Printer Friendly

Uma proposta de traducao do sexto mandamento de Deus em um confessionario Tupi da Amazonia de 1751.

1. Introducao

Um confessionario tupi anonimo, usado em alguma missao do Para, em 1751, (1) esta organizado por meio de perguntas para cada mandamento da Lei de Deus, a exemplo das obras congeneres europeias. Nossa atencao estara dirigida as perguntas referentes ao sexto mandamento (castidade). Para esse trecho do confessionario, proporemos um exercicio de traducao para o portugues, usando como fontes auxiliares dicionarios tupi coloniais, (2) e como metodo a analise linguistica. A traducao, ainda vacilante em alguns pontos, permitira acompanhar as modalidades de pecado (por palavra, acao e pensamento) que o missionario investigava e interditava e algumas diferencas de conteudo e de formas na maneira de interrogar homens e mulheres.

A traducao de um fragmento de um confessionario tupi do Para, em 1751, se propoe difundir um texto ainda inedito da evangelizacao da Amazonia. Para futuro, a comparacao do dialogo da confissao dos pecados da carne na Amazonia, em 1751, com aqueles usados por Anchieta no seculo XVI e por Araujo no seculo XVII, para a mesma situacao comunicativa, permitira uma melhor compreensao das continuidades e descontinuidades da evangelizacao jesuitica nas duas regioes.

A opcao por editar um texto ligado a confissao se deve a ser esse um dos poucos dialogos da conversao no qual indio e missionario se encontravam frente a frente. O documento permitira a analise das estrategias e das posturas do missionario em um dialogo sobre sexo com os indios. Em anexo, seguem a transcricao e a traducao das perguntas referentes ao sexto mandamento.

2. Incursao de historiadores as fontes coloniais em linguas indigenas

A sugestao para traduzir uma passagem de um confessionario tupi veio da experiencia de grupos de historiadores que trabalham com fontes coloniais em linguas indigenas. Esses textos tem deixado de ser espaco apenas para analise de linguistas para se tornarem fontes documentais primordiais para historiadores. Entre esses, e possivel reconhecer dois grupos que apresentam diferencas em relacao ao genero de texto em lingua indigena enfatizado em suas analises e em relacao a caracterizacao teorica dessas linguas no processo de mudanca cultural pela colonizacao.

Um grupo de historiadores inovadores no uso das fontes em lingua indigenas foi o da Nova Filologia, liderado por James Lockhart e seus discipulos. (3) A marca registrada dessa corrente foi a traducao, edicao e analise de fontes notariais--escritas no alfabeto latino--em nahuatl, mixteco, maia e quechua. Essa corrente se ocupou de testamentos, peticoes, listas etc., nao se preocupando, no entanto, com fontes missionarias, desprezadas por nao representarem o ponto de vista nativo, passivel de ser recuperado pelas inscricoes notariais de responsabilidade de indios da colonizacao hispanica. Lockhart vislumbrou nas fontes em linguas indigenas aspectos da colonizacao que nao poderiam ser analisados nas fontes em espanhol.

Uma das analises classicas de Lockhart sobre as fontes notariais em nahuatl centrou-se nos diferentes padroes de emprestimos do espanhol, presentes naqueles textos, entre os seculos XVI e XVII, como evidencias de aculturacao. Ele correlaciona diferencas na quantidade, na categoria gramatical e no campo semantico dos emprestimos a mudancas sociais. Por exemplo, a maior quantidade de emprestimos (alguns sendo verbos e preposicoes) ocorreu a partir de 1640-50, quando o sistema de repartimento estava sendo substituido por acordos individuais entre indios e espanhois para negociacao dos salarios. O contato maior entre indios e colonizadores explicaria o maior numero de emprestimos.

Ao atribuir a presenca do espanhol nos textos notariais indigenas como evidencia do contato colonial, Lockhart estaria definindo o uso do nahuatl como marca da vitalidade da cultura indigena, em oposicao ao espanhol--analisado pelos emprestimos -, que expressaria o processo de aculturacao em curso. Um exemplo dessa concepcao sobre a lingua indigena pode ser encontrado na analise das mudancas culturais da colonizacao na Amazonia proposta por Sweet. (4) Em sua definicao de aldeia, considera que o uso da lingua geral, assim como o uso da mandioca como alimentacao principal, seriam indicios da presenca da cultura indigena, enquanto os aspectos europeus estariam presentes na vida religiosa e na forma de exploracao do trabalho nas missoes. (5) Nesse modelo, a cultura indigena (=lingua) e a europeia eram dois padroes de vida diferentes e justapostos no cotidiano das missoes.
   "Aldeia". Indian settlement under missionary administration with
   a semi-European social structure , religious life, labor system
   and physical layout--but retaining to a large extent indigenous
   language, customs and subsistence patterns. (6)


Diferentemente de Lockhart, outro grupo de historiadores voltou sua atencao para as fontes em linguas indigenas, privilegiando, porem, os textos David Graham Sweet, A Rich Realm of Nature Destroyed: The Middle Amazon Valley, 16401750, missionarios. Entre eles, estao Rafael, (7) Estenssoro, (8) Monteiro, (9) Pompa, (10) Agnolin. (11) Uma das diferencas entre esses autores e a Nova Filologia e a critica que fazem ao conceito de aculturacao, definido como perda da cultura original pela imposicao de valores ocidentais via evangelizacao. Essa corrente opta pelo conceito de interpenetracao de civilizacoes, (12) que expressa o processo interpretativo entre elas ocorrido pela traducao do discurso cristao para as linguas indigenas.

