Printer Friendly

Transtornos alimentares na visao de meninas adolescentes de Florianopolis: uma abordagem fenomenologica.

Introducao

Transtornos alimentares (TA) constituem um conjunto de doencas que afetam, principalmente, adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, provocando marcantes prejuizos biologicos, psicologicos e sociais, propiciando o aumento das taxas de morbidade e mortalidade nesta populacao (1).

Os principais TA, anorexia nervosa (AN) e bulimia nervosa (BN), apresentam caracteristicas comuns que os assemelham, bem como caracteristicas proprias que os distinguem. Porem, o padrao alimentar que cada pessoa desenvolvera e um fenomeno singular. O tipo de comida, frequencia de consumo, quantidade ingerida apresentam um comportamento especifico e individual (2,3).

Portanto, dentro de uma perspectiva fenomenologica, devemos olhar para cada individuo com esses transtornos como um ser unico, suspender conceitos preestabelecidos sobre o que e ou como deveria se apresentar um TA, procurando compreender a pessoa a partir da sua propria vivencia. Nas palavras de Heidegger (4), a fenomenologia exprime "as coisas em si mesmas, [...] deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo".

Observamos que, em geral, as pesquisas tem discutido estes TA a partir de abordagens por vezes interpretativas e generalizadoras. Alem disso, muitas vezes os TA nao sao vistos nem compreendidos com a seriedade que merecem, o que dificulta e retarda a busca por ajuda medica, psicologica e nutricional, fundamentais nos casos desses transtornos. A falta de conhecimento e de aceitacao desses transtornos como doenca prejudica ainda mais o individuo acometido podendo, ate mesmo, leva-lo a morte (1).

Acreditamos que e importante compreender e aprofundar os estudos acerca dos TA a partir da experiencia vivida pelos sujeitos por eles acometidos. Assim, na presente pesquisa, buscamos dar voz a adolescentes acometidas por TA (AN e BN), procurando compreender o significado da experiencia vivida a partir da seguinte questao norteadora: como adolescentes do sexo feminino com TA percebem e vivenciam sua relacao com o alimento?

A proposta de estudar a nutricao aliada a psicologia se deu pelo desejo de compreendermos nao apenas o que acontece no corpo da pessoa, mas tambem o que ocorre no plano emocional: o ser humano e um todo; portanto, deve ser visto e compreendido como tal. Nao e apenas um ser que sente ou um ser que se alimenta. Ele e um ser que sente e se alimenta. Portanto, nao e possivel estudar o TA isolado do individuo, nem o individuo isolado do meio. Pessoas com AN ou BN normalmente nao tem esses comportamentos apenas em relacao a comida, relacionamse dessa forma frente a vida e aos sentimentos. Sao um todo (5).

Este artigo apresenta parte dos resultados de uma pesquisa que teve como objetivo geral compreender o significado da experiencia vivida por adolescentes do sexo feminino com AN e BN, com enfase nos aspectos relacionados a alimentacao, a partir de perspectiva fenomenologica. Desta forma, o artigo procura mostrar a percepcao descrita pelas adolescentes a respeito de seus TA, focando a relacao com o alimento e os habitos alimentares.

Percurso metodologico

Esta pesquisa caracterizou-se como uma investigacao de natureza qualitativa, centrada numa abordagem fenomenologica acerca da experiencia vivida por adolescentes do sexo feminino com TA.

Realizada no municipio de Florianopolis (SC), envolveu sete adolescentes diagnosticadas com TA (de acordo com o Manual estatistico e diagnostico dos transtornos mentais (3)), sendo quatro com AN e tres com BN, na faixa etaria de dezessete a vinte anos, atendidas no Hospital Infantil Joana de Gusmao, na Policlinica Regional e em consultorio particular. As entrevistas foram realizadas no periodo de marco a maio de 2006, ate atingir o criterio de saturacao, que consiste no fenomeno que ocorre quando um certo numero de dados coletados deixam de apresentar algo de novo para a compreensao fenomenologica (6).

O criterio de inclusao das participantes neste estudo se deu em funcao da faixa etaria, sexo e diagnostico do transtorno em questao. Alem disso, as participantes deveriam possibilitar o entendimento da questao norteadora, aceitar participar do estudo, comunicar-se sem quaisquer impedimentos ou limitacoes, ter a autorizacao dos pais ou responsaveis para participacao e aceitar a condicao das entrevistas serem gravadas.

As entrevistas foram realizadas de acordo com roteiro predefinido, composto de uma parte objetiva, procurando coletar dados para caracterizacao das entrevistadas, e outra subjetiva, com perguntas que variaram de acordo com o decorrer da entrevista, procurando captar a experiencia vivida pelas entrevistadas acerca dos TA. As entrevistas foram realizadas pela pesquisadora, no local onde as adolescentes recebiam atendimento, e duraram em media 37 minutos, variando entre 23 e 58 minutos.

As entrevistas foram gravadas e transcritas na integra pela pesquisadora. Sigilo e anonimato em relacao ao conteudo foram garantidos, de modo a preservar a identidade das entrevistadas que escolheram um codinome para ser usado ao longo da entrevista e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido para participacao na pesquisa.

Apos transcricao, para dar inicio a analise das entrevistas, seguimos passos apresentados na proposta de Amedeo Giorgi (6-12), divididos em: 1) leitura da entrevista transcrita, com a intencao de captar o sentido no todo, diante do objeto de pesquisa; 2) nova leitura do texto, com o objetivo especifico de discriminar unidades de significado, numa perspectiva psicologica, captando os momentos de mudanca psicologica sensivel de cada situacao; 3) transformacao das unidades em linguagem psicologica, de modo a chegar a expressao mais direta e explicita possivel das percepcoes contidas na expressao do sujeito; 4) sintese de todas as unidades de significado, transformando-as num consistente relato da experiencia do sujeito, chegando desta forma a estrutura da experiencia (6-12).

Encerrada essa etapa, objetivando dar sequencia a analise dos dados, realizamos os seguintes trajetos metodologicos descritos por Coppe (6): 1) construcao de uma tabela contendo os dados de identificacao de cada participante, a descricao das unidades de significado, bem como a compreensao psicologica de cada uma delas, possibilitando-nos observar a sintese especifica de cada participante; 2) categorizacao das unidades de significado para apreensao da estrutura geral da vivencia, extraindo dai a estrutura do vivido; 3) elaboracao de sintese geral, composta pela analise de todos os depoimentos, de modo a obter uma visao geral desse material. A partir dessa sintese, fizemos um dialogo reflexivo, articulando conteudos empiricos e teoricos que nortearam nossa investigacao.

O projeto foi aprovado pelos Comites de Etica em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (projeto no 013/ 06) e do Hospital Infantil Joana de Gusmao (projeto no 016/2006).

Resultados

Breve perfil das adolescentes entrevistadas

Na Tabela 1, apresentamos um breve perfil das sete adolescentes entrevistadas, procurando listar algumas informacoes consideradas importantes para uma melhor compreensao do fenomeno estudado. A faixa etaria atual das adolescentes entrevistadas variou entre dezessete e vinte anos. Quanto ao tipo de TA e a fase de tratamento, quatro tinham diagnostico de AN (Bi, Ca, Ci e Mi) e tres de BN (Ni, Le e Ju). Uma delas esta em tratamento, mas nao admite que tem TA, encontrando-se em estado grave (Bi); tres estao em tratamento e admitem que tem TA (Ni, Le e Ju); duas estao em tratamento em fase de recuperacao (Ca e Mi) e uma nao esta em tratamento, mas admite que tem TA e que precisa de tratamento (Ci). Com relacao ao local de atendimento, uma (Bi) era procedente do Hospital Infantil Joana de Gusmao (HIJG); quatro (Ni, Ca, Ju e Ci), da Policlinica Regional e duas (Le e Mi) de consultorio particular. Embora as adolescentes entrevistadas se encontrassem na faixa etaria entre dezessete e vinte anos, o transtorno manifestou-se entre onze e dezoito anos, sendo que o tempo de transtorno estava entre um e nove anos. Com relacao a escolaridade, todas se encontram entre o ensino medio e o ensino superior incompleto.

Na Tabela 2, apresentamos dados relacionados a caracteristicas antropometricas das entrevistadas. Das adolescentes com diagnostico de AN (Ca, Mi, Ci e Bi), duas (Bi e Ca) continuam com IMC abaixo de 18,5 kg/[m.sup.2], uma (Mi), que esta em processo de recuperacao, apresenta IMC normal, e uma (Ci) nao apresenta valores para IMC por nao ter informado o peso atual. Apenas uma delas (Bi) permanece com o IMC abaixo de 17,50 kg/[m.sup.2], justamente a adolescente que ainda nao admite ter um TA, encontrando-se em estado considerado grave.

Ao se observar o peso minimo atingido, verificamos que todas as quatro adolescentes com diagnostico de AN (Ca, Mi, Ci e Bi) encontramse com IMC abaixo do considerado normal. Alem disso, tres delas (Ca, Mi e Bi) apresentaram IMC abaixo 16,00 kg/[m.sup.2], atingindo, desta forma, estado de magreza grave. Interessante observar que, quando se trata do peso maximo atingido, nenhuma das quatro (Ca, Mi, Ci e Bi) ultrapassou o IMC considerado normal, sendo que o indice mais alto foi o de 23,01 kg/m2, bastante longe do limite maximo da faixa de peso normal. Alem disso, uma das adolescentes (Bi), mesmo quando atingiu seu peso maximo, ainda encontrava-se abaixo do considerado normal, e dentro da faixa dos TA. O IMC maximo atingido foi 17,35 kg/[m.sup.2].

Ao se observar a perda de peso dessas adolescentes com diagnostico de AN, constatamos uma reducao de 20,83 (Ca) a 44,74% (Bi) do peso, sendo que a quantidade de peso minima perdida foi de dez quilos (Ca) e a maxima foi de dezenove quilos (Mi).

Com relacao as adolescentes com diagnostico de BN (Ni, Le e Ju), observamos que todas se encontram atualmente com IMC normal e apenas uma delas (Ni) apresentou este indice abaixo do normal, ao se considerar o peso minimo.

Com relacao ao peso maximo atingido, apenas uma das adolescentes (Ju) chegou a um indice considerado sobrepeso (acima de 25 kg/[m.sup.2]), enquanto que as demais (Ni, Le) apresentaram, assim como as adolescentes com diagnostico de AN, IMC considerado normal, tambem bastante longe do limite maximo da faixa de peso normal, sendo que o indice maximo atingido foi 21,63 kg/[m.sup.2], inferior inclusive ao encontrado no indice maximo de AN.

No que concerne a perda de peso dessas adolescentes com diagnostico de BN, constatamos uma reducao de 9,26 (Le) a 25,76% (Ju) do peso, sendo que a quantidade minima de peso perdido foi de cinco quilos (Le) e a maxima foi de dezessete quilos (Ju).

Conteudo das entrevistas e suas unidades de significado

Com relacao a questao norteadora de como adolescentes do sexo feminino com TA percebem e vivenciam sua relacao com o alimento, a analise das entrevistas trouxe a tona nove unidades de significado, a saber: 1) o que representa a comida; 2) habito alimentar; 3) alimentos que deixaram de ser consumidos; 4) alimentos que passaram a ser consumidos; 5) consumo de refrigerantes; 6) escolhas alimentares; 7) composicao das refeicoes; 8) habito alimentar da familia e 9) alimentacao saudavel.

O que representa a comida

O termo comida, em seu sentido vernaculo, significa: "1. O que se come ou e proprio para se comer. 2. Acao de comer" (13). Mas, para as adolescentes entrevistadas, na maioria dos casos, a comida tinha um significado bem diferente, remetendo a algo negativo:

Hum, assim, tortura (Ni).

Representava pavor, assim, eu tinha medo (Ca).

Eu acho uma coisa muito ruim (Bi).

Fuga, uma decadencia, droga (Le).

Para algumas das adolescentes entrevistadas, a comida era uma obrigacao, algo que tirava a liberdade:

E necessaria, e obrigatoria, mas eu nao queria que fosse (Ju).

Se eu nao fosse obrigada a comer, talvez seria bom (Bi).

Me sentir mais livre quando nao como (Le).

Outras comentaram o lado positivo da comida:

Apesar que e bom. As comidas que tu gosta (Ni).

Alimento que faz bem. A comida hoje pra mim eboa, egostosa (Ca).

Habito alimentar

A formacao do habito alimentar e influenciada por varios fatores--fisiologicos, psicologicos, socioculturais, economicos--e ocorre a medida que a crianca vai crescendo, ate o momento em que escolhera consciente e independentemente os alimentos que farao parte da sua dieta (14).

Nas entrevistas que integraram esta pesquisa, observamos, por parte das adolescentes, uma preocupacao com o controle da alimentacao, tanto por si so, quanto com acompanhamento nutricional:

Ah, tal hora eu vou comer, nao, agora eu nao vou comer, vou esperar mais um pouco, tem que dar tantas horas, tomo cafe, tantas horas, eu almoco, mais de tardinha eu tomo cafe (Ci).

Hoje eu vejo que eu comia completamente errado (Ca).

Mas como tudo na quantidade certa. Como eu tenho acompanhamento nutricional com a nutricionista, eu como de tudo (Mi).

Ai, sei la, tudo controlado. Eu faco dieta, com a nutricionista agora (Le).

Alguns de seus relatos demonstraram haver intencao de aderir a uma alimentacao considerada por elas saudavel:

Eu nao sou de comer verdura nem legume, nada assim, nao como. Comer uma coisa mais leve, apesar que nao e isso que eu gosto, ne! (Ni).

So nao como muita coisa com gordura. Eu gosto de comer fruta, melancia. Eu sempre como sanduichenatural [quando come no shopping] (Bi).

Agora eu to fazendo dieta mesmo. A minha alimentacao foi meio reduzida. Eu como bastante fruta tambem. Sou vegetariana, ai eu tenho que comer soja e bastante barrinha de proteina (Le).

Porem, esta alimentacao considerada saudavel nem sempre e a preferida dessas adolescentes:

Eu nao tava comendo comida, eu tava comendo pao, uma coisa que eu nao comia antes, assim. Uma coisa que eu to comendo mais e carboidrato, direto e tal. Gosto de massa, porcaria, salgadinho (Ni).

Assim comia chocolate. As vezes me dava vontade de comer um brigadeiro, eu comia, mas sem peso na consciencia (Ca).

Mas eu gosto muito de doce, ai eu posso comer doce tambem, posso comer uma barra de chocolate pequeninhapor dia (Le).

Quando eu era pequena eu comia bastante [fast food] (Bi).

E interessante observar como varias das adolescentes entrevistadas frisaram o fato de estarem comendo:

Mas eu to comendo, nao to deixando de comer (Ci).

Como de tudo (Bi).

Mas eu como, eu como tudo que eu gosto, como arroz, como feijao, todos os dias (Mi).

Sei la, ai eu como (Le).

Comi pao, comi carne, arroz, tudo (Bi).

Alimentos que deixaram de ser consumidos

A alimentacao e a dieta tem um importante papel no desenvolvimento e na manutencao dos TA. Pessoas com esses transtornos apresentam graves restricoes dieteticas, padroes e habitos alimentares inadequados devido a uma serie de fatores como falsos mitos e crencas, sensacao de incompetencia para lidar com o alimento, medo de engordar (15).

Os principais alimentos que deixaram de ser consumidos pelas adolescentes entrevistadas foram aqueles por elas considerados "besteira"--chocolate, por exemplo--independentemente de elas gostarem ou nao desses alimentos:

Chocolate. Eu gosto tanto, mas eu nao to comendo. Mais besteira, assim, sabe, que eu restrinjo. Bala, chicletes, chocolate (Ci).

Chocolate. Pipoca, essas coisas assim, nem pensar (Ca).

Nao gosto hoje [chocolate, bala, batata frita] (Bi).

Alem desses, outros alimentos, como pao, frutas e carne vermelha, deixaram de ser consumidos. As frituras, alem de deixarem de ser consumidas, foram associados a fatores negativos por algumas das adolescentes:

Eu nao como fritura. Eu tenho nojo ainda de fritura (Ca).

Eu tinha deixado de comer carne vermelha. Eu deixei de comer fritura. Fico pensando que nao vai fazer bem pro meu corpo (Mi).

Eu tinha deixado de comer pao (Ni).

Deixei de comer fruta (Ju).

Nos TA, a relacao com a comida e tao distorcida que, por vezes, torna-se dificil ate mesmo descrever o que foi deixado de comer, como ocorreu com esta adolescente:

Eu nao vou dizer que eu parei de comer muito, eu perdi a nocao do que eu como. Parece que e so comida, nao tem muita distincao, entao eu nao sei te dizer exatamente o que eu parei, o que eu comecei, fica meio nublado (Le).

Alimentos que passaram a ser consumidos

Em nossas entrevistas, observamos a valorizacao do consumo de vegetais por algumas adolescentes, como apontam outras pesquisas16, independentemente de gostarem ou nao:

Apesar que eu nao gosto [vegetais], vou ter que aprender a gostar (Ni).

Verdura foi uma coisa que eu aprendi a comer que eu nao, nao, nunca gostei muito (Ca).

Uma coisa que eu passei a comer que eu nao comia muito e verdura (Mi).

Uma das adolescentes entrevistadas relatou ainda aumento no consumo de doces:

Doce eu passei a comer mais (Le).

Consumo de refrigerantes

O consumo excessivo de refrigerantes por adolescentes e um problema mundialmente comum (14), relatado tambem pelas adolescentes entrevistadas, que por vezes substituem por refrigerante as refeicoes ou a propria agua:

Acordei as seis da tarde, dai depois eu nao comi nada, so tomei refrigerante, outro vicio meu. Nao comi mais nada. Tomo um refri, alguma coisa, e fica dificil eu comer, ne (Ni). "

Tomo muito refrigerante. Dois litros por dia praticamente. De manha, se eu acordo de manha, e a primeira coisa que eu faco e ir tomar coca. De madrugada, acordou, deu sede, coca. Eu nao tomo agua, so na coca. Muito raro eu tomar agua (Ju).

Escolhas alimentares

Varios fatores podem estar envolvidos na escolha dos alimentos, desde sinais originados no cerebro ou na periferia ate a forca do habito (17). Alguns dos fatores apontados pelas adolescentes entrevistadas para as escolhas alimentares foram a quantidade de calorias ou aquilo que engorda menos:

Normalmente eu to olhando as calorias. E automatico (Ni).

Antes eu tentava geralmente comer o que menos engordasse (Ju).

Eu sei o que e mais calorico, o que e menos calorico, entao, quando eu acho que eu to um pouco acima do peso, eu ja sei o que eu posso comer (Mi).

No outro dia eu faco outra coisa pra comer, sabe, pra nao comer de novo. Pra nao engordar (Ci).

Outros fatores citados foram a vontade, o sabor, ou o gosto:

Se eu to com vontade eu como, so que depois a consciencia bate. Como porque eu to com vontade de comer (Ju)."

De acordo com a minha vontade (Mi).

Pelo gosto tambem (Ni).

Tem sabor, tem aquela coisa gostosa de tu estar comendo (Ca).

Tambem fazem parte da escolha alimentar dessas adolescentes saladas e frutas:

Eu nem gosto tanto de salada, mas comia mais salada assim, e menos comida (Ci).

Ia comer bastante fruta, tomaria suco. Pao ate que eu comeria (Bi).

Sou vegetariana, gosto de salada e doce, comeria o dia inteiro (Le).

Nos episodios do comer compulsivo que ocorrem nos TA, de acordo com as adolescentes entrevistadas, nao ha escolha dos alimentos a serem consumidos:

Nao escolho [compulsao], o que vier eu como. Geralmente e o que eu gosto muito (Ju).

Na compulsao, e que normalmente eu como, to com fome, entao vou comer isso (Le).

Um dos profissionais necessarios em uma equipe que trabalha com pessoas com TA e o nutricionista, cujo papel esta intimamente ligado com a questao das escolhas alimentares, possibilitando, com isso, estabelecer uma relacao adequada com o alimento. Os depoimentos a seguir demonstram a influencia deste profissional nas escolhas alimentares de algumas das adolescentes entrevistadas:

A nutricionista que escolhe. Ela deixa eu escolher tambem, mas eu prefiro que ela escolhe porque e ruim, nao sei o que eu gosto (Bi).

A gente [ela e a nutricionista] tentou fazer um cardapio balanceado, no primeiro mes segui um cardapio a risca assim, dai depois a gente foi adaptando pra fazer algumas modificacoes (Mi).

Eu nao sabia fazer isso antes de ir na nutricionista, nao sabia como comer eparar de sentir fome (Le).

Escolhas alimentares sao decisoes complexas ligadas nao apenas ao alimento, como tambem a condicoes sociais, tradicoes culturais e a elementos irracionais. Alem disso, o comer e tambem uma atividade social e o alimento e uma questao emocional (18). Desde o comeco de nossas vidas, a alimentacao esta entrelacada com emocoes, simbolismos e influencias socioeconomicas e culturais. Desta forma, alimentar-se implica em fazer escolhas (19).

Composicao das refeicoes

De acordo com o Guia para escolha de alimentos20, o dia alimentar de um individuo deveria ser distribuido em seis refeicoes: cafe da manha, lanche da manha, almoco, lanche da tarde, jantar e lanche da noite. Na nossa pesquisa, o numero de refeicoes variou de tres a oito por dia.

As adolescentes entrevistadas descreveram seu cafe da manha da seguinte forma:

De manha e dificil eu tomar cafe, quando durmo ate mais tarde eu ja almoco (Ni).

Eu acordo meio-dia, eu acordo ja vou direto almocar (Ju).

Ah, tem pao [um, um e meio], cafe [uma xicara], normal assim (Ci).

No cafe da manha, como uma fatia de pao, com geleia e queijo minas light e nescau, cafe com leite (Ca).

Tem bolacha, pao, fruta e leite (Bi).

Cafe da manha sempre tomo bastante cafe com leite, torrada com frutas, ou uma fruta, ou iogurte (Mi).

Quando eu nao estou de dieta, e um iogurte e uma fruta. Mas so que, agora que eu to de dieta, nessa ultima semana posso escolher entre um iogurte ou uma fruta. So pra mim perder peso (Le).

Observamos que o cafe da manha das adolescentes entrevistadas que o fazem e composto de alimentos considerados saudaveis. O lanche da manha nem sempre e feito, mas quando acontece, tambem e composto por alimentos considerados saudaveis:

Iogurte light, ainda e tudo light (Ca).

Lanche eu nao faco mais, agora faco tudo junto (Bi).

E uma fruta e um iogurte, ou um cafe e duas torradas, ou uma barrinha de cereais (Mi). Fruta ou pao de queijo (Le).

Com relacao aos alimentos consumidos no almoco pelas adolescentes pesquisadas, destacamos os seguintes depoimentos:

Normalmente eu faco miojo, um paozinho ou alguma coisa assim (Ni).

Arroz, macarrao, comida bem normal, como carne, se tiver gordura, geralmente eu como, frango, tudo (Ju).

Como o que tem]: umas tres colheres de arroz, um pouquinho de feijao. Bem pouquinho. Um pouquinho de carne. Batata, pouco tambem (Ci).

Umas tres colheres de arroz, feijao, ai carne ou frango ou peixe e verdura (Ca).

E uma fruta. Sou obrigada a comer carne, arroz e feijao. E um prato de salada (Bi).

Arroz integral, eu vario dai entre peixe, carne vermelha, bife grelhado, frango grelhado, frango assado, feijao e salada, bastante salada (Mi).

Eu fico comendo, sei la, pao (Le).

As refeicoes sao muitas vezes preparadas pelas proprias adolescentes, sendo essa uma pratica bastante comum nos TA, e isso se comprovou nos depoimentos das nossas entrevistadas:

Normalmente eu faco miojo, a minha mae faz comida, mas eu nao gosto de tar comendo (Ni).

Ja teve fases de eu querer preparar o meu almoco, pra cuidar em tudo assim, pra nao deixar ter oleo, tudo que engordasse (Ju).

Eu geralmente [preparo das refeicoes] (Ci).

Algumas das adolescentes entrevistadas se livravam da comida ou utilizaram desculpas para nao comer:

Tem vezes que eu tambem nao almoco (Ni).

Nao to com fome, nao to a fim de comer (Ju).

Dizia que nao tava com fome (Mi).

Eu deveria fazer um prato de comida, mas nao tem tempo (Le).

Quando eu tava bem em crise, as vezes, eu almocava antes, longe assim, ou as vezes nao comia, dava comida pro cachorro (Ci).

Nessa epoca eu escondia, eu costumava fugir, dava um jeito, ia muito pra sala, fingia que tava vendo televisao, costumava botar pouquinha comida, botava no lixo, dava pro cachorro (Mi).

Ou entao, a comida consumida, quando a consumiam, era na maioria das vezes, em pequena quantidade:

Nao como muito no almoco. E o horario que eu como menos (Ju).

Ah, eu como muito pouco, pouquinho, assim (Ci).

O lanche da tarde, quando e feito, assim como o da manha, tambem e composto por alimentos considerados saudaveis pelas adolescentes entrevistadas:

As vezes como uma coisa ou outra. Um salga dinho (Ni).

E bem raro comer alguma coisa a tarde. (Ju).

Eu almoco, ai, quando eu volto [trabalho], eu tomo cafe (Ci).

Biscoitinho, ou aquele integral light, ou club social. Tomo cafe com leite. Tomo uma vitamina (Ca).

Leite, suco, bolacha e fruta (Bi).

Repito o lanche da manha, invento alguma coisa. Seis horas tambem, ou eu faco o cafe da manha invertido (Mi).

Sao dois lanches. Fruta, iogurte, aquela bolacha, ou pao, pode ser, tem variedade, assim. Ai, quantidade controlada (Le).

Com relacao aos alimentos consumidos no jantar, os depoimentos foram os seguintes:

Pao, uma salsicha ou margarina, alguma coisa assim e pao, nao fico me enchendo de coisarada (Ni).

Pao de trigo com queijo, presunto, ricota e alface e tomate. Ja e mais saudavel. Um empanado ou um sanduiche na hora do colegio, ou um pote de acai com banana (Ju).

Uma maca ou como uma bolacha salgada (Ci).

Um pao, salada, com queijo minas ou com hamburguer de frango (Ca).

So leite e fruta (Bi).

Sanduiche, peito de peru, queijo light ou queijo cottage, pao e, dependendo pao light ou pao normal, salada, um copo de cafe, um copo de iogurte (Mi).

Hamburguer de soja, que eu preciso comer um por dia (Le).

Algumas das adolescentes entrevistadas realizam ainda uma ceia:

Uma maca ou uma fruta qualquer (Ca).

A ceia tambem eleite e fruta (Bi).

E na ceia geralmente um cafe desnatado, uma banana, sempre alguma coisa assim (Mi).

Durante o final de semana, dois fatores se destacaram. Primeiro, acordar tarde e passar o restante do dia comendo "besteira", apesar de muitas das adolescentes entrevistadas afirmarem nao comer, saindo, desta forma, totalmente do ritmo dos outros dias da semana:

No domingo, normalmente eu durmo ate super tarde, eu viro o dia, vou acordar de noite. Tomo um refri, vou beliscando. E um dia que eu nao como. Uma bolachinha (Ni).

Domingo eu acordo tarde, as vezes eu durmo ate tres horas da tarde no domingo, ai acordo, nao como, senao e alguma besteirinha. Um sorvete ou uma sobremesa que tiver na geladeira ou um pedaco de bolo, ou uma coisa assim, ai a noite geralmente eu como lanche, domingo e o dia quase que eu menos como (Ju).

Por outro lado, um segundo fator se destacou em relacao a alimentacao no final de semana. Algumas das adolescentes entrevistadas afirmaram comer em excesso ou sentir mais fome por estarem ociosas:

Sabado que eu mais como, acordo meio-dia, dai eu almoco, dai eu fico a tarde inteira sabado sem fazer nada, dai tudo que vem eu vou comendo (Ju).

No final de semana eu fico com mais fome porque nao tem nada, nao trabalho (Ci).

Final de semana se eu fico em casa, eu acabo ficando angustiada, eu acabo comendo demais (Le).

Habito alimentar da familia

Desde o nascimento, os pais tem papel fundamental no desenvolvimento dos habitos alimentares de seus filhos, seja pelo tipo de alimentacao que eles oferecem, seja pelos conceitos alimentares que transmitem, sendo que todos esses fatores tem influencia na formacao dos habitos alimentares. A forma como a familia organiza sua dieta--o tipo, a quantidade e a qualidade dos alimentos--pode constituir um fator de risco para o desenvolvimento de TA. Mas, alem disso, outro fator que tem um papel central e a relacao que a familia estabelece com a alimentacao (21).

A maioria das adolescentes entrevistadas considerou seu jeito de comer parecido com o da familia, como mostram estes depoimentos:

E [forma de comer da familia parecida com a forma dela comer]. Bastante gordura, meu pai e mais preocupado assim, sabe, mas a minha mae nao, e bem, bem, ela nao e gorda, mas ela tem muita vontade de comer as mesmas coisas que eu, muita massa, nao consegue comer um pao so no cafe da tarde, sempre comendo um pouquinho exagerado, assim, e as vezes horas sem comer tambem, ela come bem pouco, assim, tres refeicoes, ela acorda de manha, ela nao come de manha, ela almoca, ela almoca bem, ai toma cafe as seis horas da tarde, ela fica ate as seis sem comer, e depois a noite ela come alguma coisa assim, sempre um lanche, alguma coisa de besteira (Ju).

[irmao] ja era assim de comer comida mais saudavel, assim, mas ele come bem, come ovo frito todo dia, mas ele faz bastante atividade fisica entao. La em casa o pessoal era de fritura assim, a minha mae, galinha frita. Antes a gente comia muita besteira, assim, queijo amarelo, a minha mae sempre foi muito de chocolate, doce assim, sempre, sempre. O meu pai ja sempre foi de uma alimentacao bem saudavel, assim, o prato dele, mais da metade e salada, ele sempre foi assim, de muita fruta, muita verdura. Eu sempre gostei muito de fruta, mas verdura e salada eu tentava fugir o maximo assim, nunca tinha no meu prato e hoje tem. As vezes a minha mae faz pro meu pai, que o meu pai gosta de peixe frito, e daquele frango frito (Ca).

Eu acho que ja foi parecida [forma de comer da familia com a forma dela comer], agora, nao. Eu tento outros caminhos, eu tento comer o minimo possivel. Minha familia e meio italiana, ai eles tem aquele negocio de massa e ai eu tento nao ligar muito pra isso. Mas la em casa o pessoal gosta de comer (Le).

Sob outro enfoque, mas no mesmo sentido, algumas das adolescentes entrevistadas consideraram o jeito de comer da familia parecido com o proprio jeito, diferenciando apenas na quantidade:

Aham [forma de comer da familia parecida com a forma dela comer]. A quantidade nao. Minha irma as vezes janta, minha vo janta, meu tio que mora com a gente tambem, mais eu assim [come pouquinho, so uma frutinha] (Ci).

Sim [forma de comer da familia parecida com a forma dela comer]. Nao. Isso nao [ir diminuindo, diminuindo] (Bi).

E. E bem parecido assim [forma de comer da familia com a forma dela comer]. Na minha familia sempre tiveram o habito de comer muita verdura, fazem as refeicoes a mesa e todos juntos, nos horarios. Os unicos costumes que eles nao tem e que eu aderi sao os lanches, ne (Mi).

Outras, ainda, relataram que seu habito alimentar atual sofreu influencia do habito alimentar familiar:

Sim [forma de comer da mae influenciou na forma dela comer]. Sim, porque dai eu como o que ela faz. Ai acabo indo, comendo as mesmas coisas que ela. Eu como o que ela traz da padaria assim, dai onde acaba eu tendo o mesmo habito alimentar dela (Ju).

Aham [forma de comer da familia influenciou na forma dela comer]. Tipo de comer, sempre comer pao no cafe, sabe, no almoco sempre tem arroz, feijao, sabe, alguma carne. E, mais o tipo de comida, a quantidade, eu nunca fui de comer muito, assim. Eles comem bem, assim (Ci).

Cafe da manha sempre tomo bastante cafe com leite, como e uma coisa que eu gosto muito, acho que e uma coisa que eu herdei da mae (Mi).

Houve, outrossim, um relato segundo o qual a adolescente relatou que influenciou o habito alimentar familiar, tornando-o mais saudavel:

Eu meio que incentivei, obriguei, ne, a familia toda a comer mais assado, mais grelhado. Meu irmao que diz que eu ajudei a alimentacao da familia toda porque eu meio que incentivei todo mundo a comer coisas mais saudaveis, assim, ne, eu que sempre faco salada e eu faco, eu nao deixo muito a minha mae fazer fritura. Hoje, por causa de mim, ela [mae] meio que evitou muita coisa, muita fritura, aprendeu a comer salada. Hoje eu encho o saco dela pra colocar salada, eu sempre faco bastante salada, entao todo mundo assim, acabou se ajudando. Toda familia se ajudou pra ninguem mais comer fritura. Eu sempre faco e a maioria acaba comendo, ne, nao tem jeito, peixe assado ou peixe grelhado, entao foi bem bom (Ca).

Apenas uma das adolescentes entrevistadas disse acreditar que sua forma de se alimentar nao sofreu influencias dos costumes alimentares da familia:

Acho que nao [forma de comer da familia influenciou na forma dela comer]. Eu comia de tudo quando era pequena, assim, verdura, legume. Pela minha mae eu comia tudo que tinha pela frente (Ni).

E tambem apenas uma das adolescentes entrevistadas disse considerar seu jeito de comer diferente do jeito da familia:

Meu pai normalmente almoca na sala sozinho, ele gosta de ver TV e tal, dai eu almoco assim com a minha mae. E tao rapido assim, a gente nem tem tempo de olhar uma pra cara da outra (Ni).

A relacao da familia com a alimentacao e importante, pois o momento das refeicoes vai alem do seu aspecto nutricional. Constitui um momento de compartilhar, alem do alimento, informacoes, atividades do cotidiano, mensagens, etc.21.

Alimentacao saudavel

Na descricao das adolescentes entrevistadas, o conceito de alimentacao saudavel foi bastante restrito:

Nao muito exagerada, mas tambem nao muito controlada, assim. Comer de tudo um pouco, nos horarios certos (Ni).

Comer fruta, o que eu nao como, ter horario certo pra comer, praticar um exercicio fisico pra ajudar nessa alimentacao, e comer um pouco de cada, cada coisa do grupo alimentar, assim, sabe, um pouco de carboidrato, um pouco de cada coisa assim, pra nao, pra balancear bem a alimentacao assim, sabe. Eu acho que e o essencial, mas e o mais dificil, assim (Ju).

Tu comer, nao comer demais, assim, logico, nao comer coisas com muita fritura, mas comer as coisas que tu gostas moderadamente, tipo, vou comer batata frita, mas so vou comer final de semana, vou comer chocolate, como pouquinho. Mas nao deixar de comer as coisas que tu gostas. Mas e o que eu nao faco (Ci).

Que faca voce se sentir bem com voce mesma. Nao so assim, o que adianta uma mulher, que quer perder peso, mas o medico assim, nao, voce nao vai emagrecer isso porque voce tem que comer isso, isso e isso por dia. Ai a mulher vai ficar sendo infeliz. Isso nao e saudavel. Ela vai ter aquela alimentacao, o corpo dela vai estar saudavel, mas a mente dela nao, nao vai ficar satisfeita com o corpo dela. Que me faca nao sentir fome. So isso que eu queria. Mas e, to trabalhando isso (Le).

Constatamos, dessa forma, que essas adolescentes possuem um conhecimento sobre os principios de uma alimentacao equilibrada, embora, na maior parte das vezes, tenham atitudes que nao correspondam a este conhecimento, uma vez que, como ja foi visto, o comer vai alem da dimensao nutricional apenas, envolvendo tambem fatores emocionais, sofrendo influencias tanto socioeconomicas como culturais (18).

Discussao

Nos ultimos anos, AN e BN tornaram-se importantes tematicas de discussao na midia brasileira e mundial. Personagens de novelas do principal canal de TV aberta do pais portadoras de quadros de AN e BN, manchetes de capas de revistas, jornais e tematica central de diversos programas de variedades, tanto na TV quanto no radio, contribuiram para aumentar indices de audiencia desses veiculos de comunicacao.

Toda essa discussao traz um aspecto positivo: a disseminacao da informacao sobre esses TA pelos veiculos de comunicacao de massa, pois quanto antes for detectado um TA, maiores as chances de um bom prognostico. A medida que a atencao das pessoas e chamada para os transtornos do comportamento alimentar e que a populacao toma conhecimento de sua existencia, sintomas e consequencias, maiores as chances de serem descobertos em tempo menor. Vistos muitas vezes como mania de adolescente, por conta da falta de informacao, os episodios divulgados pelos meios de comunicacao levam ao conhecimento do publico leigo que a AN e a BN podem matar.

Em nossa pesquisa, consideramos que as pessoas mais indicadas para fornecerem informacoes a respeito dos TA eram os proprios individuos acometidos por essas patologias. Desta forma, com o objetivo de compreender o significado da experiencia vivida por pessoas com TA, especificamente adolescentes do sexo feminino, fomos ao encontro delas. Esse contato nos permitiu conhecer suas vivencias e sentimentos relacionados direta e indiretamente a seus TA.

Descobrir o que sao TA nao e uma tarefa muito dificil, uma vez que ha inumeros artigos cientificos e varios livros descrevendo-os. Nossa proposta era mostrar como sao esses transtornos na visao de quem esta passando por eles.

No contato com as adolescentes entrevistadas, chamou-nos a atencao a disponibilidade em abrirem as portas de sua existencia e compartilharem a historia de seus transtornos e de suas vidas, mesmo na presenca do sofrimento que tantas vezes surgia diante de um silencio profundo ou das lagrimas que quase, ou por vezes, caiam.

O contato com essas adolescentes foi enriquecedor. As entrevistas possibilitaram descrever comportamentos, atitudes, sentimentos e percepcoes que nortearam nosso estudo.

Uma preocupacao exacerbada com o controle da alimentacao e a tonica comum dos TA, segundo a literatura (18). Essa preocupacao ficou evidenciada tambem em nossas entrevistas, tanto nas adolescentes que estavam em acompanhamento nutricional quanto as que nao estavam. Ha ainda a intencao de uma alimentacao considerada por elas saudavel, que nem sempre e a preferida dessas adolescentes, mas que, ainda assim, e adotada.

Observamos em nossas entrevistas que as escolhas alimentares normalmente sao feitas de acordo com a quantidade de calorias ou com aquilo que engorda menos, mas, alem disso, tambem influenciam na escolha a vontade, o sabor ou o gosto. Alguns depoimentos nos mostraram que as escolhas sao feitas de acordo com a orientacao das nutricionistas, destacando a importancia desse profissional no sucesso do tratamento. Porem, nos episodios de comer compulsivo, observamos que nao ha criterio de escolha.

Com relacao ao numero de refeicoes realizadas pelas adolescentes da nossa pesquisa, encontramos relatos que vao de tres a oito por dia, sendo distribuidas entre cafe da manha, lanche matutino, almoco, lanche vespertino, jantar, lanche noturno, ceia e "extras". A maioria das adolescentes entrevistadas considera seu jeito de comer parecido com o da familia; algumas consideram o jeito de comer da familia parecido com o proprio, diferenciando apenas na quantidade. Outras ainda consideram que seu habito alimentar atual sofreu influencia do habito alimentar familiar e uma delas considera que ela influenciou o habito alimentar familiar, tornando-o mais saudavel.

Abordar os TA a partir do olhar da nutricao, aliado ao da psicologia, foi uma experiencia extremamente rica, pois nos proporcionou contemplar este fenomeno por um outro prisma--o da relacao com a comida--e confirmar o quanto a forma de se relacionar com a comida esta ligada a questoes emocionais. E, apesar do conhecimento teorico e da pratica clinica com pessoas com TA, esta "intersecao" da nutricao com a psicologia propiciou, ainda, ver algo relativamente conhecido com novos olhos.

Alem disso, este estudo, durante a sua realizacao, nos provocou mudancas significativas, tanto nos aspectos pessoais quanto profissionais, abrindo questoes para uma reflexao futura.

Com relacao ao metodo adotado neste estudo, acreditamos que a escolha do metodo qualitativo, centrado numa abordagem fenomenologica, confirmou-se de fato o mais adequado de acordo com os objetivos propostos. O metodo adotado nos possibilitou o acesso ao conteudo de forma profunda, nao generalizadora nem tampouco interpretativa, como descreve Heidegger (4): "deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo".

Consideracoes finais

Esta pesquisa, conforme ja apontado, buscou compreender o significado da experiencia vivida de TA em vez de explica-lo, pois na perspectiva fenomenologica adotada, e a compreensao do fenomeno que nos possibilita abranger sua totalidade em suas multiplas dimensoes. Desta forma, nos proporcionou mostrar como e viver com TA na visao de cada uma das sete adolescentes entrevistadas.

Porem, nao podemos parar por aqui: e fundamental que mais estudos sejam feitos sobre este tema, especialmente dando espaco as pessoas portadoras dos TA que tanto nos tem a dizer. De suma importancia tambem e a informacao e a divulgacao sobre esses TA, bem como sobre os tratamentos adequados e os profissionais indicados para contribuir nesses casos, numa tentativa de evitar que o sofrimento das pessoas acometidas passe despercebido e se prolongue por um tempo ainda maior ou--ainda mais grave--leve a um desfecho tragico.

Colaboradores

AL Nunes foi responsavel pela concepcao e delineamento da pesquisa e redigiu o artigo. FAG Vasconcelos orientou a realizacao do estudo e foi responsavel pela revisao do artigo.

Referencias

(1.) Cordas TA. Transtornos alimentares: classificacao e diagnostico. Revista de Psiquiatria Clinica 2004; 31(4): 154-157.

(2.) Beumont PJV. The clinical presentation of anorexia and bulimia nervosa. In: Fairburn CG, Brownell KD, editors. Eating disorders and obesity: a comprehensive handbook. New York: The Guilford Press; 2002. p. 162-170.

(3.) DSM-IV-TR: Manual diagnostico e estatistico de transtornos mentais. Porto Alegre: ArtMed; 2002.

(4.) Heidegger M. Ser e Tempo (Parte I). Petropolis: Vozes; 1989.

(5.) Ribeiro JP. Gestalt Terapia: refazendo um caminho. Sao Paulo: Summus; 1985.

(6.) Coppe AAF. A vivencia em grupos de encontro: um estudo fenomenologico de depoimentos [dissertacao]. Rio de Janeiro (RJ): Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2001.

(7.) Amatuzzi MM. Apontamentos acerca da pesquisa fenomenologica. Estudos de Psicologia 1996; 13(1):5-10.

(8.) Franca C. Psicologia fenomenologica: uma das maneiras de se fazer. Campinas: Editora da Unicamp; 1989.

(9.) Holanda AF. O resgate da fenomenologia de Husserl e a pesquisa em psicologia [tese]. Campinas (SP): Universidade Catolica de Campinas; 2002.

(10.) Holanda AF. Pesquisa fenomenologica e pesquisa eidetica. In: Bruns MAT, Holanda AF. Psicologia e fenomenologia: reflexoes e perspectivas. Campinas: Alinea; 2003. p. 41-64.

(11.) Martins J, Bicudo MAV. A pesquisa qualitativa em psicologia: fundamentos e recursos basicos. Sao Paulo: Centauro; 2003.

(12.) Moreira DA. O metodo fenomenologico na pesquisa. Sao Paulo: Pioneira Thomson; 2002.

(13.) Ferreira ABH. Minidicionario da Lingua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 2003.

(14.) Bandeira CRS, Fisberg M, Bonilha EA, Halpern G, Hischbruch MD. Habitos alimentares na adolescencia. Pediatria Moderna 2000; 36(11):724-734.

(15.) Alvarenga M, Larino MA. Terapia nutricional na anorexia e bulimia nervosas. Revista Brasileira de Psiquiatria 2002; 24(3):39-43.

(16.) Dunker KLL, Philippi ST. Habitos e comportamentos alimentares de adolescentes com sintomas de anorexia nervosa. Revista de Nutricao 2003; 16(1):51-60.

(17.) Bacaltchuck J, Appolinario JC. Neurobiologia. In: Claudino AM, Zanella MT, organizadores. Guia de Transtornos Alimentares e Obesidade. Barueri: Manole; 2005. p. 3-23.

(18.) Alvarenga M, Dunker KLL. Padrao e comportamento alimentar na anorexia e na bulimia nervosa. In: Philippi ST, Alvarenga M. Transtornos alimentares: uma visao nutricional. Barueri: Manole; 2004. p. 131-148.

(19.) Eisenstein E, Coelho K, Coelho S, Coelho M. Nutricao na adolescencia. Jornal de Pediatria 2000; 76(3): 263-274.

(20.) Philippi ST, Latterzza AR, Cruz ATR, Ribeiro LC. Piramide alimentar adaptada: guia para escolha dos alimentos. Revista de Nutricao 1999; 12(1):65-80.

(21.) Cobelo AW. O papel da familia no comportamento alimentar e nos transtornos alimentares. In: Philippi ST, Alvarenga M. Transtornos alimentares: uma visao nutricional. Barueri: Manole; 2004. p. 119-129.

Artigo apresentado em 25/06/2008

Aprovado em 30/10/2008

Versao final apresentada em 11/11/2008

Arlene Leite Nunes [1] Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos [2]

[1] Departamento de Psicologia, UNIVILLE. Campus Universitario s/n, Bom Retiro. 89219-905 Joinville SC. arlenenunes@gmail.com

[2] Departamento de Nutricao, Centro de Ciencias da Saude, Universidade Federal de Santa Catarina.
Tabela 1. Descricao das adolescentes portadoras de TA entrevistadas, de
acordo com idade, escolaridade, transtornos alimentares, fase do
tratamento, idade do inicio do transtorno alimentar, duracao do
transtorno. Florianopolis, 2006.

                                                         Fase de
           Idade                                         tratamento do
           atual                            Tipo de      transtorno
Codinome   (anos)   Escolaridade            transtorno   alimentar (TA)

Ni         17       Ensino medio completo   BN           Em tratamento,
                                                         admite que tem
                                                         TA

Bi         17       2 ano ensino medio      AN           Em tratamento,
                                                         nao admite que
                                                         tem TA (estado
                                                         grave)

Le         17       3 ano ensino medio      BN           Em tratamento,
                                                         admite que tem
                                                         TA

Ca         19       Superior incompleto     AN           Em tratamento,
                                                         recuperacao

Ju         20       Ensino medio completo   BN           Em tratamento,
                                                         admite que tem
                                                         TA

Ci         20       Superior incompleto     AN           Parou o
                                                         tratamento,
                                                         admite que tem
                                                         TA

Mi         20       Superior incompleto     AN           Em tratamento,
                                                         recuperacao

Tabela 2. Descricao das adolescentes portadoras de TA entrevistadas,
de acordo com estatura, peso atual, minimo e maximo, peso perdido,
indice de massa corporal (IMC) atual, minimo e maximo. Florianopolis,
2006.

           Estatura *   Peso*atual   Peso*minimo   Peso*maximo
Codinome   (m)          (kg)         (kg)          (kg)

Ni         1,62         52           46            54
Bi         1,48         38,3         21            38
Le         1,58         54           49            54
Ca         1,59         45           38            48
Ju         1,52         52,5         49            66
Ci         1,51         Nao sabe     37            50
Mi         1,56         48           37            56

           Peso*perdido   Peso*perdido   IMC**atual
Codinome   (kg)           (%)            (kg/[m.sup.2])

Ni          8             14,81          19,81
Bi         17             44,74          17,48
Le          5              9,26          21,63
Ca         10             20,83          17,80
Ju         17             25,76          22,72
Ci         13             26,00             --
Mi         19             33,93          19,72

* Os dados de peso e estatura foram referidos pelas adolescentes;
** OIMC foi calculado com base nos dados antropometricos referidos.
COPYRIGHT 2010 Associacao Brasileira de Pos-Graduacao em Saude Coletiva - ABRASCO
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2010 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:Texto en Portuguese
Author:Nunes, Arlene Leite; de Vasconcelos, Francisco de Assis Guedes
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Article Type:Perspectiva general de la enferm
Date:Mar 1, 2010
Words:8061
Previous Article:O impacto da deficiencia nos irmaos: historias de vida.
Next Article:Avaliacao antropometrica e analise dietetica de pre-escolares em centros educacionais municipais no sul de Minas Gerais.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters