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Transvestites and transsexuals: (trans)formed bodies and production of femininity/Travestis e transexuais: corpos (trans)formados e producao da feminilidade.

Contextualizando o estudo

[...] eu acho que discursos, na verdade, habitam corpos. [...] os corpos na verdade carregam discursos como parte de seu proprio sangue. E ninguem pode sobreviver sem, de alguma forma, ser carregado pelo discurso (BUTLER, apud

PRINS e MEIJER, 2002).

A partir do entendimento de Judith Butler, exposto na epigrafe, de que os corpos sao significados na linguagem e no discurso, e da emblematica frase de Simone de Beauvoir, de que "ninguem nasce mulher, torna-se mulher" (1967), o artigo tem como proposta discutir a fabricacao dos corpos de travestis e transexuais, enfatizando os efeitos produzidos em seus processos de subjetivacao ao construirem suas feminilidades.

Esse trabalho compreende o quarto movimento de uma pesquisa de doutorado, (1) no qual analisamos enunciacoes produzidas por transexuais e uma travesti, (2) problematizando o enunciado, a producao do corpo e a (re)invencao de si.

A partir de uma perspectiva foucaultiana, para que um enunciado torne-se visivel, e preciso atentar-se, primeiramente, para as enunciacoes que o compoem. Entendemos que "diferentes enunciacoes podem ser repeticoes de um enunciado identico" (Hubert DREYFUS; Paul RABINOW, 2010, p. 58). Entendemos as narrativas analisadas neste estudo como enunciacoes que sustentam e dao visibilidade ao enunciado destacado. Os enunciados visibilizam e sustentam um discurso; neste caso, o discurso da feminilidade.

Entendemos o discurso como um conjunto de enunciados que podem ser de campos diferentes, mas que fazem parte do mesmo sistema de formacao, o qual reune varios discursos a partir de regras que os agregam e os relacionam. Os discursos nao sao entendidos "como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem a conteudos ou representacoes), mas como praticas que formam sistematicamente os objetos de que falam" (Michel FOUCAULT, 2005, p. 55).

Com o proposito de evidenciar o enunciado destacado, analisamos enunciacoes produzidas a partir da metodologia da Historia Oral Tematica, por meio de entrevistas baseadas na constituicao das subjetividades das participantes, e da Observacao Participante, realizada em um salao de beleza, onde as participantes transitavam, e durante reunioes da Associacao LGBT do municipio de Rio Grande.

A Historia Oral Tematica e utilizada quando o projeto de pesquisa refere-se a um assunto, tema, etapa ou acontecimento especifico da vida do/a entrevistado/a; neste estudo, a constituicao dos sujeitos enquanto gays, travestis e transexuais. Realizamos entrevistas tematicas que "versam prioritariamente sobre a participacao do entrevistado no tema escolhido" (Verena ALBERTI, 2005, p. 37). Articulada a essa metodologia, trabalhamos com a Observacao Participante, que e caracterizada pela presenca do pesquisador/a no campo; o/a observador/a e parte ativa do processo. Ela e entendida como um processo, em que o/a pesquisador/a deve tornar-se realmente um participante do metodo, obtendo, dessa forma, acesso ao campo de estudos em que vai atuar e aos sujeitos que pretende observar, atendendo, assim, aos objetivos da pesquisa a ser desenvolvida (Heraldo VIANNA, 2007).

Para o processo analitico, discutimos sobre algumas enunciacoes das entrevistadas e sobre trechos de diarios produzidos ao longo da Observacao Participante, com o proposito de problematizar acerca do processo de construcao da feminilidade nos corpos de quatro transexuais e de uma travesti, apresentando a constituicao de modos singulares de ser e estar na sociedade.

E no corpo que as marcas das experiencias vivenciadas, as modificacoes e (trans)formacoes realizadas por travestis e transexuais sao evidenciadas, possibilitando a emergencia de outros modos de existencializacao (Wiliam PERES, 2011). E sobre os corpos que sao inscritos os marcadores subjetivos, entre eles os de genero; e as marcas que se inscrevem nos corpos sao vistas e entendidas de diferentes formas, dependendo do contexto historico e cultural vivenciado pelos sujeitos.

Nomeados e classificados no interior de uma cultura, os corpos se fazem historicos e situados. Os corpos sao "datados", ganham um valor que e sempre transitorio e circunstancial. A significacao que se lhes atribui e arbitraria, relacional e e, tambem, disputada. Para construir a materialidade dos corpos e, assim, garantir legitimidade aos sujeitos, normas regulatorias de genero e sexualidade precisam ser continuamente reiteradas e refeitas. Essas normas, como quaisquer outras, sao invencoes sociais. Sendo assim, como acontece com quaisquer outras normas, alguns sujeitos as repetem e reafirmam e outros delas buscam escapar

(Guacira LOURO, 2004, p. 89).

Partindo desse pressuposto, as travestis e transexuais, de algum modo, ao (re)inventarem seus corpos, buscam escapar das convencoes impostas ao seu sexo/genero. Em contrapartida, ao reproduzirem alguns aspectos da feminilidade, acabam naturalizando determinados comportamentos e posturas. Elas produzem atos performativos e subversivos ao mesmo tempo. No entanto, outras formas de viver a feminilidade sao apresentadas.

Esses outros modos de existencializacao, exibidos pelas travestis e transexuais, tornam-se, portanto, alvo de investigacao e analise. O genero, assim, caracteriza-se como uma categoria diagnostica (Berenice BENTO; Larissa PELUCIO, 2012).

De acordo com a 5a versao do Manual de Diagnostico e Estatisticas de Disturbios Mentais (DSM-V), publicado em maio de 2013, a transexualidade nao e mais considerada uma doenca mental, um transtorno de identidade de genero como era descrita na versao anterior do documento. Contudo, permanece, no codigo, a categoria disforia de genero, referindo-se aos problemas que a pessoa transexual tem ou pode vir a ter por nao se identificar com o corpo e a genitalia de nascimento.

Discursos produzidos sobre a sexualidade e sobre os generos, no ambito da Medicina, da Psiquiatria, da Psicologia, entre outros campos do saber, e que proliferam ainda hoje na sociedade, buscam, de certa forma, esquadrinhar os sujeitos e normalizar as atitudes e praticas de gays, lesbicas, bissexuais, travestis e transexuais, que sao "classificados/ as" como doentes, anormais e desviantes. Sobre esses/as, aplicam-se estrategias de normalizacao, tais como a producao de saberes, de modo a classifica-los/as; a investigacao sobre seus corpos e suas praticas; o controle e a vigilancia, entre outras. A partir do seculo XIX, por intermedio da Psiquiatria, a Medicina apresenta sua funcao social em uma sociedade da normalizacao. O poder da Medicina emerge em diversos contextos: na familia, nas escolas, nos tribunais; avanca, tambem, sobre a sexualidade, sobre a educacao etc. Nesse sentido, "a norma se torna o criterio de divisao dos individuos. Dado o fato de estar sendo constituida uma sociedade da norma, a medicina como a ciencia acima de tudo do normal e do patologico, sera a ciencia rainha" (FOUCAULT, 2011, p. 395). Para Foucault (2010), e a partir do seculo XVIII que a Medicina instaura-se no cenario da loucura, por meio do estudo das curas das doencas nervosas. Nesse contexto, possibilita-se a emergencia da psiquiatria da observacao e instaura-se um dialogo entre o louco e o medico. Estabelecem-se algumas ideias terapeuticas acerca da cura da loucura. Entretanto, na era classica, nao ha distincao entre medicamentos fisicos, psicologicos ou morais, uma vez que a Psicologia nao existe. Isso so ocorrera no seculo XIX, quando sao inventados os metodos morais. "A distincao entre o fisico e o moral so se tornou um conceito pratico na medicina do espirito no momento em que a problematica da loucura se deslocou para uma interrogacao do sujeito responsavel" (FOUCAULT, 2010, p. 325).

Kleber Prado Filho e Sabrina Trisotto (2015) discorrem sobre a Psicologia entendendo-a como disciplina da norma. Para eles, a Psicologia tem o poder de dizer quem sao os sujeitos, de falar de nossa subjetividade, "no entanto, ela sempre nos enuncia como sujeitos da norma, remetidos a ela, comparativamente a outros sujeitos como nos, marcando e nomeando os desvios em termos de medias, curvas, condutas adequadas ou nao, sancionadas ou nao, quando nao patologizadas." Segundo Foucault, a Psicologia contemporanea pode ser caracterizada pela investigacao e analise do anormal (2002).

As transexuais e as travestis sao alvos dessa investigacao por serem entendidas como corpos abjetos, sendo, para muitos/as, consideradas aberracoes, pois desafiam a heteronormatividade, ou seja, sao produzidos fora da inteligibilidade social, incoerentemente em relacao as normas hegemonicas. Provocam, muitas vezes, repulsa na sociedade.

[...] O abjeto designa aqui precisamente aquelas zonas "inospitas" e "inabitaveis" da vida social, que sao, nao obstante, densamente povoadas por aqueles que nao gozam do status de sujeito, mas cujo habitar sob o signo do "inabitavel" e necessario para que o dominio do sujeito seja circunscrito (BUTLER, 2007, p. 155).

Embora transexuais e travestis sejam relacionadas a abjecao e tenham, nesse sentido, sofrido com atos de repudio, com distintas formas de preconceito--nos diferentes ambitos e instancias sociais--, elas tem travado lutas diarias pela visibilidade e pelo respeito, pelo reconhecimento enquanto sujeitos de direitos. Dessa forma, "de um corpo despotencializado e fraco surge um corpo empoderado e forte, guerreiro e reivindicador de direitos" (PERES, 2013). Muitas/os travestis e transexuais lutam pela promocao de politicas publicas que as/os defendam; buscam desconstruir o processo de patologizacao com relacao a transexualidade e os discursos que as associam a doenca, ao pecado etc, resistindo aos processos de hierarquizacao e normalizacao.

A fim de discutir e problematizar os processos de subjetivacao das participantes da pesquisa, apresentamos as enunciacoes--falas e trechos dos diarios--e as analises sobre elas produzidas.

Transexualidades e travestilidades: reconhecer-se...

Os termos transexualidades e travestilidades sao polissemicos, (res)significados pelos sujeitos, dependendo do contexto e das experiencias vivenciadas, evidenciando que multiplos sao os modos de ser travesti e transexual. Os entendimentos acerca das transexualidades e travestilidades sao imbricados as diferentes e singulares maneiras de viver de cada sujeito e, por isso, sao entendidos de distintas formas.

As entrevistadas relataram sobre como se identificavam e quais seus entendimentos acerca da transexualidade e da travestilidade.

[...] A transexualidade e atribuida a tua identificacao com o genero oposto ao que designaria a tua genitalia. Por exemplo, eu tenho penis, o que isso, no caso, implicaria? Que eu tivesse um genero masculino. Entao, tu nao teres o genero masculino, isso e a tua transexualidade, e tu assumir um genero diferente do que seria condizente com a tua genitalia. [...] travestilidade e quando tu nao tens a tua identidade definida como mulher ou homem, ou como feminino ou masculino. Quando a pessoa e travesti, ela nao tem o genero feminino somente. Ela esta entre os dois generos [...]. Isso e complicado, porque a gente tem na nossa cabeca que so pode ser homem ou mulher. Que so pode ser feminino ou masculino (Luciana Guerra).

[...] E que, hoje em dia, a operada nao e mais transexual, e operada. Entendesse? As travestis que se montam 24h por dia, que sao as transex que tem silicone na bunda, entendesse? E as travestis que se montam, parece que agora modificou, esta totalmente diferente. [...] Entao, hoje em dia, a gente diz que operada e operada, nao e transex. As travestis sao as que estao se montando de mulher (Naraya).

Eu me reconheco como transexual, porque travesti, pra mim, e o que eu ja vivi, me vestia de mulher de noite e no outro dia era um menino que passava como um menino normal. Eu me travestia. Hoje, e o meu dia a dia, e minha vida, eu tenho uma vida como tu tens. Sou casada ha seis anos, a gente vive junto. Entao, eu tenho meu dia a dia como mulher. Dona de casa, tenho que cozinhar, tenho que lavar, tenho que passar, todas as atividades ruins. E eu sou casada com um homem hetero. Ele sempre me diz que me enxerga como mulher, entendeu? Eu me trato como mulher, eu compro calcinha, eu compro calca feminina, eu vou no vestiario feminino, quando eu vou ao toalete eu vou ao toalete feminino. Eu vou fazer xixi, eu nunca faco de pe. Mas nao e uma coisa que seja forcada minha, ja e natural, sabe? (Maria Regina).

Travesti e aquela que se veste, as vezes se traveste de mulher, no caso, mas nem sempre. E uma pessoa que se traveste de mulher. Transexual e aquela que vive dia e noite de mulher, tem silicone tambem, mas e transexual. Porque isso e da cabeca, entendeu? Se tu tem na tua cabeca que tu es uma mulher, que tu queres ser feminina, que tu e 24 horas mulher, tu e transexual. Nao precisa ser necessariamente operada. Eu me entendi como transexual mesmo, depois que eu coloquei silicone na bunda, que eu disse:--Deu, nao tem mais volta! Estou com um corpo de mulher, eu sou mulher. [...] No sexo, a travesti geralmente curte ser ativa e passiva, a transexual ela so e passiva. [...] Tem muitas travestis que sao siliconadas, se acham transexuais, mas nao sao transexuais porque nao tem a cabeca de transex. [...] A transexual nao gosta de usar o orgao masculino dela no caso. Se eu estou namorando ou ficando com alguem, eu nao vou ser ativa. Eu vou ser passiva. Eu nao rejeito a minha genitalia, nao tenho problema nenhum, mas eu nao gosto de ser ativa. Isso que e ser transexual (Gisele).