A traducao nao era apenas a habilidade de falar a lingua de outro, mas a capacidade de reformular os pensamentos e as acoes de acordo com as formas aceitas pelo colonizado. (13) Exemplos dessa definicao de traducao podem ser encontrados nos trabalhos de Estenssoro e Agnolin. Eles analisam o campo semantico da terminologia crista usada nos textos missionarios como expressao de uma politica sincretica por parte do religioso, ao optar por fazer o amalgamento entre culturas diferentes pelo ato de traducao. As diferentes operacoes linguisticas usadas no discurso cristao na lingua indigena (emprestimos, neologismos e perifrases) eram formas de hibridismo do ato comunicativo da evangelizacao. (14) Nessa ultima corrente, o uso das linguas indigenas nas fontes missionarias representa o espaco discursivo preferencial para captar a linguagem fruto da mediacao entre indios e colonizadores. (15)

Tal perspectiva teorica permitiria definir o uso do tupi nos confessionarios como diferenciado da cultura tradicional tupi. Dialogos de perguntas e respostas entre o penitente e o missionario nao teriam semelhancas com situacoes comunicativas da cultura tradicional indigena. Assim, no caso do trabalho aqui apresentado, o confessionario de 1751 representaria uma forma de uso da lingua tupi em novo contexto social e com novos sentidos.

3. Contextualizacao do manuscrito tupi de 1751

O confessionario de 1751 e parte de um codice pertencente a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O manuscrito contem um conjunto de textos auxiliares da evangelizacao em tupi: dicionario, gramatica, oracoes, preceitos religiosos, dialogos de pergunta e resposta sobre a doutrina, lista de parentesco, catalogo religioso anual e nome dos dias da semana. O trecho religioso do codice da Biblioteca Nacional (16) e bastante reduzido, se comparado ao universo contido nos catecismos tupi impressos. (17) Mas nao e uma reducao apenas do tamanho do texto religioso, como tambem do tempo de exposicao do indio a rotina crista.

Um indicio da reducao do tempo de evangelizacao pode ser acompanhado pela comparacao entre os catalogos anuais presentes no catecismo manuscrito de 1751 e naquele impresso em 1686. A versao de 1751 aponta para pouco mais de uma dezena de dias religiosos, (18) em oposicao aos mais de 60 listados no catecismo de Araujo (1686). (19) Os motivos para a reducao da rotina crista, sinalizada no texto de 1751, teriam sido a diminuicao do tempo de exposicao a doutrina crista no cotidiano do indio da missao e o dominio menor da lingua geral por parte de muitos dos catecumenos.

A reducao do tempo da evangelizacao foi resultado da intensificacao da exploracao do trabalho indigena a partir do Regimento das Missoes de 1686. (20) Essa legislacao aumentou de dois para seis meses o tempo de trabalho obrigatorio dos indios. Um indio remeiro das tropas de resgate, por exemplo, estava fora da missao entre novembro (ou dezembro) e junho. No seu regresso, tinha que fazer a roca entre os meses de julho e setembro.21 No computo final, um indio adulto, do sexo masculino, permanecia na missao sob a rotina da doutrina crista cerca de tres meses por ano apenas.

A diminuicao do conhecimento do tupi por parte de muitos catecumenos das missoes do Para esta ligada a mudanca na composicao etnolinguistica da regiao. Os tupinamba, grupo inicial de muitas das missoes jesuiticas no seculo XVII, tinham se tornado uma minoria um seculo depois, devido as mortes pelas epidemias. Eles foram substituidos por indios de outras familias linguisticas nao-tupi.22 Na conjuntura de 1751, o Rio Negro, onde nao havia grupos de origem tupi, foi a principal regiao de onde se trouxeram os indios para recompor a populacao das missoes do Para.

4. Traducao de texto tupi setecentista com base na analise linguistica

A traducao interlinear sera o ponto de partida para verter o texto tupi para o portugues. Esse procedimento consiste em identificar e segmentar um enunciado em formas lexicais minimas recorrentes, com duplo valor semantico: um, o literal, remetendo ao uso corrente na lingua; o outro, com valor semantico transfigurado (em geral para fugir a remissoes as palavras-tabus) especifico para o discurso religioso. A segmentacao de formas no texto foi baseada nas informacoes dos dicionarios coloniais e das analises sobre o tupi colonial (Barbosa, (23) Monserrat, (24) Rodrigues (25)). Abaixo, uma ilustracao de traducao interlinear (os numeros em colchetes, acompanhados por M [mulher] ou H [homem], remetem para a transcricao e traducao em anexo).

Transcricao                         Nde anama rete? [M.4]
Traducao interlinear                Nde [Possessivo; 2a pessoa
                                    singular] anama
                                    [parente] r-[contiguidade]
                                    ete [verdadeiro]
Proposta de traducao em portugues   (Ele e) seu parente de verdade?


Uma das utilidades da traducao interlinear para a pesquisa historiografica e permitir destrinchar os processos de composicao lexical usados pelos missionarios na construcao do discurso cristao em tupi. Por exemplo, a traducao interlinear de beijo "chupar a boca" sugere a hipotese de que na cultura tupi nao haveria esse ato como parte do jogo amoroso. O confessionario utiliza piter, associado a "chupar" e "chuchar" no dicionario de 1751, e acrescenta juru (boca) ("Voce chupa a boca?" [M.17]). Para os indios, beijar deve ter parecido um ato mais proximo das curas dos pajes.

Nao foi possivel traduzir integralmente todas as perguntas, como a de numero M.34. Em alguns casos, foi proposta uma explicacao tentativa, como, por exemplo, com os verbos -ico e -rico. O verbo -riko tem grande recorrencia no dialogo da confissao. Ele foi empregado em 15 das 36 perguntas as mulheres e 10 daquelas dirigidas aos homens. Dicionarios e gramaticas coloniais atribuiam a -ico (raiz intransitiva) os sentidos de "estar", "viver", "morar". Ha exemplos de emprego de -ico para uma acao tao casta para o missionario como viver de dizimos ("Viver de esmolas. Ico Tupana potaba pupe"). (26) Ja rico ou reco (verbo transitivo, com a estrutura interna r-ico, aparentemente opaca para os usuarios no periodo colonial) tem o sentido regular, neutro, de "ter". Como explicar o seu emprego recorrente no sexto mandamento como se referindo a "nao fornicaras"?

Uma pista para a extensao do sentido de -rico para o ato sexual veio do verbete de um dos dicionarios que relacionava -ico (intransitivo) com copular ("Copula ter. Ameno. Vel aico rece"). (27) Compreende-se mais facilmente, entao, dada a relacao de -ico com -reco, a passagem de "viver com" (-ico intransitivo) para "fornicar, possuir alguem" (-reco transitivo). Isso se daria ao nivel pragmatico, no contexto da confissao. No dialogo entre confessor e penitente surgiam sentidos especificos para formas tupi regulares, tais como o de ter copula com, para -ico/-rico. Com o tempo, -rico passa a ter uso praticamente absoluto.

Uma interpretacao para o missionario usar verbo -ico/-rico e nao outros mais populares para designar o ato sexual (por exemplo, suruc em M.23, H.27 e H.28) foi a postura de recato que o confessor deveria ter com o penitente ao falar sobre o sexo. O missionario autor do confessionario de 1751 aconselha cautela nesse topico ("confessor deve ser muito acautelado e prudente que em Lugar de dar medecina, para fechar as chagas, nao da causticos, para abrir novas feridas, ensinando muitas vezes, o que o penitente nao sabe com demaziadas preguntas, e nisto resalvo aminha conciencia"). (28)

Esse recato ao falar do sexo levava o missionario a usar o termo tupi mbae (coisa) para se referir a vagina (M.31) ou ao penis (M.18). Nao que ele nao use palavras "deshonestas". Para a pergunta M.23, H.27 e H.28 ele usa suruc, que um dos dicionarios tupi setecentista traduz como "fornicote", mencionando ser uma palavra "deshonesta" e muito empregada pelos "tapuias". (29) Se suruc e popular na fala dos indios, com o sentido de fornicar, esse verbo esta pouco representando na situacao de dialogo do missionario com o penitente. Suruc, no dicionario de 1751, tem o valor semantico de romper. (30) Sua extensao de uso para copular esta presente nos mitos dos indios Urubu, da familia linguistica tupi, documentado por Francis Huxley. (31)

5. Perguntas sobre o sexto mandamento do confessionario

O papel das perguntas nos confessionarios europeus era ajudar o padre a ter informacoes que o penitente, por esquecimento ou por vergonha, nao teria dado durante o exame de consciencia. No contexto colonial, as perguntas eram o proprio guia do dialogo entre padre e penitente durante a confissao. Esse dialogo, realizado por uma sucessao de perguntas e respostas, sugere que os missionarios nao teriam conseguido internalizar o exame de consciencia dos pecados como parte daquele cerimonial. (32)

O sexto mandamento da lei de Deus (nao fornicaras), no manuscrito de 1751, inclui tambem o nono (nao cobicaras a mulher do proximo). Quase todas as perguntas pedem sim ou nao como resposta. Algumas delas estavam encadeadas e direcionadas para diferentes penitentes. De 1 a 10, as perguntas tem como destinatario uma mulher casada. De 11 ate o final (a excecao de M.33) elas se dirigem a uma india, tanto casada como solteira. Nesse caso, em vez de mena (marido), surge o termo rapixara, com o sentido da categoria crista do "proximo" (M. 25, 29, 35, 36/H.30).

Esse termo, diz Lemos Barbosa, (33) faria parte do lexico religioso criado pelos missionarios, baseado no termo -apixara, que tem sentido de "semelhante". O termo e neutro em relacao ao genero e tivemos dificuldade em determinar a que sexo se refere o termo na locucao nde rapixara (teu semelhante? tua semelhante?). Para traduzir esse termo usamos companheiro(a).

Entre a primeira e a decima pergunta, o missionario quer saber se uma mulher casada mantinha relacoes poligamicas, ao copular com outro homem (apyaba), alem do marido. Caso a india respondesse que sim, o missionario avaliava a gravidade do pecado procurando saber alguns dados sobre esse homem: se era casado ou nao (M.2), se era parente da penitente (M.4) ou do seu marido (M.3). Essas perguntas investigavam se nao havia agravantes, como manter relacoes sexuais com pessoas com lacos de consanguinidade e cunhadio. (34)

Como passo seguinte, o confessor queria conhecer a frequencia do ato por meio de duas perguntas. Uma delas segue o estilo do confessionario europeu, ao pedir o numero de vezes que ela praticou o ato (M.5). Na pergunta seguinte (M.6), ele retoma o mesmo pedido de informacao pela frequencia do ato, mas dessa vez quer saber se a india faz o ato todos os dias ou so de vez em quando (M.6). A adaptacao do pedido de numero preciso em M.5 (quantas vezes) para M.6, que solicita uma informacao imprecisa (cada dia ou de vez em quando), indicaria que nao houve a internalizacao da tecnica de quantificar o pecado da parte dos indios. (35)

Entre as perguntas 14 e 19, o missionario quer saber quais acoes a india praticava com o parceiro: dancar (M.14), abracar (M.16), beijar (M.17), se masturbar (M.31, 35, 36) etc. Uma das perguntas remetia ao costume tupi da esposa ser a responsavel por conseguir uma nova mulher para o marido (M.33). A versao masculina dessa pergunta e H.29:
   P. Nde cau rame erecenoi ucar cunham amo nde remirico rupi, ou
   amo aba rupi? [H.29] (Voce quando bebado mandou sua esposa ou
   alguem chamar uma mulher?)


O missionario nao estava obrigado a seguir fielmente as perguntas contidas no confessionario de 1751 ("nao te atenhas aosobre dito confissionario, que ele so serve para hua preciza necessidade"). (36) Mas esse confessor, apesar de aconselhar aos colegas a extrapolarem aquele formulario, ele mesmo se restringiu a um repertorio padronizado de perguntas, presente em outro manuscrito, como o de 1750. A vantagem para o missionario de ter um repertorio de perguntas preestabelecidas era ganhar tempo, particularmente no periodo da quaresma, em que todos na aldeia deveriam se confessar.

6. Algumas diferencas nas perguntas dirigidas a homens e mulheres

Entre as 36 perguntas direcionadas as mulheres, sete delas sao iguais, sem nenhuma alteracao, as dirigidas aos homens (M.2, 3, 4, 5, 6, 11, 12, 13). Outras cinco fazem ajustes em relacao aos termos referentes ao genero, como a substituicao do termo de esposa (temerico/remerico) para marido (mena), de mulher (cunha) para homem (apyaba). A ultima coluna do anexo faz a remissao entre as perguntas semelhantes para ambos sexos.

Um exemplo da diferenca na forma empregada pelo missionario para as mulheres e para os homens era o uso da reduplicacao (com sentido frequentativo) do verbo nas perguntas as mulheres, ausente na versao equivalente dirigida aos homens. O sentido frequentativo do verbo, composto pela repeticao de uma ou mais silabas do radical do verbo, indicava a continuidade ou frequencia da acao (M.14, 15, 19, 24, 29, 31, 35, 36). Seu emprego para a mulher pressupoe que ela continuava praticando a acao, enquanto, para os homens, o missionario queria saber se eles ja haviam feito, mas nao investigava se estava havendo continuidade.

Um exemplo da diferenca de postura do missionario ao se dirigir a mulheres e a homens esta na pergunta M.32, dirigida as mulheres, e na sua versao para os homens (H.32). No caso da mulher, o padre explicita varias categorias masculinas (rapazinho, adulto, branco ou padre) que ela poderia ter olhado com desejos sexuais (M.32). Na versao para o homem, apenas se interroga se quando o indio ve uma "mulher mais bonita" ele teria desejos sexuais (H.32).

7. Conclusao

O confessor do documento de 1751 se mostrava recatado ao perguntar sobre sexo para homens e mulheres. Ele compartilhava a postura do seculo XVIII de silenciar sobre esse tema. (37) Tal postura nao esta presente no confessionario tupi do seculo XVI, associado ao nome de Anchieta. Nesse texto, palavras como tapope (vulva) e taconha (penis) foram usadas sem serem substituidas por eufemismos como mbae (coisa), como no de 1751. No confessionario de Anchieta, a pergunta sobre se a mulher se masturba consiste numa longa descricao, muito diferente da versao velada de 1751 (ver M.31):
   Erepokokpe nde rapope rese ipekabo, enemopiranga, ipypira,
   ipypekabo, ejejukabo? (Tocaste em tuas virilhas [vulva] abrindo-as,
   avermelhando-te, alargando-as, separando-as, ferindo-te?)
   (Anchieta, 1992). (38)


A postura de evitar falar abertamente sobre sexo ou sobre partes do corpo no confessionario de 1751 teria levado a formacao de um lexico especifico para a confissao. Ser um indio cristao incluiria aprender o sentido especifico que o missionario dava a alguns termos tupi na situacao da confissao. O indio deveria aprender nao apenas que -rico significava copular e mbae certas partes do corpo, mas, sobretudo, que havia interdicao de se falar de sexo explicitamente, mesmo nas situacoes de dialogo em que este era o principal topico, como na parte da confissao referente ao sexto mandamento da Lei de Deus.

Anexo

Transcricao e traducao das perguntas referentes ao sexto mandamento de Deus no confessionario de 1751 (fl.82-83), pertencente a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A coluna a direita remete as perguntas semelhantes direcionadas aos homens e as mulheres. Os colchetes remetem ao sentido literal e os parenteses as elipses. A traducao foi realizada por Ruth Monserrat.

(1) Anonimo, Vocabulario de lingoa brasilica, Rio de Janeiro, Fundacao Biblioteca Nacional, 1751.

(2) Utilizaremos na analise os manuscritos: Anonimo, Gramatica da Lingua geral do Brasil com hum Diccionario dos vocabulos mais uzuaes para a intelligencia da dita Lingua, Coimbra, Biblioteca da Universidade de Coimbra, 1750; Anonimo, Diccionario da Lingua geral do Brasil que se falla em todas as villas, lugares e aldeas deste vastissimo Estado, Escrito na Cidade do Para, Coimbra, Biblioteca da Universidade de Coimbra, 1771; Anonimo, Vocabulario da Lingua Brazil, Lisboa, Biblioteca Nacional, s.d.

(3) Para uma revisao dessa corrente na historiografia ver Matthew Restall, "A History of the New Philology and the New Philology in History", Latin American Research Review, v. 38, n. 1, Austin, 2003, p. 113-134.

(4) Madison, University of Wisconsin, 1974.

(5) David Graham Sweet, idem, p. 807.

(6) Idem.

(7) Vicente Rafael, Contracting Colonialism: Translation and Christian Conversion in Tagalog Society under Early Spanish Rule, Ithaca, Cornell University Press, 1988.

(8) Juan Carlos Estenssoro Fuchs, Del Paganismo a la Santidad: La Incorporacion de los Indios del Peru al Catolicismo (1532-1750), Lima, IFEA, 2003.

(9) John Manuel Monteiro, Tupis, Tapuias e Historiadores: Estudos de Historia Indigena e do Indigenismo, Tese apresentada para o Concurso de Livre Docencia, Departamento de Antropologia, Campinas: IFCH--Unicamp, 2001, p. 36-52.

(10) Maria Cristina Pompa, "Para uma antropologia historica das missoes", in: Paula Montero (org.), Deus na aldeia: missionarios, indios e mediacao cultural, Sao Paulo, Editora Globo, 2006.

(11) Adone Agnolin, Catequese e Traducao: gramatica cultural, religiosa e linguistica do encontro catequetico e ritual nos seculos XVI-XVII, in: Paula Montero (org.), Deus na aldeia: missionarios, indios e mediacao cultural, Sao Paulo, Editora Globo, 2006.

(12) Paula Montero (org.), Deus na aldeia: missionarios, indios e mediacao cultural, Sao Paulo, Editora Globo, 2006, p. 10.

(13) Vicente Rafael, op.cit., p. 210.

(14) Adone Agnolin, Catequese e Traducao: gramatica cultural, religiosa e linguistica do encontro catequetico e ritual nos seculos XVI-XVII, in: Paula Montero (org.), Deus na aldeia: missionarios, indios e mediacao cultural, Sao Paulo, Editora Globo, 2006, p. 173.

(15) John Manuel Monteiro, Tupis, Tapuias e Historiadores: Estudos de Historia Indigena e do Indigenismo, Tese apresentada para o Concurso de Livre Docencia, Departamento de Antropologia, Campinas: IFCH--Unicamp, 2001, p. 36-52.

(16) Anonimo, Vocabulario de lingoa brasilica, Rio de Janeiro, Fundacao Biblioteca Nacional, 1751, folios 76-90.

(17) Antonio de Araujo, Catecismo Brasilico Da Doutrina Christaa, Com O Cerimonial Dos Sacramentos, & Mais Actos Parochiae, 2. ed., Lisboa, Na Officina Miguel Deslandes, 1686; Joao Felipe Bettendorff, Compendio Da Doutrina Christaa Na Lingua Portuguesa E Brasilica, Lisboa, Imprensa Miguel Deslandes, 1687.

(18) Anonimo, Vocabulario de Lingoa Brasilica, Rio de Janeiro, Fundacao Biblioteca Nacional, 1751, p. 89.

(19) Antonio de Araujo, Catecismo Brasilico da Doutrina Christaa, Com O Cerimonial dos Sacramentos, & Mais Actos Parochiaes, 2. ed., Lisboa, Na Officina Miguel Deslandes, 1686, p. 120.

(20) Jose Oscar Beozzo, Leis e Regimentos das Missoes, Politica Indigenista no Brasil, Sao Paulo, Edicoes Loyola, 1983.

(21) Representacao que fez a Companhia de Jesus do Estado do Maranhao a El Rei, pelas reparacoes, e desordens que padecem no mesmo Estado, Manuscrito da Biblioteca do Rio de Janeiro, s.d.

(22) Joao Daniel, Tesouro descoberto no Maximo Rio Amazonas, Dois volumes, Rio de Janeiro, Fundacao Biblioteca Nacional, 1976, p. 20.

(23) Pe. Antonio Lemos Barbosa, Curso de Tupi Antigo. Gramatica, Exercicio, Textos, Rio de Janeiro, Livraria Sao Jose, 1956.

(24) Ruth Maria Monserrat, "O tupi do seculo XVIII (tupi-medio)", in: Jose Ribamar Bessa Freire & Maria Carlota Rosa, Linguas Gerais. Politica Linguistica na America do Sul no periodo colonial, Rio de Janeiro, Eduerj, 2000, p. 185-194.

(25) Aryon Dall'Igna Rodrigues, Linguas brasileiras. Para o conhecimento das linguas indigenas, Sao Paulo, Edicoes Loyola, 1986.

(26) Anonimo, Diccionario da Lingua geral do Brasil que se falla em todas as villas, lugares e aldeas deste vastissimo Estado, Escrito na Cidade do Para, Coimbra, Biblioteca da Universidade de Coimbra, 1771.

(27) Anonimo, Vocabulario da Lingua Brazil, Lisboa, Biblioteca Nacional, s.d., p. 55.

(28) Anonimo, Vocabulario de lingoa brasilica, Rio de Janeiro, Fundacao Biblioteca Nacional, 1751, p. 84.

(29) Anonimo, Diccionario da Lingua geral do Brasil que se falla em todas as villas, lugares e aldeas deste vastissimo Estado. Escrito na Cidade do Para, Coimbra, Biblioteca da Universidade de Coimbra, 1771.

(30) Anonimo, Vocabulario de lingoa brasilica, Rio de Janeiro, Fundacao Biblioteca Nacional, 1751, p. 82.

(31) Francis Huxley, Selvagens amaveis. Um antropologista entre os indios Urubus do Brasil, v. 316, Colecao Brasiliana, Sao Paulo, Companhia Editora Nacional, 1963.

(32) Serge Gruzinski, "Aculturacion e individualizacion: Modalidades e impacto de la confesion entre los indios nahuas de Mexico. Siglos XVI - XVIII", Cuadernos para la historia de la evangelizacion en America Latina, v. 1, Cuzco, Centro Bartolome de Las Casas, 1986, p. 9-108.

(33) Pe. Antonio Lemos Barbosa, Curso de Tupi Antigo. Gramatica, Exercicio, Textos, Rio de Janeiro, Livraria Sao Jose, 1956, p. 383.

(34) Martin de Azpilcueta, Manual de confesores y penitentes, Coimbra, Joan de Barreyro, 1560, p. 387.

(35) Serge Gruzinski, op.cit., 1986, p. 20.

(36) Anonimo, Vocabulario de lingoa brasilica, Rio de Janeiro, Fundacao Biblioteca Nacional, 1751, p. 84.

(37) Michel Foucault, Historia da Sexualidade I: A vontade de saber, 16. ed., Rio de Janeiro, Edicoes Graal, 1988.

(38) Jose de Anchieta, Doutrina crista. Tomo 2: Doutrina autografa e confessionario, Obras Completas, v. 10, Introducao historico-literaria, traducao e notas do Pe. Armando Cardoso SJ, Sao Paulo, Edicoes Loyola, 1992, p. 95.

Maria Candida Barros **

Ruth Monserrat ***

Jaqueline Mota ****

* Artigo recebido em dezembro de 2007 e aprovado para publicacao em marco de 2008. O trabalho recebeu o apoio do Programa de Pesquisa da Fundacao Biblioteca Nacional, CNPq e MCT-PCI.

** Pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi. E-mail: mcandida.barros@gmail.com.

*** Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: ruth.monserrat@gmail.com.

**** Graduada em Historia pela Universidade Federal do Para. E-mail: jaquemota@gmail.com.
       Pergunta em tupi               Traducao

H.1    P. Ererico cunham amo nde      Voce copulou [ter, estar]   M.1
       remirico cui?                  com outra mulher alem da
                                      tua esposa?

H.2    P. Mendacara ou                (Ela era) casada ou         M.2
       mendacareyma?                  solteira?

H.3    P. Nde anama rete?             (Ela era) sua parenta de    M.4
                                      verdade?

H.4    P.Nde remirico anama?          (Ela era) parenta de tua    M.3
                                      mulher?

H.5    P. Mobyr eii ta ererico?       Quantas vezes voce          M.5
                                      copulou [ter, estar]
                                      (com ela)?

H.6    P. Ererico ara jabe jabe       Voce copulou [ter, estar]   M.6
       ou amo rame nhote?             (com ela) todos os dias
                                      ou so de vez em quando?

H.7    P. Eremopyayba, ou ererico     Voce entristeceu [tornar    M.7
       ayb nde remirico imoa          o figado ruim] ou tratou
       cunham rece?                   mal sua esposa por causa
                                      de outra mulher?

H.8    P. Opoir ucar oane indebo      O padre ja mandou voce se   M.8
       Pa? imoa cunham cui?           abster de outra(s)
                                      mulher(es)?

H.9    P Eremieng mieng mbae ixupe?   Voce ficou dando coisas a   M.9
                                      ela?
H.10   P. Erejemocoar puryb cece      Voce negociou vantagem      M.10
       nde remirico cui?              com sua mulher por causa
                                      disso?

H.11   P. Aicobe ererico amo?         Porventura voce copulou     M.11
                                      [ter, estar] com outra?

H.12   P. Ererico mendacareyma amo?   Voce copulou [ter, estar]   M.12
                                      com uma nao-casada?

H.13   P. Eremombuca cunhatem amo?    Voce deflorou [furar]
                                      alguma moca?

H.14   P. Oacype eremombuca ou        Voce a deflorou [furar]
       cemimotara rupi?               por tua vontade ou pela
                                      vontade dela?

H.15   P. Ererico cerayma amo?        Voce copulou [ter, estar]   M.13
                                      (com) alguma nao-batizada
                                      [sem nome]?

H.16   P. Ererico cera cunham amo,    Voce copulou [ter, estar]
       nde oatacaba rupi?             com alguma mulher crista
                                      durante suas viagens?

H.17   P. Ereporacei cunham eta       Voce dancou com mulheres?   M.14
       irunamo?

H.18   P. Eremojaru cunham eta        Voce brincou/gracejou       M.15
       amoramo, ou cunha mucu eta?    alguma vez com mulheres
                                      ou mocas?

H.19   P. Erejumane amo rame cunham   Voce abracou [enrolar]      M.16
       amo?                           alguma vez com mulher?

H.20   P. Erejuru piter cunham amo?   Voce beijou [chupar a       M.17
                                      boca] alguma mulher?

H.21   P. Erepococ iembae rece amo    Voce apalpou a coisa        M.18
       rame?                          dela alguma vez?

H.22   P. Nde raipor ucar ixupe ipo   Voce mandou ela te
       rupi?                          masturbar [provocar
                                      ejaculacao] com a
                                      mao dela?

H.23   P Nde raipore nde po pupe      Voce alguma vez se
       amo rame nde remimotara        masturbou [provocar
       rupi, erejemimotara rame       ejaculacao] com sua
       cunha rece?                    mao por sua vontade
                                      quando desejava uma
                                      mulher?

H.24   P. Nde raipore nde pocaucupe   Voce ejaculou durante seu
       amo rame?                      sonho alguma vez?

H.25   P. Nde roryb coite cece?       Voce ficou contente com     M.21
                                      isso no fim?

H.26   P.Ererico peco mimbabo         Voce copulou [ter, estar]
       cunham amo?                    peco (?) com algum animal
                                      femea de criacao?

H.27   P. Eresuruca aba amo?          Voce copulou [romper,
                                      penetrar] com alguem?

H.28   P. Nde suruca aba amo?         Voce foi copulado           M.23
                                      [rompido/penetrado] por
                                      alguem?

H.29   P. Nde cau rame erecenoi       Voce quando bebado mandou   M.29
       ucar cunham amo nde            sua mulher ou algum homem   ou
       remirico rupi,                 chamar alguma mulher?       M.24
       ou amo aba rupi?

H.30   P.Eremocarai rame nde          Quando voce brinca com      M.25
       rapixara eta erunamo,          seus companheiros, voce
       erenheeng ixupe,               diz a eles eu copulei
       arico raco kyuum?              [ter, estar com]
       cupi rupi, ou                  [kyuum ?]? De verdade ou
       gereguaya rupi?                de mentira?

H.31   P. Erejemimotar ete amo rame   Voce desejou muito          M.30
       cunham rece, nde puane         alguma mulher so por
       nhote, nitio rece, ererico     vontade, por nada,
       cunham nde robake,             voce teve uma mulher
       eremonhang arama nde           junto a ti, para
       rimimotara?                    satisfazer a sua
                                      vontade?

H.32   P. Erecipia rame cunham        Ao olhar uma mulher mais    M.32
       iporanga poryb, ere nheeng     bonita voce falou para si
       nde puape, tomaramo xerico     mesmo [para seu figado]
       quae?                          tomara que eu a copulasse
                                      [ter, estar com]?

Perguntas dirigidas as mulheres:

M.1    P[ergunta]. Ererico apyaba     Voce copulou [ter, estar]   H.1
       amo nde mena cui?              com outro homem alem de
                                      seu marido?

M.2    P. Mendacara, ou               (Ele era) casado ou         H.2
       mendacareyma?                  nao-solteiro?

M.3    P. Nde mena anama?             (Ele era) parente de teu    H.4
                                      marido?

M.4    P. Nde anama rete?             (Ele era) seu parente de    H.3
                                      verdade?

M.5    P. Mobyr eii ta ererico?       Quantas vezes voce          H.5
                                      copulou
                                      [ter, estar] (com ele)?

M.6    P. Ererico ara jabe jabe, ou   Voce copulou [ter, estar]   H.6
       amo rame nhote?                (com ele) todos os dias
                                      ou so de vez
                                      em quando?

M.7    P. Eremopyayba, ou ererico     Voce entristeceu [tornar    H.7
       ayba nde mena imoa apyaba      o figado ruim] ou tratou
       rece?                          mal seu marido por causa
                                      de outro homem?

M.8    P. Opuir ucar oane indebo      O padre ja mandou voce      H.8
       Pay imoaa apyaba cui?          abster-se de outro(s)
                                      homem(ns)?

M.9    P. Eremeeng ixupe mbae mirim   Voce deu a ele coisa        H.9
       mirim ererico a?               pequenina que voce tinha?

M.10   P. Erejemocoar poryb cece      Voce negociou vantagem      H.10
       nde mena cui?                  com seu marido por causa
                                      disso?

M.11   P. Aicobe ererico amo?         Porventura voce copulou     H.11
                                      [ter, estar] com outro?

M.12   P. Ererico mendacareyma amo?   Voce copulou [ter, estar]   H.12
                                      com um nao-casado?

M.13   P. Ererico cerayma amo?        Voce copulou [ter, estar]   H.15
                                      com algum nao-batizado
                                      [semnome]?

M.14   P. Ereporace raceya apyaba     Voce ficou dancando com     H.17
       eta erunamo?                   homens?

M.15   P. Eremojaru jaru apyaba       Voce ficou brincando/       H.18
       eta?                           gracejando com homens?

M.16   P. Erejuman?                   Voce abracou [enrolar]?     H.19

M.17   P.Erejuru piter?               Voce beijou [chupar a       H.20
                                      boca]?

M.18   P.Erepococ imbae rece?         Voce apalpou a coisa        H.21
                                      dele?

M.19   P. Erepiro piroc ixupe?        Voce ficou esfregando       H.22
                                      [descascar] ele (o penis
                                      dele)?

M.20   P. Ererico apyaba nongara      Voce copulou [ter, estar]   H.24
                                      com nde pocau cupe?
                                      um homem em sonho?

M.21   P. Nde roryb erepac reire?     Voce ficou feliz depois     H.25
                                      que acordou?

M.22   P. Ererico mimbabo apyaba      Voce copulou [ter, estar]   H.26
       rece?                          com animal de criacao
                                      macho?

M.23   P. Nde suruca apyaba amo?      Voce foi copulada           H.28
                                      [rompida/penetrada] por
                                      algum homem?

M.24   P. Nde cau rame erejemeen      Voce quando bebada, ficou   H.29
       meeng apyaba eta cupe?         se entregando aos homens?

M.25   P. Eremocarai rame nde         Ao brincar/gracejar com     H.30
       rapixara eta irunamo,          suas companheiras voce
       erenheeng ixupe,               falou para elas eu
       arico raco xeri, ajubete       copulei mesmo
       mocaraya rupi nhote?           [raco xeri?] ainda que
                                      so de brincadeira?

M.26   P. Ererico cera Pay amo?       Voce por acaso copulou
                                      [ter, estar] com algum
                                      Padre?

M.27   P. Eremombeu coite nde         Voce contou depois para
       rapixara eta cupi: nde         suas companheiras por
       jemopiring potar rece?         querer se gabar?

M.28   P. Ererico caryba amo?         Voce copulou [ter, estar]
                                      com algum branco?

M.29   P. Nde cau rame erejenon       Quando bebada voce ficou
       jenon nde rapixara             se deitando com uma
       irunamo ererico                companheira para copular
       arama apyaba nongara?          como homem?

M.30   P. Erejemimotar ete amo rame   Voce a vezes deseja de      H.31
       apyaba rece.                   verdade um homem?

M.31   P. Erepoem poem, amo rame      Voce fica pondo a mao na    H.23
       nde mbae rece erejemimotar     sua coisa as vezes,
       rame?                          quando esta com desejo?

M.32   P. Erecipiac rame coromim      Quando voce olhou um        H.32
       ocu amo, ou apyaba amo, ou     rapazinho ou um homem ou
       caryba ou Pa- amo erenheen     um branco ou um Padre
       nde pyape nhote tomaramo       voce falou para si mesmo
       xarico quae?                   [apenas em seu figado]
                                      tomara que eu copule
                                      [ter, estar] com ele?

M.33   P. Erecenoi cunham amo nde     Voce chamou outra mulher
       mena cope?                     para seu marido?
                                      H.29

M.34   P. Eremongueta cunham amo,     Voce contou para mulher,
       ou cunhatem amo, amo aba       ou moca, ou alguem, para
       cupe oarama, nde jecuai        se favorecer atraves
       rame cece oarama?              disso? [?]

M.35   P. Erepoem poem ucar nde       Voce mandou as suas
       embae, nde rapixara eta        companheiras tocarem na
       cupe?                          tua coisa?

M.36   P. Erepoem poem amo nde        Voce ficou tocando na       H.22
       rapixara mbae eremocarai       coisa de sua companheira    H.21
       rame?                          quando voce estava
                                      brincando?
COPYRIGHT 2009 Universidade Federal Fluminense / Departamento de Historia
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2009 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Candida Barros, Maria; Monserrat, Ruth; Mota, Jaqueline
Publication:Tempo - Revista do Departamento de Historia da UFF
Article Type:Report
Date:Jan 1, 2009
Words:6457
Previous Article:O imperio da lei: ensaio sobre o cerimonial de sagracao de D. Pedro I (1822).
Next Article:Os Benguelas de Sao Joao del Rei: trafico atlantico, religiosidade e identidades etnicas (Seculos XVIII e XIX).


Related Articles
A terra fertil do cotidiano.
Tempo, filme, memoria: a invencao do passado em Aitare da Praia.
Cibercultura, commons e feudalismo informacional.
Uma analise sociologica das relacoes entre a midia e os intelectuais.
Subculturas e cibercultura(s): para uma genealogia das identidades de um campo.
Do sentido da mediacao: as margens do pensamento de Jesus Martin-Barbero.
Um estudo comparativo sobre a resistencia e o enfraquecimento do Grupo Catolico em duas regioes brasileiras.
A parodia da autobiografia em Lygia Fagundes Telles.
O mito da serpente em D. H. Lawrence.
O imperio da lei: ensaio sobre o cerimonial de sagracao de D. Pedro I (1822).

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters