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Uma revisao critica das fontes historiograficas para a historia do Imperio Parto (247 a.C.-228 d.C.): o caso de Apolodoro de Artemita e Arriano de Nicomedia.

A Critical Review of the Historiographical Sources for the History of the Parthian Empire (247 B.C.-228 A.D.): the Case of Apollodorus of Artemita and Arrian of Nicomedia

[Os partos] pagavam seus tributos com os hircanios enquanto estavam sob o jugo persa, e da mesma forma o fizeram posteriormente, quando por muito tempo os macedonios detiveram o poder. [...] Nos dias atuais, no entanto, os partos governam tantos territorios e tantas tribos que, na dimensao de seu Imperio, eles se tornaram rivais dos romanos. A causa disso e seu estilo de vida, mas tambem seus costumes, que contem muito do estilo barbaro e cita, embora mais propensos a unidade politica e ao sucesso na guerra.

Estrabao, Geografia XI, 9.

[Os partos] repeliram os macedonios, estabeleceram um governo proprio e se tornaram tao poderosos que eram pareo para os romanos na guerra, algumas vezes sendo ate capazes de derrota-los.

Focio, Myrobiblion = FGrH 156, F 30.

Recentemente, Curtis e Stewart (2007, pp. 1-2) chamaram a atencao para a visao negativa da representacao artistica parta, exemplificada com nitidez nos comentarios pouco amistosos de Herzfeld no inicio da decada de 1940. (1) Tal situacao seria o resultado dos seguintes fatores: 1) a era e a arte parta foram objetos de analise principalmente de classicistas que as observaram do ponto de vista da arqueologia classica e da arte helenistico-romana; 2) a arqueologia do Oriente Proximo mostrou-se especialmente preocupada com os niveis mais antigos dos sitios arqueologicos, ignorando por vezes estruturas pertencentes ao periodo Arsacida em prol do Aquemenida, medo e elamita, no Ira, e do assirio e babilonio, na Mesopotamia.

De acordo com Daryaee (2009, p. 587), na segunda metade do seculo XX a historia do Ira antigo tornou-se objeto de intenso estudo, deixando para tras muitas das conclusoes alcancadas por autores como Herzfeld (1941), sobre a arte parta, e Debevoise (1938), Christensen (1944) e Olmstead (1959), sobre a historia dos Arscacidas, Sassanidas e Aquemenidas, respectivamente. A grande virada veio com a descoberta do arquivo de Persepolis e com os textos rituais aramaicos, que mudaram a percepcao ate entao vigente sobre a historia Aquemenida. Alem desses documentos, ha que se referenciar tambem o avanco da pesquisa em documentos egipcios, elamitas e babilonios, produto desse novo esforco para entender com mais ferramentas metodologicas uma realidade por muito tempo negligenciada pelos historiadores.

Considerando tamanho avanco na area da Iranologia nas decadas recentes, cabe a realizacao de duas perguntas iniciais em termos historiograficos: 1) que fontes primarias (especialmente historiadores antigos) podem ser consultadas para a historia do Imperio Parto?; 2) que tipo de analise historiografica pode ser feita de Apolodoro e Arriano (um dos ultimos autores romanos a consultar a "tradicao de Apolodoro"; cf. infra), tendo como base os fragmentos do que escreveram sobre os partos?

O Imperio Parto preservado em fontes (primarias)

A grande dificuldade na escrita da historia do Ira antigo, especificamente do periodo parto, advem do fato de as fontes iranianas serem escassas e de muitas outras historias terem sobrevivido apenas em fragmentos. De fato, o que sabemos da historia dos partos e de sua vida politica, social, religiosa e cultural depende diretamente de um entendimento correto acerca da natureza das fontes historicas que temos a disposicao (DABROWA 2012, p. 21). Assim, diante da particularidade das fontes antigas para os partos, tem-se sugerido a organizacao das evidencias em dois tipos: vestigios e tradicoes (WIDENGREN 2007, p. 1261-1262).