As enunciacoes distinguem o que e ser travesti e transexual; tambem evidenciam entendimentos proprios de cada uma das participantes. As entrevistadas destacam como se identificam, apresentam e explicam cada um dos termos a partir de seus entendimentos e vivencias, apontam outras nomenclaturas como, por exemplo, "operada".

Algumas questoes sao apontadas nessas enunciacoes: 1) a diferenciacao entre travestilidade e transexualidade; 2) a naturalizacao do que pertence ao universo feminino e 3) a rejeicao ou nao a genitalia e a relacao com a transexualidade.

Com relacao as diferencas apontadas entre a travestilidade e transexualidade, Luciana Guerra destaca que travestis vivem o masculino e o feminino ao mesmo tempo, o que, segundo ela, e confuso para muitas pessoas, pois essa possibilidade de transitar entre os dois generos escapa aos regimes de verdade instituidos socialmente, ou seja, as convencoes que produzem e reafirmam a heteronormatividade e instituem modos de ser, ou se e mulher, e se pertence ao universo feminino, ou se e homem e se pertence ao universo masculino. As travestis rompem as fronteiras de generos, desconstroem as normatividades, instituindo outros modos de subjetivacao.

Segundo Marcio da Fonseca (2003), os processos de subjetivacao passam a constituir os individuos como sujeitos. E a partir deles que os sujeitos passam a se constituir como sujeitos de uma sexualidade; que os sujeitos buscam o conhecimento de si, voltam-se a si, decifram-se. A subjetividade refere-se a "maneira pela qual o sujeito faz a experiencia de si mesmo em um jogo de verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo" (FOUCAULT, 2010a, p. 236). E nesse jogo de relacao consigo e, tambem, com os/as outros/as, que os sujeitos, a partir de discursos e jogos de verdade, reconhecemse como sujeitos de uma sexualidade.

Peres (2009; 2011) discute sobre a subjetividade, diferenciando os processos de subjetivacao normatizadores dos singularizadores. Os normatizadores buscam, de alguma forma, manter a norma estabelecida socialmente. Ja os singularizadores "se mostrariam como linhas de fuga, contrapoderes ou resistencias frente ao poder que facilitariam a expressao da diferenca, da singularidade e de modos desejantes potentes e criativos" (2011). A partir dos modos de subjetivacao singularizadores, os sujeitos rompem com a norma, tornam-se resistentes a ela. Ao refletirmos sobre a constituicao de gays, travestis e transexuais, entendemos que, ora percebemos os processos normatizadores operando, ora os singularizadores. Em alguns momentos, embora tais sujeitos busquem borrar as fronteiras, romper com a "norma heterossexual" e com o processo dicotomico homem/mulher, masculino/feminino, e possivel evidenciarmos, a partir de suas posicoes de sujeito, a permanencia e fixacao desses binarismos e de modelos hegemonicos.

Outro ponto de destaque nas narrativas e a diferenciacao estabelecida entre a travestilidade e a transexualidade. A travestilidade e um processo continuo de producao de subjetividade marcado pela construcao constante, pelo nomadismo, pela transitoriedade; enfim, pela descontinuidade e pelo enfrentamento as categorias e normas estabelecidas (PELUCIO, 2013; PERES, 2012).

A experiencia transexual e produzida e definida a partir da demarcacao da travestilidade. Essa diferenciacao estabelecida entre uma e outra, muitas vezes, aloca a transexualidade em uma posicao de superioridade, conferindo um carater de legitimidade, atribuindo a travestilidade uma categoria identitaria inferior (BENTO, 2008).

Ao fazerem uma distincao entre travestis e transexuais, enunciacoes apontam a questao do "sentir-se e ser mulher" relacionada a transexualidade. Estabelecer uma diferenca entre a travestilidade e a transexualidade, baseando-se no fato de a transexual "sentir-se mulher", e uma forma de naturalizar a categoria mulher, destacando atributos ou caracteristicas pertencentes a todas as mulheres (BENTO, 2008). Isso pode ser evidenciado na fala de Maria Regina, quando relaciona o "ser mulher" e "pertencer ao universo feminino" com a realizacao de atividades domesticas diarias (cozinhar, lavar, passar), que, segundo ela, sao desagradaveis.

Com relacao a essa distincao, Gisele destaca que as transexuais sao passivas durante a relacao sexual, mesmo que nao rejeitem a genitalia, no sentido de optarem pela cirurgia de mudanca de sexo. Diferentemente das travestis, as transexuais nao usam o penis para a penetracao, o que representa, segundo Gisele, ter a "cabeca de transex" e "gostar de ser mulher". Nesse sentido, a penetracao parece ser um fator determinante para explicar e definir a travestilidade (Don KU LICK, 2008). Entretanto, as duas subjetividades--travestilidade e transexualidade--sao experiencias atreladas ao genero e "representam respostas aos conflitos gerados por uma ordem dicotomizada e naturalizada para os generos" (BENTO, 2008, p. 55).

Outro aspecto evidenciado nas enunciacoes e a discordancia com a genitalia e, consequentemente, o processo de mudanca de sexo, caracteristica atribuida a experiencia transexual. Gisele destaca que nao "rejeita" sua genitalia, entretanto, admite que nao gosta de "ser ativa", afirmando que isso "e que e ser transexual". Tal afirmacao contrasta com a enunciacao, a seguir, de Luciana Guerra, que diz nao ter problemas com relacao a sua genitalia e "fazer uso" desta para, entao, sentir prazer. Partindo desse pressuposto, as entrevistadas comentaram sobre a cirurgia de mudanca de sexo:

Nao fiz e nao pretendo fazer, porque e uma cirurgia muito invasiva, muito agressiva. Tem um pos-operatorio que e eterno. Enquanto fores viva, tens que lubrificar, porque a neovagina nao produz lubrificacao sozinha. [...] Muitas tem a imagem de que, quando fizerem a cirurgia, elas vao ser aceitas socialmente como mulheres. [...] mas a genitalia nao e uma coisa que aparece socialmente. Muitas rejeitam por causa disso, porque acham que aquilo ali e o fator excludente dela na sociedade. Entao, algumas tem esse entendimento. Talvez nao tivessem, se fossem aceitas socialmente como mulheres. [...] Pra tu teres um prazer sexual, tu tens que ter um contato fisico com a tua genitalia. Entao, se eu nao aceitar a minha genitalia e nao tiver um contato fisico com ela e achar que e errado ter prazer com ela do jeito que eu tenho, ou eu faco a cirurgia ou durante todo esse tempo que eu espero pra fazer a cirurgia eu fico sem fazer sexo [...]. Eu uso a minha genitalia, porque nao bate arrependimento. Eu acho que a questao da identidade de genero nao pode estar relacionada com a questao de tu teres penis ou vagina (Luciana Guerra).

Nao. Porque nao vou querer perder todo o meu prazer (Naraya).

[...] eu nao penso em mudar de sexo (Gisele).

Luciana Guerra aponta que, alem de "usar" a genitalia para sentir prazer, assim como comenta Naraya, a cirurgia nao garante que as transexuais sejam aceitas como mulheres, pois a genitalia nao e visivel socialmente. A enunciacao de Luciana traz a tona a discussao de que ser mulher e ser homem vai alem da questao da genitalia, ou seja, de ter uma vulva ou um penis.

Se o genero sao os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, nao se pode dizer que ele decorra de um sexo desta ou daquela maneira. Levada a seu limite logico, a distincao sexo/genero sugere uma descontinuidade radical entre corpos sexuados e generos culturalmente construidos. Supondo por um momento a estabilidade do sexo binario, nao decorre dai que a construcao de 'homens' aplique-se exclusivamente a corpos masculinos, ou que o termo 'mulheres' interprete somente corpos femininos. [...] Quando o status construido do genero e teorizado como radicalmente independente do sexo, o proprio genero se torna um artificio flutuante, com a consequencia de que homem e masculino podem, com igual facilidade, significar tanto um corpo feminino como um masculino e mulher e feminino, tanto um corpo masculino como um feminino (BUTLER, 2010, p. 24 [grifos da autora]).

Ao discutir sobre a nao distincao entre sexo e genero e ao afirmar que "talvez o sexo tenha sempre sido genero", Butler nao esta negando a existencia de uma materialidade, de um corpo. Ela propoe pensarmos acerca dos efeitos ou da materializacao produzida por praticas regulatorias sobre o sexo. Isto e, ha um sexo, um corpo carne, mas essa materialidade e constituida e produzida pelos discursos sociais, culturais e historicos. Discursos esses que buscam estabelecer uma ordem compulsoria ou uma coerencia entre sexo, genero, desejo e pratica sexual (BUTLER, 2010; Sara SALIH, 2012). Butler destaca que "o sexo se torna compreensivel por meio dos signos que indicam como ele deveria ser lido e compreendido. Esses indicadores corporais sao os meios culturais atraves dos quais o corpo sexuado e lido" (2013). Segundo a autora, o corpo sexuado e construido a partir de signos produzidos sobre ele e nao ha como destacarmos o que e material e o que e cultura nessa construcao (BUTLER, 2013).

A partir de Butler, o genero e entendido como "ato", como "acao", e nao atribuicao natural do corpo.

Esses atos, gestos e atuacoes, entendidos em termos gerais, sao performativos, no sentido de que a essencia ou identidade que, por outro lado, pretendem expressar, sao fabricacoes manufaturadas e sustentadas por signos corporeos e outros meios discursivos (BUTLER, 2010, p. 194).

O genero e construido a partir de atos repetidos. Ele constitui-se a partir de um conjunto de normas mantidas e repetidas, que se instituem sobre os corpos, tornando-o "substancia" visivel, aparente. O genero, portanto, e performativo. O que significa que se produz uma serie de efeitos. Assim como o sexo, o genero e produzido e reproduzido a todo tempo. Nenhum sujeito pertence a um genero desde sempre. O genero e produzido culturalmente, mas ele e, tambem, um "dominio de agencia ou de liberdade".

Partindo desse pressuposto, sexo e genero sao discursivamente construidos, isto e, nao ha uma naturalidade no sexo. Ha inumeras interpretacoes e normas de genero que se instauram e sao transmitidas aos nossos corpos; cabe ao sujeito assumir/seguir ou nao tais normas. Ha uma diferenca em ser e existir o proprio corpo. Existir o proprio corpo possibilita uma escolha, ou seja, ha, tambem, a possibilidade de "rejeicao" (SALIH, 2012). Podemos pensar o processo de producao dos corpos de transexuais e travestis, que constroem e alteram o corpo com o qual nascem, isto e,

[...] o corpo e um texto socialmente construido, um arquivo vivo na historia do processo de (re)producao sexual. Neste processo, certos codigos naturalizamse, outros, sao ofuscados e/ou sistematicamente eliminados, postos as margens do humanamente aceitavel, como acontece com as pessoas transexuais (BENTO, 2008, p. 30).

A propria cirurgia de mudanca de sexo, desejo de muitas transexuais, e uma forma de dar existencia a si propria, uma forma de reconhecimento e "completude" na producao da subjetividade transexual. Maria Regina discute o ser mulher, associando-o a cirurgia. Na epoca da realizacao de sua entrevista, Maria Regina estava participando do processo transexualizador; no entanto, teve que interromper porque comecou a trabalhar novamente, o que dificultou suas idas e vindas ate a cidade onde realizava o processo.
   E assim: nao muda em nada, tu so tens que provar
   para os psicologos, psicanalistas e varias pessoas
   que estao ali, que tu nao vais te arrepender, que isso e
   bem resolvido na tua vida, sabe? [...] isso e bem
   resolvido pra mim. Eu sempre digo que eu so uso pra
   fazer xixi. Vamos supor, eu acredito que eu sou, eu e o
   geral, travestis e transexuais, e uma evolucao. Tipo
   assim, antes de eu ser travesti, eu fui gay. Ai, depois de
   ser travesti, o travesti me preparou para eu ser um
   transexual e, antes da operacao, eu estou me
   preparando para o meu pos, porque eu nao vou mais
   me considerar um transexual, porque isso ai pra mim
   e uma palhacada. Porque se tu vai te operar, eu vou
   ser uma mulher. [...] Entao, isso eu acho que faz parte
   da feminilidade. Acho que e da mulher, e coisa de
   mulher mesmo. Quando eu era crianca, eu me lembro
   que pensava:--Por que eu nasci homem? Eu chorava
   porque eu tinha nascido homem, nao gostava de ter
   nascido homem.


Maria Regina destaca que o "se tornar transexual" e um processo acompanhado por "vozes autorizadas", isto e, de especialistas da area medica e psicologica, que irao diagnosticar e caracterizar a transexualidade ou nao. Alem disso, ela entende a transexualidade como um processo evolutivo. Com se fosse uma pre-condicao primeiramente reconhecer-se como gay, depois como travesti e, logo, como transexual, estabelecendo uma correspondencia e relacao entre a identidade sexual e a identidade de genero. Entretanto, ser gay refere-se a homossexualidade, ou seja, a identidade sexual de um sujeito; ser transexual refere-se ao modo de como viver a masculinidade ou a feminilidade. A pessoa pode ser transexual e heterossexual, ou, tambem, transexual e homossexual ou bissexual. Luciana Guerra, por exemplo, se autoidentifica como transexual lesbica, pois se entende como uma mulher pertencente ao genero feminino e relaciona-se afetiva e sexualmente com outras mulheres.

Ao destacar a transexualidade como "uma evolucao", Maria Regina acaba instituindo um unico modo de reconhecer-se enquanto transexual.

Nao existe uma "identidade transexual", mas posicoes de identidades organizadas atraves de uma complexa rede de identificacoes que se efetiva mediante movimentos de negacao e afirmacao de modelos disponibilizados socialmente para se definir o que seja um/a homem/mulher de "verdade" (BENTO, 2006, p. 201).

Maria Regina destaca que, apos a cirurgia, ela nao se identificara como transexual, mas como mulher, pois "nao tera mais" o qualificador do masculino, o penis. Em uma conversa durante o processo de observacao participante, afirma o quanto e importante a realizacao da cirurgia de mudanca de sexo.

Comentei com Maria Regina que havia lido um artigo sobre travestilidade e transexualidade e que muitas transexuais comentavam que a cirurgia de mudanca de sexo era uma forma de liberdade. [...] perguntei a Maria Regina se ela iria fazer a sua cirurgia de mudanca de sexo. Ela disse que apos a colocacao do silicone, com certeza fara a mudanca de sexo, que a colocacao da protese mamaria era o primeiro passo. E que assim como disseram as transexuais do artigo que li, a cirurgia de mudanca de sexo seria, sim, uma forma de sentir-se livre, ja que ela nao "usa" o penis na relacao sexual e se sentiria melhor sem ele [EXCERTO DIARIO de CAMPO, 28/05/2013].

Para ela, a realizacao da cirurgia de mudanca de sexo e uma forma de reconhecimento de um corpo que, ate entao, e incoerente com sua subjetividade. Ao longo de um processo de fabricacao desse corpo, Maria Regina vai moldando-o de forma, entao, a reconhece-lo como seu, instituindo, ao seu modo, normas no seu corpo que ora sao reiteradas, ora sao recompostas. E a partir do seu corpo que ela se afirma, reconhece-se enquanto sujeito.

Transexualidades e travestilidades: feminilizar-se ...

No processo de construcao subjetiva da transexualidade e travestilidade, investir na fabricacao de um corpo, tornando-o visivel, porem atrativo, e tambem uma maneira de producao de uma imagem dita normal, ou seja, coerente com as posturas adotadas diariamente. E sobre esse processo de modelagem corporal que as enunciacoes a seguir tratam.

Eu queria mudar meu corpo desde uns dez anos de idade. Entao, eu comecei a conhecer hormonios, sabendo de outros casos de transexuais que ja tomavam hormonios e qual hormonio que tomavam, se tinha efeito colateral ou nao. Ai eu comecei o tratamento hormonal, mas isso foi so com 22 anos; mas eu ja tinha o cabelo comprido [...]. Eu obtinha todas as informacoes pela internet, por casos de outras transexuais que estavam tomando o mesmo hormonio e tambem por alguns relatos de endocrinologistas que elas consultavam (Luciana Guerra).

[...] eles te dao muitos hormonios. Estrogenios conjugados, varios tipos de hormonios para matar todos os hormonios masculinos que tem no corpo, pra ele sair. [...] a gente vai baixando a cota de hormonios masculinos e aumentando a de feminino. E ai isso faz com que os pelos caiam (Maria Regina).

[...] quando eu estava vestida de mulher, eu comecei a ver que era diferente, eu vi que os homens olhavam mais, que as pessoas achavam mais bonita. Na verdade, eu sempre quis. So que eu tinha medo, entendeu? Medo do preconceito ser maior, na verdade. Ai eu comecei a me vestir de mulher aos poucos, fui saindo. Ate que um dia eu me olhei no espelho e falei:--Nao, nao da mais. Eu quero ser mulher, eu vou ser mulher. E foi onde eu comecei, deixei o cabelo crescer, coloquei mega-hair. Comecei a tomar hormonios, me vesti de mulher, ate que eu coloquei silicone na bunda. [...] Melhorou muita coisa para mim no aspecto amoroso. Na vida ... agora eu nao tenho problema com nada, sabe? Parece que eu me libertei. Muito tempo eu nao fui feliz por causa disso. [...] O silicone ajudou um monte. Qualquer roupa feminina, vou ficar com um corpo feminino (Gisele).

Destaca-se, ao longo dessas narrativas, que a pretensao de mudar o corpo e procedida pelo processo de ingestao de hormonios. A farmacologia e tida como o suporte da fabricacao do corpo de travestis e transexuais. Esse processo de investimento na mudanca corporal e na feminilizacao desse corpo e sustentado por discursos produzidos por especialistas da area da endocrinologia. Assim, nao e qualquer sujeito que concede uma "consulta" em relacao ao uso de hormonios, mas, sim, aquele ao qual lhe foi atribuido um direito privilegiado ou exclusivo da fala (FOUCAULT, 2009).

E interessante considerar que Luciana Guerra conhecia pela Internet historias de pessoas que ja investiram nesse processo de transformacao corporal e, com isso, obteve maiores informacoes sobre o mesmo, bem como uma forma de construcao de si a partir da narrativa do/a outro/a. Para Christine Delory-Momberger, a narrativa do outro
   [...] e assim um dos lugares onde experimentamos
   nossa propria construcao biografica; onde ela pode
   deslocar-se, reconfigurar-se, alargar seu horizonte;
   onde ela se poe a prova como escrita de si. A narrativa
   do outro e, de certo modo, um laboratorio das
   operacoes de biografizacao que realizamos sobre
   nossa propria vida, nas condicoes de nossas inscricoes
   socio-historicas e de nossos pertencimentos culturais
   (2008, p. 62).


E a partir da experiencia biografica do/a outro/a que podemos nos (re)inventar, constituir-nos e escrever a nossa propria historia. Esse processo de construcao e (re)invencao de si e produzido por intermedio de praticas de liberdade.

Ainda que exista o preconceito, a invencao de si sinaliza niveis de liberdade. Sem o minimo de liberdade de invencao, nao ha uma sexualidade e, se bem entendida, uma humanidade. A ausencia de liberdade impede o movimento de busca pela completude que a sexualidade, como dimensao da humanidade, eternamente persegue com a experiencia. [...] Em outras palavras, existe um nexo entre a sexualidade, o prazer da experiencia e a curiosidade pelo saber. Esse movimento infinito em busca da completude e em busca do conhecimento (subversivo, porque criativo), eu chamo [...] de desejo criativo (Marcio CAETANO, 2011, p. 124-125).

Nesse processo de producao do eu, os sujeitos colocam em evidencia sua criatividade, (3) a partir do momento em que conhecem o que desejam vivenciar; constroem, nesse sentido, sua imagem a partir de praticas de liberdade utilizadas na (re)invencao do seu corpo e na reconstrucao de sua propria vida. As praticas de liberdade consistem em maneiras ou em formas que damos a subjetividade. A liberdade refere-se a construcao da propria vida a partir de maneiras determinadas pelos proprios sujeitos (Edgardo CASTRO, 2009).

Para o processo de feminilizacao, a ingestao de hormonios caracteriza-se como ato indispensavel e fundamental na fabricacao desse corpo. "O corpo so se torna util se e ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso" (FOUCAULT, 2009a, p. 29). Pode-se dizer que o corpo tambem assume uma posicao de objeto, em que nele tudo se faz. Ou seja, a partir da reconstrucao dos tracos, dos gestos, das vestimentas; enfim, de toda uma estetica corporal, ocorre um processo de modelagem.

Ao acompanhar Maria Regina em uma clinica medica para autorizar a realizacao de seus exames preoperatorios, ela afirma o quanto o corpo e local de intervencoes, quando comenta sobre a cirurgia de implante de protese mamaria realizada no de ano 2013. Ela relata como foi sua experiencia com a colocacao do silicone industrial.

[...] perguntei para Maria Regina como tinha sido sua experiencia com a bombadeira, (4) ja que havia me contado que colocara silicone nas nadegas. Ela disse que foi tranquilo, que teve que ficar de repouso por alguns dias e que em um dia fez um lado e depois outro. Maria Regina comentou que dificilmente alguma travesti ou transexual nao faz uso do silicone industrial. Na clinica medica, onde estava autorizando seu exame, Maria Regina mostrou-me seu encaminhamento para a realizacao dos exames a serem feitos antes da cirurgia e tambem o encaminhamento para a propria cirurgia de implante de silicone. [...] Nota-se que ela esta muito contente com a sua cirurgia, realmente deve ser uma grande realizacao, pois, segundo ela, "e um corpo que esta se construindo aos poucos de acordo com a sua alma"

[EXCERTO DIARIO de CAMPO, 28/05/2013].

A ingestao de hormonios e o implante de silicone, seja industrial ou nao, sao, talvez, as mais significativas tecnicas utilizadas para a producao do corpo na direcao do feminino. A maquiagem, a producao do cabelo e o investimento no vestuario sao as primeiras transformacoes apresentadas; entretanto, parece ser a mudanca na biologia corporal que produz os efeitos mais significativos com relacao a construcao da travestilidade e da transexualidade. Sem dar a devida importancia aos perigos que pode acarretar o silicone industrial, travestis e transexuais buscam maneiras mais acessiveis para contornar os seus corpos.

Sobre essa questao da farmacologia no processo de construcao da subjetividade, Beatriz Preciado (2008) discute sobre os processos de governo dos corpos, fazendo um deslocamento do conceito de biopoder de Foucault para o conceito de farmacopoder ou farmacopornografia. (5) Isto e, de uma sociedade do controle passa-se a uma sociedade farmacopornografica, em que o controle e exercido do proprio sujeito sobre si mesmo.

A partir dos anos 40, o biopoder toma a forma do regime farmacopornografico, segundo a minha interpretacao. [...] Assim sendo, para vigiar o corpo, as tecnicas de controle miniaturizam-se depois da Segunda Guerra Mundial; com a invencao dos hormonios, as tecnicas de controle tornam-se interiores. Ja nao e necessario o hospital, o quartel, a prisao, porque agora o proprio corpo foi convertido num territorio de vigilancia, na ferramenta definitiva. O que esta a acontecer quando se toma testosterona ou a pilula? Engole-se uma cadeia de signos culturais, uma metafora politica que comporta uma definicao performativa de construcao do genero e da sexualidade. O genero, feminino ou masculino, aparece com a invencao das moleculas (ENTREVISTA, 2013).

Segundo Preciado (2008), a pilula anticoncepcional possui muito mais que a funcao de controle da reproducao; ela tambem possui funcao importante na fabricacao e controle dos generos. Ela tem a capacidade de operar sobre a biologia do corpo, produzindo efeitos nas subjetividades e, consequentemente, no genero. Para ela, os hormonios sao "metaforas tecno-vivas", isto e, "artefatos farmacopornograficos" capazes de produzir e transformar os corpos. A partir da ingestao de hormonios, portanto, a feminilidade pode ser fabricada.

Essas tecnicas de producao corporal exteriorizam e visibilizam as particularidades das travestis e transexuais, ingressando-as no universo feminino, embora a feminilidade travesti evidencie, em muitos casos, um corpo hibrido entre o masculino e o feminino. O corpo e o suporte de investimentos. Ao tornar-se atrativo, torna-se, tambem, fonte de sustento. A prostituicao e uma experiencia que necessita do corpo carne e do corpo prazer.

Travestilidades e transexualidades: prostituir-se ...

A prostituicao nem sempre e caracterizada como uma atividade de exploracao do corpo, como fonte de sustento. Embora ela tenha sido comumente associada ao universo das travestis e transexuais como uma experiencia marginalizada, a prostituicao nao e somente um trabalho, mas, tambem, e um espaco de producao das feminilidades, de sociabilidades e de visibilidades.

[...] me lembro, a primeira vez que eu vi uma travesti no show de calouros, que eu disse: Eu quero ser assim, sabe? Eu tinha aquela ilusao, da mulher, porque a visao da mulher e uma coisa que me passa uma coisa de poder, de sensualidade enfim e eu sempre sonhei aquilo pra mim, sabendo que eu nao era mulher, mas que eu poderia me tornar e, para tudo isso, eu precisei criar minha independencia. Foi quando eu sai de casa, fui parar na prostituicao. Eu nao fui nem pelo modo de sobrevivencia. Na verdade eu fui pelo glamour que eu achava que tinha a coisa. Pela vida social de travesti, de estar sempre vestida de mulher. Entao, pelo simples fato de hoje eu poder colocar uma roupa feminina e poder ir onde eu quiser, entrar numa loja e comprar o que eu quiser, ja pra mim e muito gratificante (Cindy).

Quando eu comecei a me vestir de mulher, eu ia, achava tudo bonito. Eu achava as travestis que trabalhavam na esquina, as mais antigas, eu achava tudo bonito, achava um luxo, tinha aquela atracao por aquilo ali. E quando eu vi que eu queria mudar meu corpo, que eu queria mudar a minha forma de viver a vida, era a unica coisa que naquele momento eu tinha pra fazer. Eu vivi como profissional, trabalho mesmo, [...] eu fiquei acho que oito anos vivendo da prostituicao e vivendo da noite, mas eu sempre soube que teria um final (Maria Regina).

De acordo com as enunciacoes, a construcao da feminilidade de algumas transexuais e travestis e realizada a partir da ideia do corpo feminino como suporte de sensualidade e de poder; ou seja, a fantasia de que ser mulher requer investir incessantemente na beleza e na sensualidade foi um dos marcadores na construcao da travestilidade de Cindy. O glamour e um aspecto muito presente na vida das travestis.

[...] o sucesso no processo de feminilizacao, o reconhecimento publico de suas qualidades, sobretudo artisticas e criativas e a possibilidade de materializar isso em bens que remetem ao consumo do luxo. Ao mesmo tempo, o glamour tem sido um operador capaz de criar um contraponto entre as experiencias de sucesso e aquelas da abjecao (PELUCIO, 2011, p. 78).

A prostituicao, tambem, e representada por um universo glamoroso que, alem de constituir-se como um modo de adquirir recursos financeiros, tambem e uma experiencia em que se pode tornar visivel a criatividade acerca da producao de sua feminilidade. Esse entendimento esta presente na narrativa que expressa a representacao de que as travestis na esquina assumem por sua beleza e luxo. A prostituicao, para muitas travestis, parece ser desejada, representando eficiencia na construcao da feminilidade.

E na convivencia nos territorios de prostituicao que as travestis incorporam os valores e formas do feminino, tomam conhecimento dos truques e tecnicas do cotidiano da prostituicao, conformam gostos e preferencias (especialmente os sexuais) e muitas vezes ganham ou adotam um nome feminino. Este e um dos importantes espacos onde as travestis constroemse corporal, subjetiva e socialmente (Marcos BENEDETTI, 2013).

A prostituicao e mesclada pela luta pela sobrevivencia e a fabricacao de si, tornando visivel todo o aparato que constitui a feminilidade das travestis e transexuais e que, consequentemente, seja a partir da simples utilizacao de marcadores e vestimentas ditos do genero feminino, ou a partir de um investimento mais especifico, como a ingestao de hormonios, a realizacao de plastica facial, a aplicacao de silicone, entre outros processos que fazem parte da tecnologia da transformacao corporal. Nesse processo de transformacao e construcao da subjetividade, o corpo, alem de ser ator, e tambem cenario dessa producao (BENEDETTI, 2013a).

A prostituicao, para Cindy, e uma escolha. Nem toda travesti ou transexual passa pela experiencia da batalha na rua, da prostituicao.
   A prostituicao [...] acredito que tu va ouvir isso de varias
   pessoas, e opcao de vida, porque mal ou bem todas
   as pessoas que eu conheco, as travestis, minhas
   amigas, que eu conheco e que trabalham na noite,
   que sao profissionais do sexo, todas mal ou bem nunca
   passaram fome. Todas mal ou bem tiveram a opcao
   de estudar, mas nao quiseram. Entao, ah, eu precisei ir
   pra noite. Nao, tu nao precisou ir pra noite. Foi uma
   opcao de escolha.


Para ela, a prostituicao e uma atividade produtiva financeiramente e e exercida por quem realmente deseja vivenciar essa experiencia, por vontade propria e nao por obrigacao. A prostituicao e destacada, tambem, como a unica saida pelas travestis e transexuais que sao excluidas e rejeitadas no mercado de trabalho e tambem na familia. O dinheiro e que acaba as atraindo para a prostituicao, pois necessitam deste, tanto para sustentar-se e produzir-se, quanto para manter suas relacoes familiares e amorosas (KULICK, 2008).

Embora a prostituicao seja caracterizada por muitas travestis e transexuais como a unica alternativa de trabalho e de lucro financeiro, e imprescindivel desconstruir a ideia de que toda travesti e transexual e profissional do sexo e que a construcao de sua subjetividade seja determinada a partir dessa experiencia, pois, para muitas delas, isso e caracterizado como um estigma, causando rejeicao e exclusao social.

Mesmo que o espaco da prostituicao seja um lugar de aprendizagens, de insercao ao universo feminino e de experiencias prazerosas, nesse espaco, o preconceito tambem opera. Muitas travestis e transexuais trabalham prostituindo-se porque sao excluidas de outros contextos; no entanto, nesse local tambem vivenciam situacoes perigosas e sao expostas as inumeras formas de violencia:

As piores situacoes homofobicas que eu vivenciei foi na quadra mesmo. Na noite, na pista. De levar ovada, de levar garrafada de carro passando, sabe? De pessoas que passavam de carro, geralmente eram homens, que se dizem homens e heterossexuais, ne. De sair com alguem pra fazer um programa e a criatura te deixar la no quinto dos infernos, onde tu nao sabes nem onde e. Entao, eu chegava e ja acertava, dizia assim:--Olha, querido, eu cobro adiantado. E tinha os que diziam:--Nao, nao. Depois eu te pago. Eu: Nao quero saber, tu vai me pagar agora. [...] uma ou duas vezes que eu tentei fazer isso, botaram a arma na minha cara e disseram:--Nao, agora tu vai fazer o programa. Eu nao vou te pagar e tu ainda vai ficar aqui. Ia fazer o que? Ia levar um tiro, batendo boca, de graca (Cindy).

Quem trabalha na noite tem que saber se defender. E se tu nao sabe, tu aprende que o mundo e outro. As pessoas sao diferentes. Muitas vezes tu nao enxerga as pessoas que sao noturnas, tu nao enxerga elas durante o dia, sao pessoas diferentes. Hoje eu enxergo, hoje eu trabalho, sou cabeleireira, trabalho no salao. Com certeza a vida e melhor hoje do que antes. E agradeco a Deus por ter tido essa saida, porque muitas nao tem. Muitas ficam pelo meio do caminho. Outras se perdem com drogas. Outras se perdem em roubo. Outras se envolvem com muita coisa ruim, que tu nao tira coisa boa nisso. A unica coisa boa e que tu consegue te manter e, atraves disso, da propria noite, que tu te transforma, entao, na tua vitrine e tu tens que reformular ela todos os dias. A unica coisa boa que eu tenho da noite, de tu ter conhecido a noite, foi o meu marido. Por isso tudo que eu te digo de coracao: Valeu a pena! Se eu nao tivesse ido por esse caminho, eu nao teria conhecido ele (Maria Regina).

As enunciacoes evidenciam que algumas estrategias sao necessarias para lidar com alguns sujeitos preconceituosos e situacoes desagradaveis. Maria Regina destaca um aspecto dessa experiencia, ou seja, alem do sustento que ela adquiriu com essa vivencia, narra sua satisfacao ao ter conhecido o seu marido nesse espaco. Para ela, o dinheiro era importante para sua "transformacao", para sua modelagem estetica e corporal. Como ela menciona, tratavase de uma vitrine exposta diariamente, evidenciando a sua incessante producao para "vender" sua imagem no mercado sexual. Porem, o mais significativo dessa experiencia foi conhecer o marido. O ambiente da prostituicao "constitui-se tambem no principal espaco de trocas matrimoniais" (BENEDETTI, 2013). Ainda que, nos ambientes de prostituicao, as experiencias tambem sejam acompanhadas de violencia e coloquem as profissionais do sexo em posicao de vulnerabilidade, como relata Cindy, esse espaco permite as travestis e transexuais novas formas de viver, isto e, de (re)inventar suas subjetividades.

Transexualidades e travestilidades: (re)inventar-se

Evidenciamos, a partir das enunciacoes das transexuais e da travesti, que se inscrevem no corpo as marcas da feminilidade que, a todo instante, e reforcada e produzida. O corpo torna-se o sustentaculo dessa producao. Ele e "superficie de inscricao dos acontecimentos (enquanto que a linguagem os marca e as ideias os dissolvem), lugar de dissociacao do Eu (que supoe a quimera de uma unidade substancial), volume em perpetua pulverizacao" (FOUCAULT, 2004, p. 22). E no corpo e por meio deste que se busca o reconhecimento e a afirmacao de si. Os corpos das transexuais e travestis perturbam, incomodam, desestabilizam porque promovem fissuras na norma estabelecida socialmente.

Embora muitos atos sejam performativos, as inscricoes corporais de travestis e transexuais sao tambem entendidas como subversivas, e, essas, portanto, tornam-se indicadores de classificacao, hierarquizacao, ordenacao, normalizacao. E a partir da criacao dessas outras possibilidades, da construcao de outros modos de ser, que os sujeitos constituemse e (re)inventam-se.

No texto, buscamos evidenciar esses distintos modos de existir a partir das diferentes formas de ser travesti e transexual. As entrevistadas relataram diversos entendimentos acerca dessas subjetividades, demonstrando que nao ha uma unica forma de ser. Nesse sentido,

[...] o 'universo trans' esta composto por esta miriade de sujeitos, identidades, corpos, praticas e significados que voluntariamente, (trans)formam-se e constroemse em funcao de valores e concepcoes do genero que sao diferentes daqueles hegemonicos na sociedade abrangente (BENEDETTI, 2013a).

Ao caracterizarem a travestilidade e a transexualidade, as entrevistadas apontam elementos constitutivos de suas subjetividades, que reproduzem algumas convencoes sociais, mas tambem apresentam outras experiencias, outras feminilidades e outras relacoes consigo mesmas. Evidenciamos que elas se utilizam de tecnicas de alteracao corporal, muitas vezes nocivas para suas vidas, na tentativa de adequar seus corpos as prerrogativas de genero heteronormativas. Assim, elas explicitam que ser mulher e ser passiva e penetrada; ser mulher e ter seios, quadris, vagina e, para isso, desafiam as normativas estabelecidas a seus corpos biologica e culturalmente definidos como pertencentes ao sexo biologico masculino. Embora, nesse aspecto, de alguma forma, sejam dissidentes da heteronormatividade, em alguns momentos, mantem-se normatizadas quando afirmam ter marido, realizar afazeres domesticos, ter seios, "parecerem-se com uma mulher pois se sentem mulher", reproduzindo aquilo que a sociedade institui e afirma ser de mulher.

A partir de tecnicas de si, (6) as transexuais e travestis trazem a tona diferentes posicoes de sujeito, ou seja, por meio de inumeras tecnologias de transformacao corporal, elas produzem seus corpos, projetam suas vidas e evidenciam outras possibilidades de viver os generos e as sexualidades, desafiando, em muitos casos, a heteronormatividade.

O processo de constituicao de si e continuo, transitorio e de (re)construcao permanente. E atravessado por resistencias, pela emergencia de singularidades, as quais nos possibilitam repensar a normalidade e anormalidade, e pela criacao de diferentes modos de existencia.

http://dx.doi.org/10.1590/1806-9584-2016v24n3p761

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[Recebido em 26/09/2013, reapresentado em 29/10/2015 e aceito para publicacao em 03/05/2016]

Deise Azevedo Longaray

Universidade Federal do Rio Grande--FURG, Rio Grande, RS, Brasil

Paula Regina Costa Ribeiro

Universidade Federal do Rio Grande--FURG, Rio Grande, RS, Brasil

(1) Tese desenvolvida no ambito do Programa de Pos-Graduacao em Educacao em Ciencias da Universidade Federal de Rio Grande--FURG com o apoio da CAPES e do CNPq. Na pesquisa, investigamos os enunciados e as praticas de si que constituem os sujeitos gays, travestis e transexuais nos espacos educativos.

(2) Naraya Luisa Brum se autoidentifica como transexual. Nasceu em 29 de julho de 1987. E solteira. Estuda na UNOPAR, cursando Servico Social. Maria Regina se autoidentifica como transexual. Nasceu em 4 de agosto de 1979. E casada e trabalha como cabeleireira. Gisele se autoidentifica como transexual. Nasceu em 25 de fevereiro de 1988. E solteira e trabalha como cabeleireira. Cindy se autoidentifica como travesti. Nasceu em 3 de marco de 1986, trabalha como cabeleireira e e solteira. Luciana Guerra se autoidentifica como transexual lesbica. Nasceu em 28 de marco de 1981, e solteira, porem tem uma namorada. E proprietaria de uma lan house.

(3) A partir da perspectiva teorica assumida, operamos com o termo criatividade, entendendo-o nao como algo dado, que nasce com o sujeito, mas que o constitui ao longo de toda vida a partir de praticas, instancias e discursos. Se criamos e recriamos nossa historia ao longo de toda nossa existencia, podemos afirmar que criamos coisas a todo momento a partir de nossas vivencias.

(4) As bombadeiras, geralmente, sao travestis e transexuais que aplicam silicone liquido e industrial nos corpos de outras travestis e transexuais.

(5) Preciado (2008) define como farmaco os processos de governo biomolecular e porno os processos referentes ao governo semioticotecnico da subjetividade sexual, "dos quais a pilula anticoncepcional e a Playboy sao paradigmaticos".

(6) Segundo Foucault (1997, p. 109), as tecnicas de si "sao procedimentos, que, sem duvida, existem em toda civilizacao, pressupostos ou prescritos aos individuos para fixar sua identidade, mante-la ou transforma-la em funcao de determinados fins, e isso gracas a relacoes de dominio de si, sobre si ou de conhecimento de si por si".
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Longaray, Deise Azevedo; Ribeiro, Paula Regina Costa
Publication:Revista Estudo Feministas
Date:Sep 1, 2016
Words:9045
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