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Tramas territoriais na comercializacao de produtos agricolas em territorios fronteiricos.

Trama territoriais na marketing of agricultural products in fronteiricos territorios

Introducao

Este trabalho objetiva analisar as tramas territoriais na comercializacao de produtos agricolas nas feiras livres de Corumba-MS, na fronteira Brasil-Bolivia. As tramas territoriais sao compreendidas aqui como as relacoes de complementaridade e oposicao entre os territorios. Neste estudo, as tramas se materializam dentro das feiras livres da cidade de Corumba, que esta localizada na porcao ocidental do Estado de Mato Grosso do Sul, na fronteira do Brasil com a Bolivia. Fundada em 21 de setembro de 1778, e uma das mais antigas do estado, possuindo contato territorial a Leste com Ladario-MS, no lado brasileiro, e com Arroyo Concepcion (distrito de Puerto Quijarro, da provincia German Busch, departamento de Santa Cruz de La Sierra) a Oeste, no lado boliviano.

A abordagem territorial vem sendo motivacao de trabalho de diversos cientistas sociais que, nos ultimos anos, dedicam-se a estudar o processo de formacao e desenvolvimento do territorio e suas territorialidades. Contudo, estudar o territorio e algo complexo, dai a necessidade de delinea-lo e conduzi-lo a um determinado fim. Os territorios fronteiricos vislumbrados neste estudo sao marcados por assimetrias socioeconomicas e intensas relacoes de trocas e fluidez das mobilidades humanas e passagens pela frontera (Costa, 2011). Na fronteira sao compartilhados, guardadas as racionalidades individuais, diversos espacos de manifestacoes coletivas. Num desses casos, as feiras livres de Corumba, sao verdadeiros pontos de encontro da populacao fronteirica. Majoritariamente dominada pelos bolivianos reflete o vivido territorial em suas multiplas dimensoes--cultural, politica, economica e social (Espirito Santo et al., 2017b).

Apesar da existencia superior a meio seculo, a participacao dos feirantes bolivianos nas feiras livres de Corumba e discutida pelo poder publico local, principalmente em razao da pressao dos comerciantes brasileiros. O comercio legal ou ilegal e um dos principais propositos que incentiva as mobilidades existentes nas regioes fronteiricas (Benedetti, 2011). Para alem da ilegalidade, temos que a comercializacao de produtos da agricultura familiar sempre esteve presente no abastecimento parcial das areas urbanas desse territorio fronteirico, tanto do lado brasileiro quanto do lado boliviano. Para os camponeses, direta ou indiretamente, as feiras livres sao o principal canal de venda de seus produtos (Espirito Santo, 2017a). Logo, a necessidade de se compreender a apropriacao (uso) do territorio (formacao das feiras) e as tramas territoriais dentro destas feiras, advindas das experiencias e relacoes diarias entre brasileiros e bolivianos.

No caso das feiras livres localizadas numa das bandas de um territorio nacional na fronteira, considerando essa logica, seu papel original frequentemente e adulterado. Originalmente, as feiras livres devem funcionar como um canal de venda no qual os produtores rurais viabilizam a comercializacao de sua producao, o que de outra forma seria dificil nessa economia de pouca liquidez e concorrencia, por vezes, desleal (Santos, 2009). Contudo, nas feiras de Corumba vendem-se muito mais que produtos da agricultura familiar.

A ilegalidade, a necessidade ou a questao de indiferenca sao tres temas diferentes e nao mutuamente exclusivos que se fazem presentes, diariamente, nos territorios fronteiricos. A vida nas regioes fronteiricas possui uma dinamica propria, que em muitos sentidos desafia a ordem nacional e seus mecanismos de controle e vigilancia, transcendendo o dogma da soberania (Costa, 2013). Um exemplo e o caso da feira livre de Corumba que, atualmente, e formada por quase 80% de bolivianos, alem de ser um verdadeiro cenario de descontrole e ilegalidade (Espirito Santo, 2015).

Partindo do objetivo proposto, as questoes norteadoras que motivam esta pesquisa sao: como ocorre a comercializacao de produtos agricolas na fronteira Brasil-Bolivia? Como se da a formacao das tramas territoriais dentro das feiras livres? Quao intensamente ocorrem tramas sociais nas dobras do legal, ilegal, ou da necessidade dos atores? Para tanto foi concebido um referencial teorico (parte 3) que indica a importancia de se estudar a abordagem territorial, com enfase na discussao do territorio, das ruralidades e da fronteira. Alem disso, este artigo apresenta uma secao para a estrategia de pesquisa adotada.

A secao dos resultados foi dividida em quatro partes. A primeira destinada a caracterizacao da feira livre. A segunda parte apresenta os resultados que destacam a convivencia cultural fronteirica existente nas feiras, seguida da terceira parte que retrata as tramas territoriais dos agricultores e vendedores de hortalicas nas feiras de Corumba. Por fim, tem-se a quarta parte dos resultados que apresenta a legalidade e a necessidade neste territorio fronteirico, no que tange a comercializacao de produtos agricolas. Posteriormente, apresentam-se as consideracoes finais e as referencias bibliograficas.

1. Estrategia de pesquisa

A producao do conhecimento cientifico vem sendo marcada por uma grande diversificacao de temas, objetivos e resultados. Dessa forma, para atingir o objetivo proposto, este estudo foi construido a partir de uma abordagem qualitativa pela finalidade exploratoria e descritiva. Utilizou-se como estrategia de investigacao a pesquisa bibliografica, com coleta de informacoes atraves de entrevistas semiestruturadas, documentacao e pesquisa de campo.

A pesquisa exploratoria foi realizada por meio da triangulacao, que surge como uma "estrategia de pesquisa das ciencias sociais respaldada na utilizacao de diversos metodos para investigar um fenomeno, possibilitando ao pesquisador a capacidade descrever e interpretar o mundo social atraves do seu ponto de vista" (Espirito Santo, 2018, p. 3). Assim articulou-se o uso de pesquisa bibliografica (livros e artigos cientificos, em sua grande maioria), com entrevistas e levantamento de documentacao sobre as feiras (jornais antigos, atas, leis e decretos).

A pesquisa descritiva foi realizada por meio de um roteiro de entrevistas semiestruturado junto aos atores que formam e tem interesse na feira livre de Corumba. Buscaram-se diferentes olhares sobre o mesmo tema. Para tanto a populacao da pesquisa foi formada por feirantes (92 entrevistas com feirantes brasileiros, 20 bolivianos), fiscais de postura do municipio (4 fiscais), 70 consumidores, associacoes (1 representante da Associacao Comercial e Empresarial de Corumba e 1 representante da Associacao de Trabalhadores Autonomos das Feiras Livres de Corumba e Ladario), e pelo poder publico brasileiro (3 funcionarios da Prefeitura Municipal de Corumba, 1 do Ministerio da Agricultura, Pecuaria e Abastecimento--MAPA e 1 da Receita Federal).

As entrevistas ocorreram entre 14 de dezembro de 2014 e 22 de julho de 2015, principalmente na feira livre (em sua maior parte) e nas associacoes e orgaos publicos supracitados, com liberdade para o entrevistado falar livremente, sendo as respostas imediatamente transpostas para folhas de anotacao. Os depoimentos sobre assuntos especificos foram mantidos bem proximos da fala original, corrigindo apenas os tempos verbais e expressoes equivocadas da lingua portuguesa. Teve-se a preocupacao de manter o sigilo dos entrevistados, de modo que serao representados, neste artigo, como E-1 (para o Entrevistado 1; E-2, E-3, e sucessivamente para os demais entrevistados).

2. Abordagem territorial, desenvolvimento rural e tramas territoriais

A abordagem territorial e uma tematica que vem sendo retomada, nas tres ultimas decadas, com intuito de se compreender o desenvolvimento do territorio e suas territorialidades. No interim desse avanco assistese o desenvolvimento de estudos que vem sendo chamados de "a nova ruralidade" (Favareto, 2010), onde os pesquisadores apresentam que "nao faz mais sentido tratar o rural como sinonimo do agrario (...) e preciso compreende-lo, sobretudo, por sua natureza eminentemente territorial" (Favareto, 2010, p. 299). Agora e preciso interpretar a agricultura como um ecossistema, das redes, da sociabilidade--das tramas--, do interconhecimento e da sua dependencia com relacao as cidades (Abramovay, 2006; Favareto, 2006). Assim, estudar as feiras livres e estudar a Agricultura Familiar (AF) e suas ruralidades, expressas como territorialidades.

O conceito de territorio e territorialidade ainda gera algum tipo de confusao e, por isso, merecem ser debatidos. O territorio e produzido por atores atraves da energia e da informacao, ou seja, da "efetivacao no espaco (formacao de cada lugar em determinado tempo--presente--passado--futuro) das redes, das relacoes de poder, das atividades produtivas, das representacoes simbolicas e das malhas" (Saquet, 2011, p. 79). O territorio e o espaco social e um espaco real, ou, "na perspectiva fenomenologica de Fremont (1976), o territorio se impregna de valores culturais refletindo, para cada um, o pertencimento a um grupo localizado". (Em Pecqueur, 2009, pp. 88-89).

Ja as territorialidades sao interpretadas como as praticas socioespaciais das pessoas entre si (de poder) e com o meio externo, tanto materiais quanto imateriais. "Sao as relacoes sociais simetricas ou dessimetricas que produzem historicamente cada territorio" (Saquet, 2011, p. 79). Durante o processo de formacao do territorio podera ocorrer a sua construcao, desconstrucao e reconstrucao, e esse fenomeno territorial e chamado de TDR (Territorializacao, Desterritorializacao, Reterritorializacao).

Baseado em Saquet (2013), a TDR pode ser explicada como o processo onde a territorializacao seria o enraizamento (areas com fronteiras, Estado-Nacao); a desterritorializacao seria o rompimento de fronteiras (supressao do territorio concebido), os deslocamentos e todo movimento que se da entre os territorios. Ja a reterritorializacao seria a conquista do novo, de novas identidades. "A reterritorializacao e determinada no bojo da desterritorializacao (...) o capitalismo nao cessa de re-territorializar o que ele desterritorializa em primeira mao" (Saquet, 2013, p. 56). Esse e o efeito que pode ser observado na historia das feiras em Corumba, que ja passaram pela TDR, bem como continuam passando, afinal, as relacoes de poder nunca cessam (Espirito Santo et al, 2017b).

O uso do territorio e o que caracteriza o surgimento da territorialidade, a relacao entre os homens e o territorio. Esse relacionamento e resultado das dimensoes politica, cultural, economica e naturalista. Evidencia o pertencimento, a identidade, os conflitos sociais, enfim, as manifestacoes dos protagonistas e fundamenta-se na nocao de proximidade geografica, que conjetura relacoes sociais diretas entre os atores. E o resultado dos lacos sociais que favorece os estudos dos espacos rurais (Costa, 2011; Haesbaert, 2011; Pecqueur, 200 9; Abramovay, 2006).

Para Schneider (2003), os espacos rurais foram valorizados no processo de desenvolvimento nacional devido ao aumento de politicas publicas voltadas para o desenvolvimento rural. Assim, devem-se conceber os estudos rurais para alem do espaco rural, evidenciando os diferentes sujeitos suas territorialidades e suas tramas. A ampliacao da visao permitira interpretar o rural como uma abordagem territorial do desenvolvimento rural (Favareto, 2010), reconhecendo os processos sociais como palco de classes sociais, conflitos, identidade, decisao e poder (Abramovay, 2006). Deve-se "encarar os territorios como campos em que se defrontam protagonistas com interesses diversos" (Abramovay, 2006, p. 10). Logo, a necessidade de estudar os processos localizados de cooperacao, pois, e no desenrolar desses interesses que se formam as tramas territoriais.

A abordagem territorial do desenvolvimento rural esta em processo de legitimacao, decorrente do aumento das pesquisas e das inumeras politicas publicas criadas pelos governos que fomentam o desenvolvimento dos atores, das organizacoes e da governanca publica. A questao aqui esta na emergencia de se ampliar a interpretacao que se tem do rural. Em paises como os da America Latina, a abordagem territorial esta concatenada ao processo historico deste territorio, logo, transpor modelos e sistemas europeus para ca nem sempre e a melhor solucao. Ha de se introduzir uma abordagem que compreenda o ecoado aqui: os territorios e as territorialidades para a promocao do desenvolvimento rural (Favareto, 2010).

Transpondo essas analises para os territorios fronteiricos, e necessario que se compreenda o sentido da fronteira para os sujeitos que ali vivem--a fronteira vivida (Espirito Santo, 2018). Para Pecqueur (2009), a proximidade geografica aparece como uma variavel equivalente a capital. Dessa forma, no caso da fronteira, temos de considera-la como um dos componentes fundamentais para se entender a formacao dos territorios e suas construcoes sociais, as praticas simbolicas e materiais da sociedade. Assim, centrando o olhar para as feiras livres, palco da sociabilidade na fronteira Brasil-Bolivia, defende-se aqui que as feiras devem ser interpretadas como objetos de estudo academico que fomentem a criacao de politicas publicas, subsidiando suas "dinamicas de funcionamento, valorizando seu papel dentro das atividades economicas, sociais e culturais" (Schneider, 2003, p. 10).

E no interim de todo esse fenomeno descrito que surgem as tramas territoriais aqui estudadas. As complementariedades e oposicoes entre os territorios desenham o desenrolar do dia a dia dos sujeitos. No caso de uma feira, as tramas se manifestam como relacoes integrantes entre feirantes e os produtores rurais. A oposicao de orgaos reguladores se faz presente, contudo, nao inibem a dinamica sociocultural e economica das feiras.

3. A feira livre de Corumba na fronteira Brasil-Bolivia

A feira livre de Corumba surge, oficialmente, a partir do Projeto-Lei--Ato no. 37 de 12 de junho de 1943. Somente em 5 de maio de 1952 e que a Camara Municipal consegue consolidar todas as providencias necessarias para a criacao da feira, com a aprovacao da Lei Municipal no. 058. Sete anos depois, em 3 de maio de 1959, e que o jornal A Tribuna (edicao no. 17.731 de 3/5/1960) noticia a primeira feira livre na cidade, mencionando o exito e a aceitacao por parte dos moradores locais. Nao ha registros na Camara Municipal que expliquem a razao dessa demora de entrada em funcionamento da feira livre (1).

A Lei Municipal no. 058, de 05 de maio de 1952, em seu art. 2, indicava que a organizacao e a localizacao da feira eram atribuicoes da Prefeitura Municipal. O jornal A Tribuna (edicao no. 17.731 de 3/5/1960) menciona que, a epoca, a feira acontecia em tres pontos da cidade: na Praca Uruguai, no Largo da Caixa d'Agua e na Rua sete de setembro, entre a Rua Delamare e a Avenida General Rondon. A primeira e a ultima localizadas no centro da Corumba (Figura 1).

Silva (2003) aponta que em 1959 a feira livre de Corumba contava com 133 feirantes no domingo e atraia um grande numero de pessoas nos dias de funcionamento, tendo em vista a possibilidade para a aquisicao de generos de primeira necessidade por menor preco.

A expansao para outras areas da cidade foi possivel a partir da alianca entre os interesses dos feirantes e dos presidentes das associacoes de bairros. Pesquisas nas edicoes do jornal A Tribuna e no trabalho de Silva (2003) permitem este entendimento, demonstrando a insatisfacao da populacao que era obrigada a comprar as mercadorias em lugares mais proximos, por vezes mais caras, quando poderiam ser adquiridas nas feiras. A resistencia mais efetiva era dos comerciantes locais que viam nelas concorrentes potenciais.

Atualmente, as feiras livres de Corumba/MS ocorrem todos os dias da semana, espalhadas por diversos bairros da cidade (Figura 2). Em Ladario, cidade vizinha, a feira ocorre tres vezes na semana e tambem tem a mesma configuracao que as feiras da cidade de Corumba.

A feira livre de Corumba e regimentada pelo Decreto Municipal no. 307, de 5 de julho de 2007, que regulamenta a organizacao e define os dias e locais de funcionamento. Na pesquisa de campo foi constatado que as feiras cresceram para alem do ordenamento, extrapolaram os limites previamente definidos e subverteram a normativa de comercializacao com a insercao de produtos de comercializacao proibida.

O numero de feirantes cadastrados informado pela CAC--Central de Atendimento ao Consumidor (orgao da Prefeitura Municipal de Corumba responsavel pelo cadastro dos feirantes) gira em torno de 430. "Em torno de 430" porque o sistema mostra todos, inclusive os feirantes que estao em processos de suspensao e baixa. Contudo, o sistema apresenta apenas 182 ativos, ou seja, feirantes cadastrados e com o pagamento das taxas em dia. Segundo o presidente da Associacao dos Feirantes existem cerca de 400 feirantes, incluindo os sem cadastros, os sazonais e os remanescentes da Feira Bras-Bol (2) (fechada pela prefeitura de Corumba em 2013).

Nao sao os mesmos feirantes em todas as feiras, mas parte significativa (mais da metade) deles atua em todas elas. Os bolivianos atuam em todas as feiras, diferentemente dos assentados rurais brasileiros, que preferem as feiras de domingo e de sexta-feira, ampliando o quantitativo de feirantes nesses dias. Na quarta-feira e no sabado pela manha as feiras livres de Corumba e de Ladario ocorrem concomitantemente e os feirantes se dividem.

Na pesquisa de campo realizada em dezembro de 2014 foram contabilizados 354 feirantes no domingo e 329 na sexta-feira. Sao numeros superiores aos encontrados na pesquisa coordenada por Pinto et al. (2013) no mes de maio de 2013 na feira livre de domingo, quando foram contabilizados 302 feirantes. Desses foram entrevistados 276, sendo 161 bolivianos (58,3%), 110 brasileiros, 1 argentino, 1 chileno, 1 libanes e 1 marroquino.

Apesar de se visualizar certo padrao simetrico, as feiras apresentam sensiveis diferencas de local para local. Sato (2007, p. 97) destaca que "as feiras de diferentes bairros exibirao feicoes diferentes, pois elas se fazem com caracteristicas do lugar". Seja pelos seus frequentadores, seja pelo arranjo instituido para atrair a atencao deles, as feiras sao adaptacoes para cada localidade onde acontecem. E, alem disso, sao verdadeiros pontos de encontro da populacao fronteirica, confirmando as indicacoes de Sato (2007).

Ao longo dos tempos, as feiras livres e seus feirantes foram se moldando (territorializando) e se remodelando (por intermedio de mudancas, fechamentos abruptos e de novas ligacoes--reterritorializando).

Essa logica da TDR (territorializacao-desterritorializacao-reterritorializacao), propria do processo de criacao de territorios (Saquet, 2013), e parte do cotidiano dos feirantes e das lutas para tornar o espaco seu territorio. Assim, as feiras livres de Corumba foram surgindo, se desenvolvendo e ressurgindo, ganhando o corpo e a forma que possuem ate o momento (figura 3).

Nas feiras e vendida uma grande variedade de produtos. No levantamento realizado por Pinto et al. (2013) constatou-se que a maioria dos produtos vendidos eram frutas, verduras e legumes (33,5%), seguidos de roupas e utensilios domesticos (32,8%) e outros (brinquedos, CDS e DVS, bijuterias, perfumaria, ferragens, aviamentos, artesanatos, acessorios para celular, eletronicos, ervas medicinais, comidas, leite e derivados, entre outros), correspondentes a 33,7% dos produtos oferecidos

A pesquisa de campo realizada entre 2014 e 2015 demonstrou que os resultados obtidos por Pinto (2013) ainda sao atuais. Contudo, observou-se um aumento de bancas que vendem roupas, motivado pela migracao de feirantes apos o fechamento da Feira Bras-Bol.

Como observado na tabela 1, hoje em dia as feiras livres de Corumba possuem mais bancas que comercializam outros (3) tipos de produto do que bancas que comercializam produtos agricolas (FLV) especificamente. Esses numeros chamam a atencao para entender como ocorre a comercializacao de produtos agricolas na cidade de Corumba, visto que o objetivo inicial de uma feira livre era o de comercializar o excedente da agricultura familiar, fato este nao exclusivo nas feiras de Corumba. Diversas prerrogativas justificam a grande quantidade de bancas que comercializam outros tipos de produtos, como o fechamento da Feira Bras-Bol. O fato de Corumba nao possuir um camelodromo e ou o comercio de roupas e outros artefatos, em alguns bairros da cidade e baixo. Logo, as pessoas encontram nas feiras livre importante canal varejista para suprir todas as suas necessidades.

4. Feiras livres de Corumba: territorios da convivencia cultural fronteirica

Como se da a formacao das tramas territoriais dentro das feiras livres? Nesta etapa sera apresentado que as tramas ocorrem balizadas nas formas de relacionamento existentes. Quando perguntado "como tudo comecou?", muitos bolivianos afirmaram que herdaram essa tradicao de ser feirante dos proprios pais. "Meu sogro fazia feira ha 26 anos. Ficou doente e nos assumimos a feira. Ele iniciou la na Feira do Boliviano, aquela que fechou (...) depois veio parar nas feiras do dia a dia" (E.1). "Antes meu pai ficava na feira. Como eu cresci com ele fui assumindo as atividades. Meu pai era da feira do Boliviano. So eu estou aqui ha 13 anos, ele ja tem quase 30 anos de feira. Depois que fechou a feira do boliviano, nos viemos para ca e cada dia a feira funciona em um local" (E.2). Quanto aos feirantes brasileiros, fica evidente que a origem esta concatenada ao movimento Sem-Terra. "Faz 20 anos que sou feirante. Eu e meu marido eramos sem-terra, la de Itaquirai/MS. Quando chegamos aqui conseguimos ser assentados. No inicio compravamos os produtos e revendiamos, hoje temos uma pequena producao" (E.3).

Sao pessoas que constroem suas vidas de acordo com as possibilidades e com os enfrentamentos individuais e coletivos. Lidam e se aproveitam das oportunidades presentes nos territorios. Segundo Grimson (2000, p. 91), as populacoes fronteiricas podem e devem ser vistas como agente da propria historia, bem como "de mudancas sociopoliticas significativas para alem da sua localidade".

Referente a essas forcas dos agentes sociais, E.4, filha de feirantes, atual esposa de feirante e ex-participante da Feira Bras-Bol, expressou o seguinte comentario:

Chegaram e acabaram com a feirinha (em referencia a Feira Bras-Bol) (...), tambem somos brasileiros. Somos filhos desse pais (...) vamos viver do que? No ano passado, [depois que fecharam a feira] ate a festividade da Santa (Urkupina) foi fraca. Nao conseguimos reunir todos os participantes de anos anteriores. Muitos estavam com raiva do prefeito e outros simplesmente estao correndo atras de um novo espaco para trabalhar. E muito mais que dinheiro; tem tradicao.

A feira representa muito mais que uma necessidade economica dos feirantes e dos consumidores. Envolve, fortemente, a dimensao sociocultural, os relacionamentos, os encontros. Esses elementos estao presentes nas falas dos dois consumidores, expostas a seguir:

Eu tenho um Opala marrom. Meu carro so sai de casa um unico dia da semana. Domingo de manha para vir na feira. Eu adoro andar com minha esposa. E o nosso passeio. Se isso aqui acabar, ou se tirarem os bolivianos daqui, aonde iremos. Nao tem nenhum lugar igual aqui. Faco isso desde que me casei com a minha esposa (E.5).

Se fechar a feira nos ficaremos numa situacao pessima. Os produtos sao melhores que os do supermercado e mais baratos. Os bolivianos sao a feira e sem eles isso aqui nao sobrevivera (E.6).

A partir das entrevistas, ha alguns elementos que precisam ser analisados como o compartilhamento da cultura, dos simbolos e da religiosidade. Primeiramente, pode-se exemplificar o compartilhamento do portunhol (4) onde diariamente a comunicacao e intensa e a lingua nao e uma barreira; ao contrario, flui com naturalidade. Em segundo lugar, o compartilhamento da religiao, onde brasileiros e bolivianos se unem para celebrar as festividades de Nossa Senhora de Aparecida (padroeira do Brasil), Virgem de Urkupina e Copacabana (Bolivia). Muitas bolivianas disseram que participam/dancam no desfile comemorativo as santas. Informaram que ja ha alguns anos, tambem, comecaram a distribuir saquinhos de doces na festa de Cosme e Damiao (festa tipicamente brasileira e muito presente em Corumba). A fe une os moradores na fronteira e os cultos e a devocao indicam como a realidade social e construida a partir de simbolos e demais artefatos trocados entres os sujeitos que, neste caso, sao exteriorizados pela fe (Espirito Santo, 2018). O terceiro compartilhamento refere-se a comida, onde foi possivel encontrar brasileiros e bolivianos comercializando as tradicionais sopas que os bolivianos tanto apetecem. Ha uma troca de sabores e temperos de ambos os lados, inclusive nas festas civicas; conforme E.7: "todos os anos nos, brasileiros e bolivianos, desfilamos no aniversario de Corumba (...) ascholitas vao dancando e tudo mais. E nos tambem desfilamos para comemorar o dia 6 de agosto (Independencia da Bolivia)". Por fim tem-se o compartilhamento do espaco onde a feira fica caracterizada como ponto de encontro para que ocorram os relacionamentos existentes dentro de uma comunidade.

Este paradoxo cultural pode ser um grande potencial turistico. Costa et al. (2010, p.39) destacam o seguinte ponto referente a diversidade cultural em territorios fronteiricos:
   A fronteira e, sobretudo, um lugar marcado pela diferenca. (...) A
   atividade turistica vem crescendo e cada vez mais se busca
   incorporar novos territorios, lugares e, sobretudo, o diferente.
   Assim sendo, a fronteira significa potencialidade, pois contempla o
   diverso, o diferente. (...) A fronteira ainda e vista como uma
   palavra tingida por um forte etnocentrismo cultural.


Outra forca dos agentes sociais, idealizados por Grimson (2000), que merece destaque e o papel das associacoes e da Prefeitura neste territorio. Os feirantes possuem uma associacao na cidade de Corumba. Quando perguntados: "participa de associacoes ou cooperativas?",todos responderam que sim, que fazem parte da Associacao de Trabalhadores Autonomos das Feiras Livres de Corumba e Ladario. Um ponto que merece destaque e o fato de alguns bolivianos terem respondido "sim, eu participo da Associacao 2 de Mayo". Esta associacao e dos feirantes que trabalham em Puerto Quijarro e Puerto Suarez, referente as atividades desenvolvidas la. Segundo E.7, "essa associacao nao tem jurisprudencia nem amparo legal para intervir no Brasil. So nos podemos ajudar e interpor qualquer ato/defesa que represente os feirantes. Hoje estamos mais organizados e temos ate um estatuto proprio".

Na pergunta "ha incentivo para a formacao de grupos de defesa dos interesses dos feirantes?", os feirantes disseram que nao veem a atuacao da Associacao e que, por ora, todos so aguardam as decisoes (sobre fechamento e funcionamento das feiras) que serao tomadas. Portanto, nao ha nada planejado/estruturado. Na conversa com o presidente da associacao dos feirantes ficou evidente que eles nao tem nenhuma defesa/ argumento pronto, por escrito, para manutencao dos seus interesses.

A feira e um territorio para o qual confluem territorialidades dos agentes sociais da fronteira Brasil-Bolivia, desterritorializadas e reterritorializadas cotidianamente. As territorialidades estao sendo entendidas no sentido de praticas socioespaciais das pessoas entre si (de poder) e com o meio externo, tanto materiais quanto imateriais (Saquet, 2011). A fala, a seguir, demonstra as habilidades para utilizacao dos territorios das feiras e as motivacoes proporcionadas pelas assimetrias dos territorios fronteiricos:

E muito facil ser feirante em Corumba. Voce chega, se infiltra, quando os fiscais passarem voce tem a chance de nao ter as mercadorias apreendidas. Voce e encaminhado para a Prefeitura para realizar o cadastro. Paga um valor simbolico e tudo bem. Durante muito tempo a Associacao 2 de Mayo infiltrou diversos feirantes aqui na feira de Corumba. Claro, la e muito mais dificil de ser feirante e o pagamento e em dolar (3 mil dolares o periodo, fora taxas de manutencao/seguranca). A nossa associacao nao ve bolivianos ou brasileiros. Somos todos feirantes e queremos o nosso espaco para trabalhar. Concordo que falta sim um melhor ordenamento da feira. Para nos da associacao, na feira so poderia trabalhar quem e brasileiro ou boliviano que ja tem residencia comprovada na cidade (ate com filhos brasileiros). Estes sao cadastrados e ate gastam seu dinheiro no nosso comercio. Fazem a nossa economia girar. A Bolivia e mais bem considerada do que Corumba, veja o quanto as cidades do lado de la estao crescendo e a nossa nao vai para frente (E.7, presidente da associacao dos feirantes).

O entao presidente da Associacao Comercial de Corumba destacou que entende a importancia das feiras livres e da presenca dos bolivianos como feirantes. Contudo, percebe-se na sua fala a preocupacao com a regularizacao de funcionamento, principalmente quanto a formalizacao dos feirantes como microempreendedores individuais. No fundo, por tras de suas palavras reside insatisfacao quanto as diferencas de pagamento de impostos dos empresarios em relacao a estes, conforme se pode observar:

A feira livre e essencial para Corumba, porque nela encontramos produtos frescos, precos acessiveis e a propria presenca dos bolivianos, que nao pode ser ignorada. Contudo, as feiras de Corumba sao mal organizadas e possuem pessima fiscalizacao. Ha necessidade de ter mais higiene, banheiros quimicos e limpos, um quiosque padronizado; a presenca da guarda municipal. Eu nao concordo com a desorganizacao da feira. A feira precisa se reorganizar e os feirantes tem que ser cadastrados junto a prefeitura e serem formalizados como microempreendedores individuais (E.9, presidente da Associacao Comercial de Corumba).

As relacoes de trabalho expoem as diferencas culturais entre feirantes bolivianos e brasileiros e com os fiscais da Prefeitura de Corumba. Culturalmente, as criancas bolivianas acompanham seus pais para o trabalho e aprendem, desde cedo, a arte da venda. No Brasil, as criancas sao proibidas de trabalhar. A feira expoe esse conflito, como se pode notar na fala de um fiscal:

A feira e importante. A preocupacao nossa, fiscais de postura do municipio, a cada dia aumenta mais. Todo dia a gente tenta por na cabeca dos feirantes que o dizer feira livre nao significa que e para vender de tudo. Tem muita coisa ilicita, sem origem, falta de higiene e constante presenca de criancas. Esses dias uma barraca quebrou e a crianca estava embaixo da barraca dormindo (E.10, fiscal de postura do Municipio).

A partir dos relatos acima e possivel compreender que a feira e um territorio o qual confluem territorialidades dos sujeitos localizados na fronteira Brasil-Bolivia. As tramas, nesta primeira parte, surgem a partir das trocas culturais e do cotidiano, e se fazem presentes no dia a dia das feiras de forma historica. A ruralidade denota que os espacos rurais estao em processos de revitalizacao, para alem da zona rural, a partir da revalorizacao da vida no campo, disseminados por novos formatos de espaco rural, como as feiras (Manzanal, 2006). Sao as temporalidades tratadas por Saquet (2011, p. 79) como ritmos diferentes, "desigualdades economicas, diferentes objetivacoes cotidianas e, ao mesmo tempo, distintas percepcoes dos processos e fenomenos". As temporalidades e as territorialidades sao historicas e relacionais/coexistentes, e expressam as tramas territoriais das feiras livres em Corumba, carregadas das impressoes dos fronteiricos.

5. As tramas territoriais de agricultores e vendedores de hortalicas nas feiras de Corumba

Nesta etapa serao apresentados os resultados da pesquisa que materializam as tramas territoriais existentes entre os agricultores e vendedores de hortalicas, brasileiros e bolivianos, nas feiras de Corumba.

Pinto et al. (2013) identificaram que a maioria dos produtos comercializados na feira e de origem boliviana (51,1%). O presente estudo confirmou a pequena participacao de produtores rurais de Corumba (15,2%) e, portanto, o aparente desvirtuamento da proposta original da feira ser um mecanismo de escoamento dos excedentes de producao da agricultura familiar, conforme preconizado por Santos (2009).

Contudo, contrariando as aparencias, se os bolivianos sao os principais vendedores, a maioria dos produtos comercializados na feira sao de origem brasileira. Esta pesquisa vem demonstrar que os grandes atacadistas de Corumba abastecem as feiras livres da cidade. Em entrevista, o presidente da Associacao Comercial de Corumba afirmou: "tenho conhecimento de que brasileiros sao fornecedores dos bolivianos" (E.9). Numa banca, a feirante (E.12) explicou que ate o alho, produto tipicamente boliviano, esta sendo comprado dos atacadistas brasileiros. "Em Santa Cruz [Bolivia] esta tudo muito caro (...) ainda tem produto que esta vindo de la, mas muita coisa e daqui do Brasil mesmo, de Corumba ou Campo Grande".

Os camponeses dos assentamentos rurais de Corumba e Ladario tambem entregam hortalicas para os bolivianos, especialmente aqueles que nao tem condicoes de se deslocarem ate a cidade. Assim, o produto vendido pelos bolivianos nem sempre e oriundo daquele pais. Boa parte vem dos assentamentos rurais e da Central de Abastecimento de Mato Grosso do Sul (CEASA-MS) e da Companhia de Entrepostos e Armazens Gerais de Sao Paulo (CEAGESP). Porem, nem todos os vendedores de hortalicas sao produtores rurais. Durante as entrevistas realizadas nas feiras foi identificado que a maioria das bancas possui comerciantes de FLV. Poucas possuem, efetivamente, um produtor rural a sua frente, como apresentado na tabela 2:
TABELA 2

Quantitativo de produtores rurais encontrados nas feiras livres
de Corumba-MS

              Feira de   Feira de   Feira   Feira
              Domingo    Segunda    de      de
                                    Terca   Quarta

Produtor      44         12         12      14
Rural
Brasileiro
Apenas        52         37         49      45
Comerciante
De FLV
TOTAL         96         43         61      59

              Feira    Feira   Feira de     Feira de
              de       de      Sabado       Sabado
              Quinta   Sexta   (matutino)   (noturno)

Produtor      21       19      21           3
Rural
Brasileiro
Apenas        28       68      25           21
Comerciante
De FLV
TOTAL         49       87      46           25

Fonte: Dados da Pesquisa.


