Printer Friendly

What doctors hardly talk about: trance and ecstasy at the scene of childbirth. Dissident experiences and perceptions of health and welfare in contemporary times/ Daquilo que os medicos quase nao falam: transe e extase na cena de parto. Experiencias e percepcoes dissidentes de saude e de bem-estar na contemporaneidade.

Situando o leitor: quem, onde e como

Em tempos de tomografias computadorizadas, do primeiro transplante integral de rosto e de tecnicas cada vez mais sofisticadas de prolongamento da vida, um conjunto de mulheres brasileiras parece "nadar contra a mare" quando a tematica e a assistencia medica ao parto. Entre elas, "as adeptas do parto humanizado", circula o desejo de um parto "mais natural", desprovido de intervencoes medicas e farmacologicas de rotina. Essa naturalidade, propalada praticamente em todos os estados brasileiros, tem sido notadamente criticada por profissionais da saude que a entendem como insanidade e retrocesso cultural e tambem por alguns cientistas sociais que a veem como um "retorno a natureza" e, por consequencia, como a reiteracao de categorias de pensamento tidas como ja superadas. Entre os ultimos, estariam principalmente algumas feministas importantes (1,2) abrindo fogo contra a questao, na medida em que entendem a questao como uma ameaca aos avancos politicos das mulheres ao reiterar a naturalidade da reproducao.

Nessa oportunidade minhas lentes recaem numa dinamica especifica, na tensao medicos x mulheres, em suas narrativas e percepcoes acerca do ato de parir, no que congregaria e em suas representacoes simbolicas. O Brasil e o recordista mundial no numero de cesareas/ano, com um indice de 84,5% da rede privada e de quase 40% na rede publica de saude (3). Esses numeros superam, em ambos os casos, a recomendacao da OMS4, de 15% de partos cirurgicos ao ano. Por isso, essa realidade parece ter adquirido contornos de um problema de saude publica, quando e se notamos a existencia e a persistencia de campanhas governamentais, tanto na midia impressa quanto falada, para o incentivo do "parto normal", tido como sinonimo de "parto natural" ou "parto vaginal". Esse artigo tratara da rede privada de atencao a saude, das mulheres que dela poderiam fazer uso--mas nao tem feito --, optando por outros modelos de parturicao.

Procurando compreender os motivos de um parto "mais natural", em tempos de promessa de supressao da "dor do parto", de rapidez e seguranca da cesarea, busquei grupos de preparo para o "parto humanizado" nos quais pudesse realizar minha observacao participante e, depois, conseguir entrevistas no pre e no imediato posparto. Dois foram os escolhidos: um "institucional", iniciativa de um hospital escola e orientado ao publico em geral, e outro que tenho denominado de "independente", sem qualquer juizo de valor, simplesmente para diferencia-lo do primeiro grupo, dado ser uma proposta encaminhada por tres mulheres de modo alheio a instituicoes legalmente reconhecidas. Durante dois anos, participei das reunioes semanais dos dois grupos, ambos sediados no Estado de Sao Paulo e, a partir delas, pude encontrar mulheres dispostas a concederem entrevistas sobre experiencias gestacionais e de parturicao. A pesquisa toda deve ter contado, estimativamente, com a participacao de 30 mulheres, entre entrevistas detidas e conversas informais. Em razao deste trabalho possuir registro etnografico bastante marcado, esclarece-se, de saida, que o aporte qualitativo importara-nos muito mais do que o quantitativo. Alem disso, ressalta-se que a pesquisa junto ao grupo "institucional" contou com a previa autorizacao do CEP (Comite de Etica em Pesquisa) do hospital onde acontece. Nao obstante, neste artigo nao serao mencionados nomes, nem de informantes, nem de grupos e muito menos de instituicoes, haja vista o compromisso assumido entre a pesquisadora e suas fontes/informantes durante a etnografia.

Portadores de dinamicas e de abordagens diferentes, os dois grupos buscam difundir informacao sobre "outros modos de parir na contemporaneidade", por isso discutem a pratica da atual obstetricia brasileira, os exames e os procedimentos de rotina, protocolos nacionais e internacionais de assistencia do nascimento; a atuacao de profissionais "humanizados"; a atuacao de "parteiras urbanas"; dor, contracoes, trabalho de parto, cesarea, medos, insegurancas, conjugalidade e relacao com a mae da gestante, entre tantos outros pontos. Discorre-se, ainda, sobre a possibilidade do parto domiciliar. Os encontros sao semanais, mas as gestantes comunicam-se tambem diariamente por uma lista de debate virtual. Pode-ser dizer, na realidade, que o computador e uma ferramenta importante na agregacao e sociabilidade dos grupos e que, por isso, a capacidade de escrita e de acesso a internet caracteriza as mulheres que tem buscado outros modos de dar a luz. Se assim e, quem sao essas mulheres que buscam outras experiencias de parto?

Procurei "mapea-las" a partir de um conjunto de marcadores analiticos (5,6) (raca, classe, etnia, religiao, estilo de vida, profissao e etc.), mas angustiei-me com a impossibilidade de encontrar uma franja comum. No entanto, decidi, depois, expor essa ausencia de unidade entre as adeptas do parto humanizado enquanto uma qualidade, ressaltando, entretanto, a preponderancia de um recorte de classe--classe media--, o acesso a internet, serem portadoras da escrita e usuarias do sistema privado de saude. Deparei-me com umbandistas, catolicas, espiritas e ateias; urbanas, adeptas de um estilo de vida mais rural; advogadas, executivas, artistas plasticas e bailarinas; vegetarianas, veganas e "comem de tudo"; alopatas e adeptas da homeopatia; mulheres "mais racionais", "mais sensiveis"; casadas legalmente, "juntadas"; maes de primeira viagem, maes de tres filhos; brancas, negras, com tracos indigenas e orientais; brasileiras e estrangeiras. De acordo com uma de minhas entrevistadas, esse seria um dado importante, "pois assim deixa de ser uma modinha ou coisa de um gueto, das hippies que tem dinheiro" (notas de campo, dez. 2009).

Embora conveniadas de planos de saude e assalariadas, sugerem mais a existencia de um recorte de "capital cultural" do que de classe social. Nesse sentido, seriam mais as mulheres criticas dos sistemas sociais, ou as mais "as cricas" (notas de campo, fev. 2009), do que as "ricas". Conforme a pesquisa avancava, mais eu percebia que as adeptas do parto humanizado eram as que questionam e refletem, muito antes de pertencerem a certa classe social. Nesse mesmo sentido, entendo ser preciso mencionar que, nao raras vezes, entrevistei e conversei com mulheres e casais que chegaram a realizar emprestimos bancarios e familiares ou que venderam o carro com o intuito de custear um parto em casa.

Se desse modo poderiam ser consideradas, a questao que vai e volta e: por que recusam a analgesia? Ou entao, por que decidem ir ao encontro da "dor", sentir as ondas das contracoes, a abertura de seus colos uterinos e, assim, enfrentar o "risco" do incerto, contrapondo-se ao tido como mais seguro, certo e indolor? Por que negam a aplicacao rotineira do cateter para a epidural ou da ocitocina sintetica para aceleracao das contracoes, em tempos em que tudo se resolve mediante um simples pedacinho de plastico?

Para tentar responder a essas inquietacoes, percebi que, antes, era preciso mergulhar em suas representacoes de parto e de corpo feminino. Enfim, olhar com mais afinco o que entendem por saude/doenca, a luz de suas percepcoes da medicina atualmente praticada e das representacoes sociais de corpo de mulher e de corpo gravido.

E elas, o que pensam dos medicos e dos hospitais?

Em campo, pude constatar uma grande variedade de experiencias de parto, desde o parto em casa com parteira urbana ou com medico, com ou sem nenhum procedimento e farmacologia, ate um parto hospitalar tido como humanizado, ainda que com analgesia ou realizacao da episiotomia. Dessa maneira, tenderia a dizer que, entre as adeptas da humanizacao do nascimento, a cesarea e a tecnologia nao parecem ser "algo de outro mundo". O ponto fulcral de suas objecoes recai, por outro lado e muito mais, sobre o tratamento de rotina e padronizacao de um atendimento, sem que se considerem as singularidades de cada caso. De certo modo, o que querem e "o parto" e nao "mais um parto".

De modo geral, criticam e procuram escapar do atendimento de rotina, a saber, tricotomia (raspagem dos pelos pubianos); enema (lavagem intestinal); ocitocina (hormonio sintetico para acelerar as contracoes uterinas); analgesia (epidural); episiotomia (corte no perineo) e parto abdominal (cesarea). Ha uma volicao de singularidade, ainda que isso implique na eventual realizacao de um desses procedimentos. Parte-se da premissa de que se trata de "um corpo" e nao de "mais um corpo", ou seja, de uma determinada mulher e nao de mais uma parturiente. Ou seja, partem da ideia de que aquela pessoa nao e so corpo, maquina reprodutora, a ser regulada por diagramas, partogramas e escalas de contracoes.

Outro aspecto a ser considerado e a critica feita ao timing medico. Essas mulheres discordam do tempo dos medicos e dos hospitais. Essa rotina ou padrao de assistencia medica ao parto, nomeada de "tecnocratico-hospitalar" (7,8), ja viria programada, pre-ditada, controlada pelo relogio, tudo tendo um tempo limite: de trabalho de parto, para permanecer com a "bolsa rota", de intervalo das contracoes e de "periodo expulsivo". Caso esses marcadores, geralmente presentes nos manuais obstetricos, nao venham a ser respeitados, entender-se-ia que algo esta errado, fora da ordem, desajeitado e, por consequencia, como patologia. E esse tempo geral e estrutural que incomoda as adeptas do "parto humanizado", e o que as amedronta e as encaminha para outro tipo de relacao temporal. Para algumas delas, importa muito mais o "tempo-espera" e o "tempo que acolhe" e busca-lo torna-se, em alguns casos, uma premissa ou condicao sine qua non para parirem como querem, de acordo com sua fisiologia, psique, cultura e espiritualidade.

... meu parto durou 30 horas, foi um parto psicanalitico, precisei elaborar os meus fantasmas da medicina e da minha propria capacidade de parir (notas de campo, mar. 2008).

Nesse universo, o modelo "tecnocratico-hospitalar" poderia, entao, ser entendido como "excesso de cultura" (9), compreendida como tecnologia e conhecimento cientifico e, por consequencia, como o controle de um acontecimento muito mais do que fisiologico; sobretudo, psiquico, sexual, corporal, pessoal, social e cultural. Nessa esteira, ha inclusive quem interprete o modelo hospitalar como equivalente a logica fabril: o hospital seria a fabrica, a parturiente a maquina e o recem-nascido a mercadoria, a ser resguarda e avaliada em sua qualidade (10).

Para pensar sobre essa logica de atencao ao parto em nossa sociedade, a nocao de "biopolitica" me tem sido bastante util. A ideia de biopolitica teria surgido no seculo 19 para o controle do "corpo de multiplas cabecas", dando novos contornos a teoria da soberania antes operante, a saber, a do "deixar viver e fazer morrer", para uma perspectiva de que ao Estado caberia o poder de "fazer viver e deixar morrer". Em outras palavras, morrer teria deixado de ser algo corriqueiro ou "natural", passando a ser algo evitado. E assim a vida teria passado a ser prolongada e, portanto, objeto de intervencao e de controle do poder, ao lado dos corpos que, sob os mecanismos disciplinares, ja vinham sendo controlados para tornarem-se "doceis e produtivos" (11,12).

"Biopolitica" e "biopoder" (13) teriam passado, desde entao, a coexistir, atuando um no mais micro, nas instituicoes, e o outro num sentido mais geral, tendo na medicina e na demografia os seus mais ativos aliados. E nessa ansia por controlar a quantidade e a qualidade da vida, os nascimentos, como era de se esperar, teriam tambem passado a ser foco de sua atuacao. Nesse processo, a compreensao que se tinha de doenca/saude tambem teria sofrido alteracoes: a doenca--tida como inevitavel--teria se tornado objeto de resistencia, de combate, de restabelecimento da ordem e a saude teria se transformado em algo a ser construido diariamente. Quanto a isso, vale dizer que os hospitais, antes tidos como "morredouros" ou locais para onde eram derivados os "desviantes", passaram a se caracterizar como o local da cura, do resgate da ordem e da salvacao. E nesse contexto, de "estatizacao do biologico" ou de valorizacao do "corpo-especie", a medicina ganha espaco como a policia da higiene publica, do cuidado e da medicalizacao da populacao.

Pensando sobre nossa atualidade, a critica feminina a padronizacao da atencao hospitalar ao parto parece vir carregada dessa ideia de um corpo tratado de maneira massificada, "corpoespecie", cerceado e constantemente ameacado pela morte e pela doenca. Um corpo a ser, por isso, monitorado em nome da saude e do bemestar, tendo realcado mais o seu perigo e patologia do que a crenca em sua funcionalidade e capacidade de reacao, como bem pontua uma das adeptas do parto humanizado que conhecemos: "nossa medicina e assim, vibra na doenca." (notas de campo, mar. 2008)

Dor: um mosaico de percepcoes

Se essas praticas femininas contemporaneas sao, por um lado, criticas, e, de outro, propositivas, ambas as frentes tem me posto diante de representacoes dissonantes daquilo que compoe uma cena de parto. Um desses conjuntos de percepcoes dissonantes e o da tao famosa "dor do trabalho de parto". Para um medico, recentemente entrevistado, tratar-se-ia da "pior dor do mundo, equivalente somente a colica renal e, ainda assim, multiplicada por 1000" (14). De fato, a ideia de que parir doi nao e algo circunscrito somente a categoria medica, e algo veiculado tambem pelas proprias mulheres--maes, avos e tias de parturientes. Existe quase um consenso social de que dar a luz doi e que pode ser perigoso para a diade parturiente/recem-nascido; vigorando, ainda ou conjuntamente, ideias como as de que a mulher perdera a integridade de seu assoalho pelvico, de que passara a ter problemas para relacionar-se sexualmente e de que o sentido durante as contracoes figura algo realmente insuportavel. Esse, ao menos, tem sido o discurso que grande parcela da categoria medica tem propalado com a intencao de oferecer as gestantes a opcao por uma cesarea, rapida, segura e indolor.

Em campo, pude constatar que "o medo da dor", de fato, existe. Nos encontros e conversas informais com medicos e parteiras urbanas ou mesmo entre as proprias gestantes, recorrentemente, pude perceber a apreensao quanto ao que se sentiria durante o trabalho de parto. Fala-se muito sobre o "medo da dor", sustenta-se que a "dor e subjetiva", "que cada uma tem um limite proprio" e que algumas tecnicas corporais podem ser uteis para o suavizo dessas sensacoes durante o trabalho de parto. No pre-parto, momento dos encontros e da preparacao da gestante e do casal, a dor opera como um fantasma, principalmente para as primigestas. Entretanto, mesmo temida, porque ainda desconhecida, figura como sensacao corporea a ser enfrentada e suportada em nome de algo maior: a experiencia de parir e sentir tudo o que nela se ve envolvido. E na realidade parece pesar mais esse desejo de "sentir" o trabalho de parto, do que o proprio medo da dor, existindo, assim, certo "apresen tar-se a dor", "dar a ela passagem" ou, ainda, "a ela entregar-se" (notas de campo, 2008-2010).

Nesses momentos, uma das metaforas mais usadas e a da "escalada da montanha". O parto e assim pensado, e preciso subir, esforcar-se para chegar ao topo e apreciar a vista. "Subir de helicoptero tambem leva ao topo, mas perde-se a experiencia, o caminho e a passagem" (notas de campo, idem). O helicoptero seria, entao, a analgesia ou a cesarea e, consequentemente, a perda do caminho seria a perda das sensacoes do trabalho de parto. "Escalar a montanha" aparece similarmente como a importancia de "manter o ritmo", que, no parto, seria o da respiracao, do desejo de fazer forca e o do cansaco diante de horas e horas de trabalho.

Se pude constatar essas situacoes no pre-parto, no pos-parto, em entrevistas e em outras ocasioes, a questao adquiriu outros contornos, pois ja tinham vivido "a dor por si mesmas" e estariam aptas para descrever o experimentado de maneira individualizada. Percebi, entao, que o que se entende por dor nao pode ser tingido tao a preto e branco e que precisa ser nuancado, pois figura muito mais um mosaico de percepcoes, de significados e de perspectivas, do que algo uniforme e pacifico. Das muitas concepcoes veiculadas, depreendi quatro categorias, por mim consideradas as mais importantes. Nao se trata de uma tipologia fechada, mas mais de uma amostra dos desenhos simbolicos que podem ser construidos a partir do que se sente. Os tipos de interpretacao seriam: "a dor que doi", "a dor que se esquece", "a dor que nao e sofrimento" e, por fim, a "nao senti dor, foi prazeroso".

Em razao de a primeira coincidir com a percepcao medica, nao sera aqui abordada com afinco, a nao ser no sentido de que repete e reatualiza --convencionalizando--que parir doi e que pode ser sofrido, muito embora, ainda assim, tenham decidido vivencia-la, na contramao do propalado pelos profissionais, manuais e imaginario ocidental, de que se trata de algo a ser evitado ou controlado de antemao. Entretanto, quanto as outras perspectivas, entendo ser interessante uma breve, porem maior problematizacao, dado seu carater dissonante quando e se comparado aos discursos mais gerais do que acomete as mulheres no momento do parto.

A segunda modalidade, "a dor que se sente, mas se esquece", aparece embebida por um apagamento do que se sentiu, uma especie de sublimacao. Tem-se a ideia de que doeu, mas de que o experimentado teria passado a ser irrelevante ou porque a mulher conseguiu parir "naturalmente" como desejado, ou porque a satisfacao de ter a criatura nos bracos superara o sentido. Para esse grupo, a dor opera como componente de um "ritual de passagem", sentindo a dor, como uma ritualistica, a mulher torna-se mae, dando espaco para a construcao de outra subjetividade: a materna. Ela e igualmente importante para o estabelecimento de lacos afetivos com o recemnascido, para que a experiencia de sentido e contornos ao ato de maternar. Dessa maneira, e entendida como uma travessia de estagios subjetivos e de status sociais, importando mais o depois, aquilo que vem, do que a dor em si mesma. E preciso ressaltar que inumeras das mulheres entrevistadas partilharam da ideia do ritual de passagem, tendo uma delas inclusive ponderado que: e muito importante passar pelo trabalho de parto, pois na minha cesarea, quando acordei, tinha uma crianca nos bracos e nao estava preparada, a ficha nao tinha caido. Foi muito ruim, acordar e ser mae, mas nao saber como tinha acontecido (notas de campo, mar. 2008)

Nesse sentido, a dor perderia sua centralidade ou autorreflexividade, importando mais o resultado final, ainda que seja entendida, como algo importante e uma especie de caminho a ser percorrido para, nos dizeres das informantes, "se alcancar o Everest" (notas de campo, abr. 2008). De outro prisma, a dor seria, aqui, em algum sentido, naturalizada, vista como algo esperado, porem nada marcador de uma vivencia ruim e, por isso, a ser evitado. Entre esse grupo, que representaria quase um quarto das analisadas, mesmo existindo, a dor deixa de ser algo importante em si mesma, em que pese poder ser lida no registro do sacrificio que as mulheres teriam de suportar para ter o parto desejado. Essa dor funciona como um tipo de requisito "para se viver o que se quer" (notas de campo, abr. 2010) ao inves de anestesiada e ausente do que se passa em seu proprio corpo. De acordo com uma das mulheres analisadas, para vivermos o parto e preciso ir alem da dor, ultrapassa-la, como ja dizia Fernando Pessoa no poema sobre o bojador (notas de abr. 2010).

No terceiro grupo, de aproximadamente um terco do universo estudado, aparece a "dor que nao e sofrimento", a que destoa da nocao de que a mulher sofre ao dar a luz. Resulta assim, como algo que e dito pelo seu negativo. E o que nao e algo, na falta ou ausencia de palavras que possam nomear o vivenciado; funcionando, desse modo, como a intermediaria, como aquela que estaria entre a "dor que doi" e "a que se esquece". Dela, as mulheres parecem se lembrar, muito embora nao a signifiquem na leitura do padecimento e da insuportabilidade. Essa ausencia de palavras que pudesse significa-la, poderia, por nos, ser interpretada como o vazio que, por assim apresentar-se, ja destoaria de narrativas normativas e nomeadoras. Talvez, um vazio criativo, que carrega a positividade por meio de sua propria negatividade ou negacao--e o que nao e sofrimento, nao sendo, portanto, o que e dito socialmente e pela medicina tradicional. Nesse sentido, dita diferentemente, em outro sentido, ainda que nao se saiba qual exatamente, termina fugidia e proferida por labios femininos e, no minimo, poderia indicar que ser mae e parir nem sempre e "padecer no paraiso", abrindo brechas para outras conotacoes.

Por fim, o ultimo grupo, ainda restrito, uma minoria, pouco menos de um quarto, talvez em razao dos proprios tabus em que se encontra inserido, e o grupo da "nao dor e do prazer". Sao aquelas mulheres que dizem ter sentido prazer e satisfacao durante o trabalho de parto--decidi empregar satisfacao e prazer, pois essas categorias despontaram na pesquisa de campo. Esse conjunto narra nao ter sentido dor e opera muito mais a narrativa da satisfacao fisica e do bemestar. Essa sensacao e descrita tanto no imediato pos-parto quanto no decorrer das contracoes uterinas, sendo descritas como ondas que vem e vao, ondas de calor, de sensacoes a flor da pele e de sexualidade. No pos-parto, essas sensacoes veem aliadas, ainda, a um sentimento de poder, em virtude de terem vivido o almejado e de terem conseguido parir, ainda que muitos tenham entendido suas praticas e desejos como um grande desatino ou delas duvidado. Essa satisfacao parece ser de tal ordem que, para muitas, parir "mais naturalmente", teria representado "um divisor de aguas" (notas de campo, jun. set. nov. 2009), passando, a partir dali, a sentirem-se preparadas, "como nunca" (notas, idem), para qualquer outro fato de suas vidas. E entao "poderosa" passa a ser a palavra mais repetida entre elas e em nossas entrevistas.

Ha, mais recentemente, toda uma discussao nos grupos de preparo para o parto humanizado sobre o denominado "parto orgastico". Depois de um documentario feito nos EUA, no qual um grupo de mulheres da depoimentos de terem sentido prazer sexual e orgasmo durante o parto, o assunto ou tornara-se modismo ou passara a vir a tona em funcao de alguem ter dado vazao a esse tipo de narrativa. No grupo, acredita-se que poucas sao as mulheres que conseguem sentir orgasmo ao parir, porem compartilha-se da possibilidade de sua ocorrencia e externaliza se o desejo de poder conquista-lo. Fala-se bastante, no entanto, isso sim, de sensacoes prazerosas no momento da "roda de fogo", quando a crianca da inicio a passagem pelo canal de parto, rocando na regiao perineal (notas de campo, mar. 2010). Outras, entao, mencionam prazer enquanto se dao as contracoes uterinas. E um grupo, este sim bastante grande, partilha da ideia de que trocar caricias, beijos, ter os seios acariciados, abracar o companheiro durante o desenvolvimento do parto, alem de auxiliar notadamente todo o trabalho corporal, "e muito gostoso e muito bom" (notas de campo, idem).

Entre sensacoes satisfatorias, prazer, excitacao e orgasmo, certamente, existe uma gradacao. Entretanto, em momentos diferenciados, tem aparecido nas narrativas de parto de algumas das mulheres do grupo "independente". E, nesse ponto, o prazer e corporal, tem o corpo como ponte, e feminino, autoerotico, acontece no corpo da mulher e antes da relacao maternal com a criatura, muito embora aflore desse contato corpo a corpo e de dois. E nao se ve ligado, unica e exclusivamente, ao nascimento da crianca enquanto fato ou acontecimento esperado e idealizado. Parece existir a flor da pele, talvez explicando o que elas tem denominado de "intensidade" e eu de "afetacao". Nao obstante, viver esse tipo de experiencia requer, segundo minhas informantes, uma maior liberdade com o proprio corpo e sexualidade e um afrouxar dos lacos que conectariam as mulheres a uma "moral civilizada", que prescreve a mae assexuada e abnegada.

Percepcoes da partolandia: Eles silenciam ... Elas contam

Existe, entre as mulheres adeptas do parto humanizado, uma expressao que procura significar alguns ou "aquele" momento do trabalho de parto, refiro-me, aqui, a tao, por elas repetida, "partolandia". Em relatos publicos, escritos, listas de discussao e em entrevistas, a "partolandia" vem para significar um estado alterado de consciencia, um flash, instante ou poucos minutos em que se perderia a razao, figurando, por isso, um "vazio no qual nao se pensa, somente se sente", uma "ocasiao em que se esta em outro lugar e nao mais ali, sem saber quem esta por perto ou que se esta fazendo", "uma zona de pensamento em branco" (notas de campo, 2008-2010).

Para um medico frances (15) precursor da pratica do "parto sem dor", tratar-se-ia de um momento de interrupcao do neocortex, no qual a mulher remontaria ao seu estagio mais arcaico, "mais animal, mais mamifero" (notas de campo, jul. 2010). Essa explicacao vem bastante pautada na ciencia, fisiologia e numa conjuntura hormonal propria do parto; na qual muita ocitocina e serotonina seriam liberadas--se e desde que a mulher nao se sentisse ameacada e passasse a produzir o "hormonio do medo", a adrenalina. Dessa forma, uma vez imersa, conforme suas palavras, nos "hormonios do amor", o "superego" cessaria e a parturiente poderia chegar a assumir posicoes e atitudes "pouco afeitas a moral civilizada", como gritar, gemer, chorar, gargalhar, saltar e etc., tendo lampejos de inconsciencia. Poderia, dessa maneira, parir sem sentir dor, de modo tranquilo e saudavel. Em sua leitura, portanto, desde que a mulher esteja isolada, na penumbra, comoda e a vontade, haveria espaco para esse momento, em que a racionalidade deixa de existir e em que parir pode tornar-se algo indolor e inclusive prazeroso, estando tudo relacionado a razoes tecnicamente investigadas. Esse e, vale dizer, um dos poucos medicos que escrevem ou declaram essa possibilidade, pois, pelo que parece, a grande maioria perceberia nessas reacoes um grande descontrole emocional e desordem.

De outro lado, estao elas--as mulheres do parto humanizado--tentando significar a experiencia da parturicao, suas sensacoes e emocoes. Se o medico acima referido remete-nos as teorias cientificas, a perspectiva feminina nos conduz a "partolandia" e, por consequencia, as interfaces entre parto, espiritualidade e sexualidade. Para as adeptas do parto humanizado, este poderia ser traduzido como uma experiencia de transe e de extase, espiritual e sexual, separada, conjunta ou atravessadamente. Por isso, entender suas percepcoes nesse sentido, diferente e divergente, tem sido um dos focos de meu trabalho.

A espiritualidade de que falam tem o corpo como ponte, e vivida atraves de corpos latejantes e pulsantes, quase descontrolados, e que, por fim, instalam a transcendencia em lugares muitas vezes antes pertencentes a dor do trabalho de parto. Por conta disso, em que pese nao termos encontrado um denominador comum quanto a crenca das entrevistadas, posto que marcadamente plural a filiacao religiosa, tendemos a considerar a existencia de uma nocao de espiritualidade que seria propria do momento do parto, muito mais relacionada a ideia de transe, de conexao com o desconhecido e de irracionalidade, do que com alguma divindade em especial. Essa espiritualidade do parto parece, de certa maneira, embaralhar fronteiras tradicionais entre sagrado x profano e entre puro x impuro, na medida em que o sagrado da "partolandia" vem ancorado na sexualidade, que muitas vezes fora e pode ser considerada impura, suja ou contaminante. De acordo com alguns dos relatos, e o corpo da mulher que grita e geme, tocado, acariciado e que esta nu, que da passagem para lapsos de transe que sao interpretados como sagrado e lidos no registro da transcendencia. E, dessa maneira, o corpo da mae, que aqui escapa do imaginario da mae assexuada, abnegada, casta e pura.

Eu queria ficar na minha, mas ela me chamava [a parteira urbana], me mandava para la e para ca. Queria que eu estivesse presente, mas eu estava em outro lugar (abr. 2009).

... parecia que eu estava num sonho. Ficamos assim, meio sem raciocinar, nao vi ninguem (mar. 2010).

... eu estava ligadona. Eu estava meio em transe (mar. 2008).

... eu me entregava para a dor, entrava em transe, visualizava o rosto do meu filho e um pe de jabuticaba. E, com tudo isso, cantava musicas de natal (nov. 2009).

De outro lado, porem, as vezes, a um so tempo, surge a "partolandia" que e extase e satisfacao fisica e a perspectiva de que o parto pode ser um evento sexual para alem da reproducao; que pode gerar prazer e comportar aspectos, inclusive, de erotismo. Estariamos aqui, uma vez mais, no complexo campo da sexualidade, bem como no de suas multiplas expressoes, deparando-nos com narrativas de sensacoes corporeas, psiquicas e emocionais, que dao a "partolandia", esse estado alterado de consciencia, um redirecionamento sensorial. Em outras palavras, o sexual poderia, nesses registros, ser pensado atraves do autoerotismo, de uma capacidade propria da mulher, que ao parir pode tambem sentir prazer, a partir da singularidade de seu corpo e de sua fisiologia gravidica.

... eu senti prazer na roda de fogo, foi uma sensacao gostosa (dez. 2009).

... senti dois orgasmos retumbantes na fase final de meu parto (Documentario Orgasmic Birth, 2009) (16).

... o orgasmo pode vir de outras maneiras, nem todas chegam ao orgasmo, a mulher precisa ser muito resolvida. Mas podemos pensa-lo como a satisfacao, o prazer e a sensacao de poder logo que o parto acontece (mar. 2010).

Isto posto, a sexualidade, por elas apresentada, nao parece restringir-se somente a reproducao, a chegada de outra criatura, ou a sua fisiologia e corpo, passa, antes e sobretudo, pela estimulacao e satisfacao do corpo daquela que esta parindo, acarretando-lhe bem-estar, prazer e gozo. E evidente que um ponto dialoga com o outro, a satisfacao fisica tambem advem do nascimento de uma crianca, porem, vale ressaltar, comporta igualmente e simultaneamente uma dimensao pessoal de prazer, da mulher com seu corpo gravido e em trabalho de parto.

Saude e bem-estar para alem do corpo: Doenca como controle, tecnologia abusiva e ausencia de autoria

Dado que a proposta deste artigo e refletir sobre concepcoes de saude/doenca dissidentes na contemporaneidade, pretendo neste topico levantar questoes a partir do ate aqui desenvolvido.

Diante do material de campo, o que parece incomodar as adeptas do parto humanizado seria o excesso de controle medico e tecnologico no momento do parto, a padronizacao dos procedimentos e sua invasividade. Somado a isso, viria tambem a distancia emocional dos profissionais, que pouco se envolveriam com o estado em que se encontram as mulheres no momento do parto. Pudemos constatar tambem que o parto, para esses grupos de mulheres adeptas do parto humanizado, e muito mais do que um ato fisiologico, sendo, na realidade, uma experiencia unica, pessoal, sexual, espiritual, social e cultural, ou seja, muito mais do que corpos, programas e manuais medicos.

Partindo dessas hipoteses poderiamos depreender que a doenca, entre elas, vem a reboque do controle, da disciplina, "do procurar excessivo", dos toques subsequentes, de uma atitude compulsiva em busca do que esta errado, do "que vai mal" e esta fora de lugar, ainda que aquele corpo sinta bem-estar. Dessa forma, o incomodo relatado em campo tende a advir do "excesso de cultura". Essas ilacoes, em ultima instancia, nos permitem pensar que, para essas mulheres, a doenca e o disfuncional nao coincidiriam com a nocao de doenca da "biopolitica", ou seja, daquilo que constantemente ameaca, do que sempre parece estar a espreita e que precisaria, cotidianamente, ser controlado. Nesse universo, bem ao contrario, e a doenca que e a excecao.

Se a doenca vem assim caracterizada, a saude e o bem-estar teriam seus contornos alargados, congregando a necessidade de uma visao para alem do corpo fisico, que levasse em consideracao a propria trajetoria daquela que gesta e esta parindo, somada a aspectos, uma vez mais, da ordem do espirito e do sexual, linhas caracterizadoras da "partolandia"; um estado considerado satisfatorio. Poderiamos pensar aqui, na falta de um termo mais original, numa nocao de saude sistemica. Ou em uma saude atravessada e composta tambem pelas emocoes, sentimentos e sensacoes, na qual a dor, ocidentalmente construida, encontraria, como tambem ja pudemos tematizar, outras possibilidades de inscricao.

Essas percepcoes de saude e de bem-estar teriam, por tudo isso, uma relacao diferente com o risco e com o medo, pois subvertem a logica ou a relacao de causa-consequencia entre um e outro ate operantes quando o assunto e a parturicao. Digo dessa maneira porque, para parir de modo saudavel, as mulheres do "parto humanizado", mesmo sentindo medo e temendo o risco, ao inves de protegerem-se, resguardando-se do que, por ventura, pode ocorrer, apostam e dispoemse a ambos, colocam-se perante o desconhecido, "com o que nao se sabe onde vai dar", ainda que isso nao implique num rechaco integral da tecnologia e do conhecimento medico, posto que, exageros a parte, quase todas procuram, minimamente, refletir sobre modelos, metodos, locais e profissionais de parto.

Para parir com saude e bem-estar, a premissa parece ser, entao, a predisposicao a superacao do risco, como se enfrenta-lo acabasse por enriquecer a experiencia, dando passagem para a sua singularidade. Desse modo, o risco atua como uma especie de requisito para um parto melhor e mais saudavel. Dito de outro modo, corre-se o risco de nao seguir as recomendacoes medicas, de parir em casa, sem anestesia ou no hospital e sem ocitocina, ainda que a medicina diga o contrario, com o objetivo de, primeiro, ter o parto que se quer, "mais natural", entendido como saudavel.

Dessa maneira, o medo existe, lado a lado com o risco, porem, nao no mesmo sentido, esta ali para ser superado, negado e desconsiderado, para que essas mulheres possam, segundo uma das informantes, "deixar de vibrar na doenca" (notas de campo, 2009). Tudo indica a existencia de uma percepcao de saude que e a regra, de que "tudo esta bem e que vai dar certo", no sentido contrario da vigilancia moderna e contemporanea da "biopolitica", que pensava em saude como algo a ser construido, modelado e resguardado e na doenca como padrao, a norma e a regra, a ser, por isso, sempre monitorada e observada por e com todos os olhos possiveis desde o clinico ate o microscopio.

Essas parecem ser as construcoes das adeptas de outros modos de parir, que, mesmo podendo ter uma cesarea rapida, tem optado por experiencias "mais cruas e mais selvagens" (notas de campo, 2008-2010), pelo enfrentamento do desconhecido, do medo e do risco, oferecendo-nos, em seguida, outras nocoes de dor de parto. De minha parte, tendo a entender essas praticas enquanto volicao de singularidade e desejos de afetacao, que, posteriormente, aparecem interpretadas em leituras espirituais e/ou sexuais a partir da expressao "partolandia".

E agora, mas de que corpo se trata? Processos de subjetivacao e moralidades

Discorremos sobre um corpo que, para essas mulheres, e mais que biologico, e psiquico e emocional e, nesse percurso chegamos a nomea-lo de "corpo que e ponte", tentando traduzir o que foi encontrado durante a etnografia. Por essa razao, parece-me restar ainda um ultimo ponto a ser abordado neste artigo: a conexao entre esse corpo, os processos de subjetivacao e a tessitura de outras moralidades.

Para tanto, tomarei de saida a representacao historica e ocidental do corpo das mulheres, percebido e ditado de modo calcado em caracteristicas como: incompletude, fragilidade, histeria e descontrole, entre tantas outras que discursivamente atuaram no sentido de excluir o sexo feminino do mundo publico. Furor uterino, sexo masculino invertido e interno, uteros que caminham pelos corpos, ausencia de calor, passividade, inatividade e loucura foram algumas das palavras proferidas por aqueles que tentaram explicitar a natureza psiquica e sexual feminina. Para tanto, a ciencia, a anatomia, a fisiologia e, ate mesmo, a ginecologia e a obstetricia modernas parecem ter tido um papel fundamental, pois, de suas linhas e tintas, o corpo gravido e o momento do parto tambem fizeram parte, tanto que o parto, a partir do seculo 19, passara a ser assunto medico, deixando de pertencer ao universo dos cuidados e dos saberes femininos por demais tradicionais. Gracas a essas construcoes teoricas, desenvolvemos uma representacao de mulher inferiorizada, menor e desigual. E certo que muito ja se avancou, tanto por parte das ciencias sociais, quanto da saude e das reivindicacoes feministas, ao ponto de teorias como essas praticamente terem caido por terra. No entanto, quanto ao parto em especial, pouco pudemos identificar de avanco, ao menos ate a atual conjuntura social brasileira, na qual ainda parece ser assunto medico e cercado de um imaginario ainda moderno.

Se assim e e em outro sentido tem se posicionado as adeptas do "parto humanizado", quais seriam as consequencias de suas narrativas no que tange aos processos de subjetivacao feminina na contemporaneidade? Ou entao, quanto as moralidades dos corpos, como poderiamos pensar, a partir disso, na representacao do corpo gravido, existiriam outras moralidades sexuais?

Entre as adeptas do parto humanizado, existe um manejo de tecnicas de cuidado de si, um minimo esboco do que entendem ser correto e incorreto, uma relacao diferente com o risco e com o medo, com as hierarquias entre medicos e pacientes, aspectos estes que parecem indicar outro imaginario de corpo e de subjetividade feminina, dissonante do ditado por discursos de controle anteriores, tanto por parte da Igreja, quanto da Medicina ou do Direito, todos pensados a partir do ocidente. Pelo que parece, elas tentam estabelecer outro dialogo com a figura materna, moldando essa subjetividade nao mais como a da "maezinha", que necessariamente sofre e "padece no paraiso", a partir do corpo fragil e perigoso, ou seja, a vitima de sua propria anatomia; bem ao contrario, esses grupos de mulheres parecem buscar conferir outra tonalidade a essa subjetividade, a saber, mais processual.

E certo, que, para alguns teoricos, o movimento ao redor do parto humanizado viria somente reforcar ou reiterar mitos anteriores, como o de que a mulher esta para a natureza e o homem para a cultura e o do amor materno. Nao obstante, em nosso entender, essas outras praticas de parto carregariam, junto dessa possibilidade, tambem sinais da existencia de outros processos de subjetivacao e de outras moralidades de corpo feminino, leituras de outras corporalidades, tanto por parte das gestantes, parturientes e "ja paridas", quanto por parte de seus companheiros e, por ultimo, de alguns dos profissionais de saude adeptos do ideario do parto humanizado. Essa seria uma outra grade de percepcao de corpo e de sexualidade das mulheres, ainda timida, mas ja presente nesse inicio de seculo 21 ...

Referencias

(1.) Badinter E. Le conflict. La femme et la mere. Paris: Editions Flammarion; 2010.

(2.) Badinter E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira; 1985.

(3.) Cesareas superam parto normais pela primeira vez no pais. Folha de Sao Paulo. Caderno Equilibrio. 2011; 20 de novembro.

(4.) Organizacao Mundial da Saude (OMS). Recomendacoes da Organizacao da Saude para o parto normal: Fortaleza: OMS; 1985.

(5.) Brah A. Diferenca, Diversidade, Diferenciacao. Cadernos Pagu 2006; 26:329-376.

(6.) Crenshaw K. Documento para o Encontro de Especialistas em Aspectos da Discriminacao Racial Relativos ao Genero. Rev Estudos Feministas 2002; 10: 171-188.

(7.) Davis-Floyd R. Perspectivas antropologicas del parto y el nacimiento humano. Buenos Aires: Editorial Creavida; 2009.

(8.) Davis-Floyd R. The technocratic, humanistic and holistic paradigms of childbirth. Int J Gynaecol Obstet 2001; 75(Supl. 1):S5-S23.

(9.) Benjamin W. Da pobreza da experiencia. In: Benjamin W. Magia e Tecnica, Arte e Politica. Sao Paulo: Editora Brasiliense; 1985.

(10.) Martin E. A mulher no corpo. Uma analise cultural da reproducao. Rio de Janeiro: Garamond; 2006.

(11.) Foucault M. Historia da Sexualidade I: A vontade de saber. Sao Paulo: Graal; 2006.

(12.) Foucault M. Historia da Sexualidade III. Cuidado de si. Sao Paulo: Graal; 2004.

(13.) Foucault M. Em defesa da sociedade. Sao Paulo: Martins Fontes; 2000.

(14.) Pior dor do mundo? Esqueca. Veja 2008; 24 set. p. 150-152.

(15.) Odent M. Comunicacao Oral. Casa Jaya: Sao Paulo; 2010. (Comunicacao Oral da data 08/07/2010)

(16.) Documentario Orgasmic Birth [DVD]. USA: Debra-Pascali; 2009.

Artigo apresentado em 10/04/2012

Aprovado em 20/08/2012

Versao final apresentada em 11/09/2012

Rosamaria Carneiro [1]

[1] Departamento de Saude Coletiva, FCE/UnB. QNN 14, Ceilandia. 72.222-140 Brasilia DF. rosagiatti@yahoo.com.br
COPYRIGHT 2013 Associacao Brasileira de Pos-Graduacao em Saude Coletiva - ABRASCO
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2013 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:articulo en portugues
Author:Carneiro, Rosamaria
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Aug 1, 2013
Words:6568
Previous Article:Social representations of patients and relatives regarding type 1 neurofibromatosis/Representacoes sociais de pacientes e familiares sobre...
Next Article:A randomized clinical trial on the effects of remote intercessory prayer in the adverse outcomes of pregnancies/Ensaio clinico randomizado sobre os...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters