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Vulnerabilidade ao burnout entre medicos de hospital publico do Recife.

Vulnerability to burnout among physicians at a public hospital in Recife

Introducao

O burnout e uma resposta ao estresse laboral, percebido quando as estrategias de enfrentamento do estresse mostram-se ineficazes (1,2). Conforme Tamayo & Troccoli (1), o conceito de referencia e o de Maslach e Jackson: a sindrome resulta de um processo que envolve a superposicao de: (1) alta exaustao emocional (EE): perda ou desgaste dos recursos emocionais com sentimentos de esgotamento e tensao; (2) alta despersonalizacao (DP): distanciamento emocional contraproducente frente aos pacientes, colegas e organizacao; (3) baixa realizacao pessoal no trabalho (RP): tendencia a autoavaliacao negativa, com declinio no sentimento de competencia.

Esta sindrome acomete quem trabalha de modo continuo sob condicoes precarias, mas os profissionais de saude sao particularmente vulneraveis pela persistente tensao emocional advinda da responsabilidade de cuidar das pessoas (1,2). Estudos que contemplam, ao mesmo tempo, distintas categorias de profissionais de saude encontram maiores niveis entre medicos tanto da propensao a sindrome quanto da ocorrencia de burnout (3-11). A pratica medica tem sido submetida a crescente pressao externa, o que contraria as expectativas de autonomia e dignidade no trabalho, para garantir adesao tecnica a normatizacao de condutas e procedimentos e alcancar maior produtividade. A desvalorizacao social e percebida no desrespeito da populacao com a possibilidade recorrente da violencia nos servicos e ate mesmo de indiciamento judicial (12).

No cotidiano do trabalho coexistem outros estressores que atuam como condicionantes do burnout, abrangendo aspectos individuais (idade, sexo, tempo de profissao, centralidade do trabalho, rede de apoio social) e organizacionais (sobrecarga, riscos e perigos, conflitos interpessoais, desempenho dos papeis, capacitacao, participacao na decisao, recompensas, suporte informacional e social no trabalho) (1,2,4). Apesar dos multiplos elementos envolvidos, o burnout e fortemente associado ao suporte organizacional percebido, que representa um dos mais importantes preditores da EE, fator central da sindrome (3,7,13). A organizacao tanto e considerada como interveniente entre as variaveis do contexto de trabalho e das caracteristicas individuais dos trabalhadores, como mediadora entre o estresse percebido e suas consequencias (13).

Autores identificam a satisfacao no trabalho como um fator de protecao contra o burnout (3,7,14,15). As correlacoes entre estresse, satisfacao e burnout reiteram a relevancia dos fatores organizacionais em detrimento dos fatores pessoais (7,14). Nas tentativas de enfrentamento das pressoes geradoras do estresse laboral cronico sao reconhecidas as limitacoes dos esforcos cognitivos e comportamentais para administrar (reduzir ou tolerar) as demandas que surgem da interacao com o ambiente. A busca de solucoes pessoais para os problemas do trabalho favorece a continuidade de condicoes propicias a sindrome (15,16). Na promocao da saude laboral e na prevencao do burnout, a enfase deve recair sobre os processos organizacionais de melhor suporte ao trabalho (1,13).

Sao diversificados os efeitos do burnout sobre a saude: hipertensao arterial, cefaleia, insonia, mialgia, artralgia, ansiedade, irritabilidade, desmotivacao, desconcentracao, entre outros; e o trabalho: absenteismo, rotatividade, diminuicao da produtividade e qualidade da assistencia (1,2). E essencial aproximar-se a interacao entre elementos dos contextos de trabalho, percepcoes e atitudes dos profissionais, visando contribuir para aumentar a qualidade do trabalho sem diminuir a qualidade de vida do trabalhador. Por isso, a relevancia de um estudo onde se identifica a vulnerabilidade de medicos do sistema publico de saude ao burnout, estabelecendo a frequencia da sindrome e das suas tres dimensoes, considerando alguns fatores sociodemograficos e das condicoes do trabalho que lhes sao associados.

Metodos

Estudo descritivo de corte transversal, censitario, realizado de outubro a novembro de 2009, em Recife, Brasil, num hospital publico de nivel terciario, que atua nas areas de assistencia, ensino e pesquisa. A populacao do estudo foi constituida por medicos do quadro funcional, contratados segundo regimento da Consolidacao das Leis do Trabalho-CLT, com carga horaria que variava entre 20 e 40 horas semanais e atividades desenvolvidas na assistencia ambulatorial, hospitalar e urgencia-emergencia de Pediatria e Tocoginecologia. A partir de uma listagem fornecida pelo servico, atualizada junto aos setores envolvidos, todos os 171 medicos que atendiam aos criterios de inclusao foram convidados a participar. Apos serem informados sobre a pesquisa e assinarem o termo de consentimento livre e esclarecido, receberam o questionario autoaplicavel e anonimo, agendando a data da devolucao com a pesquisadora de campo. Destes, 158 (92,4% do total) devolveram o questionario.

O questionario contemplava duas partes: (1) aspectos sociodemograficos, formacao profissional, condicoes e recompensas do trabalho; (2) Maslach Burnout Inventory-MBI, conformado por escala Likert com 22 questoes sobre as dimensoes do burnout: nove avaliaram a EE, cinco a DP e oito a RP. O MBI foi traduzido para o portugues e validado em 1995, obtendo um alfa de Cronbachde 0,86 na subescala de EE, 0,69 em DP e 0,76 em RP (17). A cada uma das questoes do MBI foram atribuidos graus de intensidade crescente: 1 (nunca), 2 (algumas vezes por ano), 3 (uma vez por mes), 4 (algumas vezes por mes), 5 (uma vez por semana), 6 (algumas vezes por semanas) e 7 (todos os dias). Realizou-se estudo piloto para proceder as adequacoes necessarias a primeira parte do questionario.

O programa Epi Info 6.04d foi utilizado na analise estatistica dos dados. Em cada subescala do MBI a classificacao obedeceu aos criterios de Maslach, para exaustao emocional: alto nivel igual ou maior do que 27; nivel medio-entre 19 e 26; e nivel baixo-igual ou menor do que 18. Para despersonalizacao: alto nivel-igual ou maior do que 13; nivel medio-entre sete e 12; e nivel baixo-igual ou menor do que seis. Para realizacao pessoal: alto nivel-igual ou maior do que 40; nivel medio-entre 34 e 39; e nivel baixo igual ou menor do que 33. A superposicao de pontuacoes altas em EE e DP e pontuacao baixa em RP indicam a ocorrencia de burnout (1,2).

Na analise, estabeleceu-se a associacao entre as variaveis sociodemograficas, da formacao profissional e do trabalho e a frequencia do burnout e de cada uma das tres dimensoes. Diferencas significativas foram avaliadas usando o qui-quadrado e o teste exato de Fisher, quando necessario, com um nivel de significancia de 5%. O termo "tendencias" foi utilizado para descrever resultados nos quais se delineavam diferencas com significancia estatistica entre 0,05 e 0,10. O projeto foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP).

Resultados

Na populacao estudada predominou o genero feminino (83,5%), com mediana de 37,5 anos de idade (intervalo interquartil de 32 a 46 anos) e 70,3% viviam em uniao civil estavel. Ao redor de 81,6% tinham 11 e mais anos de profissao (mediana de 12 anos e intervalo interquartil de sete a 22 anos); mediana do tempo de trabalho no hospital onde foi desenvolvido o estudo de 7,5 anos (intervalo interquartil de tres a 18 anos); 62,6% eram pediatras e 82,9% especialistas na area de atuacao. Proporcao de 71,5% estava vinculada a tres ou mais servicos. Desenvolviam atividades na assistencia hospitalar (82,9%), assistencia ambulatorial (79,7%), ensino em graduacao (55,7%), ensino em pos-graduacao (35,4%) e pesquisa (27,2%). Em torno de 72,8% trabalhavam como plantonistas.

Quando examinadas as questoes das subescalas do MBI, no concernente a EE, os medicos sentiam todos os dias (18,4%) e algumas vezes na semana (41,1%) que estavam esgotados ao terminar o trabalho. Todos os dias (25,9%) e algumas vezes na semana (21,5%) que trabalhavam demais. Algumas vezes na semana ficavam esgotados pela manha ao pensar no trabalho (27,2%). Uma vez ao mes sentiam-se decepcionados com o trabalho (32,9%). Algumas vezes ao ano frustrados com o trabalho (44,3%), no limite de suas possibilidades (40,5%) e estressados por trabalhar com pessoas (34,8%) (Tabela 1).

Em relacao a DP, os medicos sentiam todos os dias (5,1%) e algumas vezes na semana (16,5%) que eram culpabilizados pelos pacientes. Todos os dias (8,2%), algumas vezes na semana (11,4%), uma vez ao mes (19,6%) e algumas vezes ao ano (31,0%) que se tornaram mais duros com as pessoas. Todos os dias (8,2%), algumas vezes na semana (7,6%), uma vez ao mes (15,8%) e algumas vezes ao ano (33,5%) que estavam se enrijecendo emocionalmente. Uma vez ao mes (13,3%) e algumas vezes ao ano (20,3%) que tratavam as pessoas como objetos impessoais. Ao redor de 86,7% nunca deixaram de se importar e 60,1% nunca tratavam os pacientes como objetos impessoais (Tabela 1).

Quanto a RP, os medicos algumas vezes ao ano (10,1%) e uma vez ao mes (21,5%) sentiamse vigorosos no trabalho. Uma vez ao mes sentiam-se estimulados para trabalhar com pessoas (17,1%), obtinham coisas valiosas no trabalho (16,5%) e manejavam os problemas emocionais com calma (14,6%). Todos os dias atendiam facilmente as pessoas (70,3%), tratavam com eficiencia os problemas das pessoas (55,1%), criavam um clima agradavel no trabalho (54,4%) e exerciam influencia positiva na vida das pessoas (51,3%) (Tabela 1).

Desses profissionais, 61,4% apresentavam alto nivel de EE e 36,7% de DP, estando 13,3% com baixo nivel de RP. Em 25,3% e 47,5% foram constatados niveis medios de, respectivamente, EE e DP, enquanto 81,0% manifestaram alto nivel de RP.

Ser especialista na area de atuacao (p < 0,001) estava associado com alto nivel de EE. Um percentual significativamente maior daqueles com ate 10 anos de profissao (p = 0,004) apresentava nivel alto de DP. Um baixo nivel de RP predominou de maneira estatisticamente significante no genero feminino (p = 0,016). Observou-se tendencia a baixa RP entre os medicos que tinham carga horaria semanal de trabalho igual ou maior do que 41 horas (p = 0,050) (Tabela 2).

Uma proporcao significativamente maior dos profissionais que "nunca/as vezes" tinham tempo suficiente para cumprir as tarefas (p = 0,013) e "frequentemente/sempre" realizavam suas tarefas com muita rapidez (p = 0,002) estava com alto nivel de EE. Existiu tendencia a um nivel alto de EE entre aqueles que acumulavam funcoes diferentes no mesmo servico (p = 0,057). Um alto nivel de DP encontrava-se associado a realizar "frequentemente/sempre" suas tarefas com muita rapidez (p = 0,022), constituindo-se como uma tendencia quando "nunca/as vezes" dispunham de tempo suficiente para cumprir as tarefas (p = 0,051). Uma baixa RP prevaleceu com significancia estatistica entre aqueles que "nunca/as vezes" contavam com tempo suficiente (p = 0,043). Em 69,0% dos medicos pelo menos uma das tres dimensoes e em 37,3% pelo menos duas das tres dimensoes indicavam alta propensao ao burnout (Tabela 3).

Um percentual de 5,1% estava com burnout. Realizar "frequentemente/sempre" suas tarefas com muita rapidez (p = 0,011), "nunca/as vezes" dispor de tempo suficiente para cumprir as tarefas (p = 0,018), pertencer ao genero masculino (p = 0,026) e nao ter expectativa de ascensao profissional (p = 0,048) estava associado ao burnout.

Discussao

Neste estudo, a baixa frequencia de burnout (5,1%) resulta, ao menos em parte, da adocao dos criterios de Maslach, referidos por varios autores (1,2), que sao mais rigorosos por contemplar as inter-relacoes entre as tres dimensoes da sindrome. Utilizando este criterio, Grau et al. (5) comprovam prevalencia de burnout entre 2,5% e 5,9% em medicos de distintas especialidades de paises hispano-americanos. No Brasil, Tucunduva et al. (8) encontram 3,0% dos cancerologistas e Barros et al. (10) 7,4% dos medicos intensivistas, acometidos da sindrome. Em contrapartida, Grunfeld et al. (3) desconsideram a multidimensionalidade do burnout que e diagnosticado quando da presenca isolada de nivel alto de EE ou DP, ou nivel baixo em RP. Por este criterio, 69,0% na pesquisa atual; 63,3% na efetuada com intensivistas (10) e 52,3% com os cancerologistas (8) estavam com burnout, pois apresentaram ao menos uma dimensao da sindrome em nivel critico.

Constatou-se proporcao de medicos com alto nivel de EE (61,0%) e de DP (36,7%) maior do que a observada por Grau et al. (4) em hospitais da Catalunha (Espanha): 46,5% de EE e 31,7% de DP, bem como por Grunfeld et al. (3) em Ontario (Canada): 53,3% com nivel alto de EE e 22,1% de DP. Os resultados de Barros et al. (10) em Salvador (BA) mostram quantitativo menor de plantonistas de medicina intensiva com alta EE (47,5%) e DP (24,6%). Tucunduva et al. (8) tambem identificam entre cancerologistas brasileiros um menor percentual de alto nivel de EE (34,1%), sendo igual a alta DP (36,7%).

As respostas aos itens do MBI denotaram uma situacao preocupante, sobretudo porque o burnout e um processo insidioso que se desenvolve ao longo do tempo (1,2). A dimensao EE evidenciou uma forte e persistente percepcao de estar submetido a carga excessiva de trabalho e a tensao dela resultante, a qual se manifestou como cansaco, desgaste e esgotamento cronico. A sobrecarga laboral e uma fonte persistente de estresse, sendo um dos principais preditores da EE que e considerada como etapa inicial e fator central do burnout (3,6,13,18). Tambem despontavam decepcao, frustracao de expectativas e sensacao de nao dispor da energia requerida pelo seu trabalho.

No estudo atual, como em outros (1,13,19,20), a insuficiencia do tempo para efetuar tarefas e a necessidade de realiza-las com muita rapidez estavam estatisticamente associados com altos niveis de EE. A incorporacao dos conceitos de produtividade, rendimento, custo-beneficio, como parte da regulacao do desempenho do medico, redimensiona a racionalidade do seu processo de trabalho que deixa de ser apenas tecnica para ser tambem economica. A produtividade e alcancada pela intensificacao do ritmo de trabalho e as decisoes que envolvem enorme responsabilidade sao tomadas sob pressao do tempo, num contexto de limitado controle dos fatores intervenientes (20).

A regulacao de metas, atividades e meios do trabalho demonstra as relacoes de poder que afetam a dinamica e os resultados institucionais. Assim, representa uma importante area de confronto que origina uma percepcao mais negativa dos contextos de trabalho. Cecilio (21), em experiencia de gestao hospitalar, identifica que os medicos nao aceitam o controle externo. Para Horwitz (12), as obrigacoes produtivas do trabalho medico levam a percepcao de liberdade profissional diminuida, sendo sentidas frequentemente como alienantes.

A tendencia para apresentar niveis altos de EE, constatada quando os profissionais acumulavam funcoes diferentes num mesmo servico, foi observada em outras pesquisas (19,20). A polivalencia provoca uma alta demanda de trabalho, ja que aumenta a carga laboral e a pressao do tempo para efetuacao das tarefas. Tambem acentua a incerteza entre as exigencias das atividades e os conhecimentos e habilidades requeridos para concretiza-las. Essa ambiguidade no desempenho dos papeis torna sempre presente o temor do imprevisivel no dia a dia do trabalho. Alem disso, podem ocorrer conflitos advindos das expectativas dos multiplos papeis a desempenhar (clinico, professor, pesquisador, gerente). A polivalencia deixa mais premente a necessidade de recursos para atendimento das exigencias excessivas da multiplicidade de atribuicoes (19,20).

Apesar da grande proporcao de medicos que conferiam importancia as pessoas atendidas, a dimensao DP revelou o significativo comprometimento da relacao profissional-paciente, um dos principais preditores do burnout (22). A falta de reciprocidade com os pacientes e o distanciamento emocional contraproducente em que o paciente foi tratado com impessoalidade, sao fortes indicativos de que o trabalho estava requerendo um enorme esforco por parte de parcela importante desses profissionais. O medico mantem intenso contato face a face, lida cotidianamente com o sofrimento e a morte de pacientes, apoiando aos familiares num momento critico, alem da frustracao de nao poder curar.

Um elemento que merece destaque na configuracao do burnout e a percepcao pelo profissional da falta de retorno dos beneficiarios de seus servicos (1). As restricoes na expressao de satisfacao, gratidao e respeito pelos pacientes, os quais podem compreender que cuidar e um dever dos medicos, reforcam o sentimento de estar sendo injusticado e deterioram o vinculo profissionalpaciente. Estudos encontram correlacao positiva significativa entre a percepcao de falta de reciprocidade com os pacientes e as duas dimensoes do burnout, EE e DP (1,20,22).

Os sentimentos e as atitudes negativas no trabalho caracteristicos da DP tambem se fizeram presentes de modo significativamente maior entre os medicos que se sentiram pressionados a agir com muita rapidez, aparecendo como tendencia quando o tempo era insuficiente. As obrigacoes produtivas levam os medicos a atender um numero maior de pacientes, precisando fazer muito em pouco tempo, frequentemente sob condicoes inadequadas de trabalho e baixa participacao nas decisoes institucionais (20,22). Autores apontam para o carater recursivo da relacao entre a pressao do tempo e o burnout que compromete cada vez mais a saude do trabalhador (18-20).

A associacao estatistica entre alto nivel de DP e menor tempo de profissao pode decorrer de expectativas nao concretizadas e da dificuldade para vislumbrar maiores possibilidades de melhoria nas condicoes laborais (11,23). Aqueles com mais tempo de profissao sentem o cansaco e o desgaste, mas para manter o otimismo continuam esperando uma solucao, talvez porque estejam mais complacentes ou extraiam aspectos positivos de experiencias negativas. (23) lembra que aqueles mais antigos na profissao que estavam insatisfeitos com o trabalho e tiveram oportunidade de mudanca, ja podem ter seguido outros caminhos.

Convem atentar-se para dois aspectos relacionados a magnitude dos altos niveis de DP na presente pesquisa: (a) pode estar subdimensionada pela possivel interferencia da desejabilidade social nas respostas dadas aos itens dessa dimensao, pois os mesmos desafiam a imagem profissional do medico; (b) os resultados se referem a uma populacao com nitida predominancia do genero feminino que, considerando os modelos de socializacao ainda hegemonicos, e condicionado para o cuidado (23,24). Escamilla-Quintal et al. (25) argumentam que a adocao de uma atitude fria, distante, em relacao aos pacientes implicaria para as mulheres em ir de encontro as caracteristicas que definem o seu papel de genero, podendo aumentar a sua ansiedade e esgotamento.

Identificou-se nivel alto de RP (81,0%), superior aos 32,7% encontrado por Grau et al. (4) na Catalunha, aos 45,1% referido por Barros et al. (10) e aos 76,6% mencionado por Tucunduva et al. (8). O baixo nivel de RP foi significativamente maior entre profissionais do genero feminino e com tempo insuficiente para efetuar o trabalho. A literatura e contraditoria quanto a associacao entre genero e satisfacao no trabalho que seria mais influenciada pelo suporte organizaciona (l4,5,24). Contudo, Gil-Monte (24) aponta a falta de reciprocidade percebida como um preditor significativo de RP entre as mulheres. Grau et al. (5) encontram menor pontuacao em RP entre as mulheres.

No que se refere a percepcao de falta de reciprocidade entre instituicao e profissionais cabe atentar-se, tambem, para o vinculo empregaticio (embora este aspecto nao tenha sido incluido na atual investigacao), que pode gerar incerteza em relacao ao futuro profissional, originando um forte sentimento de ser injusticado, de falta de retribuicao da organizacao pelo trabalho realizado. A inseguranca quanto a manutencao do emprego e um fator relacionado a satisfacao no trabalho que aumenta a vulnerabilidade ao burnout, em particular, na presenca de desgaste emo cional e desestimulo advindo da discrepancia entre as condicoes de trabalho existentes e aquelas que deveriam existir (13,20).

Neste estudo, o burnout estava estatisticamente associado a pressao do tempo e a falta de expectativa de ascensao profissional. Diversos autores relacionam a sindrome com os obstaculos para ascender e obter reconhecimento de seu trabalho, reiterando a importancia da percepcao de suporte organizacional insuficiente sobre a saude no trabalho (13,23). Tambem se observou associacao entre burnout e genero masculino. Aspecto particularmente relevante dado ao elevado percentual de mulheres participantes, que poderia ter encoberto a diferenca existente em funcao do genero. Pesquisas desenvolvidas com professores tem mostrado maior vulnerabilidade do genero masculino em comparacao com o feminino, o que levou a suposicao de que mulheres sao mais flexiveis e mais abertas para lidar com as varias pressoes presentes na profissao de ensino (26). Gil-Monte (24) recomenda que as acoes preventivas considerem os papeis atribuidos aos generos no processo de socializacao.

Parcela importante dos medicos estava em "quase-burnout", pois pelo menos duas das tres dimensoes indicavam forte propensao a sindrome, denotando extrema vulnerabilidade. A alta RP, certamente, atenuava as consequencias da superposicao de altos niveis de EE e DP, podendo justificar este estagio de transicao em direcao a sindrome. Estudos nacionais e internacionais identificam uma correlacao negativa da satisfacao no trabalho com a RP (3,6,15). Visser et al. (14) constatam o efeito protetor da satisfacao no trabalho contra as consequencias negativas do estresse ocupacional e a importancia da condicao de trabalho percebida no manejo de ambos: estresse ocupacional e satisfacao no trabalho.

As estrategias desenvolvidas para responder as altas demandas do trabalho, tidas como excessivas para os recursos individuais, tanto podem favorecer como dificultar a ocorrencia de burnout. E preocupante a utilizacao de estrategias de escape, facilitadoras da sindrome (13,15), como tratamento frio e distanciamento emocional dos pacientes. A concepcao do burnout como um problema coletivo e organizacional deixou mais nitido o carater paliativo de uma intervencao que nao esteja voltada as mudancas nas condicoes de trabalho1, (13-15). Logo, na prevencao do burnout, e fundamental dar enfase as transformacoes requeridas pelos aspectos situacionais proprios dos contextos laborais.

Colaboradores

RAS Lima, AI Souza, RH Galindo e KVO Feliciano participaram igualmente de todas as etapas de elaboracao do artigo.

Artigo apresentado em 05/09/2011

Aprovado em 09/10/2011

Versao final apresentada em 13/11/2011

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Raitza Araujo dos Santos Lima [1]

Ariani Impieri de Souza [1]

Renata Hirschle Galindo [1]

Katia Virginia de Oliveira Feliciano [1]

[1] Diretoria de Pesquisas, Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira. Rua dos Coelhos 300, Boa Vista. 50070-550 Recife PE. raitza05@yahoo.com.br
Tabela 1. Percentual da frequencia relativa de
cada item do MaslachBurnoutInventory (MBI), dentro
da correspondente dimensao, para os medicos de
servico de referencia do Recife, Pernambuco,
Brasil, 2009

                                                         Pontuacoes (%)
                                                          (n=158)

Dimensoes Itens                                         1      2
Exaustao emocional
  Sentir-se decepcionado com o trabalho                 8.2    36.7
  Sentir-se esgotado apos o termino do trabalho         2.5    8.2
  Sentir-se esgotado pela manha ao pensar no trabalho   10.1   22.8
  Sentir-se cansado ao trabalhar todo dia com pessoas   25.9   32.9
  Sentir que o trabalho esta lhe desgastando            5.1    28.5
  Sentir-se frustrado com o trabalho                    19.0   44.3
  Sentir que esta trabalhando demais                    1.9    19.6
  Sentir que trabalhar com pessoas e estressante        19.6   34.8
  Sentir-se no limite de suas possibilidades            10.8   40.5
Despersonalizacao
  Tratar as pessoas como objetos impessoais             60.1   20.3
  Tornou-se mais duro com as pessoas                    24.7   31.0
  O trabalho esteja o enrijecendo emocionalmente        31.0   33.5
  Nao importar-se com as pessoas que atende             86.7   8.9
  Os pacientes o culpam por seus problemas              30.4   25.9
Baixa realizacao profissional
  Atende facilmente as pessoas                          0.6    2.5
  Trata com eficiencia os problemas das pessoas         1.3    1.9
  Exerce influencia positiva na vida das pessoas        -      1.9
  Sentir-se vigoroso no trabalho                        3.8    10.1
  Cria um clima agradavel no trabalho                   0.6    3.8
  Sentir-se estimulado apos trabalhar com pessoas       2.5    4.4
  Consegue coisas valiosas no trabalho                  1.9    5.7
  Manobra os problemas emocionais com calma             0.6    6.3

                                                       Pontuacoes (%)
                                                          (n=158)

Dimensoes Itens                                         3      4
Exaustao emocional
  Sentir-se decepcionado com o trabalho                 32.9   7.0
  Sentir-se esgotado apos o termino do trabalho         21.5   -
  Sentir-se esgotado pela manha ao pensar no trabalho   25.9   3.2
  Sentir-se cansado ao trabalhar todo dia com pessoas   20.3   3.2
  Sentir que o trabalho esta lhe desgastando            27.2   -
  Sentir-se frustrado com o trabalho                    20.3   3.2
  Sentir que esta trabalhando demais                    24.7   0.6
  Sentir que trabalhar com pessoas e estressante        22.2   3.2
  Sentir-se no limite de suas possibilidades            17.7   5.1
Despersonalizacao
  Tratar as pessoas como objetos impessoais             13.3   0.6
  Tornou-se mais duro com as pessoas                    19.6   1.3
  O trabalho esteja o enrijecendo emocionalmente        15.8   1.3
  Nao importar-se com as pessoas que atende             2.5    -
  Os pacientes o culpam por seus problemas              16.5   2.5
Baixa realizacao profissional
  Atende facilmente as pessoas                          3.2    -
  Trata com eficiencia os problemas das pessoas         8.2    0.6
  Exerce influencia positiva na vida das pessoas        11.4   -
  Sentir-se vigoroso no trabalho                        21.5   0.6
  Cria um clima agradavel no trabalho                   10.1   2.5
  Sentir-se estimulado apos trabalhar com pessoas       17.1   1.3
  Consegue coisas valiosas no trabalho                  16.5   0.6
  Manobra os problemas emocionais com calma             14.6   0.6

                                                         Pontuacoes (%)
                                                          (n=158)

Dimensoes Itens                                         5     6
Exaustao emocional
  Sentir-se decepcionado com o trabalho                 4.4   9.5
  Sentir-se esgotado apos o termino do trabalho         8.2   41.1
  Sentir-se esgotado pela manha ao pensar no trabalho   4.4   27.2
  Sentir-se cansado ao trabalhar todo dia com pessoas   2.5   10.8
  Sentir que o trabalho esta lhe desgastando            3.8   23.4
  Sentir-se frustrado com o trabalho                    2.5   7.6
  Sentir que esta trabalhando demais                    5.7   21.5
  Sentir que trabalhar com pessoas e estressante        1.3   14.6
  Sentir-se no limite de suas possibilidades            3.8   15.2
Despersonalizacao
  Tratar as pessoas como objetos impessoais             1.3   2.5
  Tornou-se mais duro com as pessoas                    3.8   11.4
  O trabalho esteja o enrijecendo emocionalmente        2.5   8.2
  Nao importar-se com as pessoas que atende             -     1.9
  Os pacientes o culpam por seus problemas              3.2   16.5
Baixa realizacao profissional
  Atende facilmente as pessoas                          1.3   22.2
  Trata com eficiencia os problemas das pessoas         2.5   30.4
  Exerce influencia positiva na vida das pessoas        3.8   31.6
  Sentir-se vigoroso no trabalho                        3.2   34.2
  Cria um clima agradavel no trabalho                   1.9   26.6
  Sentir-se estimulado apos trabalhar com pessoas       3.8   36.1
  Consegue coisas valiosas no trabalho                  3.8   30.4
  Manobra os problemas emocionais com calma             2.5   34.8

                                                       Pontuacoes (%)
                                                       (n=158)

Dimensoes Itens                                         7
Exaustao emocional
  Sentir-se decepcionado com o trabalho                 1.3
  Sentir-se esgotado apos o termino do trabalho         18.4
  Sentir-se esgotado pela manha ao pensar no trabalho   6.3
  Sentir-se cansado ao trabalhar todo dia com pessoas   4.4
  Sentir que o trabalho esta lhe desgastando            12.0
  Sentir-se frustrado com o trabalho                    3.2
  Sentir que esta trabalhando demais                    25.9
  Sentir que trabalhar com pessoas e estressante        4.4
  Sentir-se no limite de suas possibilidades            7.0
Despersonalizacao
  Tratar as pessoas como objetos impessoais             1.9
  Tornou-se mais duro com as pessoas                    8.2
  O trabalho esteja o enrijecendo emocionalmente        7.6
  Nao importar-se com as pessoas que atende             -
  Os pacientes o culpam por seus problemas              5.1
Baixa realizacao profissional
  Atende facilmente as pessoas                          70.3
  Trata com eficiencia os problemas das pessoas         55.1
  Exerce influencia positiva na vida das pessoas        51.3
  Sentir-se vigoroso no trabalho                        26.6
  Cria um clima agradavel no trabalho                   54.4
  Sentir-se estimulado apos trabalhar com pessoas       34.8
  Consegue coisas valiosas no trabalho                  41.1
  Manobra os problemas emocionais com calma             40.5

(1.) Nunca; (2.) Algumas vezes por ano; (3.) Uma
vez por mes; (4.)Algumas vezes por mes; (5.) Uma
vez por semana; (6.) Algumas vezes por semana;
(7.) Todos os dias.

Tabela 2. Niveis das tres dimensoes do burnout, segundo
genero e caracteristicas profissionais e do trabalho, entre
medicos de servico de referencia do Recife, Pernambuco, Brasil, 2009

                                     Exaustao emocional
          Variaveis
                                Baixo   Medio   Alto   p
                                %       %       %

Genero
  Masculino (n = 26)            3.8     23.1    73.1   0,241
  Feminino (n = 132)            15.2    25.8    59.0
Tempo de profissao (anos)
  1-10 (n = 29)                 3.4     27.6    69.0   0,224
  > 11 (n = 129)                15.5    24.8    59.7
Area de atuacao
  Pediatria (n = 99)            14.1    28.3    57.6   0,428
  Ginecologia (n = 59)          11.9    20.3    67.8
Especialista na area que atua
  Sim (n = 131)                 15.3    19.1    65.6   0,000
   Nao (n = 27)                 3.7     55.6    40.4
Carga horaria semanal (horas)
  < 40 (n = 30)                 16.7    33.3    50.0   0,360
  > 41 (n = 128)                12.5    23.4    64.1

                                     Despersonalizacao
          Variaveis
                                Baixo   Medio   Alto   p
                                %       %       %

Genero
  Masculino (n = 26)            7.8     46.1    46.1   0,355
  Feminino (n = 132)            17.4    47.8    34.8
Tempo de profissao (anos)
  1-10 (n = 29)                 3.4     34.5    62.1   0,004
  > 11 (n = 129)                18.6    50.4    31.0
Area de atuacao
  Pediatria (n = 99)            16.2    43.4    40.4   0,384
  Ginecologia (n = 59)          15.2    54.3    30.5
Especialista na area que atua
  Sim (n = 131)                 17.5    44.3    38.2   0,169
   Nao (n = 27)                 7.4     63.0    29.6
Carga horaria semanal (horas)
  < 40 (n = 30)                 16.7    56.7    26.7   0,428
  > 41 (n = 128)                15.6    45.3    39.1

                                   Realizacao profissional
          Variaveis
                                Baixo   Medio   Alto      p
                                %       %       %

Genero
  Masculino (n = 26)            30.8    3.8     65.4   0,016
  Feminino (n = 132)            9.8     6.1     84.1
Tempo de profissao (anos)
  1-10 (n = 29)                 13.8    -       86.2   0,341
  > 11 (n = 129)                13.2    7.0     79.8
Area de atuacao
  Pediatria (n = 99)            16.2    6.0     77.8   0,359
  Ginecologia (n = 59)          8.5     5.1     86.4
Especialista na area que atua
  Sim (n = 131)                 11.5    5.3     83.2   0,275
   Nao (n = 27)                 22.2    7.4     70.4
Carga horaria semanal (horas)
  < 40 (n = 30)                 26.7    6.7     66.6   0,050
  > 41 (n = 128)                10.2    5.5     84.4

Tabela 3. Niveis das tres dimensoes do burnout, segundo
 condicoes de trabalho e recompensas entre medicos de
servico de referencia do Recife, Pernambuco, Brasil, 2009

                                        Exaustao emocional
              Variaveis
                                        Baixo   Medio   Alto   p
                                         %       %       %

Tempo suficiente para cumprir tarefas
  Nunca/As vezes (n = 53)               3.8     20.8    75.4   0,013
  Frequente/Sempre (n = 105)            18.1    27.6    54.3
Frequencia com que faz tarefas com
  muita rapidez
  Nunca/As vezes (n = 66)               19.7    34.8    45.5   0,002
  Frequente/Sempre (n = 92)             8.7     18.5    72.8
Acumula funcoes diferentes no
  mesmo servico
  Sim (n = 70)                          11.4    17.1    71.5   0,057
  Nao (n = 88)                          14.8    31.8    53.4
Salario compativel com esforco
  empregado
  Sim (n = 21)                          23.8    33.3    42.9   0,136
  Nao (n = 137)                         11.7    24.1    64.2
Possibilidade de ascensao profissional
  Sim (n = 127)                         12.6    27.6    59.8   0,412
  Nao (n = 31)                          16.1    16.1    67.8

                                        Despersonalizacao
              Variaveis
                                        Baixo   Medio   Alto   p
                                         %       %       %

Tempo suficiente para cumprir tarefas
  Nunca/As vezes (n = 53)               9.4     41.5    26     0,051
  Frequente/Sempre (n = 105)            19.0    50.5    32
Frequencia com que faz tarefas com
  muita rapidez
  Nunca/As vezes (n = 66)               19.7    56.1    16     0,022
  Frequente/Sempre (n = 92)             13.0    41.3    42
Acumula funcoes diferentes no
  mesmo servico
  Sim (n = 70)                          10.0    48.6    29     0,174
  Nao (n = 88)                          20.5    46.5    29
Salario compativel com esforco
  empregado
  Sim (n = 21)                          23.8    47.6    6      0,493
  Nao (n = 137)                         14.6    47.4    52
Possibilidade de ascensao profissional
  Sim (n = 127)                         17.3    46.5    46     0,576
  Nao (n = 31)                          9.7     51.6    12

                                        Realizacao profissional
              Variaveis
                                        Baixo   Medio   Alto   p
                                         %       %       %

Tempo suficiente para cumprir tarefas
  Nunca/As vezes (n = 53)               22.6    3.8     73.6   0,043
  Frequente/Sempre (n = 105)            8.6     6.7     84.8
Frequencia com que faz tarefas com
  muita rapidez
  Nunca/As vezes (n = 66)               10.6    7.6     81.8   0,515
  Frequente/Sempre (n = 92)             15.2    4.3     80.5
Acumula funcoes diferentes no
  mesmo servico
  Sim (n = 70)                          12.9    2.9     84.2   0,375
  Nao (n = 88)                          13.6    8.0     78.4
Salario compativel com esforco
  empregado
  Sim (n = 21)                          14.2    4.8     81.0   0,973
  Nao (n = 137)                         13.2    5.8     81.0
Possibilidade de ascensao profissional
  Sim (n = 127)                         11.8    4.7     83.5   0,269
  Nao (n = 31)                          19.3    9.7     71.0
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Author:dos Santos Lima, Raitza Araujo; Impieri de Souza, Ariani; Hirschle Galindo, Renata; de Oliveira Feli
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Apr 1, 2013
Words:6768
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