Os vestigios sao normalmente divididos em textuais e nao textuais, sendo os ultimos de dominio da arqueologia (ruinas de construcoes, fortes, pontes, canais etc.) e os primeiros de todas as areas (incluindo algumas especialidades da arqueologia) ligadas diretamente ao trabalho com inscricoes, pergaminhos, papiros e ostraca escritos em varios idiomas. O trabalho epigrafico, por exemplo, permite um entendimento mais sofisticado das linguas usadas nos documentos e da vida cotidiana, visto que o conteudo (especialmente juridico, administrativo e economico) das inscricoes permite a analise do material por arquivos de natureza distinta (pessoais, familiares ou ligados aos templos). Sobre as linguas empregadas, pode-se ressaltar que da chamada "inscricao georgiana", por exemplo, muitos avancos foram feitos no estudo do idioma parto, quando se descobriu que, ao menos nessa inscricao, o parto se apropriou de formas e palavras aramaicas como ideogramas (cf. HENNING 1958 para um estudo completo sobre o assunto). (2)

Ao lado dos vestigios, encontram-se as chamadas tradicoes (WIDENGREN 2007, p. 1264), divididas convenientemente em primarias e secundarias. Essas tradicoes correspondem, no caso da historia parta, as fontes sobre as quais o historiador normalmente se debruca, e por isso podemos chama-las de "primarias" e "secundarias" (suprimidas neste artigo devido ao seu escopo), embora a linha que as separe seja por vezes muito tenue. (3)

Antes de tratar mais especificamente dos fragmentos de Apolodoro e Arriano, cabe destacar que informacoes importantes sobre os partos podem tambem ser encontradas em Polibio (Historias x, 27-31), Isidoro de Carax (Periegesis da Partia), Cicero (Carta a Atico v, vi; Cartas Familiares xv) e Salustio (Historias iv, fr. 69 m).

Dentre os autores supracitados, e considerando o caso da historiografia helenistica de modo mais particular, Polibio ocupa lugar especial por ter devotado atencao a politica oriental dos seleucidas. Por meio dele (Historias X, 27-31) temos noticia da expedicao de Antioco III no oriente nos finais do seculo III a.C., como reacao ao movimento separatista parto e seu fortalecimento como reino independente. Em seu relato, Polibio registra, por exemplo, a surpresa de Arsaces ao descobrir que Antioco, no comando de um exercito bastante numeroso, optou pela travessia de um deserto adjacente ao anel de cidades gregas (4) na Media. Ao tomar tal decisao, Antioco estaria arriscando enormemente a vida dos seus homens com a falta de agua e suprimentos. A rapida, mas preciosa descricao de Polibio sobre os partos, portanto, informa-nos sobre as relacoes politico-militares entre Seleucidas e Arsacidas no momento de consolidacao do poderio parto no oriente (DABROWA 2012, p. 22).

Das fontes primarias nao-ocidentais, destacam-se o chamado "Hino da Perola" (fundamental para o entendimento da organizacao do reino parto antes da conquista da Babilonia), constante do apocrifo Atos de Tome, a Cronica de Edessa, I Macabeus 14.1-3, II Macabeus 1.13-16, tabuinhas babilonicas escritas com caracteres cuneiformes e os livros chineses de Han ou Han Shu (capitulo 96) e Shih-chi (capitulo 123) (WIDENGREN 2007, p. 1264-1265).

Apolodoro de Artemita

O Imperio Parto inspirou autores da tradicao narrativa classica especialmente a partir do seculo I a.C., quando sua expansao territorial passou a representar uma ameaca ao poderio romano nas fronteiras orientais. Com efeito, na primeira metade do seculo I a.C., Posidonio de Rodes (135-51 a.C.) dedicou um livro inteiro de suas Historias aos costumes e as instituicoes dos partos, no primeiro esforco da literatura grega para realizar um estudo detalhado desse povo. Paralelamente, ou talvez alguns anos mais tarde, (5) o primeiro trabalho dedicado inteiramente aos partos foi escrito por Apolodoro de Artemita, autor helenistico de origem greco-parta.

De sua atividade autoral, temos noticia apenas da Parthica, que segundo registro de Ateneu (Deipnosofistas XV, 29) era composta de pelo menos quatro livros. Preservada em fragmentos por autores antigos, dos quais destaco Ateneu e Estrabao, (6) a Parthica de Apolodoro tornou-se conhecida ja na Antiguidade pela precisao de suas informacoes (Estrabao, Geografia II, 5), alem de ter fornecido a Estrabao material suficiente sobre as provincias orientais e aquelas situadas ao norte do Imperio Parto. (7) Digna de nota e tambem a secao dedicada aos reis vitoriosos da Bactria, Demetrio (180-165 a.C.) e Menandro (155-130 a.C.), cujas conquistas incluiriam a India, superando as do proprio Alexandre. (8) Dos dois, no entanto, o de maior impacto para a literatura helenistica e Menandro, uma vez que este serviu de inspiracao para a elaboracao de obras posteriores, como As indagacoes de Rei Milinda, produzida na India por volta do inicio da era crista (KNIPPSCHILD 2010, p.461).

Apolodoro parece ter igualmente servido de fonte para a redacao dos livros quarenta e um e quarenta e dois das Filipicas de Pompeu Trogo, preservados nos Epitomes de Justino, que tratavam da historia da Partia e de outros territorios orientais (HOLT 1999, p.55). A utilizacao de Apolodoro como fonte para a redacao desse material foi sugerida nas decadas de 1940 e 1970 por Altheim (NIKONOROV 1998, pp. 107-108), que defendeu sua hipotese pela sistematizacao de muitas coincidencias geograficas orientais nos relatos de Pompeu Trogo e Estrabao. Como o ultimo declarou a utilizacao de Apolodoro, tendo elogiado sua precisao na localizacao dos territorios orientais, parece inegavel que Pompeu Trogo tenha, por extensao, lancado mao dos escritos do historiador de Artemita.

Outra questao importante sobre o metodo de Apolodoro diz respeito as fontes por ele utilizadas para a redacao da Parthica. Para Chaumond (2011, p. 161), Apolodoro certamente conhecia os historiadores de Alexandre e geografos anteriores, e deles deve ter feito uso frequente. Entretanto, maior atencao deve ser dada ao acesso que possuia, como sudito dos Arsacidas, aos arquivos de cidades greco-partas, como Artemita e Seleucia do Tigre, (9) sem mencionar, de modo mais dinamico, compatriotas, mercadores e viajantes.

Parece inegavel que Apolodoro tenha se beneficiado de sua "condicao helenistica", com uma identidade construida na "zona cinzenta" entre o grego e o parto/oriental. De fato, nascido e classificado por imersao cultural como grego, Apolodoro ao mesmo tempo se destacava por ter condicoes de consultar, ler e analisar documentos e textos literarios em cuneiforme, aramaico e parto (NIKONOROV 1998, p. 109). Ele, por essa razao, localizava-se "na vanguarda de uma tradicao especial da historiografia grega oriental", como quer Nikonorov, o que nos ajuda a contextualizar a afirmacao de Estrabao que o identifica como lider de um "grupo de autores de historias partas":

Que nome e dado aos discipulos de Apolodoro--se membros de uma "escola" ou de um "circulo"--nao e importante: mais provavelmente, eles eram historiadores menores da Partia e dos territorios mais ao oriente, jovens contemporaneos de Apolodoro cujos trabalhos dependiam enormemente de sua Parthica. Estrabao os chama (incluindo o proprio Apolodoro, e claro) de "partos" (1.2.1)--em outras palavras, eles eram, como seu lider, greco-partos. Esses escritores compuseram muitas versoes diferentes de um mesmo trabalho original de Apolodoro; talvez tenha sido assim que o material de Apolodoro tornou-se conhecido por autores estrangeiros, como Estrabao, Pompeu Trogo e outros (NIKONOROV 1998, p. 109).

Apolodoro, entao, nao escreveu apenas uma das historias antigas mais importantes sobre o Imperio Parto, mas tambem influenciou enormemente membros de uma escola historiografica que propagou sua obra e a tornou conhecida por autores interessados nos territorios orientais, mais precisamente os que tinham ligacao com o poder rival de Roma no oriente. Apolodoro representava para a historia do Imperio Parto o que Berossos representava para a historia da Anatolia e Ctesias de Cnido para a historia da Mesopotamia no periodo helenistico (KNIPPSCHILD 2010, p. 449).

Apesar de muitas outras obras (10) terem sido escritas por autores gregos e romanos apos o desastre de Carras (11) e o crescente poder dos partos como Imperio rival de Roma, o trabalho deles difere bastante do feito por Apolodoro. A Parthica de Arriano, por exemplo, uma das mais importantes obras de natureza historiografica sobre os partos, focou-se nas guerras entre Roma e Partia, fornecendo frequentemente apenas o ponto de vista dos romanos, hostil aos Arsacidas por razoes obvias. Arriano foi igualmente o responsavel por introduzir o que Nikonorov (1998, p. 119) chamou de "teoria falsa da ancestralidade Aquemenida dos reis Arsacidas".

Assim, Apolodoro teria sido o primeiro a registrar a ideologia politica parta com relacao ao resgate de sua ancestralidade Aquemenida, por volta de 50 a.C., tendo este registro depois penetrado a tradicao literaria romana, em algum momento entre 117-130 d.C.. Dali em diante, a tradicao que remete a Apolodoro na historiografia romana da Partia se perdeu, o que torna Arriano (c. 130 d.C.) nao apenas uma fonte primaria importantissima para a historia dos partos, mas tambem uma sequencia logica na analise da Parthica de Apolodoro.

Arriano de Nicomedia

Exaltado por muito tempo como fonte mais precisa para a historia de Alexandre Magno, Arriano foi aclamado por Focio (Focio, Myrobiblion = FGrH 156, F 30), no seculo IX d.C., como novo Xenofonte. Feito governador da Capadocia em 131 d.C. sob o Imperador Adriano, Arriano mostrou-se preocupado com os dominios orientais do Imperio Romano. De todas as regioes orientais, a Partia acabou por ser muito presente em suas obras, da Anabase (sobre as expedicoes de Alexandre) a uma historia especifica sobre os partos (objeto principal desta apresentacao critica), sem deixar de ser mencionada na Indica (suplemento da Anabase) e em sua Historia dos eventos apos Alexandre (Ta meta Alexandron). A razao e simples: nascido como um "reino obscuro" nas fronteiras do Imperio Romano, o Imperio Parto rapidamente transformou-se no principal adversario dos romanos no oriente, situacao que resultou em diversas expedicoes militares lideradas por generais romanos, incluindo Marco Antonio, Nero e Trajano (STADTER 1980, p. 135).

Das obras supracitadas, duas nos chegaram em fragmentos. A primeira delas, a Historia dos eventos apos Alexandre, originalmente escrita em dez livros (cobrindo os eventos de 323 a 321 a.C), foi preservada em um longo sumario preparado por Focio (Myrobiblion 92) e em outros numerosos fragmentos, organizados e publicados no inicio do seculo XX por Jacoby (Fragmente II, pp. 840-51; 872-73; 874; 881-83; cf. CHAUMOND 2011, p. 524). A segunda dessas historias (Parthica) trata especificamente dos partos, tendo como principal objetivo mapear as fases da expedicao de Trajano. (12)

A Parthica nao foi apenas o trabalho mais longo de Arriano, mas tambem o que mais possibilidades fornecia no que diz respeito a abordagem utilizada. Com efeito, Arriano poderia ter escrito uma etnografia historica da Partia, ou seja, ter feito, como de costume no genero, uma descricao da geografia e do clima da Partia, seguida de um relato geral de seu povo (origens, tradicoes, costumes etc.) e de uma narrativa sobre seus reis e as guerras travadas (cf. DENCH 2007, p. 499-500 para uma discussao menos especifica sobre a relacao entre etnografia e historiografia). Esse tipo de estudo teria como principais representantes Herodoto (especialmente seu livro sobre o Egito), Ctesias, Manetao e Berossos (STADTER 1980, p. 135).

Na Indica, por exemplo, Arriano realizou uma especie de "versao comprimida desse esquema", apresentando o territorio e seu povo na sequencia tradicional descrita anteriormente:

Devo chamar de India as partes situadas a leste do Indo, e seus habitantes de indianos. Extrema ao norte da India o monte Tauro, embora assim nao o seja chamado na regiao. O Tauro tem inicio no mar, oposto aos territorios da Panfilia, da Licia e da Cilicia, e se estende ate o mar oriental, atravessando toda a Asia. Mas a montanha tem diferentes nomes em diferentes lugares [...] (Arriano, Indica 2 = Anabase VIII, 2).

Megastenes afirma que ha cento e dezoito tribos indianas. Que ha muitas tribos, concordo com Megastenes; mas nao posso compreender como ele soube e registrou seu numero exato, considerando que sequer visitou qualquer parte digna de nota da India e que esses diferentes povos nao possuem muito transito uns com os outros. Os indianos, ele diz, eram originalmente nomades, como o sao os citas pouco inclinados a agricultura, que andando sem destino com suas carrocas habitam partes da Citia; do mesmo modo, os indianos tambem nao possuiam cidades e nao construiam templos, servindo-se de peles de animais mortos na caca como indumentaria e alimentando-se de cascas de arvores (Arriano, Indica 7 = Anabase VIII, 7).

Assim que deixou a India, apos tomar essas medidas, [Alexandre] coroou Espatembas, um dos seus Companheiros, por ser o mais versado nos ritos baquicos; quando Espatembas morreu, seu filho reinou em seu lugar; o pai fora rei da India por cinquenta e dois anos; o filho, por vinte anos. Quando o ultimo morreu, seu filho subiu ao poder, e muitos dos seus descendentes receberam o reino em sucessao, tendo sempre o filho sucedido ao pai (Arriano, Indica 8 = Anabase VIII, 8).

Aparentemente, Arriano seguiu, na Parthica, essa tradicao literaria de etnografias historicas helenisticas (cf. livro I no esquema da Parthica), como havia feito em sua Indica, mas sem ignorar elementos de uma narrativa de memorias da guerra (a exemplo de Cesar e outros generais romanos antes dele) e de um relato encomiastico dos triunfos de Trajano (STADTER 1980, p. 136). Com efeito, ao considerar o sumario dos livros da Parthica (cf. supra), torna-se claro que Arriano pretendia escrever um trabalho monografico com uma descricao de toda a trajetoria das relacoes diplomaticas e militares romanas e partas, comecando com o fiasco de Crasso na batalha de Carras (53 a.C.), passando por Marco Antonio, Augusto, Tiberio, Claudio e outros imperadores, e finalizando com a atuacao militar de Trajano. Arriano pretendia, assim, colocar o conflito entre os dois Imperios em perspectiva.

Outra area de interesse de Arriano, e que provavelmente marcou sua Parthica, era a exaltacao de Trajano como um novo Alexandre (cf. BOSWORTH 2007, p. 448 para a admiracao de Trajano por Alexandre). Isto e possivel de se argumentar com base em duas estrategias investigativas: 1) a comparacao entre as apreciacoes filosoficas do desejo de conquista de Alexandre e Trajano, feitas por Arriano e Diao Cassio; 2) uma analise comparada dos vicios de Alexandre e Trajano, sendo os vicios do ultimo apresentados por Diao Cassio momentos antes de sua narrativa sobre a conquista de Adiabene (distrito que incluia Gaugamela, onde Alexandre derrotara Dario III) (STADTER 1980, p. 140).

A primeira estrategia de investigacao remete-nos aos usos de Arriano por Diao Cassio. Salta aos olhos parte da apreciacao filosofica de Alexandre por Arriano (Anabase VII, 1-3), apos consideracao dos planos do rei macedonio:

Quanto ao que pensava Alexandre, vejo-me incapaz de conjecturar com qualquer precisao, nem ouso adivinhar; o que posso asseverar e que Alexandre nao possuia mas ou pifias intencoes, tampouco se satisfaria com as posses ate o momento obtidas, nem mesmo se ele tivesse anexado a Europa a Asia, e a Bretanha a Europa. Ao inves disso, Alexandre sempre teria perseguido o desconhecido por mais distante que estivesse dele, sendo sempre o rival de outrem ou de si mesmo (Arriano, Anabase VII, 1).

Da mesma forma, o impeto militar de Trajano (Diao Cassio, Historia Romana LVIII, durante toda a narrativa sobre a guerra contra dacios, armenios e partos) e sua derrota apenas para a morte (Diao Cassio, Historia Romana LVIII, 33), e nao para um inimigo que pudesse ser vencido pelo homem, tornam sua figura bastante proxima a de Alexandre (a nao ser pelos excessos cometidos pelo rei macedonio, excluindo o gosto pelo vinho, que Trajano tambem compartilhava). Afinal, figuras heroicas teriam apenas a morte como limitacao as suas realizacoes.

Em seguida, deve-se mencionar como segunda estrategia investigativa a analise comparada dos vicios de Alexandre e Trajano, tendo os tracos do Imperador romano sido curiosamente apresentados por Diao Cassio (Historia Romana LXVIII, 7) antes de sua narrativa sobre a conquista de Adiabene.

Segundo Diao Cassio (Historia Romana LXVIII, 7, 4), Trajano "bebeu todo o vinho que quis em vida, permanecendo, a despeito disso, sobrio". Seu interesse pelo vinho o aproximava imensamente de Alexandre, quando considerados os relatos dos vicios do rei macedonio em diversas fontes, de Quinto Curcio (Historia de Alexandre V, 7) a Arriano (Anabase IV, 8), que atribui as causas do assassinato de Clito ao insulto dirigido por ele ao rei e ao fato de o ultimo ter se tornado "escravo de dois vicios, pelos quais nenhum homem deveria se deixar vencer: a paixao e o alcoolismo". Aqui, a diferenca entre Trajano e Alexandre seria a capacidade do primeiro em nao se tornar escravo de seu vicio. A Parthica de Arriano, portanto, mesclava uma historia dos conflitos entre romanos e partos, postos em perspectiva, e o elogio dos feitos de Trajano, um novo Alexandre em alguns aspectos, em sua campanha nas fronteiras orientais do Imperio.

Conclusao

Dentre as muitas fontes para a historia do Imperio Parto, duas foram destacadas neste artigo, por serem de suma importancia na constituicao, ja na Antiguidade, de tradicoes literarias sobre os Arsacidas. A primeira delas e Apolodoro de Artemita, o historiador mais antigo a denunciar as apropriacoes partas de sua ancestralidade Aquemenida, como forma de se distanciarem dos Seleucidas e se aproximarem de um passado oriental mais remoto e legitimo, se consideradas as expectativas das elites locais e de seus novos soberanos. Apolodoro foi tambem o autor de uma Parthica amplamente utilizada como fonte por Estrabao, Pompeu Trogo e, no caso da historiografia romana, Arriano de Nicomedia (autor da outra Parthica produzida nos dois primeiros seculos da era crista).

A segunda delas e, portanto, Arriano, que em sua Parthica narrou a historia das relacoes entre partos e romanos, colocando-as em perspectiva historica, e registrou os triunfos militares de Trajano. A escolha de Arriano pela Partia nao foi exclusividade dessa obra; com efeito, o pequeno reino oriental que rapidamente se transformou em um poderoso imperio, rival de Roma, fez-se presente, por razoes distintas e de modos variados, na Anabase, na Indica e na Historia dos eventos apos Alexandre.

Arriano foi o principal responsavel pela preservacao da obra de Apolodoro na tradicao literaria romana. De fato, apesar de o registro da ideologia politica parta com relacao ao resgate de seus vinculos artificiais com a dinastia Aquemenida ter penetrado essa tradicao literaria cerca de quinze anos antes da redacao da Parthica de Arriano, o historiador de Nicomedia foi provavelmente um dos ultimos autores romanos a ter acesso a chamada "tradicao de Apolodoro" (com informacoes confluentes, dos seguidores do historiador greco-parto a Arriano, na historiografia romana, passando por autores como Ateneu, Estrabao e Pompeio Trogo; cf. supra).

O valor das obras de Apolodoro e Arriano sobre os partos, portanto, nao pode ser subestimado. Nao so a Parthica escrita pelos dois em momentos distintos influenciou autores antigos posteriores, cujas obras nos fornecem informacoes bastante preciosas, por exemplo, sobre a geografia do Ira antigo (cf. Estrabao), como tambem assegurou que estudos historiograficos pudessem ser desenvolvidos sobre eles, trazendo para o debate questoes de metodo e de natureza das fontes historiograficas analisadas.

doi: 10.15848/hh.v0i17.750

Recebido em: 19/3/2014

Aprovado em: 15/5/2014

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Henrique Modanez de Sant'Anna

henriquemodanez@gmail.com

Professor Adjunto

Universidade de Brasilia

SQN 214, bloco D, ap. 410--Asa Norte

70873-040--Brasilia--DF

Brasil

(1) "Quando os iranianos tentaram aceitar tudo o que era grego, como fazem com tudo o que e europeu, eles nao captaram a importancia e a proporcao, ficando inteiramente satisfeitos com a semelhanca. A profundidade das coisas permaneceu oculta para eles. O resultado e uma arte hibrida, se e que se pode chamar arte, que nao e nem grega, nem iraniana; nao possui valor interior ou estetico, e e interessante de se estudar apenas por interesse historico ou psicologico ... E incrivel ver quao rapidamente, em nao mais do que duas ou tres geracoes, um trabalho de forca ilimitada pode ser completamente perdido, e tambem o julgamento artistico, com a mera habilidade tecnica" (HERZFELD 1941, p. 286-287).

(2) A "inscricao georgiana", encontrada na cidade de Armazi (atual Tbilisi, capital da Georgia), e uma inscricao bilingue (grego e persa medio) que celebra Serapita e sua linhagem nobre. O tipo de escrita usado na inscricao foi em principio visto simplesmente como uma modificacao do aramaico, ate que os avancos supracitados fossem feitos. Para uma discussao mais detalhada sobre as principais descobertas feitas com o avanco dos estudos das fontes (textuais e nao-textuais) iranianas, vide WIDENGREN 2007, p. 1262-1263.

(3) Como no caso de Pompeu Trogo, preservado em Justino. Cf. infra.

(4) Criado por Alexandre para proteger a regiao (Polibio Historias x, 27).

(5) O problema da datacao da obra de Apolodoro e talvez o mais dificil de solucionar. Diferentes datas tem sido sugeridas: em algum momento entre 130 e 87 a.C., de acordo com Tarn (1938, p. 47); nos primeiros trinta anos do seculo I a.C., segundo Jacoby (Fragmente III C, p. 773); ou entre 66 e 44 a.C., na opiniao de Behr (2010, pp. 45-50). A melhor discussao para o assunto e ainda Nikonorov (1998, p. 110-119).

(6) Todos eles reunidos por Jacoby (Fragmente III C, p. 773-76).

(7) Cf. Chaumond (2011, p. 160-161) para a lista das provincias e todos os detalhes sobre a geografia da Partia encontrados nos fragmentos de Apolodoro, preservados por Estrabao.

(8) De Apolodoro e provavelmente tambem a famosa caracterizacao da Bactria como "a terra das mil cidades" (HOLT 1999, p. 15). Uma obra "classica" sobre o assunto e Masson (1982).

(9) Uma das grandes capitais helenisticas, em muitos aspectos tao grandiosa quanto Alexandria do Egito. Situada na confluencia do Tigre com um grande canal do Eufrates, Seleucia do Tigre (307 a.C.-215 d.C.) era um centro de trocas comerciais vital para a economia helenistica, recebendo produtos da Asia Central, India, Persia e Africa.

(10) Exemplos sao: Quinto Delio (I a.C.), Arriano (II d.C.; cf. infra) e Asinio Quadrato (III d.C.). Cf. Cornell (p. 424-425; 648-654).

(11) Batalha travada entre as legioes romanas de Crasso e os partos, em 53 a.C. Segundo Plutarco (Crasso 33), apos a esmagadora vitoria parta, a cabeca de Crasso foi exposta na corte inimiga por Jasao, um dos atores que na ocasiao encenavam as Bacantes, de Euripides. Embora apocrifa, a cena da exposicao da cabeca de Crasso parecia combinar perfeitamente com o interesse que o rei parto supostamente nutria pelo fim tragico das Bacantes, ao menos no relato criativo do biografo grego.

(12) Esquema inspirado na organizacao do conteudo feita por Chaumond (2011, p. 524).
Parthica

Livro I         Origem e costumes dos partos; os
                  primeiros Arsacidas
Livro II        Crasso e a batalha de Carras (53
                  a.C.)
Livro III       --
Livro IV        A invasao da Media por Marco Antonio
Livro V         Partia e Roma nos governos de
                  Augusto, Tiberio e Claudio
Livro VI        Campanha de Corbulo (c. 7 - 67 d.C.)
                  na Armenia
Livro VII       Partia e Roma sob os Flavios
Livro VIII      Campanha armenia de 114 d.C.;
                  relacoes do Imperador romano
                  com os aspirantes ao trono parto,
                  Partamasiris e Axidares
Livro IX        Campanha mesopotamica de 114-115
                  d.C.; registro do percurso militar
                  de Trajano, de Edessa a Babilonia
Livro X         --
Livros XI-XVI   Tomada de Ctesifonte; avanco da
                  frota romana no Tigre, em direcao
                  ao Golfo Persico; sucessos militares
                  efemeros dos romanos; regresso
                  a Ctesifonte e a Babilonia (116
                  d.C.); revolta dos principes partos e
                  armenios, envolvendo o rei armenio
                  Sanatruk.
Livro XVII      Cerco de Hatra; eventos posteriores
                  ate o retorno para a Siria
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Modanez de Sant'Anna, Henrique
Publication:Historia da Historiografia
Date:Apr 1, 2015
Words:5464
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