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Vida e morte nos jogos da Antiguidade: entre poder, competicao e religiao.

Introducao

Este dossie constitui uma coletanea de artigos, em grande parte oriundos de conferencias apresentadas no simposio intitulado "Vida e morte nos jogos da Antiguidade: entre competicao, poder e religiao", realizado em agosto de 2016 e organizado pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo (MAE-USP), pelo Prof. Dr. Vagner Carvalheiro Porto e pela Profa. Dra. Camila Diogo de Souza, em parceria com a Universidade Federal de Sao Paulo (UNIFESP), representada pelo Prof. Dr. Gilberto da Silva Francisco e com financiamento da Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo (FAPESP).

O evento configurou uma parceria entre o LARP (Laboratorio de Arqueologia Romana Provincial) e o TAPHOS (Grupo de Pesquisa em Praticas Mortuarias no Mediterraneo Antigo), ambos sediados no MAE-USP, contando com tres dias de apresentacoes, uma conferencia de abertura e uma de encerramento, e quatro sessoes tematicas com duas conferencias em cada, as quais foram mediadas por discussoes de carater interdisciplinar que permitiram delinear um panorama mais amplo e proficuo no debate e nas reflexoes sobre as performances das competicoes em seus multiplos aspectos e desdobramentos na vida e na morte, bem como seus significados em diferentes sociedades, regioes e recortes cronologicos no Mediterraneo Antigo.

O carater interdisciplinar do simposio foi marcado pela participacao de professores e pesquisadores nas areas da Arqueologia, Historia Antiga e Letras Classicas. Os textos que compoem esta coletanea versam sobre diferentes tipos de fontes documentais, textuais e arqueologicas, epigraficas, iconograficas e funerarias. Nossa intencao foi inserir e explorar as multiplas leituras sobre a tematica das competicoes na Antiguidade no contexto dos jogos olimpicos realizados no Rio de Janeiro em 2016.

O titulo do evento e desta coletanea define e explora de maneira clara e efetiva os objetivos da proposta original, apresentando algumas perspectivas e abordagens de estudo de um tema tao presente e multifacetado nas sociedades do Mundo Antigo, cuja relevancia e exteriorizada e atua de forma significativa no mundo contemporaneo por meio da realizacao quadrienal dos Jogos Olimpicos. E evidente que a semantica e os usos do termo jogos nao sao analogos nos contextos socioculturais geografica e temporalmente aqui apresentados.

Etimologicamente, jogo e jogar sao palavras de origem latina (jocus, jocare) cuja semantica relaciona-se a um carater ludico (ludus do latim) enquanto uma acao humana caracterizada por puerilidade, frivolidade, despreocupacao, brincadeira, gracejo, humor, alegria, ironia e, tambem, malicia. Nesse sentido, sao atividades associadas a recreacao do espirito, ao relaxamento, prazer e descontracao, distracao, entretenimento e divertimento. A ludicidade pode ser entendida, assim, como uma "tendencia natural do ser humano" (Lopes 2004).

Pesquisadores como Brougere (2003), Huizinga (2004), D'Avila (2006), Lopes (1998, 2003, 2011) e Luckesi (2002, 2005, 2007), por exemplo, indicam o carater paradoxal e polissemico do vocabulo a partir de discussoes epistemologicas do termo jogo por meio de abordagens historicas, antropologicas, sociologicas, psicologicas e pedagogicas. A ludicidade dos jogos em associacao com as atividades esportivas, nesse sentido, tambem e caracterizada pelos seus referentes conceituais inseridos em um contexto historico-cultural especifico.

A nocao de diversao atrelada a acao de jogar enquanto atividades ludicas que ocupam o tempo ocioso e resultam no relaxamento, no descanso e no prazer constitui uma construcao da modernidade, sobretudo, decorrente da normatizacao, especializacao e otimizacao do tempo criadas pela Revolucao Industrial (Huizinga 2004; Luckesi 2007). Tal nocao caracteriza o binario trabalho e lazer enquanto conceitos contrastantes, em oposicao; porem, simultaneamente, compreendem necessidades humanas complementares.

E interessante notar que o termo divertir (do latim divertere) denota a acao de "voltar-se para outra direcao", "virar para outro lado", isto e, desviar a atencao em uma determinada atividade para uma outra, distrair, confundir. Jogar, portanto, significa elaborar estratagemas com o proposito de alcancar a vitoria, seja na pratica de atividades de lazer, como jogos de azar, nas competicoes esportivas ou, ainda, nas atividades belicas por meio da distracao do inimigo. As ideias e conceitos das competicoes esportivas no ambito do fair play e do espirito esportivo enquanto uma pratica em que "o importante e competir" encontram suas raizes na atualidade e na essencia dos jogos olimpicos contemporaneos.

Na Antiguidade, os jogos relacionados as atividades esportivas fundamentam-se ao vocabulo agon (do grego, competicao) como um elemento fundamental na manutencao da vida e encontra suas origens e complementaridade nas honras e rituais de glorificacao e superacao da morte por meio da manutencao da memoria. O espirito agonistico pode adquirir signos e significados distintos na documentacao textual e arqueologica (iconografica, por exemplo) em diferentes contextos historicos da Antiguidade, por exemplo desde a Proto-Historia grega ate o periodo romano.

Todavia, esse espirito agonistico e marcado pela violencia, agressividade, performance acrobatica e artistica, tendo sido em muitos dos casos apresentados nas conferencias ministradas durante o simposio. As valorosas contribuicoes deste volume demonstram que os significados e as funcoes das competicoes atleticas na Antiguidade se distanciam da semantica do termo jogos olimpicos nas diferentes sociedades do Mediterraneo Antigo e nas sociedades atuais. Alem disso, as cerimonias religiosas e as exequias funebres que apresentam a execucao de performances agonisticas na Antiguidade envolvem, muitas vezes, expressoes religiosas, de poder e estatuto social que transpoem a esfera individual e adquirem funcoes e papeis na esfera das representacoes coletivas.

Desde expressoes mais caracteristicas da robustez fisica do individuo nas competicoes atleticas e esportivas, incluindo manifestacoes de poder identitario de um grupo, de uma comunidade, de uma sociedade, e ainda, de uma cultura, discutimos e debatemos as diferentes performances dos jogos (modalidades de competicoes variadas) na Antiguidade dotadas de significados religiosos, sagrados, sociais e politicos que transcendem as esferas da vida e tentam ultrapassar a inevitabilidade da morte.

As conferencias das quatro sessoes apresentadas nos dois dias de evento mostraram os significados religiosos, sociais e politicos das performances das mais variadas modalidades de competicoes permeando comunidades do denominado "mundo grego" em diferentes recortes cronologicos da Proto-Historia e da Historia da Grecia Antiga, bem como no mundo romano e, ainda, com intervencoes sobre sociedades no norte da Africa (no Egito e em Cartago).

Cintia Alfieri Gama indica que as atividades "esportivas" no Egito Antigo teriam ultrapassado os limites de uma acao fisica, permeando diversos niveis de compreensao, ate o religioso.

Haiganuch Sarian, a partir do estudo de caso de Teogenes, atleta grego divinizado, conclui que, na Grecia Antiga, a conquista da vitoria nas competicoes esportivas possui importancia e desdobramento cruciais na vida religiosa.

Fabio de Souza Lessa, por meio da analise iconografica da producao vascular atica, relaciona as performances corporais das modalidades competitivas distintas como produto sociocultural plural de representatividade.

Fabio Augusto Morales reflete sobre a interacao entre cultura agonistica, praticas evergeticas e processos de integracao a partir de uma abordagem de analise espacial que visa tracar a historia das paisagens urbanas em Atenas durante o seculo II a.C.

Lilian de Angelo Laky discute o papel dos jogos olimpicos mediante o aspecto religioso, considerando o culto de Zeus em Olimpia no processo de mobilizacao das elites e da afirmacao de identidades politicas, etnicas e regionais nos periodos arcaico e classico.

Fabio Vergara Cerqueira analisa as funcoes da musica, acompanhamento, comunicacao e status social que valorizam e enfatizam o desempenho fisico dos atletas nos jogos em contextos helenistico e romano imperial a partir das representacoes iconograficas e do registro literario da trombeta.

David M. Pritchard estabelece a relacao entre guerra e atividades esportivas na Atenas do periodo classico, demonstrando que a democratizacao da guerra, ao contrario do esperado, fortaleceu e legitimou o esporte enquanto uma atividade da elite.

Maria Aparecida de Oliveira Silva, por meio de uma abordagem filologica, examina a hegemonia espartana nos Jogos Olimpicos da era arcaica a partir da relacao intrinseca entre o papel da educacao fundamentada por valores aristocraticos agonisticos.

Maria Cristina Nicolau Kormikiari destaca o conceito de embeddedness cunhado por K. Polanyi ao demonstrar o imbricamento do aspecto religioso aos jogos antigos. A autora tambem enfatiza as festividades ligadas as divindades punicas e os contextos em que se realizavam os jogos.

Vagner Carvalheiro Porto observa a partir da documentacao escrita e arqueologica os jogos, espetaculos e competicoes que ocorriam na regiao da Palestina de epoca romana. Aponta o conceito de liberalitas Augusti conceito este que revela a generosidade de Herodes, rei-construtor, associada a insercao da romanidade na regiao a partir dos jogos e espetaculos.

Yves Rolland encerra o volume demonstrando que o cliche que opoe o "belo atleta" grego do austero soldadocampones romano nao esta relacionado com as atividades entendidas como "praticas esportivas" em contextos romanos a partir da analise de documentacao historica e arqueologica.

Finalmente, nao poderiamos deixar de elencar alguns agradecimentos em relacao ao evento e a composicao desta obra instigante e enriquecedora. Ao apoio do MAE enquanto instituicao propulsora do evento, em particular a Diretora Profa. Dra. Maria Cristina de Oliveira Bruno e todos os funcionarios envolvidos, em especial, Cleberson Moura pelo incentivo e por sua total disponibilidade, vontade e assistencia em um trabalho voluntario de registro visual do evento de importancia fundamental no processo de divulgacao e difusao do conhecimento e das pesquisas academicas.

Agradecemos tambem aos autores que contribuiram com suas pesquisas para enriquecer e pluralizar a tematica geral do evento e da obra, e a Profa. Dra. Maria Beatriz Borba Florenzano pela redacao do prefacio.

Boa leitura!

Referencias bibliograficas

BROUGERE, G. 2003. Jogo e educacao. Artmed, Porto Alegre.

D'AVILA, C.M. 2006. Eclipse do ludico. Revista da FAEEBA--Educacao e Contemporaneidade, 15: 15-25.

HUIZINGA, J. 2004. Homo Ludens. Perspectiva, Sao Paulo.

LOPES, M.C. 1998. Comunicacao e ludicidade na formacao do cidadao pre-escolar. 1998. Tese de doutorado em Ciencias e Tecnologias da Comunicacao, Universidade de Aveiro, Portugal.

LOPES, M.C. 2003. Comunicacao humana: contributos para a busca dos sentidos do humano. Universidade de Aveiro, Aveiro.

LOPES, M.C. 2004. Ludicidade humana: contributos para a busca dos sentidos do humano. Universidade de Aveiro, Aveiro.

LOPES, M.C. 2011. From the Ecology of the Human Spirit to the Development of the Orchestral Theory of Communication: the inclusion of the medium message axiom. In: International Technology, Education and Development Conference, Valencia, 3935-3940.

LUCKESI, C.C. 2002. Ludicidade e atividades ludicas: uma abordagem a partir da experiencia interna. Educacao e Ludicidade, 2: 22-60.

LUCKESI, C.C. 2005. Formalidade e criatividade na pratica educativa. ABC Educatio: a revista da Educacao, 6: 28-29.

LUCKESI, C.C. 2007. Ludicidade e desenvolvimento humano. Educacao e Ludicidade, 4: 11-19.

Camila Diogo de Souza *

Vagner Carvalheiro Porto **

(Organizadores)

* Pos-doutoranda do Programa de Pos-Graduacao em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo (MAE/USP). <caumilasouza@gmail.com>

** Professor de Arqueologia Classica do Programa de Pos-Graduacao em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo (MAE/USP). <vagnerporto@usp.br>
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Souza, Camila Diogo de; Porto, Vagner Carvalheiro
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2018
Words:1758
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