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Viaje al centro de la Tierra: la geopolitica del heartland.

Journey to the Center of the Earth: the geopolitics of the heartland

1. Introducao

O presente artigo tem como objetivo destacar as principais carateristicas historicas e geopoliticas da Asia Central. O argumento central e o de que esta e uma regiao de grande importancia na conjuntura economica atual, em resultado da sua posicao estrategica enquanto elo de ligacao entre o Ocidente e o Oriente, espaco de afirmacao e competicao das grandes potencias.

Em alternativa a observacao participante e nao participante, tecnicas de dificil aplicacao ao presente objeto de estudo, recorreu-se a entrevista semiestruturada. Optou-se por entrevistar especialistas de Organizacoes Nao-Governamentais trabalhando no terreno, bem como staff de embaixadas de paises terceiros nas republicas centro-asiaticas, entre outros. Noutros casos, os entrevistados eram naturais do pais centro-asiatico alvo de estudo. A pesquisa de campo foi efetuada, atraves de entrevistas realizadas nao so em Portugal, quer no ambito das duas deslocacoes a Asia Central, uma de 3 a 11 de setembro de 2011 ao Cazaquistao, a convite da Diretora do Suleimenov Institute, em Almaty, e a segunda deslocacao de 28 de setembro a 18 de outubro de 2012 a dois outros paises, alem do Cazaquistao: Quirguistao e Tajiquistao (entre as principais cidades visitadas destaquemos Almaty, Bishkek, Naryn, Osh, Dushanbe) (2).

A Asia Central e uma das regioes-pivo do mundo. Esta localizada no nucleo do espaco eurasiatico continental e constitui uma ligacao crucial entre varias economias robustas e dinamicas, como as da China, Uniao Europeia, India, Japao e Russia (OCDE, 2011: 2). A Asia Central deve a sua importancia ao vasto potencial economico e localizacao geoestrategica de que e dotada, tendo vindo a converterse, progressivamente, num centro economico mundial. Em 1998, "[uma] previsao inicial otimista", apontava para que "a quantidade comprovada ou recuperavel de reservas petroliferas existentes na regiao do Caspio e Asia Central" fosse de "200 bilioes de barris", embora "a maioria dos geologos aceite a estimativa de 40 a 60 bilioes de barris para a base de reservas da regiao" (U.S. Congressional Record, 1998: 11). Cerca de 15 anos depois da previsao acima mencionada, um relatorio especial preparado para a regiao do Caspio e Asia Central, mantem, praticamente, os mesmos numeros, ou seja "estima-se que o total das reservas de petroleo, da regiao, seja superior a 60 bilioes de barris, sendo que algumas previsoes apontam, inclusive, para 200 bilioes de barris" (Global Business Reports, 2012: 1).

No contexto do novo atlas energetico, a Asia Central situa-se numa regiao estrategica, com fortes vinculos as regioes vizinhas. O seu desenvolvimento depende, antes de mais, dos acessos ao resto do mundo. A Asia Central e uma parte importante do sistema politico e economico mundial, sendo "rodeada por algumas das economias mais dinamicas do mundo, entre as quais, tres dos chamados BRICs (Russia, India e China)", (OCDE, 2011: 10). Como sublinha Armando Marques Guedes3 (2011), "a Asia Central e, de algum modo, uma zona charneira", a qual tem vindo "a reganhar, indubitavelmente, importancia conjuntural estrutural extraordinaria". De acordo com este especialista, "se houve tres grandes marcas do seculo XXI, conflitos que tiveram impacto efetivo na reconstrucao e criacao de uma nova ordem internacional, estes foram o do Afeganistao, o do Iraque e a invasao da Georgia pela Federacao Russa" (idem). Curiosamente, segundo o autor, "estes tres conflitos ocorreram na Asia Central". De notar ainda que se ha "um conflito que a humanidade receia atualmente", este envolve o Irao, que nao e mais que "a extensao sul da Asia Central" (idem). Durante seculos, a Asia Central tem sido o cruzamento da Eurasia, ou, como observa Jack Caravelli4 (2011), "a intersecao entre o Oriente e o Ocidente", o que torna, segundo este autor, a regiao 'interessante'. Efetivamente, ela e o ponto de confluencia de "quatro civilizacoes que tem, simultaneamente, controlado e sido controladas pelos povos centro-asiaticos" (Asimov e Bosworth, 1998: 33). Por outro lado, as civilizacoes que dominam a regiao tem sido capazes de exercer a sua influencia em outras partes do mundo.

2. Os meandros da historia

Antes da chegada dos russos, a Asia Central era uma entidade integrada ao nivel cultural, linguistico e religioso. O processo de colonizacao, iniciado pela Russia czarista, constituiu "o ponto de partida para a fragmentacao da regiao", tendo sido especialmente concebido para apoiar a estrutura de poder do colonizador (Bacon, 1966: 22). Esta logica de fragmentacao foi continuada e reforcada pelos sovietes. Fourniau (2006: 22) explica que, do ponto de vista historico, "a regiao fora quer integrada em Imperiosmundo, durante periodos muito curtos, quer dividida durante longos periodos". As varias entidades que compoem a Asia Central correspondem, frequentemente, a "Estados sucessores desses Imperiosmundo (como os Estados soberanos da atualidade sao os sucessores das Republicas Sovieticas)", (idem).

Segundo Gleason (1997: 27), "os primeiros habitantes da Asia Central eram nomadas, que se deslocaram do norte e do leste para ocidente e para sul". Os nomes regionais 'Transoxiana' ou 'Ma Wara'un-Nahr', entre outras designacoes para a Asia Central, resultaram das "invasoes estrangeiras" (Dani e Masson, 1992: 7). A governacao arabe, durante os seculos 9.[grados] e 10.[grados], sucedeu a dinastia Samanid da Persia. A era do Grande Khan dos Mongois, Chingis Khan, teve inicio no seculo XIII. O imperio de Chingis Khan deixou um legado de linguas turquicas, que substituiram o persa e o arabe. Os mongois destruiram os principais centros de aprendizagem e comercio persas e arabes, o que contribuiu para que as linguas turquicas se tornassem dominantes na regiao. Depois do falecimento do Grande Khan em 1227, os seus descendentes dividiram a Asia Central, e "a regiao permaneceu dividida ate a governacao de Timur, 'o coxo', o qual uniu as pequenas tribos turcas a meio do seculo XIV" (Dani e Masson, 1992: 28). Segundo Hye Lee (2012: 5), "os russos tiveram um primeiro contato com a Asia Central em 1715 quando Pedro o Grande enviou a primeira expedicao militar russa para a estepe cazaque, porem, o verdadeiro esforco para conquistar a regiao teve lugar no seculo XIX, por volta de 1860". A partir de entao, os vales da Asia Central foram divididos em tres canatos: "Bukhara (oasis de Zerafshan), Khiva (a jusante do Amur-Darya) e Khokand (Vale de Fergana)", (Gleason, 1997: 26).

As invasoes estrangeiras nao se limitavam a atos de conquista, na medida em que geravam uma vasta interacao cultural. Proporcionando uma fusao de culturas, linguas, religioes e pessoas, elas contribuiram para que a nocao de identidade na regiao se tornasse extremamente complexa. As principais instituicoes informais centro-asiaticas que provaram resistir a passagem do tempo foram "as tribos e os clas" (Esengul, 2009: 39). Nao surpreende, por conseguinte, que cada vez mais especialistas em assuntos centro-asiaticos realcem a importancia da politica de clas no que respeita "ao controlo que [estes] exercem na economia e politica da regiao" (Collins, 2006: 45). Entre os centro-asiaticos, a lealdade para com a familia ou a aldeia e a mais importante ao nivel sub-etnico. Esta lealdade baseia-se no nucleo da organizacao politica da sociedade: a familia.

Do ponto de vista historico, a Asia Central era denominada de Turquestao, cuja traducao literal do persa significa 'a terra dos turcos'. O grupo linguistico dominante do Turquestao era formado pelas linguas turquicas, como o turquemeno, o uzbeque, o quirguiz ou o cazaque. Em termos geograficos, o territorio do Turquestao estendia-se desde a area a leste do mar Caspio ate as montanhas Altay, e desde as fronteiras da Persia e do Afeganistao, no sul, ate as terras russas no norte. Ele fora dividido em duas partes: Turquestao ocidental e Turques tao oriental. Os russos ocupavam os tres canatos, tendo, porem, anexado apenas o canato de Khokand, e atribuiram o estatuto de protetorados aos canatos de Khiva e Bukhara. Assim, o Turquestao ocidental, que se tornou parte do imperio russo em 1867 e era conhecido como 'Turquestao russo', englobava "a maioria das terras habitadas pelos povos turquicos (turquemenos, uzbeques, quirguizes e cazaques)", mas nao compreendia oficialmente os protetorados de Bukhara e Khiva (Bacon, 1966: 50). Por sua vez, o Turquestao oriental (tambem conhecido por Turquestao chines) referia-se a parte mais oriental da regiao, englobando terras no noroeste da China, isto e, o territorio da Regiao Autonoma do Xinjiang (idem).

De 1860 ate ao colapso da Uniao Sovietica em 1991, "a Asia Central esteve sob dominio russo durante pouco mais que um seculo" (Rywkin, 1963: 5). Mark Dickens sugere alguns fatores que contribuiram para a conquista da Asia Central. Destaquemos "um impulso instintivo com o objetivo de preencher a lacuna geopolitica criada pelo colapso da Grande Horda Tartara..."; "um espirito historico de reconquista a respeito dos territorios conquistados pela Horda..."; "uma postura tradicional anti-turca, que facilmente se traduzia em atitudes anti-islamicas"; e "a percecao de que as poucas pessoas que habitavam as areas asiaticas do leste e sudoeste da Russia... eram um alvo facil para o controlo e exploracao assim que a regiao fosse conquistada." (Dickens, 1989: 2).

Sob a lideranca russa que era, fundamentalmente, colonial, os habitantes locais experienciaram importantes transformacoes. Com o tempo, a designacao 'Turquestao' fora substituida pelo termo 'Srednaya Azia' (do russo Asia Interior ou Central). Daniel Pipes (1983: 6) considera que "a semelhanca de outros mestres coloniais, o governo cazarista acreditava na superioridade esmagadora da sua cultura", sendo que "os russos insistiram em utilizar a sua propria lingua, desprezaram os habitos e a cultura locais, em especial o Islao, e revelaram atitudes carateristicas de todos os colonizadores europeus no Terceiro Mundo".

O periodo de dominio russo fora nao so marcado pela transicao politica e economica, mas, acima de tudo, pelo dominio da cultura e lingua russas. Na pratica, "a lingua do 'ocupante colonial' converteu-se em lingua franca para o povo centro-asiatico" (Rywkin, 1963: 14). A popularizacao 'imposta' da lingua russa era um dos elementos-chave no grande plano de engenharia social desenhado por Moscovo, o qual havia sido realizado, em diferentes niveis, nas republicas sovieticas (a chamada "Russificacao ou Russifikatsia"), (Bacon, 1966: 43). Note-se que mais tarde, os sovieticos viriam a desenvolver uma teoria segundo a qual a me dida que a sociedade socialista avancasse em direcao ao verdadeiro comunismo, as nacoes tenderiam a aproximar-se, ao mesmo tempo que uma nova cultura sovietica emergeria (Dickens, 1989: 4). A este respeito, Bennigsen e Broxup (1983: 3) explicam que: "Um novo ser humano 'o Homem Sovietico (Sovetskiy chelovek) tendera a emergir, libertado do passado, livre e feliz. Nao havera diferencas espirituais, intelectuais ou mesmo fisicas entre russos e uzbeques, estonios e quirguizes; eles partilharao a mesma cultura, acreditarao no mesmo Marxismo-Leninismo, comerao a mesma comida e adorarao os mesmos lideres. A cultura do Homem Sovietico consistira numa mistura harmoniosa dos melhores elementos de todas as outras culturas."

De entre os motivos que explicam o fim do dominio cazarista, sublinhemos "as condicoes socioeconomicas adversas sentidas em todo o imperio, agravadas pelas realidades e exigencias da Primeira Guerra Mundial" (Encyclopaedia Britannica, 2013: 3). A insensibilidade dos russos face as necessidades dos habitantes locais, a sua relutancia em se adaptar a cultura local, e a sua preocupacao com os ganhos pessoais deram origem "a uma atmosfera de constante hostilidade entre os povos indigenas e o colonizador russo" (Bacon, 1966: 20).

A Uniao Sovietica foi edificada sobre o que restava do imperio russo, tendo prosseguido o mesmo caminho colonialista do seu predecessor. Portanto, a Uniao Sovietica viria a reforcar e completar os processos iniciados pela Russia czarista, introduzindo, ao mesmo tempo, "alguns conceitos e projetos novos, carateristicos da doutrina comunista" (Silver, 1974: 48). No momento em que os Bolcheviques haviam vencido a Guerra Civil, todo o antigo imperio tusso, os seus protetorados e colonias encontravam-se numa situacao socioeconomica extremamente dificil. A fome que se seguiu a guerra causou a morte de milhares de pessoas. Tais condicoes eram ainda mais graves no Turquestao, que havia sido colonizado pelo imperio russo. Face a tais circunstancias, segundo Chinara Esengul (2009: 47), "a estrategia -mais amistosa e inclusiva- das autoridades sovieticas que procuravam implementar um processo de korenizatsia ('assimilacao') parecia ser promissora." De acordo com a autora, "o principal objetivo da politica de korenizatsia consistia em incorporar os quadros locais juntamente com os russos, no processo de gestao, bem como em outras areas da producao e industria" (idem). Este processo foi limitado pelo baixo nivel de alfabetizacao, mesmo entre as elites regionais. A criacao das republicas, em 1924, constituiu uma tentativa, por parte de Moscovo, para "matar dois coelhos de uma so cajadada" (Rywkin, 1963: 9). Por outras palavras, tal passava por pacificar as massas e elites nacionalistas na Asia Central, concedendo-lhes autonomia formal e independencia, retendo, ao mesmo tempo, o controlo sobre a politica e economia da regiao. Esta delimitacao era uma continuacao do principio 'dividir para reinar', adotado anteriormente pela Russia czarista a respeito do Turquestao. O processo de edificacao de novas Republicas visava impedir os centro-asiaticos de se unirem numa unica entidade pan-turquica ou pan-islamica.

O periodo sovietico era caraterizado por "um processo intensivo de 'construcao do Estado'[...] o Estado sovietico" (Anderson, 1997: 33). Ao mesmo tempo, a construcao da nacao foi bem planificada pelo centro que atribuiu aos novos estados "linguas e cultura formais, e estruturas administrativas" (idem). No entanto, o processo de criacao de uma identidade 'etnico-nacional' era limitado por e subordinado a politicas orientadas para o desenvolvimento da identidade supranacional: o 'povo sovietico'. A politica de nacionalidades sovietica preconiza "uma eventual fusao numa cultura sovietica" (Carrere d'Encausse, 1978: 18). Segundo Mark Dickens (1989: 5), "embora a sovietizacao e a russianizacao fossem, em teoria, dois processos distintos, na pratica eles pareciam coincidir com frequencia." Os russos percebiam-se a si mesmos enquanto agentes civilizadores na Asia Central durante a era czarista, sendo que essa autopercecao pouco mudaria na era sovietica. Todavia, Dickens alerta para "a importancia de se reconhecer que os sovieticos realizaram bastantes feitos notaveis [na Asia Central]: reduziram a iliteracia, o ensino superior tornou-se acessivel a uma maior percentagem da populacao, os servicos medicos melhoraram significativamente, e a producao agricola e industrial elevou o padrao de vida comparativamente a qualquer outro lugar no mundo islamico." (idem).

Desde o inicio que o Islao se havia revelado a questao mais sensivel na relacao de Moscovo com os habitantes locais, sendo percebido pelos sovieticos como "nao compativel com a doutrina marxista" (Thrower, 1987: 111). Foram realizados esforcos consideraveis para erradicar o culto do Islao. Afinal, este era considerado uma potencial forca politica unificadora contra a governacao russa, e visto, a partir de entao, como uma ameaca ao dominio sovietico e a doutrina comunista. Porem, a destruicao das mesquitas e a proibicao total do culto no final da decada de 20 nao produziram os resultados esperados. Pelo contrario, forcaram as pessoas "a viver uma vida dupla durante a era sovietica; fingindo reverenciar publicamente os seus lideres comunistas, ao mesmo tempo que, em privado, cultivavam a sua cultura pre-comunista" (Olcott, 2002: 7).

Do ponto de vista economico, a regiao, que havia sido transformada numa fonte de materias-primas sob a lideranca czarista, manteve-se enquanto tal na era sovietica. O 'ouro branco' (algodao) continuou a captar o interesse dos sovieticos em termos de economia regional. Estes nao foram particularmente ativos no que concerne ao desenvolvimento da industria na regiao, sendo que "as economias centro-asiaticas eram totalmente dependentes de doacoes provenientes do centro, bem como de outras Republicas no que respeitava a alimentos basicos" (Encyclopaedia Britannica, 2013: 18). Uma tal politica economica "afetou seriamente o ambiente da regiao." (Anderson, 1997: 116). Com efeito, a utilizacao excessiva de fertilizantes e de recursos hidricos para melhorar as colheitas de algodao viria a saldar-se num desastre ambiental, como atesta a degradacao do mar de Aral.

As ultimas decadas de dominio sovietico foram importantes por dois motivos: a) as iniciativas de liberalizacao (19851991) de Mikhail Gorbachev; a perestroika e a glasnost estabeleceram "o contexto politico imediato e o elemento catalisador para as primeiras etapas da transicao de regime na Asia Central [e em outras republicas sovieticas]"; b) este periodo e caraterizado pela "negociacao de pactos entre as principais forcas politicas em cada Estado centro-asiatico" (Collins, 2006: 50). Este fora um tempo de mudanca na configuracao do poder.

E interessante constatar o modo como a visao do dominio russo afetou a escrita da historia durante a era sovietica. Antes de 1930, "a linha oficial era a de que a conquista russa das areas nao-russas havia sido 'um mal absoluto' (absoliutnoe zlo)", (Dickens, 1989: 6). Assim, aqueles que resistiram as forcas czaristas foram considerados herois patrioticos. Durante as decadas de 30 e 40, "a expansao russa passara a ser vista como um 'mal menor' (naimen'sheie zlo), em comparacao com o que poderia ter sucedido as populacoes caso os turcos, os persas, ou os britanicos as tivessem conquistado" (idem). Por volta de 1950, "a visao oficial era a de que a conquista russa fora 'um bem absoluto'", sendo que aqueles que haviam lutado contra ela seriam agora denunciados (idem).

A era pos-sovietica mostraria que a politica na Asia Central nao tem que ver com ideologia, mas com o controlo de recursos economicos por parte dos principais clas. Uma das razoes que levaram ao descontentamento da maioria dos centro-asiaticos e economica, na medida em que "as Republicas centro-asiaticas eram altamente subsidiadas por Moscovo" (Esengul, 2009: 52). Por outro lado, "nao existia um forte sentimento nacionalista (civico ou etnico)", o que "condicionou a passividade da sociedade em termos de participacao politica e mobilizacao social durante os anos 1990-1991" (idem). A lealdade dizia respeito as identidades subnacionais, ligadas aos clas e a familia. Quanto ao Islao, depois dos esforcos dos sovieticos em erradica-lo, este ja nao seria mais uma forca politica suscetivel de mobilizar as pessoas. Tecamos, de seguida, breves consideracoes sobre a geografia e geopolitica da regiao.

[FIGURA 1 OMITIR]

3. Geografia e geopolitica

De acordo com Olivier Roy (2000: 1), "a Asia Central e uma area de geometria variavel, podendo referir-se, simplesmente, a Transoxiana ou, entao, ao espaco cultural definido pelas civilizacoes turco-persas, que se estende desde Istambul ate ao Xinjiang." A Asia Central e delimitada pelo mar Caspio, Siberia, Mongolia, Tibete e o Hindu Rush (5). Tratase de uma regiao interior, rodeada por uma enorme massa de terra que cobre um vasto territorio de estepes, desertos e montanhas, ocupando um espaco superior ao da Europa Ocidental e cerca de metade da area dos Estados Unidos. Do ponto de vista geografico (Figura 1), a Asia Central inclui o Cazaquistao, o Quirguistao, o Tajiquistao, o Turquemenis tao e o Uzbequistao, enquanto a Eurasia Central agrupa os referidos paises mais os tres estados do sul do Caucaso (Armenia, Azerbaijao e Georgia).

Na opiniao de Doris Bradbury6 (2011), a Asia Central e "uma regiao mais estavel que o Afeganistao, o Irao e o Medio Oriente, em geral', embora, como refere a autora, uma grande parte das pessoas demonstre "desconhecimento face a esta regiao", que se situa "entre algumas das potencias politicas mais importantes". De entre as varias carateristicas comuns as republicas centro-asiaticas, e de salientar o facto de "todos eles serem Estados 'interiores'' (Fourniau, 2006: 17). Alias, como sublinha Vincent Fourniau (2006: 18), "nao deixa de ser curioso notar que a Asia Central e a regiao do mundo com mais Estados interiores/isolados (ou landlocked, se preferirmos), se se juntar aos cinco Estados da Asia Central possovietica, o Afeganistao e a Mongolia" (idem). O Uzbequistao, por exemplo, e "um pais duplamente isolado", uma vez que "e rodeado de Estados que sao, eles proprios, isolados." O facto de as republicas centro-asiaticas nao beneficiarem de um acesso direto ao oceano, exerce uma influencia importante no seu desenvolvimento economico, sendo, por conseguinte, um tema de grande interesse. Tal nao significa que a Asia Central seja um 'beco sem saida' no mundo globalizado. A regiao, que integra a "Grande Rota da Seda", e, como refere Levent Hekimogluv (2005: 76), "um cruzamento de rotas mundiais, provenientes, essencialmente, de todos os cantos do planeta."

Regressando a Fourniau (2006: 22), este autor sublinha que "ao contrario dos povos indianos, chineses, otomanos ou russos, a Asia Central nao resulta de uma grande construcao politica, anterior ou atual." Com efeito, este especialista salienta que "nunca existiu registo, na Historia, de um unico Estado centro-asiatico" e, por outro lado, "a unificacao da regiao ficou a dever-se a forcas de conquista, maioritariamente exogenas" (idem). A Asia Central tem sido, por diversas vezes, dividida, fragmentada e conquistada, mas, raramente, tem servido enquanto sede do poder a um qualquer imperio ou estado influente. Por conseguinte, a regiao tem-se revelado, acima de tudo, um campo de batalha para as potencias externas, do que, propriamente, um poder em seu proprio direito.

A Asia Central e uma regiao que, em bom rigor, so comecou a ser analisada, do ponto de vista geopolitico, em termos de pesquisa de campo, pelos estudiosos ocidentais, a partir de 1991, na sequencia do colapso da Uniao Sovietica. O termo 'Asia Central' carateriza um vasto conjunto historico, articulado em torno de varias subunidades, bem como uma amalgama de situacoes economicas, politicas, culturais, de processos identitarios e comunidades etnicas. O facto de constituir um importante ponto de encontro de interesses economicos, geopoliticos, religiosos e etnolinguisticos, faz da Asia Central uma zona dotada de uma profundidade historica extraordinaria, no coracao dos grandes desafios da atualidade mundial.

A divisao territorial e o estatuto administrativo das unidades que constituem a regiao, atestam uma certa heterogeneidade. A atual definicao de 'Asia Central', que concebe a mesma como sendo formada pelas republicas que, outrora, integravam a URSS (isto e, o Cazaquistao, o Quirguistao, o Uzbequistao, o Tajiquistao e o Turquemenistao), foi elaborada em meados do seculo XX, com o intuito de distinguir estas cinco republicas centro-asiaticas. Pouco depois da sua independencia, mais concretamente em 1993, "esta definicao foi oficialmente reconhecida pelas Republicas centro-asiaticas, bem como pela comunidade internacional" (Malik, 1994: 4).

Por sua vez, para a UNESCO, a Asia Central agrupa "as cinco antigas republicas sovieticas (o Turquemenistao, o Quirguistao, o Cazaquistao, o Uzbequistao e o Tajiquistao)", mas tambem "o Afeganistao, a Mongolia, a China ocidental e varias partes do Paquistao, Irao e India." (Asimov, 2001: 2). Importa notar que nao obstante a heterogeneidade economica e politica da regiao, a Asia Central e, para todos os efeitos, considerada uma 'entidade geopolitica'. Varios estudos pos-sovieticos continuam a interpretar a Asia Central como sendo "limitada a cinco ex-Republicas sovieticas: o Quirguistao, o Cazaquistao, o Tajiquistao, o Uzbequistao e Turquemenistao." (Menon, 2007: 33). Tal concecao deixa, assim, de fora as areas acima mencionadas, ainda que estas estejam profundamente interligadas do ponto de vista geografico e historico. Na era sovietica, a regiao era designada por "Sredniaia Azia" (o que, traduzido, quer dizer Asia do Meio), compreendendo "o Tajiquistao, o Turquemenistao, o Quirguistao, o Uzbequistao", e deixando de fora o Cazaquistao (Lewis e Wigen, 1997: 179).

E interessante sublinhar que "enquanto os especialistas ocidentais utilizam o termo 'Asia Central', os autores russos, por sua vez, nao abandonaram (ainda) a velha expressao 'Asia do Meio", embora, contrariamente ao passado, esta inclua, hoje, o Cazaquistao (Ismailov e Papava, 2010: 56). O facto de existirem multiplas interpretacoes relativamente ao conceito de 'Asia Central', atesta, portanto, a ausencia de consenso acerca deste.

4. O velho passado sovietico vs um futuro promissor

As fronteiras da regiao foram definidas e delimitadas pelos sovieticos em 1924, numa altura em que as nacoes centroasiaticas eram referidas nos documentos sovieticos como "uma questao muculmana/turca." (Koichiev, 2003: 48). Tais referencias eram relativamente frequentes. Na verdade, segundo Petra Steinberger (2003: 235), o Islao era percebido como "um fator de diferenciacao entre a populacao local e os estrangeiros recemchegados, como os russos, os ucranianos e outros colonos, durante o dominio czarista e sovietico." Assim, com a chegada dos russos a Asia Central, o Islao tornou-se uma categoria etno-religiosa, porque estes consideravam todos os povos da Asia Central como muculmanos.

Antes da chegada dos russos, varias etnias da regiao, tais como os quirguizes, os cazaques, os uzbeques, os uigures, os dungan, haviam coexistido em "canatos e imperios multietnicos." (Lowe, 2003: 108). Tal coexistencia sob estas entidades supraetnicas pre-modernas apenas era possivel devido a lealdade demonstrada pelos varios povos relativamente a identidade supraetnica, o Islao.

Segundo Chinara Esengul (2009: 3), "durante quase sete decadas de dominio sovietico, os povos centro-asiaticos estavam economica, politica e socialmente unidos como cidadaos de um unico Estado (homo sovieticus)." Contudo, em 1924, antes da unificacao sob o regime sovietico, eles haviam sido divididos, por Moscovo, em cinco republicas sovieticas. Por um lado, como refere Chinara Esengul, "esta estrategia -ambiguatinha criado, artificialmente, unidades politicas baseadas na etnia"; por outro, "a lealdade deveria pertencer a unidade supranacional: o Estado sovietico." (idem). Por conseguinte, "nenhum destes elementos havia sido bem desenvolvido; a existencia do supra-Estado Sovietico suspendeu, durante varias decadas, o processo de construcao da nacao"; alem disso, esta politica de delimitacao nacional teve graves consequencias, visto que "estes Estados foram 'artificialmente' criados, em vez de se desenvolverem de forma organica" (idem).

Acrescente-se a tudo isto, o facto de a infraestrutura da regiao operar, do ponto de vista economico, sob o estrito controlo de Moscovo, em beneficio da economia centralizada. Havia pouco comercio entre as proprias republicas centro-asiaticas, e a suas economias eram, consideravelmente, subsidiadas pelo orcamento central. No inicio dos anos 90, os subsidios do centro, constituiam um quinto do Produto Interno Bruto (PIB) do Uzbequistao, e um setimo dos PIBs do Cazaquistao e do Quirguistao.

Dito isto, o colapso da Uniao Sovietica trouxe as nacoes centro-asiaticas nao so uma independencia e uma liberdade que elas nunca haviam experienciado, mas, acima de tudo, o fim dos subsidios, bem como "um impacto economico negativo generalizado na vida da maioria das pessoas, nesta vasta regiao do mundo" (Linn, 2004: 1). Este foi o momento em que uma serie de clivagens politicas emergiram entre os estados da Asia Central. Alem da "democratizacao da estrutura do Estado", das minorias etnicas e das fronteiras, e do colapso do sistema de seguranca comum, "um dos assuntos mais urgentes na regiao e a questao do extremismo e do terrorismo religioso." (Tolipov, 2007: 8). O problema do trafico de droga e, tambem, premente na regiao, e bem ilustrado, entre outros, pelo estudo de Timothy Krambs (2013). Erika Marat (2006: 45-46) sublinha, a este respeito, que "a semelhanca do que se verifica em outras esferas do crime organizado, as Republicas centro-asiaticas nao estavam preparadas para lidar com o aumento do trafico de estupefacientes, e com os problemas a este associados." Por sua vez, a tematica da gestao dos recursos hidricos ocupa o primeiro lugar entre os problemas economicos e ambientais da regiao, ja que a Asia Central e uma regiao transnacional com um uso da agua compartilhado, mas com uma distribuicao assimetrica de recursos.

Desde o colapso da URSS, que as republicas centro-asiaticas tem sido minadas pela instabilidade. Com uma historia baseada, em grande parte, na vida dos clas, uma lideranca inexperiente e relativamente recente, e um potencial incalculavel de recursos energeticos, a Asia Central tem experienciado, como nota Philip Shishkin (2012: 4), "problemas significativos de corrupcao, de abuso de direitos humanos, conflito e agitacao civil." Receosos das divisoes historicas no interior de cada pais, fruto da pertenca a clas, e do crescimento de movimentos fundamentalistas islamicos em paises vizinhos, como o Irao, o Iraque e o Afeganistao, os lideres centro-asiaticos converteram-se em ditadores sob o pretexto de manter a estabilidade a todo o custo. Porem, este tipo de estabilidade artificial e temporaria termina, muitas vezes, em agitacao explosiva. O Tajiquistao, o Uzbequistao e o Quirguistao tem sido particularmente afetados por conflitos internos, embora, como constata Philip Shishkin (2012: 14), "de todas as Republicas centro-asiaticas, o Tajiquistao e aquela que, provavelmente, enfrenta o conjunto de ameacas mais preocupante no que respeita a sua estabilidade."

Os regimes politicos estabelecidos nas republicas centro-asiaticas sao, todos eles, autoritarios, ainda que os niveis de autoritarismo variem de acordo com os paises em questao. Para sermos precisos, como refere Alexander Warkotsch (2008: 62), "o Cazaquistao, o Quirguis tao e o Tajiquistao sao Estados semiautoritarios, enquanto o Uzbequistao e o Turquemenistao sao dirigidos por regimes autoritarios, senao mesmo ditatoriais." A Asia Central e, com efeito, uma das regioes mais autoritarias e corruptas do mundo.

A carateristica central e unificadora destes Estados consiste, na pratica, no carater patrimonial dos seus regimes. Na verdade, a principal dinamica politica (ainda que informal) e representada pela relacao entre os Chefes de Estado e certos grupos de interesse, em vez de pelo Estado de Direito, ou pela relacao entre o Governo e o seu povo. Por outras palavras, "o poder do governo resulta do patrocinio de redes poderosas, magnatas do mundo dos negocios e grupos regionais" (Azarch, 2009: 66). Por conseguinte, "a manutencao do status quo na regiao e do interesse fundamental dos Governos centro-asiaticos", uma vez que "a transformacao das estruturas politico-sociais podera, inevitavelmente, acarretar a perda de poder dos regimes atuais" (idem).

Todas estas republicas que integram a regiao comungam de um presente relativamente recente (cerca de duas decadas de independencia) enquanto estados autonomos, pese embora tenham diferido quanto ao rumo das suas politicas, autoritarismo, desenvolvimento, e forma de lidar com os desafios resultantes do colapso da Uniao Sovietica.

Embora localizadas num mesmo espaco regional, as varias unidades, neste caso, os estados que a compoem, estao longe de formar um todo homogeneo suscetivel, a partida, de facilitar a compreensao dos processos e realidades politicas, economicas e culturais a um qualquer curioso pela regiao. Ao inves, elas tendem a confundir um espirito impreparado e ingenuo que possa querer vislumbrar realidades e mundividencias semelhantes em estados que seguiram caminhos diferentes, findo o fator agregador, isto e, a Uniao Sovietica. Por outro lado, e segundo esta ordem de ideias, sublinhese que "qualquer consideracao geral em materia de politica sobre a Asia Central deve tomar em conta a natureza dos regimes no poder, bem como os interesses especificos de cada um deles" (Esengul, 2012) (7). Se, por um lado, e demasiado evidente que o papel da lideranca e importante, por outro, a relacao pessoal entre cada um dos lideres nao deixa, tambem ela, de ser fundamental.

Num espaco onde nada esta definido e tudo se joga, persiste uma certa nostalgia geral, mais ou menos evidente, no Homo Sovieticus (fruto de uma mesma cultura e dotado de uma personalidade singular) face aos tempos de ouro em que ele nao tinha de se preocupar com nada, visto que o 'sistema' se encarregava de tudo. Contrariamente ao passado, os 'emancipados' centro-asiaticos estao, hoje, entregues a si proprios, filhos da Asia Central, uma sub-regiao desprovida de acesso ao oceano, merce da 'boa vontade' da cooperacao dos estados vizinhos, entre os quais uma Russia e uma China, para acederem ao resto do mundo. E, e interessante notar como os proprios tem consciencia da sua posicao de dependencia face a esta 'boa vontade' alheia, como atesta o desabafo de Meruert Makhmatova8 (2011), investigadora cazaque: "nao somos jogadores principais, mas parte do jogo". Contudo, uma parte importante, capaz, tambem ela, paradoxalmente, de frustrar as ambicoes das potencias externas, em resultado do seu poder funcional. Atente-se, por exemplo, na singularidade da politica uzbeque, umas vezes pro-russa, outras contra, o que faz de Karimov um parceiro imprevisivel, dependendo dos interesses que melhor convem ao Uzbequistao.

Em suma, as republicas centro-asiaticas sao, hoje, marcadas por diferentes tipos de transformacoes politicas, economicas e sociais, diferentes ritmos, diferentes concecoes sobre o significado do devir historico. Elas convergem na vontade de maximizar os beneficios decorrentes dos grandes e pequenos jogos regionais, mas demonstram muita incapacidade em estabelecer estrategias comuns e cooperar para a resolucao dos grandes e pequenos problemas regionais.

A regiao tem vindo, nos ultimos anos, a atrair a atencao de investidores estrangeiros, devido a existencia de importantes reservas de petroleo e de gas natural em tres estados: Cazaquistao, Turquemenistao e Uzbequistao (Babak, 2006: 4154; Kenisarin, 2004: 124-137). Em 2010, a producao petrolifera na regiao rondou, em media, os 3 milhoes bpd9, dos quais cerca de 2.5 milhoes foram exportados (BP, 2011: 9). Weiss etal. (2012: 9) informam que tais exportacoes representam "uma parte importante no comercio de petroleo mundial", equivalente a "cerca de 10% do total de exportacoes de combustivel liquido", por parte dos estadosmembros da OPEP. A producao de petroleo e as exportacoes, a partir do Caspio, tenderao a crescer substancialmente, isto e, a "mais do que duplicar ao longo dos proximos 25 anos", segundo a Agencia Internacional de Energia (2011: 19). Para tal, muito contribuira o aumento significativo, nos proximos anos, da producao petrolifera do campo de Kashagan (localizado no norte do mar Caspio), que se acredita ser "uma das descobertas [energeticas] mais importantes (em julho de 2000) do mundo, nos ultimos 30 anos" (The Astana Times, 2011: 4). De acordo com Robert M. Cutler (2011: 2), "o campo petrolifero offshore de Kashagan e, geralmente, classificado como o 5. ou 6. maior do mundo, e possui as maiores reservas de qualquer campo petrolifero situado fora do Medio Oriente." As suas reservas estao avaliadas em "38 bilioes de barris, dos quais se estima que 11 a 13 bilioes sejam recuperaveis" (idem). Inicialmente previsto entrar em producao em 2005, esta data tem sido continuamente prorrogada devido a "dificuldades tecnicas ligadas a exploracao da jazida", e por causa de "querelas sobre a natureza da participacao da KazMunaiGaZ' (idem). Segundo o Global Business Reports (2012: 1), a regiao do Caspio possui "reservas comprovadas de gas natural de mais de 6 trilioes de metros cubicos", a maior parte das quais detidas pelo Turquemenistao e Uzbequistao. Por outro lado, a Russia e um ator fundamental no que respeita ao setor do gas natural centro-asiatico, sendo que "ao importar este recurso da regiao, Moscovo pode prote lar a sua propria (e mais dispendiosa) producao de gas em Yamal e nos mares de Barents e de Kara, sem sofrer perdas nas exportacoes e no consumo" (Azarch, 2009: 61). De acordo com a Energy Information Administration (2012: 4), "o Turquemenistao esta, atualmente, posicionado entre os seis paises detentores das maiores reservas de gas natural do mundo, e entre os 20 maiores Estados produtores de gas natural do mundo", possuindo "reservas de aproximadamente 7 trilioes de metros cubicos em 2012, um aumento consideravel face a cerca de 2 trilioes de metros cubicos, em 2009" (2012: 4). Segundo Vladimir Socor (2012: 12), "o Turquemenistao produziu 59.5 bilioes de metros cubicos (bmc) de gas natural em 2011" -uma pequena fracao de um vasto potencial ainda por explorar- sendo que "as exportacoes de gas turquemeno, nesse ano, foram de 10 bmc para a Russia, outros 10 bmc para o Irao e 14 bmc para a China."

5. Notas finais

As Republicas centro-asiaticas, com o seu consideravel potencial energetico e humano sao, como refere Johannes Linn (2007: 5), confrontados, simultaneamente, com "um desafio e uma oportunidade", na medida em que "o espaco economico eurasiatico e parte ativa de uma nova fase de integracao global" (2007: 5). Na verdade, a Asia Central e, no entendimento de Guo Xuetang (2006: 117), "a regiao onde os efeitos da geopolitica e da competicao entre as grandes potencias mais se tem feito notar, comparativamente a qualquer outra parte do mundo." Efetivamente, segundo este autor, "os conflitos etnicos e religiosos, a competicao energetica, o posicionamento estrategico dos varios atores e a agitacao politica na regiao, tem-se revelado uma carateristica recorrente no contexto regional centro-asiatico" (idem).

No entendimento do consul Fernando Melo Antunes (10) (2012), existem tres razoes fundamentais que explicam "a importancia da Asia Central para as grandes potencias". Em primeiro lugar, "[a regiao] possui recursos energeticos, em quantidades assinalaveis, tanto em petroleo, como em gas natural' (idem). A este respeito, Zehra Akbar (2012: 14) afirma que "os Estados regionais e transregionais estao bem cientes da importancia do potencial energetico da Asia Central." A regiao esta, de facto, prestes a tornar-se "um grande fornecedor mundial de energia", em particular, "nos setores do petroleo e do gas natural" (idem). Voltando a Fernando M. Antunes (2012), o segundo motivo de importancia da regiao para as grandes potencias, deve-se ao facto de os seus vizinhos, "nomeadamente a China, a Russia, o Caucaso e a Europa", se depararem com "problemas de transporte" (entenda-se de carater logistico), suscetiveis de ser resolvidos e/ ou mitigados pelos "paises da Asia Central". Por fim, a regiao e importante, uma vez que e composta por paises que, tendo conquistado a independencia ha cerca de 20 anos, "apresentam um potencial de crescimento economico bastante significativo" (idem).

6. Notas

(1) Doctorando en Universite Catholique de Louvain-Belgica.

(2) A planificacao das duas deslocacoes a Asia Central envolveu uma pesquisa exaustiva e morosa de universidades, especialistas, diplomatas, docentes, Organizacoes Nao Governamentais, tendo a Rede Aga Khan, entre muitos outros atores, fornecido um apoio consideravel, nao so ao nivel da selecao de especialistas locais, como na facilitacao de entrevistas a distancia, por via telefonica, bem como ainda na visita aos varios polos da University of Central Asia (no Cazaquistao, Quirguistao e Tajiquistao).

(3) Armando Marques Guedes e Professor de Direito na Universidade Nova de Lisboa.

(4) Jack Caravelli serviu durante 25 anos o Governo dos Estados Unidos. Em 1996, o Dr. Caravelli foi nomeado Diretor para a NaoProliferacao na White House National Security Council Staff, tendo sido responsavel pela politica de nao-proliferacao dos EUA na Russia e no Medio Oriente.

(5) O Hindu Kush e uma cordilheira no Afeganistao e no Paquistao Ocidental, com cerca de 1.200 km de extensao.

(6) Doris Bradbury e Presidente-Executiva da American Chamber of Commerce no Cazaquistao.

(7) Chinara Esengul e uma especialista quirguize que investiga questoes relacionadas com a integracao e a cooperacao na Asia Central.

(8) Meruert Makhmatova e uma especialista cazaque e diretora do Public Policy Research Centre em Almaty.

(9) Bpd (do ingles barrels per day : barris por dia, tambem dito bbl/d).

(10) Fernando Melo Antunes e, desde maio de 2011, Consul Honorario do Cazaquistao em Portugal.

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Data culminacao: junho, 2014

Lugar: Lisboa--Portugal

Duarte Paulo [1]

Recibido: junio, 2014 / Aceptado: agosto, 2014

[1] Universidade de Lisboa, Instituto do Oriente, Lisboa-Portugal. Correo electronico: duartebrardo@gmail.com
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Duarte, Paulo
Publication:Revista Geografica Venezolana
Date:Jan 1, 2015
Words:8367
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