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Uma escultura nunca realizada de Martins Correia.

A never cast sculpture of Martins Correia

Introducao

Em janeiro de 1957 o escultor Joaquim Martins Correia (1910-1999) assinava com a Camara Municipal de Lisboa um 'Contrato de Execucao de uma Escultura' para o entao designado Grupo Escolar da Celula 6 de Alvalade (a atual Escola Basica Sao Joao de Brito) (CML, 1957). O edificio tinha sido projetado por Candido Palma de Melo, amigo de infancia do escultor (ambos tinham frequentado a Casa Pia) e acolhia ainda intervencoes artisticas da pintora Maria Keil e do proprio arquiteto.

A escultura de Martins Correia destinava-se a entrada do grupo escolar, a designacao da epoca para a tipologia de construcoes escolares em vigor: um conjunto de dois edificios--um para meninos e outro para meninas, uma vez que a separacao de sexos era obrigatoria -, muitas vezes simetricos em planta, como e o caso do grupo escolar da Celula 6 de Alvalade, a que se reporta este texto.

Embora no projeto de arquitetura constassem dois relevos adossados na fachada, a proposta de Martins Correia e a de um pequeno grupo escultorico de vulto perfeito, ocupando o espaco fronteiro a entrada do edificio.

Encomendada num momento em que se verifica um relativo impulso a contratacao de artistas para edificios de promocao municipal e em que se assiste, paralelamente, a uma atualizacao estetica nas propostas arquitetonicas desses mesmos edificios, esta escultura, porventura demasiadamente moderna, ou demasiadamente dispendiosa, nunca seria executada.

1. Uma proposta moderna

Duas fotografias elucidativas da proposta do escultor para o local estao anexas ao referido contrato: um estudo e uma fotomontagem da implantacao da obra. (figura 1, figura 2). Esta ultima, feita sobre uma fotografia do grupo escolar em construcao, permite supor que o escultor visitou pessoalmente o local e que esta obra foi concebida tendo em conta as suas condicionantes espaciais e arquitetonicas.

Um pequeno grupo escultorico assenta num plinto, centrado na fachada principal do edificio. Nele se reconhecem dois meninos, lado a lado. Um dos meninos levanta com as duas maos uma folha com o inicio do abecedario, elevando um pe. O outro menino abraca o primeiro, segurando um desenho com a mao esquerda.

A fotografia do estudo mostra como as duas figuras sao modeladas de forma mais tradicional, inscrevendo-se nas suas superficies linhas incisas que dialogam com as volumetrias escultoricas.

Esta linguagem plastica caracteristica do escultor--o desenho gravado sobre a escultura, um apelo grafico que mais tarde incluira a policromia dos volumes e dos desenhos neles presentes--estaria nesta epoca reservada a obras mais intimistas e seria dificilmente aceite em obras publicas.

Na obra Garcia da Orta, por exemplo, inaugurada no ano seguinte em frente ao Instituto de Medicina Tropical, em Lisboa, Martins Correia prescinde desta sua linguagem idiossincratica e assume o estatismo e a robustez da estatuaria de regime.

A proposta para escola de Alvalade e, em contrapartida, inequivocamente moderna, na simplificacao dos volumes e na expressividade do desenho, e claramente destinada a um publico infantil.

2. 'Integracao das artes' vs. encomenda de 'motivos decorativos'

A contratacao de dois artistas para este grupo escolar ja estava prevista desde finais de 1955, cumprindo um despacho do presidente da Camara Municipal de Lisboa (CML) de 20 de marco de 1954. Gracas a esse despacho, pequenas verbas relativas ao custo total dos edificios municipais passavam a estar exclusivamente consignadas a encomenda de obras de arte (Marques, 2012; Marques & Elias, 2015; Agarez, 2009).

Na pratica, a aplicacao desta norma traduziu-se na integracao de varias obras de arte no interior ou no exterior de edificios de varios tipos e finalidades, na Lisboa da decada de 1950, tendo como exemplo mais evidente o conjunto de grandes paineis de azulejo que revestem as escadas publicas da avenida Infante Santo.

Este despacho tinha sido exarado em resposta a uma peticao assinada por cento e setenta e dois artistas e arquitetos, entre os quais o proprio Martins Correia e o arq. Palma de Melo, no sentido de estabelecer um programa de percentagens para obras de arte, entregue ao presidente da CML em 1953 (Marques, 2012; Marques & Elias, 2015; Agarez, 2009).

Embora os signatarios se situassem em quadrantes politicos antagonicos e assumissem filiacoes esteticas bem diversas (de Jose Dias Coelho a Leopoldo de Almeida), esta peticao invocava e transcrevia as recomendacoes do 3 congresso da Uniao Internacional dos Arquitetos, relativas a 'Sintese das Artes', realizada em Lisboa nesse mesmo ano (UIA, 1953), recomendacoes estas que deixavam transparecer uma ideia de arte moderna abstrata integrada na arquitetura funcionalista, o que operacionalizava, de algum modo o desiderato das primeiras vanguardas (Marques & Elias, 2015).

Ponto de honra nesse documento era a necessaria colaboracao entre arquiteto e artista desde o inicio, na criacao de cada espaco ou edificio. No entanto, embora acolhida favoravelmente, a peticao submeteu-se ao entendimento que dela fizeram o presidente da CML e os servicos municipais, acabando por se converter num programa de encomenda de 'motivos decorativos', a designacao administrativa para 'obras de arte'.

Em vez de uma colaboracao artista-arquiteto e de uma expressao plastica conjunta, verificou-se sempre a realizacao previa de projetos de arquitetura para os quais se contratavam posteriormente artistas, inviabilizando qualquer possibilidade de interacao criativa entre os dois profissionais.

Por outro lado, enquanto na producao arquitetonica promovida pela CML se assiste, desde meados dos anos 1950, a uma renovacao formal--abandonando-se definitivamente o chamado 'portugues suave' por uma adesao aos idearios modernos funcionalistas--a encomenda de obras de arte publica feita por aquela instituicao era controlada pela muito conservadora Comissao Municipal de Arte e Arqueologia (CMAA), e permanecia presa a moldes do passado.

No campo das construcoes escolares verifica- se que a partir de 1953, nao apenas os edificios passam a ser tecnicamente 'modernos', mas refletem preocupacoes com a humanizacao do espaco escolar, com a escala das criancas e com os seus usos do espaco, o que alimenta o eclodir de uma linguagem arquitetonica nova (vejam-se os grupos escolares de Vale Escuro e Alto dos Moinhos).

Contrariamente, no campo da encomenda de obras de arte, assiste-se a resiliencia de uma estetica passada, de um apego a figuracao e a determinadas exigencias tematicas e formais decorrentes do controle exercido pela CMAA que, neste dominio concreto, segue um documento orientador redigido pelo arquiteto Raul Lino em 1955 (Lino, 1955: 31-32).

Segundo este documento, a arte abstrata, por exemplo, so seria consentida enquanto "ornamental", devendo orientar-se num sentido tradicional ou regional. Ja para a figuracao, estabeleciam-se quatro temas chave: (1)" o amor da Natureza", (2)" insinuar as ... origens das coisas simples (e.g. o fabrico do vinho); (3) "enaltecer o valor do trabalho do artesanato" e (4) o "tradicional, ligado ao regionalismo".

Com estes criterios a CMAA acompanhava a execucao de obras de arte destinadas as escolas, selecionando artistas, avaliando propostas, condicionando a sua realizacao, tendo os seus pareceres um carater definitivo (Elias, 2006; Marques, 2012).

3. Incoerencias

Quando o grupo escolar da celula 6 de Alvalade se conclui, em 1956, ja o arquiteto tinha introduzido um conjunto de intervencoes artisticas de sua autoria nas paredes das escadas no interior do edificio e no muro do recreio. Estas, surpreendentemente abstratas, terao seguramente escapado a avaliacao da CMAA, por ter sido o arquiteto a inclui-las em projeto (figura 3).

Tambem Maria Keil realizou dois grandes paineis de azulejo para os dois refeitorios da escolas (feminino e masculino), tomando como referente a imagem dos moinhos de vento, geometrizada e simplificada (Marques, 2012).

A proposta de Martins Correia ficaria por realizar. Alem de possiveis obstaculos a linguagem moderna do escultor por parte da CMAA, talvez a obra fosse demasiado dispendiosa. Efetivamente, a proposta inicial consistia na execucao da escultura em aluminio, com 1,80 m, pelo preco de sessenta mil escudos. A obra seria depois avaliada pela CMAA (CML, 1956), aparecendo reduzida em tamanho e em verba no contrato (1,60m de altura, quarenta mil escudos), o que permite supor uma certa pressao no sentido de contencao de verbas. Alem disto apenas se pode especular.

Apresentou-se neste texto uma proposta escultorica moderna, destinada a pontuar a entrada de um grupo escolar. A obra reforcaria a simetria dos volumes construidos, com eles estabelecendo uma relacao de complementaridade plastica e simbolica.

A obra foi produzida por encomenda, num momento em que se se verifica uma pratica regular de dotacao de obras de arte publicas para os edificios municipais.

Todos os grupos escolares projetados pela CML entre 1953 e 1958 tem obras de arte, contudo varias das encomendas feitas e das obras avaliadas pela CMAA nao chegaram a concretizar-se, por motivos hoje desconhecidos. Esta foi uma das obras nao concretizadas mas, pela sua qualidade plastica, vale a pena conhecer.

Referencias

Agarez, Ricardo (2009) O moderno revisitado: Habitacao multifamiliar em Lisboa nos anos de 1950, Lisboa: CML

CML (1955) "As novas realizacoes municipais: As escolas primarias da cidade", Revista Municipal no.66, 3 Trim, 1955: 65

CML (1957) "Contrato para execucao escultura para Grupo Escolar da Celula 6 de Alvalade, com Joaquim Martins Correia", 05-01-1957, Livro de Notas no.196: fis. 96-98

CML (1956) Anais do Municipio de 1956

CML (2018) Garcia de Orta. Lisboa: CML [Consult. 3-1-2019] Disponivel em http:// www.cm-lisboa.pt/equipamentos/ equipamento/info/garcia-de-orta

Elias, Helena (2006). Arte publica e instituicoes do Estado Novo: Arte publica das Administracoes central e local do Estado Novo em Lisboa: Sistemas de encomenda da CML e do MOPC/MOP (1938-19601. Tese de Doutoramento, Universidade de Barcelona, Espanha, acedida em http://diposit.ub.edu/dspace/ handle/2445/35438

Marques, Ines (2012). Arte e Habitacao em Lisboa 1945-1965: Cruzamentos entre Desenho Urbano, Arquitetura e Arte Publica. Tese de Doutoramento, Universidade de Barcelona, Espanha, disponivel em http://www.tesisenred.net/ handle/10803/145901

Marques, Ines & Elias, Helena (2015) "Arte e arquitetura modernas em Lisboa: os espacos escolares primarios da decada de 1950." Revista Rossio Estudos de Lisboa, no. 4 ISSN 2183-1327, Lisboa: CML

UIA (1953) Troisieme Congres de l'Union Internationale des Architectes, sous le patronage de Son Excellence le President de la Republique Portugaise : rapport final. Lisbonne: Librairie Portugal : 206-10
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Andrade Marques, Ines
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:1817
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