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Unidade de efeito pela organizacao argumentativa em blocos semanticos.

Introducao

Edgar Allan Poe, escritor, poeta, editor e critico literario norte-americano, e considerado um dos primeiros grandes escritores a pensar sobre a teoria de composicao e a elaborar um conjunto de principios que deveriam ser observados ao escrever ficcao e poesia. Seu principio mais basico e o da 'unidade de efeito', isto e, o escritor deve calculadamente construir seu texto com o objetivo de criar um unico e total efeito psicologico/ emocional no leitor. Sobre a teoria do conto de Poe escreve Charles Kiefer:

[Segundo Poe],'no conto breve, [...], o autor pode levar a cabo a totalidade de sua intencao, seja qual for'. [...] Nao se deve--preceitua ele--amoldar as ideias para acomodar os incidentes, mas, depois de ter concebido um 'efeito unico e singular', criar os incidentes. Alem disso, devem-se combinar tais incidentes de forma a melhor estabelecer o efeito pre-concebido. [...] [C]omo ele afirma, 'se a primeira frase nao se direciona ao resultado deste efeito, ele ja fracassou em seu primeiro passo. Em toda a composicao, nao deve haver uma palavra escrita cuja tendencia, direta ou indireta, nao leve aquele unico plano pre-estabelecido' (KIEFER, 2004, p. 19-20).

A ideia de que toda a composicao de enunciados em um conto deva conduzir, direta ou indiretamente, ao plano pre-estabelecido, ao efeito de sentido pre-concebido parece coincidir com a nocao de Ducrot (1988, p. 14) de que o "sentido de um enunciado e fazer possivel um discurso argumentativo: as coisas aparecem nele nao mais que como o suporte ou a ocasiao de nossas argumentacoes ".

Na Teoria da Argumentacao na Lingua (TAL), que tem em Ducrot seu criador, a argumentacao esta inscrita na propria lingua. O sentido de uma palavra e simplesmente um meio de previsao do efeito de sentido; e o efeito de sentido de uma palavra, por sua vez, nao e o sentido que ela toma num contexto, ou as modificacoes que lhe traz o contexto, mas ao contrario, e a mudanca produzida nesse contexto pela introducao desta palavra (DUCROT, 1987). A TAL entende a lingua como sendo essencialmente argumentativa, e o sentido como sendo construido no encadeamento discursivo.

Partindo do pressuposto de que um texto/discurso e uma unidade semantico-argumentativa e que seu sentido e gerado a partir do encadeamento de enunciados, a intencao deste trabalho e aplicar conceitos da Teoria dos Blocos Semanticos (TBS), atual forma da TAL, e da polifonia, para verificar como Poe articula as entidades linguisticas para argumentar, fazer a historia progredir e imprimir no leitor uma unidade de sentido que contribui para alcancar a unidade total de efeito. O conto escolhido foi O coracao delator, e sua escolha deveu-se ao fato de ser considerado por muitos o conto em que mais perfeitamente se pode perceber a construcao da unidade de efeito.

A teoria argumentativa na lingua

A Teoria Argumentativa na Lingua (TAL) e uma teoria estruturalista, que se embasa na nocao saussuriana de lingua como um sistema de signos que se definem na sua relacao reciproca. E e enunciativa no sentido de que preve um sujeito que se apropria do sistema da lingua e a poe em funcionamento.

Para Ducrot (1988), a linguagem nao descreve a realidade, tampouco tem ela carater informativo. O autor propoe que as palavras tem um valor argumentativo, ou seja, elas dao uma orientacao, um sentido ao discurso, possibilitando algumas argumentacoes e nao outras. Dai o pressuposto basico da teoria: o de que a argumentacao esta na lingua.

Para definir o 'discurso' como uma sucessao de enunciados, e preciso observar a oposicao que Ducrot (1988) faz entre 'frase' e 'enunciado'. A 'frase' e uma entidade teorica, abstrata, pertencente a estrutura da lingua. O 'enunciado', ao contrario, e uma realidade empirica, observavel, uma realizacao possivel da frase. O enunciado, por ser uma manifestacao particular de uma frase, possui sentido unico, enquanto a frase possui significacao de carater mais abrangente, generalizador. O sentido de uma entidade linguistica e constituido por certos discursos que ela evoca--os encadeamentos argumentativos--e tem carater polifonico.

A polifonia

A nocao de polifonia em Ducrot (1988) fundamenta-se no pressuposto de que o sentido de um enunciado e constituido de diversas vozes, pela superposicao e confrontacao de varios discursos ou enunciadores que sao a origem dos diversos pontos de vista ali presentes.

Ha no enunciado varios sujeitos com funcoes diferentes. O sujeito empirico (SE) e o autor do enunciado, responsavel por sua realizacao fisica, e sua determinacao nao interessa a descricao linguistica, que deve preocupar-se com o que esta no enunciado e nao com as condicoes alheias a sua producao. O locutor (L) e o suposto responsavel, a quem se atribui a responsabilidade do sentido construido no enunciado. Ele se mostra na enunciacao com marcas de pessoa, tempo e espaco. O Enunciador (E) e a fonte dos diferentes pontos de vista apresentados pelo locutor no enunciado.

Alem da apresentacao dos pontos de vista, faz parte do sentido do enunciado a indicacao da posicao do locutor em relacao aos enunciadores ali apresentados (DUCROT; CAREL, 2008, p. 7). Ele pode assumir um E, o que pode ser observado em assercoes como "a doenca exacerbou meus sentidos", retirada do conto analisado, em que o locutor quer fazer admitir o ponto de vista de que de fato a doenca apurou seus sentidos. Outra possivel atitude do locutor e a de concordancia com um enunciador, mesmo que o enunciado nao tenha o objetivo de fazer admitir tal ponto de vista. Como os autores afirmam (DUCROT; CAREL, 2008), concordar com um enunciador significa proibir(-se) contestar esse ponto de vista. Uma terceira possivel atitude do locutor e a de oposicao a um enunciador. Ducrot agrega a assimilacao de um enunciador a seres determinados ou indeterminados como um elemento na analise do sentido.

Blocos semanticos

Na forma atual da TAL, proposta por Marion Carel em 1992, a argumentacao se da a partir do encadeamento de segmentos no enunciado (encadeamento argumentativo que tem como formula geral X CON Y) em que os segmentos S1 e S2 sao interdependentes e exprimem, ambos, uma so coisa, formando um bloco semantico (CAREL, 2002). O encadeamento argumentativo e a unidade de sentido. Quando o encadeamento ocorre pelo conector 'portanto'--em frances donc, abreviado por DC -, diz-se que e normativo; quando ocorre pelo conector 'no entanto'--pourtant em frances, abreviado por PT -, e chamado de transgressivo.

Dado um encadeamento argumentativo X CON Y, A e B sao os segmentos contidos em X e Y respectivamente, que, acompanhados ou nao de expressao de valor negativo, sao pertinentes para a conexao em DC ou PT estabelecida pelo encadeamento (CAREL; DUCROT, 2005).

A partir de A e B podem-se construir oito conjuntos de encadeamentos, chamados aspectos argumentativos, que se agrupam em dois blocos de quatro aspectos cada um. A relacao entre A e B e a mesma dentro dos quatro aspectos de um mesmo bloco. Para formalizar a nocao de bloco semantico, a TBS introduz o quadrado argumentativo. Os quatro aspectos em cada bloco estabelecem entre si relacoes de conversao, reciprocidade e transposicao, conforme apresentam as Figuras 1 e 2.

[FIGURA 1 OMITIR]

[FIGURA 2 OMITIR]

Na organizacao do bloco semantico de uma entidade lexical X, um aspecto DC ou PT pode ser ligado a essa entidade de modo externo ou interno. A argumentacao externa (AE) deriva da propria expressao, como e o caso de 'nervoso' em:
   E verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo
   eu estive e estou, mas por que voce vai dizer que
   estou louco?


Seu encadeamento pode ser expresso pelo aspecto transgressivo: 'nervoso PT neg-louco' (1). E possivel verificar nesse trecho outras nocoes ja mencionadas: ha um enunciador que diz 'nervoso DC louco', assimilado ao interlocutor do narrador, que, no entanto, recusa-o.

A argumentacao interna (AI) e uma parafrase da expressao, o que comprova a hipotese de que a argumentacao esta na lingua. No caso de 'nervoso', o lexico pode ser parafraseado pelo encadeamento 'agitacao mental DC perda do juizo'. A semelhanca das entidades lexicais, os enunciados tambem possuem AI, que sao descritas como argumentacoes condensadas no proprio interior dos enunciados simples (CAREL, 2002). No trecho salientado acima, a argumentacao condensada pode ser expressa por: 'estive e estou muito nervoso PT nao estou louco'.

No presente trabalho, o texto/discurso sera tomado como uma unidade semantico-argumentativa em que os encadeamentos argumentativos que o compoem sao interdependentes e cuja relacao, orientada pelo uso de conectores DC e PT, engendra o sentido, unidade semantica.

Analise e discussao

O tema do conto e a loucura, conforme indicado no trecho de abertura do conto ja analisado acima. A historia e dirigida pela insistencia do narrador em sua sanidade. Ele justifica sua sanidade falando-nos de seus sentidos superdotados, da precisao e cuidado de suas acoes, alem de salientar a calma que ele tem ao relatarnos seus atos, e tenta, assim, dar explicacoes racionais para um ato irracional--ele chega a dizer que nao havia motivo para matar o velho. A medida que a historia corre, ele vai denunciandose completamente louco. O objetivo deste trabalho e verificar de que maneira o narrador se denuncia louco, embora ele insista que nao o seja. Observemos o trecho inicial do conto:

(1) E verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que voce 'vai' dizer que estou louco? (2) A doenca exacerbou meus sentidos, nao os destruiu, nao os embotou. (3) Mais que os outros estava agucado o sentido da audicao. Ouvi todas as coisas no ceu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como entao posso estar louco? Preste atencao! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a historia (POE, 2007, p. 196).

Como ja visto, o encadeamento do enunciado (1) poderia ser expresso pelo aspecto transgressivo: 'nervoso PT neg-louco', em que 'mas' permite a identificacao de um enunciador que diz 'nervoso DC louco', que e seu aspecto converso, assimilado ao interlocutor do narrador, que, no entanto, recusao. Entretanto, o enunciado (2) parece situar o lexico 'nervoso' em outro bloco semantico. Na interrelacao dos enunciados (1) e (2), o narrador de fato diz que estar nervoso e uma doenca (nervosismo DC doenca), mas que essa doenca, ao inves de destruir seus sentidos, agucou-os. Temos, portanto, o seguinte encadeamento:

Doenca DC sentidos apurados

Por polifonia, ao dizer que a doenca nao havia destruido seus sentidos, identificamos um enunciador, assimilado ao interlocutor (ou ainda a um grupo indeterminado, cujo senso comum e compartilhado pelo interlocutor), que afirma:

Doenca DC sentidos prejudicados

Dessa maneira, compreendemos que doenca tem, para o narrador, um sentido diverso daquele de seu interlocutor. Sao dois blocos semanticos distintos: o primeiro adotado pelo narrador; o segundo atribuido ao interlocutor. E se 'doenca' se apresenta em blocos semanticos distintos, assim tambem o e com 'nervoso'. Salientamos que o narrador justifica sua nao-loucura argumentando que seus sentidos estao apurados (sentidos apurados DC neg-louco). A construcao do sentido desse trecho pela relacao interdependente entre os enunciados (1) e (2) e:

a) nervosismo DC doenca

b) doenca DC sentidos apurados

c) sentidos apurados DC neg-loucura portanto

d) nervoso DC neg louco

Por polifonia, a construcao de um outro sentido, situado em outro bloco, e assimilada ao interlocutor.

a) nervosismo DC doenca

b) doenca DC sentidos prejudicados

c) sentidos prejudicados DC loucura portanto

d) nervoso DC louco

O enunciado (3) restringe o sentido de 'sentidos apurados' para um especificamente, o da audicao. A AI desse trecho pode ser demonstrada por

Audicao apurada DC neg-estar louco

Ao perguntar ao seu interlocutor 'como, entao, estou louco?', um enunciador que diz 'audicao apurada DC louco' e evocado. A relacao entre 'audicao apurada e loucura' e diferente nos dois encadeamentos, sendo cada encadeamento um aspecto de blocos distintos: o primeiro assumido pelo narrador; o segundo atribuido ao interlocutor. No bloco de onde fala o narrador, audicao apurada e um privilegio, um sinal de que todos os seus sentidos e, portanto, sua razao, estao intactos. No bloco do interlocutor, audicao apurada significa ouvir mais do que a realidade permite, o que e um sinal de demencia.

No trecho seguinte, o narrador argumenta dentro do mesmo bloco semantico de seu interlocutor:

E impossivel saber como a ideia penetrou pela primeira vez no meu cerebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. (4) Objetivo nao havia. Paixao nao havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu nao desejava. (5) Acho que era seu olho! E, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre --um olho azul claro coberto por um veu. Sempre que caia sobre mim o meu sangue gelava, e entao pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisao de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre (POE, 2007, p. 196).

Primeiramente, o narrador diz que seu desejo de matar o velho e imotivado. Ao usar a negativa, ele evoca enunciadores que dizem que e preciso algum tipo de motivo, seja odio, vinganca ou cobica para matar (ter motivo DC matar), construindo o encadeamento 'neg-ter motivo PT matar', que e o aspecto transposto do evocado pela negativa. No enunciado (5), entretanto, o narrador diz ter um motivo, o olho de abutre do velho, dessa forma assumindo o aspecto normativo acima mencionado. Tal deslizamento argumentativo pode demonstrar sua duvida quanto a um real objetivo em matar o velho e talvez sua confusao mental.

No trecho seguinte, os enunciados numerados de (6) a (10) criam, interdependentemente, um sentido circular.

Agora esse e o ponto. (6) O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. (7) Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi--com que precaucao -, com que prudencia, com que dissimulacao, pus maos a obra! (8) Nunca fui tao gentil com o velho como durante toda a semana antes de mata-lo. E todas as noites, por volta de meia-noite, eu girava o trinco da sua porta e a abria, ah, com tanta delicadeza! E entao, quando tinha conseguido uma abertura suficiente para minha cabeca, punha la dentro uma lanterna furta-fogo bem fechada, fechada para que nenhuma luz brilhasse, e entao eu passava a cabeca. Ah! o senhor teria rido se visse com que (9) habilidade eu a passava. Eu a movia devagar, muito, muito devagar, para nao perturbar o sono do velho. Levava uma hora para passar a cabeca toda pela abertura, o mais a frente possivel, para que pudesse ve-lo deitado em sua cama. (10) Aha! Teria um louco sido assim tao esperto? E entao, quando minha cabeca estava bem dentro do quarto, eu abria a lanterna com cuidado ah!, com tanto cuidado! -, com cuidado (porque a dobradica rangia), eu a abria so o suficiente para que um raiozinho fino de luz caisse sobre o olho do abutre. E fiz isso por sete longas noites, todas as noites a meia-noite em ponto, mas eu sempre encontrava o olho fechado, e entao era impossivel fazer o trabalho, porque nao era o velho que me exasperava, e sim seu Olho Maligno. (11) E todas as manhas, quando o dia raiava, eu entrava corajosamente no quarto e falava com ele cheio de coragem, chamando-o pelo nome em tom cordial e perguntando como tinha passado a noite. Entao, o senhor ve que ele teria que ter sido, na verdade, um velho muito astuto, para suspeitar que todas as noites, a meia-noite em ponto, eu o observava enquanto dormia (POE, 2007, p. 196-197).

(6) Loucura DC neg-sabedoria

(7) e (9) sabedoria e astucia DC prudencia e dissimulacao

(7) e (8) prudencia e dissimulacao DC gentilezas

(9) e (10) sabedoria e astucia DC neg-loucura

O enunciado (11) diz que, por conta das gentilezas do narrador, o velho jamais suspeitaria que aquele o quisesse matar. Por polifonia, identificamos um enunciador que diz 'gentilezas DC neg-morte', mas esse aspecto argumentativo pertence a outro bloco semantico, nao compartilhado pelo narrador: para ele, a gentileza e um meio de chegar a morte do velho (gentilezas DC morte). Parece ser exatamente por esse enunciador pertencente a outro bloco semantico, supostamente ao bloco semantico do interlocutor, que o leitor interpreta que gentileza e morte sao contrassensos (ao evocar seu aspecto converso gentilezas PT morte), fazendo que interpretemos que matar o velho e um ato irracional.

No proximo trecho, o sentido do enunciado (3) e ratificado.
   E agora, eu nao lhe disse que aquilo que o senhor
   tomou por loucura nao passava de hiperagudeza dos
   sentidos? Agora, repito, chegou a meus ouvidos um
   ruido baixo, surdo e rapido, algo como faz um
   relogio quando envolto em algodao. Eu tambem
   conhecia bem aquele som. Eram as batidas do
   coracao do velho. Aquilo aumentou a minha furia,
   como o bater do tambor instiga a coragem do
   soldado.


O encadeamento do trecho acima e:

Ouvir o coracao do velho DC ter sentido de audicao apurado.

Ao dizer que o interlocutor toma erroneamente tal habilidade por loucura, evoca-se um enunciador que diz:

Ouvir o coracao do velho DC ser louco. Percebe-se novamente que os sentidos de 'ouvir o coracao do velho' divergem, sendo eles pertencentes a blocos semanticos distintos.

O narrador se enfurece com o bater do coracao do velho e decide que sua hora chegou. Apos matalo brutalmente, ele desmembra o velho e esconde seus pedacos sob o assoalho. Um vizinho que ouvira um grito chama a policia que agora bate a porta. Com a certeza de que toda a cautela havia sido tomada na execucao do assassinato, e com o coracao leve--e com orgulho do trabalho bem feito--que nosso narrador abre a porta e convida a policia a descansar no quarto onde esta escondido o corpo do velho. Sua superaudicao, entretanto, o trai. De sob o assoalho, ele pode escutar o coracao do velho batendo e, convencido de que seria impossivel que a policia nao escutasse, se entrega e revela o corpo.

A partir desta analise pela Teoria dos Blocos Semanticos, reunindo os encadeamentos encontrados nos trechos analisados, podemos mostrar como a argumentacao foi construida (Tabela 1):

Verificamos que grande parte da argumentacao do narrador evoca enunciadores que o contrapoem, situados em outro bloco semantico, e que argumentam para a sua loucura; permitem, assim, que o leitor interprete que nao apenas sua audicao o delatou, mas tambem suas proprias palavras.

Consideracoes finais

O presente trabalho foi uma tentativa de conciliar linguistica e literatura. Buscamos demonstrar como, a partir de encadeamentos argumentativos, o locutor/narrador se inscreve na lingua e engendra o sentido pretendido. Verificamos que a organizacao argumentativa do locutor dirige seu interlocutor a interpretar sua loucura. De forma alguma este foi um trabalho exaustivo. O texto escolhido apresenta diversas indeterminancias e vaguidades que demandam um estudo de maior folego. Alem de um estudo mais pontual do lexico utilizado, seria interessante pesquisar de que forma as metaforas, similes e hiperboles, bem como as repeticoes e circularidades contribuem para gerar o sentido global do discurso.

Received on March 12, 2009. Accepted on April 23, 2009.

Referencias

CAREL, M. Argumentacao interna aos enunciados. Letras de Hoje, v. 37, n. 3, p. 27-43, 2002.

CAREL, M.; DUCROT, O. La semantica argumentativa: una introduccion a la teoria de los bloques semanticos. Traducao e organizacao Maria Marta Garcia Negroni e Alfredo M. Lescano. Buenos Aires: Colihue, 2005.

DUCROT, O. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.

DUCROT, O. Polifonia y argumentacion. Cali: Universidad Del Valle, 1988.

DUCROT, O.; CAREL, M. Descricao argumentativa e descricao polifonica: o caso da negacao. Letras de Hoje, v. 43, n. 1, p. 7-18, 2008.

KIEFER, C. A poetica do conto. Porto Alegre: Nova Prova, 2004.

POE, E. A. O coracao delator. In: COSTA, F. M. (Org.).

Os melhores contos de loucura. Traducao de Celina Portocarrero. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. p. 195-200.

License information: This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i2.6594

Karina Saraiva Schroder

Pontificia Universidade do Rio Grande do Sul, Av. Ipiranga, 6681, 90619-900, Partenon, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: schroderkarina@gmail.com

(1) Ducrot e Carel (2008, p. 13) consideram "a interrogacao como uma forma fraca de negacao".
Tabela 1. Encadeamentos argumentativos.

Narrador                                 Interlocutor / Outros

(a) nervosismo DC doenca               (a) nervosismo DC doenca
(b) doenca DC sentidos apurados         (b) doenca DC sentidos
(c) sentidos apurados DC                     prejudicados
    negloucura                         (c) sentidos prejudicados DC
    portanto                                  loucura
(d) nervoso DC neg louco                      portanto
                                         (d) nervoso DC louco
(e) audicao apurada DC negestar      (e) audicao apurada DC louco
  louco
(f) neg-ter motivo PT matar             (f) ter motivo DC matar
(g) ter motivo DC matar
(h) loucura DC neg-sabedoria
(i) sabedoria e astucia DC
  cuidado e dissimulacao
(j) cuidado e dissimulacao DC
  gentilezas
(k) sabedoria e astucia DC
  negloucura
(l) gentilezas DC neg-morte           (g) gentilezas DC neg-morte
                                        (h) gentilezas PT morte
                                      (ato irracional / loucura?)
(m) ouvir o coracao do velho DC     (i) ouvir o coracao do velho DC
  ter sentido de audicao apurado               ser louco
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Schroder, Karina Saraiva
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Date:Apr 1, 2009
Words:3775
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