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VIOLA-DE-COCHO PANTANEIRA: HISTORY AND MEMORY/ VIOLA-DE-COCHO PANTANERA: HISTORIA Y MEMORIA/ VIOLA-DE-COCHO PANTANEIRA: HISTORIA E MEMORIA.

Sou um tupi tangendo um alaude. Mario de Andrade.

Introducao

O historiador Alfredo d'Escragnolle Taunay em seu romance Inocencia (1872), descreve as paisagens brasileiras e os costumes do sertao. No primeiro capitulo temos uma visao detalhada dos vastos cerrados, da parte sul da provincia de Mato Grosso e regiao, demominados por ele, de sertao bruto. Partindo de Santana do Parnaiba ate sua confluencia com os estados de Minas Gerais, Goias e Mato Grosso e mais algumas dezenas de leguas, o Baixo Paraguai. Na condicao de escritor, apresenta sua visao romantica, a medida que gradativamente adentra por esses sertoes de natureza exuberante. A despeito do desenvolvimento da trama, e na descricao do cotidiano dos personagens que encontramos detalhes interessantes sobre as praticas musicais, ora interessadas. Em uma das cenas, apresenta um dos personagens acomodado em seu descanso embalado pelo "som da viola de tres cordas" cantando livremente "monotonas modulacoes de umas chulas e modinhas" (p. 53). Teria o instrumento citado parentesco direto com a viola-de-cocho que hoje empunham os cururueiros? Essas referencias musicais teriam proximidade com o cururu e siriri de Mato Grosso? Embora obra de ficcao, as referencias no romance de Taunay, guardariam um retrato caprichoso da realidade vivida, mesmo que significasse uma juncao aleatoria de cenas vividas em cenarios distintos. E uma vez em conformidade com o tema estudado, as praticas musicais, os costumes, e os festejos locais, sao coerentes com outros estudos e nao se pode refuta-los como fonte de conhecimento, sobretudo pelo fato de ter o autor convivido de perto com essa realidade, por ocasiao de sua presenca como segundo-tenente nas tropas brasileiras que combateram na Gerra do Paraguai, percorrendo toda essa regiao, em ofensivas contra os paraguaios. Em secundo, um contemporaneo de Taunay que tambem mencionou a viola de tres cordas, foi Couto de Magalhaes (1897) que presenciou o instrumento nas maos de indigenas, que praticavam o cururu e caterete. Soma-se a essas informacoes, as pesquisas realizadas na decada de 1940, por Alceu Maynard Araujo, que presenciou no cururu paulista uma viola rustica conhecida por cocho,

Em 1947, o folclorista piracicabano registrou, no municipio de Tiete, o uso de um instrumento de nome cocho feito de uma so corda. No mesmo ano, teve noticias da existencia, em uma fazenda do municipio de Pereiras, proximo a Tatui, de um cocho de quatro cordas e com a caixa de ressonancia e braco escavados a partir de uma unica peca de madeira. As similaridades no nome, formato e construcao destes (ROCHA, 2015, p. 82).

De qualquer forma, ao priorizar uma dessas distincoes sobre a qual, direta ou indiretamente convergiram ate a viola-de-cocho, corremos o risco de cair um uma redundancia, dada a impossibilidade de se dissociar as praticas de tais instrumentos, daquelas que resultaram na viola-de-cocho. E preciso considera-las todas, especialmente sob o ponto de vista das praticas sociais. Talvez seja possivel iluminar o comeco desse tunel, a principio, dentro de tal contexto, se nos atermos ao alaude, posto que citado nos documentos pesquisados, e o instrumento que mais se assemelha a viola-de-cocho. Nesse movimento de encontros, praticas e trocas, buscamos sua origem.

Percurso historico

Os instrumentos musicais viviam nas maos do povo. Entretanto, nao e possivel afirmar categoricamente o quanto a viola esteve presente em seu cotidiano, mas evidencias apontam que a sua funcao de instrumento acompanhador vinha desde tempos remotos. Oliveira (1966) assevera que no reinado de D. Afonso V em 1459, os Procuradores da Ponte de Lima endossaram uma representacao, queixando-se ao Rei, sobre os "males que por causa das violas, se sentiam por todo o Pais pelas gentes que delas se serviam para, tocando e cantando, mais facilmente escalarem as casas e roubarem os homens de suas fazendas, e dormirem com as suas mulheres, filhas ou criadas, que como ouvem tanger a viola, vao lhes desfechar as portas" (p. 163). Por seu carater popular, estavam a servico "de folguedos rurais e de rua, ao servico de amores, devaneios, diversoes e folias, e muito generalizado ja nesses recuados tempos" (p. 163) e por serem considerados profanos, eram renegados pelos padres.

Pouco se sabe sobre a pratica da viola no Brasil do seculo XVI. Os relatos dos viajantes e missionarios do seculo XIX que viajaram pelo Brasil, sob a acao colonizadora da coroa portuguesa na implantacao de suas instituicoes, na qual teologia e politica, misturaram um tipo de festa comum na Europa (1) nao foram precisos quanto as definicoes sobre a viola. Entrementes, a relacao musica e religiao eram tao intrincadas que varios sao os registros que conferem a presenca constante do instrumento entre as dancas indigenas e suas festas no Brasil. Jose Ramos Tinhorao (1990) assevera que a existencia de cantigas acompanhadas pela viola, datam de fins do seculo XVI, mais especificamente em uma comedia encenada por ocasiao da festa do Santissimo Sacramento em 1593, descrito nas Denunciacoes de Pernambuco, "confirmando desde logo a ligacao da viola, com a cancao citadina"(p. 44). Desde entao, a viola e relacionada como parte do cotidiano do povo que aqui se anunciava. Fernao Cardim (1925) jesuita portugues, deixa claro a presenca instrumental nas praticas religiosas junto a populacao indigena;

Em todas essas tres aldeias ha escolas de ler e escrever, aonde os padres ensinam os meninos indios e algumas mais habeis tambem ensinam a contar, cantar e tanger, tudo tomam bem, e ha ja muitos que tangem flautas, violas, cravo (...) outros sairam com uma danca de escudos a portuguesa, fazendo muitos trocados e dancando ao som da viola, pandeiro e tamboril e flauta, e juntamente representavam um breve dialogo, cantando algumas cantigas (p. 292/315).

O padre Nuno Marques Pereira (1738) escandalizado que estava "pelo profano das modas e mal soante dos conceitos" (p. 216), apesar de ser ele proprio um tocador de viola, afirma severamente que aqui se deveria ser evitada, as modas de viola, sob pena de castigos com duras penas, e evidencia um fato ocorrido na cidade da Bahia,

Ouvi ir cantando pela rua uma voz; e tanto que punha fim a copla, dizia com todo apoio da cantiga: Oh diabo! E fazendo eu reparo em palavra tao indecente de se proferir, me disseram que nao havia negra, nem mulata, nem mulher dama, que o nao cantasse, por ser moda nova, que se usava. Vede se pode haver maior atrevimento e ousadia entre Catholicos Christaos, que cantar semelhantes musicas (...) Porem, eu me persuado, que a maior parte destas modas lhes ensina o Demonio: porque e elle grande Poeta, contrapontista, musico e tocador de viola e sabe inventar modas profanas, para as ensinar aquelles, que nao temem a Deus (p.216).

Dentre os instrumentos de cordas dedilhadas presentes na Peninsula Iberica, quando da chegada dos arabes, por volta de 722, estao as harpas celtas e as citaras greco-romanas, o oud, conhecido por alaude arabe, foi o primeiro instrumento de cordas com braco, que chegou a Europa (2). Dessa fusao cultural entre mouros, cristaos e judeus, os menestreis aperfeicoam a chrota dos bretoes e o relab dos arabes, transformam-nas em uma grande familia de instrumentos de corda, designados na lingua latina de viola. No seculo XIII, a viola ja era armada com cinco cordas e podia ser afinada de tres maneiras diferentes. Durante os seculos XV e XVI ja haviam violas com tres, quatro e cinco cordas. O braco da viola era curto e largo, "a viola de mao era o mesmo que a cithara ou guitarra, congenere do alaude (...) afinadas em quinta. Da viola de mao deriva o instrumento a que hoje damos o nome de viola francesa ou violao" (VIEIRA, 1899, p. 524). E preciso destacar, entretanto, que o violao tal qual o conhecemos hoje, so passa a existir depois do seculo XIX, ocasiao em que o vocabulo seria incorporado a lingua portuguesa.

Considerando-se o acesso a organologia buscando a compreensao historica, implica em, por um lado, analisar e agrupar registros e, por outro, buscar as suas relacoes diversas. Para se ter uma percepcao da grande variedade vocabular, vejamos algumas designacoes: alaude, barbitus, cedra, citara, chelys, chitara, cithara, citola, descante, fides, fidicula, guararapeuva, guitarra, guitarra mourisca, guitarra latina, lira, lyra, sestro, testudo, vihuela, vihuela de penola. E preciso pontuar que como instrumentos de corda e individuais, no momento de sua afirmacao estao justamente o alaude, a vihuela/viola e a guitarra (AMORIM, 2015).

A partir dos estudos organologicos do espanhol Felipe Pedrell (1901) e dos portugueses Ernesto Vieira (1899) e Veiga de Oliveira (2000), apresentamos algumas referencias e possiveis herdades. Sobre o alaude, vejamos o que diz Pedrell (1901),

Laud.--Instrumento derivado, por seu nome e forma, de e'oud (caixa bombada) arabe. Descreve-se este instrumento (aparentemente de origem persa) no Livro de Musica de Alfarabi (seculo X). O Sr. D. Juan Facundo Riano acertou em reproduzir em uma de suas obras o desenho de um laud, admiravel por sua correcao de linhas, retirado de um relicario do seculo XVI, conservado na Real Academia da Historia. Nos Dicionarios Organograficos especiais podera o leitor estudar a historia desse instrumento, que para por aqui, por ser bem conhecida (p. 51).

Ainda sobre o alaude, Vieira (1899) confirma ser um instrumento de cordas dedilhadas de origem arabe, que se difundiu na Europa atraves das cruzadas, se popularizou nos seculos XV, XVI e XVII,

O alaude tinha o tampo harmonico em forma de pera como as guitarras portuguesas; as costas eram bombeadas como as do bandolim, e o cravelhame chato, inclinado para traz em angulo com o braco (...) Havia ainda um alaude pequeno so com cinco ordens (...) O nome d'este instrumento em arabe, eud, junto ao artigo definido el, deu origem a palavra elude que durante a idade media passou por muitas mudancas na Europa; as primeiras foram: leut, leuth, luit, lut, luc, lucs, lus, e luz; d'aqui nasceu liuto para os italianos, laud para os espanhois e alemaes, lut para os francezes. Em portugues chamou-se lhe sempre laude (...) Tambem muitas vezes era designado com o nome latino de testudo por causa da sua semelhanca com a casca de uma tartaruga (p. 42/48).

Pedrell (1897) assinala que as variadas formas e nomenclaturas atribuidas a guitarra na Idade Media, causaram confusao entre os pesquisadores, embora no seculo XV pouco se diferenciava da forma que hoje a concebemos, "era menor e contava no maximo, com sete cordas dispostas em quatro ordens, a saber, tres cordas duplicadas e uma simples, que era a prima, as quais se tangiam de modo rosqueado para acompanhar as dancas e cancoes do povo". Porem, alerta que, a Guitarra e a Vihuela, sao instrumentos distintos e nao podem ser confundidos "a guitarra era um instrumento pobre e popular, que se tocava rasgueado ja vihuela era um instrumento rico que se tangia ponteado" (p. 213). Diferenciavam-se pelo numero de cordas e modo de execucao. Todavia, com o passar do tempo a guitarra foi pouco a pouco invadindo o espaco da vihuela e no inicio do seculo XVIII, ja era um so instrumento, porem relegada as classes baixas.

Veiga de Oliveira (2000) cita alguns pesquisadores que partilham definicoes muito parecidas, sobre o alaude, Geiringer diz que a "forma primordial do alaude, numa caixa oval ou piriforme, com boca e rosacea, de fundo convexo composto de uma peca unica de madeira escavada, e um braco curto que e apenas o prolongamento do tampo, e sem trastos [e a partir do seculo XIII] apresenta inovacoes e melhoramentos importantes" (p. 264). Reforca a ideia de Pedrell (1897), no que tange a apresentacao das caracteristicas da "vihuela espanhola quinhentista (...) herdeira mais ou menos directa da guitarra latina, que, como ela, possui uma caixa com enfranque [e nesse ponto assinala que] a guitarra mourisca tinha caracter popular e se tocava de rasgado, a latina era de nivel mais elevado e tocava-se de ponteado". Acrescenta ainda, que "no seculo XIII, a guitarra latina prefigura a forma essencial da vihuela ou viola quinhentista, que seria compreensivelmente o seu prolongamento directo, a nossa viola actual" (p. 149/150). Em Curt Sachs, evidencia a aproximacao do alaude curto, na sua forma mais antiga de um salterio alemao presente em iluminuras espanholas do seculo X e XI e o classifica como um instrumento

"pesado, cavado numa peca unica de madeira, com caixa estreita de lados paralelos (...) aparentemente cinco cordas presas em baixo num cavalete, passando, a seguir, sobre outro, em forma de ponte" (p. 263). Veiga assevera que o alaude sofreria a ampliacao das cordas para onze, com duplas, a caixa aumenta, os tratos fixos de tripa, sobem para oito e finalmente no seculo XV teria sua forma definida. Dessa, a evolucao foi linear ate a forma como hoje o conhecemos.

Como apontam Pedrell, Veiga e Vieira, vihuela, vigola, vigolon, figolon, viola, sao sinonimos, significavam antigamente a mesma coisa. Contudo, tal suscetibilidade pode ter provocado algum grau de incerteza, onde tanto a nomeacao, quanto a traducao de tais registros para outras linguas, estariam sujeitos a variacoes inconstantes e/ou equivocadas. Embora essas variacoes linguisticas presentes nos dicionarios latinoportugueses e tambem na documentacao jesuitica, a definicao do termo alaude e pensamento comum, com ampla sinonimia, os termos; viola, tangida, concha de tartaruga, Lyra ... et al. Nomenclaturas variadas e muitas familiares a nos, outras nem tanto, mas que de alguma forma, os tracos genealogicos da heranca musical que nos foi legada pelos conquistadores, conquistados e povos ibericos, guardam relacao direta com a viola-de-cocho, simbolo do cururu e siriri mato-grossense.

A viola-de-cocho ca entre nos

Nao faz parte dos tratados internacionais de organologia o termo viola-de-cocho. Embora sua origem nao esteja totalmente definida como vimos, alguns documentos sugerem sua origem da guitarra latina, que por sua vez, se pressupoe herdade da vihuela ou viola quinhentista espanhola, ate chegar a viola, mas nao a de cocho. Tais definicoes categoricas nos levam a indagar sobre quais instrumentos, de fato correspondem as designacoes aos atuais cordofones, que levam os nomes de viola e guitarra e, ate que ponto podemos relaciona-los a violade-cocho. Ou tais termos teriam sido usados de forma indiscriminada e sem diferenciacao na literatura brasileira, dificultando uma categorizacao especifica?

Buscar, diga-se a origem, a partir dessa organologia; mestica, hibrida, cuja retrospectiva se faz a partir de pesquisas especificas sobre a viola-de-cocho (3). Autores que se debrucaram sobre a viola-de-cocho para buscar suas origens na historia, trazem em comum, a ideia da heranca alaudeana, ou seja, de que a violade-cocho pertenca a familia dos aludes curtos, cujo caminho teria sido trilhado e adaptado a condicoes especificas desta regiao de pantano e cerrado. E que sua presenca e carateristicas, fazem parte da fusao e difusao da cultura iberica, trazida pelas expedicoes das missoes catolicas portuguesas e espanholas.

A intensao de apontar o nascimento da viola-de-cocho nos leva ao comeco, ao inicio da formacao historica da nossa regiao. Por mais longinquo e dificil o trajeto, para se chegar a Cuiaba, a chegada das embarcacoes sempre era motivo de festa. Ferdinand Nijs foi um oficial militar belga que viajou a Mato Grosso em 1901, para avaliar as potencialidades economicas da regiao e registrou, "um dos eventos sensacionais que se produz em Cuiaba e a chegada e a partida dos barcos, colocando a cidade em contato com o resto do mundo. Dai a maioria da populacao vir se postar as margens para assistir a sua chegada, exibindo suas mais belas toaletes" (p.34). Karl von den Steinen (1942), afirmou que a tranquilidade da cidade so era abalada com a chegada dos navios, quando um tiro de canhao anunciava a presenca do vapor ancorado no porto. Manuel Cavalcanti (1958), um filho da terra, tambem registrou um desses momentos,

Bonito dia da chegada a Cuiaba! Duas horas antes, ja se avista a cidade, manchas avermelhadas de telhado, tracos claros de paredes caiadas, entre o verde escuro das mangueiras e o verde mais claro das outras arvores. La esta a igreja de Sao Goncalo, com o santo em cima da torre, sobre um globo dourado; o cais de pedra-canga feito por Leverger, muito alto, dando ideia da altura a que podem chegar as aguas da enchente; uma figueira enorme nascida entre as pedras do cais, dando sombra as lavadeiras e aos garotos que se preparam para pescar piraputanga no porto (p. 34).

Tudo comecou pelas aguas. Tudo o que chegou por aqui, veio pelo rio. O rio foi o fio condutor, a mola propulsora, entre esta regiao central e o resto do mundo. Era rio-acima, rio-abaixo, tudo ia e vinha, levava-se e trazia-se; vidas e sonhos. Conquistas e perdas. Os perigos eram superados pela ideia do ouro, da abundancia, da vida farta. Por ele nasce o sentido. Foi pelas aguas do rio que, segundo a lenda, veio a viola-de-cocho.

Atualmente a viola-de-cocho esta fortemente ligada aos meios de comunicacao em massa. Sua imagem esta estampada nos mais diferentes canais de divulgacao, transformada em simbolo da terra pantaneira, mato-grossense e, um dos icones da cultura local. Entretanto, apesar dessa visibilidade, sua origem e reconstituida por alguns a partir da memoria oral da populacao mais antiga. Dentre eles, uma bem conhecida entre os cururueiros (4), e contada pelo Sr. Luiz Marques da Silva, cururueiro antigo da regiao e presidente fundador da AFOMT-Associacao Folclorica de Mato Grosso, cujo relato conseguiu em conversas com outros cururueiros mais antigos em diversas localidades do Estado, vejamos,

Vivia as margens do rio Cuiaba, um artesao fabricante de canoas e pecas de madeira, quando certo dia atracou na barranca proxima a sua casa uma embarcacao, trazendo um homem a principio identificado por Paraguai. Vinha a procura de trabalho e trazia em sua bagagem um instrumento de cordas, que principiou a bater assim que desceu em terra firme. Assim que o paraguaio partiu, esse artesao tratou de fabricar para si uma igual. Esculpiu um tronco de madeira macia, da raiz da figueira fez o tampo, do Tucum fez as cordas. Findo o trabalho seguiu em direcao a cidade, quando o indagaram sobre o instrumento disse apenas se uma viola, insistiram, viola? mas que viola? Viola-de-cocho (SANTOS, 1993, p. 21).

Lenda ou nao, esse relato vai ao encontro de algumas pesquisas, que veem intima relacao na origem da viola-de-cocho, com o alaude. Desta feita, Julieta de Andrade (1981) considera a forte influencia espanhola nesse processo de aculturacao da viola-de-cocho, se consideramos seu modelo de fabricacao; escavado em um tronco inteirico, as divisoes das partes do cocho, o comprimento do braco, o numero de cinco cordas e "iluminuras, desenhos constantes de Cancioneiros em obras espanholas da epoca, mostrando instrumentos muito semelhantes" (p. 74). Apontando uma hipotese bem provavel, a de que pode ser, a viola-de-cocho, um instrumento que conservou as caracteristicas medievais do alaude, se considerarmos as evidencias que se revelam. E sobretudo, se considerarmos que Cuiaba sofreu um isolamento natural devido a sua localizacao geografica, distante das demais regioes do pais e por decadas so era possivel se chegar ate aqui pelas vias fluviais, como ja vimos anteriormente. Mesmo que ainda questionada na sua origem, nao ha como negar um conhecimento partilhado, apropriado, emprestado, que se ajusta na criacao do novo. Nao e por acaso que Gruzinski (2001) nos alerta, para o fato de que pode o pesquisador cair em uma cilada quando "um substrato cultural estavel ou invariante [sujeito ao] reflexo condicionado do observador (...) reduzir-se na linguagem corrente a uma etiquetagem sumaria que logo vira caricatura" (p.48). Ao afirmar que toda historia e cultural, Chartier (2004) reforca que esse e o sentido da cultura, posto que nada "esta acima ou ao lado das relacoes economicas e sociais e nao existe pratica que nao se articule sobre as representacoes pelas quais os individuos constroem o sentido de sua existencia--um sentido inscrito nas palavras, nos gestos, nos ritos" (p. 18). Mas uma coisa e certa, nao ha cururu ou siriri sem a viola-de-cocho, o mocho5 e o ganza (6).

A viola-de-cocho ainda hoje e confeccionada artesanalmente. Primeiro escolhe-se a madeira, esculpe-se o braco, depois molda-se o corpo da viola escavado com faca e formao. O segredo da viola esta justamente no corte da madeira, que deve ser feito sempre na lua minguante, caso contrario o instrumento corre o risco de ser atacado por carunchos. Um instrumento de cinco ordens simples de cordas, a mais importante e o canotio, que pode ser solto ou preso. Tao importantes sao "a prima, a contra, o bordao (ou do meio) e a de cima (ou tueira). Antigamente, usava-se uma sexta corda, a requinta, fininha como a prima e que trabalhava junto ao bordao. Antigamente o ritmo do Cururu era mais compassado, mais lento" (RAMOS & DRUMMOND, 1978, p. 9). Existe ate um verso assim:

A viola chora a prima A prima chora o bordao Sangue corre pela veia E a veia pra geracao (RAMOS & DRUMMOND, 1978, p. 11).

A capacidade humana de transportar-se de um lugar para outro, de ir e vir carregando na bagagem toda sua carga cultural, adaptada as suas novas necessidades, estabelecendo redes de atividades nas quais varias culturas sao incorporadas, apropriadas e internacionalizadas, propiciam certa circularidade caracteristica do contato fluvial iberico-americano, "o fenomeno da mistura se tornou uma realidade cotidiana, visivel nas ruas (...). Multiforme e onipresente, ela associa criaturas e formas que a priori, nada deveria aproximar" (GRUZINSKI, 2001, p. 48). Praticas, em que residem a revitalizacao de uma cultura que se ajusta aos processos vetores da globalizacao a partir de sistemas propensos a releituras, nos quais e possivel se reconhecer os fenomenos da mesticagemhibridacao, oriundos de diversas influencias.

Desta feita, e razoavel consideramos o relato do Sr. Luiz como parte desse processo circular de migracao, hibridacao, apropriacao cultural? Santos nos lembra que "o homem refaz suas praticas e incorpora novos modos. E neste processo que ocorrem mesticagens e todas as misturas que se possa classificar. Reside ai um importante testemunho da grande forca criadora humana" (SANTOS, 2011, p.48).

Acresce, que a despeito de sua importancia para o cururu e o siriri, a partir de entao, a viola-de-cocho incorpora-se definitivamente na cultura local e em toda extensao territorial pantaneira. Adquire sua propria historia.

A valorizacao dos saberes

No contexto atual, na categoria saberes, comemoramos 15 anos do primeiro registro de um Patrimonio Cultural do Brasil, o Oficio das Paneleiras de Goiabeiras, que encabeca uma lista de 28 bens culturais registrados pelo Iphan (7). Dentre eles, o Modo de Fazer: Viola-de-Cocho, registrada em 2005, sua forma de producao artesanal e a execucao musical, associadas ao cururu e siriri. Esse registro constituiu-se a partir de relatos, imagens, videos e partituras, material coletado em municipios da Baixada cuiabana e cidades do Mato Grosso do Sul, um saber que se manifesta como um lugar de memoria articulando o passado, o presente e o futuro, de sujeitos e seus respectivos lugares nas comunidades onde vivenciam suas praticas sociais. Conforme registro de No 1450. 01090/2003-03, a viola-de-cocho se apresenta como "uma expressao unica no fazer popular [e] referencia cultural importante (...) incorporando contribuicoes de diversas etnias, como tradicao que se reitera e atualiza" (IPHAN, 2009, p. 81).

Para alem da uma demarcacao geografica, entre o Sul e o Norte de Mato Grosso, o rio Cuiaba serviu de base para que os sujeitos dessas praticas, pudessem, rio acima, rio abaixo, dar sentido a uma pratica cultural que transcende qualquer limitacao espacial.

Nesse sentido, o reconhecimento, a promocao e a valorizacao a partir dessa titulacao, garante aos atores sociais, a possibilidade e a prerrogativa da interlocucao com os poderes publicos, na construcao de um cenario cultural que se deseja. A valorizacao do saber desses mestres cururueiros, pressupoe o vetor para a percepcao da diversidade cultural e reivindicacao de respeito, inclusao, participacao e cidadania. Entrementes, registra-se que essa visualidade, pode abrir precedentes para a banalizacao e folclorizacao de determinadas praticas sociais, sobretudo porque atinge diretamente o cotidiano e o modo de vida dos sujeitos envolvidos, social e economicamente.

No caso da viola-de-cocho, sua comercializacao esta alem do consumo entre os cururueiros, engloba; musicos, colecionadores e turistas, situacao que promoveu o aumento da demanda de producao e comercializacao dentro e fora do estado, quica internacionalmente. Todavia e prudente observar que a circulacao de bens culturais a partir exclusivamente do seu valor economico, tende a deixar de lado o codigo cultural que rege o sentido da pratica.

Notas

* Doutoranda em Arte Cognicao e Cultura--pela UERJ--Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Estudos de Cultura Contemporanea pela UFMT--Universidade Federal de Mato Grosso. Graduada em Educacao Artistica com Habilitacao em Musica--pela UFMT--Universidade Federal de Mato Grosso.

(1) De acordo com Mario de Andrade pouco se sabe sobre a musica popular no Brasil nos tres seculos da colonia. "Um povo misturado porem nao amalgamado parava nas possessoes que Portugal mantinha aqui. Esse povo feito de portugueses, africanos, amerindios, espanhois, trazia junto com as falas deles as cantigas e dancas que a Colonia escutava". ANDRADE, Mario de. Pequena historia da musica. 2a ed. Martins, S.P. 1942. p. 54.

(2) Conferir em "Instrumentos Musicais Populares Portugueses". Ernesto Veiga Oliveira.

(3) SANTOS, Abel. Viola-de-cocho; Novas Perspectivas. Cuiaba, Ed. Da UFMT. 1993/ Caderno De Folclore Matogrossense No 01 e 02. 1990/ RAMOS, Otavio; DRUMMOND, Arnaldo F Funcao do Cururu. Cadernos Cuiabanos. No 8. Ed. Planimpress. Sao Paulo. 1978/ Modo de Fazer Viola-de-Cocho. Brasilia-DF Dossie IPHAN-8. 2009/ VIANA, Leticia. O caso de registro da viola-de-cocho como patrimonio imaterial. In; Sociedade e Cultura. Goiania: UFG, Vol. 8 N. 2, 2005/ ANDRADE, Julieta de. Cocho mato-grossense: um alaude brasileiro. Sao Paulo: Escola de Folclore/Editorial Livramento, 1981.

(4) Sao todos os tocadores de viola-de-cocho, tanto no cururu quanto no siriri.

(5) Ernesto Vieira (1899) em seu Diccionario musical, apresenta o mocho como Adufe, especie de pandeiro antigo mais usualmente utilizados por mulheres em dancas e cantos. Distingue-se por ser quadrado, nao ter soalhas e ser coberto dos dois lados como um tambor. Sua antiguidade remonta da cultura assiria e representado em escultura das ruinas de Ninive. Os arabes usam desde os tempos imemoriais e daolhe o nome daff ou duff. VIEIRA. Op. Cit. p. 36.

(6) Ou caracacha, na designacao antiga. Especie de reco-reco feito de bambu. RAMOS, Otavio; DRUMMOND, Arnaldo F Funcao do Cururu. Cadernos Cuiabanos -8. Ed. Planimpress. Sao Paulo. 1978. p. 05. Mario de Andrade aponta o ganza como heranca africana, instrumento exclusivo de percussao ritmica, trazido nos navios da escravidao.

(7) http://portal.iphan.gov.br/bcrE/pages/conOrde mEjsf?ordem=3--Ministerio da Cultura--Bens Registrados. Acesso em 02/01/2017.

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MARTA MARTINES FERREIRA *

Caption: Exemplar de um alaude do seculo XVI. (PEDRELL, 1897, p. 253).
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Author:Ferreira, Marta Martines
Publication:Espaco e Curtura
Date:Jul 1, 2016
Words:4741
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