Printer Friendly

Uma Poetica do Processo na Biografia Literaria Contemporanea.

I

Logo que comecei a explorar mais sistematicamente biografias literarias foi se delineando um entendimento do que poderia chamar de a forma canonica da biografia. Estou usando esse rotulo aqui sem muita preocupado, porque me parece expor com clareza o que agora importa comentar--em outra ocasiao ja me referi a mais ou menos a mesma coisa com a denominado de "tradicao monumental" da escrita biografica. Essa forma canonica tinha alguma relado com um projeto canonizador: era um dos passos na fixado de um lugar no canone literario, exigia conhecimento pleno da obra e acesso privilegiado aos arquivos, e instalava o biografo em lugar de autoridade de saber com relado ao biografado. Partilhando de uma voz proxima a do narrador onisciente da ficcao do seculo XIX, essa forma da biografia literaria pressupunha, em particular, um apagamento do biografo na narrativa em beneficio da focalizado estrita no biografado, o que resultava em uma construcao realizada por uma mao invisivel. Assim, ainda que se perceba a assinatura, as marcas estilisticas, as predilecoes retoricas do biografo mesmo nos projetos em que se busca a sua maior invisibilizacao, ha uma escolha definitiva por um ocultamento sistematico do processo--de envolvimento, investigado, desenvolvimento, decisao, fatura--que muitas vezes nao aparece mencionado sequer no paratexto.

Da estruturacao, fixado e predominio dessa forma canonica resultou, creio, um subgenero: o do depoimento de biografos, essa categoria de textos, a meio caminho entre o testemunho, a prestado de contas, e o ensaio, que tem como representantes conhecidos Footsteps: Adventures of a romantic biographer, de Richard Holmes (1985) e o mais recente Trois ans avecDerrida, de Benoit Peeters (2010). Ha diferencas e contrastes importantes entre esses dois trabalhos, mas o que gostaria de salientar aqui, e que lhes e comum, e seu carater de suplemento. Isto e: existem as biografias, extensas e meticulosas, publicadas por esses biografos e, como uma especie de apendice, de frequentacao opcional, existem esses livros, nos quais algo se relata a respeito do comofoifeita a biografia. Seus autores obviamente desejam dizer algo a respeito, mas de tal forma celebraram um pacto estilistico previo que nao alteram em nada a biografia propriamente dita: escrevem um outro livro. Esse livro (ou ensaio), e a biografia com a qual ele se relaciona, sobrevivem em separado, e com a tendencia a audiencias distintas: muitos leitores em potencial para a biografia, na qual pouco ou nada se lera a respeito nem do biografo, nem de seu trabalho na construyo da biografia; um contingente menor de leitores (em especial, nos, academicos devotados ao genero e ao tema) para os trabalhos a respeito do trabalho do biografo. Com isso, embora chamem nossa atencao para outra zona da produdo de biografias, contribuem com a continuidade da forma canonica, do modelo que conforma e confirma nossas expectativas comuns sobre os papeis relativos de biografo e biografado e sobre a poetica do genero: o centro sendo o biografado, sua margem seria o biografo, e quanto mais marginal a margem (no limite, se ausentando completamente e se autonomizando em outro projeto, outro livro), tanto melhor para que se observe o centro. Boas biografias, nessa compreensao, sao biografias nas quais o biografo e invisivel--e quanto mais invisivel, melhor. Ha, digamos, uma "norma poetica" em curiosa operado: provavelmente em termos gerais os procedimentos de todos os biografos sao semelhantes (delinear o projeto; estabelecer cronologia; frequentar, investigar e produzir arquivo; redigir, editar, publicar), mas ha um esquema de elisao proposital que expele a narrativa a respeito do material e dos metodos, tomada como de interesse nulo, ou meramente suplementar. A interdigo nao esta, portanto, no "como fazer", mas sim no "que dizer", e isso vale para angular o trabalho de biografos com diferentes disposicoes teoricas, eticas, retoricas.

Se o proposito de fundo e a continuidade da canonizado por outros meios, o biografo cinzela o monumento, buscando fixar para quem ve antes a efigie mitica do autor maiusculo, em beneficio de uma visao igualmente sacralizadora da obra--Autor, Obra, e os trabalhos parceiros de construyo da biografia e controle e guarda do arquivo caminhando de maos dadas. O biografo assume uma especie de voz de lugar nenhum, cuja situado e a do privilegio transcendente, um olhar total que lhe confere o direito de divulgar uma visao candidata ao campo de adjetivos que vemos atribuidos a biografias a torto e a direito ("insuperavel", "exaustiva" e, meu favorito pior, "definitiva"). O trabalho de Michael Anesko, Monopolizing the Master: Henry James and the politics of modern literary scholarship (2012), a respeito do relado de Leon Edel arquivo de Henry James me parece extremamente esclarecedor e util, em particular por seu ataque metodico a ideia do arquivo como um oceano de pura disponibilidade, e sua enfase na micropolitica da gestao dos documentos como zona de combate na produdo de conhecimento em literatura. Meticulosamente investido na exposicao dos bastidores da negociado de cuidado do arquivo entre os detentores de direitos autorais da familia James, o biografo ungido e selecionado pela familia como guardiao preferencial do arquivo, e os eventuais candidatos a usufruto do espolio de James para proposito de edicao, critica, ou biografia, Anesko termina por fazer algo que soa ainda insolito, embora pareja bastante razoavel: uma biografia do arquivo, e uma demonstrado que o destino da massa documental de residuos que perduram apos a morte do autor e, em certos casos, longe de marcada pela disponibilidade. E, antes, atesourada e, como todo tesouro, objeto de disputa, as vezes desleal, brutal, e vil. Anesko, que sofreu o impacto da vigilancia de Edel sobre o arquivo de James em sua propria trajetoria de formado academica, executa tambem sua parcela de vinganca, exibindo em seu livro uma mescla de animosidade e celebrado do fim da guarda do arquivo por Edel. A historia da relado de Edel com o arquivo nao figura em momento algum em sua monumental biografia de James, salvo na forma tangencial e protocolar de afirmacao de gratidao aos herdeiros. Essa e a estrategia comum: o biografo discursa como onisciente, uma especie de extensao "natural", em termos de voz narrativa, do arquivo, o sustentaculo factual e baliza maior do genero, que parece ja estar, desde sempre, pronto, circunscrito. A invisibilizacao do biografo e, assim, parceira da invisibilizacao do arquivo enquanto problema.

Comecei a pensar que seria o caso de deslocar, ainda que momentaneamente, o suposto centro da empreitada, repousando a atencao sobre sua zona periferica; assim, tanto o biografo quanto o arquivo perderiam o posicionamento idealizado, e reapareceriam como variabilidade, diferenca, problema. Isso constituia uma oportunidade de implicares teoricas: se compreendo "teoria" como aquilo que desnaturaliza e desafia a doxa, entao creio ser aqui, nessas poucas biografias literarias que encontrei que provocam curtocircuito nos papeis esperados de biografo e biografado, que residem as manifestares mais interessantes do genero, uma vez que repudiam o carater de "dado" de uma certa forma do genero, com suas consequencias para o "conteudo" do genero e sua sancao de uma certa micropolitica. Ao recusar a forma canonica, se afirmam capazes de fazer outra coisa: ao inserir no jogo um novo "conteudo", ao recusar a reserva de um carater meramente suplementar para a experiencia do biografo, o resultado sao outras aventuras da forma que, ao mesclar biografia e autobiografia, se transformam em mais oportunidades de problematizacao do genero. Dito de outra maneira, acredito que ao vincular um "conteudo" especifico a producao de biografias--a experiencia ou trajetoria do biografo--, a "forma" se dispersa e implode, perdendo a estrutura padrao e rumando por outras regioes do espectro de possibilidades.

II

Minha atencao para esses casos nos quais o biografo e o biografiar apareciam como parte integral da narrativa biografica era estimulada por outras fontes--por coisas fora do universo da biografia literaria propriamente dita, mas que me pareciam ter a potencia de dialogos ferteis com a zona de questoes de minha eleicao, configurando, se nao um paradigma, pelo menos um processo de emergencia mais ou menos disseminado. Por essa via que acreditava estar operando com questoes de "teoria da biografia", uma vez que estava fazendo um leva-e-traz disciplinar, conceitual, procedimental.

Assim, verificava que Lawrence Venuti (1995) parecia estar comentando coisas relevantes para a discussao da poetica da biografia quando se referia a historia de "praticas de domesticado" do trabalho tradutorio, valorizadoras de uma especie de estado de medium por parte do tradutor que cuidaria apenas de conduzir algo de uma lingua a outra sem depositar vestigios do processo no produto que, fluente e fluido, tinha sua excelencia julgada pela medida em que parecia ter sido produzido na lingua-alvo. Nao e assim, me ocorreu, que se passa tambem com a produjo de biografias? Almeja-se a construcao de uma narrativa que se assemelhe a uma imagem da vida que se presta a organizado narrativa como um romance do seculo dezenove, animada pela maestria da divindade oculta do biografo que ao mesmo tempo que parece se submeter aos designios maiores do arquivo (a base factual, concreta, os dados), se arroga a orquestracao maxima (desvenda causa e consequencia nos afazeres humanos, adivinha o destino no passado, examina intencao, influencia, recepcao e legado). O fundamento estrangeiro, misterioso, alheio do biografado e subsumido na rede de fatos documentados e editados pelo biografo com vistas a consistencia, coerencia, e sentido: na biografia tradicional, todas as vidas tem telos. Dito de outra maneira, do mesmo jeito que uma traducao e domesticada enquanto diferenca original, uma vida e administrada e controlada enquanto narrativa biografica. Tem lugar na recepcao tradicional da biografia o mesmo que e favorecido na recepcao tradicional da traducao: um elogio da invisibilidade.

Outra fonte interessante era o trabalho de um antropologo como James Clifford que, em suas discussoes da "auto-modelagem etnografica" (o que da titulo ao proprio ensaio de onde retiro a nocao) (1) reconduz a discussao realizada por Stephen Greenblatt a respeito da "auto-modelagem" e a construcao de uma nocao de identidade em torno dos dramaturgos britanicos da Renascenca. Clifford captura algumas sugestoes de Greenblatt para comentar como aparecem, em Malinowski e Conrad, movimentos ressonantes de compreensao da relacao entre identidade, estranhamento e alteridade, e me parecia ser possivel estender a discussao para a maneira como uma certa ideia de sujeito--ou de subjetividade, ou de experiencia--anima e sustenta todo empenho biografico, em uma sequencia argumentativa que me fazia pender para o lado do artificial, do especulativo, do inventivo e--por que nao?--do ficcional como sendo uma base, e nao um desvio, da construyo biografica. Noyoes como a de "impor uma forma" a identidade, ou conceber o eu "como uma ficcao" me pareciam razoavelmente aparentadas a nocao de "vida que se le como um romance" que esta ai, aparecendo como elogio e distingo aplicada a biografias em geral. Essa observado e de tal maneira reiterada que esquecemos que, ao dizer isso, e ao manipular "um eu concebido como uma ficcao", podemos operar por essa via para uma abertura da concepto de "forma" na biografia, que se torna passivel de assumir tantas formas quantas sejam as da ficcao para a narrado, construyo e, em certa medida, "invendo" da vida escrita do outro.

Por fim, me parecia impossivel circundar um conjunto de obras ficcionais que me colocavam diante do biografo como protagonista e, ao fazer isso, dramatizavam um exercicio, um conjunto de dilemas, um campo de problemas--coisa que nao encontrava jamais na biografia em sua forma canonica. Seria o caso de um exame mais sistematico de trabalhos dessa natureza, mas desejo marcar apenas o impacto critico de Flaubert's Parrot, de Barnes (1984). Ja bastante discutido por sua condicao liminar--Uma ficcao biografica? Uma biografia ficcional?--o trabalho de Barnes ao mesmo tempo que explora a aventura do biografo, emula a ficcao de Flaubert, tomando exemplos da obra e da critica da obra como oportunidades para o desvio da narrativa e seu avanzo em formas fora da curva habitual (um capitulo e uma apresentado de tres cronologias distintas da vida de Flaubert; outro e um debate com a biografa Enid Starkie a respeito da cor dos olhos de Emma Bovary; um terceiro apresenta questoes de um suposto exame escolar a respeito da vida e obra de Flaubert). Ha personagens de ficcao--o protagonista, pra comecar, e uma invendo. Mas tudo que se diz a respeito de Flaubert parece firmado em bases factuais, documentado, arquivado, editado, sancionado pela discussao corrente, na critica, a respeito do canonico autor.

Esse caso me parecia dizer que, para que a biografia se reinvente enquanto forma, uma via era pelo recurso a ficcao, e sua, digamos, maior generosidade de procedimentos. Outra era pelo que, por falta de nome melhor, chamei de "processo", de recurso ao processo: em sua fixacao ao interior da biografia, a narrativa sobre o processo adicionava uma especie de camada extra de complicares e, nessa adido, incrementava a ordem de problematizacao potencial do genero, conduzindo a outras estrategias de construyo e apresentado de um processo que, agora, nao tratava mais exclusivamente de um Autor e uma Obra narrados por um biografo invisivel, mas sim de um autor e uma obra lidos, em processo de leitura, por um biografo que se fazia ver montando o que lemos, realzando por essa via o carater situado do empenho e permitindo o que me parecia o refinamento da compreensao dos "resultados" do investimento pela apresentado do processo que conduziu a esses resultados

III

Com isso funcionando como, digamos, esteio teorico, fui me inclinando cada vez mais para um exame de objetos que, em biografia literaria, faziam algo dessa natureza, buscando valorizar, ao mesmo tempo, sua sintonia e sua idiossincrasia. Comecei a falar tambem em uma pequena tradicao alternativa, buscando com isso fortalecer a percepcao do que era feito nao mais como expressao eventual, mas como algo que ja podia, pela exemplaridade, servir como indicador de transformado da biografia literaria.

Com essa angulado historicizante, costumo conferir pioneirismo a e Quest for Corvo, a biografia deFrederick Rolfe, conhecido como o "Barao Corvo", escrita por A. J. A. Symons (1955--mas teve uma primeira, e bem-sucedida, edicao em 1934). E possivel que esse "grau zero" seja apenas fruto de ignorancia, mas a novidade do trabalho merece destaque, inclusive por sua notavel autoconsciencia: o subtitulo e "An experiment in biography", e o centro dramatico do experimento me parece ser a condicao de "quest", busca por algo dificil de encontrar, fugidio. E como se Symons colocasse, para si mesmo, questoes do tipo "Quem e esse autor, que li, me interessou, de quem nunca ouvi falar antes? O que mais escreveu, onde estao esses escritos?" No mundo da Gra-Bretanha da decada de 30, a historia comporta publicado de anuncio em jornal, visita a editores, entrevista com um familiar e com varios conhecidos; a medida que a busca progride, vemos o biografo construindo o arquivo e trabalhando, passo a passo, para a construyo do autor biografado como objeto de culto: vida sofrida, cheia de ambivalencias, somada a obra dispersa, em alguma medida inedita e rara. Parece notavel que o suposto fim da jornada seja a almejada conquista de uma especie de fim da leitura: e quando, ao cabo de saber tudo que julga possivel saber a respeito do autor e le tudo que sabe que Corvo teria escrito que Symons se da por satisfeito, e encerra a busca. A biografia foi um trabalho de investigado, de construyo de um retrato do autor cujo arquivo e, no processo de inquirido, criado, inventado. Ja se falou que o devir dessa narrativa e semelhante ao de um inquerito policial, mas talvez seja algo mais proximo do dossie, da exibicao de um pacote de documentos com alguma organizado cronologica, afinada antes com a sua ordem de aparido para quem o compoe que com seu lugar numa cronologia da vida do biografado.

Essa estrutura do dossie e levada adiante em Like a Fiery Elephant, a biografia de B. S. Johnson escrita por Jonathan Coe (2005), que faz uso de varias alternativas de estruturacao. Coe faz, a maneira do que se poderia tratar como uma "biografia critica", uma descrido sistematica da obra e sua recepcao em "Uma vida em sete romances"; na sequencia, "Uma vida em 160 fragmentos", cuida de organizar as evidencias de arquivo sob a forma de uma cronologia que e temperada por um anedotario, coletado principalmente em entrevistas realizadas por ele a respeito de Johnson; por fim, em "Uma vida em 44 vozes", explora a edicao dos depoimentos que recolheu sobre Johnson, abdicando de interpoladles contextuais ou explicativas, deixando que a voz dos entrevistados repouse em uma estrutura coral cheia dissensos e dissonancias (fala-se bem e mal a respeito de Johnson em quase igual medida aqui). O aproveitamento da estrutura do mosaico, do uso do fragmento como uma especie de metonimia da nossa incapacidade de apreensao de uma totalidade na vida escrita, ocorre em paralelo a incidentes de autoquestionamento por parte do biografo, culminando na exposicao final de perplexidade no trecho de conclusao, "Coda". O biografo duvida de sua capacidade de saber, busca saber, e isso resulta em saber algo--mas a perplexidade, as zonas de silencio, o estranhamento do outro, suas motivadles, as "causas" do que criou e fez, sao pelo menos tao valorizadas quanto as conquistas orquestrais do biografo na composicao do retrato de vida e obra que lemos.

A exposicao de perplexidade impulsiona o final da biografia de Johnson por Coe: funciona como combustivel para um momento em que a narrativa se pessoaliza e situa. Esse uso da perplexidade como trampolim aparece de forma semelhante, mas hipertrofiada, em Sobre Sanchez, a biografia de Nestor Sanchez escrita por Osvaldo Baigorria (2012). "Biografia fallida", "postautobiografia", sao sugestoes de denominado do autor no incipit do que me parece uma realizado formidavel dessa tradicao processual: a quase todo passo do biografado corresponde um do biografo que, em simpatia e ressonancia ou em dissenso e estupefacao apresenta a biografia de Sanchez como uma historia de leitura, sua, do personagem de culto, dos livros, dos depoimentos de seus circunstantes e proximos. O tom detetivesco de Symons da lugar ao mosaico/ dossie de Coe e esses dao lugar a uma forma peculiar de autoexame em Baigorria. Equanime em sua distribuido de, em certos momentos, falar sobre Sanchez e, em outros, falar sobre si, Baigorria segue expondo informadles a respeito do biografado sem sacrificar sua perplexidade primeira, ou substitui-la por um suposto saber. Assim se mantem ate o fim, identificando a dimensao misteriosa e inexplicavel do biografado a uma zona semelhante de seu proprio universo intimo, que e tambem fonte de indagadles e morada de misterios, apenas com muita dificuldade manobravel em uma estrutura convencional a priori, supostamente justificada por um fundamento factual da vida. Parodiando uma formula proxima do universo cultural evocado pelo livro (a ideia, afim ao universo contracultural dos anos 60 e 70, de que ou voce e parte do problema ou e parte da soludao), podemos dizer que "Vida", na biografia de Sanchez por Baigorria, e tanto parte da soludao quanto parte do problema do biografo.

Aqui nesses casos que elenquei nao ha uma "forma" comum, me parece: ha a dispersao da forma em exploradao de possibilidades alternativas de narradao. Isso, creio, advem da adidao de um elemento comum: esse veio autobiografico, essa tentativa de "explicado" da experiencia de envolvimento e labor que conclui no trabalho que lemos. Lemos, assim, a relacao de um leitor, o biografo, com um autor, o biografiado, e sua obra: isso e comum aos tres casos, assim como e comum a condicao precaria do material documental, friavel, fragil, a beira da inexistencia. Ainda, estamos tratando, nos tres casos, de autores de fisionomia publica quase inexistente (Corvo) ou, pelo menos, pouco vigiados pelo establishment literario (figuras de culto, como Johnson e Sanchez), sem nenhum cao de guarda a frente de seus arquivos: temos, assim, em cada biografia, a propria fatura de um amealhado de fontes, a criacao edesenvolvimento de um dossie, com tudo que possa ter de proto-arquivistico

Essas tres biografias, movidas, cada uma a sua maneira, pela extravagancia de uma situacao de escrita movida em certa medida por paradoxo, titubeio, e perplexidade, me parecem bastante destemidas na execucao de um recuo estrategico com relacao a forma e aos conteudos da biografia tradicional, e exuberantes no acompanhamento de uma sugestao barthesiana: a que convida os "cuidados de um biografo amigo e desenvolto" (Barthes 2005: xvii), e que constroi o biografo como "Amador", como aquele que "nao e de modo algum um heroi", que "se instalagraciosamente" (Barthes 2003: 65). Diante da doxa da escrita biografica, esses exercicios de exibicao do processo, em sua resistencia ao mascaramento das vicissitudes do biografiar, recuam estrategicamente e diante da pergunta "O que se pode fazer em biografia literaria hoje?" respondem com um "Pode ser assim, como fiz" (2)

https://doi.org/10.24215/18517811e073

Bibliografia

Anesko, Michael (2012). Monopolizing the Master: Henry James and the Politics of Modern Literary Scholarship. Stanford: Stanford University Press.

Baigorria, Oswaldo (2012). Sobre Sanchez. Buenos Aires: Mansalva.

Barnes, Julian (1984). Flaubert's Parrot. London: Vintage.

Barthes, Roland (2003). Roland Barthes por Roland Barthes. Sao Paulo: Martins Fontes.

Barthes, Roland (2005). Sade, Fourier, Loyola. Sao Paulo: Martins Fontes.

Clifford, James (1988). Tce Predicament of Culture: Twentieth-century ethnography, literature, and art. Cambridge: Harvard University Press.

Coe, Jonathan (2006). Like afiery elephant. e story of B. S. Johnson. London: Continuum.

Holmes, Richard (2010). Footsteps: Adventures of a romantic biographer. New York: Viking Penguin.

Peeters, Benoit (2010). Trois ans avecDerrida: Les carnets d'un biografe. Paris: Flammarion.

Symons, A. J. A. (1955). W>e quest for Corvo. East Lansing: Michigan State University Press.

Venuti, Lawrence (2008). e Translator's Invisibility: A history of translation (2 ed.). London: Routledge.

Notas

(1) "On Ethnographic Self-Fashioning: Conrad and Malinowski" (Clifford 1988: 92-113).

(2) O texto acima e--com alguns ajustes de referencia e correcoes vocabulares pontuais--o que foi lido por mim em uma mesa-redonda, na companhia de Judith Podlubne e Nora Avaro, no evento que deu origem a este dossie. Agradeco a ambas, bem como a Patricio Fontana, Martin Prieto, e Osvaldo Baigorria, pelas conversas ao longo do evento. Ainda, agradeco a Alberto Giordano, que esta no inicio do meu desejo de conhecer Rosario, e a todos os envolvidos na edRao do dossie.

Antonio Marcos Pereira, Universidade Federal da Bahia, Brasil.
COPYRIGHT 2018 Universidad Nacional de la Plata. Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educacion
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2018 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:DOSSIER: Un arte vulnerable. La biografia como forma
Author:Marcos Pereira, Antonio
Publication:Orbis Tertius: Revista de teoria y critica literaria
Date:Jun 1, 2018
Words:3984
Previous Article:Un arte vulnerable. La biografia como forma.
Next Article:La biografa cautelosa. Sobre La hermana menor. Un retrato de Silvina Ocampo, de Mariana Enriquez.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2020 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters