Printer Friendly

Two moments in the history of the Portuguese far-right/ A extrema direita portuguesa, em dois momentos.

A extrema direita portuguesa pode ser encontrada e a analisada a partir de campos e tempos historicos distintos. E desde o tempo do Miguelismo que se pode apontar para a existencia de uma direita organizada que se renova na continuidade (1). Para o presente artigo escolhi duas conjunturas que me parecem determinantes para o entendimento de sua dinamica frente ao regime do Estado Novo portugues dirigido originariamente por Oliveira Salazar e depois por Marcello caetano. Em primeiro lugar, pois, o periodo de formacao do Estado Novo, entre a segunda metade da decada de 1920 e a primeira metade da decada seguinte. Trata-se este do periodo em que o radicalismo de direita viveu alguma expectativa de conducao do regime que se inaugurava com o golpe de Estado de 1926 (2). Em seguida, entretanto, a extrema direita viu frustradas suas expectativas, razao pela qual migrou para o campo da oposicao doutrinaria ao governo de Oliveira Salazar. Tratava-se de uma corrente que considerava que o Estado Novo nao havia realizado suficientemente seu projeto corporativo, nacionalista e antidemocratico. Parte destes segmentos de extrema direita terminou por aderir ao Estado Novo. Militantes do Integralismo lusitano, uma corrente de forte conteudo maurrasiano, consideraram no regime instaurado por Oliveira Salazar a possibilidade de constituicao de uma ordem autoritaria, corporativa e antiliberal (3). Dentre estes personagens, o mais importante foi, seguramente, Marcello caetano (4).

Em segundo lugar, reencontramos a extrema-direita quando da crise inaugurada com as guerras coloniais em 1961, periodo em que esta corrente arregimentou com alguma forca um campo politico que se opunha as eventuais <<ameacas>> de concessao ou mesmo dialogo com os movimentos de libertacao. Ao mesmo tempo, o processo de radicalizacao do movimento estudantil faz com que o campo a direita, que se articulava inicialmente a partir do problema colonial, interferisse tambem na esfera academica. Vale notar que ela se notabilizara mais nitidamente quando da ascensao do ex-integralista Marcello caetano ao governo, na condicao de sucessor de Antonio Oliveira Salazar no cargo de Presidente do conselho de Ministros. Caetano era visto, por larga margem das correntes apoiantes do regime e mesmo parte da oposicao como um liberal ou, ao menos, como um moderno, principalmente se comparado ao ditador que viera a suceder.

A historia do salazarismo e do Estado Novo portugues contemplou diversos estudos a respeito de suas oposicoes liberal, comunista e socialista. A despeito de sua importancia, a direita oposicionista foi, de certa forma, relegada a segundo plano, vista como expressao marginal e sem grande densidade. Verdade e que alguns trabalhos tem, desde a decada de 1990 do seculo passado, rompido com essa barreira (5). Ainda assim sao vastos os caminhos a serem trilhados por investigadores que se interessam no tema. Procurarei no presente artigo analisar proximidades e distanciamentos, semelhancas e diferencas das direitas radicais portuguesas naquelas duas conjunturas distintas (os anos 1920-30 e os anos 1960-70).

1. AS DIREITAS PORTUGUESAS NA CRISE E NO OCASO DA I REPUBLICA

Segundo Antonio Manuel Hespanha, no seculo xviii, o individualismo propos uma imagem de sociedade centrada no homem, sendo que seus objetivos nada mais eram que a <<soma dos fins de seus membros e a utilidade geral confundia-se com a que resultava da soma das utilidades de cada individuo>>. Em oposicao, o pensamento social medieval concebia o primado do <<corpo>>, ao qual estaria integrado, de forma submissa, o individuo. Ressalta tambem o autor o papel que a religiao desempenhou junto ao pensamento politico medieval ancorado na ideia de cosmos, orientando todos os homens para um objetivo unico, identificado com o criador (6). E foi exatamente esta tradicao catolica e coletivista a mola mestra que mobilizou parte da intelectualidade portuguesa nas primeiras decadas do seculo xx. Na medida, portanto, em que o modelo politico imposto em Portugal apos a queda da Primeira Republica opunha-se ao individualismo liberal, o Portugal sebastinista, restaurador e miguelista transformava-se na referencia basica para a (re)construcao da <<Nacao Portuguesa>> (7).

Para esta corrente de pensamento, a Revolucao liberal de 1910 significou o abandono de todas as grandes tradicoes que haviam fundamentado a formacao da nacionalidade lusitana. Tratava-se, assim, da traicao a uma linhagem constituida desde a formacao do Estado Nacional a comecar pela referencia incontestavel de d. Nuno Alvares Pereira, passando por d. Sebastiao, d. Joao IV e que, no seculo xix, tinha como referencia mais importante a figura de d. Miguel, o monarca absolutista derrotado por d. Pedro. Assim a oposicao ao liberalismo significava um compromisso com Portugal, com sua historia, suas referencias e suas tradicoes. O futuro deveria, necessariamente, estar comprometido com o passado.

Portugal havia sido grande e moderno quando atravessou os mares e, em nome da inabalavel fe catolica, descobriu e conquistou novas terras. conquistas essas que somente foram possiveis por conta de seu pioneirismo na constituicao do seu Estado nacional, ja em 1140 (8). Ao mesmo tempo, era o lugar do <<pequeno mundo>>, do campones da pequena aldeia e da pequena propriedade. nao por acaso Antonio Oliveira Salazar, o dirigente principal do Estado Novo, ja em 1916, quando apresentou provas para professor da universidade de coimbra, criticou o latifundio alentejano do <<dono ausente>> ao mesmo tempo em que enaltecia a pequena propriedade <<fecundada pelo capital e o trabalho>> (9). O futuro portugues deveria ser, assim, necessariamente agrario, nunca urbano ou industrial. Mas de um tipo especifico de agrarismo. Desta forma, a tarefa dos portugueses era conservar, seja no <<alem-mar>> seja no proprio territorio, o seu mundo pequeno, catolico e campones. A vocacao portuguesa para a modernidade deveria ser entao, construida a partir de valores predominantemente <<endogenos>>. E, portanto, procurada em sua propria historia.

O Antigo Regime, realizador desta <<vocacao>>, tornava-se o horizonte utopico do Estado Novo. Ser moderno era voltar no tempo. Parte expressiva do pensamento autoritario portugues, portanto, tinha um carater conservador e nostalgico. Defendia o primado do coletivo e se opunha radicalmente ao individualismo liberal herdeiro do Iluminismo e da Revolucao Francesa. Marcello caetano, entao jovem estudante de direito, proferiu em 1928 uma conferencia na Sociedade Sao Vicente de Paulo, da qual era confrade. Na ocasiao apontou a permanencia das mazelas do seculo XIX como responsaveis pela desordem do mundo nas primeiras decadas do seculo XX (10). O mesmo Caetano que quatro decadas depois, na condicao de sucessor de Salazar, viria a se transformar na esperanca de alteracao do regime em uma eventual transicao <<pelo alto>>. O exemplo de caetano e, portanto, importante para evidenciar que em diversos casos <<tradicionais>> e <<modernos>> se confundiam.

Como dissemos a ditadura corporativa sob a lideranca de Salazar foi uma alternativa a uma Republica em permanente desgaste. As sucessivas crises do republicanismo punham em questao a sua capacidade de se impor como um projeto politico de maior vulto e durabilidade. Neste quadro, diversos opositores se articularam a fim de enfrentar o sistema liberal representativo e apresentar a sociedade portuguesa uma nova alternativa. Na maioria dos casos, a oposicao se realizava sob um perfil marcadamente autoritario, embora nao houvesse unidade quanto a alguns pontos importantes, como por exemplo, a natureza do novo regime a ser constituido. O primeiro coroamento de tal processo se deu atraves do golpe liderado por Sidonio Pais, em 1917. Segundo Ernesto castro leal, o que se convencionou chamar de sidonismo inaugurou um modelo de representacao corporativa que viria a ser, depois, seguido pelos diversos opositores do sistema democratico (11). Para frustracao e mesmo desespero de seus seguidores, Sidonio Pais morreria assassinado em novembro de 1918 na Estacao dos comboios do Rossio por um membro da Maconaria. Sua breve passagem pela presidencia da Republica, porem, permitiu a criacao de referencias que, em larga medida, serviram como balizadores da militancia antiliberal na decada seguinte.

