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UM LIVRO PARA PENSAR A PARTICIPACAO DAS MULHERES NOS ENREDOS DA HISTORIA NO ALTO SERTAO DA BAHIA.

NOGUEIRA, Maria Lucia Porto Silva. Mulheres, historia e literatura em Joao Gumes: Alto sertao da Bahia, 1897-1930. Prefacio de Maria Odila Leite da Silva Dias. Sao Paulo: Intermeios, 2015. (Colecao Entre-Generos)

Ainda sao poucas as publicacoes sobre a participacao das mulheres nos enredos da historia, principalmente, na historia do Alto Sertao da Bahia--lugar de encontro e de relacoes na regiao semiarida do estado. Isto porque "a" historia teve muitos dos seus registros feitos por homens e para os homens. Todavia, obras como "Mulheres, historia e literatura em Joao Gumes: Alto sertao da Bahia, 1897-1930", escrita por Maria Lucia Porto Silva Nogueira, sao capazes de proporcionar outras leituras da realidade que nos permitem conhecer nao apenas um enredo, mas enredos onde as mulheres estiveram e fizeram-se presentes.

Para produzir sua leitura da historia para homens e mulheres do agora, a autora utilizou-se da analise das relacoes de genero no Alto Sertao da Bahia. Neste sentido, o livro, sintese da pesquisa de mestrado realizado na Pontificia Universidade Catolica (PUC) de Sao Paulo, presenteia leitores e leitoras com um conteudo que da visibilidade, ao mesmo tempo, as mulheres sertanejas de carne e osso, como escreveu Maria Odila Leite da Silva Dias no prefacio, e ao contexto do Alto Sertao da Bahia muito bem retratado no primeiro dos tres capitulos que compoem o livro. Mostra, pois, que "a" historia tem mais personagens do que os conhecidos e que seus enredos ocorrem em muitos espacos.

No caso do espaco do Alto Sertao Baiano, cuja aparencia era de lentidao nos ritmos das mudancas que vinham ocorrendo de forma acelerada nas grandes cidades brasileiras na virada do seculo XIX para o seculo XX, Maria Lucia busca mostrar uma realidade multifacetada e nao menos contraditoria, permeada por enredos marcados pelas ressonancias de todos os acontecimentos desse momento.

Como uma historiadora de olhar multidisciplinar, Maria Lucia fez uso de fontes compostas, especialmente, pelas obras literarias e jornalisticas de Joao Antonio dos Santos Gumes (1858-1930) que a autora apresenta em seu livro como "o sertanejo intelectual". E a partir das obras desse literato e jornalista, cujo acervo se encontra disponibilizado no Arquivo Publico Municipal de Caetite (APMC), que a pesquisadora estuda as relacoes de genero no Alto Sertao Baiano nas tres primeiras decadas do seculo XX. Assim, evidencia praticas culturais e tensoes sociais, o sistema de valores, habitos e atitudes que permeavam a vida de homens e mulheres na sociedade da epoca.

E perceptivel a leitura que Maria Lucia Porto Silva Nogueira, como mulher e pesquisadora, faz na construcao do enredo do livro. Nesta construcao, ela nos apresenta os papeis e lugares de homens e mulheres na sociedade alto sertaneja na epoca retratada. Sua analise mostra a participacao das mulheres "de posses", das mulheres pobres e ex-escravas, do campo e cidade, na historia que se construia no Alto-Sertao Baiano no final do seculo XIX e inicio do seculo XX.

E o olhar de mulher e pesquisadora que permite a Maria Lucia analisar as relacoes de genero nesse contexto a partir das obras de Gumes. Afinal, como homem do seu tempo, as obras de Gumes nao tiveram como tema central as mulheres, mas elas estavam la "ele as incluia em suas tramas num jogo de fortes oposicoes, caminhando entre os modelos idealizados de mulher, mae, dona de casa virtuosa para o oposto de mulheres desqualificadas e destituidas dos valores morais inculcados pela boa educacao" (NOGUEIRA, 2015, p. 166). A autora enxergou nos enredos de Gumes a "mulher rica"--apresentada como ma, exploradora dos empregados domesticos, cheia de artimanhas contra os inimigos e, socialmente, descrita por Gumes como "uma figura de ornamento"; a "mulher pobre"--solidaria, caridosa, um poco de virtudes; e as "mulheres ex-escravas"--subservientes e "enredadeiras", como tambem fieis e dedicadas. Assim, Nogueira (2015, p. 166) ressalta:
   O modelo defendido pelo narrador passa pela retidao de carater da
   mulher honesta que sabe se fazer respeitada, cuja conduta prioriza
   a autoridade masculina do pai ou do marido. Admite que a mulher
   tenha poderes, mas no espaco restrito do lar e, socialmente, devem
   ser recatadas e obedientes, colocando a honra familiar acima de
   tudo; da porta para fora, ou seja, nos espacos publicos, so tem
   visibilidade quando ligadas ao nome do chefe de familia.


Na sua escrita, a citada pesquisadora reconhece que nao era objetivo de Gumes, em seus romances, abolir estereotipos sexuais, socioculturais ou denunciar os preconceitos existentes sobre o feminino nas relacoes sociais. Por isto, ela faz uso de outras fontes como os escritos do Jornal A Penna, processos-crimes e obras de memorialistas para ajudar a analisar os espacos em que as mulheres subverteram papeis e criaram contrapoderes, ou seja, fizeram-se presentes. Assim, pela perspectiva feminista das relacoes de genero, a autora ajuda a documentar enredos de mulheres, personagens da historia no Alto Sertao Baiano, no periodo analisado, em diversos papeis como de costureiras, lavadeiras, vendedoras, artistas, pintoras, musicistas, professoras, empreendedoras. Evidencia, pois, muitas atividades das quais as mulheres se ocupavam, principalmente, as pobres. No meio urbano, elas eram as tecelas, fiandeiras, rendeiras, quituteiras, trabalhavam nos servicos domesticos como lavadeiras, aguadeiras, cozinheiras. No meio rural, trabalhavam na lavoura, nos engenhos, no fabrico da farinha de mandioca e seus derivados. A autora enxerga nas obras de Gumes a particularidade das ex-escravas que foram alforriadas pelos seus senhores como forma de garantir os seus servicos por tempo indeterminado. O livro nos mostra ainda as mulheres sertanejas na educacao; em multiplos espacos de sociabilidade; nas praticas de saude, como os casos das parteiras; mulheres na luta por direito a moradia, etc.

Enfim, para alem da dominacao masculina, o grande merito do livro "Mulheres, historia e literatura em Joao Gumes: Alto sertao da Bahia, 1897-1930", em suas 188 paginas, e colocar as mulheres nos enredos da historia no Alto Sertao da Bahia. Para isto, a incursao da metodologia pela perspectiva das relacoes de genero foi fundamental. A pesquisadora se mostrou capaz de enxergar os silencios ou os ditos nas entrelinhas dos escritos analisados para revelar aos leitores e leitoras enredos em que as mulheres estiveram presentes. Mais que isto, fizeram-se presentes.

Maria Lucia Porto Silva Nogueira revela-se, portanto, nesta obra, uma pesquisadora feminista. Entretanto, o seu livro nao e indicado apenas as feministas. O mesmo deve ser lido por academicas e academicos interessados/as em melhor conhecer as multiplas perspectivas historicas e os papeis das mulheres nos diferentes contextos, como e o caso do Alto-Sertao da Bahia, territorio ainda pouco explorado por pesquisadores/as que se debrucam em analises das relacoes de genero como Nogueira fez, orientada por Maria Odila Leite da Silva Dias. Alem de leitores/as da academia, sugere-se a obra a todas as pessoas que desejam conhecer outros enredos e personagens da historia, principalmente, os sertanejos e sertanejas da Bahia que conhecem poucos escritos sobre si.

Tatyanne Gomes Marques DEDC, UNEB. Email: tatymarques@yahoo.com.br

Sonia Maria Alves de Oliveira Reis DEDC, UNEB. Email: sonia_uneb@hotmail.com
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Author:Marques, Tatyanne Gomes; de Oliveira Reis, Sonia Maria Alves
Publication:Revista Artemis
Date:Jan 1, 2019
Words:1148
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