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Use of medicinal plants as home remedies in Primary Health Care in Blumenau--State of Santa Catarina, Brazil/Utilizacao de plantas medicinais como remedio caseiro na Atencao Primaria em Blumenau, Santa Catarina, Brasil.

Introducao

Praticas Integrativas e Complementares (PICs) compreendem um conjunto de sistemas, praticas e produtos de uso clinico, nao considerado como pratica medica convencional. Apos a publicacao da Politica Nacional de Praticas Integrativas e Complementares (PNPIC), a homeopatia, as plantas medicinais e fitoterapicos, a medicina tradicional chinesa/acupuntura, a medicina antroposofica e o termalismo social-crenoterapia foram institucionalizados no Sistema Unico de Saude (SUS) (1). Neste sentido, a Organizacao Mundial da Saude (OMS) define Medicina Tradicional (MT) e Medicina Alternativa e Complementar (MAC) (2) como praticas que incluem terapias com medicacao, as quais usam ervas, partes de animais ou minerais, e terapias sem medicacao, por exemplo, a acupuntura, terapias manuais e espirituais.

Varios estudos demonstram o uso das praticas compreendidas na MAC em diversas partes do mundo, sendo que na Franca este percentual chegou a 75%, no Canada 70% e nos EUA 42% (2). A demanda cada vez maior por tratamentos alternativos esta relacionada a percepcao das limitacoes da medicina convencional, aumentos das doencas iatrogenicas e cronicas, enfraquecimento da relacao medico-paciente e busca por atencao integral a saude (3), alem da questao financeira e de inclusao social relacionadas a essas terapias (4).

Diante da grande difusao dessas praticas surgiu a necessidade de integra-las as politicas publicas de saude. A OMS orienta a inclusao deste tipo de terapia no sistema publico, desde 1979, por ocasiao da Conferencia Internacional de Alma Ata (2). No Brasil, foi elaborado a PNPIC para o SUS em 2006. Esse projeto consiste de uma politica publica que visa ampliar o atendimento na Atencao Basica a Saude, atraves da utilizacao das praticas integrativas e complementares a medicina convencional (5).

A inclusao de tais praticas na atencao primaria deve seguir os principios norteadores do SUS aceitando o compromisso de proporcionar assistencia universal, integral, equanime, continua e resolutiva a populacao, de acordo com as necessidades, por meio da identificacao dos fatores de risco aos quais esta exposta e neles interferir de forma pertinente (4). Alem disso, existe a necessidade de abordar a realidade multifacetada em que os individuos sao alvos das acoes em saude. O conhecimento cientifico deve agregar os elementos dessa realidade, mesmo os mais simples e considerados "irrelevantes", pois as diferencas culturais e sociais de cada populacao se refletem no processo de saude-doenca e alteram os resultados das acoes tomadas pelos profissionais da area da saude. Minayo (6) afirma que a vivencia da saude e da doenca traz mudancas para o corpo e o espirito, por isso os profissionais de saude precisam considerar os valores e as crencas das pessoas, ampliando seus conceitos e tornando mais inclusiva suas formas de abordar os problemas do cotidiano em que atuam. Desta forma, os servicos que oferecem praticas nao usuais podem contribuir para que a clientela mais satisfeita utilize menos retornos, exames diagnosticos e encaminhamento para os niveis secundario e terciario (3).

O Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterapicos visa "Promover e reconhecer as praticas populares e tradicionais de uso de plantas medicinais, fitoterapicos e remedios caseiros" (4). O termo remedio caseiro abrange de uma forma bastante ampla a utilizacao de ervas, partes de animais ou minerais, para fins terapeuticos preparados em ambiente caseiro. Entretanto, Oliveira et al. (7) mostram a prevalencia do uso de planta medicinal como forma de PIC, corroborando dados levantados pela OMS, os quais apontam que 80% da populacao mundial faz uso de algum tipo de planta em busca de alivio para sua sintomatologia (8). A alta incidencia de uso de plantas medicinais possivelmente deve-se ao facil acesso, baixo custo e por serem consideradas inofensivas por grande parte da populacao (9). Alem disso, medicamentos industrializados sao caros, enquanto plantas medicinais muitas vezes sao cultivadas nos quintais (10).

Porem, geralmente o conhecimento de plantas com fins terapeuticos e praticado sem acompanhamento medico, representando um perigo potencial para a populacao, pois existe a possibilidade de interacao entre esses produtos "naturais" e os medicamentos, alem da interferencia dos mesmos em resultados de exames laboratoriais (11,12). Neste sentido, a orientacao vinda do profissional da saude e fundamental para que o paciente possa ser alertado sobre os riscos da toxicidade, interacoes medicamentosas e melhores formas de utilizacao das terapias alternativas.

O presente estudo teve como objetivo avaliar o uso de remedios caseiros na Atencao Primaria no municipio de Blumenau e as variaveis que influenciaram na escolha deste tipo de terapia pelos usuarios.

Metodos

Desenho do estudo

Trata-se de um estudo epidemiologico observacional, tipo seccional, que utilizou dados obtidos pelo projeto "Melhoria da qualidade da assistencia farmaceutica na Atencao Basica do SUS, Blumenau, SC".

Populacao de estudo e amostra

A populacao de estudo foi composta por pessoas atendidas nas farmacias das unidades de atencao primaria de Blumenau. A Atencao Primaria a Saude (APS) e considerada a porta de entrada do SUS. Dentre as modalidades de APS em Blumenau, destacam-se as Unidades Basicas com equipes de Estrategia Saude da Familia (ESF) e os Ambulatorios Gerais (AG). As equipes de ESF sao compostas por medico, enfermeira, tecnicos de enfermagem e agentes comunitarios de saude. Os AG contam com clinico-geral, pediatra, gineco-obstetra, profissionais de enfermagem, psicologo, assistente social e farmaceutico. Ambas tem equipes de saude bucal. Blumenau contava com 46% da populacao coberta por equipes de ESF em 2010.

A amostra foi obtida em dois estagios--unidades e usuarios--proporcionalmente pelo numero total de usuarios assistidos pela respectiva unidade. O tamanho da amostra deveria ser capaz de estimar uma proporcao de 50% de pessoas que utilizam remedios caseiros, com precisao de 5%, intervalo de confianca de 95% e efeito desenho igual a 2, totalizando 768 pessoas. Os usuarios que compareceram as farmacias das unidades de saude para obter medicamentos foram incluidos na amostra apos assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). No caso de menores de 18 anos, os TCLE eram assinados pelos pais ou responsaveis. Foram excluidos aqueles que apresentassem alguma limitacao fisica ou cognitiva que comprometesse as respostas do questionario.

O trabalho de campo foi realizado em 3 AG e 11 ESF. As Unidades de Saude com equipes de ESF e os AG localizam-se em diversas areas da cidade de Blumenau, sendo que cada um deles pertence a uma regiao diferente e todos os locais sao considerados areas urbanas.

As informacoes foram obtidas por entrevistadores previamente treinados e registradas em questionarios estruturados e predominantemente fechados, os quais foram aplicados no periodo de setembro de 2009 a abril de 2010. Informacoes referentes a menores de 18 anos foram obtidas a partir dos responsaveis legais.

Analise dos dados

Foram estudadas as variaveis: sexo, idade (em anos completos e por faixas etarias), estado civil, escolaridade (em anos de estudo completos), cor autodeclarada, classe economica de consumo, doencas de base, tempo de tratamento, quantidade de medicamentos usados nos ultimos 15 dias, se faz uso de medicamentos de uso continuo e se necessitou ou nao internacao hospitalar nos ultimos 12 meses. As doencas foram classificadas e agrupadas de acordo com Classificacao Internacional de Doencas e Problemas Relacionados a Saude--decima revisao Doencas (CID-10) da OMS (13). A classe economica de consumo foi definida com base nos criterios da Associacao Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) (14).

A variavel de desfecho foi "uso de remedio caseiro" entendido como todo e qualquer tipo de cuidado utilizado para curar ou aliviar doencas, sintomas, desconforto e mal-estar. Alem disso, questionou-se o tipo de remedio, o local de obtencao, a forma de uso e o motivo pelo qual foi utilizado. Esta pesquisa nao objetivou um estudo etnobotanico, com coleta de plantas visando a identificacao botanica completa e a comprovacao do uso cientifico de plantas utilizadas pela populacao.

Os dados foram digitados com dupla entrada no software EPI-DATA (dominio publico) e feito controle de qualidade de possiveis erros. Inicialmente, as variaveis foram analisadas de maneira descritiva, atraves de calculo de frequencias, com os respectivos intervalos de 95% de confianca e medidas de tendencia central e variabilidade.

Foi calculada a prevalencia de uso de remedio caseiro com intervalo de 95% de confianca para uma distribuicao binomial.

Foi calculado o "Odds Ratio" (OR), com intervalo de 95% de confianca, como medida de associacao entre a variavel utilizacao de remedio caseiro e as variaveis independentes sociodemograficas e medico-assistenciais. Na analise multivariada, calcularam-se os valores de OR por regressao logistica nao condicional. Utilizou-se a tecnica de retirada paulatina das variaveis com base nos niveis de significancia (stepwise backward), permanecendo aquelas que mantiveram um valor de p < 0,05, estimado pela Razao de Maxima Verossimilhanca. Foi testado o ajuste do modelo final pelo teste de Hosmer-Lemeshow.

Aspectos eticos

Este estudo foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisas de Seres Humanos da Universidade Regional de Blumenau (FURB).

Resultados

Foram entrevistados 701 individuos, ocorrendo 9 perdas por informacoes incompletas e 58 por recusas, destes foram 548 mulheres (78,1%) com media de idade de 43,3 anos ([+ or -] 19,2) e mediana de 43,8 anos, sem diferencas entre os sexos. A maioria (569, 81,6%) dos entrevistados declarou-se branca, casada (394, 56,4%) e 395 (56,4%) pertencentes a classe C. A media de anos de estudos foi de 6,9 anos ([+ or -] 3,5) e a mediana de 7 anos (Tabela 1).

A maioria das pessoas foi assistida em AG (425, 60,6%). Entre as afeccoes tratadas mais comuns nas Unidades de Saude, destacaram-se as "doencas do aparelho circulatorio" (161, 23,3%) e as "doencas endocrinas, nutricionais e metabolicas" (13,1%). A mediana de tempo de duracao da doenca de base foi de 12 meses. O numero medio de medicamentos consumidos nos ultimos 15 dias foi de 2,6 (mediana = 2), enquanto 130 pessoas (18,7%) necessitaram de internacao hospitalar no ultimo ano (Tabela 2). Dentre as 385 pessoas que utilizavam medicamentos continuamente, 57 pararam de usar por conta propria e, destas, 3 substituiram por remedios caseiros.

A pratica de uso de remedio caseiro foi relatada por 151 (21,8%) dos entrevistados, sendo que as plantas medicinais (96%) foram a principal terapia escolhida, as demais respostas (4%) mencionaram outras formas como: agua com sal ou acucar, gordura de capivara, leite e mel. Neste estudo, foi citado pelos entrevistados um total de 55 plantas, sendo que as 10 mais referidas estao apresentadas na Tabela 3.

Em relacao ao local de obtencao das plantas, a maioria dos entrevistados coleta no proprio quintal (76, 51,0%), com amigos, familiares ou vizinhos (19, 12,8%), farmacia (14, 9,4%) ou mercado/loja de produtos naturais (36, 24,2%). Somente 4 (2,7%) dos entrevistados relataram obter plantas na Unidade de Saude. As formas de preparo das plantas medicinais informadas foram, cha (87,4%), suco (5,3%), fruta (2,0%), xarope (1,3%), pomada (1,3%), compressas (0,7%), gargarejo (0,7%), garrafadas (0,7%) e banhos de assento (0,7%). A pratica do preparo de garrafadas foi relatada apenas por um entrevistado, que mistura varias plantas buscando um efeito fortificante.

A Tabela 4 mostra a analise univariada da associacao entre diversas variaveis das pessoas e medico-assistenciais e o uso de remedios caseiros. Observou-se associacao de forma significativa para as variaveis: idade, estado civil, escolaridade, modalidade de servico, tempo de doenca de base e numero de medicamentos consumidos.

O modelo de regressao logistica ajustado encontra-se apresentado na Tabela 5.

Discussao

O Programa Nacional de Plantas e Fitoterapicos visa a promocao e o reconhecimento das praticas populares e tradicionais como terapia, entretanto, nao existe conhecimento estabelecido sobre a aplicacao destas praticas por usuarios atendidos na Atencao Primaria no municipio de Blumenau (SC). O presente estudo investigou o uso de remedios caseiros e as variaveis que influenciaram o uso dos mesmos pela populacao atendida pelo SUS a fim de contribuir com informacoes importantes aos gestores municipais e a comunidade como um todo no entendimento do uso de praticas terapeuticas populares.

As caracteristicas sociodemograficas da amostra se mostraram semelhantes a outros estudos realizados na atencao primaria no Brasil, com predominio de individuos adultos, do sexo feminino e em situacao de vulnerabilidade social (15,16).

Entre as afeccoes tratadas mais comuns nas Unidades de Saude, destacaram-se as "doencas do aparelho circulatorio" (23,2%), as "doencas endocrinas, nutricionais e metabolicas" (13,1%) e os "fatores que influenciam o estado de saude e o contato com os servicos de saude" (8,1%). Lima et al. (17), assim como Oliveira et al. (7), observaram resultado semelhante para doencas do aparelho circulatorio em pessoas assistidas pelo SUS. Alem disso, Piuvezam et al. (18) destacam que atualmente as doencas cardiovasculares representam cerca de 40% das mortes registradas no pais, particularmente entre idosos.

O numero medio de medicamentos consumidos nos ultimos 15 dias foi de 2,6, o qual se mostrou em consonancia com outros estudos no pais (15). Por outro lado, a proporcao de pessoas que necessitaram de internacao hospitalar no ultimo ano foi elevada (n = 130, 18,7%) comparada com um estudo nacional de base populacional (19), fato que pode pelo menos em parte ser explicado por se tratar de clientes de servicos de saude, potencialmente mais doentes que a populacao em geral.

Alguns entrevistados relataram a substituicao de medicamentos por plantas medicinais, pois "achava que podia regular com remedio caseiro, trabalhava fora e nao tinha receita para comprar o medicamento, relaxamento meu mesmo", provavelmente sem o conhecimento do medico, fato relatado tambem por Lima et al. (17). Estes casos podem representar um risco para a saude do paciente, pois a grande maioria das plantas medicinais nao tem sua eficacia comprovada, bem como as possiveis interacoes entre os medicamentos e as plantas medicinais devidamente relatados. Veiga Junior et al. (20) revelam que entre os danos ocasionados por algumas plantas estao a hepatotoxicidade, nefrotoxicidade, genotoxicidade, incidencia aumentada de tumores, efeitos abortivos, lesao ao sistema nervoso central, entre outros. Portanto, a utilizacao de plantas medicinais nao deve ser considerada livre de riscos.

Verificou-se neste estudo que 96% dos entrevistados escolheram plantas medicinais como a principal terapia entre os remedios caseiros. Neste sentido, dados da OMS informam que, na busca pelo bem estar e qualidade de vida, as plantas medicinais tornaram-se uma alternativa pela sua credibilidade terapeutica e baixo custo (2).

Em relacao ao total de 55 plantas citadas, Oliveira et al. (7) observaram o uso de 65 especies para diferentes finalidades, porem, um numero superior de usuarios fazia uso das medicinais (66,2%) em relacao ao presente estudo (21,02%).

Entre as plantas citadas, o maracuja, da especie Passiflora officinalis, pode interagir com hipnoticos e ansioliticos, o alho (Allium sativum) diminui os niveis plasmaticos de medicamentos usados para tratar pacientes com HIV e pode causar dermatite alergica, nauseas e vomitos. A hortela, da especie Mentha spicata, e responsavel por causar dermatite alergica, o boldo, da especie Plectranthus barbatus, pode ser nefrotoxico, enquanto o gengibre (Zingiber officinale) possui propriedades abortivas. Alem disso, alho, gengibre e Ginko biloba, quando usados concomitantemente com anticoagulantes do tipo varfarina, podem alterar o tempo de coagulacao (21). Neste sentido, tambem fizeram um alerta sobre a interacao medicamentosa, Oliveira e Dalla-Costa (22), das plantas Hypericum perforatum, Ginkgo biloba e Panax ginseng com farmacos tradicionais.

Entre outros riscos, existe a possivel toxicidade intrinseca a planta, a contaminacao por agentes externos, como parasitas capazes de ocasionar doencas infecciosas, a contaminacao por metais pesados e pesticidas, alem da adicao de farmacos com o proposito de prolongar o efeito das ervas, riscos assumidos quando estas sao adquiridas em feiras livres, mercados publicos ou lojas de produtos naturais.

Neste estudo, a maioria dos entrevistados relatou que coleta as plantas no proprio quintal, nesse sentido, estudos realizados com usuarios do SUS em Governador Valadares (MG) (23) e Pelotas (RS) (7) encontraram resultados semelhantes, indicando, respectivamente, que 52% e 64% das plantas utilizadas sao cultivadas em quintais. Como observado previamente (10,23-25), este estudo mostra de forma semelhante que a principal forma de preparo das plantas medicinais informada foi o cha. Mas, outras formas diferentes de preparo tambem foram mencionadas pelos usuarios (12,58%).

Entre os dez vegetais mais utilizados pelos entrevistados, seis aparecem na lista de 71 plantas que constam da Relacao Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) (26), porem apenas uma delas, a hortela, faz parte da Relacao Nacional de Medicamentos (RENAME) (27). Isto demonstra que, caso Blumenau viesse a oferecer aos usuarios as plantas medicinais disponiveis no RENAME, nao haveria sintonia entre o material oferecido e o utilizado pela maioria da populacao.

Observou-se que a media de idade entre aqueles que usam alguma forma de remedio caseiro foi de 48,9 anos, e os que nao usam foi de 42,1 anos, o que sugere fortemente uma associacao positiva entre ambos (p = 0,0001). Entre os viuvos predominou o uso de remedios caseiros, fato que se mostrou relacionado, ao menos em parte, a idade encontrada entre os integrantes desse grupo, 67,89 anos ([+ or -] 12,92). A associacao positiva encontrada entre o uso de remedios caseiros e a idade pode ser explicada, pelo menos em parte, devido as caracteristicas da transmissao de conhecimento popular, sendo principalmente atraves das geracoes (17,24,28,29) e de forma oral, necessitando de um prolongado contato entre os individuos mais novos e os mais velhos, o que em comunidades urbanas e mais dificil (29).

E em relacao a escolaridade, individuos que nao possuem nenhum ano de estudo utilizam mais remedios caseiros comparado com aqueles que tem 1 a 8 ou 9 e mais anos de estudo (40,0% vs 23,2% vs 17,1% respectivamente; p = 0,02). Arnous et al. (30) e Oliveira et al. (7) relataram resultado semelhante entre usuarios do SUS. Outra associacao significativa ocorreu entre aqueles que utilizavam mais medicamentos e tambem mais remedios caseiros (p = 0,0023). Em um estudo com idosos realizado por Leite et al. (31) a maioria dos entrevistados que utilizavam remedios caseiros tambem usavam na mesma proporcao medicamentos alopaticos. Por outro lado, em estudo recente na Alemanha, observou-se uma utilizacao de remedios caseiros (42%) preferencialmente para iniciar o tratamento de doencas comuns evitando o uso de medicamentos alopaticos (24).

Os resultados sugerem que pessoas do sexo feminino, com mais idade e usuarias de ESF sao as principais usuarias de remedios caseiros. Esse comportamento tambem foi observado por Silva et al. (32) e pode ser explicado, ao menos em parte, pela cobertura de ESF em Blumenau estar em areas de maior vulnerabilidade social.

O municipio que desejar estimular a utilizacao de plantas medicinais precisa oferecer formas de capacitacao para as equipes de saude, pois apesar do Ministerio da Saude incentivar o uso de plantas medicinais e fitoterapicos, se observa que o ensino da utilizacao terapeutica das plantas medicinais nao esta comumente contemplado nos curriculos das faculdades de medicina (24) e enfermagem, por exemplo.

Para auxiliar na reflexao, Antonio et al. (33) realizaram um estudo comparando os periodos de 1990-2002 com 2003-2013 constatando que houve um pequeno aumento nas publicacoes relacionadas ao tema "Plantas medicinais e atencao primaria a saude". Segundo esses pesquisadores, os motivos para a pouca adesao ao uso desta terapia estariam relacionados ao baixo interesse academico no tema, possivelmente devido a falta de incentivo do poder publico. Outra hipotese estaria no fato de que a fitoterapia seria um conhecimento antigo e sagrado, nao fazendo parte de um futuro envolvendo novas tecnologias, ou ainda, pela integracao falha entre as diferentes areas do conhecimento envolvidas. Por fim, a baixa avaliacao no sistema Qualis dos periodicos que publicam sobre o tema para a area Saude Coletiva pode indicar que o assunto nao e prioridade nos periodicos cientificos desta area.

Entretanto, em 2010, o Ministerio da Saude publicou portaria instituindo o programa Farmacia Viva, no ambito dos estados e municipios, como forma de estimular o cultivo e a producao de plantas medicinais e fitoterapicos. Dessa forma, o caminho para a producao e a utilizacao das plantas medicinais esta aberto para os municipios que demonstrarem interesse.

Observa-se um esforco, porem o caminho e longo, para colocar em pratica as diretrizes determinadas para nortear o processo de implantacao da PNPIC, que sao, elaboracao da Relacao Nacional de Plantas Medicinais e da Relacao Nacional de Fitoterapicos, provendo acesso a formacao e educacao permanente dos profissionais de saude, acompanhamento e avaliacao da insercao e implementacao, fortalecimento e ampliacao da participacao popular e do controle social, incentivo a pesquisa e desenvolvimento, priorizando a biodiversidade do pais, promocao do uso racional e garantia do monitoramento da qualidade dos fitoterapicos pelo Sistema Nacional de Vigilancia Sanitaria. No Brasil, muitos estados ja tem utilizado plantas medicinais e fitoterapicos no SUS (34,35) e, em 2010, esta pratica foi introduzida em 16 estados da federacao (36).

Conclusao

Neste estudo foi possivel verificar que a principal forma de uso de remedios caseiros pelos usuarios do SUS em Blumenau foi com plantas medicinais. Apesar de menos utilizadas do que a medicina convencional, as plantas continuam sendo uma alternativa terapeutica para parte da populacao feminina, com mais idade e usuarias das ESFs. Alem disso, comparando o numero de plantas medicinais citadas pelos usuarios neste estudo com outros similares, com mais usuarios deste tipo de terapia, proporcionalmente foi maior, demonstrando conhecimento popular a ser resgatado. Ainda, estas pessoas fazem a coleta do material vegetal no proprio quintal e preparam as plantas na forma de cha. O uso provavel sem o conhecimento medico/especializado de qualquer droga pode ser perigoso a saude pelos efeitos colaterais e tambem por sua possivel interacao com medicamentos, visto os usuarios entrevistados fazerem uso de plantas medicinais e medicamentos alopaticos concomitantemente. Os resultados obtidos reunem informacoes sobre o uso de remedios caseiros pelos usuarios de servicos de Atencao Primaria a Saude em Blumenau permitindo contribuir para formulacoes de propostas que visem a implantacao das diretrizes da PIC, incentivando o uso orientado de plantas medicinais e fitoterapicos.

Colaboradores

AV Parisotto trabalhou na pesquisa, analise dos dados e redacao do artigo, G Mattos participou na analise e interpretacao dos dados e redacao do artigo e, ALB Zeni e ET Santa Helena participaram na concepcao, analise dos dados e redacao final do artigo.

DOI: 10.1590/1413-81232017228.18892015

Agradecimentos

Este estudo fez parte do projeto "Melhoria da qualidade da Assistencia Farmaceutica na atencao basica do SUS, Blumenau/SC" e contou com suporte financeiro da Organizacao Panamericana da Saude.

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(33.) Antonio GD, Tesser CD, Moretti-Pires RO. Phytotherapy in primary health care. Rev Saude Publica 2014; 48(3):541-553.

(34.) Wayland C. Gendering local knowledge: medicinal plant use and primary health care in the Amazon. Med Anthropol Q 2001; 15(2):171-188.

(35.) Wayland C. Contextualizing the politics of knowledge: physicians' attitudes toward medicinal plants. Med Anthropol Q 2003; 17(4):483-500.

(36.) Brasil. Ministerio da Saude (MS). Secretaria de Atencao a Saude. Departamento de Atencao Basica. Praticas integrativas e complementares: plantas medicinais e fitoterapia na Atencao Basica. Brasilia; 2012.

Artigo apresentado em 28/09/2015

Aprovado em 22/02/2016

Versao final apresentada em 24/02/2016

Ana Lucia Bertarello Zeni [1]

Amanda Varnier Parisotto [2]

Gerson Mattos [1]

Ernani Tiaraju de Santa Helena [1]

[1] Programa de PosGraduacao em Saude Coletiva, Universidade Regional de Blumenau (FURB). R. Antonio da Veiga 140, Itoupava Seca. 89030-903 Blumenau SC Brasil. anazeni@furb.br

[2] Curso de Medicina, Departamento de Medicina, FURB. Blumenau SC Brasil.
Tabela 1. Caracterizacao sociodemografica dos usuarios atendidos
pela Atencao Primaria em Blumenau (SC).

Variavel                       N        % (IC95%)

Sexo (n = 701)
  Masculino                   153    21,8 (18,8-25,1)
  Feminino                    548    78,1 (74,9-81,2)
Faixa etaria (n = 701)         87    12,4 (10,1-15,1)
Menor que 20 anos
  20 a 64 anos                516    73,6 (70,2-76,8)
  65 anos e mais               98    14,0 (11,5-16,8)
Cor autodeclarada (n = 697)
  Branco                      569    81,6 (78,6-84,4)
  Outros                      128    18,4 (15,6-21,4)
Estado civil (n = 699)
  Solteiro                    182    26,0 (22,8-29,5)
  Casado                      394    56,4 (52,6-60,1)
  Separado                     50     7,2 (5,4-9,3)
  Viuvo                        73    10,4 (8,3-13,0)
Escolaridade (n = 687)
  Analfabetos                  25     3,6 (2,4-5,3)
  1 a 4 anos                  215    31,3 (27,8-34,9)
  5 a 8 anos                  207    30,1 (26,7-33,7)
  9 a 11 anos                 186    27,1 (23,8-30,6)
  12 e mais                    41     6,0 (4,3-8,0)
  Nao se aplica                13     1,9 (1,0-3,2)
Classe de consumo (n = 701)
  A                            8      1,1 (0,5-2,2)
  B                           223    31,8 (28,4-35,4)
  C                           395    56,4 (52,6-60,1)
  D                            74    10,6 (8,4-13,1)
  E                            1      0,1 (0,0-0,7)

IC: intervalo de confianca

Tabela 2. Caracteristicas das variaveis medico-assistenciais dos
pacientes atendidos pela Atencao Primaria em Blumenau (SC).

Variavel                                    N        % (IC95%)

Modalidade APS (n = 701)
  AG                                       425   60,6 (56,9-64,3)
  ESF                                      276   39,4 (35,7-43,1)
Doencas de base--CID agrupada (n = 693)
  Doencas endocrinas, nutricionais e       91    13,1 (10,7-15,8)
    metabolicas
  Transtornos mentais e comportamentais    50      7,2 (5,4-9,4)
  Doencas do aparelho circulatorio         161   23,2 (20,1-26,6)
  Doencas do aparelho respiratorio         52      7,5 (5,6-9,7)
  Doencas do aparelho digestivo            44      6,4 (4,6-8,4)
  Doencas do sistema osteomuscular         48      6,9 (5,1-9,1)
  Sintomas, sinais mal definidos           52      7,5 (5,7-9,7)
  Demais causas                            195   28,1 (24,8-31,6)
Tempo da doenca de base (n = 684)
  Ate um ano                               360   52,6 (48,8-56,4)
  Um ano e mais                            324   47,4 (43,6-51,2)
Numero de medicamentos (n = 692)
  0 a 2                                    395   57,1 (53,3-60,8)
  3 a 4                                    145   20,9 (18,0-24,2)
  5 e mais                                 152   22,0 (18,9-25,2)
Medicamentos de uso continuo (n = 701)
  Sim                                      385   54,9 (51,2-58,7)
  Nao                                      316   45,1 (41,4-48,8)
Hospitalizacao nos ultimos 12 meses
  (n = 700)
  Sim                                      130   18,6 (15,8-21,7)
  Nao                                      570   81,4 (78,3-84,2)

IC: intervalo de confianca; APS: atencao primaria a saude; AG:
ambulatorio geral; ESF: estrategia saude da familia; CID:
classificacao internacional de doencas e problemas relacionados a
saude.

Tabela 3. Relacao das 10 plantas mais citadas (frequencia relativa)
e indicacoes de uso medicinal relatadas pelos usuarios da Atencao
Primaria em Blumenau (SC).

Nome popular      N     %               Indicacoes populares

Erva-cidreira    26    17,3   "calmante, pra dormir e relaxar"
Camomila         19    12,6   "pra colicas, dormir, calmante, dor de
                              cabeca e baixar a pressao"
Hortela          14    9,3    "calmante, gripe, dor de barriga"
Limao            11    7,3    "baixar pressao, gripe, pra nao dar
                              convulsao, dor"
Boldo            10    6,6    "dor de estomago, calmante, azia,
                              ma digestao"
Cana-de-cheiro    9    6,0    "pra baixar pressao, calmante"
Malva             9    6,0    "infeccao na bexiga, gripe, dor,
                              inflamacao"
Erva-doce         7    4,6    "calmante, pra dormir"
Maracuja          5    3,3    "calmante, para nao dar convulsao"
Laranja           4    2,6    "gripe"
Outros           27    24,4   --

Total            151   100

Tabela 4. Analise univariada dos dados sociodemograficos e variaveis
medico-assistenciais dos usuarios atendidos pela Atencao Primaria em
Blumenau (SC).

Uso de remedio caseiro

                         Sim          Nao        Odds Ratio        p
Variaveis                N(%)        N (%)         (IC95%)

Sexo
  Masculino            23(17,4)    109(82,6)
  Feminino            111(22,3)    386(77,7)    1,4 (0,8-2,2)    0,22
Idade (media, dp)     50,4(16,1)   43,6(18,0)       1,02        <0,0001
                                                 (1,01-1,03)
Estado civil
  Solteiro            19 (12,9)    128 (87,1)
  Casado              80 (21,7)    289 (78,3)   1,9 (1,1-3,2)
  Separado            14 (29,8)    33 (70,2)    2,9 (1,3-6,3)
  Viuvo               21 (31,8)    45 (68,2)    3,1 (1,5-6,4)    0,006
Cor auto-referida
  Branca              106 (20,5)   410 (79,5)
  Preto/Parda/Outra   28 (24,8)    85 (75,2)    1,3 (0,8-2,1)    0,320
Escolaridade (anos de estudo)
  5 anos e mais       72 (17,8)    333 (82,2)
  0 a 4 anos          62 (27,7)    162 (72,3)   1,8 (1,2-2,6)    0,004
Classe de consumo
  A/B                 45 (21,6)    163 (78,4)
  C                   71 (20,1)    283 (79,9)   0,9 (0,6-1,4)
  D/E                 18 (26,9)    49 (73,1)    1,3 (0,7-2,5)    0,469
Modalidade Assistencial
  AG                   56(14,1)    342(85,9)
  ESF                  78(33,8)    153(66,2)    3,1 (2,1-4,6)   <0,0001
Tempo da doenca de base
  Ate 12 meses        48 (15,2)    267 (84,8)
  12 meses e mais     86 (27,4)    228 (72,6)   2,1 (1,4-3,1)   <0,0001
Numero de medicamentos
  0 a 2               57 (16,3)    293 (83,7)
  3 a 4               41 (29,9)    96 (70,1)    2,2 (1,4-3,5)
  5 e mais            36 (25,4)    106 (74,7)   1,7 (1,1-2,8)    0,002
Medicamentos de uso continuo
  Nao                 49 (18,3)    219 (81,7)
  Sim                 85 (23,6)    276 (76,5)   1,4 (0,9-2,0)    0,111
Hospitalizacao nos ultimos 12 meses
  Nao                 103 (20,0)   411 (80,0)
  Sim                 31 (27,0)    84 (73,0)    1,5 (0,9-2,3)    0,101

IC: intervalo de confianca; AG: Ambulatorio geral; ESF: Estrategia
saude da familia.

Tabela 5. Modelo de regressao logistica bruta e ajustada da
associacao entre uso de remedios caseiros e variaveis de estudo
selecionadas (n = 629).

                 Uso de remedio caseiro         Odds ratio (IC 95%)

Variaveis        Sim          Nao           Bruto         Ajustado

Sexo
  Masculino     23(17,4)    109(82,6)
  Feminino      111(22,3)    386(77,7)    1,4 (0,8-2,2)   1,9 (1,4-3,3)

Idade (media,   50,4(16,1)   43,6(18,0)    1,02 (1,0-      1,02 (1,0-
  dp)
                                            1,03)           1,03)
Modalidade
Assistencial

  AG           56(14,1)    342(85,9)
  ESF          78(33,8)    153(66,2)    3,1(2,1-4,6)    3,2 (2,1-4,8)

Razao de Maxima Verossimilhanca = 50,6 p < 0,0001 GOF %2 = 638,8 p =
0342. IC: intervalo de confianca; AG: ambulatorio geral; ESF:
estrategia saude da familia.
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Title Annotation:FREE THEMES/TEMAS LIVRES
Author:Zeni, Ana Lucia Bertarello; Parisotto, Amanda Varnier; Mattos, Gerson; Helena, Ernani Tiaraju de San
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Article Type:Ensayo
Date:Aug 1, 2017
Words:5905
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