Uma caracteristica marcante deste movimento de oposicao ao liberalismo foi, exatamente, a tentativa de manter viva a memoria do ditador assassinado. O sidonismo serviu assim, como um nucleo de referencia para a oposicao. Os projetos de construcao de partidos politicos antiliberais demonstravam, apesar de sua fragil representatividade, a articulacao permanente dos grupos opositores do sistema parlamentar (12).

As escolas militares foram, assim, uma referencia determinante para o crescimento de um outro tipo de pensamento autoritario em Portugal. De feicao cesarista, fortemente marcada pelo positivismo, preconizava a intervencao do Exercito como remedio para o saneamento da nacao. Ao mesmo tempo destacava-se na defesa de um projeto modernizador, ancorado na formacao de escolas tecnicas e no incentivo a industrializacao. A presenca militar nos partidos oposicionistas durante a I Republica e ilustrativa de sua importancia. No dizer de Jose Medeiros Ferreira, o que unificava as forcas armadas portuguesas nos anos finais da I Republica era a defesa de uma <<Republica conduzida por militares>> (13). Nao por acaso, apos ver consolidado o golpe militar de 28 de maio, o general costa Gomes afirmou profeticamente que o regime que tinha se iniciado por intermedio das Forcas Amadas, apenas atraves das Forcas Armadas poderia ser encerrado. Fica evidente na intervencao antiliberal dos militares um profundo distanciamento de qualquer tipo de projeto saudosista ou de reconstituicao monarquica.

Mas os militares seduziram tambem civis. Quando do golpe de Sidonio Pais, o jornalista Antonio Ferro, futuro dirigente da politica de propaganda do Estado Novo, assim se referiu ao episodio:
      Naquele dia acordei sobressaltado com o diluvio de luz ...
   Portugal desabrochara ... A manha rompia, metalica, estridente ...
   Os canhoes trovejavam ... Dir-se-ia que havia um Deus na terra, a
   comandar uma tempestade ... Assomei a janela ... [...] Quem fazia a
   revolucao, quem a dirigia? E um detalhe que nao contava. A
   revolucao era de todos, era a patria, numa legitima defesa,
   defendendo-se de quem a assaltava ... [...] Finalmente, na manha do
   dia oito, Portugal respirou, sentiu-se liberto do Dragao, a
   escabujar no solo, com cabecas dispersas, umas atiradas para os
   vasos de guerra em exposicao no Tejo, outras perdidas pelos
   carceres. O sol ressuscitou de vez ... [...] O nome de Sidonio Pais
   era um murmurio a crescer ... [...] A desaguar na Rotunda,
   altar-mor da Patria, com o Santo libertador de maos em cruz na
   espada, a romaria da Patria detevese, rojou-se, aclamou Sidonio
   Pais, sagrou-o Presidente ... (14).


Percebe-se nesta passagem a carga emotiva e mitica que dava a queda do liberalismo e a ascensao de Pais ao poder. Hegel, pouco mais de um seculo antes, havia assistido a razao passando a cavalo. Ferro, desta feita, se entusiasmou com a emotiva ideia de uma regeneracao que igualmente vinha montada.

Mais importante ainda que as tentativas de organizacao de espacos politicos, era a propria evolucao do pensamento conservador portugues durante a decada de 1920. Neste campo, balizados pelo sidonismo, varias outras correntes autoritarias se apresentaram como alternativa politica a crise portuguesa. Do fascismo ao nacionalismo conservador catolico, tendeu a prevalecer, entre as correntes autoritarias em Portugal, a ideia de uma saida <<tipicamente portuguesa>>. Desta forma, apesar da simpatia aos diversos modelos corporativos como o fascismo, surgidos na Europa em consequencia da falencia liberal, eles foram entendidos como importantes referencias, mas nao como exemplos a serem copiados. Esta era uma caracteristica de todos os modelos de nacionalismo antiliberal que surgiram na Europa entre a decada de 1920 e 1930. Movimentos que, apesar de semelhantes procuravam, a todo instante afirmar sua peculiaridade. Como disse Paxton a respeito do fascismo: <<Cada movimento nacional fascista da expressao plena ao seu proprio particularismo cultural>> (15). O mesmo pode-se dizer dos demais nacionalismos nao fascistas.

A partir de 1922, Portugal assistiu a uma <<descoberta>> do fascismo italiano. Rolao Preto, o mais destacado lider fascista portugues era, entretanto, profundamente pessimista quanto a possibilidade de se organizar um movimento identico aquele liderado por Benito Mussolini. Mas, desde a <<Marcha sobre Roma>>, em 1922, que a direita portuguesa teve seus olhos voltados com entusiasmo e otimismo para o fascismo italiano. Rolao Preto, enaltecendo o carater legitimamente subversivo e fora da lei daquele movimento, encantava-se com seu perfil de ruptura frente a ordem burguesa. Um perfil necessariamente revolucionario (16).

Mas nao era apenas aos declaradamente fascistas que o movimento liderado por Mussolini encantava. O ja citado Antonio Ferro, em suas famosas viagens a entrevistar lideres autoritarios durante os anos 20, tambem se sentiu fortemente atraido pela <<obra>> mussoliniana. Em 1923, ano II da <<era Mussolini>>, Ferro entrevistou pela primeira vez o Duce. Alem desta, houve outras duas entrevistas, respectivamente em 1926 e em 1934. Para Ferro, Mussolini apresentava projetos definidos: <<expressao original italiana, restituicao das tradicoes perdidas, governo de ditadura, hierarquia, esvaziamento do parlamento, corporativismo, latinidade>>. Em todas as entrevistas, a intencao de Ferro era apontar para necessidade de um lider com as mesmas caracteristicas que as de Mussolini: chefe severo, laconico e autoritario, com perfil dominador e firme (17). Entretanto, estava convicto de que faltavam caracteristicas condizentes com a alma portuguesa. Benito Mussolini, apesar de incontestaveis qualidades, era por demais falante, de expressoes exageradas. Alem disso, o carater de mobilizacao dos <<de baixo>> apregoado pelo fascismo causava estranheza. A alma portuguesa se encarnaria, enfim, em Salazar. Em longa entrevista com o ditador portugues, publicada como propaganda do regime, afirmou:
      Aqui nao ha uma Ditadura, uma situacao: ha um ditador de si
   proprio, o grande chefe moral de uma nacao! E agora que ja o
   ouvimos, vamos cada qual para a nossa vida ... nao facamos
   barulho ... Deixemo-lo trabalhar (18).


Tres caracteristicas eram consideradas determinantes, tanto para Antonio Ferro como para Rolao Preto, no sentido da consolidacao de uma lideranca capaz de superar a crise portuguesa. A primeira delas era o fascinio pela autoridade do chefe de Estado, que, tanto se manifestava no resgate da figura de d. Miguel como em Mussolini. Restava aqui, a necessidade de se encontrar um <<verdadeiro>> lider nacionalista para Portugal. O declinio da Republica liberal possibilitou a lenta e progressiva ascensao de Oliveira Salazar ao poder, o dirigente tipicamente portugues (19).

A segunda, era a busca da tradicao e do passado legitimador. neste caso, o elemento que dava coesao e justificava a acao politica, era uma historia particular, necessariamente antagonica ao Iluminismo e todos os valores <<universalistas>>. Durante toda a construcao da ideologia salazarista, buscar-se-a a o resgate da <<verdadeira>> historia de Portugal.

A terceira, era a defesa da violencia, desde que para fins <<positivos>>. A subversao da ordem liberal seria, nesta concepcao, a ultima das violencias. A partir dai, o tempo dos conflitos e da luta de classes terminaria em favor do <<interesse nacional>>, momento ultimo, que terminaria com os conflitos e interesses particularistas. No caso portugues esta via se deu nao atraves da criacao de milicias e brigadas como nos exemplos fascistas, mas atraves do Estado. Primeiro por intermedio das Forcas Armadas, responsaveis pelo derrube da <<republica anarquica>>. Depois pela via do aparelho repressivo na acao vigilante de sua policia politica (20). E, por fim, no apoio que o regime buscou nas elites tradicionais do <<Portugal profundo>>, sobretudo aquelas ligadas a Igreja catolica e aos notaveis locais (21).

Assim, a mais importante contribuicao no sentido de uma institucionalizacao do novo regime veio do conservadorismo catolico. Se a oposicao da Igreja ao liberalismo era forte, dada a profunda laicizacao da Republica, a formacao de um pensamento catolico deve-se ao surgimento e propagacao de um pensamento social organizado a partir da propria hierarquia eclesiastica. No final do seculo xix a Enciclica Rerum Novarum, pertencente ao papado de leao XIII, surgia como a primeira intervencao catolica nas questoes de ordem social e do trabalho. O conhecido documento propunha um modelo de organizacao que se apresentava como uma alternativa tanto a tradicao liberal, quanto a tradicao socialista. Ambas, propagadoras do conflito. Uma, a defender os interesses particulares da classe proprietaria. Outra a defender os interesses do proletariado. As duas perigosa e rigorosamente <<racionalistas>>. O caminho a ser adotado seria o do resgate dos valores medievais. Da organizacao por oficios, em carater familiar. De protecao e de autoridade ao mesmo tempo. O <<ponto final>> desta ordem seria o Estado, dotado de poderes para intervir em nome do <<bem comum>>.

A enciclica Rerum Novarum teve portanto, por razoes evidentes, uma forte repercussao em Portugal. Sua influencia ultrapassou a data de sua publicacao, permanecendo como forte referencia para o pensamento catolico ao longo das primeiras decadas do seculo xx. E forcoso lembrar que, ate 1910, Portugal era ainda monarquia com fortes ligacoes com o Vaticano. Monarquia que, por exemplo, durante boa parte do seculo xix, mantinha o sistema eleitoral ancorado na figura do chefe de familia, e cuja documentacao comprobatoria para o direito do voto era a certidao de casamento (22). Assim, razoes nao faltavam para que, durante as decadas de 1910 e 1920, a Igreja catolica em Portugal se batesse contra dois <<inimigos>>, o liberalismo e a Republica, embora a ultima com menor enfase, devido a presenca de conservadores catolicos favoraveis ao sistema republicano.

Aos valores <<universalistas>> do liberalismo, o pensamento catolico portugues produziu, a seu modo, um <<nacionalismo catolico>> reagente tanto ao internacionalismo imperialista quanto ao internacionalismo proletario. Porem, conforme aponta Manuel Braga da cruz, os catolicos portugueses nao tiveram grande representatividade do ponto de vista organizativo, limitando-se ao <<ambito eminentemente doutrinal>> (23). Em se tratando de um movimento de elites politicas que visavam alternativas, sobretudo a partir de cima, a mobilizacao social era, e bem possivel, o lado menos importante da questao. Mais importante talvez tenha sido a consolidacao de um corpo doutrinal que se definia como opositor do liberalismo. Em consequencia de seu carater elitista, uma das principais bases de sustentacao do catolicismo portugues foi o meio academico, em particular no ensino universitario. Sem duvida, universidades como as de coimbra e do Porto constituiram-se em centros divulgadores do pensamento catolico, com revistas, jornais e tambem uma forte intervencao politica.

Ponto de convergencia entre varios segmentos de oposicao a Republica, a cruzada nacional D. Nuno Alvares Pereira, fundada em 1918, exatamente o ano do termino da Guerra e do assassinato de Sidonio Pais, merece mencao particular. Organizacao civico-religiosa, sua historia se insere tanto na historia politica como na historia das religioes. Nuno Alvares Pereira, beatificado em 1918, foi a grande referencia mitica na construcao da nacionalidade portuguesa. A escolha de seu nome como patrono da cruzada nao foi casual. A mesma, tornou-se por um lado, uma especie de <<liga patriotica de elites>>. Por outro, obteve desde o seu nascedouro a funcao simbolica de, difundindo o papel etico-militar de nuno Alvares Pereira, ritualizar a relacao de seus membros para com o Estado. Os diversos simbolos do catolicismo reverenciados pela cruzada, assim como seu arcabouco doutrinal, serviram como fontes inspiradoras do Estado Novo portugues. Referencias, assim, dotadas de matriz evidentemente religiosa e de um carater profundamente nostalgico (24).

Alem das universidades e da cruzada, vale destacar as intervencoes catolicas no movimento operario, atraves, das apos (Associacoes Protectoras dos Operarios) e dos ccos (circulos catolicos de Operarios). Entretanto, estas duas entidades demonstram <<tensoes>> importantes no movimento social catolico. As primeiras nunca ultrapassaram o universo do mutualismo e do assistencialismo (25). Os circulos catolicos, ao contrario, alem de terem conseguido uma implantacao nacional maior que as apos, constituiam-se em um movimento de catolicos operarios e nao para catolicos operarios. Evidencia-se aqui o embriao de um importante veio do sindicalismo portugues, que foi o sindicalismo catolico (26). A fragilidade das organizacoes catolicas, principalmente as voltadas ao mundo do trabalho, esta diretamente ligada a ojeriza do regime a sistemas de mobilizacao social. A criacao dos Sindicatos Nacionais pelo Estado Novo, em 1933, encerrou as pretensoes dos catolicos em organizarem seus proprios sindicatos (27). Alias, nao apenas seus proprios sindicatos como tambem seus partidos. Ciente de que a base de sustentacao do Estado Novo nao era exclusividade dos catolicos, Salazar tratou imediatamente de fechar o partido do centro catolico, do qual fazia parte e impor a uniao nacional, o partido unico do regime. Nas palavras de Salazar, tratava-se de um <<nao partido>> (28).

O processo de transicao de uma ditadura militar para uma ditadura civil e corporativa foi consequencia de disputas internas que resultaram no afastamento de alguns setores envolvidos com o golpe de 28 de maio e na aproximacao de novos personagens. Ao mesmo tempo o governo se via impelido a construir um aparato estatal que, ainda que influenciado pelas referencias politicas e ideologicas citadas acima, apresentou tambem novos agentes que conferiram ao Estado Novo um perfil em parte diferente do imaginado pelos responsaveis pelo derrube da Primeira Republica. E fato que parte significativa das elites que protagonizaram a oposicao a republica liberal tiveram um papel secundario na formatacao do regime instaurado em 1926. Em outras palavras: os setores mais radicais e proto-fascistas, largamente protagonistas do golpe militar, foram aos poucos sendo secundarizados na medida em que, sob a hegemonia salazarista, se institucionalizava o regime autoritario (29). Procurarei apresentar um breve balanco dos componentes ideologicos do Estado Novo em comparacao com os debates (ainda acalorados na historiografia portuguesa) a respeito de sua similitude/diferenca em relacao ao fascismo.

Diversos estudos a respeito das experiencias fascista e autoritaria na Europa do pos-guerra salientam, com razao, o aspecto nao mobilizador da ditadura de Salazar. De fato, como dissemos, o Estado Novo, mesmo na decada de 1930, foi um regime profundamente conservador, confiando muito mais em instrumentos/instituicoes de enquadramento tradicionais, como a Igreja catolica e as elites politicas locais e provincianas do que em organizacoes de massa. Nao deixou, porem, de garantir seus interesses no campo de relacoes com a sociedade, criando um aparato cultural e de socializacao em parte inspirado no fascismo.

Ainda que, nos campos politico e institucional, o corporativismo portugues permanecesse incompleto, ele nao deixou de ser eficiente no modelo cultural organizado pelo Estado Novo. Uma orientacao eminentemente organica dominou a visao que o regime procurou projetar ao seu respeito e a respeito do proprio pais. No campo da propaganda foi posta em pratica uma estranha unidade entre a direita radical integralista e o catolicismo tradicional e conservador.

O Secretariado de Propaganda Nacional (spn) foi criado em 1933 e dirigido pelo jornalista Antonio Ferro. Ferro, do ponto de vista dos valores etico-culturais, nada tinha a ver com Salazar. Tratava-se de um personagem cosmopolita ligado a correntes futuristas e modernistas e admirador do fascismo desde a decada de 1920 (30). A maquina criada por Ferro ultrapassou enormemente as necessidades de gestao da imagem de Salazar. Apesar de pouco ou nada ter a ver com o perfil provinciano do ditador, Antonio Ferro ofereceu ao regime um projeto cultural que unificou recursos esteticos modernos e uma verdadeira <<reinvencao da tradicao>>. Recursos modernos no metodo e tradicionalismo no conteudo. O Secretariado de Propaganda nacional em muito se assemelhava aos organismos de propaganda dos regimes fascistas. Mas a propaganda politica do regime valorizava sobretudo a tradicao portuguesa. Dai conhecidas campanhas como, por exemplo, a da aldeia mais portuguesa de Portugal e a Exposicao do Mundo Portugues (31).

O spn coordenou e alimentou a imprensa do regime, dirigiu os servicos de censura, organizou as encenacoes de massas que eram transportadas para a capital e alimentou as festividades viradas para as classes populares em estreita associacao com o aparelho corporativo. Alem disso, coordenou uma serie de outras atividades destinadas as elites e ampliou significativamente as relacoes culturais com outros paises. Para a execucao de tamanha tarefa, Ferro recrutou intelectuais e artistas, que, sem esta mediacao moderna jamais seriam atraidos pelo conservador e sisudo chefe de Governo. Muitos destes intelectuais haviam participado de grupos fascistas que se opuseram a Salazar no inicio da decada de 1930. Esta foi, pois, uma estrategia de Salazar: a cooptacao de antigos militantes do fascismo portugues. como antes afirmei, o mais importante e destacado deles foi, seguramente, Marcello caetano, ultimo chefe do Executivo portugues antes da Revolucao dos cravos e ativista do Integralismo lusitano quando de sua juventude.

No entanto, longe da modernizacao tipica do fascismo classico, projeto cultural do salazarismo procurou uma <<restauracao sistematica dos valores da tradicao>>. consequentemente maior atencao foi dada a temas de carater etnografico e folclorico que passou por uma verdadeira revitalizacao. Tratava-se daquilo que Eric Hobsbawm e Terence Ranger chamaram de Invencao das Tradicoes (32). Alem do ja citado concurso A aldeia mais portuguesa de Portugal e a propria Exposicao do Mundo Portugues procuraram reproduzir formas tradicionais e habitos da populacao nao so na metropole como tambem em todo o <<Imperio>>. Outro aspecto importante foi a promocao do cinema que, com clara vocacao popular, valorizava os <<sadios valores da honestidade crista e da familia pobre, mas honrada>>.

Tres anos apos a institucionalizacao do Estado Novo duas organizacoes foram criadas sob inspiracao do fascismo. A primeira foi uma organizacao oficial de juventude, de carater paramilitar: a Mocidade Portuguesa (MP). Ja em 1933, com o intuito de combater o Nacional-Sindicalismo (NS), o spn havia criado a Accao Escolar de Vanguarda (AEV), primeira organizacao <<proto-fascista>> de juventude constituida de iniciativa governamental. A AEV tinha, entretanto, um carater de adesao voluntario (33). Na medida em que o Nacional-Sindicalismo se dissolveu o governo abandonou esta primeira iniciativa e criou a MP. Esta, ao contrario da primeira organizacao, tinha um carater obrigatorio e esteve permanentemente na dependencia do Ministerio da Educacao. Voltada para o universo urbano a fim de combater <<os vicios dissolventes>> que corrompiam a juventude estudantil, a MP nunca chegou a ter a dinamica de seus congeneres fascistas e foi, desde logo enquadrada pela Igreja, que manifestou alguma preocupacao por esta iniciativa oficial (34).

A segunda teve outros objetivos e a autorizacao para a sua criacao representou uma coreografia tipicamente fascista em plena circunstancia da guerra civil de Espanha. A legiao Portuguesa (LP) foi criada em 1936 como uma organizacao anticomunista, com funcoes paramilitares e de informacao policial, tendo mesmo enviado voluntarios para lutarem ao lado das tropas de Franco. Nela se agrupou, sob absoluto controle estatal, parte da minoria fascista sobrevivente do NS, devidamente enquadrada por oficiais do Exercito. Qualquer tentativa de ver nesta organizacao alguma opcao do Estado Novo pelo modelo fascista e fora de proposito e carece de fundamentacao empirica. Entretanto sua criacao refletiu a capacidade que tinha o regime de, em virtude do <<perigo vermelho>> que se anunciava no pais ao lado, recrutar antigos expoentes do radicalismo de direita (35). Mas a LP tinha um carater provisorio e tendeu a esvaziar-se a seguir a vitoria de Franco. Nunca teve autonomia plena e dependeu sempre do regime conservador. Como disse certa vez Salazar, seu objetivo era <<fazer viver Portugal habitualmente>> (36). Esta frase demonstra com clareza a intencao tradicionalista do ditador, apesar da vocacao moderna de alguns de seus imediatos.

2. A DIREITA RADICAL PORTUGUESA FRENTE AO MARCELISMO

Quando Marcello caetano assumiu o cargo de presidente do conselho de Ministros, o pais vivia ja sete anos de guerra colonial. Durante os anos de 1961 a 1968 diversos paises, mas sobretudo os Estados unidos envidaram esforcos no sentido buscar uma alternativa negociada para a crise ultramarina. A despeito das inumeras embaixadas, Salazar foi sempre firme na negativa de qualquer alternativa que nao fosse a vitoria militar dos portugueses. De acordo com seu argumento, que manteve ate ser afastado por invalidez da presidencia do conselho, os territorios ultramarinos eram inquestionavelmente portugueses e, assim, qualquer ingerencia significaria intervencao direta em Portugal (37). Na mesma conjuntura de guerra colonial, e em parte acodado por ela, o movimento estudantil crescia e se radicalizava. Para alem das questoes academicas, proprias dos estudantes universitarios, a tematica da autodeterminacao dos povos e da autonomia colonial ganhava cores nitidas, transformando-se em uma das bandeiras mais caras dos estudantes de esquerda portugueses. Duas grandes grandes questoes, pois, mobilizavam tanto a direita quanto a esquerda universitaria: o movimento estudantil e o colonialismo. Para ambos os casos, Marcello caetano, sucessor de Salazar, nao era bem visto pelo campo de extrema direita. Nao por acaso, e provocativamente, o jornal de direita Agora publicou, em outubro de 1968, um mes depois de consumada a sucessao, em sua primeira pagina uma foto com Oliveira Salazar e Marcello caetano e o titulo <<continuidade>>. No corpo do texto a reproducao de um discurso de caetano em congresso da uniao Nacional onde este afirmava nao haver problema em eventual substituicao de Salazar do cargo de presidente do conselho:
      Nao constitui problema a continuidade do Estado Novo para alem
   de Salazar, justamente porque existe a sua doutrina e a sua obra,
   doutrina e obra que lancam as bases solidas de um sistema e que
   educaram ja toda uma geracao (38).


Mais que confianca na citacao, a direita portuguesa tinha, sim, serias duvidas quanto a uma real continuidade com caetano. E bom lembrar que exatamente por causa da crise academica de 1962, o entao reitor da universidade de lisboa, Marcello caetano havia se demitido do cargo em protesto contra a intervencao policial (39). Quanto ao problema colonial entao, a situacao para a direita radical era pior ainda. Desde a decada de 1930 que Marcello caetano defendia abertamente uma autonomia processual das colonias portuguesas (40). Assumindo o governo, caetano representava, pois, uma evidente ameaca a um sistema que, nem ou mal, se mantivera com Salazar. E verdade que a primeira extrema direita aqui analisada rompeu com o regime do Estado Novo. Mas frente a necessidade de defender, tres decadas depois, as colonias ultramarinas, a direita cerrou fileiras em torno daquele presidente do conselho que pronunciou o <<para Angola, rapidamente e em forca>> e o <<orgulhosamente sos>>. E tambem verdade que se trata de uma outra geracao, mais jovem e que, portanto, nao viveu os embates doutrinarios dos anos 1930. De qualquer forma, e digno de nota lembrar que parte de uma direita veterana, contemporanea dos primeiros anos de Estado Novo, frente as circunstancias, aproximou-se do velho ditador. A circunstancias obrigaram-na a encontrar no antigo adversario o aliado possivel.

Foi, pois, durante os cinco anos e sete meses de governo de Marcello caetano que a extrema direita portuguesa se pronunciou de forma mais ativa apos seu ocaso na decada de 1930. E bem verdade que quando Marcello caetano pronunciou o famoso discurso de coimbra no qual descartava a alternativa monarquica, houve protestos. Mas e verdade tambem que nem toda a extrema direita era monarquista, de modo que a questao permaneceu mais isolada que de costume (41).

A decada de 1960, com a guerra colonial e a transferencia do poder das maos de Oliveira Salazar para Marcello caetano trouxeram a extrema-direita novamente a proa da politica portuguesa. A primeira, e talvez mais importante expressao oposicionista a direita ao novo governo foi a revista Politica. Seu projeto estava consubstanciado nao apenas na oposicao a Marcello caetano mas tambem aos segmentos liberais do regime, sobretudo aqueles inclinados em rever o <<patrimonio nacional portugues>>, ou seja, a politica ultramarina. Trata-se, em sua maioria, de um grupo de jovens recem-formados e com a preocupacao de enfrentar, no campo do debate intelectual, a progressiva hegemonia das esquerdas. Ainda que formalmente oposicionista, a revista Politica contava com o financiamento de organismos publicos e privados que davam sustentacao ao regime e mesmo agencias pertencentes ao organograma institucional do regime. Este e o caso, por exemplo, das 134 assinaturas do jornal feitas pela pide/dgs, a policia politica do regime (42). Assim, a despeito do carater oposicionista, a revista Politica publicou seu primeiro numero em novembro de 1969, com apoio governamental (43).

Uma das caracteristicas interessantes de Politica e que ela nao era um periodico de uma unica corrente, mas congregava nacionalistas revolucionarios, monarquicos, republicanos, catolicos e mesmo alguns poucos salazaristas. Tratava-se, pois, de uma frente a unificar setores que se viam isolados diante dos ventos aparentemente de <<renovacao>> da <<Primavera Marcelista>> (44). Poder-se-ia dizer que a geracao de direita dos anos sessenta era menos consistente que a que lhe precedeu. Digo isso pois enquanto a primeira primava por questoes conceituais referentes a natureza do Estado, a segunda optava por uma acao defensiva, do ultramar, em decorrencia das pressoes internas e externas. Assim, para alem de toda e qualquer intransigencia frente ao liberalismo e a democracia, a guerra colonial deve ser vista como um verdadeiro divisor de aguas e elemento de mobilizacao desta nova direita. O ponto determinante das publicacoes e pronunciamentos dos <<revolucionarios da contrarrevolucao>>, como diria Eric Hobsbawm (45), foi a defesa dos territorios ultramarinos. Territorios que, assim como entendia Salazar, entendia a direita radical como sendo parte integrante do proprio territorio portugues.
     Nao lutamos especialmente para defender as populacoes de um
   determinado territorio, em determinado tempo, nem para lhe dar mais
   e melhores alimentos, remedios, instalacoes, possibilidades e
   riquezas economicas e espirituais; se outrem lhe pudesse dar mais,
   nos nao cederiamos. Nao lutamos especialmente porque os terroristas
   torturam, matam e pilham; se eles fossem bonzinhos, nos nao
   cederiamos. Nao lutamos especialmente porque as populacoes nativas
   estao impreparadas para o governo autonomo, para quadros de
   administracao e de cultura; se estivessem preparadas nos nao
   cederiamos. [...]. Mas aquilo porque lutamos especialmente e porque
   o Ultramar e o nosso destino, fatal, a nossa vocacao inata, o
   mandado de Deus exprimindo-se no nosso querer (46).


Assim, nao se trata de uma eventual <<mudanca na continuidade>>, como pretendiam alguns quadros do regime, mas uma permanencia inquestionavel e absoluta. Este posicionamento claro e decisivo ficou evidente nas eleicoes de 1969 e na opiniao expressa por Politica com relacao a Ala Liberal. Formada por um grupo de politicos que imaginavam, por dentro do regime, implantar um processo de reformas de carater democratico, atuou de forma independente defendendo bandeiras como a liberdade de imprensa, os Direitos Humanos e uma saida negociada para o ultramar. Dentre seus mais destacados membros podemos citar Francisco Pinto Balsemao e Francisco Sa Carneiro (47). Para descontentamento da direita radical, ao mesmo tempo que Marcello Caetano incluia nas listas para as eleicoes de 1969 estas destacadas referencias liberais, excluia os nacionalistas <<autenticos>>. Para os signatarios de Politica, o periodo eleitoral caracterizou-se pela falta de um monolitismo doutrinario no partido oficial, cujo discurso muitas vezes aproximava-se mais da oposicao democratica que propriamente do Estado Novo (48). E foi exatamente esta ausencia de <<espirito nacionalista>> nas fileiras da Uniao Nacional que provocou, nas palavras de um dos diretores de Politica, uma forte abstencao entre muitos nacionalistas (49). Enquanto os membros de Politica atacavam Marcello Caetano com alguma brandura, talvez devido a alguma esperanca na formula <<evolucao na continuidade>>, os membros da Ala Liberal eram combatidos sem treguas. Para eles, a tecnocracia aparentemente imparcial, despolitizada e meramente administrativa era inconcebivel. O Estado, para eles, era necessariamente carregado de um sentido etico, moral e valorativo (50). Assim, era-lhes mais confortavel quanto mais a Ala Liberal tornasse clara e evidente sua posicao de abandono do Ultramar e de democratizacao do Estado Novo. Para eles uma ruptura definitiva dos liberais acarretaria um reforco da unidade nacionalista (51). No que tange ao Ultramar ficava evidente a oposicao da direita radical. Quanto a questao democratica, vale uma breve observacao. Para eles, interessados na divulgacao de seus projetos e valores, a liberdade de imprensa, bandeira da Ala liberal, era vista como um direito fundamental, ainda que sujeito ao interesse da nacao (52). A questao que se punha, pois, era que eles, os nacionalistas, consideravam-se defensores dos verdadeiros interesses da nacao, enquanto que os liberais eram porta-vozes de valores exogenos. Portanto, a liberdade de imprensa era determinante e sagrada para eles, enquanto que perniciosa quando nas maos dos liberais.

E verdade que muito rapidamente o governo Marcello caetano revelou-se descomprometido com qualquer mudanca de fundo. Principalmente no que dizia respeito a redemocratizacao e ao ultramar. No entanto, e verdade tambem que uma certa oposicao civil de feicao liberal articulava-se com relativa margem de autonomia. E assim, para desespero dos nacionalistas radicais, em 1972 era criada uma entidade civil chamada sedes (Sociedade para o Desenvolvimento Economico e Social). Esta organizacao, sem fins lucrativos e da qual participava tambem o filho de Marcello caetano, o economista Miguel caetano, vinha do reformismo catolico e, para surpresa do governo, cresceu em proporcoes inesperadas. Apos cerca de um ano e meio de atividades a sedes publicou um documento intitulado <<Diagnostico--Projecto da Sociedade Portuguesa>>. No mesmo dia em que Americo Tomas era ao cargo presidente da Republica, por ele ocupado desde desde 1958, a sedes organizou um coloquio cujo tema era <<Portugal e a Europa>>. Por fim, em agosto, esta entidade lancou um manifesto que se chamava <<Portugal: o Pais que Somos, o Pais que Queremos Ser>>. Tratava-se de uma sociedade civil com capacidade ampla de mobilizacao, incluindo setores do governo, do empresariado, das elites civis e mesmo de parte da juventude estudantil nao influenciada por ideias mais a esquerda. Dela participou tambem Sa Carneiro, a esta altura ja rompido com Marcello caetano. Para a direita radical o programa expresso pela sedes evidenciava seu descompromisso para com o <<patrimonio nacional>>. Repudiavam o abandono das tradicoes autoritarias do Estado portugues em favor de um projeto <<liberal-socialista e tecno-plutocrata, democratico e no materialismo da sociedade de consumo e bem estar>> (53). Aqui, no combate aos liberais em pleno processo de crise do regime, os membros de Politica tornam-se radicais em sua oposicao a todo o projeto da Ala Liberal. Tornam-se, inclusive, mais claros com relacao a questao democratica:
      Nao aceitamos as democratizacoes em nada. Nao aceitamos o mito
   do progresso continuo. Nao aceitamos liberalizacoes. Fujamos as
   tentacoes e aos caminhos escorregadios abertos pelo deslumbramento
   do <<pluralismo>>. Nao facamos desvairadas corridas a autonomias.
   Procederemos com firmeza e consciencia, cultivando as minorias
   valiosas e sabendo ver onde elas estao. Sem medo ao extremismo,
   porque existe um extremismo indispensavel: o do bem, da justica que
   nao tem acomodacoes nem meias tintas nem hibridismo (54).


A firmeza de valores conservadores ficava clara. Politica nao admitia qualquer concessao. Em certa medida retomava o discurso salazarista e afastava-se do ethos modernista dos fascismos, na medida que rejeitavam o <<progresso continuo>>. E, fato e, que na mesma proporcao em que Marcello caetano era visto sob o prisma oposicionista, Oliveira Salazar era crescentemente alcado a condicao de referencia, mais como estadista que propriamente como homem de ideias (55). O estadista esta na recusa a qualquer forma de seducao pelas ideologias <<exogenas>>, pela coragem no <<orgulhosamente sos>> e, claro, em fazer a guerra colonial. O Salazar da direita radical era, entao <<o Salazar de Abril de 61, o Salazar da Resistencia, o Salazar imperturbavel perante a imensidade dos obstaculos e dos trabalhos. E esse orgulho em ser Portugues, em pertencer aos unicos que desafiaram e venceram a ofensiva dos <<Ventos da Historia>> (56). Salazar era, portanto, resgatado como uma grande referencia antimarcelista, sobretudo daqueles que o louvaram em vida mas trataram de o esquecer na morte (57). Coerentes com este primado, parte da extrema direita portuguesa entendia que a manutencao do sistema colonial entendida como preservacao da integridade territorial portuguesa passava pela transferencia da capital de Lisboa para Luanda, o que evidenciaria o carater de uma <<nacao verdadeiramente plurirracial e pluricontinenta (58).

CONCLUSAO

A extrema direita portuguesa viveu fazes distintas ao londo de toda a sua trajetoria. Estamos a falar primeiro de um periodo em que se vivia o prenuncio da Segunda Guerra Mundial e no qual nao se sabia das reais possibilidades de vitoria do fascismo como projeto politico de longo alcance. Na segunda conjuntura, o fascismo era um projeto derrotado ja a duas decadas, razao de seu carater mais resistente que propriamente propositivo. E certo que a guerra fria justificava a existencia de um campo a direita, o que de certa forma favoreceu a permanencia do regime autoritario portugues. Mas e verdade que contra o comunismo tambem se encontravam as correntes liberais e social-democratas.

Assim, enquanto a ultra direita dos anos 1920 e 1930 tinha um projeto definido positivamente, uma utopia calcada na perspectiva de um <<homem novo>> fascista, o mesmo nao se pode dizer da geracao dos anos 1960 e 1970. E neste sentido que se compreende a oposicao a Salazar na primeira geracao e o apoio na geracao seguinte. O <<primeiro Salazar>> era o ditador ultramontano, conservador e tradicionalista que impediu a radicalizacao revolucionaria que estava por vir. Dai a constituicao do Nacional-Sindicalismo e a permanencia de um grupo organizado, ainda que minoritario, de combate ao ditador. As questoes pela quais se batia esta ultra direita podiam ser resumidas na ideia de Revolucao nacional, garantida no lexico, mas rejeitada na pratica por Salazar e pelo regime do Estado Novo.

A segunda geracao nao encontrava terreno fertil para este encantamento revolucionario. Ao contrario. O fascismo havia sido tao fragorosamente derrotado que o tempo das <<revolucoes nacionais>> havia se perdido. E no horizonte nao se avistava seu retorno. Assim, o perigo para este geracao mais jovem de ultradireitistas era o abandono das ideias de corporativismo, de Nacao e de ordem, tao caras ao regime. Marcello caetano assemelhava-se a um moderno reformista, dai a permissividade com segmentos liberais. A bandeira, portanto, nao era mais a utopia do futuro. Tratava-se, sim, da preservacao do passado. Neste sentido, os discursos que apontavam para a gradual autonomia suavam hereticos. construia-se, portanto, um outro discurso, uma outra memoria a respeito de Salazar. Tornava-se, pois, a ultra-direita portuguesa, mais conservadora e tradicionalista, que propriamente fascista ou revolucionaria (59). Frente ao mal que se avizinhava, o caminho a ser percorrido seria aquele atraves do qual as colonias se manteriam intactas como intacta deveria se manter a ditadura. E esta ultima bandeira, a da valoracao da ditadura, era talvez o grande ponto de intercessao entre uma e outra geracao. Ambas, por fim, derrotadas em definitivo com a transicao democratica de 1974.

Fecha de recepcion: 2 de abril; revision: 3 de junio; aceptacion definitiva: 23 de octubre

FONTES PRIMARIAS

Boletim Portugues da Sociedade S. Vicente de Paulo. AMC, caixa 1, Sociedade de S. Vicente de Paulo, no.. 2.

CAETANO, M.: Minhas memorias de Salazar. 4.a edicao, 1.a reimpressao. Lisboa: Verbo, 2006.

<<Dominar as ondas>>, Politica, no.. 2, 30 de junho de 1972.

<<Editorial>>, Politica, no.. 3, 22 de janeiro de 1970, p. 1.

FERRO, A.: Entrevistas a Salazar. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2007.

<<Sinfonia Heroica>>, O Jornal. Lisboa, ano i, no.. 125, 5-xii-1919, p. 1.

<<Liberdade de imprensa--quem a tem chama-lhe sua>>, Politica, no.. 7, 30 de marco de 1970, pp. 1 e 11.

<<O pais que a sedes quer>>, Politica, no.. 5-6, 31 de agosto de 1972, pp. 10-11.

<<Politica>>, Politica, no.. 1, 22 de novembro de 1969, p. 1-2.

<<Politica Nacional>>, Politica, no.. 3, 22 de janeiro de 1970, p. 3.

<<Que nunca tenhamos de chorar>>, Politica, no.. 14-15, 30 de julho de 1970, p. 2.

SALAZAR, A. O.: A questao cerealifera: o Trigo. Trabalho apresentado a 19 de marco de 1916 para admissao no concurso para assistente da Faculdade de Direito de Coimbra. s/ ed. 1916.

<<Significado das eleicoes>>, Politica, no.. 1, 22 de novembro de 1969, p. 3.

<<Ultramar, a atitude necessaria>>, Politica, no.. 19, 30 de setembro de 1970, p. 3.

Bibliografia

AMARAL, D. F.: O Antigo Regime e a Revolucao: Memorias Politicas (1941-1975). Lisboa: Bertrand, 1996.

BLOTA, c. G. S.: A presenca brasileira nas comemoracoes centenarias de Portugal. Dissertacao de Mestrado apresentada ao Programa de Pos-graduacao em Historia da universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2009.

BONIFACIO, M. F.: Apologia da Historia Politica: estudos sobre o seculo xixportugues. Lisboa: Quetzal Edditores, 1999.

COSTA PINTO, A.: O salazarismo e o fascismo europeu: problemas de interpretacao nas ciencias sociais. Lisboa: Estampa, 1992.

--Os camisas azuis: ideologia, elites e movimentos fascistas em Portugal (1914-1945). Lisboa: Estampa, 1994.

--<<O Estado Novo portugues e a vaga autoritaria dos anos 1930>>. In: MARTINHO, F. C. P. e COSTA PINTO, A. (orgs.): O corporativismo em Portugues: Estado, politica e sociedade no salazarismo e no varguismo. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2007, pp. 17-43.

COSTA PINTO, A. e Ribeiro, N. A.: A Accao Escolar de Vanguarda (1933-1936). Lisboa: Historia Critica, 1980.

CRUZ, M. B.: <<As origens da democracia crista em Portugal e o Salazarismo (II)>>, Analise Social. Revista do Gabinete de Investigacoes Sociais da Universidade de Lisboa, vol. xiv, no.. 55, 1978, pp. 525-531.

-- <<As origens da democracia crista em Portugal e o Salazarismo (i)>>, Analise Social Revista do Gabinete de Investigacoes Sociais da Universidade de Lisboa, vol. xiv, 1978, pp. 265-278.

--Monarquicos e republicanos no Estado Novo. Lisboa: Dom Quixote, 1986.

--O partido e o Estado no Salazarismo. Lisboa: Presenca, 1988.

--O Estado Novo e a Igreja Catolica. Lisboa: Bizancio, 1998.

DESVIGNES, I. S.: Antonio Sardinha (1887-1925): um intelectual do seculo. Lisboa: Imprensa de Ciencias Sociais, 2006.

FERNANDES, T.: Nem ditadura nem revolucao: a Ala Liberal e o Marcelismo (1968-1974). Lisboa: Dom Quixote/Assembleia da Republica, 2006.

FERREIRA, J. M.: O comportamento politico dos militares: forcas armadas e regimes politicos no Portugal do seculo xx. Lisboa: Estampa, 1992.

HESPANHA, A. M.: As vesperas do Leviathan: instituicoes e poder politico em Portugal--sec. XVII. Coimbra: Almedina, 1994.

HOBSBAWM, E. J.: A Era dos Extremos: O breve seculo xx (1914-1991). Sao Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HOBSBAWM, E. J. e RANGER, T. (orgs.): A invencao das tradicoes. Sao Paulo: Paz e Terra, 1984.

KUIN, S.: <<A Mocidade Portuguesa no anos 1930: anteprojectos e instauracao de uma organizacao paramilitar da juventude>>, Analise Social. Revista do Gabinete de Investigacao da Universidade de Lisboa, xxviii, no.. 122, 1993, pp. 155-188.

LEAL, E. C.: Antonio Ferro: Espaco Politico e Imaginario Social (1918-1932). Lisboa: Cosmos, 1994.

--Nacao e nacionalismos: a Cruzada Nacional D. Nuno Alvares Pereira e as origens do Estado Novo (1918-1938). Lisboa: Cosmos, 1999.

MARCHI, R.: Imperio, Nacao, Revolucao - as direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo [1959-1974]. Lisboa: Alfragide, 2009.

MARTINHO, F. C. P.: <<O modernismo iberico de Antonio Ferro>>, [Syn]tesis. Cadernos do Centro de Ciencias Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UERJ, vol. II, no.. 2, 1998, pp. 11-17.

--A Bem da Nacao: o sindicalismo portugues entre a tradicao e a modernidade. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2000.

--<<Um tempo historico portugues sob enfoque brasileiro: bases para a compreensao dos antecedentes do Estado Novo>>, Convergencia Lusiada. Brasil e Portugal: 500 Anos de Enlaces e Desenlaces, no.. 17. Rio de Janeiro: Real Gabinete Portugues de Leitura, 2000, pp. 139-150.

--<<Entre o fomento e o condicionamento: a economia portuguesa em tempos de crise (1928-1945)>>. In: Limoncic, F. e MARTINHO, F. C. P.: A Grande Depressao: politica e economia na decada de 1930--Europa, Americas, Africa e Asia. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2009, pp. 293-302.

MEDINA, J.: Salazar em Franca. Lisboa: Atica, 1977.

O, J. R.: Os anos de Ferro: o dispositivo cultural durante a <<Politica do Espirito>>: 1933-1939Lisboa: Estampa, 1999, pp. 65-111.

PATRIARCA, F.: A questao social no Salazarismo, 1930-1947. [2 vols.]. Lisboa: Imprensa Nacionai/Casa da Moeda, 1995.

PAULO, H. J.: <<FERRO, Antonio Joaquim Tavares>>. In: ROSAS, F. e BRITTO, J. M. B. (orgs.): Dicionario de Historia do Estado Novo. Lisboa: Circulo de Leitores, 1996, pp. 355-357.

PAXTON, R.: A anatomia do fascismo. Sao Paulo: Paz e Terra, 2007.

PIMENTEL, I.: <<A policia e a justica nos primeiros anos do salazarismo>>. In: MARTINHO, F. C. P. e COSTA PINTO, A. (orgs.): O corporativismo em portugues. Estado, politica e sociedade no salazarismo e no varguismo. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2007, pp. 305-343.

PINTO, J. N.: Portugal, os anos do fim: a Revolucao que veio de dentro. Lisboa: Economia e Financas, 1976.

REZOLA, M. I.: O sindicalismo catolico no Estado Novo (1931-1948). Lisboa: Estampa, 1999.

RIBEIRO, M. C.: A policia politica no Estado Novo, 1926-1945. Lisboa: Estampa, 1995.

RODRIGUES, L. N.: A Legiao Portuguesa: a milicia do Estado Novo (1936-1944). Lisboa: Estampa, 1996.

ROSAS, F.: <<Salazar e o salazarismo: um caso de longevidade politica>>. In: Rosas, F. e Brito, J. M. B. (orgs.): Salazar e o salazarismo. Lisboa: Dom Quixote, 1989, pp. 13-31.

ROSAS, F. e OLIVEIRA, P. A. (orgs.): A transicao falhada: o marcelismo e o fim do Estado Novo (1968-1974). Lisboa: Editorial Noticias, 2004.

SOARES, M. G.: Marcello Caetano: o homem que perdeu a fe. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009.

TEIXEIRA DA SILVA, Francisco Carlos: Os fascismos. In: REIS FILHO, Daniel Aarao; FERREIRA, Jorge e ZENHA, Celeste: O Seculo XX. Volume 2: O tempo das crises: Revolucoes, fascismos e guerras. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2000, pp. 109-164.

-- <<Introducao>> In: TEIXEIRA DA SILVA, Francisco Carlos; MEDEIROS, Sabrina Evangelista e VIANNA, Alexander Martins: Dicionario critico do pensamento da direita: Ideias, Instituicoes e Personagens. Rio de Janeiro: Mauad/FAPERj, 2000, pp. 11-21.

TORGAL, L. R.: <<Estado Novo e fascismo>>. In: Estados Novos, Estado Novo. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009, pp. 289-367.

Francisco Carlos PALOMANES MARTINHO

Professor Doutor junto ao Departamento de Historia da USP

(1.) BONIFACIO, M. F.: Apologia da Historia Politica: estudos sobre o seculo xix portugues. Hsboa: Quetzal Edditores, 1999.

(2.) A ditadura portuguesa comecou em 1926 atraves de um golpe de Estado protagonizado pelas Forcas Armadas, em particular o Exercito. Oliveira Salazar, professor da Faculdade de Economia da universidade de coimbra assumiu o cargo de Ministro das Financas em 1928, quando de uma grave crise financeira. E foi nesta condicao que liderou o processo de transicao de uma ditadura militar para uma ditadura civil, sendo ele proprio nomeado Presidente do conselho de Ministros (o cargo de ditador e chefe de Governo, ficando a chefia do Estado para o Presidente da Republica) em 5 de julho de 1932. No ano seguinte a transicao estava concluida com a aprovacao da constituicao corporativa do Estado Novo. Sobre as periodicidades do Estado Novo, ver: CRUZ, M. B.: O partido e o Estado no Salazarismo. lisboa: Presenca, 1988; ROSAS, F.: <<Salazar e o salazarismo: um caso de longevidade politica>>. In: ROSAS, F. e BRITO, J. M. B. (orgs.): Salazar e o salazarismo. lisboa: Dom Quixote, 1989, pp. 13-31; TORGAL, L. R.: <<Estado Novo e fascismo>>. In: Estados Novos, Estado Novo. coimbra: Imprensa da universidade de coimbra, 2009, pp. 289-367.

(3.) COSTA PINTO, A.: Os camisas azuis: ideologia, elites e movimentos fascistas em Portugal (1914-1945). lisboa: Editorial Estampa, 1994, pp. 24-36.

(4.) CAETANO, M.: Minhas memorias de Salazar. 4.a edicao, 1.a reimpressao. lisboa: Verbo, 2006.

(5.) COSTA PINTO, A.: Os camisas azuis ibidem; DESVIGNES, I. S.: Antonio Sardinha (1887-1925): um intelectual do seculo. Lisboa: Imprensa de ciencias Sociais, 2006; Marchi, R.: Imperio, Nacao, Revolucao--as direitas radicais portuguesas no fim do Estado Novo [1959-1974]. Alfragide, 2009.

(6.) HESPANHA, A. M.: As vesperas do Leviathan: instituicoes e poder politico em Portugal--sec. XVII. coimbra: Almedina, 1994, capitulo III: <<A constelacao originaria dos poderes>>, pp. 295-438.

(7.) MARTINHO, F. c. P.: <<um tempo historico portugues sob enfoque brasileiro: bases para a compreensao dos antecedentes do Estado Novo>>. In: Convergencia Lusiada. Brasil e Portugal: 500 Anos de Enlaces e Desenlaces, no.. 17. Rio de Janeiro: Real Gabinete Portugues de Leitura, 2000, pp. 139-150.

(8.) Nao por acaso, as comemoracoes do duplo centenario, de 1140 (formacao do Estado Nacional) e 1640 (restauracao frente a Espanha) foram um marco nas cerimonias do Estado Novo portugues. Cf. BLOTA, C. G. S.: A presenca brasileira nas comemoracoes centenarias de Portugal. Dissertacao de Mestrado apresentada ao Programa de Pos-graduacao em Historia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro 2009.

(9.) SALAZAR, A. O.: A questao cerealifera: o Trigo. Trabalho apresentado a 19 de marco de 1916 para admissao no concurso para assistente da Faculdade de Direito de Coimbra. s/ed, 1916, p. 80.

(10.) Boletim Portugues da Sociedade S. Vicente de Paulo. AMC, Caixa 1, Sociedade de S. Vicente de Paulo, no.. 2.

(11.) LEAL, E. c.: Antonio Ferro: Espaco Politico e Imaginario Social (1918-1932). Lisboa: cosmos, 1994, p. 97.

(12.) Ibidem, pp. 97-98.

(13.) FERREIRA, J. M.: O comportamento politico dos militares: forcas armadas e regimes politicos no Portugal do seculo XX.Lisboa: Estampa, 1992.

(14.) FERRO, A.: <<Sinfonia Heroica>>, O Jornal. Lisboa, ano i, no. 125, 5-XII-1919, p. 1.

(15.) PAXTON, R.: A anatomia do fascismo. Sao Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 44.

(16.) COSTA PINTO, A.: Os camisas azuis..., ibidem, pp. 49-51.

(17.) LEAL, E. C.: Antonio Ferro..., ibidem, p. 55.

(18.) FERRO, A.: Entrevistas a Salazar. lisboa: Parceria A. M. Pereira, 2007, p. 112.

(19.) MARTINHO, F. C. P.: <<O modernismo iberico de antonio Ferro>>. in: Syntesis. Cadernos do Centro de Ciencias Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UERJ, vol. II, no.. 2, 1998, pp. 11-17.

(20.) PIMENTEL, I.: <<A policia e a justica nos primeiros anos do salazarismo>>. In: MARTINHO, F. C. P. e COSTA PINTO, A. [orgs.]: O corporativismo em portugues. Estado, politica e sociedade no salazarismo e no varguismo. Rio de Janeiro: civilizacao Brasileira, 2007, pp. 305-343; RIBEIRO, M. C.: A policia politica no Estado Novo, 1926-1945. Lisboa: Estampa, 1995.

(21.) COSTA PINTO, A.: <<O Estado Novo portugues e a vaga autoritaria dos anos 1930>>. In: MARTINHO, F. C. P. e COSTA PINTO, A. (orgs.): O corporativismo em portugues. Estado, politica e sociedade no salazarismo e no varguismo. Rio de Janeiro: civilizacao Brasileira, 2007, pp. 17-43.

(22.) CRUZ, M. B.: Monarquicos e republicanos no Estado Novo. Lisboa: Dom Quixote, 1986, pp. 183-203.

(23.) CRUZ, M. B.: <<As origens da democracia crista em Portugal e o Salazarismo (i)>>, Analise Social. Revista do Gabinete de Investigacoes Sociais da Universidade de Lisboa, vol. xiv, 1978, pp. 265-278.

(24.) LEAL, E. C.: Nacao e nacionalismos: a Cruzada Nacional D. Nuno Alvares Pereira e as origens do Estado Novo (1918-1938). Lisboa: cosmos, 1999, pp. 323-335.

(25.) CRUZ, M. B.: <<As origens da democracia crista em Portugal e o Salazarismo (ii)>>, Analise Social. Revista do Gabinete de Investigacoes Sociais da Universidade de Lisboa, vol. xiv, no.. 55, 1978, pp. 525531.

(26.) REZOLA, M. I.: O sindicalismo catolico no Estado Novo (1931-1948). Lisboa: Estampa, 1999.

(27.) MARTINHO, F. c. P.: A Bem da Nacao..., ibidem; PATRIARCA, F.: A questao social no Salazarismo, 1930-1947. 2 vols. Lisboa: Imprensa Nacional/casa da Moeda, 1995.

(28.) COSTA PINTO, A.: <<O Estado Novo portugues e a vaga autoritaria...>>, ibidem, pp. 34-36; CRUZ, M. B.: O Estado Novo e a Igreja Catolica. Lisboa: Bizancio, 1998, pp. 17-49.

(29.) COSTA PINTO, A.: O salazarismo e o fascismo europeu: problemas de interpretacao nas ciencias sociais. Lisboa: Estampa, 1992, p. 88.

(30.) PAULO, H. J.: <<Ferro, Antonio Joaquim Tavares>>. In: ROSAS, F, e BRITTO, J. M. B. (orgs.): Dicionario de Historia do Estado Novo. Lisboa: Circulo de Leitores, 1996, pp. 355-357.

(31.) O, J. R.: Os anos de Ferro: O dispositivo cultural durante a <<Politica do Espirito>>: 1933-1939. Lisboa: Estampa, 1999, pp. 65-111.

(32.) HOBSBAWM, E. J. e RANGER, T [orgs.]: A invencao das tradicoes. Sao Paulo: Paz e Terra, 1984.

(33.) COSTA PINTO, A. e RIBEIRO, N. A.: A Accao Escolar de Vanguarda (1933-1936). Lisboa: Historia critica, 1980.

(34.) KUIN, S.: <<A Mocidade Portuguesa no anos 1930: anteprojectos e instauracao de uma organizacao paramilitar da juventude>>, Analise Social. Revista do Gabinete de Investigacao da Universidade de Lisboa, XXVIII, no..122, 1993, pp. 155-188.

(35.) RODRIGUES, L. N.: A Legiao Portuguesa: a milicia do Estado Novo (1936-1944). Lisboa: Estampa, 1996.

(36.) Citado por MEDINA, J.: Salazar em Franca. Lisboa: Atica, 1977, p. 50.

(37.) MARTINHO, F. C. P.: <<Entre o fomento e o condicionamento: a economia portuguesa em tempos de crise (1928-1945)>>. In: LIMONCIC, F. e MARTINHO, F. C. P.: A Grande Depressao: politica e economia na decada de 1930- Europa, Americas, Africa e Asia. Rio de Janeiro: civilizacao Brasileira, 2009, pp. 293-302.

(38.) Citado por MARCHI, R.: Imperio, Nacao, Revolucao..., ibidem, p. 201.

(39.) AMARAL, D. F.: O Antigo Regime e a Revolucao: Memorias Politicas (1941-1975). lisboa: Bertrand, 1996, p. 35; Soares, M. G.: Marcello Caetano: o homem que perdeu a fe. lisboa: A Esfera dos livros, 2009, pp. 249-251.

(40.) MARTINHO, F. c. P.: ibidem..., 2008, pp. 253-256.

(41.) CRUZ, M. B.: Monarquicos e Republicanos..., ibidem, p. 201.

(42.) MARCHI, R.: Imperio, Nacao, Revolucao..., ibidem, pp. 295-297.

(43.) PINTO, J. N.: Portugal, os anos do fim: a Revolucao que veio de dentro. Lisboa: Economia e Financas, 1976, pp. 26-27.

(44.) ROSAS, F. e OLIVEIRA, P. A. (orgs.): A transicao falhada: o marcelismo e o fim do Estado Novo (1968-1974). Lisboa: Editorial Noticias, 2004.

(45.) HOBSBAWM, E. J.: A Era dos Extremos: O breve seculo XX (1914-1991). Sao Paulo: companhia das letras, 1995, capitulo 4: <<A queda do liberalismo>>, pp. 113-143.

(46.) <<Ultramar, a atitude necessaria>>, Politica, no. 19, 30 de setembro de 1970, p. 3.

(47.) FERNANDES, T: Nem ditadura nem revolucao: a Ala Liberal e o Marcelismo (1968-1974). Lisboa: Dom Quixote/Assembleia da Republica, 2006.

(48.) <<Politica>>, Politica, no. 1, 22 de novembro de 1969, pp. 1-2.

(49.) <<Significado das eleicoes>>, Politica, no. 1, 22 de novembro de 1969, p. 3.

(50.) <<Editorial>>, Politica, no. 3, 22 de janeiro de 1970, p. 1.

(51.) <<Politica Nacional>>, Politica, no. 3, 22 de janeiro de 1970, p. 3.

(52.) <<Liberdade de imprensa--quem a tem chama-lhe sua>>, Politica, no. 7, 30 de marco de 1970, pp. 1 e 11.

(53.) <<O pais que a sedes quer>>, Politica, no. 5-6, 31 de agosto de 1972, pp. 10-11.

(54.) <<Dominar as ondas>>, Politica, no. 2, 30 de junho de 1972.

(55.) MARCHI, R.: Estado, Nacao, Revolucao..., p. 307.

(56.) <<Que nunca tenhamos de chorar>>, Politica, no. 14-15, 30 de julho de 1970, p. 2.

(57.) MARCHI, R.: Estado, Nacao, Revolucao..., p. 309.

(58.) Ibidem, p. 281.

(59.) Sobre as diferencas politicas e ideologicas no campo da direita, ver: TEIXEIRA DA SILVA, FRANCISCO Carlos: <<Os fascismos>>. In: REIS FILHO, Daniel Aarao; FERREIRA, Jorge e ZENHA, Celeste: O Seculo XX. Volume 2: O tempo das crises: Revolucoes, fascismos e guerras. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira, 2000, pp. 109-164; <<Introducao>>. In: TEIXEIRA DA SILVA, Francisco Carlos; MEDEIROS, Sabrina Evangelista e VIANNA, Alexander Martins: Dicionario critico do pensamento da direita: Ideias, Instituicoes e Personagens. Rio de Janeiro: Mauad/FAPERJ, 2000, pp. 11-21.
COPYRIGHT 2012 Ediciones Universidad de Salamanca
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2012 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:articulo en portugues
Author:Martinho, Francisco Carlos Palomanes
Publication:Studia Historica. Historia Contempranea
Date:Jan 1, 2012
Words:9514
Previous Article:The Spanish Radical Right and French anti-liberal thought in the first third of the XX century. From Charles Maurras to Georges Valois/La derecha...
Next Article:The relationships between nationalists and liberals in France in the twentieth century/Droites nationales et droites parlementaires en France au XXe...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters