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Tum longas condimus iliadas: the Propertius' Helen/Tum longas condimus iliadas: a Helena de Propercio.

1. Primeiras questoes--introito
   [phrase omitted]. (2)

   Si quis uult fama tabulas anteire uetustas,
   hic dominam exemplo ponat in arte meam (3).


Trata este trabalho da imagem de Helena de Troia nas elegias de Propercio. Defendo preliminarmente que a Helena a que Propercio faz mencao nao e apenas aquela que nos chegou a partir de uma matriz homerica (4) ou tragica, secundada pelas obras da oratoria e da sofistica (5), mas tambem aquela Helena que e referida anedoticamente como modelo na arte pictorica e que nos foi legada pelos registros de Cicero e de Dionisio de Halicarnasso (6), logo mais precisamente a pintura de Helena, feita por Zeuxis (7) "em registro escrito." Esta, ao contrario daquela que povoa o mito, serve ao molde discursivo, portanto, ao poetico, ao oratorio, ao retorico, ao historiografico, etc., ja que esta associada a ideia de construcao artistica e, assim, se refere, paradigmatica e homologamente, a qualquer fazer artistico cuja principal caracteristica seja a proximidade da perfeicao. A Helena de Zeuxis, portanto, por ser homologa ao projeto retorico de Cicero--segundo ele mesmo--(8) pode ser tambem, penso eu, modelo de perfeicao poetica em Propercio, de sorte que, quando Helena esta ligada a Cynthia scripta puella, ao livro Cynthia, as elegias Cynthia, passa a ser a Helena, picta puella. Entretanto aquela mitico-letrada nao pode ser deixada de lado, dado que oferece caracteristicas que sao importantes para construcao da persona poetica properciana constituida a partir de uma identidade etico-formal, isto e, Cintia possui na base de suas caracteristicas fisico-animicas a Helena de Troia de matiz mitico-literario. (9)

Ainda que nao sejam poucos os estudiosos que operem a aproximacao de Homero com Propercio sob outros vieses que naturalmente se acomodam no mesmo corpus properciano como bem lembra O'Rourke (2012, p.399), ainda assim este trabalho se ocupa de uma hipotese e dois corolarios. A hipotese: A Cintia de Propercio tem como um de seus modelos construtivos a Helena de Troia, seja como modelo de [phrase omitted]--mitico, portanto--, seja como modelo de discurso perfeito--logo pictorico. Os corolarios: a) A Helena modelo etico e a Cintia entendida como uma puella de vida irregular cujas principais caracteristicas sao a infidelidade e a beleza (10); b) a Helena picta, modelo discursivo, equivale a Cintia como metafora para a poesia elegiaca de Propercio, perfeita e excelentemente composta a partir de genero vario, constituindo-se como uma bricolage generica cuja principal caracteristica e a superacao dos demais generos poeticos (11), como se a elegia fosse um polo de emulacao intergenerica. E prudente ainda assinalar que Propercio foi estritamente seletivo em sua apropriacao homerica, como salienta Dalzell: "epic material could be used only if it underwent a transformation to conform to the needs of elegy." (Dalzell, 1980, p.31)

Dessa forma, se defendo a hipotese de existencia da relacao (Helena-Cintia, persona ou poesia), devo, entao, supor que coube ao poeta compor a persona elegiaca Cynthia a partir de duas vertentes: a primeira a imagem de Helena, sob a perspectiva mitica e pictorico-discursiva; a segunda: a imagem das cortesas de sua epoca, sob a otica da verossimilhanca como ja foi exposto em outros trabalhos meus e acentuado por muitos estudiosos em suas trabalhos (12). Esta ultima assim como a aquela proporcionam subsidios importantes para exegese desta persona cujo [phrase omitted] e tao complexo quanto instigante, afinal o fato de Cintia agir de maneira vulgar sob o ponto de vista etico pode ser considerado um vicio de conduta, mas sob o ponto de vista poetico e metapoetico sua vulgaridade, sendo ela, poesia, pode ser lida como virtude de elocucao, ou como outros preferem virtue of style. Posso dizer que esta ambiguidade encontra amparo na propria textualidade, e o que me parece apontar Whitaker quando trata dos exempla miticos, mais especificamente da passagem: "Tyndaris externo patriam mutuait Amore,/ et sine decreto uiua reducta domum est.--A Tindarida por um amor forasteiro mudou de patria/ sem punicao voltou viva a casa." O estudioso propoe um pattern para os exempla miticos de Propercio, tanto sob o aspecto da forma, quanto do conteudo. Afirma que formalmente Propercio primeiro apresenta o que Cintia fez "de errado", iluminando a sua ofensa, para entao absolve-la. No que diz respeito a res, o exemplo de Helena e, de todos os tres exempla desta elegia (2B.32), o mais estreitamente conectado com seu contexto por suas relacoes alusivas. Propercio deliberadamente escolhe as palavras externo patriam mutauit amore (31) para descrever a infidelidade de Helena, a fim de que ela possa proporcionar a paralelo mais solido e evidente com Cintia. "A Tindarida por amor forasteiro mudou de patria/ sem punicao voltou viva a casa"--e e disto que precisamente o poeta acusou Cintia na parte inicial da elegia. Entao a infidelidade de Helena, como apresentada por Propercio, proporciona uma excelente ilustracao da conduta de Cintia, (Whitaker, 1983, p.133-4). que podera ser lida em chave literal, "a amante do poeta", ou em vies metaforico, "a poesia do poeta", de sorte que Propercio num mesmo distico reprova a acao de Cintia e Helena, a meu entender, eticamente; mas acaba por absolve-las, digamos, poetica e artisticamente.

2. Ponto de partida: umas Iliadas

A fim de comecar, tomo Propercio 2A.1.1-16:
   Quaeritis unde mihi totiens scribantur amores,
      unde meus ueniat mollis in ora liber.
   non haec Calliope, non haec mihi cantat Apollo:
      ingenium nobis ipsa puella facit.
   siue illam Cois fulgentem incedere uidi (13),--5
      hoc totum e Coa ueste uolumen erit;
   seu uidi ad frontem sparsos errare capillos,
      gaudet laudatis ire superba comis;
   siue lyrae carmen digitis percussit eburnis,
      miramur facilis ut premat arte manus;--10
   seu compescentis somnum declinat ocellos,
      inuenio causas mille poeta nouas;
   seu nuda erepto mecum luctatur amictu,
      tum uero longas condimus Iliadas:
   seu quidquid fecit siue est quodcumque locuta,--15
      maxima de nihilo nascitur historia (14).--16
   Perguntais por que componho tantos amores,
      Por que meu livro vem suave a boca.
   Isto nao me canta Caliope, nem Apolo:
      Minha menina produz meu engenho.
   Se a vi caminhar fulgente em veste de Cos,
      Todo volume sera sobre a veste de Cos.
   Se vi seus cabelos escorrerem pela sua fronte,
      Folga em seguir orgulhosa com cabelos louvados.
   Se com seus dedos de marfim tocou poema a lira,
      Vejo como sua mao habil toque com arte;
   Ou se fecha os olhos que reclamam sono,
      Encontro, poeta, mil causas novas.
   Ou se, ao tirar roupa, nua, luta comigo,
      Entao componho longas Iliadas.
   E seja o que tenha feito, seja o que tenha dito,
      Do nada nasce a maior historia.


Nos primeiros 16 versos da elegia 2A.1, Propercio revitaliza razoes possiveis para suas elegias em acordo com duas circunstancias que as norteiam como poesia, respondendo a um interlocutor--uos desinencial: Quaeritis unde mihi totiens scribantur amores,/ unde meus ueniat mollis in ora liber, isto e, "Perguntais por que componho tantos amores,/ Por que meu livro vem suave a boca." Assim, o curioso enunciatario, esse uos oculto, transforma o leitor que era, digamos, observador neutro no livro 1 em um participante ativo desse poema. Wiggers diz: "The transformation of readers into critics is important because it suggests that the concerns of the poem go far beyond the skillful recreation and communication of emotional experience" (Wiggers, 1977, p.335). Sua curiosidade, portanto, vai alem da experiencia emocional desvendada nas elegias, antes tem um cunho tecnico-artistico, enfim, poetico. Afinal esses leitores querem saber por que ou de onde tantos amores vem a escrita e por que esses escritos lhe vem suaves a sua propria boca, ou simplesmente por que tais amores poeticamente sao suaves em sua diccao poetica. A resposta e simples e e dada em seis disticos, nao sem antes se elidir a acao dos deuses de um lado, e responsabilizar a acao da puella, de outro: "non haec Calliope, non haec mihi cantat (15) Apollo: ingenium nobis ipsa puella facit", ou seja, "Isto nao me canta Caliope, nem Apolo./ A menina produz meu engenho." Heslin (2013, p.287) acrescenta que Propercio nestes dois versos aponta para uma proposicao de rejeicao a escrita imperial, o que pode produzir efeitos interessantes na compreensao deste novo programa poetico, como veremos. Dai em diante ate o verso 16, enumera as "causas" de sua poesia, respondendo ao seu interlocutor: uos.

Antes, porem, de tratar destas causas e observar como dois disticos destes 6 sao uteis para a construcao de um paralelo que importante para a construcao de Cintia nas colecoes de Propercio, observo algumas questoes filologicas e exegeticas que podem nos ser produtivas nesse trabalho.

