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Translation, Adaptation and Initial Validity Study of the Magical Ideation Scale/Traducao, Adaptacao e Evidencias Iniciais de Validade da Magical Ideation Scale.

A Magical Ideation Scale (MIS), publicada em 1983 por Eckblad e Chapman, e uma escala de autorrelato, composta por 30 itens com possibilidade de resposta dicotomica, a qual propoe avaliar pensamentos magicos. Conforme salientam os referidos autores, pensamento magico e uma especie de crenca, por vezes tida como bizarra, que se distancia do pensamento coletivo, uma vez que esta focada na possibilidade de eventos acontecerem sem que estes tenham relacao causal apropriada aos padroes convencionais da cultura. Ainda para os criadores dessa escala, esse tipo de pensamento pode ser encontrado em quadros clinicos propensos a esquizofrenia, tal como o transtorno da personalidade esquizotipica (TPE).

De acordo com os Manuais Diagnostico e Estatistico de Transtornos Mentais--DSM-IV (American Psychiatric Association [APA], 2000) e DSM-5 (APA, 2013)--, o TPE e caracterizado por um padrao persistente de comprometimento social e interpessoal, atrelado a distorcoes cognitivas e perceptuais, bem como a comportamentos excentricos. Esse transtorno se inicia no comeco da fase adulta e perdura ao longo da vida do sujeito, manifestando-se em diversos contextos. Embora os sujeitos acometidos por esse transtorno de personalidade nao apresentem delirios, tampouco alucinacoes, frequentemente atribuem interpretacoes incorretas acerca de eventos externos, acreditando que estes possuem significados peculiares para si proprios.

Clark (1990), Tonelli, Heyde, Alvarez e Raine (2009) e Skodol et al. (2011) ressaltam que o comportamento e/ou aparencia do sujeito esquizotipico tendem a ser peculiares ou excentricos, o que, por conseguinte, potencializa sua dificuldade acentuada de estabelecer contatos interpessoais intimos, estando, ainda, tal dificuldade, associada com temores paranoides. Seu pensamento e discurso seguem a mesma direcao, assumindo, muitas vezes, um carater bizarro, que podem evidenciar-se vagos, estereotipados ou de cunho metaforico.

De modo geral, o sujeito com TPE costuma, ainda, apresentar comportamentos e crencas supersticiosos ligados a fenomenos paranormais, os quais nao pertencem a sua subcultura. Assim sendo, revela acreditar que possui poderes especiais, como telepatia, clarividencia e capacidade de ler a mente dos demais. Em contrapartida, e frequente a manifestacao de ideacoes paranoides, especialmente em relacao as intencoes das pessoas que o rodeiam (APA, 2000; Clark, 1990; Eckblad & Chapman, 1983; Millon, Grossman, Millon, Meagher, & Ramnath, 2004; Tonelli, et al., 2009).

Parra (2008) corrobora a concepcao de que comportamentos e experiencias orientados a paranormalidade sejam caracteristicos do funcionamento esquizotipico. O referido autor conduziu um estudo com o intuito de investigar padroes esquizotipicos em sujeitos que relatavam ser capazes de visualizar a aura dos demais. Em sintese, sua hipotese foi comprovada, sugerindo que aqueles que haviam relatado tal experiencia evidenciavam maior nivel de esquizotipia, bem como tendencias dissociativas e propensao ao pensamento magico (z = 4,50; p < 0,001).

Em outro estudo, Parra (2010), partindo do pressuposto de que sujeitos que acreditavam em questoes paranormais, supersticoes, psicocinesia, entre outras formas de pensamentos magicos, estariam mais propensos a experiencia alucinatoria, propos investigar a intensidade de sintomas atrelados a esquizotipia em sujeitos crentes na paranormalidade, dividindo-os em dois grupos: alucinadores e nao alucinadores. Como resultado, obteve-se maior intensidade de imaginacao auditiva (z = 3,21; p [less than or equal to] 0,001) e visual (z = 3,22; p [less than or equal to] 0,001) no grupo composto por sujeitos caracterizados como alucinadores, bem como elevados niveis de esquizotipia (z = 4,20; p [less than or equal to] 0,001).

Nesse sentido, o funcionamento esquizotipico pode ser compreendido como uma dimensao da personalidade que, em um continuum, apresenta comportamentos mais adaptados, em seu polo saudavel e, por outro lado, propensao a manifestacao de transtornos do tipo psicotico no polo mais patologico (Chapman, Edell, & Chapman, 1980; Millon, et al., 2004; Parra, 2010). Cabe ressaltar, contudo, que aspectos sustentados culturalmente, como, por exemplo, crencas e/ou rituais religiosos, muito embora possam parecer exageradamente excentricos, nao podem ser considerados tracos esquizotipicos. Desse modo, acreditar em vida apos a morte, praticar rituais de voodoo, falar em linguas estranhas, ter pensamentos magicos ligados as doencas e/ou saude ou possuir um "sexto sentido" nao devem servir para a classificacao diagnostica de TPE se tais aspectos estiverem intrinsecamente relacionados a subcultura do sujeito (APA, 2000; APA, 2013; Tonelli, et al., 2009).

Diante do exposto, Eckblad e Chapman (1983) relatam que os itens da MIS foram originalmente construidos de forma que o sujeito respondente pudesse interpreta-los com base em suas experiencias pessoais, ao inves de ter que hipotetizar acontecimentos. Tais experiencias contemplam "ideias de transmissao de pensamento, fenomenos psicocineticos, premonicao, astrologia, influencia de espiritos, reencarnacao, amuletos da sorte, e trocas de energias psiquicas entre pessoas" (Eckblad & Chapman, 1983, p.215). Cabe ressaltar que muitos itens abordam experiencias que seriam aceitaveis dependendo da subcultura do sujeito, o que, conforme discutido anteriormente, nao poderia ser utilizado para subsidiar o diagnostico de TPE ou demais transtornos do tipo psicotico. Contudo, alguns itens demonstram-se livres de tais influencias, como, por exemplo, aqueles que fazem mencao a presenca de mensagens secretas e/ou subliminares no comportamento dos outros e na forma como objetos sao organizados.

Eckblad e Chapman (1983) utilizaram esse instrumento para diferenciar universitarios com e sem sintomas de propensao a psicose, tendo esse estudo demonstrado diferencas estatisticamente significativas entre os dois grupos para os sintomas de transmissao de pensamento (M1=1,0; [DP.sub.1] = 2,1; [M.sub.2] = 0; DP = 0; t = 2,46; p < 0,05), alucinacoes auditivas ([M.sub.1=] 1,21; [DP.sub.1] = 2,4; [M.sub.2] = 0; DP = 0; t = 2,60; p < 0,05); e crencas bizarras ([M.sub.1] = 2,0; [DP.sub.1] = 3,2; [M.sub.2] = 0,2; DP = 0,80; t = 2,81; p < 0,05). Em outro estudo, apresentado por Chapman, Chapman, Kwapil, Eckblad e Zinser (1994), os sujeitos que compuseram a amostra evidenciaram alta magnitude de correlacao entre o desempenho apresentado na MIS e tracos esquizotipicos (r= 6,8; p<0,05), sugerindo significativa associacao entre pensamento magico e funcionamento esquizotipico.

A identificacao de pensamentos magicos e crencas bizarras, bem como o diagnostico do TPE tem sido considerados de extrema importancia para o tratamento clinico, uma vez que esse padrao pode ser estimado um fator de vulnerabilidade e propensao para o desenvolvimento da esquizofrenia, a qual ordinariamente tem seu inicio na fase adulta e possui um curso cronico (APA, 2000; APA, 2013; Tonelli, et al., 2009). Nesse sentido, o diagnostico previo do TPE e crucial para que acoes preventivas e terapeuticas possam ser tomadas, minimizando o sofrimento causado por esse transtorno e, dessa forma, atenuando sua propensao a esquizofrenia.

Diante desse cenario, Eckblad e Chapman (1983) propuseram a construcao da MIS com o intuito de auxiliar no diagnostico de padroes inclinados a manifestacao de sintomas psicoticos e desenvolvimento da esquizofrenia. Todavia, essa escala foi publicada nos Estados Unidos e, ate o presente momento, nao possui padronizacao para cultura brasileira. Em paralelo, verifica-se no Brasil uma escassez de instrumentos de medida capazes de identificar padroes esquizotipicos, tal como a MIS se mostra eficaz. Sendo assim, o presente trabalho tem como objetivo propor uma versao brasileira da MIS, verificando se sua traducao evidencia adequacao semantica inteligivel para essa populacao, bem como investigar a sensibilidade discriminativa da escala por meio de um estudo inicial de validade de criterio.

Metodo

Participantes

Para o estudo de traducao e adaptacao da escala, participaram 283 sujeitos, residentes no interior de Minas Gerais, com idades entre 18 e 68 anos (M= 28,3; DP= 11,10), sendo 71% do sexo feminino f= 203). No que diz respeito a formacao, 50,9% da amostra era composta por universitarios f= 145), 36,5% por sujeitos do ensino medio (f= 104) e 11,9% do ensino fundamental f = 34). Com relacao ao tipo de instituicao, 43,9% f= 125) eram alunos de instituicoes publicas e 55,4% f= 158), particulares.

Na sequencia, para o estudo de evidencias de validade, participaram, de maneira voluntaria, 70 adultos, sendo 63,9% do sexo masculino, com idades variando entre 19 e 64 anos (M = 40,49; DP = 11,042), em diferentes niveis de escolaridade, habitantes do interior de Minas Gerais. Os participantes foram divididos em dois grupos, pacientes e nao-pacientes, e pareados no que concerne as caracteristicas pessoais, como idade e escolaridade. O grupo de pacientes foi composto por 35 sujeitos que frequentavam, para consulta e acompanhamento, uma instituicao especializada em saude mental. Todos os pacientes faziam uso de medicacao e eram atendidos por uma equipe multiprofissional composta por psicologos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais e enfermeiros. O criterio de inclusao desse grupo era ter previamente recebido o diagnostico nosografico de esquizofrenia, sustentado a partir do codigo referente a Classificacao Internacional de Doencas--CID-10 (OMS, 1993). E valido destacar que foi realizada uma pre-selecao, a partir dos registros medicos, para destacar sujeitos que apresentavam o diagnostico adicional de deficiencia intelectual, uma vez que tal condicao poderia comprometer a utilizacao de uma escala de autorrelato. Todos os pacientes que compuseram a amostra se encontravam em um estagio avancado de tratamento psicologico e psiquiatrico, sendo, portanto, considerados estabilizados.

Em paralelo, o grupo nao-pacientes foi representado por 35 sujeitos que nao apresentavam historico de comprometimento mental e/ou psicologico. Os participantes dessa amostra foram selecionados por meio de indicacoes de terceiros.

Instrumento

A MIS e uma escala de autorrelato construida para identificar a presenca de pensamento magico. Os itens propostos por Eckblad e Chapman (1983) contemplam sintomas compativeis com o TPE e demais transtornos propensos a esquizofrenia. As sentencas devem ser analisadas e assinaladas pelo sujeito em uma escala dicotomica, do tipo verdadeiro ou falso.

Os itens traduzidos e adaptados da MIS bem como as direcoes para pontuacao constam da Tabela 1, sob a autorizacao da American Psychological Association, que mantem os direitos autorais do instrumento. De acordo com a proposta de Eckblad e Chapman (1983), considera-se um ponto para cada item assinalado pelo sujeito conforme o esperado. Os pontos de corte propostos pelos autores supracitados sao os escores brutos 19 e 20 para homens e mulheres, respectivamente.

Procedimentos

O presente estudo foi dividido em dois momentos. No primeiro, referente a traducao e adaptacao da MIS, os dois primeiros autores deste artigo realizaram a traducao da escala, analisando a adequacao semantica e escolha dos sinonimos na lingua portuguesa. Em paralelo, uma segunda versao traduzida da escala foi obtida a partir da analise de uma tradutora profissional. Posteriormente, buscou-se sintetizar as duas por consenso entre os autores. A versao alcancada foi submetida a revisao ortografica por uma especialista em gramatica portuguesa, sem conhecimento previo do instrumento em sua versao original.

Na sequencia, o instrumento piloto foi submetido a backtranslation pela terceira autora do presente estudo, tambem nao conhecedora da versao original da MIS, para verificar a similaridade da versao brasileira com a original. Com a adequacao da traducao verificada em consenso com o grupo de pesquisadores e apos pequenos ajustes, chegou-se a versao final utilizada no presente estudo.

A etapa seguinte do estudo foi administrar a MIS a uma amostra de sujeitos adultos de variadas faixas etarias e diversos graus de escolaridade, a fim de verificar a adequacao da linguagem da versao final para a realidade brasileira. Todos os participantes, voluntarios alcancados por meio de um processo de amostragem nao aleatorio, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes de responderem a MIS. Ao responderem, os sujeitos eram orientados a assinalar no verso da folha de respostas as palavras cujo significado nao conheciam, bem como os itens que porventura nao foram capazes de compreender, acrescentando observacoes quanto aos elementos que dificultaram a sua compreensao. Posteriormente, os dados foram lancados em uma planilha do Statistical Packagefor Social Sciences (SPSS) para a realizacao das analises estatisticas. Alem de serem obtidas as estatisticas descritivas, procedeu-se a ANOVA a fim de identificar se havia diferencas estatisticamente significativas entre os grupos em funcao de sua respectiva escolaridade, bem como se buscou correlacionar o escore bruto da MIS com o diagnostico previo de esquizofrenia.

No segundo momento da pesquisa, referente ao estudo de validade, foi realizado contato com uma instituicao que presta atendimento clinico psicologico e psiquiatrico, situada em uma cidade do interior de Minas Gerais a fim de se obter a autorizacao para o desenvolvimento da pesquisa. Posteriormente, o projeto foi encaminhado ao comite de etica da Universidade Sao Francisco e, apos sua aprovacao, deu-se inicio ao processo de coleta de dados.

Os sujeitos do grupo de Pacientes, diagnosticados previamente pelos psiquiatras da instituicao como esquizofrenicos do tipo paranoide, que demonstraram interesse em compor a amostra, receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) explicando basicamente os objetivos da presente pesquisa, garantindo, ainda, a confidencialidade das informacoes coletadas. Cabe ressaltar que os psiquiatras da instituicao possuiam ampla experiencia em sua area de atuacao e, para estabelecer o diagnostico diferencial dos pacientes, realizavam entrevistas livres baseando-se nas diretrizes publicadas no manual diagnostico CID-10 (OMS, 1993). O grupo nao-paciente, composto por nao pacientes, era representado por sujeitos sem historico de busca por tratamento psicologico e/ou psiquiatrico.

Resultados e Discussao

Conforme mencionado anteriormente, o presente estudo se dividiu em dois momentos, traducao e adaptacao, seguidos de um estudo inicial de validade. Dessa forma, os resultados serao apresentados de maneira sequencial, respeitando a ordem dos acontecimentos. Na etapa de traducao e adaptacao, foram realizadas analises descritivas para as palavras que foram apontadas como desconhecidas, conforme a Tabela 2.

A analise de dados revelou seis palavras que foram pontuadas por pelo menos um dos participantes como desconhecida. Observa-se que a palavra que obteve a maior frequencia de citacao como desconhecida foi a palavra sosia, mencionada por 4,2% dos participantes. Pela analise, entendese que, dos itens traduzidos, poucas palavras apresentaram-se dificeis e para um grupo pequeno, considerado inexpressivo, visto que demonstra boa adequacao para 95% da amostra estudada.

Em paralelo, as palavras apontadas como desconhecidas foram analisadas quanto ao nivel de escolaridade, conforme as tabelas 3 e 4.

As analises comparativas para os presentes dados sao superficiais, visto o numero reduzido de pessoas que apresentaram alguma dificuldade no reconhecimento de uma palavra usada na traducao da MIS. Sendo assim, com N maximo de 12 pessoas, para a comparacao da palavra sosia entre grupos de acordo com os niveis de escolaridade, nao ha informacoes suficientes para gerar dados estatisticamente significativos. No entanto, as analises foram feitas no intuito de verificar se havia uma relacao, ja esperada, de que as palavras citadas como desconhecidas neste estudo tenham sido mencionadas prioritariamente no grupo com menor grau de escolaridade.

Os dados seguiram o esperado e demonstram que a palavra que teve maior incidencia como desconhecida, a palavra sosia, apesar de nao apresentar diferenca significativa entre os grupos, apresentou uma tendencia a diminuir sua citacao como desconhecida em niveis de escolaridade mais altos. Esse argumento e confirmado com a palavra experimento, que, por meio da ANOVA, revelou diminuicao estatisticamente significativa nos grupos com maiores niveis de escolarizacao.

Ademais das analises de palavras desconhecidas, foram realizadas analises para verificar os itens considerados de dificil compreensao pelos participantes. Ao se analisarem os itens apontados como nao compreendidos, obteve-se um total de 22 itens. No entanto, 16 destes aparecem em menos de 1% dos protocolos coletados. Desse modo, optou-se por apresentar apenas os itens nao compreendidos por mais de 1% da amostra, resultando em um total de seis itens, conforme apresentado na Tabela 5.

Observa-se que o item que mais apresentou-se dificil para os participantes foi o item 1, incompreendido por mais de 10% da amostra e traduzido como Algumas pessoas me fazem pensar nelas apenas ao pensarem em mim. O restante dos itens mostrou-se bem compreendido por mais de 95% da amostra estudada, nos diferentes niveis de escolaridade. O segundo item notificado como nao compreendido, o item 6, apresentou-se dificil para pouco mais de 3% da amostra e foi traduzido como As vezes as coisas parecem estar em lugares diferentes quando eu chego em casa, mesmo sem ninguem ter estado la.

Para maior avaliacao da nao compreensao dos itens citados na Tabela 5, foram tambem realizadas analises de frequencia por nivel de escolaridade. Tais analises sao apresentadas na Tabela 6.

No decorrer do processo de traducao, observou-se a necessidade de adaptacao de alguns termos norte-americanos para o contexto brasileiro, buscando, no entanto, nao comprometer a sensibilidade do item ao que pretende representar. Tal procedimento veio da constatacao de que, por vezes, a traducao literal comprometia o entendimento do item e acabava nao representando adequadamente o que a versao original sugeria. A organizacao dos itens adaptados para a versao final foi realizada como apresentado a seguir.

O primeiro item original da MIS, Some people can make me aware of them just by thinking about me, demonstrou-se, a priori, de dificil traducao, ja que a expressao make me aware tem sua traducao como conscientizar ou trazer a consciencia, o que, em contexto norte-americano explicita claramente a ideia de trazer a memoria espontaneamente. No entanto, em portugues, o termo conscientizar, nao pareceu adequado para o entendimento do item. Dessa forma, optou-se pelos termos me fazem pensar, tornando a traducao mais adequada. Como resultado, o item ficou Algumas pessoas me fazem pensar nelas apenas ao pensarem em mim. Contudo, apos a coleta de dados, percebeu-se a necessidade de se realizar pequenos ajustes, conforme apontamentos feitos pelos respondentes da versao piloto da escala, uma vez que esse item se mostrou confuso para 10,2% da amostra. Nesse sentido, tal item, apos analise dos comentarios realizados pelos respondentes e da avaliacao dos juizes, foi editado para Algumas pessoas me fazem lembrar delas apenas ao pensarem em mim.

No segundo item, I have had the momentary feeling that 1 might not be human, a palavra momentary foi substituida por rapida, apos a coleta de dados do presente estudo, pois, embora a frequencia com que essa palavra fora assinalada como desconhecida tenha sido baixa, julga-se que essa modificacao traz o item para um contexto mais coloquial. Dessa maneira, obteve-se o item Ja tive uma rapida sensacao de que eu poderia nao ser humano.

No item 5, a expressao too often na frase Horoscopes are right too often for it to be a coincidence foi simplificada de muito frequentemente para frequentemente, uma vez que, na cultura brasileira, essa palavra ja denota intensidade e, tentar enfatizar esse aspecto soaria como redundancia. Assim sendo, a traducao resultou em Horoscopos estao frequentemente certos para ser apenas coincidencia.

No item 8, I have occasionally had the silly feeling that a TV or radio broadcaster knew I was listening to him, as palavras occasionally e broadcaster, literalmente traduzidas como ocasionalmente e apresentador ou radiodifusor foram preteridas pelas expressoes algumas vezes e pessoa, respectivamente. As traducoes literais dessas palavras nao atendem efetivamente a adequacao coloquial para a cultura brasileira. A segunda palavra, por exemplo, quando traduzida, poderia ser radiodifusor, que, por sua vez, e totalmente incomum na forma de expressao do portugues. Diante do exposto, o item resultou em Ja tive, algumas vezes, a tola sensacao de que uma pessoa da TV ou do radio sabia que eu a estava escutando.

Uma vez adaptada para a cultura brasileira, a MIS foi entao administrada a 70 sujeitos adultos, os quais foram divididos em Pacientes e Nao-pacientes. O desempenho dos participantes dos dois grupos foi comparado por meio do teste t de Student, e a magnitude da diferenca obtida a partir do d de Cohen. Com base no diagnostico nosografico de esquizofrenia, criterio externo utilizado no presente estudo, aventou-se a hipotese de que o grupo de Pacientes evidenciaria um escore bruto mais elevado quando comparado ao grupo Nao-pacientes, o que pode ser confirmado, conforme apresentado na Tabela 7.

Os resultados apresentados na Tabela 7 revelam elevada discrepancia acerca do desempenho de ambos os grupos, tendo em vista que o grupo de pacientes demonstrou maior media ([Pacientes: M = 18,71; DP = 4,416]; [Controle: M = 4,74; DP = 2,737]). A elevada magnitude dessa diferenca (d = 3,85; p = 0,001) sugere que sujeitos que apresentam o diagnostico de esquizofrenia tem maior probabilidade de pontuarem na MIS de maneira exacerbada, revelando, portanto, mais indicios de pensamentos magicos.

Com o intuito de verificar se havia associacao entre o escore bruto apresentado na MIS, que tem como objetivo avaliar a presenca de pensamentos magicos, com a presenca do diagnostico de esquizofrenia, criterio externo obtido pela avaliacao dos psiquiatras da instituicao de Saude Mental, procedeu-se ao teste estatistico r de Pearson. O resultado dessa correlacao e apresentado na Tabela 8.

Os dados acima apresentados revelam associacao de forte magnitude entre o escore bruto obtido na MIS e o diagnostico nosografico de esquizofrenia. Assim sendo, percebe-se associacao positiva entre possuir o diagnostico de esquizofrenia e apresentar elevada pontuacao em tal escala. Diante do exposto, sujeitos esquizofrenicos expressam maior propensao a pontuarem de maneira acentuada na MIS, corroborando a hipotese previamente aventada.

Consideracoes Finais

Os resultados sugerem que a MIS pode ser administrada a sujeitos adultos, com nivel de escolaridade a partir do ensino fundamental. Quanto ao tipo da instituicao de ensino, se publica ou particular, percebe-se adequacao do instrumento independente de tal questao.

Em sintese, apos analisar os dados coletados, tornase evidente que a escolha dos sinonimos utilizados para traducao dos itens da MIS demonstra-se adequada e inteligivel para a amostra pesquisada. E possivel, ainda, interpretar os resultados aqui apresentados como evidencias iniciais de validade para a MIS, uma vez que a escala, apos ter sido traduzida para o portugues, foi sensivel para discriminar pacientes com o diagnostico de esquizofrenia dos demais sujeitos que nao apresentavam historico de comprometimentos intrapsiquicos severos.

Cabe ressaltar que o presente estudo possui limitacoes a serem sanadas em eventuais pesquisas futuras. O aumento do numero de sujeitos do sexo feminino na amostra geral investigada quando comparado ao total de sujeitos do sexo masculino ilustra uma delas. Outro ponto a ser considerado e a realizacao de estudos considerando nao apenas a variavel sexo, mas a identidade de genero, a fim de ampliar as possibilidades de utilizacao da escala. Ademais, acredita-se que seja importante buscar comparar o desempenho de mais grupos em relacao aos que foram aqui estudados, como, por exemplo, pacientes com propensao a esquizofrenia e nao apenas os que ja possuem tal diagnostico.

Em suma, considera-se a versao utilizada da MIS adaptada para a cultura brasileira, necessitando, contudo, que estudos psicometricos contemplando a analise da fidedignidade por meio da consistencia interna entre os itens, bem como a obtencao de valores descritivos ampliados que sirvam para a consolidacao de expectativas normativas, sejam conduzidos na sequencia para possibilitar sua utilizacao em contexto nacional.

doi: http://dx.doi.org/10.1590/0102.3772e324222

Referencias

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Recebido em 28.08.2014

Primeira decisao editorial em 09.02.2016

Versao final em 11.09.2016

Aceito em 11.09.2016

Philipe Gomes Vieira (1)

Anna Elisa de Villemor-Amaral

Giselle Pianowski

Universidade Sao Francisco

(1) Endereco para correspondencia: Universidade Sao Francisco, R. Waldemar Cesar da Silveira, 105, Vl. Cura D'Ars (SWIFT), Campinas, SP, Brasil. CEP. 13.045-510. E-mail: philipevieira@ymail.com
Tabela 1. Verso final dos itens traduzidos e adaptados da
Magical Ideation Scale com os direcionamentos para
Apuraco*

01. Algumas pessoas me fazem lembrar delas apenas ao      (Verdadeiro)
pensarem em mim.

02. Ja tive uma rapida sensacao de que eu poderia nao     (Verdadeiro)
ser humano.

03. As vezes tenho medo de pisar nas riscas das           (Verdadeiro)
calcadas.

04. Eu acho que poderia aprender a ler a mente das        (Verdadeiro)
pessoas se eu quisesse.

05. Horoscopos estao frequentemente certos para ser       (Verdadeiro)
apenas coincidencia.

06. As vezes as coisas parecem estar em lugares           (Verdadeiro)
diferentes quando eu chego em casa, mesmo sem ninguem
ter estado la.

07. Numeros como 13 e 7 nao possuem poderes especiais.    (Falso)

08. Ja tive, algumas vezes, a tola sensacao de que um     (Verdadeiro)
apresentador de TV ou radio sabia que eu o estava
escutando.

09. Eu ja tive receio de que pessoas de outros planetas   (Verdadeiro)
pudessem estar influenciando o que acontece na Terra.

10. O governo se recusa a nos contar a verdade sobre      (Verdadeiro)
discos voadores.

11. Eu ja tive a sensacao de que havia mensagens para     (Verdadeiro)
mim na maneira como as coisas estavam arranjadas, por
exemplo, na vitrine de uma loja.

12. Eu nunca duvidei que meus sonhos fossem produtos da   (Falso)
minha propria mente.

13. Amuletos da sorte nao funcionam.                      (Falso)

14. Eu ja percebi sons nas minhas gravacoes que nao       (Verdadeiro)
estavam la antes.

15. As vezes parece que certos movimentos que estranhos   (Verdadeiro)
fazem com as mos me influenciam.

16. Eu quase nunca sonho com coisas antes que elas        (Falso)
acontecam.

17. Eu ja tive a rapida sensacao de que alguem havia      (Verdadeiro)
sido substituido por um sosia.

18. Nao e possivel prejudicar alguem apenas tendo maus    (Falso)
pensamentos sobre ele.

19. Ja tive a sensacao de ter algo mau perto de mim,      (Verdadeiro)
embora eu no pudesse ve-lo.

20. As vezes tenho a sensacao de ganhar ou perder         (Verdadeiro)
energia quando certas pessoas me olham ou me tocam.

21. Eu ja tive a rapida impressao de que estranhos        (Verdadeiro)
estivessem apaixonados por mim.

22. Eu nunca tive a impressao de que certos pensamentos   (Falso)
meus na verdade pertenciam a outra pessoa.

23. Quando sou apresentado a estranhos, raramente fico    (Falso)
me perguntando se ja os tinha conhecido antes.

24. Se reencarnacao fosse verdade, isso explicaria        (Verdadeiro)
algumas experiencias incomuns que eu tive.

25. Pessoas muitas vezes se comportam de um modo tao      (Verdadeiro)
estranho que a gente se pergunta se elas no fariam
parte de algum experimento.

26. As vezes eu pratico pequenos rituais para me livrar   (Verdadeiro)
de influencias negativas.

27. Ja tive a impressao de que eu poderia fazer alguma    (Verdadeiro)
coisa acontecer apenas por pensar muito nela.

28. Eu ja me perguntei se os espiritos dos mortos podem   (Verdadeiro)
influenciar os vivos.

29. Algumas vezes ja senti que uma palestra ou aula era   (Verdadeiro)
dirigida especialmente a mim.

30. Ja senti algumas vezes que estranhos estavam lendo    (Verdadeiro)
minha mente.

* Nota. Este material foi originalmente publicado em ingles como
Eckblad, M., & Chapman, L. J. (1983). Magical ideation as an indicator
of schizotypy. Journal of Consulting & Clinical Psychology, 51,
215-225. Copyright [c] 1983 pela American Psychological Association
(APA). Traduzido, adaptado e reproduzido com permisso. A APA no e
responsavel pela preciso desta traduco. Esta traduco no pode ser
reproduzida ou distribuida sem autorizaco previa por escrito da APA

Tabela 2. Frequencia de palavras desconhecidas

                  %    f    Total

Sosia            4,2   12    283
Riscas           0,4   1     286
Experimento      1,8   5     283
Ocasionalmente   0,6   1     283
Momentanea       1,1   3     283
Amuletos         0,7   2     283

Tabela 3. Frequencia de palavras desconhecidas por escolaridade

                   Universitarios     Ensino Medio       Ensino
                                                       Fundamental

                  %    f   Total    %    f    Total    %    f   Total

Sosia            3,4   5    145    4,8   5     104    5,8   2    34
Riscas           0,6   1    145     0    0     104     0    0    34
Experimento      0,6   1    145    0,9   1     104    8,8   3    34
Ocasionalmente   0,6   1    145     0    0     104     0    0    34
Momentanea       0,6   1    145    0,9   1     104    2,9   1    34
Amuletos         0,6   1    145     0    0     104    2,9   1    34

Tabela 4. Analise comparativa das palavras desconhecidas em funcao da
escolaridade

                          Escolaridades             Diferenca    Erro
                                                      entre     Padrao
                                                     Medias

Socia            Universitario   Ens. Fundamental    -0,024     0,039
                                 Ens. Medio          -0,014     0,026
Amuletos         Universitario   Ens. Fundamental    -0,023     0,016
                                 Ens. Medio           0,007     0,011
Riscas           Universitario   Ens. Fundamental     0,007     0,011
                                 Ens. Medio           0,007     0,008
Experimento      Universitario   Ens. Fundamental    -0,081     0,025
                                 Ens. Medio          -0,003     0,017
Ocasionalmente   Universitario   Ens. Fundamental     0,007     0,011
                                 Ens. Medio           0,007     0,008
Momentanea       Universitario   Ens. Fundamental    -0,023     0,020
                                 Ens. Medio          -0,003     0,013

                   F       P

Socia            0,264   0,803
                         0,860
Amuletos         1,581   0,337
                         0,798
Riscas           0,474   0,816
                         0,640
Experimento      5,722   0,003
                         0,985
Ocasionalmente   0,474   0,816
                         0,640
Momentanea       0,669   0,484
                         0,977

Tabela 5. Itens no compreendidos

          f     %     Total

Item 1    29   10,2    283
Item 14   8    2,8     283
Item 15   5    1,8     283
Item 16   9    3,2     283
Item 17   5    1,8     283
Item 24   5    1,8     283

Tabela 6. Itens nao compreendidos por escolaridade

             Universitarios      Ensino Medio   Ensino fundamental

           %     f    Total    %    f   Total    %    f   Total

Item 01   13,1   19    145    6,7   7    104    8,8   3    34
Item 14   2,7    4     145    2,8   3    104    2,9   1    34
Item 15   2,7    4     145    0,9   1    104     0    0    34
Item 16   3,4    5     145    3,8   4    104     0    0    34
Item 17   0,7    1     145    0,9   1    104    2,9   1    34
Item 24   0,7    1     145    0,9   2    104    5,8   2    34

Tabela 7. Comparaco do desempenho dos grupos na Magical Ideation
Scale

          Grupo       N    Media    DP      EP       GL       t

        Pacientes     35   18,71   4,416   0,747     68
MIS                                                         15,909
      No-pacientes   35   4,74    2,737   0,463   56,759

       d       P

MIS   3,85   0,001

Tabela 8. Correlacao entre o escore bruto da MIS e o diagnostico
de esquizofrenia

Variaveis                  r       P

Escore bruto MIS versus   0,88   0,001
Diagnostico nosografico
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:Vieira, Philipe Gomes; de Villemor-Amaral, Anna Elisa; Pianowski, Giselle
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Oct 1, 2016
Words:5125
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