivel em URL https://www.lume. ufrgs.br/handle/10183/131026.

Flusser, Vilem.(1994) Los Gestos. Fenomelogia y Comunicacion. Barcelona:Helder. ISBN:84-254-1832-1

Magalhaes, Mario Osorio (2011) Historia e Tradicoes da Cidade de Pelotas. Porto Alegre:ardotempo. ISBN: 978-85-62984-20-4.

Martinez, Rosa (1998) Rivane Neuenschwander. Sao Paulo: XXIV Bienal de Sao Paulo.[Catalogo].

Artigo completo submetido a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

ADRIANE RODRIGUES CORREA, Brasil, artista visual.

AFILIACAO: Programa de Pos-graduacao Mestrado em Artes Visuais. Bolsista FAPERGS/CAPES. Centro de Artes (CA) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Centro de Artes (Cearte), R. Cel. Alberto Rosa, 62--Centro, Pelotas--RS CEP: 96010-770, Brasil. E-mail: drica.correa@yahoo.com.br

EDUARDA AZEVEDO GONCALVES, Brasil, artista visual e pesquisadora.

AFILIACAO: Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Centro de Artes (CA). Grupo de Pesquisa: Deslocc: deslocamentos, observancias e cartografias contemporaneas CNPq/UFPEL. Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Centro de Artes (Cearte), R. Cel. Alberto Rosa, 62--Centro, Pelotas--RS CEP: 96010-770, Brasil. E-mail: dudaeduarda.ufpel@gmail.com *

Caption: Figura 1. Raquel Ferreira. Era domingo e o almoco havia sido servido, 2013. Fotografia. Fotos de Camila Hein.

Caption: Figura 2. Raquel Ferreira. Narrativas de uma destruicao --Parte V, 2012. Performance. Foto: Camila Hein.

Caption: Figura 3. Raquel Ferreira. Narrativas de uma destruicao --Parte V, 2012. Performance. Foto: Camila Hein.

Caption: Figura 4. Raquel Ferreira. Narrativas de uma destruicao --Parte V, 2012. Performance. Foto: Camila Hein.

Caption: Figura 5. Raquel Ferreira. Narrativas de uma destruicao --Parte V, 2012. Performance. Foto: Camila Hein.

Caption: Figura 6. Raquel Ferreira. Narrativas de uma destruicao --Parte V, 2012. Performance. Foto: Camila Hein.

Caption: Figura 7. Raphael Montanez Ortiz. Untiled [Wine Cabinet Destruction], 1986.Performance privada, comissionada, realizada na casa de Francesco Conz, Merano, Italia.

Caption: Figura 8. Raquel Ferreira. Narrativas de uma destruicao --Parte V, 2012. Performance. Foto: Camila Hein.

Caption: Figura 9. Raquel Ferreira. Narrativas de uma destruicao --Parte V, 2012. Performance. Foto: Camila Hein.

Caption: Figura 9. Martha Rosier, Semiotica da cozinha, 1975. Frames de um video em preto e branco (6 minutos). Fonte: https://digartdigmedia.wordpress.com/2016/11/23/ semiotics-of-the-kitchen-consumismo-e-os-media/10jpg.
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Correa, Adriane Rodrigues; Goncalves, Eduarda Azevedo
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:2675
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