Destarte, referente a tabela 2, observa-se que a presenca de produtores rurais se da, em maior numero, na feira de domingo--a maior e a mais tradicional feira da cidade. Referente a estes produtores rurais foi perguntado a qual assentamento pertenciam. O assentamento Taquaral e o que possui maior presenca nas feiras, conforme apresentado na figura 4

O assentamento Taquaral e o mais proximo do espaco urbano de Corumba, perto do bairro Nova Corumba, aonde ocorre a feira de sabado (manha) e onde foram encontrados varios produtores que levam seus produtos de carroca, aproveitando a proximidade geografica.

Ainda com relacao aos produtos, os dados apresentados por Pinto et al. (2013), podem ser cruzados com a visita nas feiras (trabalho de campo) e com a pesquisa de Souza (2010), que realizou um estudo sobre as hortalicas de origem boliviana ofertadas nas feiras livres de Corumba. Segundo a autora, tanto em Puerto Quijarro como Puerto Suarez destacam-se o cultivo do milho, do feijao e da mandioca. Esses cultivos sao para a propria subsistencia da familia e o excedente e comercializado junto com as frutas, verduras e legumes nas feiras livres de Corumba. Contudo, vale ressaltar que durante a execucao dessa pesquisa, ao serem questionados sobre a origem dos produtos comercializados na feira (principalmente frutas, verduras e legumes), os feirantes bolivianos nao souberam dizer se existe presenca de agrotoxicos. Os feirantes informam que de Puerto Suarez e Puerto Quijarro vem as hortalicas e as ervas medicinais vendidas na feira (Figura 5).

Sobre a comercializacao de produtos agricolas vale destacar que a feira livre nao e o unico canal que os produtores rurais brasileiros possuem. Estes ainda comercializam na feira do produtor rural e com os programas federais.

A feira do produtor rural foi criada pela Prefeitura de Corumba em 10 de agosto de 2013, contendo 40 produtores cadastrados e 23 ativos na feira. Nesta feira nao tem a participacao do boliviano e podese comercializar apenas produtos cultivados pelos proprios produtores (FLV), ervas medicinais, doces, temperos. E proibida a venda de ovos, leites e carnes. Ja os programas federais sao oriundos de politicas publicas do Governo Federal--GF, que visa reduzir a pobreza e garantir a soberania alimentar. Neste programa, destaca-se o Programa de Aquisicao de Alimentos--PAA, onde o governo federal adquire alimentos da agricultura familiar e destina para creches, escolas dentre outras.

Nas entrevistas, quando perguntado aos feirantes brasileiros (tanto aos feirantes da feira livre quanto da feira do produtor) como e o seu relacionamento com os feirantes bolivianos, a maioria elogiou dizendo que ha trocas entre eles e que alguns produtos revendidos pelos proprios produtores brasileiros (nas feiras livres) sao entregues pelos bolivianos. "Sou contra e nao quero que os bolivianos sejam retirados da feira (...) o sol nasceu para todos, aqui tem espaco para todo mundo" (E.8). "Comecei a vender meus produtos aqui na feira do produtor (...) e uma otima iniciativa, mas nao precisa tirar os bolivianos da feira nem de Corumba, o nosso diferencial e que, alem de vender para as pessoas da cidade, so nos podemos vender para o governo, eles nao" (E.11).

A fala do ultimo feirante expressa uma serie de programas da Agricultura Familiar que visa ajudar o pequeno produtor rural, como Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), Mais Alimentos, Programa de Aquisicao de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentacao Escolar (PNAE), dentre outros. Esses programas sao fundamentais para os agricultores, bem como para a economia local. Segundo Braudel (1998), os produtores rurais e feirantes gastam tudo ou parte do que recebem no comercio da cidade, favorecendo a permanencia do dinheiro na esfera municipal. Este cenario e visto frequentemente na propria feira.

A presenca do agrotoxico, a falta de certificacao da origem do produto, a questao da higiene e o duelo entre legal--ilegal sao presentes e frequentes na discussao sobre a entrada de produtos estrangeiros no territorio brasileiro. Referindo-se a essa problematica, Souza (2010, p. 26) atesta que:

Quanto ao uso e aplicacao dos fungicidas/inseticidas nas hortas, os produtores bolivianos de hortalicas alegaram nao saberem o grau de toxidade dos mesmos e nem dos perigos que estes produtos podem acarretar para eles e suas familias assim como tambem para o meio ambiente (p.24) (...) No Brasil existe legislacao que regula, ou proibe o uso desses produtos, e obriga o produtor a devolver as embalagens usadas, atraves de decretos e leis, criados para a protecao do meio ambiente e para a manutencao saude humana. Lei No. 6.938, de 31 de agosto de 1981 (Da Politica Nacional do Meio Ambiente).

A analise da estruturacao dos supermercados na cidade possibilita um maior conhecimento da organizacao e da dinamica da cidade. Fica claro por este momento historico (e recente, 2012) e pelas visitas realizadas nas feiras que a quantidade de produtos produzidos pelos produtores brasileiros nao e capaz de abastecer a cidade. Isso comprova a importancia dos bolivianos nas feiras (Espirito Santo et al. 2017a). Segundo Corumba (2013), no dia da abertura da Feira do Produtor: "O preco esta bom. Nao tem tudo que a gente encontra na feira, mas esta com preco em conta, afirmou A. M. M. moradora da cidade". Como vimos a feira do produtor nao tem todos os produtos vendidos na feira livre. A questao da fronteira, presenca ou nao dos bolivianos, evidencia muito o estudo de Costa e Oliveira (2014, p. 58) ao afirmarem:
   A visao da fronteira pelas pessoas que estao nessa zona, geralmente
   provoca sentimentos de discriminacao do fronteirico, por ele
   residir em um local onde sao permitidas as mais diversas
   contravencoes, o que permite que ele seja visto como suspeito e
   indigno de confianca. Na imaginacao do "outro", do que esta
   distante dessa situacao, a fronteira e lembrada pelos fatos ruins,
   e nao por suas qualidades.


Explicar a heterogeneidade e a multiplicidade de relacoes existentes neste territorio fronteirico e uma tarefa muito dificil. A abordagem territorial foi um caminho fundamental para entender a feira livre e as tramas territoriais, ou seja, as relacoes de complementaridade e oposicao entre brasileiros e bolivianos nas feiras livres da cidade. Dai a necessidade de se entender o que e legal ou ilegal na comercializacao de produtos agricolas em um territorio fronteirico.

6. Entre a legalidade e a necessidade

Esta ultima parte do trabalho busca analisar como ocorrem as tramas sociais nas dobras e percursos do legal e da necessidade. Foi constatado que nesta fronteira o rigor da legalidade, diariamente, e subvertido. Moradores deste territorio fronteirico fazem do comercio com a Bolivia uma extensao do comercio corumbaense conduzidos pelo melhor preco. Da mesma forma nota-se a presenca de bolivianos comprando produtos brasileiros, o que se faz ajustar essa reciprocidade em relacao a trocas economicas locais. Assim as tramas das cidades fronteiricas vao sendo construidas a partir das necessidades sociais basicas, neste caso, representada pela aquisicao de alimentos, fundamentalmente.

A fronteira e um local que permite variados convivios de grupos de imigrantes, impulsionados por diferentes motivos, em momentos historicos especificos e com interesses particulares. A fronteira e palco de uniao e crescimento mutuo. Todavia tambem e palco de legalidades e ilegalidades. Nos dizeres de Grimson (2000, p. 3):
   En las fronteras la tension entre legalidad e ilegalidad es parte
   constitutiva de la vida cotidiana. Las transacciones comerciales
   entre las poblaciones son consideradas muchas veces como
   "contrabando" por los Estados mientras es la actividad mas natural
   para la gente del lugar.


O comercio, legal ou ilegal--e ate ilicito -, e um dos principais propositos que incentiva as mobilidades existentes nas regioes fronteiricas. "El limite politico internacional es el contorno del espacio definido a partir del centro de poder (...) pero el limite no impide el ingreso ni el egreso. Para eso esta la frontera" (Benedetti, 2011, p. 2).

Foi perguntado aos feirantes bolivianos: "voce esta cadastrado junto a Prefeitura"? Todos foram unanimes em responder afirmativamente. Muitos fizeram questao de mostrar o boleto pago, referente a tarifa mensal do cadastramento. Diante dessa situacao surge uma nova questao: o boliviano, enquanto cadastrado pela prefeitura municipal brasileira, pagando sua tributacao e vendendo produtos comprados de atacadistas brasileiros (que inserem no preco de venda os impostos que devem ser pagos ao governo) esta legal, aos olhos da legislacao vigente? Tudo indica que sim, afinal os tributos estao sendo pagos. Mais uma vez fica evidente a necessidade de um dialogo e de uma politica publica adequada as particularidades da feira fronteirica.

E nesse ponto que esta um dos varios problemas existentes nas feiras de Corumba. A ilegalidade e o desconhecimento (ou descaso), por parte do governo brasileiro, da origem e certificacao do produto. Quando questionados sobre estar legal ou ilegal, tanto os bolivianos quanto os consumidores brasileiros nao veem esse comercio como ilegal. Sempre alegam a seguinte afirmativa: "Nos so queremos trabalhar, nao estamos fazendo nada de errado". Tal expressao se repete na fala de inumeros feirantes indo ao encontro das palavras de Costa e Oliveira (2014, p. 210):
   Assim, entende-se que o fato de as pessoas nao considerarem ilegais
   algumas praticas, nao quer dizer que elas nao o sejam; em outras
   palavras, a distincao entre o legal e o ilegal existe na pratica,
   exerce efeitos sociais e esta materializada em codigos e leis.
   (...) o nosso interesse principal e o de compreender como os
   limites da lei sao negociados por parte das pessoas envolvidas
   nessas diferentes atividades a que chamaremos de esquemas.


Dessa forma as tramas sociais das cidades sao marcadas por jogos de relacoes de poder e de forca que "se processam nas fronteiras incertas do informal, do ilegal e tambem do ilicito" (Telles, 2010, p. 171). O "esquema"e uma atividade presente em todo territorio fronteirico do Brasil. Costa e Oliveira (2014, p.213) definem esquema nao como algum sinonimo de crime organizado, ou mafia. Interpretam como "a mesma logica dos negocios capitalistas em que os atores sociais operam como empreendedores (...) possuindo lideranca, de um negocio recebedor de lucro, com componente de inovacao e com capacidade para superar as incertezas".

Isso quer dizer que em muitas ocasioes nem todos os individuos integrantes se conhecem, mas todos compartilham de operacoes secretas, ou de parte do segredo. Nem todo esquema e uma mafia, mas toda mafia necessariamente tem seus esquemas (Costa e Oliveira, 2014, p.213).

Vale destacar que, alem da ilegalidade de produtos agricolas (sem a certificacao da origem), tem a questao da venda de roupas usadas, que chegam a Bolivia atraves de doacoes dos Estados Unidos e da Europa e que deveriam ser entregues as familias carentes (Ferreira, 2015). Essas vendas sao proibidas na Bolivia. Contudo, o mercado no Brasil e promissor e sem nenhuma fiscalizacao. Nas feiras de Corumba o ilegal se torna legal e ganha o gosto popular e o apoio das midias, tal qual materia veiculada pelo jornal Diario Corumbaense (principal jornal da cidade), em 21 de junho de 2011, sendo replicada na integra no jornal online Midiamax News (Jornal online da Capital do Estado), conforme apresentado na figura 6.

Outro problema se refere a imigracao, ja que muitos feirantes moram na Bolivia e estao entrando e saindo todos os dias, com pouca ou nenhuma fiscalizacao. Durante as entrevistas foram encontrados chilenos e ate coreanos, que estao com o visto vencido, residem em Puerto Suarez (cidade localizada a 15 km de Corumba) e atravessam todos os dias o limite internacional para trabalhar nas feiras em Corumba. Esse fenomeno social so pode ser entendido no contexto da migracao pendular transfronteirica--o ir e vir diario entre os paises. Aqui temos um importante fenomeno que deve ser alvo de inumeros estudos, contudo, os pesquisadores sociais de todos os cantos do mundo apresentam lentidao para explicar o fenomeno da imigracao (Massey et al., 1998). Uma ultima questao (nao que reflita o ultimo problema em uma feira que apresenta uma enredada gestao) sao os feirantes--tanto brasileiros quanto bolivianos--que nao sao cadastrados junto a prefeitura, logo, nao pagam tributos sobre a concessao e as vendas realizadas.

Totalmente imbricado de relacoes e o espaco onde se comercializam os produtos da agricultura familiar brasileira e boliviana fronteirica. Em que pese a forca das ilegalidades e da complexidade das territorialidades manifestadas, a feira e fundamental para a cidade. E preciso discutir suas problematicas de forma multidimensional, pois existem elementos particulares a cada uma das dimensoes de analise. Do ponto de vista economico, possibilita as familias corumbaenses encontrarem produtos com precos satisfatorios e aos produtores e feirantes vender e escoar a sua producao. Contudo, conflita com interesses de outros comerciantes da cidade quando comercializa outros produtos que nao agricolas e artesanatos. Por outro lado, os feirantes recolhem taxas aos cofres publicos, logo nao sao plenamente ilegais.

Consideracoes Finais

Os resultados desta pesquisa demonstraram que o espaco fronteirico analisado e marcado por intensa fluidez, caracterizado por frequente mobilidade humana, trocas comerciais, compartilhamento cultural e outras manifestacoes coletivas. Nesse conjunto de cidades fronteiricas, Corumba se diferencia das outras tres (Ladario, Puerto Quijarro e Puerto Suarez) por apresentar uma melhor infraestrutura e oferta de servicos. Alem disso, possui o dobro da populacao de todas elas, tornando-se um importante mercado consumidor. Todas essas manifestacoes vao impactar e desenhar as tramas territoriais na fronteira Brasil-Bolivia. A trama social, advinda da intensa sociabilidade fronteirica, se apoia nas praticas dos atores e configura os espacos urbanos, neste caso, a feira livre de Corumba.

Seguindo as pistas que eram entregues pelos proprios atores (durante a realizacao das entrevistas) atrelado ao desenho da trajetoria da feira livre neste territorio (a partir do levantamento documental/historico) foi possivel reconhecer como se da o processo de comercializacao de produtos agricolas na fronteira Brasil-Bolivia. Observou-se que a agricultura familiar e de suma importancia para este territorio fronteirico, visto que ha grande demanda por abastecimento de alimentos. Contudo, a quantidade produzida pelos agricultores familiares brasileiros e insuficiente para abastecer o mercado local. Logo, faz-se necessaria a entrada de produtos de outros territorios, como de Santa Cruz (Bolivia), Campo Grande, Curitiba e Sao Paulo (Brasil), dentre outras, que serao comercializados nas feiras.

Atraves dos relatos ficou evidente como ocorrem as tramas sociais nas dobras do legal, ilegal e da necessidade, a partir do relacionamento e da cooperacao entre os atores na fronteira Brasil-Bolivia. "Alguns atores sao mais habilitados socialmente em obter a cooperacao dos outros, em manobrar em torno de atores poderosos e em saber como construir coalizoes politicas na vida" (Abramovay, 2006, p. 8). E importante que os atores nao sejam apenas reprodutores das estruturas, mas que tenham capacidade de alterar a correlacao de forcas dentro de um determinado campo, neste caso, as feiras.

A partir dessa problematica poderao ser (re)construidos novos relacionamentos, obrigacoes e obrigatoriedades com base na cooperacao. E fundamental, entao, nao "so compreender a maneira como os atores se inserem em certas realidades e mesmo em certos papeis sociais, mas tambem como adquirem o poder de alterar as relacoes de forcas dos campos em que estes papeis sao desempenhados" (Abramovay, 2006, p. 8). As dificuldades de integracao precisam ser rompidas a partir do dialogo e da acao publica que dara visibilidade aos desafios publicos (comercializacao de produtos agricolas) e aos esforcos para resolve-los em territorios fronteiricos, frente aos desafios da soberania nacional. Por tudo isso, a importancia de se tecer estudos e politicas publicas sobre a abordagem territorial e que, neste caso, priorizem o espaco rural e fronteirico.

Nesse sentido, a formacao das tramas territoriais ocorre a partir da experiencia de multiplos atores: consumidores, varejistas, agricultores, poder publico, dentre outros, na escala nacional e internacional, que se complementam e se opoem nas relacoes diarias e nos jogos de poder do territorio. Todas essas linhas se entrecruzam nas redes sociais e, nesse jogo, tantas outras conexoes e circuitos se embaralham ainda mais, nas fronteiras do legal, ilegal e da necessidade.

Em territorios fronteiricos as proximidades e os fluxos diarios podem gerar potencialidades de crescimento mutuo, dai a necessidade da mobilizacao para buscar dirimir um determinado problema. A fronteira precisa ser entendida como um local de encontro, de uniao, e nao como pontos antagonicos que possam gerar qualquer fechamento e ou, obstaculo. O trabalho do boliviano nas feiras livres de Corumba deixa evidente que percebem a fronteira do ponto de vista dos fluxos humanos como espaco vivido. A fronteira assume um carater simbolico para os feirantes, e os limites, em nada impede suas territorialidades.

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Notas

(1) Os dados referidos as Leis e Decretos datados na decada de 1950 / 1960 foram obtidos a partir da pesquisa documental, conforme destacada na estrategia de pesquisa nos acervos da Camara dos Vereadores de Corumba.

(2) Feira Bras-Bol e um antigo centro comercial de Corumba formado por brasileiros e bolivianos que comercializavam roupas, calcados e acessorios, cosmeticos, artigos para lar e outros. Era quase que o camelodromo da cidade.

(3) No item "outros" sao representados por mais de 10 produtos diferentes, que incluem desde brinquedos, pecas para eletrodomesticos, CDS e DVS, bijuterias, artigos de perfumaria, ferragens, pecas para bicicletas, aviamentos, artesanatos, acessorios para celular, eletronicos, ervas medicinais, entre outros. Optou-se nesse caso por unir esses tipos de produtos que individualmente teriam menor representativa do que as categorias individualizadas

(4) Portunhol ou portanhol e uma palavra-valise que designa a interlingua (ou lingua de confluencia) originada a partir da mistura de palavras da lingua portuguesa e da espanhola. Ocorre, sobretudo, em cidades de fronteira entre paises de lingua portuguesa e espanhola (Faulstich, 1997).

Anderson Luis Espirito Santo

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil

anderson84luis@gmail.com

Edgar Aparecido da Costa

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil

edgarac10@gmail.com

Alejandro Gabriel Benedetti

Universidade de Buenos Aires, Argentina

alejandrobenedetti@outlook.com

doi.org/ 10.24215/15155994e097

Recibido: 24 agosto 2017--Aceptado: 11 julio 2018--Publicado: 07 diciembre 2018

Leyenda: FIGURA 1

Localizacao das primeiras feiras livres de Corumba

Leyenda: FIGURA 2

Localizacao das feiras livres nas cidades de Corumba e Ladario

Leyenda: FIGURA 3

A feira livre de Corumba

Leyenda: FIGURA 5

Horta em Puerto Suarez, Bolivia

Leyenda: FIGURA 6

Comercio de roupas usadas nas feiras de Corumba
TABELA 1

Quantidade de bancas que comercializam Frutas, Legumes
e Verduras (FLV) nas feiras livres de Corumba/MS

          Feira de   Feira de   Feira   Feira
          Domingo    Segunda    de      de
                                Terca   Quarta

FLV       96         49         61      59
OUTROS    258        134        182     92
TOTAL     354        1S3        243     151

          Feira    Feira   Feira de     Feira de
          de       de      Sabado       Sabado
          Quinta   Sexta   (matutino)   (noturno)

FLV       49       87      46           25
OUTROS    105      242     106          167
TOTAL     154      329     152          192

Fonte: Dados da Pesquisa.

FIGURA 4

Origem dos produtores rurais da feira livre
de Corumba e Ladario

Taquaral           22
Tamarineiro II      9
Tamarineiro I       5
Sao Gabriel         2
Paiolzinho          6

Fonte: Dados da Pesquisa.

Nota: Tabla derivada de grafico de barra.
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Author:Santo, Anderson Luis Espirito; da Costa, Edgar Aparecido; Benedetti, Alejandro Gabriel
Publication:Mundo agrario: Revista de estudios rurales
Date:Dec 1, 2018
Words:10105
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