Uma primeira curiosidade: o contraste entre o uso verbo canto a se referir a poesia de inspiracao religiosa e o do verbo facio para indicar o lugar do engenho e do labor escrito, desnudando, pois, a materialidade poetica do segundo em contraste com a "volatilidade" das palavras do primeiro. Esse enunciado aponta, para alem da denegacao religiosa da poesia inspirada, o caminho do trabalho poetico, assentado no reconhecimento prescritivo dos generos e das consequentes regras que lhes convem. O enunciado ainda reforca a ideia de construcao poetica das personae poeticae, ainda mais a se aceitar a dupla metafora: Cintia e puella e poesia e Cintia, metafora ja transformada em alegoria, uma vez que se estende no tempo, desdobrando-se no decurso da narrativa poetica da colecao das elegias. Assim, ainda que a presenca de Apolo nesse distico possa ser um referente da poesia calimaqueana, parece-me que, nesse caso, nao seja essa a intencao. Indo alem, talvez fosse interessante pensa-lo como negacao ou recusa da escrita encomiastica da lirica de Horacio a Augusto, ou aquela escrita imperial a que se refere Helsin (2013, p.287), que se comprova nos vv. 17-38 (16), ja que, pelo menos, a partir de Acio ou do fim do triunvirato, Otavio ja e identificado com o Cynthius (17), ainda que Miller nao entenda assim (18). Outro elemento de leitura, a meu ver, deve-se acrescer a este verso e: Calliope. Se admitimos essa translatio Apolo/ poesia lirica, a quem poderiamos associar a musa Caliope (19)? A levar em consideracao a diccao constante entre a poesia de Propercio e a epica em vies de recusationes, parece-me claro que Propercio opera uma outra recusatio, a recusa da epica de Virgilio, para que Cintia scripta possa ser tida como um genero perfeito ou total como se confirma com os 6 disticos seguintes, isto e, a elegia contem em si elementos de outros generos, transformando-se, pois, num genero que contem outros sinteticamente e, mais, seja perfeitamente operado. Nao devemos confundir, porem, o genero total ou genero perfeito a que pretendo assumir como obra elegiaca com o super-genre. O primeiro e a assuncao ou presuncao do poeta pela qual o genero do qual se ocupa supera os demais por nele estar contido todos os outros, a que Heyworth (2007b, p.104) chamou de encapsulamento dos generos; ja o segundo de acordo com Hutchinson (2013, p.20-4) e um modelo de grandes conjuntos genericos com varios subconjuntos que interagem que nos permite dizer serem claramente organismos significativos na concepcao dos generos antigos: hexametro, elegiaco, lirico, etc.

A partir desta assercao que condensa o fazer poetico, Propercio inicia suas respostas ao "uos quaeritis", retomando outro locus, o da veste diafana --materia erotica/encomiastica--que se confunde com a poesia de Filetas de Cos e diz (vv. 5-6): "Se a vi caminhar fulgente em veste de Cos,/ Todo volume sera sobre a veste de Cos", isto e, se a poesia esta assentada no molde de Cos, decorosamente o livro versara sobre este modelo ou em conformidade a ele (20). Dessa maneira, me parece que o poeta assinala para alem da referencialidade da materia textil, um outro tecido: o discursivo que pode ser avaliado tanto no plano das res, quanto dos uerba. Aquelas, se atento para a materia erotica; estes, se observo sua forma sinuosa do distico denunciado pela explicita referencia a um de seus patronos elegiacos (21).

Nos versos 7-8, o acumulo metapoetico engenhosamente torna-se mais amplificado. Propercio aplica-se: "Se vi seus cabelos escorrerem pela sua fronte,/ Folga em seguir orgulhosa com os cabelos louvados." Dois elementos, neste caso, devem ser considerados: o primeiro e o fato de ver a puella/ elegia caminhar, ja que o ato apresenta elemento poetico necessario e essencial, qual seja, ter um pe, no caso datilico, que demarca o ritmo, o andamento poetico, de um lado, e denota sensualidade necessaria dessa persona, de outro. Nesse ponto, faltou ao poeta dizer: Mas pobrezinha ... e manca, referindo-se ao hexametro duplamente cataletico, o pentametro. Mas isto nos diriam mais tarde Nasao (22) e, muito, muito mais tarde Machado (23). A segunda questao que, ainda que aguda, nao deixa de ser obvia e diz respeito ao "como vai", ao "como anda" a puella elegia, como afinal ela se comporta. Todos sabemos hoje que a puella e "solta", e "dada", e "laxa", sabiam-no tambem la em Roma que era libertina, licenciosa e impudente--uerna ou moecha (24). Diz Veyne do demi-monde (25). Assim, se puella e solta, e vadia, e dada, e elegiaca, soltos tambem sao seus cabelos, sua natureza e res, sua materia e [phrase omitted]. Como de fonte puro pura aqua defluit, Calimaco, autor da Coma de Berenice, emulado por Catulo em 66, esta demarcado, nesse ponto, como modelo poetico.

Os quatro versos seguintes (vv. 9-12) apresentam dois niveis de imitacao que podem tomar forma poetica: a) a habilidade de Cintia com a lira e b) seus olhos fechados, reclamando sono. No primeiro caso, Propercio inscreve Cintia como emulo de Sempronia (26), de Clodia (27), ou de Volumnia (28), ja que essas dominam a arte da musica, das letras e da danca, alem de serem paradigmaticas da vida cortesa (29). Parece que a referencia metapoetica acentua-se, porquanto se assinala explicitamente a lira, instrumento que acompanha a poesia lirica (vv. 9-10).

No segundo distico, isto e, sob a perspectiva dos olhos como leitmotiv, nao devemos nos esquecer que "Cynthia prima suis miserum me cepit ocellis" (30), esses passam agora a transcender sua materialidade fisica dado que operam sua forca internamente; os olhos da alma que olham para dentro, uma vez que estao fechados por forca do sono: "seu compescentis somnum declinat ocelos,/ inuenio causas mille poeta nouas". As causas--as suas [phrase omitted]--de sua poesia neste livro que ora comeca, sao seus devaneios em sonho, [phrase omitted]. Mais do que a simples citacao da segunda filiacao poetica, o Calimaco das [phrase omitted] (=causas), Propercio localiza a citacao nos sonhos de Calimaco que expressa passagem explicita desta peca do poeta helenistico de Cirene (31). Nesse sentido, os olhos fechados em sonho ou no sono, sao marcas importantes desta fictio poetica aqui explicitamente demarcada que ira ser reconstruida a partir deste novo programa poetico. Isto tudo sem falarmos na possibilidade de ligacao entre a ideia de sonho e a de perfeicao poetica. Por sua vez, esse mesmo tema e retomado em 4.7, por exemplo, quando o [phrase omitted] de Cintia surge para o ego-elegiaco--segundo Dalzell (1980, p.33) uma releitura da cena do canto 23, em que Aquiles adormecido na praia ve o [phrase omitted] de Patroclo--donde se reverte a [phrase omitted] poetica, inverte-se o polo ativo da ficcao poetica. Entretanto, mesmo morta, Cintia e capaz de suscitar elegia: Haec postquam querula mecum sub lite peregit,/ inter complexus excidit umbra meos --Depois que me findou os queixumes sob lide/ a sombra evaporou em meus abracos (32).

Enfim para os primeiros versos de 2A.1, Heyworth (2007b, p.104) propoe que entre os vv. 5-16, o poeta combina "realismo e ludicidade metapoetica" ja que Propercio entende que seu trabalho com os generos pressupoe um "encapsulamento" entre eles. Assim surgem o encomio em 7-8; o lirico em 9-10; o etiologico 11-12; o epico em 13-14 e a historia em 15-16. Acrescento que os vv. 5-6, nao elencados por Heyworth, podem ser lidos numa chave subgenerica da lirica, a erotica, dado ao carater de seducao impresso pelas vestes transparentes de Cos que sao instrumentos de convencimento no discurso amatorio. Basta pensarmos em Ovidio na Ars Amatoria: "Sed te, cuicumque est retinendae cura puellae/Attonitum forma fac putet esse sua./ Sive erit in Tyriis, Tyrios laudabis amictus:/ Siue erit in Cois, Coa decere puta./ Aurata est? ipso tibi sit pretiosior auro;/Gausapa si sumpsit, gausapa sumpta proba./Astiterit tunicata, 'moues incendia' clama."--Mas tu, se alguma preocupacao tens de conservar a tua amada,/ faz com que pense estares espantado com a sua beleza:/ Se vestir purpura de Tiro, louva os mantos de purpura de Tiro; Se vestir tecidos de Cos, considera que os tecidos de Cos lhe ficam bem;/ enfeita-se de ouro? Tem-na por mais preciosa que o proprio ouro;/ se enverga um manto, aplaude o manto que escolheu; se apenas usar uma tunica, grita-lhe: "Ateias-me labaredas." (33)

Os dois ultimos disticos desta secao, assim, focalizam e sintetizam dois elementos paradigmaticos do livro em questao:
   seu nuda erepto mecum luctatur amictu,
      tum uero longas condimus Iliadas:
   seu quidquid fecit siue est quodcumque locuta,
      maxima de nihilo nascitur historia. (34)
   Ou se, ao tirar a roupa, nua, luta comigo,
      Entao componho longas Iliadas.
   Seja o que tenha feito, seja o que tenha dito,
      Do nada nasce a maior historia.


Cintia e definitivamente o cerne da narrativa properciana; sua forma desnuda e sensualizada obriga o ego-elegiaco a lutar com ela no leito uma luta sexual dificil de ser vencida--locus da militia amoris--e, consequentemente, a compor, a cantar, a fundar--condimus--textualmente Iliadas, entretanto uma Iliada, nao fundada na ira de Aquiles, mas na vida sexual do par amoroso elegiaco e na capacidade poetica, no ingenium do ego-Propertius, poeta.

Na elegia 1.2, o ego ja devotara engenhosamente seu labor a Cintia que confirmava-se como narrativa poetica, "quase" epica, ja que mundana e seu suporte "quase" completamente hexametrico. Entretanto, ainda que nao seja uma epica propriamente dita, muito dista desse genero, ainda assim devemos sempre matiza-la como narrativa, como historia. Em 1.2.2 Propercio predicava Cintia: uita--vida (35). Logo a heroina da elegia e poesia, e amada e e vida, mas, antes de tudo, e narrativa, uma historia construida e perfeita. Cintia e, dessa maneira, alem da amada, a sucessao de eventos verossimeis tao proximos da realidade vivida e historica que foi naturalizada, transformando-se numa mulher "viva", "real", falseada ou escamoteada por um pseudonimo que so poderia estar a lhe ocultar a verdadeira face, diante da nequitia em que "vivia", fazendo os criticos biografistas (dos seculos 19, 20 e 21) transformarem-na num dado de registro cartorial (an official record).

Se pensarmos qual e o fato motivador da guerra desenhada e cantada por Homero, temos apenas uma resposta: Helena. Seu desenho mitico e sua representacao homerica fazem o leitor de Propercio, ao observar o pentametro tum uero longas condimus Iliadas imediatamente associar Cintia a esposa de Menelau ou a amante de Paris, de sorte que a equivalencia eticopoetica entre ambas e inegavel. Posso dizer que tanto o [phrase omitted] de Helena quanto o de Paris sao na epica homerica, com o perdao do anacronismo, os [phrase omitted] mais sensualmente elegiacos em Homero--penso apenas na elegia romana, e logico. Nao so a infidelidade de Helena como a recusatio a luta de Paris (36) nos dirigem ambas ao tema prevalente desse genero em Roma. Essa ideia e confirmada pela proposicao de Wike para quem as elegias anteriores ao livro 4 de Propercio subvertem uma topografia epica em que o universo feminino da tecelagem e interno aos muros de Troia; enquanto o masculino esta fora da cidadela, onde os homens podem se dedicar a guerra. Entretanto tal subversao ja encontrara eco na propria epica homerica, dado que la temos tambem um anti-heroi, Paris, "who wages war only in Helen's lap." (Wike, 2002, p.87). Nesse sentido, posso inferir que o modelo de heroi elegiaco e, obviamente, Paris e nao Heitor. O'Rourke, por sua vez, diz que a dinamica da intertextualidade homerica em Propercio pode ser observada operando um ou dois estagios, ora representando um "heroicizacao" da elegia, ora uma "elegizacao" de Homero, de sorte que dois vetores podem ser verificados: "The elavation of the amator to heroic status and the eroticisation of epic narrative hightlight the different value-systems which obtain in each genre, but also suggest that the lover and the soldier share an analogous commitment to their respective causes." (O'Rourke, 2012, p. 399). Vejamos, 3.8.29-36:
   dulcior ignis erat Paridi, cum Graia per arma (37)
      Tynaridi poterat gaudia ferre suae:--30
   dum uincunt Danai, dum restat barbarus Hector,
      ille Helenae in gremio maxima bella gerit. (38)
   aut tecum aut pro te mihi cum riualibus arma
      semper erunt: in te pax mihi nulla placet.
   gaude, quod nulla est aeque formosa: doleres,--35
      si qua foret: nunc sis iure superba licet. (39)
   Paris tinha o mais doce fogo, quando, por lides
      gregas, podia levar os gozos a Tindarida:
   Enquanto Danaos venciam e barbaro Heitor se opunha,
      No colo de Helena guerras maiores geria Paris.
   Sempre havera lutas contigo, por ti sempre lutarei
      com rivais: nenhuma paz me apraz em ti.
   Alegra-te, pois nenhuma e tao bela: sofrerias,
      Se uma fosse. Hoje e justo: se vaidosa.


Como muito bem salienta Dalzell (1980, p.312), a chave desta passagem e a cena na Iliada (40), em que Paris, depois de seu combate com Menelau, retorna e Helena o cumprimenta com um amargurado desprezo, defendendo suas acoes e implorando seu amor, confessa que nunca antes sentiu tao doce desejo. Mais do que isso, o trecho em questao poe a nu uma relacao entre o par amoroso homerico, Helena e Paris e o par amoroso da elegia de Propercio, uma vez que ambos sao absolutamente sensualizados, ambos estao no cerne da sua poesia em que repousam e ambos se confundem com a propria poesia. Em Homero, o par e o fato gerador da guerra em torno da qual a epopeia se desenrola, ainda que seu tema seja a [phrase omitted] de Aquiles. Em Propercio, a militia amoris do ego-elegiaco, a nequitia em que se assenta a figura de Cintia, a relacao desregrada e fora da conformidade etica imperial (41) do par amoroso alimentam, por sua vez, a narrativa elegiaca.

3. Helena em Propercio

Curiosamente, Helena nao e referida por Propercio no livro 1. O mais proximo a que podemos chegar dela no Monobiblos e a referencia a Homero feita em 1.9.11-12: "Plus in amore ualet Mimnermi uersus Homero;/carmina mansuetus leuia querit Amor." Parece-me que essa omissao e programatica, ja que a Cintia do primeiro livro esta longe de apresentar quaisquer conformidades eticas com a Helena, ainda que, tendo em vista sua beleza, forma, possa sim rivalizar com a amante de Paris. Assoma a este argumento o fato de os livros de elegia "em construcao" ainda nao estarem plenamente identificados com a imagem de Cintia e, nesse sentido, o uso metaforico da scripta puella--Cynthia--que, a meu ver e analogo ao da picta ou ficta puella de Zeuxis--Helena--, decorosamente ainda nao pode ser feito ou assumido pelos enunciatarios dessa poesia. Entretanto esta ideia e revertida nos livros 2A, 2B e 3, ja que nesses Helena sera citada 5 vezes, explicitamente: 2A.1.50; 2A.3.32; 2B.34.88; 3.8.32; 3.14.19 ou 7 vezes se observarmos o seu epiteto Lacaena, a Lacedemonia, a Espartana, em 2B.15.13 e Tyndaris, a Tindarida em 2B.32.31.

Retorno agora a elegia 2A.1. Tendo acabado de propor o encomio a Mecenas (vv. 17-42) em que, apesar da recusatio, enumera os feitos de Augusto e, sequencialmente, aponta o decoro (42) dos generos hexametricos, ou como prefiro, seguindo a licao de Oliva Neto (2013, p.776), da poesia do epos, ainda que Hutchinson (2013, p.20-4) tambem proponha uma nova possibilidade bem pertinente: a do super-genre hexametrico. Enfim, Propercio se aproxima de Helena, pela primeira vez, explicitamente. Algo que deve ser entendido de maneira singular uma vez que esta elegia e indubitavelmente programatica:
   nauita de uentis, de tauris narrat arator,
      enumerat miles uulnera, pastor oues (43);
   nos contra angusto uersamus proelia lecto:--45
      qua pote quisque, in ea conterat arte diem.
   laus in amore mori: laus altera, si datur uno
      posse frui: fruar o solus amore meo!
   si memini, solet illa leuis (4) culpare puellas,
      et totam ex Helena non probat Iliada.--50
   Nauta, dos ventos; dos touros, fala agricultor,
      Soldado soma feridas; pastor, ovelhas (44),
   Eu, de reves, verso lutas em leito angusto:
      Cada um gaste o dia na arte que lhe cabe.
   E louvor morrer no amor: outro, da-se poder
      Fruir um unico: que eu frua o unico amor!
   Se lembro, ela condena meninas faceis,
      E nao aprova a Iliada inteira por Helena.


Parece-me clara a ironia proposta por Propercio, afinal a poesia elegiaca move-se tambem pelo fato motivador da infidelidade. Aqui a alteracao de posicao e curiosa, ja que ha uma recusa da epica e o fato motivador da Iliada e a traicao de Helena, uma puella leuis no epos graue (46). Sobre isto Fedeli (2005, p.85) propoe que num exame mais cuidadoso a exaltacao da fidelidade de Cintia nos leva a uma conclusao paradoxal, que permite antever uma atitude ironica do poeta, ja que alem da aparente seriedade de suas afirmacoes, Cintia condena o poema de Homero por cantar uma historia de amor baseada no adulterio; mas justamente este tipo de situacao que a poesia elegiaca de amor alimenta. No enunciado "Si memini, solet illa leuis culpare puellas, /et totam ex Helena non probat Iliada", a afirmacao de que Cintia costuma condenar leues puellae e o no do paradoxo a que se refere Fedeli, afinal Cintia e uma leuis puella. Deve-se ter em mente que em 1.1 o ego-elegiaco informa que ela o ensinou a odiar castas meninas (47), isto e, graues puellae, mocas de moral ilibada cujo referente e a matrona romana e nao a cortesa (48). O paradoxo justamente ocorre pelo descompasso, a meu ver, entre o [phrase omitted] de Helena e o genero elevado da epica--da poesia do epos. O termo leuis aqui parece confirmar essa hipotese. Ainda que seja um termo essencialmente metalinguistico, aqui leuis supoe a capacidade de trocar de amores com facilidade, enfim, sua volubilidade ou inconstancia ou volatilidade. Se observarmos a natureza dupla do distico elegiaco, isto e, ora um hexametro, ora o pentametro, esta inconstancia se opoe firmemente a natureza rigida do epos em que o metro e sempre o mesmo, portanto so pode ser expressivamente durum, como suas heroinas ou herois. Assim Helena infiel e tao inconstante quanto o metro elegiaco, longe, portanto, de ser supostamente adequada a materia e forma epicas. Posso dizer consequentemente que uma epica tambem nao seria aprovada para Cintia, isto e, Helena e Cintia sao elegiacas. O trecho em questao, haja vista a explicacao do decoro poetico entre os vv. 43-46, escancara uma relacao metapoetica parcialmente obnubilada pelo referente etico-moral.

Wiggers (1977, p.339), por seu turno, afirma que esta alusao a Cynthia nesses versos e o complemento de retrato de uma "devocao heroica do poeta" a sua amante, primeiramente, por transformar Cintia numa parceira fiel do ego-elegiaco, de sorte que esta alusao reconstroi sua imagem sob a base da pudicicia que implica que esquecamos tudo o que fora escrito sobre ela a fim de melhorar a propria respeitabilidade como poeta; em segundo lugar, estes versos elevam elegia acima do nivel da epica e fazem com que a Iliada seja mais frivola e menos digna que a poesia erotica porque aquela glorifica a puella leuis, Helena.

Em 2A.3, entretanto, e certo que a utilizacao do referente Helena, torna-se mais precisa, inclusive, esclarecendo o suposto paradoxo a que Fedeli fez mencao e que acabo de justificar preliminarmente.
   'Qui nullam tibi dicebas iam posse nocere,
      haesisti: cecidit spiritus ille tuus!
   uix unum potes, infelix, requiescere mensem,
      et turpis de te iam liber alter erit.'
   quaerebam, sicca si posset piscis harena--5
      nec solitus ponto uiuere toruus aper,
   aut ego si possem studiis uigilare seueris:
      differtur, numquam tollitur ullus amor.--8
   'Tu me dizias que nenhuma podia te prejudicar,
      Uma te ganhou: tua presuncao morreu!
   Tu, infeliz, apenas podes descansar um mes
      E ja ha outro livro torpe sobre ti.'
   Eu inquiria se peixe poderia viver na seca areia;
      Ou se javali feroz, estranhando, no mar;
   Ou eu podia fazer vigilias em serios estudos:
      Um amor acalma-se, jamais desaparece


Entre os vv. 1-4, Propercio estabelece uma interlocucao com um tu apagado, dando-lhe voz em discurso direto. Como Fedeli (2005, p.123-8) aponta, tal "dialogo" tem sido explicado atribuindo ora a um "tu" generico, semelhante ao uos de 2A.1 que neste caso poderia estar associado ao irrisor de 1.9, ora como fala do proprio ego-elegiaco, que estaria estabelecendo um dialogo com sua propria consciencia (49), aos moldes de Catulo no poema 8 (50). A critica inicial apresentada e a completa incapacidade de o ego-elegiaco viver so, ja que passado pouco tempo, desde o ultimo livro, esta ele novamente apaixonado e preso aparentemente pela mesma puella. Como consequencia tera contra si ou a seu favor mais um turpis ... liber alter, a afirmacao desse interlocutor, exordia a elegia que cumpre o papel de demonstrar a absoluta impossibilidade de fugir desta situacao, qual seja, de apaixonado, tanto e que as primeiras palavras do ego-elegiaco nos vv. 5-6 nos encaminham para tres [phrase omitted]: poderiam viver peixes na areia seca, ou javalis no mar, ou o apaixonado estudando filosofia e retorica (studia seuera)? A resposta e simples mais uma vez: um amor acalma-se, entretanto, nunca desaparece. Continua Propercio:
   nec me tam facies, quamuis sit candida, cepit
      (lilia non domina sint magis alba mea,--10
   ut Maeotica nix minio si certet Hibero,
      utque rosae puro lacte natant folia),
   nec de more51 comae per leuia colla fluentes,
      non oculi, geminae, sidera nostra, faces,
   nec si qua Arabio lucet bombyce puella--15
      (non sum de nihilo blandus amator ego):
   quantum quod posito formose saltat Iaccho (52),
      egit ut euhantis dux Ariadna choros,
   et quantum, Aeolio cum temptat carmina plectro,
      par Aganippaeae ludere docta lyrae;--20
   et sua cum antiquae committit scripta Corinnae,
      carmina [dagger] quae quiuis [dagger] non putat aequa suis.
   O rosto nao me prendeu tanto, ainda que claro,
      --lirios nao sao mais alvos que minha mulher:
   Como a neve meotica luta com o rubro iberico,
      ou petalas de rosa nadam ao puro leite--,
   Nem os cabelos que fluem, por habito, no suave colo,
      Nem olhos, gemeas luzes, minhas estrelas,
   Nem se a minha menina reluz em seda arabica
      (Nao sou amante cortes sem razao):
   Mas servindo o vinho, ela danca formosa
      Como Ariadne regeu coros evantes;
   Ao plectro eolio, quando ousa compor poemas,
      Douta, ela e par da lira de Aganipe
   Quando compara sua poesia com as da antiga Corina,
      Qualquer poema nao julga igual aos seus.


Entre os vv. 9-22, Propercio elenca os motivos que fizeram com que o ego-elegiaco se apaixonasse novamente e aqueles que poderiam ter feito isto, mas nao o fizeram. Ao propor esses dois elencos de causa--mais um vez o poeta ira denunciar sua filiacao poetica a Calimaco--ele hiperboliza a amada e seus predicados ao mesmo tempo em que reafirma metaforicamente seu sentido. Cintia nao e apenas sua mulher, sua puella ou domina, antes e sua poesia, sua danca, enfim, sua arte. A amada que cativa o ego-elegiaco, ainda que seja belissima, e aquela que detem o conhecimento das artes (53). Entretanto ainda assim ela tem sua pele alvissima que contrasta com seus labios vermelhos (vv. 9-12); seus cabelos, como soi acontecer--de more--sao longos e soltos e fluem pelo suave colo (v.13), seus olhos sao fachos que provavelmente o fazem arder e certamente o capturam (v. 14) (54), ela integralmente brilha em seda arabica cujos efeitos, pela transparencia, sao os mesmos do tecido de Cos (v.15) (55), e o trecho se fecha propondo que nao e sem motivo que ele, o ego-elegiaco, seja um blandus amator. Ocorre, no entanto, que essas referencias fisicas da amada, algumas das quais ja operadas (56), sao metaforas da propria poesia erotica elegiaca. Nesse sentido, a propria necessidade de realizar uma poesia perfeita--uma poesia total--, Helena picta ou Cynthia scripta, encaminha o poeta, ego-elegiaco, a realiza-la, como um blandus amator. Mas Propercio, amplificando a hiperbole--poesia/amada--, nos vv. 17-22, sinaliza para caracteristicas "intelectuais" da amada/elegia: Cintia formose saltat em meio ao Iaco, isto e danca, regendo o coro de bacantes (vv. 17-18); ela, mulher e poesia, e douta, ousando compor poemas na lira do Helicon (vv.19-20); seus scripta--poemas--rivalizam com os de Corina de Tanagra que curiosamente nomeara o futuro par amoroso construido por Ovidio. Cintia definitivamente deixou de ser somente a amada, ela deixa de ser somente alvo dos poemas de amor, passa, sim, a ser o agente da arte, sendo ela a propria arte, de sorte que se confunde em funcao com o proprio poeta que a engendrara como persona elegiaca. Continuemos com a elegia:
   non tibi nascenti primis, mea uita, diebus
      candidus argutum sternuit omen Amor?
   haec tibi contulerunt caelestia munera diui,--25
      haec tibi ne matrem forte dedisse putes.
   non non humani partus sunt talia dona;
      ista decem menses non peperere bona.
   gloria Romanis una es tu nata puellis:
      Romana accumbe[n]s prima puella Ioui,--30
   nec semper nobiscum humana cubilia uises;
      post Helenam haec terris forma secunda redit.
   hac ego nunc mirer si flagret nostra iuuentus?
      pulchrius hac fuerat, Troia, perire tibi.
   olim mirabar, quod tanti ad Pergama belli--35
      Europae atque Asiae causa puella fuit;
   Minha vida, nos primeiros dias, ao nascer, a ti
      O candido Amor espirrou arguto pressagio?
   A ti os deuses conferiram celestes dons:
      A ti estes nao creias que tua mae deu.
   Tais dotes nao, nao sao produtos humanos:
      Dez meses nao produziriam tamanhos bens.
   Nasceste, gloria unica entre as meninas de Roma:
      E seras primeira moca romana deitando com Jupiter,
   Nem iras me visitar, em humano leito,
      Apos Helena, a beleza voltou, de novo, a terra.
   Acaso ja devo eu admirar que jovens se ardam por ela?
      Troia, te seria mais belo que tu morresses por ela.
   Outrora admirava que uma jovem fosse causa
      De guerra ingente em Pergamo entre Asia e Europa:
   nunc, Pari, tu sapiens (57) et tu, Menelae, fuisti,
      tu quia poscebas, tu quia lentus (58) eras.
   digna quidem facies pro qua uel obiret Achilles;
      uel Priamo belli causa probanda fuit.--40
   si quis uult fama tabulas anteire uetustas,
      hic dominam exemplo ponat in arte meam:
   siue illam Hesperiis, siue illam ostendet Eois,
      uret et Eoos, uret et Hesperios.--44
   Agora, Paris, tu foste sabio e Menelau tambem,
      Tu porque intransigias (59), tu porque eras devedor (60).
   Sem duvida, a face, pela qual Aquiles morreu, era digna,
      E justo que Priamo aprovasse a causa da guerra.
   Se alguem quer superar a fama de antigas pinturas,
      Tome nesta arte minha mulher como exemplo:
   Que a mostre aos hesperios, que a mostre aos orientais,
      Arderao os orientais e arderao os hesperios.


O ego-elegiaco altera sua interlocucao. Dirige-se agora ao objeto do elogio (v. 23-24) mea uita, isto e, minha narrativa, minha poesia, minha vida, em apostrofe, questiona se ela reconhece o mirabile que ocorreu em seu nascimento quando o Amor vaticinou sua fama. Nao bastasse, pois, a construcao elaboradissima ao longo dos vv. 1-22, que vinha sendo desenvolvida, Propercio agora se dirige diretamente a amada, vivificando discursivamente, aquilo que ate entao eram palavras--predicados. Salienta entre os vv. 25-32 o mirabile: todos os predicados, fisicos e intelectuais nos vv. 1-22 sao de natureza divina, logo nao foi sua mae que lhe deu, nao sao dotes humanos. A gravidez seria incapaz de engendra-los, donde em Roma sera a una gloria, unica gloria, e, consequentemente, a prima puella, a primeira menina a deitar-se com Jupiter. E interessante imaginar que as qualidades viriam apenas da mae, talvez fosse tambem prudente imaginar que viesse do pai. Entretanto, Propercio esta se dedicando a construir uma imagem que se confirma no v. 32: Cynthia e Helena rediviva, portanto, se a segunda e filha de mae mortal, Leda, e pai imortal, Zeus; a primeira tambem devera ter sua componente imortal e esta nao sera sua mae. Talvez seu pai seja o poeta--et mihi sacra ferant! (61) Se em 1.1.1 Cynthia era prima tambem, la apenas ocupava o espaco da humanidade e sua capacidade era terrena, quem estava sob seu jugo era mortal ela "cepit" o ego-Propertius; em 2A.1 e 2A.3 seu espaco e do mundo etereo, da imortalidade, da totalidade ou da perfeicao--ars longa, uita breuis. Ela ja se identifica com a propria escritura, com a propria poesia, logo com o lugar-comum da perenidade. Nesse sentido, Propercio resume esta proposta estabelecendo a identidade definitiva: "post Helenam haec terris forma secunda redit--Apos Helena, a beleza voltou, de novo, a terra." (62) Dai o paralelo com a Iliada decorre, nao sem antes, contudo, fazer uma afirmacao importante que justifica o verso: "et totam ex Helena non probat Iliada." (63) Diz Propercio, apostrofando Troia: "pulchrius hac fuerat, Troia, perire tibi--Troia, te seria mais belo que tu morresses por ela." (64) Vejamos, Cintia nao aprova uma Iliada toda por Helena, mas o ego-elegiaco cre que seria mais belo Troia caisse por Cintia.

Propercio, construindo a amplificacao de Cintia, afirma ela nao pode ser humana, que uma gestacao nao seria capaz ou suficiente para colocar no mundo alguem semelhante a ela. Parece-me que neste ponto ele apresenta mais uma chave metalinguistica da sua composicao. Nao so estamos diante de uma disputa entre o divino e o humano, como tambem, entre a tecnica e a natureza (ars e natura; [phrase omitted]). Assim todo o jogo argumentativo proposto pelo poeta desde o inicio somado cumulativamente a todos os outros retratos de Cintia denotariam a sua capacidade tecnica de construir algo que a natureza e incapaz de produzir e impiamente tambem denota a forca da capacidade humana frente a divina.

Parece-me tambem claro que tal trecho localiza nao mais uma Helena mitico-literaria, mas aquela a que chamei ha pouco de Helena picta ou ficta produzida por Zeuxis, comentada por Cicero e por Dionisio de Halicarnasso (65), ja que la ficava claro que a imitacao de Helena so e possivel no ambito da arte (da [phrase omitted], da imitatio), pois ninguem seria capaz de superar terrenamente sua beleza. Dessa maneira e imperiosa a observacao dos vv. 41 e 42 em que, a meu ver, tem-se a comprovacao desta hipotese: "si quis uult fama tabulas anteire uetustas,/ hic dominam exemplo ponat in arte meam--Se alguem quer superar a fama de antigas pinturas,/ Tome nesta arte minha mulher como exemplo." (66) Tabulas vetustas, portanto, refere-se exatamente a pintura de Zeuxis (67). Aqui fica absolutamente claro o procedimento da construcao do retrato, que comeca no v.9 e vai ate o v. 44. Podemos somar este retrato, aqui explicitado nos vv. 41-44, aos construidos em 1.3.1-8; 1.15.9-22; 2A.1.4-16; 2B.28.15-24. Pode-se propor que nessas pecas, Propercio constroi uma bricolage de Cintia, ora fisicamente, ora eticamente. O termo exemplo, ablativo de exemplum, tomado do vocabulario retorico deve ser entendido como modelo, paradigma.

Heslin (2013, p.287-97), defendendo a sua hipotese que relaciona a significacao do Portico de Filipo em Roma com a poesia de Virgilio, Horacio e Propercio, insiste, ao tratar de 2A.3, que e significativo que o envolvimento mais efetivo de Propercio com a arte do Portico ignora o ciclo de Troia e suas implicacoes augustanas; em vez disso, concentra-se no retrato nu de Helena de Troia de Zeuxis. Assim, ele consegue imaginar o Portico inspirando uma elegia profundamente anti-Augustana. Lyne (2007, p.281-2), entretanto, possui uma visao diferente ja que entende que Propercio aqui tambem esta emulando com Tibulo 1.5, faria sim uma referencia a Galo, ja que Ovidio (Am. 15.29 e s) ira celebrar Galo utilizando a mesma referencia espacial--um helenismo--Hesperius e Eous. Nao creio que todas as hipoteses nao se conciliem, ao contrario, dao a dimensao polissemica clara a que a elegia esta submetida.

Tomo agora a elegia 2B.34, um verdadeiro opusculo sobre poetica augustana em matiz erotico:
   haec quoque perfecto ludebat Iasone Varro,--85
      Varro Leucadiae maxima flamma suae;
   haec quoque lasciui cantarunt scripta Catulli,
      Lesbia quis ipsa notior est Helena;
   haec etiam docti confessa est pagina Calui,
      cum caneret miserae funera Quintiliae.--90
   et modo formosa quam multa Lycoride Gallus
      mortuus inferna uulnera lauit aqua!
   Cynthia quin uiuet uersu laudata Properti,
      hos inter si me ponere Fama uolet.--94
   Tambem Varrao, quando perfez seu Jasao, brincava
      com isto; Varrao ardendo com sua Leocadia;
   Isto tambem cantaram os escritos do lascivo Catulo,
      Que tornou Lesbia mais nota que a propria Helena
   Isto ainda revelou a pagina do douto Calvo,
      Como cantasse os funerais da infeliz Quintilia.
   Quantas feridas, ha pouco, da famosa Licoride
      Galo ja morto lavou em infernal agua!
   Cintia vivera louvada com o verso de Propercio,
      Se a Fama me desejar por entre esses.


Quando se observa o final da elegia 2B.34, alem de uma longa discussao generica que ocupa a maior parte da elegia, o que tambem se le ao final e a apresentacao do canone poetico properciano em que e posto em relevo o rol de seus antecessores e contemporaneos tendo em vista a materia erotica, apresentados com seus respectivos pares amorosos: Varrao e Leocadia, Catulo e Lesbia/Helena, Calvo e Quintilia, Galo e Licoride, finalizando com o proprio par, Propercio e Cintia. O distico final da elegia e do livro 2B, a meu ver, aponta para o inventario poetico de Propercio. Esse remate acumula caracteristicas de cada um dos pares sobre o seu proprio par: "hos inter si me ponere Fama uolet--Se a Fama me desejar por entre esses." Nesse sentido, nao haveria nada que poderia se obstar a fim de que lessemos: Propercio brincava com os versos, ardendo por Cintia; os versos do lascivo Propercio tornaram Cintia mais famosa que Helena; confessou muitas coisas porque cantou no funeral de Cintia e Propercio lavou as feridas de Cintia nos infernos. Ainda que soe forcada minha interpretacao, todas essas informacoes soam absolutamente verossimeis no programa poetico de Propercio, uma vez que muitas podem ser observadas claramente em suas elegias. Vejamos.

Propercio em contexto erotico usa algumas vezes o verbo ludo ou seu substantivo cognato ludus como em "tanta, in qua populus lusit Ericthonius;/ nec, quae deletas potuit componere Thebas--Nem outrora fora tamanha turba na (porta) de Tais de Menandro/ Na qual brincou o povo de Erictonio" (68), ao comparar as tres paradigmaticas prostitutas da literatura antiga com Cintia. O pentametro do distico, por sua vez, dirige o argumento para o campo semantico do fogo, tao elegiaco quanto properciano, da flama/chama, do ardor, do incendio, do calor, logo flamma e ignis ou verbos queimar, uro e arder, ardeo sao palavras que ocorrem na elegia romana e dela decorrem. Assim, ardent victrices et flammae pectora praebent,/ imponuntque suis ora perusta viris.--Ardem as vencedoras e as flamas oferecem os peitos,/ E bocas em brasa confiam aos seus machos (69). Sob a perspectiva dos escritos do lascivo Catulo (lasciui ... scripta Catulli), e de bom alvitre, observar que Propercio ja escrevera "et sua cum antiquae committit scripta Corinnae/ carminaque Erinnae non putat aequa suis.--E quanto ela compara seus escritos com os da antiga Corina/Poema nenhum julga iguais aos seus (70). Ou em "aetas prima canat Veneres, extrema tumultus:/ bella canam, quando scripta puella mea est.--Que cante a juventude amores; batalhas, a maturidade/ Cantarei guerras, pois minha menina ja foi escrita" (71). Em "me iuuet in gremio doctae legisse puellae,/ auribus et puris scripta probasse mea.--Que agrade ler no colo de uma douta menina/E com ouvidos simples aprove meus escritos." (72) Mas parece-me uma sintese o que propoe para o termo scripta em: "haec urant pueros, haec urant scripta puellas/ meque deum clament et mihi sacra ferant!--Que estes escritos ardam os meninos, ardam as meninas/ E que me conclamem e me elevem ao sagrado, (73)" tendo em vista os dois disticos subsequentes, esse exercicio e valido; o campo semantico de alguns termos-chave apresentados por Propercio em seu inventario poetico sao todos autorreferentes de sua propria poesia, logo ao propor que Lesbia tornou-se mais famosa que Helena, isto nada mais e do que uma captatio beneuolentia para dizer que Cintia certamente se tornou mais afamada que Helena. Ao dizer em 3.9.45: et mihi sacra ferant, responde a elegia 3.1. Parece-me que o poeta aponta para a perfeicao do fazer poetico tal como seu paradigma explicito em: "Callimachi Manes et Coi sacra Philitae,/ in uestrum, quaeso, me sinite ire nemus./ primus ego ingredior puro de fonte sacerdos/ Itala per Graios orgia ferre choros.--Manes de Calimaco e sacras fontes de Filetas,/ em vosso bosque, peco, deixai que eu adentre/ eu, o primeiro sacerdote, de fonte pura/ comeco a reger orgias italicas por coros gregos." (74)

4. Cintia Helena desnuda--conclusoes

Sob a perspectiva da perfeicao retorica, pictorica e poetica buscando aproximar esta ideia da Cintia de Propercio passo a tratar das homologias propostas por Cicero e por Dionisio de Halicarnasso quando discorrem a respeito da anedota sobre o quadro de Helena que Zeuxis teria pintado em Crotona. Ambos refazem o percurso do pintor, desvendando-nos os "misterios" da representacao da perfeicao, comeco por Cicero:

tum Crotoniatae publico de consilio uirgines unum in locum conduxerunt et pictori quam uellet eligendi potestatem dederunt. ille autem quinque delegit; quarum nomina multi poetae memoriae prodiderunt, quod eius essent iudicio probatae, qui pulchritudinis habere uerissimum iudicium debuisset. neque enim putauit omnia, quae quaereret ad uenustatem, uno se in corpore reperire posse ideo, quod nihil simplici in genere omnibus ex partibus perfectum natura expolivit. itaque, tamquam ceteris non sit habitura quod largiatur, si uni cuncta concesserit, aliud alii commodi aliquo adiuncto incommodo muneratur. (75)

Entao, os habitantes de Crotona a um unico local conduziram, por uma decisao publica, as virgens e ao pintor deram o poder que desejasse para escolher. Ele, por sua vez, escolheu cinco, cujos nomes muitos poetas propagaram a memoria porque foram aprovadas pelo juizo dele que devia te-lo justissimo sobre a beleza. Julgou, com efeito, que nao podia encontrar em um so corpo tudo que procurava para [representar] a beleza, pois que a natureza nada cultivou tao perfeito, em todas as partes, numa unica especie. E, assim, como [a natureza] nao haveria de possuir o que tivesse dado em abundancia a muitos, se tudo tivesse concedido a um unico tudo; ela presenteia a cada um vantagens em cada parte, tendo unido estas as desvantagens" (76)

Observe-se outro trecho relativo a mesma anedota, proposto por Dionisio de Halicarnasso:

[phrase omitted]. (77)

Zeuxis era um pintor muito admirado pelos habitantes de Crotona e estes, quando ele estava a pintar um nu de Helena, mandaram-no ver, nuas, as raparigas da cidade, nao porque fossem todas belas, mas porque nao era natural que fossem feias sob todos os aspectos. O que em cada uma havia digno de ser pintado reuniu-o ele na figuracao de um so corpo.

Assim, a partir da selecao de varias partes, a arte realizou uma forma unica, perfeita e bela. Tambem tu, da mesma maneira, tens a possibilidade de procurar no teatro formas de antigos corpos, de colher o melhor do seu espirito e, ao juntares a tudo isto o dom da erudicao, de modelar nao uma figura que se desgasta com o tempo, mas sim a beleza imortal da arte" (78)

O que devo salientar no trecho de Cicero acima, primeiramente, e a simultaneidade de modelos que concorrem para perfeicao. Quando Zeuxis se propoe a realizar um quadro de Helena cuja beleza, como ja vimos, nao e humana, isto significa dizer que a unica forma possivel de se processar mimetica e artisticamente esta equacao e tomar elementos de diversos modelos a fim de que o somatorio de qualidades emprestadas seja percebido por um so corpo, e dai, este composto se aproxime de uma suposta verdade de excelencia e perfeicao. Cabe ao orador, ao poeta e ao pintor selecionar no mundo empirico, logo concreto, elementos que possam ser rearranjados tecnicamente sem que se afastem do verossimil essencial. Parece-me que, em 2B.34.85-94, Propercio justamente contabiliza elementos poeticos extraidos de seu canone pessoal a fim de produzir sua elegia. Ocorre, entretanto, que isto e operado nao so no final da sua elegia, mas perpassa outros momentos. Logo no inicio desta mesma elegia, Propercio dirige-se ao interlocutor (desconhecido --nos moldes do livro 1), pedindo que ele se afaste da sua amada, comparando-se a um novo Menelau "Hospes in hospitium Menelao uenit adulter.--O hospede veio adultero na hospedagem de Menelau." (79), o ego-elegiaco propoe que Linceu, imite poetas: "Tu satius memorem Musis imitere Philitan/ et non inflati Somnia Callimachi.--Basta que imites nas Musas o rememorado Filetas e os sonhos do conciso Calimaco." A tomarmos este conselho associado a infidelidade sexual, os versos soam absolutamente incongruentes, ou, pelo menos, pouco coerentes, uma vez que nao e comum se enunciar: "afaste-se de minha mulher, e melhor ler poesia". Assim me parece claro que Propercio assinala mais uma vez uma questao metapoetica, apresentando seus modelos, seu canone. Nesse sentido, Linceu nao estaria tomando Cintia, sua amada, sua puella ou domina, mas sim a sua Cynthia scripta. A partir desta indicacao, a elegia decorre, seguindo a mesma orientacao argumentativa: Propercio passa a enumerar uma serie de autores dos quais teria colhido seu repertorio e daqueles dos quais se afastou por forca do genero de sua Cynthia. Outro elemento que me e caro e observar que o canone de Propercio assinala cinco mulheres: Leucadia, Lesbia, Helena, Quintilia e Licoris; sao justamente cinco as mocas selecionadas para que ele construa a sua Helena picta. Vale notar, entretanto, que a Helena em Propercio e parte de Cynthia. Mais do que uma coincidencia numerica, Cicero diz: "quarum nomina multi poetae memoriae prodiderunt", falando das mocas que serviram de molde, de exemplum para Zeuxis.

Ja em Dionisio de Halicarnasso encontramos outros aspectos interessantes. E o primeiro deles e que a nudez e parte essencial de sua construcao. As modelos, observadas por Zeuxis, das quais ele retinha as melhores qualidades, descartando as piores, estavam desnudas, sua forma nao poderia estar encoberta por nenhuma artificialidade. O pintor, o orador ou o poeta devem extrair da [phrase omitted], da natura sua materia de imitacao. Curiosamente, a ideia de nudez em Propercio surge no inicio do livro 2A, justamente no distico do qual foi extraido o titulo deste trabalho: <<seu nuda erepto mecum luctatur amictu, /tum vero longas condimus Iliadas--Ou se, ao tirar roupa, nua, luta comigo,/ Entao componho longas Iliadas." Entretanto, ainda que a nudez explicita perpasse todos os livros, a partir dos usos do adjetivo nudus (80) ou do verbo nudo (81), a sugestao de nudez tambem ocorre quando o poeta propoe o uso da veste de Cos ou da seda arabica, como foi visto. Outro aspecto que podemos antever em Dionisio de Halicarnasso e o da perfeicao e beleza a partir da arte: "[phrase omitted]--a arte realizou uma forma unica, perfeita e bela." Corrobora a hipotese de Cintia-Helena, poesia-pintura como metafora da perfeicao artistica a imagem construida a partir da nudez in natura:
   non iuuat in caeco Venerem corrumpere motu:
      si nescis (82), oculi sunt in amore duces.
   ipse Paris nuda fertur periisse Lacaena (83),
      cum Menelaeo surgeret e thalamo

   Nao e bom maltratar Venus com manobras as cegas:
      Se nao sabes: os olhos sao chefes no amor.
   Diz-se que ate Paris morreu por ver Helena nua
      Quando se levantou do leito de Menelau.


Assim, Cintia para Propercio e Helena para Paris e Zeuxis sao referencias de beleza, infidelidade e perfeicao e diante delas nuas, em si mesmas, mulheres, pinturas e elegias, nada alem da morte resta para o heroi e para o poeta e para o pintor. Quanto a nos, leitores e espectadores, resta-nos frui-las, poesia e pintura.

[Please note: Some non-Latin characters were omitted from this article]

DOI: https://doi.org/10.14195/1984-249X_21_5

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Recebido em Junho e aprovado para publicacao em Julho, 2016

Paulo Martins--Universidade de Sao Paulo (Brasil)

paulomar@usp.br

(1) ** Este trabalho foi apresentado parcialmente no VI Simposio Ousia de Estudos Classicos (UFRJ, IFCS) em 12/07/2016 e no 2 Ciclo de Seminarios do VerVe e do Lattim (Laboratorio de Traducao de Textos e Imagens) da Universidade de Sao Paulo em 10/08/2016. Agradeco aqui as sugestoes de Joao Angelo Oliva Neto da USP e Guilherme Gontijo Flores da UFPR. O mesmo e resultado parcial de pesquisa realizada na Yale University como Visiting Fellow com financiamento da FAPESP.

(2) Hom. Il. 3.156-160: "Nao e ignominia que Troianos e Aqueus de belas cnemides/sofram durante tanto tempo dores por causa de uma mulher destas!/Maravilhosamente se assemelha ela as deusas imortais./ Mas apesar de ela ser quem e, que regresse nas naus;/ que aqui nao fique como flagelo para nos e nossos filhos."--Traducao de Frederico Lourenco.

(3) Prop. 2A3.41-2. Se alguem quer superar a fama de antigas pinturas,/ Tome nesta arte minha mulher como exemplo. As traducoes sem credito, suponha-as proprias. Assumo a divisao do livro 2 de Propercio: da elegia 1 a 11, livro 2A; da elegia 12 a 34, livro 2B, Cf. Martins (2013, p. 70-85).

(4) Dalzell (1980, p.29-30): "In the sphere of myth the extent of Propertius' debt to Homer is difficult to assess precisely. Since the Iliad and the Odyssey provided the raw material for much of ancient literature and art, we cannot always be sure in a particular case whether Propertius borrowed from Homer directly or from later tradition. But there are sufficient instances where the obligation is clear and unmistakable to establish the nature of Propertius' debt. Even when he used a different version of a Homeric story, we should not be too quick to postulate a lost Hellenistic source."

(5) Helena de Euripides, O elogio de Helena de Isocrates e O elogio de Helena de Gorgias, sao exemplos precisos desta serie tematica.

(6) Cic. Inv. 2.1.-3. e DH, De Imit. 31.1.

(7) Plinio, o Velho (Plin. Nat., 35. 66) nao faz referencia a Helena de Crotona, como o fizeram Cicero e Dionisio de Halicarnasso, antes afirma que houve uma pintura de Helena feitas por Zeuxis em Roma no Portico de Filipo.

(8) Cic. Inv. 2.1; Martins (2011); Martins (2013); Martins (2013b, p.108-22).

(9) Dalzell (1980, p.31) propoe que todas as Maeoniae heroides citadas nominalmente por Propercio tornam-se para ele um paradigma de beleza ideal (sic).

(10) Antiteticamente a beleza de Helena tem-se o seu reconhecido vicio moral. Vale lembrar as palavras que ela mesma profere sobre si mesma em Hom. Il. 3.180.: "[phrase omitted]"--[falando de Agamemnon para Priamo, diz:] "Era cunhado da cadela que sou--Traducao de Frederico Lourenco. Haroldo de Campos propoe: "cunhado (se o foi) desta de olhos-de-cadela.". O termo [phrase omitted], genitivo singular de [phrase omitted], cadela deve ser observado sob a perspectiva etica: o LSJ ensina shameless one, enquanto Bally impudent. Em Hom. Il. 6.344, tem-se em outra fala de Helena: "[phrase omitted]" --"cunhado da cadela fria e maldosa que sou"--Traducao Frederico Lourenco. Haroldo de Campos propoe: cunhado desta cadela ma, de mente maliciosa e odienta.". A mesma construcao pode ser verificada na Odisseia: "[phrase omitted]" --Quando por causa da cadela que sou/ Vos Aqueus fostes para Troia". Mais uma banal relacao associando Helena a femea do cao, e-me clara a indicacao de coloracao sexual-etica, como em Prop. 4.5.73-74: "et canis, in nostros nimis experrecta dolores,/ cum fallenda meo pollice clatra forent."--"E a cadela desperta, que me dedurou/ quando tentei ludibriar a tranca."--Traducao de Guilherme Gontijo Flores. (Flores, 2014, p.288-9).

(11) Sugestoes de Joao Angelo Oliva Neto e Guilherme Gontijo Flores que propuseram que acentuasse essa caracteristica logo de saida neste artigo.

(12) Martins (2009); Martins (2015b, p.132-7); (2015c, p.150-62); (2015d, p.141-3); (2016, p.206-11); Wike (2007, p.35-9); Fear (2005, p.14-30).

(13) Ainda que a edicao adotada para a traducao seja a de Fedeli (1984, p.46) e (2005, p.37) e apresente cogis no lugar de uidi e, na mais recente edicao de Propercio, Heyworth (2007, p.34) prefira cerno, adoto a licao de Goold (1990, p.116), Viarre (2005, p.30) e Giardina (2005, p. 120): uidi. O uso cogis (v.5) parece-me ineficaz, ainda que produtivamente pudesse estabelecer um dialogo sonoro com a repeticao Cois (v. 5) ... Coa (v.6) ... capillos (v.7) ... cois (v.8).

(14) Segundo Fedeli (2005, p.57), o hiperbato coloca em relevo o termo maxima como epiteto de historia e indica narrativas historicas como aparece no Fr. 3 do novo Galo "maxima Romanae par<s> eris historiae" e nao eventos/fatos historicos. Tal fragmento e precisamente discutido por Anderson et alii (1979, p.141) e Putnam (1980, p.49-56), contudo este ultimo, nao como aqueles, pensa o termo como res gestae. O Fragmento: "tristia nequit[ia ... .]a Lycori tua / Fata mihi, Caesar, tum erunt mea dulcia, quom tu maxima Romanae pars eri<s> historiae, /postque tuum reditum multorum templa deorum/ fixa legam spolieis deiuitiora tueis./ ....].... tandem fecerunt c[ar] mina Musae/ quae possim domina deicere digna mea./.........]. atur idem tibi, non ego, Visce ../].......l. Kato, iudice te uereor."--"Triste [.....], Licoris, com as tuas malicias. Meu fado, Cesar, doce sera entao, quando tu fores a maior parte da historia romana e, depois da tua volta, eu ler que os templos de muitos deuses estao mais ricos com os teus espolios pendurados. [.........] enfim, as Musas fizeram cancoes que eu possa oferecer, dignas da minha senhora. [........] ado o mesmo a ti, Visco, eu nao [........ ], Catao, temo o teu juizo."--Traducao de Fabio Cairolli. (Cairolli, 2010, p.7).

(15) Giardina (1969, p.349-78); (2005, p.120), dictat. Por seu turno, Fedeli (2005, p.47) defendendo cantat aponta que esse nao e sinonimo de dictat, como quer Giardina, antes cantat distingue-se de canit por seu valor frequentativo e, nesse sentido, a presenca de totiens confirmaria o seu uso cujo sentido apontaria para "a ideia de apresentacao poetica repetida". O cantar, de um lado, e proprio de Caliope e de Apolo, enquanto o reconhecimento do papel de Cintia reside na sua capacidade de produzir talento (ingenium facere). Nesse sentido o ingenium depende complemente da amada. Vale observar 1.7.7-8: nec tantum ingenio quantum seruire dolori/cogor.

(16) Pensemos, por exemplo, na ode 4.15. Ver Martins (2011, p.139-45).

(17) ver Martins (2013, p.263-75); Miller (2009, p.93) e Heslin (2013, p.287).

(18) Miller (2009, p.313): "In 2.1, for instance, a refusal-poem whose framing of the book (in its present condition) with 2B.34 Gosling avers is aided by the use of Apollo to underline the recusatio, it is difficult to find even indirect Augustan significance in the single mention of the deity (2A.1.3-4): (...). Phoebus is indeed rejected here, but strictly as patron who would more regularly inspire a poet, along with the Muse. This provocative (and playful) way of highlighting his girlfriend's prominence in Propertius' imagination refigures his previous book's meditations on Apollo as personal Callimachean mentor.

(19) Agradeco a Alexandre Pinheiro Hasegawa a correcao no que concerne ao sentido da musa Caliope que eu havia antes associado a lirica. Ver Prop. 3.2.15-16.

(20) Cois ... Coa, relaciona-se diretamente 1.2.2: tenues Coa ueste mouere sinus. Ver Martins (2016, p.210-1). Parece-me que tanto la como aqui esta referencia as vestes de Cintia sao referencias metalinguisticas. Ver tambem: Tib. 2.3.53-4: illa gerat uestes tenues, quas femina Coa texit.Que ela tenha consigo vestes de tenues que a mulher de Cos teceu. Hor. S. 1.2.101-2: Cois tibi paene uidere est/ ut nudam.--Em veste de Cos quase parece estar como nua. Call. Fr. 532Pf. = [phrase omitted] --semelhante aquele escrito de Cos. Dalby (2000,151-2): "The reputation of Cos as the home of a kind of silk has the authority of Aristotle (PA 551b13) [...] The business conducted by the ladies of Cos would have ceased to be of interest once the Chinese silk moth had been naturalized in Europe in the sixth century AD. Until then, I 'a dress of Coan silk', perhaps a tenue pallium 'thin shift', was a most sensuous and revealing garment for a beautiful woman."

(21) Prop. 2B.34.31-32: "Tu satius memorem musis imitere Philitan/ et non inflate Somnia Callimachi."--"Basta que imites nas musas o rememorado Filetas/ e os sonhos do conciso Calimaco."

(22) Ov. Am. 1.1.3-4.

(23) Machado de Assis em Memorias Postumas de Braz Cubas, a respeito de Eugenia.

(24) Observe-se: as licoes para o v. 2.5.28: 1) Fedeli (1984, p.70) e (2005, p.172); 2) Goold (1990, p.134); 3) Viarre (2005, p.38); 4) Camps (1967, p.18); 5) Richardson (1976, p.60); 6) Paganelli (1980, p.42): Cynthia, forma potens: Cynthia, uerba leuis; 7) Giardina (2005, p.140): Cynthia, forma potens: Cynthia, moecha leuis; 8) Heyworth (2007, p.43): Cynthia, forma potens: Cynthia, uerna leuis.

(25) Na edicao de 1985: Veyne (1985, p. 10); na de 2015, Veyne (2015, p.10): demi-monde foi traduzido por mulheres de reputacao duvidosa.

(26) Sall. Cat. 24-25.

(27) Cic. Pro Cael. passim.

(28) Cic. Fam. 9.26.2.9-10.

(29) Ver Martins (2015b, p.132-7); Fear (2005, p. 14-7) e Wike (2007, p. 35-9).

(30) Prop. 1.1.1.

(31) Para o sonho de Calimaco. Cf. Acosta-Hughes; Stephens (2012, p.254) "to Ennius to Propertius, Virgil's recollection of Callimachus' dream, in which Gallus is imagined on Helicon and there initiated by the Muses (Ecl. 6.64-73), must also belong to this allusive matrix. However, Propertius' vision does not reflect the Callimachean original (as we have it)--the encounter with the Muses seems not to have been an initiation nor a moment when Callimachus was deflected from writing epic--but a Roman project to suit the circumstances of specific Roman poets."

(32) Prop. 4.7.95-96.

(33) Ov. Ars, 2.295-300. Traducao de Carlos Ascenso Andre.

(34) Prop. 2.1.13-16.

(35) O vocativo e epiteto de Cintia, tambem ocorre: 1.8.22; 2A.3.23; 2A.5.18; 2B.19.27; 2B.20.11; 2B.20.17; 2B.24.29; 2B.26.1; 2B.30.14; ou predicativamente em: 3.11.1: "Quid mirare, meam si uersat femina uitam/ et trahit addictum sub sua iura uirum"--Por que te admiras se a mulher se converte em minha vida/ e arrasta um homem sob sua ordem adicto.

(36) Hom. Il. 6.325-342.

(37) Segundo sugestao de Joao Angelo Oliva Neto, este verso de Propercio pode ser lido sob a otica da callida iunctura horaciana (Hor. Ars. 47-48), entendendo-a como mecanismo que envolve um arranjo exato e preciso de palavras, cuja articulacao ultrapassa a propria natureza sintatica do periodo, em que o poeta busca despertar no leitor novas possibilidades de leitura em vies estilistico para clara e certa compreensao do texto. Assim, e digno notar que o verso "dulcior ignis erat Paridi, cum Graia per arma" pode ser lido por obviedade semantica que contrasta com sua natureza precisa sintatica como "Paris tinha o fogo mais doce com a lide pela grega", ainda que Graia nesse casso seja um acusativo concordando com arma e o cum seja uma conjuncao temporal e nao uma preposicao. Como bem advertiu Gontijo Flores, podemos tambem assomar a questao o sentido de arma, tomado sexualmente, falos. Alem da propria estrutura do poema entre os vv. 29-36 que efetivamente ja poderiam corroborar esta segunda leitura, Camps (1966, p.92); Richardson (1977, p.348); Paganelli (1980, p.101); Moya & Elvira (2001, p.440), optando pela licao grata no lugar de Graia, corroboram a callida iunctura, dado que uma grata lide nao poderia se referir a uma luta de troianos contra os gregos, mas contra a grega, Helena. A meu ver, limitam o verso os que traduzem "pela guerra contra os gregos", em sentido mais amplo. Assim, mesmo que nao seja a grega, Helena, o referente, gregos tambem nao o sao, como querem Goold (1990, p.285); Giardina (2005, p.285); Nascimento et alii (2002, p.169).

(38) E interessante o paralelo entre este verso e o v. 2.13.12: Em "me iuuet in gremio doctae legisse puellae,/ auribus et puris scripta probasse mea.--Que agrade ler no colo de uma douta menina/E com ouvidos simples aprove meus escritos."

(39) Prop. 3.8.29-36.

(40) Hom. Il. 3.383-447.

(41) Ver Martins (2015, p.50-4).

(42) Para os vv. 43-6, ver Wyke (1989, p.25-47).

(43) vale observar os duas estruturas assimetricas em 43 um quismo, seguido em 44 de um paralelismo. No v. 43: (A) Nauita, (B) uentis--(B) tauris, (A) arator; v. 44: (A) miles, (B) uulnera--(A) arator, (B) ouis.

(44) Cf. Prop. 1.4.9 e 2.24.18.

(45) Os vv. 43 e 44 confirmam duas proposicoes de decoro e emulacao de Propercio: indicam as obras de Virgilio em hexametro datilico.

(46) [phrase omitted]. Epos cf. Hor. S. 1.10.43-44: forte epos acer,/ut nemo, Varius ducit--o vigoroso epos violento,/como ninguem, Vario compos. Para o contraste entre o epos e a elegia, Cf. Ov. Rem. 396: Tantum se nobis elegi debere fatendur/ quantum Virgilio nobile debet epos.--Tanto as elegias confessam dever a mim,/ Quanto o nobre epos deve a Virgilio.

(47) Prop. 1.1.5. me docuit castas odisse puellas--me ensinou a odiar meninas castas.

(48) E digno de nota o trabalho apresentado por Guilherme Gontijo Flores sobre a "Ironia em Propercio" apresentado durante o 2 Ciclo de Seminarios do VerVe e do Lattim da USP em 10.08.2016.

(49) Um stream of consciousness avant la lettre?

(50) Ver Martins (2015d, p.143-5).

(51) TLL VIII 1527.83 simplesmente indica "segundo o costume" =ex consuetudine.

(52) Sobre o locus das habilidades femininas e/ou beleza : Ov. Ars 3.315-50; AP 5.70; AP 5.131; AP 5.231.

(53) Burzacchini (1992, p.47): A sedurlo, asserisce dunque it poeta, non sono stati tanto i tratti della persona fisica della sua donna [...] quanto piuttosto la squisitezza del portamento e la raffinata cultura, grazie a cui ella, nell' ora del convito, sa incantare con le movenze della danza, novella Arianna, e, a gara con Saffo e con l'antiqua Corinna, si cimenta a comporre canti d'insuperabile pregio, degni nientemeno che delle Muse (v. 20).

(54) Prop. 1.1.1-2. Papanghelis (1987, p.56) afirma que Propercio nestes versos acentua sua capacidade pictorica, emulamdo a poesia alexandrina, tendo em vista as cores e a plasticidade.

(55) Prop. 1.2.2 e 2A.1.5-6

(56) Ver Martins (2016, p.210 e p.219-221).

(57) Fedeli (2005, p.146) salienta o uso de sapiens para qualificar Paris e de Menelau, afinal tal sabedoria comum so existe em relacao a Helena, amante do primeiro e esposa do segundo, portanto o termo aqui tem um sentido bem especifico e singular. Indo alem, penso que a sabedoria a que se refere Propercio, so pode existir no ambito da arte, ja que sob o aspecto etico, parece soar incongruente.

(58) Segundo Fedeli (2005, p.147) os termos lentus e poscebas sao caracteristicos da linguagem fiduciaria, isto e, sao utilizados para expressar quem e credor, aquele transige (reclama--poscebas), em relacao a um devedor que tarda a pagar (lentus). No caso Paris, deve a mulher a Menelau, logo, lentus.

(59) Menelau.

(60) Paris.

(61) Prop. 3.9.45.

(62) Prop. 2A.3.32.

(63) Prop. 2A.1.50.

(64) Prop. 2A.3.34.

(65) Cic. Inv. 2.1-4.; DH De. Imit. 31.1

(66) Prop. 2A.3.41-42. Ver Martins (2011, p.109): "A beleza em si nao possui representacao ([phrase omitted]) no mundo sensivel, logo dela nao trata Cicero, nem Zeuxis. Estao eles, sim, preocupados com um modelo, com um paradigma de beleza e, nesse sentido, preocupam-se com o decoro, com o aptum do discurso verbal para o primeiro e nao verbal para o segundo."

(67) Camps (1985, p.82): "this must mean in the first instance pictures by the old masters (Zeuxis, Apelles, etc.), admired as more beautiful than any products of more recent art. But it suggests also pictures of the legendary beauties of long ago such as Helen, cause of the great conflict between east and west.

(68) Prop. 2A.6.3-4. Guilherme Gontijo Flores bem lembrou o uso que Mario de Andrade da ao verbo brincar em Macunaima: Era que o heroi tinha brincado muito com ela ... Falou pra Sofara esperar um bocadinho que ja voltava pra brincarem ... Depois de brincarem tres feitas, correram mato fora fazendo festinhas um pro outro.

(69) Prop. 3.13.21-22.

(70) Prop. 2A.3.21.

(71) Prop. 2A.10. 8.

(72) Prop. 2B.13.12.

(73) Prop. 3.9.45

(74) Prop. 3.1.1-4.

(75) Cic. Inu. 2.3.1-13.

(76) Martins (2011, p.109).

(77) DH De Imit. 31.1.

(78) Martins (2011, p. 110). Traducao de R. M. Rosado Fernandes.

(79) Prop. 2B.34.7.

(80) 2A.1.13; 2B.15.13; 2B.19.15; 2B.24.52; 3.13.38;

(81) 2B.15.5; 4.8.47;

(82) De acordo com Heyworth (2007b, p.175) informa que esta segunda pessoa do singular tambem pode ser o leitor, dai podermos relacionar com o mesmo tipo de construcao de 2A.1 e 2A.3, como ja vimos.

(83) LIMC IV. 1.516, n.81. Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae.
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Author:Martins, Paulo
Publication:Revista Archai: Revista de Estudos Sobre as Origens do Pensamento Ocidental
Article Type:Report
Date:Sep 1, 2017
Words:12798
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