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Traditional knowledge of the fishermen of the lower Jurua River: aspects related to the feeding habits of fish in the region/Conocimiento tradicional de los pescadores DL Bajo Rio Jurua: aspectos relacionados a los habitos alimentarios de los peces de la region/Conhecimento tradicional dos pescadores do Baixo Rio Jurua: aspectos relacionados aos habitos alimentares dos peixes da regiao.

Introducao

A importancia do conhecimento tradicional produzido e transmitido oralmente pelos pescadores artesanais e seu papel nos programas de manejo pesqueiro tem recebido atencao especial dos pesquisadores de varias regioes do mundo (Silvano, 2001; Pieve et al., 2009). Entre os enfoques que mais tem contribuido para o estudo deste conhecimento estao as etnociencias, que estudam o conhecimento das populacoes humanas sobre os processos naturais, tentando descobrir o conhecimento humano acerca do mundo natural, as taxonomias e classificacoes populares (Posey, 1987; Pieve et al, 2009).

Trabalhos recentes feitos nos enfonques das etnociencias e na regiao amazonica demonstram a importancia do conhecimento tradicional. Rebelo et al. (2010) realizaram um trabalho sobre a dieta de peixes amazonicos, levantado em laboratorios, e verificaram similaridades com o conhecimento tradicional de pescadores ribeirinhos. Batista e Lima (2010) realizaram um trabalho com a etnoictiologia dos jaraquis (Semaprochilodus spp.) e demonstraram semelhancas entre o conhecimento cientifico e tradicional para as relacoes troficas da especie.

No estado do Acre, a pesca e a caca executada por habitantes da Reserva Extrativa do Alto Jurua, no rio Jurua, foram estudados por Begossi et al. (1999) e os resultados demonstraram que as regras locais podem ser uteis como pontos de partida para gestao dos recursos. Apesar da importancia do rio Jurua na producao pesqueira regional (Batista, 2004), ainda sao poucos os trabalhos feitos sobre recursos pesqueiros neste rio envolvendo etnociencias, principalmente no baixo Jurua.

Todos os trabalhos acima descritos demonstram que a integracao da pesquisa academica com o conhecimento tradicional e importante e devem ser considerados para o manejo e estrategias de conservacao. Com todos os elementos expostos anteriormente, este trabalho tem por objetivo descrever conhecimento que os pescadores da Reserva Extrativista do Baixo Jurua, possuem sobre aspectos da ecologia e comportamento alimentar das principais etnoespecies capturadas na area e as relacoes com seus predadores.

Material e Metodos

Os dados deste trabalho comecaram a ser coletados em julho de 2008 quando recebemos o convite da Associacao dos Trabalhadores do Jurua (ASTRUJ) para acompanhar as atividades que envolviam o manejo do pirarucu (Arapaima gigas) na Reserva Extrativista (RESEX) do Baixo Jurua (Figura 1), desde a contagem ate as pescarias, que sao denominadas localmente como a despesca do pirarucu'. Nelas estao sempre presentes os pescadores mais experientes de cada comunidade. Na oportunidade foram feitas entrevistas semi-estruturadas por apresentarem possibilidades e abertura para que, em sua aplicacao, possa ceder espaco para novas estruturas se o pesquisador sentir tal necessidade (Minayo, 1998).

Procurou-se seguir a metodologia geradora de dados propostas por Posey (1987) e Marques (1991), onde os informantes respondem aos questionamentos segundo seus proprios conceitos, com a menor restricao possivel, permitindo ao pesquisador no momento da entrevista, ou em outro momento oportuno, utilizar expressoes empregadas pelos informantes para gerar novas perguntas que permitam a obtencao de dados novos ou complementares. Inicialmente foram entrevistados nove especialistas que estavam presentes nos trabalhos de manejo do pirarucu. As entrevistas gravadas foram transcritas posteriormente usando o programa Voice Editing (Ver. 2.00 Premiun Edition 2004-2007).

No periodo de atividades de manejo do pirarucu, do ano de 2009, foram feitas novas entrevistas na sede do municipio e nas comunidades, com base nas primeiras informacoes e numa lista, onde constavam os nomes de outros especialistas, elaborada em conjunto com os primeiros entrevistados. Este metodo denominado 'bola de neve' (Bailey, 1982) consiste em solicitar, ao final de cada entrevista, que o informante indique um ou mais pescadores de sua comunidade que sejam os mais experientes e que tenham a pesca como uma das suas principais atividades.

Todos informantes considerados especialistas ou informantes-chave foram entrevistados com o auxilio de questionarios semi-estruturados abordando questoes sobre a descricao dos peixes, o habitat, a alimentacao, tecnicas para captura, a sazonalidade, a reproducao e as etnoespecies. Sempre que possivel, as pescarias eram acompanhadas antes das entrevistas. Ao todo foram entrevistados 27 informantes-chave, dos quais nove tiveram as entrevistas gravadas e transcritas por serem considerados pelos demais especialistas como sendo as 'autoridades no assunto' (Mauss, 1904), com elevado conhecimento tradicional a respeito da fauna aquatica.

Todas as informacoes coletadas foram digitalizadas em um banco de dados relacionais na plataforma Access. Para isso elas foram fragmentadas e distribuidas em informacoes sobre: relacoes sociais na pesca, aspectos reprodutivos, ecologia trofica, crescimento e mortalidade, distribuicao, comportamentos e finalidades. Os dados coletados foram armazenados no Laboratorio de Manejo de Fauna do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia (INPA).

A opcao de analise dos dados qualitativos, obtidos nas entrevistas envolveu a categorizacao do conteudo das respostas (Minayo, 1998). As informacoes obtidas tambem foram trabalhadas utilizando uma abordagem emicista/eticista, por meio da elaboracao de Tabelas de cognicao comparada, proposta por Marques (1991), em que os conhecimentos tradicionais sao comparados com trechos da literatura cientifica corrente referentes ao bloco de informacao citada. A classificacao taxonomica das plantas mencionadas como fonte de alimento para os peixes foi feita com auxilio de publicacoes especializadas (Maia, 2001; Braga et al., 2008).

Uma questao de interesse em estudos etnobiologicos consiste na identificacao de agrupamentos de especies de acordo com as caracteristicas ecologicas mencionadas pelos informantes (Silvano, 2001), os quais devem ser comparados aos da literatura cientifica para saber se tais grupos fazem sentido. Para verificar quais agrupamentos sao formados pelas especies de peixes, de acordo com as informacoes de habitos alimentares fornecida pelos pescadores entrevistados, foi realizada uma analise multivariada de agrupamento (cluster), utilizando para isto distancias euclidianas e o metodo de Ward (Hoft et al., 1999). As medidas de cada variavel (correspondente a tipos de alimentos) corresponderam ao total de citacoes para cada uma das principais especies peixes citadas, as quais foram estandardizadas seguindo metodologia proposta por Gonzalez et al. (2006).

Resultados

Foi constatado um conhecimento detalhado sobre a ecologia trofica das principais especies de peixes, que foi descrito e representado atraves das informacoes sobre 'o que o peixe come', 'onde come' e quem come o peixe', de acordo com os periodos do ano reconhecidos pelos especialistas locais (enchente-cheia-vazante-seca).

O periodo que se estende desde a enchente (novembro) ate o inicio da vazante (maio-junho) e o de 'maior fartura' devido a grande quantidade de frutas encontradas na floresta, alimento da maioria dos peixes que sao capturados pelos entrevistados (Tabela I). Apos a desova (novembro a marco) os peixes desovados' retornam para os lagos e para floresta alagada para se alimentar ou 'engordar'. O matrinxao (Brycon amazonicus) e a pirapitinga (Piaractus brachypomus) chegam a retornar aos igarapes centrais, que tambem transbordam e formam igapos. Na vazante, os 'peixes gordos' saem da floresta alagada para os lagos e depois migram para o rio, fazendo o que os pescadores denominam da 'migracao do peixe gordo', trazendo um periodo de fartura que vai de julho a agosto (Figura 2).

A analise de agrupamento das oito etnoespecies de peixes mais lembradas (Figura 3) a respeito dos itens alimentares, supostamente consumidos, revelou tres grupos de especies, que podem ser descritos pelas diferentes categorias troficas: 1) onivoro com tendencia a carnivoria, 2) detritivoro, 3) onivoro com tendencia a herbivoria, e 4) onivoro com tendencia ao canibalismo. A aruana (Osteoglossum bicirrhosum) se destacou dos outros grupos devido as peculiaridades de sua alimentacao. Segundo os especialistas locais, a aruana possui habitos alimentares diferentes dos demais peixes, consumindo invertebrados, peixes, anfibios, repteis, aves e ate mesmo pequenos mamiferos. Alem disso, foi o unico peixe citado que consegue obter alimento fora da agua, chegando a pular mais de um metro acima da superficie, dai a denominacao local de 'macaco dagua' para essa especie.

O segundo grupo (jaraquis Semaprochilodus spp. e curimata Prochilodus nigricans) e conhecido localmente como peixes que comem lodo e limo'. Este grupo tambem foi descrito pelos pescadores como peixes que chupam a fruta do jenipapo, uma fruta muito comum na epoca da enchente, e talvez isso explique sua proximidade com o proximo grupo. O terceiro grupo (pacu Mylossoma spp., pirapitinga, tambaqui Colossoma mocropomum e tucunare Cichla spp.) destacou-se pela grande variedade de frutas em sua dieta basica, mas que complementam a alimentacao com folhas, moluscos, peixes e invertebrados. O tucunare ainda e descrito pelos entrevistados como uma especie que 'prefere peixe', mas que nao dispensa insetos e frutas de muruxi. No ultimo grupo esta o matrinxao (Brycon amazonicus), especie onivora, que consome basicamente frutos, peixes e 'insetos' e que chega a atacar exemplares feridos de sua especie.

Os entrevistados descreveram a predacao dos peixes de duas maneiras: uma depende da epoca do ano, pois existem predadores que se destacam durante a enchente e outros durante a vazante. A outra leva em consideracao 'a idade', quando o peixe e predado por diferentes organismos dependendo se e jovem ou adulto. O peixe e o principal alimento consumido na area e durante todo o ano ele e capturado. Por isso os entrevistados citaram o homem (o ser humano) como um dos principais predadores em qualquer epoca do ano.

Durante o periodo de enchente ocorre 'a migracao da ova', e neste periodo os principais predadores nos rios sao 'feras' e botos (Inia geoffrensis e Sotalia fluviatilis) que ficam nos canais dos rios a espera das presas. Fera e uma denominacao local para os grandes bagres da Familia Pimelodidae, tambem conhecidos por peixes -lisos e que na regiao inclui surubim (Pseudoplatystoma punctifer), caparari (Pseudoplatystoma tigrinum), dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), pirarara (Phractocephalus hemioliopterus), filhote ou piraiba (Brachyplatystoma filamentosum e B. capapretum) e o jau (Zungaro zungaro). Mas antes da desova nos rios, algumas especies saem do igapo para os lagos e nestes ambientes ocorre intensa predacao por pirarucus (A. gigas) e jacares, principalmente, jacaretinga (Caiman crocodilus crocodilus) e jacare-acu (Melanosuchus niger) e em menor escala jacare tiri-tiri (Paleosuchus trigonatus), ariranhas (Pteronura brasiliensis) e lontras (Lontra longicaudis).

No periodo de vazante quando ocorre 'a migracao do peixe-gordo', os principais predadores sao botos, pirarucus e feras que, neste caso, sao surubins e capararis que se deslocam ate os lagos e igapos em busca de presas. Tambem se destaca um aumento da predacao por parte das ariranhas as especies que estao saindo dos igarapes centrais, localizados na terra firme (Figura 2), em direcao aos lagos, como a pirapitinga e o matrinxao. Os especialistas locais afirmaram que o numero de matrinxaos estava diminuindo devido o aumento do numero de ariranhas (considerada uma especie voraz e que ataca matrinxaos) apos a criacao da RESEX.

Na fala dos entrevistados a alimentacao e o fator que mais afeta o crescimento dos peixes, "ano que da mais alimento ele cresce mais". Ja o principal motivo que leva a mortalidade dos peixes e a predacao por outros organismos, que varia conforme o estagio de vida (larva ou 'filhotinho', jovem e adulto) e local em que se encontra. Para as larvas (os 'filhotinhos') dos peixes migradores que desovam no encontro das aguas os principais predadores citados sao as feras', os candirus (Cetopsidae e Trichomicterydae) e um peixe Tetraodontideo conhecido como bochechudo ou piuzinho (Colomesus assellus). Algumas aves como maguari (Ardea cocoi) e carara (Anhinga anhinga) tambem foram citadas. Os filhotes que 'escaparem' irao migrar aos lagos e nestes locais, ate que se tornem pre-adultos, serao intensamente predados por tucunares, piranhas, jacundas (Crenicichla sp.), surubins e varias especies de piabas (Characidae). Ja para as especies nao migradoras, que desovam em lagos, os entrevistados afirmam que os filhotes quase nao morrem porque os pais "nao soltam os filhos"; mesmo assim as piranhas (Characidae), trairas (Hoplias malabaricus) e surubins foram citados como predadores de filhotes de tucunares e aruanas se os pais se descuidarem.

Discussao

Os pescadores da RESEX do Baixo Jurua demonstraram possuir um acurado conhecimento dos comportamentos migratorios, alimentares e da predacao sofrida pelos peixes, apresentando elevada concordancia com a literatura cientifica (Tabela II). A compreensao e descricao dos comportamentos ecologicos sao feitas sempre levando em consideracao os periodos do regime hidrologico do rio Jurua, que influencia o comportamento alimentar, reprodutivo e migratorio das especies, assim como o comportamento dos pescadores que fazem uso destes conhecimentos para obter exito nas pescarias. Este fato, aliado ao pleno conhecimento dos ambientes explorados facilita sua atuacao como predador (Bittencourt e Cox-Fernandez, 1990).

Em trabalho realizado por Batistella et al. (2005) em uma comunidade nas proximidades do lago Janauca, proximo de Manaus, sobre a dieta de varias especies de peixes, os informantes classificaram o aruana como sendo onivoro. Santos et al. (2006) descrevem o aruana como sendo carnivoro, o que mostra que as informacoes descritas pelos especialistas locais do Jurua para o aruana, como sendo onivoro, estao compativeis com os trabalhos realizados pelos autores acima citados.

O segundo grupo descrito pelos especialistas locais como "peixes que comem lodo e limo" e descrito na literatura cientifica como detritivoros (Santos et al. 2006). O terceiro grupo composto pela presenca de especies onivoras destaca-se pela presenca, no mesmo grupo, do tambaqui, descrito na literatura, como unico peixe de grande porte na Amazonia que possui rastros branquiais longos e fortes, dentes molariformes, uma caracteristica anatomica singular que lhe permite alimentar-se tanto de zooplancton quanto de frutos e sementes (Araujo-Lima e Goulding, 1998) e do tucunare, descrita na literatura cientifica como sendo piscivoro (Santos e Ferreira, 1999) e que os especialistas locais afirmam 'nao dispensar' insetos e frutas. O matrinxao e descrito como uma especie que quando jovem e pre-adulto tem maior preferencia por peixes e artropodes e os adultos preferem sementes e frutos (Santos et al. 2006). Ele deve ter se destacado dos demais grupos devido a informacao de que faz o canibalismo.

Sobre a predacao que as especies de peixes sofrem, as informacoes foram bastante congruentes com o descrito na literatura cientifica. A maioria dos representantes da familia Pimelodidae ('feras') sao peixes piscivoros que se alimentam principalmente de Characiformes (Barthem e Goulding, 1997). Outros predadores importantes e descritos foram os jacares, botos e pirarucus. Peixes sao alimentos importantes para Paleosuchus trigonatus acima de 40cm de comprimento (Magnusson et al. 1987) e o principal item alimentar encontrado no estomago de jacare-tinga acima de 35cm (Silveira e Magnusson, 1999). Ja o jacare-acu diminui o consumo de invertebrados ao longo do crescimento e passa a comer pequenos vertebrados (principalmente peixes), ja os adultos comem uma ampla variedade de alimentos, adaptando-se a disponibilidade de peixes, pequenos mamiferos, repteis e aves (Castellanos et al., 2006).

No Jurua estao presentes o boto vermelho (Inia geoffrensis) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis), duas especies de cetaceos de agua doce do Novo Mundo, que se encontram no topo da cadeia alimentar e estao entre os maiores predadores nos sistemas aquaticos da bacia Amazonica, exploram diversos habitats e possuem uma dieta bastante diversificada que inclui mais de 68 especies de peixes (Rosas et al., 2003).

A alimentacao dos pirarucus na visao de pescadores em diferentes pontos da Amazonia foi comparada com a literatura cientifica por Braga (2009), onde foi descrita a preferencia alimentar por camaroes e peixes; sendo que camarao foi destaque na alimentacao dos jovens ou bodecos e os peixes o alimento preferencial dos adultos.

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentavel Uacari, Estado do Amazonas, no mesmo rio Jurua, estudo sobre os conflitos entre pescadores e ariranhas indicou que as ariranhas consomem principalmente pequenos Characiformes, sendo a traira (Hoplias malabaricus) e aracus (Anostomidae) as especies mais frequentes em sua dieta na regiao de estudo (Rosas-Ribeiro, 2009). Talvez a diminuicao percebida pelos informantes na quantidade de matrinxaos na area da RESEX do Baixo Jurua se deva a outros fatores de macroescala, como a pescaria intensiva, principalmente por pescadores profissionais de outros municipios, que precisa ser mais bem estudada.

Verificamos que os pescadores conhecem bem tanto as especies que nao realizam migracoes quanto as que realizam, detalhando a sequencia de movimento migratorio executado conforme a epoca do ano e descrevendo a finalidade de cada migracao, seja ao comportamento reprodutivo, de fuga dos predadores, ou para alimentac ao. Um trabalho realizado por Silvano et al. (2006) com o conhecimento tradicional de pescadores no litoral do Brasil mostrou que este conhecimento tem potencial para melhorar o entendimento da reproducao, alimentacao e migracao dos recursos pesqueiros da costa brasileira. Tal afirmativa deve ser considerada para aguas interiores na Amazonia onde poucos trabalhos foram feitos com conhecimento tradicional de pescadores ribeirinhos.

Todos esses conhecimentos que os pescadores do Baixo Jurua demonstraram possuir precisam ser mais bem aproveitados e explorados para que as proximas pesquisas e avaliacoes do plano de manejo em vigor na RESEX seja implementado com maior eficacia. Desta forma estariamos visualizando o que Clauzet et al. (2005) denominaram de nova concepcao da conservacao da diversidade biologica, a qual deve ser concebida em parametros mais amplos dos que tem sido ate agora, incluindo a conservacao nao so dos recursos biologicos, mas tambem a conservacao da diversidade cultural das populacoes locais.

Conclusoes

Constatou-se que os pescadores possuem um conhecimento tradicional detalhado e compativel com a literatura cientifica sobre o que o peixe come, onde ele come, relacio nando o comportamento alimentar dos peixes com a variacao anual do nivel do rio Jurua. Para os pescadores o comportamento alimentar dos peixes esta relacionado com sua reproducao na epoca da enchente e com o processo de migracao. Apos a desova os peixes 'desovados', dependendo da especie, migram para os lagos, florestas alagadas e igarapes centrais para se alimentarem ate o periodo da vazante quando a maioria retorna ao rio, fazendo o que os pescadores denominam da 'migracao do peixe gordo'.

Tambem possuem um conhecimento tradicional detalhado sobre a predacao que as especies de peixes sofrem e essa predacao e diferenciada, considerando: 1) as diferentes epocas do ano, ou seja, durante a enchente e vazante, e 2) se o individuo ainda e jovem ou adulto, ou seja, a fase do desenvolvimento ontogenetico.

O motivo alegado pelos pescadores para a diminuicao da quantidade de matrinxaos devido a predacao por ariranhas precisa ser mais bem estudado e acompanhado, uma vez que esta ultima se alimenta principalmente pequenos Characiformes, sendo a traira (Hoplias malabaricus) e aracus as principais especies em sua dieta e nao os matrinxaos.

Recebido: 05/07/2013. Modificado: 07/08/2014. Aceito: 13/08/2014.

Tony Marcos Porto Braga. Graduacao em Biologia, Universidade Federal do Para, Brasil. Mestrado em Biologia de Agua Doce e Pesca Interior, e Doutorado em Ecologia, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia (INPA), Brasil. Professor, Universidade Federal do Oeste do Para (UFOPA), Brasil. Endereco: Instituto de Ciencias e Tecnologia das Aguas, UFOPA. Av. vera paz S/N, Sale--68.040.250 --Santarem, Para, Brasil. e-mail: tony.braga@gmail.com

George Henrique Rebelo. Bacharel em Ciencias Biologicas, Universidade de Brasilia, Brasil. Mestrado, INPA, Brasil. Doutorado em Ecologia, Universidade Estadual de Campinas, Brasil, e Pos-doutorado, Wageningen University, Holanda. Pesquisador, INPA-Manaus, Brasil. e-mail: jacarebelo@ gmail.com

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a Associacao dos Trabalhadores Rurais de Jurua (ASTRUJ) e aos tecnicos do Instituto Chico Mendes de Conservacao da Biodiversidade (ICMBio), em especial a Maria Goretti de Melo Pinto, pelo apoio dado durante a elaboracao deste trabalho, e a Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) pela bolsa concedida.

REFERENCIAS

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TABELA I
COGNICAO COMPARADA REFERENTE AOS COMPORTAMENTOS ALIMENTAR DOS
PEIXES DO BAIXO JURUA

% de pescadores        Citacao dos        Citacao da literatura
que concordaram        pescadores
com a afirmacao

100               Todo tipo de peixe      Nos locais onde foi
                  que passa na frente     estudada, incluindo
                  do tucu-nare ele fica   aqueles onde ela foi
                  bocando (comendo),      introduzida, esta
                  tanto faz ta enchendo   especie sempre
                  quanto vazando eles     apresentou um habito
                  comem peixinhos.        predominante
                                          piscivoro (Rabelo e
                                          Araujo-Lima, 2002).

55,6              O surubim come os       Os pintadillos
                  peixes miudos que       (Pseudoplatystoma)
                  passam perto dele,      realizam movimentos
                  onde tem peixe          estacionais,
                  pequeno eles se         motivados por
                  reunem e detonam.       estimulos alimentares
                                          ou reprodutivos, sao
                                          carnivoros e se
                                          alimentam
                                          principalmente de
                                          peixes (Agudelo et
                                          al, 2000).

85,2              Tem tempo que o pacu    Sao reconhecidos
                  come fruta de mucuba,   ainda como
                  feijaozinho, grilo se   herbivoros, a base de
                  ele topa ele come, se   frutos e sementes,
                  o cara pescar com       dependentes da
                  grilo ele pega bem.     floresta e varzea
                  Na vazante ele come     inundada, as especies
                  cisco.                  do genero Brycon
                                          (jatuaranas e
                                          matrinchas) e os
                                          pacus dos generos
                                          Mylossoma e Myleus
                                          (Resende et al.,
                                          1998).

74,1              Agora o matrinxao       O matrinxao possui
                  come e tudo,            habito alimentar
                  peixinho, frutas, ate   onivoro, alimentando-
                  cobra a gente           se na natureza de
                  encontra, ela parece    frutos, sementes,
                  a piranha.              flores, restos
                                          vegetais, plantas
                                          herbaceas, insetos,
                                          restos de peixes,
                                          etc. (Santos et al.,.
                                          2006).

92,6              O jaraqui e a mesma     Os representantes
                  coisa da curimata, o    dessa familia
                  comer de um e o do      (Prochilodontidae:
                  outro. Eles comem       curimata, jaraqui.)
                  aqueles lodozinhos de   tem habito alimentar
                  pau, na epoca de        detritivoro,
                  muita agua eles comem   consumindo detritos,
                  jenipapo.               materia organica
                                          particulada, algas e
                                          perifiton (Santos et
                                          al., 2006).

100               A piranha ela           Sao especies
                  estracalha com os       predominantes
                  outros peixes,          piscivoras: os
                  piabinha nao pode       tucunares, o
                  encostar perto dela     pirarucu ... a
                  que ela come mesmo.     piranha-caju, entre
                                          outras (Santos e
                                          Ferreira, 1999).

TABELA II
TIPOS DE ALIMENTOS VEGETAIS CONSUMIDOS PELOS PEIXES NA RESEX DO
BAIXO JURUA, CONFORME CITACOES DOS MORADORES LOCAIS

Tipo de alimento               Identificacao taxonomica
(denominacao local)

Acai                  Euterpe precatoria (Arecaceae)
Andiroba              Carapa guianensis (Meliaceae)
Apui                  Ficus sp. (Moraceae)
Araca                 Caliptranthes sp. (Myrtaceae)
Arati                 Rubiaceae
Abiorana              Pouteria sp. (Sapotaceae)
Buriti                Mauritia flexuosa (Arecaceae)
Buritirana            Mauritia carana (Arecaceae)
Caferana              Cynometra bauhiniaefolia (Caesalpiniaceae)
Cafezinho             Quiina rhytidopus (Quiinaceae)
Capim membeca         Paspalum repens (Poaceae)
Capim murim           Paspalum fasciculatum (Poaceae)
Capitari              Clitoria amazonica (Fabaceae)
Envira                Duguettia sp. (Annonaceae)
Flor                  Nao identificada
Folha da batatarana   Cissampelos andromorpha (Menispermaceae)
Fruta da batatarana   Cissampelos andromorpha (Menispermaceae)
Gordiao               Nao identificado
Grela-grela           Nao identificado
Jaca                  Prunus myrtifolia (Rosaceae)
Jenipapo              Genipa spruceanum (Rubiaceae)
Joao-mole             Neea opposita (Nyctaginaceae)
Joari                 Astrocaryum jauari (Arecaceae)
Mara                  Nao identificado
Moratinga             Maquira calophyla (Moraceae)
Muruxi ou mirixi      Byrsonima sp. (Malpighiaceae)
Pau santo             Calyptrantes sp. (Myrtaceae)
Sardinheira           Laetia corymbosa (Flacourtiaceae)
Seringa               Hevea brasiliensis (Euphorbiaceae)
Seringai              Amanoa oblongifolia (Euphorbiaceae)
Seringarana           Hevea sp. (Euphorbiaceae)
Supiarana             Alchornea schomburgkii (Euphorbiaceae)
Taquari               Mabea sp. (Euphorbiaceae)
Tintarana             Neea floribunda (Nyctaginaceae)
Ucuuba                Iryanthera sp. (Myristicaceae)
Urucurana             Sloanea brachypetala (Elaeocarpaceae)
Violeta               Peltogyne catingae (Caesalpiniaceae)

Outros

Cisco                 Detritos vegetais
Lama                  Algas e argila
Limo                  Algas
Lodo                  Algas
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Braga, Tony Marcos Porto; Rebelo, George Henrique
Publication:Interciencia
Date:Sep 1, 2014
Words:4417
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