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Trace metal contamination in mussel Perna perna from Brazilian coast/Contaminacao por metais traco em mexilhoes Perna perna da costa brasileira.

REVISAO BIBLIOGRAFICA

INTRODUCAO

Os moluscos bivalves, especialmente os mexilhoes, sao responsaveis por parte da dinamica de poluentes no ambiente marinho em funcao da capacidade em concentrar metais traco em niveis mais elevados que na agua em varias ordens de grandeza e sobreviver em ambientes contaminados. Estes organismos sao utilizados como biomonitores e indicadores de qualidade ambiental, devido a caracteristica filtradora de alimentacao, absorvendo e retendo particulas solidas, entre os quais varios poluentes como os metais traco (RAINBOW, 1995). Os mexilhoes sao os organismos invertebrados mais estudados no mundo devido a caracteristicas como comportamento sessil, resistencia a alteracoes ambientais e importancia economica em varias regioes do planeta (RESGALLA et al., 2008).

No Brasil, os mexilhoes sao consumidos por grande parte da populacao de praticamente todas as regioes costeiras. O cultivo de algumas especies, atividade denominada mitilicultura, possui importancia economica expressiva em determinadas regioes brasileiras, como no estado de Santa Catarina. Dentre as diferentes especies de mexilhao, o Perna perna e o mais cultivado e mais importante da costa brasileira, pois atinge os maiores tamanhos, cresce relativamente rapido, possui alta taxa de producao, e nutritivo e facilmente coletado (BARAJ et al., 2003). A extensao da costa brasileira, a rapida industrializacao e o desenvolvimento economico nas regioes costeiras resultam na utilizacao dos estuarios para despejo de efluentes urbanos e industriais, que podem conter metais traco. Esse fato representa uma continua introducao desses poluentes em ambientes estuarinos e costeiros oriundos de rios, lixiviacao, escoamento das aguas de regioes industrializadas, com consequente contaminacao dos organismos marinhos e do ser humano que os consome.

Os metais, quando presentes em elevadas concentracoes, apresentam toxicidade tanto no organismo humano quanto no animal. Um exemplo marcante ocorreu, na decada de 50, em Minamata, no Japao, na qual toda uma geracao desenvolveu sintomas neurologicos e efeitos teratogenicos (FUJIKI & TAJIMA, 1992). Teores de metais abaixo do estabelecido por agencias internacionais tambem vem sendo associadas a problemas a saude humana. Baixas concentracoes de chumbo e cadmio foram associadas ao aumento da prevalencia de doenca arterial periferica na populacao americana (NAVAS-ACIEN et al., 2004). Diversos outros problemas de saude como perda de memoria, deficit de atencao, disturbios sensoriais, problemas nos sistemas motor, renal, cardiovascular, imune e reprodutivo, doenca de Alzheimer e de Parkinson, entre outros, vem sendo associados a baixas concentracoes de mercurio em alimentos (ZAHIR et al., 2005).

Determinar as concentracoes dos contaminantes nos organismos marinhos proporciona o conhecimento da biodisponibilidade dos metais traco nos diferentes ecossistemas, o que permite avaliar os riscos potenciais aos quais a populacao esta exposta, principalmente atraves da alimentacao (GALVAO et al., 2009). Portanto, o objetivo deste estudo foi tracar um perfil do grau de contaminacao por metais traco em mexilhoes Perna perna em diferentes sistemas aquaticos na costa sul e sudeste brasileira atraves da revisao de literatura. O estudo pontuou caracteristicas biologicas desses organismos que os tornam importantes no monitoramento e na prevencao de possiveis contaminacoes humanas por metais traco. O conhecimento reunido nesse estudo podera auxiliar na delimitacao de areas do litoral brasileiro com maior historico de contaminacao por elementos traco, fornecendo ferramentas que permitam uma avaliacao de risco e a criacao de estrategias de monitoramento e controle ambiental.

Metais traco no ambiente e programas de monitoramento

Os metais podem manter-se em solucao na agua, ser adsorvido no sedimento ou ser absorvido pelos organismos (GALVAO et al., 2009). Para monitoramento da poluicao aquatica, realiza-se frequentemente o monitoramento biologico, no qual sao utilizados organismos para a deteccao da biodisponibilidade de metais na coluna dagua e/ou na agua intersticial do sedimento. Os moluscos bivalves se destacam como biomonitores por serem capazes de acumular metais em altas concentracoes em seus tecidos, em ordens de grandeza mais elevadas que na agua do mar. Desde 1975, os moluscos bivalves sao os organismos marinhos propostos para programas de biomonitorizacao de poluicao por metais traco de aguas costeiras marinhas. Em 1986 foi iniciado o mais extenso programa de monitoramento ambiental continuo nos EUA denominado Mussel Watch Program. O programa utiliza varias especies de mexilhoes e ostras, alem de sedimento, para monitoramento das distribuicoes temporal e espacial de mais de 100 contaminantes quimicos nas regioes costeiras e estuarinas dos EUA (KIMBROUGH et al., 2008). Embora o programa Mussel Watch seja bem sucedido em sua proposta, com uma abrangencia territorial e de contaminantes, os locais monitorados regularmente no programa se limitam a America do Norte e Central e as especies de bivalves utilizadas nao ocorrem naturalmente na America Latina (GALVAO et al., 2009). No Brasil, a Companhia Ambiental do Estado de Sao Paulo (CETESB) possui um programa de monitoramento para as aguas costeiras de Sao Paulo de acordo com o uso pretendido. O programa e adequado a atividade desenvolvida, por meio de analises semestrais de agua e sedimento, mas nao abrange todo o territorio nacional.

A expansao do cultivo de moluscos bivalves permite associar as atividades de mitilicultura com monitoramento ambiental, gerando resultados de ecotoxicologia, que conferem certificado de qualidade ao pescado produzido (GALVAO et al., 2009). Desta forma, e baseado em experiencias como o programa Mussel Watch, torna-se necessario e possivel o desenvolvimento e a implementacao de um programa de biomonitoramento utilizando os moluscos bivalves que o Brasil produz em maior escala, o mexilhao P perna.

Utilizacao do mexilhao como biomonitor

Biomonitores sao organismos utilizados para quantificar a presenca de contaminantes no ambiente, atraves da bioacumulacao tecidual, informando sobre a variacao temporal e geografica na concentracao do contaminante no meio aquatico. Para que um organismo seja considerado biomonitor deve possuir habitos sedentarios, ocorrencia durante todo o ano no ambiente, facilidade de coleta, resistencia e tolerancia a variacoes de salinidade (RESGALLA JR. et al., 2008). Essa tolerancia se baseia na estrategia dos bivalves em formar granulos mineralizados nos espacos extracelular e intracelular e realizar a complexacao com metaloproteinas para a estocagem e/ou detoxificacao de metais (MARIGOMEZ et al., 2002).

No bivalve primitivo, as branquias possuiam funcao respiratoria e, em menor proporcao, funcao alimentar, coletando particulas do substrato depositado no sedimento, o que constituia uma via de exposicao direta as substancias toxicas. Conforme a evolucao da especie, um novo sistema branquial se desenvolveu, passando a filtrar as particulas em suspensao para alimentacao (GALVAO et al., 2009). Na coluna d'agua, os metais se associam as particulas em suspensao que se depositam no sedimento, que pode ser remobilizado disponibilizando os metais novamente para a coluna d'agua e, consequentemente para os organismos filtradores. Como os bivalves podem filtrar grandes quantidades de agua diariamente, podem acumular contaminantes inorganicos nos tecidos em concentracoes de 1.000 a 10.000 vezes maior do que as encontradas na fonte de exposicao (UNEP, 2004).

O grupo mais abundante de bivalves e o dos mexilhoes ou mitilideos, termo utilizado na denominacao de diferentes especies da familia Mytilidae. Os mexilhoes ocorrem em costoes rochosos (P perna) e em estuarios (Mytella falcata e M. guyanensis) e sao utilizados na alimentacao humana. Contudo, existem diferencas na magnitude de bioacumulacao pelos mexilhoes em diferentes regioes devido a quantidade de chuvas, tipos de ventos, correntes marinhas e temperatura entre regioes tropicais e subtropicais e as regioes temperadas.

Mexilhao Perna perna

O termo mexilhao e mais aplicado as especies empregadas na alimentacao humana e consumidas, geralmente, por populacoes que vivem em areas costeiras, sendo bastante popular em muitos paises do mundo. Na familia Mytilidae, existem diversas especies comestiveis e de importancia comercial, dentre as quais se destaca o genero Perna, sendo a especie Perna perna o maior mitilideo brasileiro (KLAPPENBACH, 1964), ocorrendo em abundancia no Brasil, do litoral do Espirito Santo ao litoral de Santa Catarina (WALLNER-KERSANACH & BIANCHINI, 2008).

O mexilhao P. perna e uma especie originaria do continente africano, de onde ha registro de fosseis de 115 mil anos. Provavelmente, os responsaveis pela dispersao do P. perna pelo mundo foram os cascos de navios mercantes (FERNANDES et al., 2008). No Brasil, tambem foram os grandes navios, podendo ter sido atraves da "agua de lastro" (HENRIQUES et al., 2001). Os mexilhoes se fixam em qualquer substrato rigido como concreto e estruturas de ferro formando "colonias" e, na natureza, se fixam aos costoes rochosos, formando "bancos naturais". A maior concentracao dos mexilhoes ocorre nas rochas localizadas na regiao entremares, ate um metro de profundidade, onde e mais intensa a fixacao de individuos jovens. Os bancos naturais sao um rico ecossistema, pois abrangem, alem dos mexilhoes, grande numero de organismos vegetais e animais, como cracas e pequenos caranguejos e algas (FERNANDES et al., 2008).

Pelo fato do mexilhao P. perna ser um dos mais abundantes na costa brasileira, e a especie amplamente utilizada como indicadora do grau de poluicao marinha. Alem disso, apresenta diversas caracteristicas desejaveis para um biomonitor, como tamanho razoavel para coleta e estudo, biologia e ecologia conhecidas e, sobretudo, capacidade de acumular contaminantes do ambiente em que vive (RESGALLA Jr. et al., 2008; WALLNER-KERSANACH & BIANCHINI, 2008). Entretanto, consideracoes descritas por ANANDRAJ et al. (2002) sao relevantes para compreender a dinamica de alguns elementos. Os autores observaram que o Hg e o Cu acumulados em mexilhoes, expostos a esses metais em tanques, foram rapidamente eliminados quando as condicoes de exposicao foram normalizadas. Este fato levou os autores a questionar a habilidade do P. perna em concentrar metais em ambientes onde os teores dos mesmos estejam proximos aos denominados "niveis de base" de metais do local. Embora sejam necessarios mais estudos, pode-se inferir que, para programas de biomonitoramento de metais traco, a utilizacao de mexilhoes P perna seja mais adequada em ambientes altamente contaminados.

Locais com historico de contaminacao por metais

A Baia de Guanabara, no estado do Rio de Janeiro, e o mais importante estuario do sudeste brasileiro com relacao a produtividade, e possui populacao estimada em cerca de 10 milhoes de pessoas, alem de mais de seis mil atividades industriais no entorno, dentre as quais 455 consideradas como prioritarias para o controle da poluicao pela Fundacao Estadual de Engenharia do Meio Ambiente, FEEMA (IBG, 2011). Sua bacia tem sido seriamente afetada pela grande quantidade de poluicao oriunda, principalmente, de refinarias e terminais de oleos, esgoto sem tratamento, aguas de despejo urbano (runoff urbano) e rural (COSTA et al., 2000). A regiao vem sendo degradada desde sua colonizacao, o que vem piorando consideravelmente devido ao desenvolvimento urbano e industrial. Em 1991, foi criado o Programa de Despoluicao da Baia de Guanabara (PDBG), com o objetivo de reduzir os indices de poluicao da regiao e a partir da assinatura do Convenio de Cooperacao Tecnica entre os governos brasileiro e japones. Tecnicos brasileiros da FEEMA e especialistas japoneses, coordenados pela JICA--Japan International Cooperation Agency (Agencia Japonesa de Cooperacao Internacional) se basearam na experiencia bem sucedida de despoluicao da Baia de Toquio e elaboraram o Plano Diretor JICA (BITTENCOURT et al., 2006). A poluicao na Baia de Guanabara se manteve estavel por mais de 15 anos, periodo no qual a baia recebia efluentes contendo metais, como o mercurio oriundo de uma industria de cloro-alcali nas margens de um de seus tributarios (FRANCIONE et al., 2004). Embora esta industria tenha modificado o processo de producao, a baia continuou a receber aguas de diversos rios que atravessam areas de intensa densidade populacional e de estados altamente industrializados, o que mantem a preocupacao permanente sobre a contaminacao da baia por metais traco (COSTA et al., 2000). Nesse ecossistema, foram encontradas baixas concentracoes de metilHg ao longo da cadeia trofica, o que foi associado ao estado hipereutrofico da baia e a grande quantidade de material particulado em suspensao, ao qual o metilHg tende a adsorver-se ou a se complexar fortemente. Desta forma, os lancamentos desse composto toxico sao diluidos no meio, com consequente reducao do tempo de residencia na coluna d'agua e da disponibilidade biologica (KERHIG et al., 2011). Uma das acoes necessarias para a revitalizacao das aguas da Baia de Guanabara e a dragagem dos canais, contaminados com metais traco, compostos organicos e microrganismos patogenicos (BARBOSA et al., 2004). No entanto, o destino do rejeito de dragagem constitui uma grande preocupacao, pois os contaminantes seriam transferidos para outro local, agravando o problema da poluicao ambiental. Por este motivo, as operacoes de dragagem sao enquadradas como atividade potencialmente poluidora, conforme as Resolucoes CONAMA no 237/97, que preve seu licenciamento ambiental, e no 344/04, na qual a atividade e tratada especificamente.

Outro local no estado do Rio de Janeiro que representa um criadouro natural para pescado e a Baia de Sepetiba. Historicamente, a regiao constitui uma importante area de pesca com suporte economico e social, onde muitos estudos vem sendo realizados desde a decada de 70, o que permite uma avaliacao das mudancas historicas na concentracao dos metais no local. A baia de Sepetiba alberga pequenos estaleiros e dois grandes portos, o Porto de Sepetiba e o de Mangaratiba. Pelo Porto de Sepetiba sao transportadas grandes quantidades de minerio de ferro, concentrando a carga da costa sudeste da America do Sul. Na decada de 90, as atividades de reforma e ampliacao das instalacoes do porto contribuiram com a poluicao do local. A dragagem de sedimentos de um canal para permitir a passagem de grandes navios resultou na remobilizacao de metais depositados no sedimento da baia, disponibilizandoos para a agua e a biota (SEMADS, 2001).

A baia de Sepetiba possui um historico de contaminacao por Cd e Zn oriundos de industrias metalurgicas de fundicao de Zn, principalmente da Companhia Mercantil e Industrial Inga, instalada no inicio dos anos 60. Em uma das etapas do processo de producao quimica, a industria de Zn utilizava o trioxido de arsenio ([As.sub.2][O.sub.3]) para a purificacao do minerio, e este composto alcancava a agua pelo despejo industrial e dispersao atmosferica. Todas as formas de As tendem a se acumular no sedimento de fundo, podendo se remobilizar por varios processos e alcancar a biota aquatica, como os mexilhoes (MAGALHAES et al., 2001). Embora a Cia. Inga tenha sido fechada em 1996, existiam na mesma area, cerca de 400 industrias da mesma natureza (SEMADS, 2001), e o cenario poluidor do parque industrial permaneceu o mesmo entre os anos 80 e 90. O fechamento dessa grande industria refletiu em mudancas nas emissoes de Cd e Zn, reduzindo as emissoes de Cd pela metade e significativamente as de Zn (LACERDA & MOLISANI, 2006). Porem, foram encontrados niveis de Zn em ostras da baia tres vezes mais altos que os estabelecidos pela legislacao internacional, confirmando a contaminacao ambiental da baia com este elemento (CARNEIRO et al., 2011). O risco de contaminacao na baia aumenta em periodos de chuvas fortes, devido a possibilidade de rompimento dos diques de contencao dos rejeitos, como ocorreu em 1996, liberando toneladas de lama toxica com altas concentracoes de Zn, Cd, As e Pb (MAGALHAES et al., 2001). Ate o fechamento da Inga Mercantil, a FEEMA (2011) estimou a liberacao de cerca de dez milhoes de toneladas de Cd e Zn para a baia de Sepetiba. Apesar das providencias tomadas pela industria na ocasiao dos vazamentos, o cenario requer atencao das autoridades governamentais, pois o passivo ambiental de residuos toxicos representa uma ameaca ao equilibrio ecologico da regiao (FEEMA, 2011).

Estudos da presenca de metais traco em Perna perna Foram pesquisados e citados artigos que abordaram a presenca de metais traco, sobretudo em mexilhoes P perna no Brasil, principalmente nos ambientes mais impactados pela poluicao urbana e industrial. O resumo dos artigos utilizados para a presente discussao pode ser observado na tabela 1.

COSTA et al. (2000) investigaram os niveis de Hg em mexilhoes P. perna da Baia de Guanabara na Urca e na Marina da Gloria, em intervalos de 10 anos (1988 a 1998). A Urca e uma area com entrada de aguas limpas de onde os mexilhoes foram retirados. As aguas da Marina da Gloria sofrem influencia direta da descarga de galerias pluviais provenientes do sul da cidade do Rio de Janeiro, o que acarretou aumento significativo dos niveis de Hg deste local no intervalo de 10 anos proposto no estudo. Por outro lado, os autores nao verificaram diferenca significativa entre os niveis de Hg nos mexilhoes coletados na Urca, no mesmo intervalo de tempo, justificando a influencia direta de aguas oceanicas na contaminacao do ambiente marinho e, consequentemente, na biota aquatica local.

A concentracao de Cu, Cr, Zn e Cd em mexilhoes P. perna foi estudada pelos mesmos autores em toda a costa do Rio de Janeiro, incluindo as baias de Guanabara e Sepetiba. Foram encontrados niveis baixos de todos os metais, exceto o Cr em alguns locais, que excedeu o valor permitido pela legislacao brasileira de 0,1mg [g.sup.-1] para consumo humano. Em alguns locais da baia de Guanabara, somente tres amostras apresentaram valores de Zn abaixo do limite maximo permitido. No caso do Cd, a expectativa dos autores para areas com historico de contaminacao pela presenca de fontes poluidoras (Baia de Sepetiba e Barra de Guaratiba) apontava para possiveis altos niveis desse elemento. Todavia, essa tendencia ocorreu em locais teoricamente menos contaminados, como Ilha Grande e Arraial do Cabo, em fazendas de cultivo de mexilhoes. Como nao ha fontes poluidoras conhecidas no local, os autores atribuiram os altos teores de Cd a possivel contaminacao do alimento ou de materiais utilizados no cultivo dos organismos e a provavel influencia de material contaminado transportado pelas correntes marinhas oriundas do nordeste da Baia de Sepetiba.

Outra regiao poluida com metais traco e o Norte Fluminense do Rio de Janeiro, na cidade de Macae, conhecida por produzir cerca de 72% do petroleo do pais. Segundo dados de 2010 do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (2011), a cidade possui quase 207 mil habitantes, o que contribui para a entrada de metais para o sistema via esgoto urbano, alem de possuir uma intensa atividade portuaria. As concentracoes de varios elementos (Al, Fe, Mn, Cd, Cr, Cu, Ni, Pb e Zn) foram investigadas em mexilhoes P perna da Ilha de Santana, situada proxima a uma regiao portuaria de grande movimento em Macae. Os teores de metais encontrados sugeriram ausencia de contaminacao na regiao, exceto para o

Cu, cujos valores foram quatro vezes superiores ao maximo permitido pela legislacao brasileira. As altas concentracoes de Al e Fe encontradas foram atribuidas a presenca de navios na regiao que abastecem as plataformas de petroleo da Bacia de Campos, a maior produtora de petroleo no Brasil, contribuindo com a entrada de metais proveniente da oxidacao dos cascos dos navios (AMARAL et al., 2005).

Um estudo com ostras (Crassostrea rhizophorae) e mexilhoes (P. perna) na costa do Rio de Janeiro foi realizado baseado em um conceito denominado biomonitoramento ativo, tipo de monitoramento que visa diminuir as variacoes naturais, como a diferenca de tamanho entre exemplares (AMARAL et al., 2005). Estudos baseados neste conceito consistem em transferir organismos marinhos de areas nao contaminadas, geralmente fazendas de mexilhoes, para areas poluidas, ou viceversa, e apos determinado periodo de exposicao, retorno ao ambiente de origem e posterior analise (GALVAO et al., 2009). Seguindo esse conceito, os autores supracitados verificaram a habilidade de ostras e mexilhoes em bioacumular e depurar Zn e Cd em condicoes naturais. Organismos de uma fazenda em Santa Catarina foram transplantados (1) para a Baia de Sepetiba, regiao contaminada por metais traco e (2) para Cabo Frio, regiao sem registros de contaminacao ambiental por metais, e determinaram as concentracoes de Zn e Cd durante tres meses a cada 30 dias. Os autores verificaram pouca capacidade de depuracao ou depuracao incompleta dos organismos, apesar de observarem significativa reducao do Zn entre as amostras durante o periodo do estudo, sugerindo que os metais presentes nos granulos sao mantidos por mais tempo nos tecidos.

Em outro estado do sudeste brasileiro, foram analisadas as concentracoes de Cd, Cu, Cr, Pb e Zn em P. perna coletados na baia de Ubatuba, em diferentes meses. A cidade de Ubatuba esta situada no estado de Sao Paulo e recebe efluentes industriais oriundos da industria de construcao naval e de conservas de peixes. A regiao tambem e ocupada por turistas em periodo de ferias, o que aumenta o fluxo de materia organica no esgoto domestico, aumentando o impacto ambiental de poluicao das aguas e, consequentemente, dos mexilhoes. Os maiores valores de Pb foram observados durante os meses de ferias, sugerindo a origem deste elemento de queima de combustiveis fosseis principalmente de barcos de pesca e de turistas (AVELAR et al., 2000). Ainda no estado de Sao Paulo, foi realizado um estudo em mexilhoes P. perna na regiao costeira por biomonitoramento ativo. Os autores transplantaram mexilhoes da praia de Cocanha (Caraguacatuba) para regioes proximas ao despejo de efluentes industriais e domesticos, e determinaram as concentracoes de Cd, Pb, Hg, As, Ca, Co, Cr, Fe, Na, Se e Zn apos tres meses em cada estacao do ano. Apos este periodo, todos os elementos estudados se apresentaram em maiores concentracoes. (CATHARINO et al., 2008).

Na regiao sul do Brasil, foram estudadas as concentracoes de Hg, Mn, Cr, Cu, Cd, Pb, Fe e Zn em P perna na costa do Rio Grande do Sul, em locais pouco habitados e considerados livres de contaminacao. Apesar disso, os autores compararam mexilhoes de areas distantes e proximas de areas urbanas. Considerando as duas epocas do ano em que as amostras foram coletadas, verao e inverno, os autores encontraram diferenca significativa para Hg, Cd e Pb. Alem disso, encontraram teores de Cu e destes mesmos elementos discretamente aumentados em locais proximo as areas urbanas na epoca do verao, atribuidos ao maior impacto antropogencio durante esta epoca do ano, quando a frequencia dos turistas e marcante (BARAJ et al., 2003). Embora os teores de As, Cd e Hg tenham permanecido baixos, houve um aumento de Cd, Fe, Zn, Pb, Cu e Mn quando comparados com dados de metais em P Perna determinados no mesmo local 10 anos antes (Hg e Cr nao foram pesquisados anteriormente para fins de comparacao) (FURLEY, 1993). Este fato demonstra a necessidade do monitoramento e do tratamento de esgoto nas areas urbanas com a finalidade de prevenir aumento de contaminantes nesta e em outras regioes costeiras.

A qualidade de mexilhoes P perna foi investigada no estado de maior producao desses organismos no Brasil, Santa Catarina (CURTIUS et al., 2003). A concentracao dos elementos As, Ag, Cr, Mn, Ni Cd, Cu, Pb e Se encontrava-se abaixo dos limites toleraveis pela FDA e foram semelhantes aos niveis descritos em outros programas de monitoramento internacionais. Entretanto, os autores ressaltam que deve ser realizada uma avaliacao complementar em amostras de sedimentos das areas de cultivo. Em locais com pouca movimentacao das aguas, a avaliacao do sedimento se justifica basicamente devido a (1) mais de 50% da producao primaria sedimentar, (2) maior parte da materia particulada organica ser mineralizada no sedimento, e (3) os produtos de sua decomposicao retornarem a coluna d'agua, ficando disponiveis novamente aos moluscos. Estudos em lagos marroquinos confirmam esta dinamica dos metais e a interacao entre mexilhoes e sedimento, onde houve uma correlacao positiva entre as altas concentracoes de metais traco nos bivalves estudados dos lagos e as do sedimento local (MAANAN, 2008).

CONCLUSAO

Diante da vasta extensao territorial da costa brasileira e da ampla utilizacao de mexilhoes P. perna na alimentacao humana, torna-se urgente elaborar e iniciar programas de biomonitoramento em ambientes aquaticos brasileiros a fim de adquirir dados que permitam interpretacao adequada para um panorama de contaminacao e tracar metas de controle de poluicao em locais impactados.

Existe carencia de dados cientificos relacionados aos teores de metais traco em mexilhoes P. perna, molusco que ocorre em abundancia no sul e sudeste, regioes costeiras mais populosas do Brasil. Isso demonstra a necessidade de mais estudos com este organismo filtrador, que pode ser utilizado como biomonitor de diversas regioes, com diferentes niveis de contaminacao por metais, de modo a salvaguardar a saude dos consumidores de mexilhao.

Regioes costeiras com conhecida contaminacao por metais traco oriundos de fontes industriais e efluentes urbanos, como as baias de Guanabara e Sepetiba, merecem destaque em acoes para controle de poluicao frente ao historico de contaminacao e a grande importancia desses locais para a pesca, tanto como subsistencia como para fornecimento de alimento para a populacao, o que pode se tornar um grave risco a saude publica.

REFERENCIAS

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Micheli da Silva Ferreira (I) * Eliane Teixeira Marsico (I) Carlos Adam Conte Junior (I) Aguinaldo Nepomuceno Marques Junior (II) Sergio Borges Mano (I) Sergio Carmona de Sao Clemente (I)

(I) Laboratorio de Controle Fisico-Quimico, Departamento de Tecnologia de Alimentos, Faculdade de Veterinaria, Universidade Federal Fluminense (UFF), Rua Vital Brazil Filho, 64, 24230-340, Niteroi, RJ, Brasil. E-mail: micheliferreira@hotmail.com. * Autor para correspondencia.

(II) Departamento de Biologia Marinha, Instituto de Biologia, UFF, Niteroi, RJ, Brasil.

Recebido 13.01.12 Aprovado 05.09.12 Devolvido pelo autor 28.03.13 CR-6591
Tabela 1--Estudos sobre metais traco em mexilhoes Perna Perna e
outros organismos aquaticos nas regioes sul e sudeste do Brasil,
com respectivos locais, elementos e autores.

Local                  Estado        Elemento (s)

Baia de Guanabara      RJ       metilHg

Baia de Sepetiba       RJ       Cr,Mn, Fe, Ni, Cu,
                                Zn e Se

Baia de Guanabara      RJ       Hg

Baia de Sepetiba       RJ       Zn e Cd

Cabo Frio              RJ       Zn e Cd

Baia de Ubatuba        SP       Cd, Cu, Cr,
                                Pb e Zn

Diferentes regioes     SP       Cd, Pb, Hg, As, Ca, Co,
costeiras                       Cr, Fe, Na, Se e Zn

Diferentes regioes     RS       Hg, Mn, Cr, Cu, Cd,
costeiras                       Pb, Fe e Zn

Diferentes regioes     SC       As, Ag, Cr, Mn, Ni
costeiras                       Cd, Cu, Pb e Se

Diferentes regioes     RJ       Cu, Zn, Cd e Cr
costeiras

Diferentes regioes     RS       Cd, Zn, Fe, Cu,
costeiras                       Pb e Mn

Baia de Sepetiba       RJ       Cd e Zn

Local                        Organismo (s)            Autor (es)

Baia de Guanabara      Organismos planctonicos,     KERHIG et
                       peixes e mexilhoes           al., 2011
                       Perna perna

Baia de Sepetiba       Ostras (Crassostrea          CARNEIRO et
                       rhizophorae) e peixes        al., 2011

Baia de Guanabara      Mexilhoes Perna perna        COSTA et al.,
                                                    2000 dados de
                                                    1988 e 1998

Baia de Sepetiba       Ostras (Crassostrea          AMARAL et
                       rhizophorae) e mexilhoes     al., 2005
                       (Perna perna)

Cabo Frio              Ostras (Crassostrea          AMARAL et
                       rhizophorae) e mexilhoes     al., 2005
                       (Perna perna)

Baia de Ubatuba        Mexilhoes (Perna perna)      AVELAR et
                                                    al., 2000

Diferentes regioes     Mexilhoes (Perna perna)      CATHARINO et
costeiras                                           al., 2008

Diferentes regioes     Mexilhoes (Perna perna)      BARAJ et
costeiras                                           al., 2003

Diferentes regioes     Ostra (Crassostrea gigas)    CURTIUS et
costeiras              e Mexilhoes (Perna perna)    al., 2003

Diferentes regioes                                  FRANCIONI et
costeiras                                           al., 2004

Diferentes regioes     Mexilhoes (Perna perna)      FURLEY, 1993
costeiras

Baia de Sepetiba       Ostras (Crassostrea          LACERDA e
                       rhizophorae)                 MOLISANI, 2006
                                                   (ultimas tres
                                                    decadas)
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Author:Ferreira, Micheli da Silva; Marisco, Eliane Teixeira; Conte, Carlos Adam, Jr.; Marques, Aguinaldo Ne
Publication:Ciencia Rural
Date:Jun 1, 2013
Words:5859
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