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Um expressionista holandes no Brasil: adaptacao de temas na obra de Johann Gutlich.

A Dutch expressionist in Brazil: adjustment of subjects in Johann Gutlich paintings

Introducao

Johann Margaretha Gutlich (Roterdao, 1920- Sao Paulo, 2000) foi um pintor que transitou entre culturas distintas. Pela contraposicao de lugares, costumes e tipos humanos, construiu uma obra singular, guiada por um olhar investigativo sobre a paisagem e o homem; temas que o acompanharam por toda carreira (Figura 1).

Este artigo e reultado de um processo de analise a partir de um inventario da obra deste artista. O inventario se inciou em 1997, por onde se procedeu a localizacao e registro da producao, bem como a recolha da fortuna critica e de entrevistas.

A analise proposta neste texto foca a associacao entre dois temas, a figura humana e a paisagem. Esta aproximacao tematica justificou-se a partir dos depoimentos em fonte primaria, mas sobretudo pela clareza como esta fusao se da nos textemunhos pictoricos.

1. Formacao e genese de uma poetica

Formado pela Academia de Artes e Ciencias Tecnicas de Roterdao Gutlich esteve associado, desde cedo, ao grupo de expressionistas holandeses e belgas. Fato este que o conduziu diretamente a tematica do homem do campo em seu cenario. Sob esta influencia, construiu o conjunto mais relevante de sua primeira fasel apresentada em exposicoes no Museu Boymans van Beuningen e na mitica Galeira Van Lier, e admirado por criticos, tais como Charles Wenting e Pieter Scheen.

O Corpus da obra holandesa de Gutlich se desenvolveu partindo de uma afinidade com o primeiro expressionismo nordico, onde o tema da paisagem era predominande (Figura 2), delineada por formas fluidas, materia com poucos impastos e uma atmosfera regida por ambiencias soturnas. De Henk Chabot recebeu aulas informais e o conselho de migrar a America do Sul para encontrar nova luz e cores. Sua estrutura pictorica sedimenta-se sobretudo na figuracao humana, que representa em formas angulosas, com aplicacao de tinta por fortes impastos, observando o contraste tonal (Figura 3).

Logo apos concluir os estudos na Academia, ocorreu o bombardeio da cidade de Roterdao. A cidade, entao em chamas, obrigou o artista e sua familia a se tranferirem para Haia. Fugindo da persegucao nazista, rumou com documentos falsos a provincia da Frisia, na pequena Appelscha. Neste local, permeneceu sob protecao do pintor Sierd Heertsma, a partir dai acompanhou o exercito canadense na condicao de interprete nas acoes de libertacao de seu pais.

Ao findar a guerra fixa-se brevemente em Groninga, entao cidade efervecente de cultura, onde participa do grupo "A casa do Urso" (De Beerenhuys), junto a Siep Van den Bergh e Ruurd Elzer, e promovem la diversas exposicoes e acoes de arte moderna, como a Gerrit Benner, um Naive que se revelou um grande expressionista e, do iniciante Karel Appel.

De Groninga, abandona tudo e parte como andarilho ate o Marrocos. Apos uma ausencia de um ano e meio, retornou a Holanda junto a uma caravana de ciganos. A perigrinacao pelo sul da Europa e norte da Africa expos o pintor a uma multiplicidade de aspectos da paisagem, de tipos e costumes. Mas foi, sobretudo, o contato com a cultura cigana que moldou um novo olhar, o olhar viajante.

Apos estas experiencias de deslocamentos, seu projeto poetico ja estava forjado numa afirmacao categorica: o homem e a paisagem. Estavel e com atelier na cidade de Amersforte, o artista se empenha, de 1947 a 1952, em intensa producao. Tal esforco que resultou em exposicoes de grande repercussao. Num desses certames, na galeria Van Lier, de Amterdao, foi descoberto pela comitiva brasileira que participava de um congresso de historia da arte na capital holandesa, em 1951. Este grupo resolveu convidar o jovem artista para vir ao Brasil e apresentar seus trabalhos nos museus de arte moderna do Rio de Janeiro e de Sao Paulo.

2. O contexto brasileiro e a construcao de um novo olhar

A chegada de Gutlich ao Brasil se deu no fim de 1952. Neste novo cenario participou dos relevantes circulos de producao de arte. A novidade de sua poetica era algo inusitado ao publico paulistano. Nao se podia associar sua obra a de outros expressionistas, como Di Cavalcanti, Flavio de Carvalho ou Lasar Segall. Gutlich trazia algo ainda nao conhecido ao Brasil. Lina Bo Bardi escreveu: "Nao pretendemos encontrar nele as influencias de outros pintores: nao saberiamos a quem referir-nos com exatidao. (...)" (Bardi, 1957, 207). Com este depoimento de 1957, pode-se ilustrar o estranhamento desta linguagem aos olhos locais e o total desconhecimento das matrizes do expressionismo holandes.

Nesta cidade, Gutlich esteve ligado comercialmente a um publico Norte e Leste europeu, pois a entao recem engendrada elite cultural paulistana que consumia arte moderna, apos a 2a Bienal Internacional de arte de Sao Paulo teve seu gosto reorientado para a corrente da abstracao Esta situacao havia sido criticada por Vilanova Artigas, num artigo intitulado: "A Bienal e contra os brasileiros" (Artigas, 2004, 32-33) e, por onde, adverte sobre os desjuizos de valor sobre a arte e a subserviencia ao gosto mandado. Assim, Gutlich mantem-se associado a culturas que nao se relacionavam a esta situacao.

O contato com o teatro e o cinema revelaram aspectos da cultura brasileira que o iriam impressionar. Sergio Cardoso, Maria della Costa e, sobretudo, Milton Ribeiro estavam entre os retratados em seus papeis de Esopo, Joana Darc e Lampiao. Este ultimo marcou profundamente o imaginario do artista.

Em 1962 se fixa na cidade de Sao Jose dos Campos, a convite da prefeitura municipal para a formacao de uma escola de Belas Artes a ser atrelada a uma futura universidade.

A escola foi estruturada aos moldes do ensino tradicional europeu, por onde se observavam as disciplinas de um curso de Belas Artes. Durante o periodo em que a escola esteve em atividades, de 1962 a 1970.

Frente a situacao de habitar um pais de cultura diametralmete oposta a sua, o pintor se viu desafiado pela paisagem e pelo homem diferentes aos de sua terra natal. Foi por este meio que inicia, a partir da chegada, uma serie de buscas que principiam na substituicao dos temas, ate em 1969, quando envereda pelo caminho do expressionismo abstrato.

Como Gutlich permaneceu no Brasil de 1952 ate o fim de sua vida,em 2000, com poucos retornos a sua terra natal, os modelos do expressionismo flamengo/holandes foram paulatinamente substituidos por assuntos e paleta dos tropicos (Figura 5 e Figura 6).

3. Retratos/paisagem. Encontro de dois generos

Pela constancia de deslocamentos, o pintor se liga simultaneamente aos temas do retrato e da paisagem. Numa simultaneidade de sua propia imagem, sem nada como posse e rumo a lugares sempre diferentes. Ha uma condicao de autoretrato na aproximacao dos temas, alem da fusao dos generos. As dinamicas do observador e do campo a sua volta se resumem na pele campo do retratado. Nesta dinamica acabou por produzir figuras que sao as proprias paisagens.

O expressionismo foi uma manifestacao que na Holanda teve permanencia distinta que na Belgica. Segundo Willet "Na Holanda (...) a tendencia expressionista durou pouco mais que a guerra. Na Belgica, por outro lado, se converteu em um movimento (...)" (Willet, 1970, 165). Por esta razao, o ambiente artistico de Flandres, apresentou-se aqui como um suporte a obra de Gutlich. Em depoimentos o artista afirma que estabeleceu mais vinculos com as premissas esteticas da corrente belga que com a holandesa.

O pintor desenvolveu uma dinamica para a construcao das imagens que derivava de fontes que, segundo o proprio, eram de matrizes flamengas. Gutlich afirmava que o proprio flamengo era uma a remanescencia do que teria sido um autentico holandes. Algo proximo das buscas pela pureza de uma cultura, empreendidas por Paul Gauguin na Bretanha.

Na fase inicial do artista, a figura humana desponta em seu repertorio esta associada a do campones. Buscava celebrar neste a pureza de sentimentos e uma inocencia adamica, numa etica muito distinta do enfoque critico presente nos movimentos congeneres, que enfocavam mazelas sociais ou um misticismo derivado ainda do Simbolismo.

A imagem do homem do campo como detentora de uma sabedoria pre socratica torna-se um figura princeps deste artista. Na elaboracao deste imaginario e importante considerar como fortes referencias as imagens de seu professor, Chabot e dois livros de Felix Timmermans, o mentor intelectual de Gutlich. Sao estes: "O Salmo do Campones", de 1935 e "Pieter Bruegel, como te farejei em tuas obras", de 1928..

Em Chabot encontra um pintor a imagem do proprio homem do campo que pintava seu mundo como um microcosmo. Chabot, que vivia na area rural proxima a cidade industrial e portuaria de Roterdao, admirva o homem da terra, os animais, o campo lavrado, o pao recem saido do forno. Tratava a tinta com fartos impastos e paleta terrosa, uma terra arada. Em Timmermans, a figura do campones flamengo encontra uma Genese na pintura de Bruegel. Tal visao e alavanca da identidade da pintura expressionista flamengo holandesa, e contribuiu para a fixacao da figura de Bruegel como a de um homem rustico, o que de fato nao era. Este foi o tem da monografia da Academia de artes: "Pieter Bruegel e as raizes do expressionismo flamengo/ holandes", infelizmente destruido durante a guerra

O campones e o animal se confundem (Figura 7). Esta uma simbiose e uma das memorias mais profundas do artista apos a permanencia em fazendas na Frisia (Figura 2). Sob frio intenso os bichos eram recolhidos para o interior das casas. Abrigados nestas contrucoes com imensos telhados de palha que desciam quase aos res do chao, homem e bicho compartilhavam o mesmo calor.

Na paisagem frisa onde o homem se reconhecia como parte de algo maior, extamente por descer a condicao primeva. A imagem dos animais e homens em coexistencia e uma das premissas deste expressionismo lirico, antes contemplativo que revoltoso.

Numa aventura de entrega cultural, se depara com uma figura ainda mais impactante, a do Cangaceiro. Esta personagem seria a encarnacao de um ser fustigado, mas profundamente orgulhoso. Na pele do sertanejo estava marcada a propria violencia do sol sobre o solo ressecado, mas comcndada por uma vontade indomada.

Este homem/ agreste havia chego a Gutlich pelo grande alcance de filmes, como "O Cangaceiro", de 1953 de Lima Barretro, "A morte comanda o Cangaco", de 1960, de Carlos Coimbra e por "Lampiao, o rei do cangaco", Eduardo Barbosa, de 1964. Todos estrelados por Milton Ribeiro, no papel de Virgulino Ferreira, o Lampiao, tambem modelo, nesta personagem, dos retratos de cangaceiro de Gutlich (Figura 6 e Figura 8).

Os retratos deste homem orgulhoso, protagonizado por Milton Ribeiro (Figura 9) sao antiteses do homem do campo taciturno, sao imagens daquele que venceu a dureza da opressao promovida pelo sistema politico no Nordeste de entao, e pela propria paisagem devastada pela seca.

No entanto, uma obra promove o encontro entre a placidez do olhar campones e dureza do cangaceiro. Na ponta do dedo do cangaceiro reclinado sobre a paisagem agreste da caatinga nordestina, pousa uma fragil borboleta, revelacao da delicadeza embotada sob a armadura do ser (Figura 6).

Conclusao

Para esta leitura de obra optou-se por isolar dois generos de representacao em sua possibilidade de conexao, que e por onde o pintor moldou um homem resultado da paisagem. Nestes campos de especulacao, a relacao atavica entre o retratado e seu meio, deriva, antes de uma condicao existencia, que de um projeto poetico consciente.

O processo de elaboracao deste imaginario pode ser observado num texto critico de Lina Bo Bardi:" Na simplificacao dos temas e sobretudo das figuras humanas, retratos, paisagens, esgota o que de fresco e infantil conserva a sua alma(...). (...) Gutlich ve a vida num plano, nao diremos tragico (a vida nao e tragica) mas extremamente grave, que nos faz lembrar o "tudo e profundo" de Nietszche. De fato, tudo aqui e levado a serio; amassado com viril energia num plano realistico e humanizado ao maximo" (Bardi, 1957:208). Este olhar infantil, conferiu seriedade e frescor ao mundo de imagens produzido por Gutlich. Por este olhar, o ser que se revela e o ser radical, o ser raiz preso as entranhas da terra.

Referencias

Artigas, Joao Batista Vilanova. (2004). Caminhos da arquitetura. Sao Paulo: CosacNaify, ISBN 85-7503-353-0 Bardi, Lina Bo. (1957, Junho) "Gutlich", Revista Anhembi, Sao Paulo. Ano VII, Volume XXVII, No 79: 207-208.

Fundacao Bienal de Sao Paulo. (1985). Expressionismo no Brasil: Herancas e Afinidades. Sao Paulo: Fundacao Bienal.

Scheen, Pieter A. (1969). Lexicon Nederlandse Beeldende Kunstenaars 1750-1950 (2 vols.) Den Haag: Kunsthandel Pieter A. Scheen.

Willet, John. (1970). El rompecabezas expresionista. Madrid: Ediciones Guadarrama,

GEORGE REMBRANDT GUTLICH, Brasil, artista gravador e professor.

Artigo completo submetido a 03 de Janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

AFILIACAO: Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Belas Artes, Departamento de Artes Plasticas, MG, Brasil. Avenida Antonio Carlos, 6627--Pampulha, Belo Horizonte--MG, CEP31270-901, Brasil. E-mail: dapl@eba.ufmg.br

Leyenda: Figura 1 * Fotografo desconhecido:Johann Gutlich pintando paisagem nos arredores de Roterdao, 1939.

Fonte: propria.

Leyenda: Figura 2 * Johann Gutlich: Paisagem da aldeia de Joure, Frisia. Desenho a carvao sobre papel, 23x43cm. Colecao particular. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 3 * Johann Gutlich: Familia, Oleo sobre tela, 150.70 x 145.30 cm.. Colecao: Museu de Arte Moderna de Sao Paulo .Fonte: propria.

Leyenda: Figura 4 * Johann Gutlich: Cena de inverno, Guache sobre papel, 50x70cm. Colecao particular, Sao Jose dos Campos .Fonte: propria.

Leyenda: Figura 5 * Johann Gutlich: Campones com foice, 1952, oleo sobre tela, 105x90cm. Colecao particular- Groninga, Holanda. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 6 * Johann Gutlich: Cangaceiro com Borboleta- sem data- oleo sobre tela- 79x113cm. Colecao particular- Sao Jose dos Campos, SP- Brasil. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 7 * Campones com cavalo, Desenho a carvao sobre papel, 66x50cm, 1952. Colecao particular. Sao Jose dos Campos, SP- Brasil. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 8 * Johann Gutlich: Milton Ribeiro no papel de Lampiao- sem data- oleo sobre tela- 90x60cm. Colecao particular- Sao Jose dos Campos, SP- Brasil. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 9 * Fotografo desconhecido:Foto de cena de Milton Ribeiro no papel de Lampiaono filme "A Morte Comanda o Cangaco", de Carlos Coimbra e Walter Guimaraes Mota, 1960. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 10 * Heinrich Joseph (HEJO): Johann Gutlich, fotografia, 1960 Colecao particular- Sao Jose dos Campos, SP- Brasil. Fonte: propria.
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Rembrandt Gutlich, George
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2568
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