Printer Friendly

Verbos leves observacoes sobre o portugues do Brasil.

INTRODUCAO

O presente trabalho tem a intencao de trazer uma reflexao para os estudantes do Curso de Letras, que simpatizaram com os pressupostos teoricos da Gramatica Gerativa, sobre os tipos de conhecimento que sao necessarios para a sua formacao.

Este trabalho ira nao so descrever certos fatos linguisticos, mas tambem tentar explica-los atraves de uma teoria que valoriza o conhecimento linguistico internalizado pelo falante. Acreditamos que para os estudantes do Curso de Letras, sobretudo para aqueles interessados em Linguistica, se faz necessario conhecer a analise de certos fenomenos gramaticais, que tem como base a abordagem gerativa.

Um conceito importante da gramatica e o da predicacao, que se constitui na atribuicao de propriedades a pessoas ou coisas. Todo predicado consiste de scripts, onde atuam certos participantes. Esses participantes sao os argumentos do predicado aos quais se atribui um papel semantico/tematico. Segundo Cancado, 2003: 95, os papeis tematicos sao definidos como "um grupo de papeis atribuidos a um determinado argumento a partir dos acarretamentos, estabelecidos por toda a proposicao em que esse argumento encontra-se".

Alguns verbos selecionam semanticamente os seus argumentos, ao passo que outros nao. Estes ultimos sao chamados verbos leves e serao o tema desta apresentacao. Tais verbos adquirem significacoes distintas, dependendo das configuracoes sintaticas em que ocorrem.

Uma questao a ser levantada e se este tipo de verbo tem diversas entradas lexicais, cada uma delas expressando uma realizacao semantica diferente, ou se ele tem apenas uma entrada lexical com leque semantico mais amplo. Para responder a esta questao, e preciso buscar uma explicacao formal sobre a relacao sintaxe/lexico.

Neste artigo, veremos que os verbos leves sao semanticamente vazios, privados de recursos de predicacao e sem a possibilidade de atribuir papeis tematicos aos seus argumentos. As frases com verbos leves vao apresentar um significado do todo da sentenca a partir do significado de suas partes (PARTEE 1995: 313 apud VIOTTI, 2003: 223).

A ESTRUTURA ARGUMENTAL DOS PREDICADOS

Nossa ideia principal e de que a gramatica e um sistema que esta internalizado na mente do falante, sistema este contendo Principios e Parametros, com seus valores fixados que determinam a formacao das sentencas na lingua. Parece-nos obvio que so e possivel dominar uma lingua se conhecermos as regras de formacao das sentencas, assim como o seu lexico.

Veremos que este lexico deve ter varias informacoes para a formacao das sentencas. Saber so o que significa uma "palavra" nao e o suficiente, se nao soubermos a sua categoria lexical, se e um Nome, um Adjetivo ou um Verbo, e a sua selecao semantica. Sem estas informacoes a construcao da frase fica impossivel.

(1)

(a) A aluna [[sub.V] formou] frases dificeis na aula.

(b) * A aluna [[sub.N] formacao] frases dificeis na aula.

Na configuracao (1), o nucleo lexical da sentenca so pode ser um verbo. Se o nucleo for um Nome, gera a agramaticalidade da sentenca, conforme indica (1b). Portanto, precisamos saber tanto as informacoes categoriais das palavras quanto a sua estrutura argumental.

Os nucleos sao chamados de predicados e os elementos selecionados vpor estes nucleos sao chamados de argumentos.

Em (2) o verbo encontrar relaciona Joao e amigo, estabelecendo uma relacao entre eles. Tecnicamente, chamamos estes elementos de argumentos do verbo. Nao podemos construir uma sentenca com este verbo encontrar, por exemplo, sem os elementos que vao completar o seu o sentido. Em outras palavras, o verbo citado seleciona dois argumentos que precisam ser preenchidos sintaticamente.

(2) Joao encontrou o amigo [no supermercado].

Observe-se que o sintagma no supermercado nao faz parte da estrutura argumental do verbo e por isso, nao e uma informacao obrigatoria na sentenca (dai a colocacao entre colchetes no exemplo). Trata-se de um adjunto que fornece informacao adicional.

Nao so o verbo, mas tambem outros nucleos lexicais possuem uma estrutura argumental, conforme ilustra o exemplo abaixo:

(3) [A fuga do preso].

Em (3) a fuga e o nucleo do SN que pede o sintagma preposicionado do preso como argumento. Fuga e um Nome deverbal, ou seja, e um nome derivado de um verbo transitivo e por isso, exige um complemento.

No caso de um verbo como comer, o sujeito agente deve ter o traco [+animado]. A agramaticalidade de (5) vem da violacao da restricao de selecao semantica do sujeito. O SN o sanduiche e [animado] e nao satisfaz as exigencias de restricao semantica do verbo.

(4) O Fernando comeu o sanduiche.

(5) * O sanduiche comeu o Fernando.

O lexico e adquirido durante toda a nossa vida, todavia a nocao de categorias sintaticas e inata. O lexico e guardado na memoria, que ira usa-lo em conformidade com um modelo de gramatica que existe em nossa mente.

OS VERBOS LEVES EM PORTUGUES

Os chamados verbos leves sao aqueles semanticamente vazios, que, em geral se associam a um elemento nominal, responsavel pelo significado principal da sentenca. Tal estrutura pode ser considerada como um composto verbal intransitivo, segundo Poutsma (1926) (apud SCHER, 2003:205).

(5) Angela deu uma olhada no bolo. (=olhar)

(6) Adriana deu uma varrida na casa. (=varreu)

(7) Ana Cristina fez compras no shopping. (=comprou)

(8) Mariana fez bagunca na aula. (=baguncou)

As estruturas com verbos leves possuem as seguintes caracteristicas, de acordo com Scher:

(i) o verbo principal e semanticamente vago;

(ii) o complemento nominal tem como nucleo um nome de acao, em geral deverbal, que realmente predica sobre os eventos;

(iii) ha uma parafrase entre a construcao com verbo leve seguido de um Nome e um verbo simples.

A partir de (ii) podemos concluir que o elemento nominal destas construcoes e responsavel pela denotacao da eventualidade (eventos, estados e atividades) relevantes da oracao.

Encontramos tais caracteristicas em alguns verbos do portugues brasileiro, tais como: dar, levar, tomar, fazer e por.

Neste trabalho, nos fixaremos na descricao e analise dos verbos dar, fazer e ter, seguindo Scher (2003).

Verbo dar

(9) Roberto deu um beijo na mae.

(10) Humberto deu uma paulada no bandido.

(11) Nataniel deu um boot no computador.

(12) Esmeralda deu um presente ao marido.

(13) Elza deu a vassoura ao Murilo.

(14) Ricardo deu uma varrida na casa.

Como os verbos leves nao tem uma estrutura argumental, eles nao podem atribuir papel tematico.

De acordo com Scher, o elemento nominal parece ter um papel muito importante no complexo formado por ele mais o verbo leve, ja que funciona como nucleo lexical, seguindo o modelo lexicalista. Tal conclusao surge a partir da atribuicao de papeis tematicos aos argumentos do complexo, porque e o nucleo nominal que tem esta funcao.

Em (9) e o SN beijo que exige e da uma interpretacao ao SN a mae. O mesmo ocorre em (5) e (14). As associacoes tematicas sao feitas a partir dos elementos nominais olhada e varrida, derivados dos respectivos verbos, formando um composto no predicado.

Nos exemplos (12) e (13) os papeis tematicos sao determinados pelo verbo dar, que e o nucleo do predicado. Neste caso dar nao atua como verbo leve, mas como um verbo lexical regular.

As chamadas expressoes idiomaticas tem uma estrutura diferente dos verbos leves sendo, portanto, pouco produtivas na lingua, com muitas restricoes em suas composicoes. A significacao nao se da simplesmente pela uniao de significado dos termos. Na verdade, elas nao tem nada a ver com o sentido literal das palavras envolvidas. Vejamos os exemplos abaixo extraidos de Scher (2003:209):

(15) nao dar a minima nao se importar, ser indiferente

(16) dar em nada nao ter consequencias

(17) dar com os burros n'agua sair-se mal em alguma coisa

(18) dar pano pra manga ser motivo de comentarios

Os exemplos acima (15)-(18) revelam que o verbo dar nas construcoes do tipo leve exercem uma funcao distinta de dar nas expressoes idiomaticas.

Pelos dados ate agora observados, parece-nos que o verbo dar pode ter tres usos distintos: (i) uso idiomatico; (ii) verbo leve; e (iii) verbo lexical regular.

Verbo ter

Outro verbo sobre o qual gostariamos de refletir e o verbo ter. Ele e capaz de criar diversas sentencas, que sao semanticamente diferentes.

Viotti (2003: 222) nos lembra que "a origem historica do verbo ter tinha um sentido proximo ao de segurar, manter, sendo, portanto, um verbo agentivo."

Os exemplos abaixo ilustram os usos do verbo ter no Portugues do Brasil:

(19) Tem muita gente na sala. (=existencial)

(20) Marcia tem participado de muitas bancas de mestrado. (uso auxiliar)

(21) Sergio gosta de ter as pessoas em suas maos. (=manter)

(22) Pedro teve dores horriveis. (=sentir)

Parece-nos que o significado da sentenca surge a partir do significado dos elementos que a compoem e de sua combinacao sintatica.

Assim, o sentido das frases acima com o verbo ter e dado a partir da composicao deste com os outros elementos oracionais, ou seja, o complexo formado possibilita varias interpretacoes.

Verbo fazer

O outro verbo que pode ser classificado como leve em Portugues e o verbo fazer. Vejamos alguns exemplos:

(23) Bianca fez aniversario semana passada. (=aniversariou)

(24) Eliane fez um vestido. (=confeccionou)

(25) Marcio fez um pratao no almoco. (=preparou)

(26) Luciana fez compras no sabado. (=comprou)

Nos exemplos acima, podemos entender (23) como aniversariou ou completou anos, (24) como confeccionou, (25) como colocou comida no prato e (31) como comprou.

Assim como os verbos dar e ter, o verbo fazer possui apenas uma entrada lexical. A variedade de significados das frases acima surge por ele ser um verbo esvaziado de conteudo semantico, com seu valor predicativo enfraquecido, dependente dos outros itens para a construcao de seu significado.

CONCLUSAO: SOBRE A MORFOLOGIA DISTRIBUIDA

Para dar conta das construcoes com verbos leves aqui apresentadas assumimos a proposta teorica da Morfologia Distribuida (MARANTZ, 1995, HARLEY & NOYER, 1999, apud MEDEIRO, 2003, 9) propoe que as palavras tem a sua categorizacao e a sua estrutura argumental determinadas na sintaxe. No lexico, so existem raizes lexicais neutras e morfemas funcionais que especificam a categoria e a estrutura argumental dessas raizes no esqueleto configuracional sintatico.

Sendo assim, os verbos leves aqui apresentados, como dar, ter e fazer adquirem interpretacoes distintas de acordo com o arcabouco sintatico em que sao inseridos.

E a partir dessa teoria morfologica que podemos explicar o comportamento dos verbos leves que, ao serem gerados em diferentes configuracoes sintaticas, apresentam diferentes funcoes e significados.

BIBLIOGRAFIA

CANCADO, Marcia. Um estatuto teorico para os papeis tematicos. In. MULLER, Ana Lucia, NEGRAO, Esmeralda V; FOLTRAN, Maria Jose (orgs.). Semantica formal. Sao Paulo: Contexto, 2003.

MEDEIROS, Alessandro Boechat de. Sintaxe e semantica do participio passado. Rio de Janeiro: UFRJ. Faculdade de Letras. 2003. Dissertacao de Mestrado em Linguistica.

MIOTO, Carlos et alii. Novo manual de sintaxe. Florianopolis: Insular, 2004.

NEGRAO, Esmeralda Vailati et alii. Sintaxe: explorando a estrutura da sentenca. In. FIORIN, Jose Luiz (org.). Introducao a linguistica II --Principios de analise. Sao Paulo: Contexto, 2003.

SCHER, Ana Paula. Quais sao as propriedades lexicais de uma construcao com verbo leve? In. MULLER, Ana Lucia, NEGRAO, Esmeralda V; FOLTRAN, Maria Jose (orgs.). Semantica formal. Sao Paulo: Contexto, 2003.

VIOTTI, Evani. A composicionalidade nas sentencas com o verbo ter. In. MULLER, Ana Lucia, NEGRAO, Esmeralda V; FOLTRAN, Maria Jose (orgs.). Semantica formal. Sao Paulo: Contexto, 2003.

Nataniel dos Santos Gomes (UFRJ, UNISUAM)

(3) Texto resultante do trabalho apresentado no 2 Congresso da Pos-Graduacao em Lingua Portuguesa da UERJ--Sao Goncalo, no dia 18 de outubro de 2004, sob o titulo de "Observacoes sobre os verbos leves do portugues"
COPYRIGHT 2004 Universidade do Estado do Rio de Janeiro- Uerj
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2004 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Gomes, Nataniel dos Santos
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2004
Words:1879
Previous Article:Utilizando a poesia no ensino de Portugues.
Next Article:A concordancia verbal na Gramatica de usos do portugues (Maria Helena Moura Neves, UNESP, 2000).

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2020 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters