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Tratados de dietetica, modos de alimentacao e problemas de linguagem: um tratado latino de Andre Antonio de Castro, seculo XVII.

Ainda que um titulo como De qualitatibus alimentorum (1) pudesse remeter para uma das muitas traducoes latinas de Galeno, estamos perante o mais interessante tratado portugues de higiene de vertente dietetica do inicio do seculo XVII, da autoria do medico Andre Antonio de Castro, fisico-mor da Casa de Braganca, ainda marcadamente arabico-galenico, como desde logo o titulo deixa entrever, edificado sobre a fisiologia humoral, que vivia entao o seu ultimo periodo de gloria (2).

A partir da obra deste autor gostariamos de reflectir sobre a forma como a dietetica, importante vertente das ciencias medicas desde a Antiguidade, era declinada e difundida nas centurias de Quinhentos e de Seiscentos em Portugal, em contraste com o resto da Europa. O enquadramento cientifico passa por avaliar o peso da tradicao classica (hipocratico-galenica) numa epoca em que a pratica experimental comecava a refutar a autoridade do passado e as linguas vernaculas principiavam as suas incursoes em dominios do saber ate entao edificados sob um constructo teorico e lexical greco-latino.

1. Enquanto, no seculo XVI, Portugal parece acompanhar a evolucao da medicina do resto da Europa, o mesmo nao se pode dizer sobre a centuria de Seiscentos; todavia, uma das areas da medicina mais bem representadas e a Hi giene (3), onde se inscrevem os escritos associados a dietetica. O De qualitatibus alimentorum, publicado em 1636, ainda sob dominio filipino, sera um dos ultimos escritos autonomos sobre dietetica redigido em Latim, posto o grande interesse que a materia, em Portugal como no resto da Europa, despertava entre uma populacao que, impulsionada pela ciencia medica, manifestava interesse em prevenir os problemas de saude atraves da higiene alimentar. Alem de os factores socioeconomicos (recuo de epidemias, maior area de terrenos cultivados, menor pressao da fome, apesar de serem recorrentes alguns episodios ate ao seculo XVIII) favorecerem uma preocupacao que ultrapassa a mera subsistencia, assistiu-se paulatinamente ao instalar de uma nova mentalidade com reflexo nos cuidados de saude: todo o homem deve ser medico de si mesmo, cada um deve consumir alimentos e vinhos de acordo com a sua natureza, de modo a preservar o equilibrio do corpo--e da alma--e, deste modo, garantir a longevidade.

No final do seculo XVI e ao longo do XVII, regista-se por toda a Europa um maior acervo na producao de obras de dietetica e de nutricao. Tambem em Portugal e no final de Quinhentos e na primeira metade de Seiscentos que surgem os tratados especificamente sobre higiene alimentar, onde, a par de regras universais, deparamos com preceitos que espelham a realidade do nosso pais, sobretudo ao nivel das especies de flora e de fauna consumidas. Referimo-nos, pois, as obras Commentarii de varia rei medicae lectione (1564) de Garcia Lopes, De regimine cibi atque potus (1594) de Henrique Jorge Henriques, Tractatus de sex rebus non naturalibus (1602) de Fernando Rodrigues Cardoso, e, finalmente, ao tratado de Andre de Castro de 1636, que nos ocupara. As quatro obras espelham as duas correntes cujo confronto movimenta a ciencia medica europeia, desde o Renascimento: a tradicao escolastica galenico-arabica, assente nos textos gregos regressados a Europa atraves das escolas arabes depois traduzidos para latim, e a reaccao humanista a autoridade galenica traduzida num novo ideal hipocratico, associado a defesa da observacao e da experiencia.

Curiosamente, nao foi o conhecimento directo dos textos gregos redescobertos no Ocidente que levou ao interesse pelos tratados hipocraticos, pois o suico Paracelso (1493-1541) (4), embora influenciado por Nicolau Leoniceno (5), de quem foi discipulo em Ferrara, nao sabia Grego e fez o seu juizo a partir de textos que circulavam em traducao latina, e o mesmo aconteceu com Vesalio e outras figuras da anatomia e da botanica medica do seculo XVI, empenhados em lutar contra a autoridade de Galeno. No conjunto de autores portugueses, apenas o muito viajado Garcia Lopes se destaca pela contestacao dos preceitos galenicos, que conhece bem, e pela adesao ao novo movimento humanista pela forma como comenta Hipocrates--em particular nos capitulos I, XII e XIV dos seus Commentarii--sem servilismo e, tanto quanto nos pudemos aperceber, certamente com conhecimento da lingua grega, o que era raro (6). Os restantes medicos, ainda que citem varios autores antigos e alguns contemporaneos (sempre em muito menor numero), continuam a fundamentar a auctoritas na tradicao galenica, facto que, em abono da verdade, nao e uma realidade estritamente nacional. Um estudo feito aos inventarios das bibliotecas dos medicos franceses entre os seculos XVI e XVII demonstra uma maior presenca dos antigos e de Galeno no topo da lista: referido145 vezes, seguido de Hipocrates 121, Diocorides 30 e Paulo de Egina 23. Em contrapartida, sao muito reduzidas as referencias aos contemporaneous (7).

Verifica-se, porem, que, ao contrario de outros paises, onde a partir do seculo XVI se editam obras sobre alimentacao nas linguas nacionais (8), entre nos o Latim so dara lugar ao Portugues no seculo XVIII, facto que esta na origem da grande divulgacao de Anchora medicinal para conservar a vida com saude (1721) de Francisco da Fonseca Henriques (9), bastante inspirada na de Andre de Castro, e logo depois A Vida com Arte e Arte com Vida (1722) de Manuel Leitao. A manutencao do Latim entre os autores de Quinhentos e de Seiscentos inscreve-se na tradicao erudita do meio academico, que, tambem entre nos, pretende manter os conhecimentos cientificos entre uma elite.

2. Ainda que a ciencia da alimentacao, a bromatologia (Ppropa, [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], discurso), enquanto disciplina, se tenha autonomizado somente no seculo XX, multiplicaram-se, ao longo dos seculos, os tratados de facultatibus ou de qualitatibus alimentorum ao servico de uma ciencia alimentar considerada, como refere Andre de Castro, a mais util de todas quantas integram a medicina. O interesse pelas qualidades dos alimentos e pelos regimes vem de longe e inscreve-se, desde a Antiguidade, nos preceitos religiosos e do direito, que tentaram regularizar alguns conceitos dieteticos, antes destes integrarem os cuidados preventivos e curativos de saude dos primordios da medicina de caracter racional.

A associacao entre alimento e saude esta patente nos primeiros escritos de natureza filosofica e cientifica, havendo mesmo uma forte relacao entre a filosofia moral e a antiga dietetica. Afinal os medicos consideravam a medicina como uma area da filosofia; Galeno reflecte esta ideia num pequeno tratado Que um excelente medico e tambem um filosofo ([TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]). Recordemos Platao num excerto do Fedro (10) em que Socrates inquire o seu interlocutor sobre o metodo para conhecer a natureza da alma e este se refere ao principio hipocratico da necessidade de conhecer a natureza do todo para conhecer a natureza da parte.

Por outro lado, sendo o conceito de saude da Antiguidade de caracter negativo (11)--sobretudo entre os Romanos--i.e., a saude e definida enquanto ausencia de doenca, compreende-se a forte componente da higiene alimentar nos escritos medicos, que preconizam uma accao preventiva. E o caso dos sessenta e dois escritos que compoem o Corpus Hippocraticum (12), onde os cuidados com os alimentos estao omnipresentes, ainda que se evidenciem em Sobre a alimentacao e Sobre a dieta em estado de saude, especificamente dieteticos ou em Sobre a dieta em enfermidades agudas e Sobre o uso de liquidos, de caracter terapeutico.

Na verdade, a crenca de que na qualidade dos alimentos ou na quantidade a ingerir esta a origem das doencas ou a preservacao da saude e visivel na celebre maxima da escola hipocratica "que o teu alimento seja o teu melhor medicamento". Subjacente a esta definicao de saude esta a teoria humoral da escola de Cos, depois interpretada por Galeno e veiculada pelas escolas arabes. Esta ideia permanecera ate ao seculo XVII, nao so devido a ultima grande voga do galenismo, mas tambem pela renovada popularidade dos textos hipocraticos. Um celebre contemporaneo de Castro, Francis Bacon (1521-1626), o pai da experimentacao e da observacao, e.g., defende que o papel da medicina era curar uma doenca, enquanto o regime alimentar adequado tinha por funcao prolongar a vida com qualidade. Parte do sucesso desta concepcao reside na sistematizacao de categorias de analise, permitindo uma aplicacao logica que facilitava o diagnostico e a terapeutica: humores, constituicao do individuo e qualidades.
Humor             Orgao       Qualidades        Constituicao
                  associado

Sangue            Coracao     Quente e humido   Sanguineo
Bilis amarela     Figado      Quente e seco     Colerico ou bilioso
Bilis negra       Baco        Frio e seco       Melancolico
Fleuma ou linfa   Cerebro     Frio e humido     Fleumatico


Desenvolvendo as teorias dos quatro elementos dos filosofos naturalistas, partia-se do principio de que cada corpo humano devia a sua constituicao a combinacao de qualidades existentes em todas as substancias organicas, compostas por um ou mais dos quatro elementos existentes (terra, ar, agua e fogo), com as suas qualidades: a terra seca, o ar frio, a agua humida e o fogo quente. De acordo com a combinacao encontrada, a cada tipo de constituicao estaria associado um humor; um individuo de constituicao melancolica, e.g., tinha um predominio de bilis negra, caracterizada por ser fria e seca. Dado que os mesmos quatro elementos tambem entravam na composicao dos alimentos e definiam os tipos de digestao e os efeitos desta, os alimentos foram classificados de acordo com as qualidades usadas para identificar os humores e automaticamente se reconhecia qual a comida mais adequada a cada tipo de constituicao. Estas nocoes dieteticas asseguravam que nenhum outro humor em excesso alteraria a constituicao do individuo e faziam do alimento o principal medicamento. No pressuposto hipocraticogalenico de que contraria contrariis curantur recomendava-se a uma crianca, cujo grupo etario se considerava fleumatico, um regime alimentar em que predominasse o elemento quente. Assim, a saude nao seria mais do que o justo equilibrio--nocao fulcral no desenvolvimento das ciencias da biologia e da psique na Antiguidade--dos quatro humores ao longo da vida (tendo em conta o sexo, a idade, a estatura, os tipos de actividade e as estacoes do ano).

A racionalidade desta construcao, para a qual contribuiriam Aristoteles e Claudio Galeno (129-199) o medico de Pergamo, cuja maior parte da vida decorre em Roma a exercer ao servico dos imperadores antoninos, vingou, manteve-se inabalavel e converter-se-ia numa taxinomia universal com uma terminologia especifica (grega, depois latinizada), aplicada ao homem e ao alimento ingerido. As suas obras que melhor espelham os principios dieteticos sao, obviamente, as mais citadas nos tratados de bromatologia: De sanitate tuenda, De alimentorum facultatibus--a que deste grupo maior numero de traducoes mereceu--De bonis malisque sucis, um epitome da anterior feita pelo proprio Galeno, De uictu attenuante e De ptisana (13).

A perenidade destas doutrinas, a que nao e alheio o conformismo cientifico, traduziu-se no conservantismo de um lexico medico ao longo de cerca de quinze seculos e que so o Renascimento comecaria por alterar. Efectivamente, tres factores, em nosso entender, se afiguram determinantes nesse periodo. O mais notorio sera, por certo, o contacto com os textos gregos trazidos pelos muitos eruditos fugidos de Constantinopla recem-chegados ao Ocidente, em particular a Italia, e que conferem um novo impeto a traducao das obras medicas gregas, antes difundidas maioritariamente em versoes latinas vertidas a partir das traducoes feitas por autores arabes. Este dialogo directo com as fontes gregas reveste-se de duas consequencias imediatas: o intensificar de helenismos tecnicos e, como nao deixaria de ser, dado que se verifica uma forte alianca entre humanistas e homens de ciencia, uma capacidade de criar neologismos mais rigorosos--pelo menos assim o entendiam - a partir de etimos gregos, ainda que latinizados. Por outro lado, a descoberta do corpo humano, cuja nudez a arte reproduz, atendendo ao criterio estetico das novas regras da proporcao, tem o seu reflexo cientifico no intensificar da pratica da dissecacao, integrada na anatomia (14), que conduz a uma necessidade de organizar uma nomenclatura anatomica latina (mais latina do que grega, pois o Latim permanecera a lingua de referencia cientifica (15) sobretudo entre os medicos ingleses e alemaes, nos ultimos ate o seculo XX) capaz de englobar orgaos antes nao descritos. Testemunha-o a preocupacao de Vesalio (1514-1564), na sua De humani corporis fabrica (1543), obra anatomica que, sem contradizer directamente Galeno, vem retirar autoridade a determinadas descricoes do medico de Pergamo por seculos dogmaticamente incontestadas. Ainda que a terminologia adoptada nao seja muito consistente e nem sempre tenha merecido a adesao dos seus sucessores, Vesalio procura estabelecer uma lexicografia medica passivel de aceitacao universal. Celso, que fora redescoberto no Ocidente em 1426, tornara-se a principal fonte de terminologia medica da Renascenca, mas revelava-se insuficiente face ao novo investimento na anatomia (16). Por ultimo--e tambem do ponto de vista cronologico -, a producao de escritos nas linguas vernaculas, depois intensificada na centuria de Seiscentos, viria inaugurar um novo capitulo na terminologia medica com a criacao de vocabulos directamente vertidos--entre nos nem sempre com rigor (17)--dos gregos e latinos. Neste ambito, embora nao haja uniformidade na edicao de livros medicos em todas as regioes da Europa, verifica-se, como afirmamos, desde o fim do seculo XVI e ao longo do seguinte, uma proliferacao de obras sobre higiene alimentar escritas nas linguas nacionais.

3. Fruto da aceitacao das doutrinas vigentes, em particular as arabico-galenicas (18), mais do que da experiencia do autor--como a maioria dos contemporaneos (19)--, os dez pequenos tratados do De qualitatibus alimentorum pouca novidade apresentam no dominio especifico da terminologia medica corrente no latim humanista. Sem dominar o grego, mas bastante versado no latim, Andre de Castro comenta e cita amiude, umas vezes pelo sentido outras sendo fiel aos textos consultados, as obras de Galeno a partir das edicoes latinas, extremamente difundidas no seculo XVI (20). Durante toda a centuria, sobretudo a partir de 1525, sao editados 630 titulos de Galeno, sem contar as edicoes de Opera omnia, menos publicadas por serem onerosas.

Os vocabulos sobre digestao e dietetica pertencem quase exclusivamente a medicina antiga. Verifica-se, todavia, uma variedade lexical que, mais do que um proposito estilistico, remete para a diversidade de fontes, ora de origem grega mais erudita (menos frequente), ora de registo mais coloquial, de que daremos exemplos. Assim, a propria digestao, faseada por tres coccoes de acordo com as doutrinas de Galeno e de Avicena, e denominada digestio, ou coctio, substantivo igualmente usado em contexto da cozedura de alimentos. Relativamente aos orgaos, uentriculus, diminutivo de uenter, cujo uso se restringe a linguagem cientifica, concorre com stomachus para designar o estomago, tendo este ultimo menos ocorrencias do que uentriculus, porque, em determinados contextos, costuma referir o esofago. Do mesmo modo, para o figado tanto encontramos o helenismo erudito hepar como iecus; tambem o fluido ou humor aquoso da bilis tanto e identificado por humor, acompanhado por um adjectivo ou por um determinativo, como pela forma ichor ([TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]) Mas tambem deparamos com lexico pertencente a um latim tardio, recorrente em alguns tratados medicos salernitanos: e o caso do substantivo sanguificatio e do gerundio sanguificandi, por certo a partir do verbo sanguificare, i.e., converter o alimento em sangue, assim como do substantivo comestio para especificar uma tomada de alimento, sem com isso designar uma refeicao propriamente dita. No dominio dos neologismos pouco ha a registar; reteve a nossa atencao, e.g., a forma participial parenchimans, formada a partir do helenismo parenchymatum ([TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII]) que designa os orgaos glandulares ou o substantivo reconcentratio, com reforco dos prefixos re- e cum- para indicar o excesso de concentracao de calor provocado pela ingestao. Ja se sabia que os alimentos podiam queimar e produzir calor, embora ainda fosse desconhecida a nocao de caloria, e se ignorassem a composicao dos alimentos, as tabelas dieteticas, a comparacao dos valores alimentares ou principios gerais de metabolismo; na verdade, identificavam-se as doencas causadas pelo efeito da ingestao de determinados alimentos.

Mas se o excessivo apego a matriz teorica, manifestado logo no proaemium e no primeiro tratado intitulado De alimento in uniuersali, nao traduz inovacao cientifica nem torna o texto um repositorio dos neologismos decorrentes, surpreende-nos a capacidade de aclimatar o conspecto teorico a realidade portuguesa. No caso de Andre Antonio de Castro, sendo a obra editada ainda sob dominio filipino, nao podemos deixar de supor algum proposito patriotico, dada a estreita proximidade com a casa ducal de Braganca, ao servico da qual entra em 1586. Ter-se-a aplicado a medicina por sugestao do duque D. Teodosio II, cuja casa serviu fielmente (21), e sera depois medico de D. Joao IV, que acompanhara a Lisboa, onde vem a falecer em 1642. Assim, a partir do segundo tratado, deparamos com todas as rubricas ilustradas por especies autoctones e habitos alimentares nacionais. Este facto suscita dificuldades obvias ao nivel lexicografico, obrigando o autor a recorrer a uma estrategia adequada a sua explanacao bromatologica.

Propomo-nos exemplificar estas caracteristicas com o tratado II De pane, et tritico, onde se procede a analise das qualidades dos cereais e dos diferentes tipos de pao. Nao e por acaso que e este o tema que abre a exposicao sobre os diferentes tipos de alimentos: segue a tradicao dos tratados de dietetica ao inaugurarem as explanacoes sobre especies consumiveis com a rubrica dedicada aos cereais. Tal como os seus antecessores e contemporaneos, Andre de Castro nao so considera o pao um alimento universal, como lhe reconhece propriedades no combate a doenca: <<panem uniuersalius esse alimentum, quia cum pane caetera omnia eduntur, eorumque, malitiam ipse emendat>>, mais do que isso Panes dicitur theriaca aliorum alimentorum: os paes constituem uma teriaga, uma panaceia (22), para os males causados pelos efeitos da ingestao dos restantes alimentos.

A dependencia do cereal forjou a mesa do Velho Mundo. Essa consciencia atravessa as linguas de matriz cultural greco-latina e converteu em sinonimos de alimento os vocabulos associados a designacao das especies de graos ou a sua transformacao (sob a forma de papas e depois sob a forma de pao). A historia das civilizacoes foi sempre condicionada pela obtencao e producao dos alimentos, quer para assegurar a sobrevivencia, quer para evitar deficiencias. A preocupacao com a escassez ditou, ainda na Antiguidade, a regulamentacao das reservas alimentares que, na regiao mediterranica, assentou nos produtos ricos em hidratos de carbono de origem cerealifera, a base da alimentacao, complementada com outros produtos, regra geral vegetais, acrescidos ocasionalmente de produtos carneos (pecuaria e caca) e, nas zonas costeiras, o peixe. Quando as crises de producao incidiam no produto base surgia o que se designa por ma nutricao quantitativa, originando as grandes fomes e as consequentes doencas endemicas; todavia, quando as carencias estavam associadas aos complementos surgiam as mas nutricoes qualitativas e as eventuais deficiencias. Dai a apologia que os tratados dieteticos, ao longo dos seculos, fazem de uma alimentacao variada (23).

No sul da Europa, foi a matriz vegetariana de influencia greco-romana, simbolizada pela triade pao, vinho e azeite, que viria a desenhar a mesa das regioes mediterranicas. Em contrapartida, as tribos ibericas, celticas e germanicas, dependentes de uma economia silvopastoral (caca, pesca, recoleccao de frutos silvestres e pecuaria de floresta, em particular suinos) tinham uma mesa acentuadamente carnea. A cultura mais importante era a horticola, uma vez que a cerealicultura, mais esporadica, tinha por objectivo a producao de cerveja. A medida que os povos se foram entrecruzando, os dois modelos alimentares influenciaram-se mutuamente: o consumo do pao generaliza-se e a carne integra com mais frequencia a mesa do sul. As grandes diferencas, mais do que geograficas, far-se-ao sentir ao nivel dos grupos sociais: as mesas abastadas com carne fresca e pao branco e os mais pobres com carne de salga, ou outra forma de conservacao, e pao escuro.

O nome do tratado indicia, desde logo o cereal por excelencia, o triticum, trigo, apontado como o mais indicado para a confeccao de papas e fabrico de pao. Mas a especie triticum apresenta variedades que o uso local privilegiou. Como referir qualidades de pao e de cereais autoctones? Melhor, de que modo identificar inequivocamente especies autoctones cuja designacao em Latim se desconhece? Ainda nao estavam feitas as classificacoes botanicas inauguradas por Lineu.

Desde a Antiguidade, cada lingua encontrara vocabulos adequados para designar as especies, havendo uma riqueza lexical em particular para as plantas uteis, sobretudo as comestiveis. Na Europa medieval, so as especies correntes na medicina e na farmacopeia tinham uma nomenclatura latina atribuida com aceitacao generalizada. No dominio das plantas de uso culinario, o nome latino nem sempre existe ou e mais frequente a confusao. As descobertas no Novo Mundo e o maior empenho na observacao da Renascenca obrigam a <<l'extension de l'inventaire botanique a tous vegetaux, utiles ou non [et] conduit les savants a utiliser des periphrases pour designer ceux qui n'avaient pas encore ete nommes>> (24).

Antes de Lineu usavam-se nomes longos, geralmente com recurso a expressoes retoricas desnecessarias, compostos por um nome generico e por uma frase descritiva da propria especie (a differentia specifica), que constituia a parafrase. Verifica-se, todavia, que nem mesmo esses nomes eram fixos, pois cada autor parafraseava o descritivo, acentuando os caracteres que considerasse mais relevantes (25).

Andre de Castro tem por primeiro destinatario um publico que domina o Portugues (26), por isso resolve a situacao nomeando a especie em Latim, mas faz a identificacao da variedade pelo nome comum em Portugues, em italico, na sequencia da frase ou abrindo parenteses. Antes ou apos introduzir o nome vernaculo, explicita as caracteristicas atraves de uma parafrase, com a terminologia tradicional, mas recorrendo com frequencia a auctoritas dos Antigos.

A identificacao dos tipos de gramineas adequadas a panificacao, comeca, pois, pelo trigo, distinguindo tres variedades, apresentadas por ordem da qualidade. Em primeiro lugar o triticum <<mourisco, uel anafil, quod mellius est, magis densum, durum, et flauum, qui color maiorem in eo attestatur calorem>>. Estamos perante a variedade de trigo duro (Triticum durum Desf.) cujas designacoes mourisco ou anafil (27) o autor considera sinonimos. Indica depois um <<secundum triticum [...] paruum, durum et subflauum, friabile tamen et succo glutinoso non constans dictum (tremes)>> o trigo tremes (trimensis) (28), cujo nome, um provincianismo, decorre de nascer--semeado em Marco--e amadurecer num prazo de tres meses. Surge, por fim, o <<Tertium est minusnobile, quia impurioris succi, dictum (galego)>>, i.e. o trigo galego-barbado, um trigo mole (Triticum vulgare Host.), com grao escuro, eliptico, pequeno ou mediano, usado em varios locais da Beira, Estremadura, Ribatejo, Alentejo e Algarve, que, apesar de mais escuro, hoje se considera produzir boa farinha para pao. Apos hierarquizar os tipos de trigo, deparamos com os paes de outros cereais, considerados de menor qualidade como o milho (milium) e a cevada (grafada ordeum em vez de hordeum), sem elencar variedades locais.

Curiosamente para periodos de penuria, Castro propoe uma planta aquatica, a typha (Typha latifolia L.), mais conhecida nas variedades ornamentais, cujo rizoma, apanhado no fim do Inverno, e bastante nutritivo. Neste caso, pensamos estar perante uma cedencia a literatura e nao face a um habito alimentar, que tenhamos podido ver referenciado em territorio portugues noutros testemunhos da epoca.

Fecham a listagem de cereais as especies passiveis de entrar na composicao do pao de mistura. Uma vez mais recorre-se ao Portugues para ajudar a definir o que o autor considera serem dois sinonimos latinos: <<eruum scilicet siue orobum (eizirao)>>. Mas serao os vocabulos eruum, e orobus, duas designacoes para a mesma especie? Enquanto eruum indica, em nosso entender, o Lathyrus satiuus Lin., o chicharo, a leguminosa anual, espontanea na Beira litoral, usada na alimentacao de pessoas e de animais, ja orobus e o chicharo miudo, Lathyrus Cicera Lin., ainda hoje conhecido como cizirao, regionalismo proximo do seiscentista eizirao. A diferenca, conforme apuramos, e grande, pois o primeiro pode ser prejudicial a saude, causando o latirismo, o segundo cresce em todo o pais e dele aproveita-se quer a folha para forragem quer o grao para a alimentacao humana. Surge em seguida o lolio, Lolium Lin., indicando a forma de evolucao popular em Portugues, joio, mais facilmente reconhecivel, a par de um terceiro vocabulo, zizama referenciado na obra de Johannes Serapion (29): <<lolium, (joio) quod apud Serapionem dicitur zizama>>. O substantivo zizama e uma variante (por ma leitura), com poucas ocorrencias atestadas, de zizania, uma forma latinizada do grego [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], etimo na origem de cizania, que entre nos esta atestada a partir do seculo XVI. O joio e bastante usado na regiao mediterranica, pois trata-se de uma variedade rustica de cevada, que tem um grao redondo (o do trigo e oblongo, dai a expressao separar o trigo do joio). Cremos que o autor se refira ao Lolium ternulentum Lin., uma das oito gramineas desta tribo das hordeaceas mais comuns em Portugal.

E, por fim, o pao de mistura com espelta: <<alicam (quae alio nomine chondrus dicitur)>>. Nao se apresenta traducao vernacula, uma vez que o Triticum Spelta Lin. nao e cultivado em Portugal, mas sim um sinonimo pouco recorrente chondrus, forma latinizada de [TEXT NOT REPRODUCIBLE IN ASCII], aplicavel a espelta, entre outras gramineas.

Para terminar, refira-se a segunda das oito distincoes feita as qualidades de pao, que e a diferenca entre os tipos de farinha: <<panis differentia sumitur ex farinae uarietate>>. Enumeram-se cinco variedades de pao consoante as farinhas utilizadas: primus sigilinius: secundus semilaceus: terteus confusaneus: quartus sordidus, uel secundarius: ultimus furfuraceus. O leitor poderia considerar o lexico latino suficiente para determinar as qualidades de farinha e, pelo paragrafo introdutorio a materia, os adjectivos qualificativos premitem distincoes bastante funcionais. Mas nao e esse o parecer de Andre de Castro; ciente de que os vocabulos que designavam as moagens da Antiguidade nem sempre tinham correspondencia nas epocas posteriores nem permitiam identificar com rigor as variedades no conspecto nacional, completa as referencias com a explicitacao vernacula, sempre entre parenteses.

O sigilinius panis, de melhor qualidade e fabricado com siligo, farinha-flor, fruto da primeira moagem, a mais alva, feita com a parte central do nucleo do grao, dai a designacao <<de olho de farinha>>. O semilaceus panis, mais escuro do que o anterior, e feito com o produto da segunda moagem, pois a medida que a farinha se afasta do centro torna-se mais escura; por isso explica-se: <<est autem semilago, quae uulgo dicitur (semea)>>. Uma vez que similago, ou a variante simila (de onde vem "semea"), tambem pode designar farinha-flor, o autor preferiu acrescentar o vernaculo "semea", que nao oferece duvida, por ser o nome dado a parte que se tira do trigo peneirado depois de separar-se do rolao. Vem em terceiro o confusaneus panis, de confusus com o significado misturado, por isso acrescenta-se <<uulgo (de toda a farinha) est ille in quo permiscetur tenius, et crassa farina simul cum furfure>>, ou seja com farinha fina e mais espessa misturada com farelo. Em quarto lugar surge o sordidus uel secundarius panis, bastante mais escuro por isso sordidus, literalmente sujo, feito apenas com a farinha que nao passa na rala ou crivo: <<uulgo (de rala) ille est, qui sit ex (relam) uel ex tota farina per cribum rarum, pisa, uulgo (pineira rala)>>. Ou seja a farinha da ultima moagem, o rolao. O ultimo pao de todos e o furfuraceus panis, que pela sua ma qualidade e apelidado pao dos caes: <<uero panis potius canum, quam hominum eii cibus omnium minime nutriens, et omnium maxime per aluum subsidens>>; trata-se de pao feito apenas com farelo, que nao alimenta mas enche.

Esta hierarquizacao testemunha a preferencia que, tal como na Antiguidade, na epoca se dava ao pao alvo feito com farinha refinada. Na verdade, os medicos recomendavam o pao escuro para as classes trabalhadoras com estomago mais forte, embora o pao escuro ou de mistura nunca tivesse gozado de popularidade entre os mais humildes. De qualquer modo, os medicos aconselhavam o pao de mistura com trigo, centeio, cevada e outras gramineas que os tornavam mais pesados como um bom remedio para combater a obstipacao e o ergotismo. Curiosamente nao se faz referencia ao pao de centeio, comido pelos mais pobres.

No panorama dos tratados portugueses de dietetica da sua epoca o De qualitatibus alimentorum dificilmente podera constituir um marco pela inovacao apoiada no experimentalismo; Andre de Castro nao refuta nenhuma ideia tradicional sobre o metabolismo nem apresenta uma nova classificacao para os alimentos; a sua originalidade, porem, reside na capacidade de adequar um quadro teorico a uma realidade que conhece e e conhecida dos seus leitores. A estrategia utilizada, quer no ambito lexical quer da gramatica das praticas alimentares, permite-nos comprender um estadio da bromatologia.

Os tratados de bromatologia nao tem sido objecto de particular estudo no nosso meio; permitem-nos, todavia, entrar nao so na historia da medicina e do lexico das ciencias medicas e naturais, mas tambem na historia da alimentacao em Portugal. O tratado que foi objecto da nossa analise leva-nos aos tempos de Quinhentos e Seiscentos, anteriores a circulacao de livros de receitas e obras de divulgacao de dietetica em lingua vernacula.

Ines de Ornellas e Castro

CEC--Fac. Letras, Lisboa

iorncastro@netcabo.pt

(1) Trata-se de um dos cinco tratados incluidos no conjunto de estudos publicado com o titulo De febrium curatione libri tres. Quibus accessere duo libelli De simplicium medicamentorum facultatibus, et alter De qualitatibus alimentorum, quae humani corporis nutritione sunt apta, que compreende tres livros de patologia medica, dois de farmacologia e este de higiene alimentar, constituido por 10 tratados. A febre, que na epoca era ainda impossivel medir, designava o mal-estar, em geral, acompanhado de hipertermia acentuada, entendida como prenuncio do desequilibrio dos humores.

(2) Embora ja tivesse havido estudos sobre a circulacao do sangue como os de Ibn Nafis, em Damasco no seculo XIII, e de Michel Servet, em Lyon no seculo XVI, e a Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in animalibus de W. Harvey, dada a estampa em 1628, que faz tremer os alicerces das ideias tradicionais de equilibrio dos fluidos humorais e gera acesa polemica com troca de libelos e panfletos entre "circuladores" e "anticirculadores". Pois a circulacao - termo antes cunhado por Realdo Colombo no trabalho realizado em Padua em Quinhentos -, investigada pela analise pratica conduz a descoberta de dois sistemas distintos: o sanguineo e o linfatico. Deste modo, a bilis amarela e negra segregadas pelo figado fluem para o intestino, enquanto o sangue, que circula pelas arterias e pelas veias, se encontra com a linfa na veia cava superior. Esta grande controversia do seculo parece, todavia, chegar muito mais tarde a Portugal, pois no inicio de Seiscentos, em Coimbra, raro se usava o teatro anatomico e continuava-se a estudar a anatomia pelo De usu partium de Galeno.

(3) Maximiano Lemos, Historia da Medicina em Portugal, Doutrinas e Instituicoes, vol. II, Lisboa, Publicacoes Dom Quichote/Ordem dos Medicos, 1991 (1.a ed. 1899), divide os estudos sobre higiene deste periodo em tres categorias: tratados sobre a peste; comentarios sobre as seis coisas nao naturais; trabalhos sobre assuntos limitados. Os tratados de bromatologia pertencem ao terceiro grupo.

(4) A Paracelso se deve a recriacao de um Hipocrates ideal, antecipando a figura mitica do "Pai da medicina" que emerge no seculo XVII, forjada pelas obras de Thomas Syndenham (1624-1689) e modelada no seculo XIX pelo lexicografo Littre (1801-1881). Esta posicao conduziu, na pratica, a ideia de um "bom Hipocrates" e de um "mau Galeno" vigente nas obras oitocentistas francesas e alemas. Sobre a tradicao hipocratica, cf. W. Smith, The Hippocratic Tradition, Cornell University Press, 1979.

(5) Nicolau Leoniceno (1428-1524) tem um papel relevante nas novae translationes, nome que entao se dava as traducoes do Grego para Latim, para as distinguir das versoes feitas no periodo medieval. Devem-se-lhe os primeiros textos gregos genuinos de obras galenicas: Methodus medendi e Ad glauconem (Veneza, 1500).

(6) Na epoca, so o medico patologista Antonio Luis (14??--1565), com excelente dominio quer do Latim quer do Grego, o que lhe valeu o cognome "o Grego", verte para Latim Hipocrates (traducao parcelada em comentarios) e Galeno a partir do original: Galeni liber de ptisana. Vtrum sit animal, id quod utero contineatur. De praenoscendo Epiginem (in De de re medica opera, Lisboa, 1540).

(7) Cf. F. Lehoux, Le cadre de vie des medecins parisiens au XVI et XVII siecles, Paris, Picard, 1976, citado por J.C. Sournia, Histoire de la medecine, Paris, La Decouverte,, 1997, p. 165.

(8) A Inglaterra lidera os paises que, no mesmo periodo, publicaram um maior numero de obras de dietetica na lingua nacional, com varias edicoes: A Dyetary of Helthe (Boorde, 1536), The Castell of Helthe (Elyot, 1539), The Government of Health (Bullein, 1595), The Haven of Health (Cogan, 1636) e Food (Moffatt, 16??). Cf. L. F. Newma, <<Some notes on foods and dietetics in the sixteenth and seventeenth centuries>>, The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, 76, 1, 1946, pp. 39-49.

(9) Enquanto a obra de Andre Antonio de Castro so conheceu uma edicao, e pouco depois caiu no esquecimento, a de Fonseca Henriques, medico de D. Joao V, de alcunha o Dr. Mirandela, muito provavelmente por estar redigida em Portugues, mereceu quatro: 1721, 1731, 1749 e 1754.

(10) Platao, Fedro, 270c-d.

(11) Cf. Danielle Gourevitch, Le mal d'etre femme. La femme et la medecine a Rome, Paris, Les Belles Lettres, 1984, p. 30.

(12) Designamo-los por Corpus Hippocraticum pela uniformidade assente em tres factores: o caracter anonimo dos escritos, o dialecto grego jonico e a perspectiva racionalista a contrastar com antigas concepcoes magico-religiosas. Do ponto de vista cronologico, o escrito mais antigo pode datar de inicios de V a.C. e o mais tardio de II d.C., pelo que nao representa nem um so autor nem uma unica escola medica, antes reflecte a globalidade da literatura medica classica, com um fundo original da biblioteca da escola de Cos a que, na biblioteca de Alexandria (inicio III a.C.), se acrescentam outras obras medicas. Galeno com os seus 20 livros de Comentarios aos escritos hipocraticos fecha o circulo aos estudos (atribui 18 tratados ao punho de Hipocrates). E a opiniao de J. Jouanna, Hippocrate, Paris, Fayard, 1992, que distingue no C.H. um nucleo primitivo da epoca helenistica (III a.C.) com obras pertencentes ao circulo de Hipocrates em Cos, depois acrescido dos escritos da escola de Cnido (a coleccao que Erotiano conheceu em I d.C.), e, por fim, os acrescentos posteriores. Hoje, com efeito, considera-se mais correcto atender as escolas para classificar a producao, mas durante varias decadas perdurou uma classificacao por disciplinas medicas como a de H. Haeser, Lehrbuch der Geschichte der Medizin und der epidemischen Krankheiten, Jena, 1875-1882 citado por Tratados hipocraticos, introduccion, traduccion y notas de Maria del Aguila Hermosin Bono, Madrid, Alianza Editorial, 1996, pp. 29-30.

(13) Ha editores que atribuem a autoria do De ptisana a um discipulo de Galeno, e o caso de Hartligh, responsavel pela edicao destes cinco tratados no volume V do Corpus Medicorum Graecorum, Teubner, 1923.

(14) A anatomia, termo ja existente, relacionado com a disposicao dos orgaos no corpo (Macrobio, Saturnais, 7, 15, 1), valida no Renascimento uma nova semantica, passando a ser aplicado a dissecacao necessaria para o estudo do funcionamento do corpo.

(15) No dominio das ciencias medicas, a preferencia pelo Latim como forma de comunicacao de saber esta ao servico da necessidade de manter os conhecimentos entre os que tiveram o privilegio da formacao academica, ao contrario dos que mantem uma actividade mecanica, como os cirurgioes, que nao tinham conhecimentos de Latim e cujo estatuto era pouco superior ao dos barbeiros. Algumas das obras de divulgacao do seculo XVI e XVII escritas nas linguas nacionais destinavam-se a esclarecer os cirurgioes, cada vez mais necessarios nas campanhas militares, sem, todavia, revelar os "segredos" dos medicos.

(16) Cf. R. Durling, <<A Chronologiccal Census of Renaissance Editions and Translations of Galen>>, Journal of the Warburg and Courtauld Institutes, 24, 3/4 (1961), p. 240.

(17) Na primeira metade do seculo XX ainda muito se discutia em Portugal sobre a correccao ortografica da terminologia medica e, pese embora o criterioso trabalho no ambito da lexicografia empreendido por estudiosos como Jose Ines Louro e Luis de Pina, acabaram por ser aceites formas menos correctas face a etimologia. Cf. Luis DE Pina, <<Subsidios para o estudo da lexicografia medica>>, Sep. Studiumgenerale, vol. IX, 2, Porto, Centro de Estudos Humanisticos, 1962.

(18) Alem de citar profusamente Galeno, tem por autoridades de referencia Rasis, Avicena, Averrois, Isaque, Hipocrates, Ecio de Amida, Alexandre de Trales, Dioscorides, Celso e Aristoteles. Os contemporaneos estao ausentes, excepcao feita ao De arte medendi, obra postuma de Tomas Rodrigues da Veiga (1513-1579), que fora o mais celebre representante do galenismo entre nos, tendo publicado em vida os Commmentarii in Galeni opera.

(19) Como os demais academicos do seu tempo, Andre de Castro e um teorico. Mas, embora, poucos se dedicassem a investigacao experimental, Santorio (1561-1636) realiza, na epoca, um trabalho pioneiro de fisiologia aplicada ao processo digestivo e, procedendo a anotacoes sobre o seu proprio metabolismo, identifica a "perspiracao insensivel".

(20) Cf. R. Durling, op. cit., pp. 230-305.

(21) Como se le ate no frontispicio da obra foi, posteriormente, nomeado fisico-mor da Casa de Braganca, recebeu a alcaidaria-mor de Ourem e a comenda de Monte Alegre na Ordem de Cristo.

(22) O substantivo theriaca com origem em 0r|piaxoc, antidoto (originalmente remedio contra a mordedura de serpentes), tera sido trazido para Roma pelos soldados que venceram Mitridates VI do Ponto. Chamava-se por isso mthridatum. O medicamento, um electuario (composto de diversos extractos pulverizados misturados com mel) contra envenenamentos, foi depois melhorado por Andromaco, medico de Nero, dai a designacao de theriaca Andromachi. Mas foi Galeno quem lhe dedicou um estudo e formulou uma panaceia, tomada regularmente por Marco Aurelio, que lhe daria renome em Roma. Desde entao a famosa Teriaga deu nome a varias composicoes farmaceuticas contra venenos, cuja venda se fez ate 1884. Os Ingleses popularizaram no Renascimento a designacao Venice treacle (melaco de Veneza). Cf. J. P. Griffin, <<Venetian treacle and the foundation of medicines regulation>>, British Journal of Clinical Pharmacology, 58, 3, 2004, pp. 317-325.

(23) E, aos perigos nutricionais decorrentes da monofagia, a historia ensinou-nos a temer os economicos, como foi na epoca moderna a temivel devastacao causada pelo mildio a batata na Irlanda em 1845-1846.

(24) A.-G. Haudricourt et L. HEdin, L'Homme et les plantes cultivees, Paris, A.-M. Metailie, 1987, p. 57. Sobre a evolucao da classificacao, vide em particular o cap. <<Origine et repartition des especes>>.

(25) Ter-se-ia de esperar pelos trabalhos de Lineu, iniciados cerca de 1735. O seu sistema taxinomico compreendia classes divididas em ordens, agrupadas por generos, subdivididos por especies. No Systema naturae (1753) ampliado ate a ultima edicao (1758), Lineu colocou grande enfase na melhoria da composicao dos nomes e na reducao da sua extensao, introduziu uma nomenclatura binominal, em Latim, e, em vez das longas parafrases, elaborou um sistema de construcao do nome das especies, que designou por nomina trivialia. Cada nomen triviale funcionava como um epiteto, de uma ou duas palavras, colocado a margem do texto frente ao nome cientifico classico de caracter descritivo. Este esforco resultou numa definicao de especies com um rigor sem precedentes, dado ainda hoje mantermos a adopcao binominal de 7.300 especies classificadas logo na edicao de 1753.

(26) E o unico autor portugues do periodo em apreco que, alem dos autores cientificos, coloca a par citacoes da literatura latina classica (Lucrecio, Horacio, Marcial, entre outros) e da paremiologia lusa, e.g. a proposito das quantidades de alimentos a ingerir ao jantar avanca com o rifao popular <<de penas e de ceas/estao as covas cheas>>. Esta caracteristica nao e estranha a grande tradicao das sentencas e de aforismos nos textos medicos.

(27) O nome anafil, de origem arabe, designa aquele cuja semente veio de Anafe (Moraes, 1823), uma cidade costeira da regiao de Marrocos, por isso se compreende o sinonimo mais divulgado mourisco.

(28) Verifica-se tambem a grafia tremez (Moraes, 1823). E referido no auto de Enfatrioes de Camoes: <<Que a trova trigo tremes ha-de ser toda de um pano; que parece muito ingles num pelo portugues todo um quarto castelhano>>. Hoje em dia ja so encontramos a designacao em contexto regional, aplicado a docaria, como nas receitas de cavacas. O nome deu origem a localidade de Tremes, no distrito de Santarem, cuja principal producao era, outrora, este tipo de trigo.

(29) Nome por que e conhecido no Ocidente Ibn Sarabyiun cuja obra sobre botanica, onde cita profusamente Dioscorides e Galeno, foi traduzida do arabe em 1292. A edicao que o popularizou, por certo a que Andre de Castro conhece, e editada em 1473 em Milao e ficou conhecida por Liber Serapionis aggregatus in medicinis simplicibus.
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Author:de Ornellas, Ines Castro
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2009
Words:6680
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