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Trabalhadores Urbanos, Estudantes e Guerrilheiros escrevem a Historia a Contrapelo na Sociedade Brasileira de 1968/Urban workers, students, and guerrillas write history against the grain in the Brazilian society of 1968/Trabajadores Urbanos, Estudiantes y Guerrilleros escriben la Historia a contrapelo en la Sociedad Brasilena de 1968.

Neste ensaio se analisa a presenca dos estudantes, operarios e guerrilheiros em alguns episodios politicos registrados a partir de 1968 no Brasil, partindo-se de uma reflexao sobre a estreita relacao que esses personagens sociais mantiveram com a luta armada e a da importancia da heranca politica e organizativa que propiciaram aos movimentos sociais que irromperam desde a segunda metade da decada de 1970. A presenca desses movimentos armados e o seu carater pedagogico como parte indissoluvel da historia dos movimentos sociais permite entende-los como aqueles que tomam uma direcao inesperada, contraria a edificacao da ordem e dos mecanismos de dominacao que sao proprios da sociedade capitalista; mas que ousam virar o mundo de ponta cabeca e semear no solo fertil da historia a utopia de uma sociedade sem explorados, nem exploradores.

Palavras-chave: movimentos sociais; luta armada; historia dos movimentos sociai; decada de 1960; movimentos sociais e resistencia ao regime militar.

This article analyzes the presence of students, workers, and guerrillas in some political episodes documented since 1968 in Brazil. Based on a reflection about the close relationship of these social characters with the armed struggle and the importance of the political and organizational inheritance that fostered the social movements from the second half of the 1970s. The presence of these armed movements and their pedagogical nature, as an indivisible part of the history of social movements, allows us to understand them as agents of unexpected changes, contrary to the setlement of order and the mechanisms of domination, typical characteristics of a capitalist society. These movements dare to turn the world from head to toe and sow, in the fertile soil of history, the utopia of a society neither exploited nor with exploiters.

Keywords: social movements; armed struggle; history of social movements; 1960s, social movements; resistance to the military regime.

En este ensayo se analiza la presencia de los estudiantes, obreros y guerrilleros en algunos episodios politicos registrados a partir de 1968 en Brasil, partiendo de una reflexion sobre la estrecha relacion que estos personajes sociales mantuvieron con la lucha armada y la de la importancia de la herencia politica y organizativa que propiciaron a los movimientos sociales que irrumpieron desde la segunda mitad de la decada de 1970. La presencia de esos movimientos armados y su caracter pedagogico como parte indisoluble de la historia de los movimientos sociales permite entenderlos como aquellos que toman una direccion inesperada contraria a la edificacion del orden y de los mecanismos de dominacion que son propios de la sociedad capitalista; pero que se atreven a girar el mundo de punta cabeza y sembrar en el suelo fertil de la historia la utopia de una sociedad sin explotar, ni exploradores.

Palabras clave: movimientos sociales; lucha armada, historia de los movimientos sociales; la decada de 1960, movimientos sociales; resistencia al regimen militar.

INTRODUCAO

O intuito desse ensaio de interpretacao historica e verificar alguns acontecimentos que se produziram no Brasil em 1968 e as suas repercussoes politicas e sociais. Partimos do pressuposto de que muitos desses episodios marcaram a historia brasileira contemporanea na sua inteireza, mas, ao procurarmos resgatar sua memoria objetivamos refetir sobre suas repercussoes na esfera dos movimentos sociais e o papel pedagogico que teriam, ou, nao, desempenhando em sua urdidura e desenvolvimento.

Aproximadamente 50 anos depois vivemos uma aparente anestesia dos movimentos sociais e o auge de um ciclo conservador oposto pelo vertice daquele instante que se prometia como a primavera dos povos e a possibilidade das utopias e sonhos de mudancas radicais se realizassem em todo o mundo.

Em muitos paises do mundo, 1968 trouxe a possibilidade historica da ruptura com os valores e mecanismos da reproducao social proprios do capitalismo e os seus reflexos transcenderam as fronteiras nacionais e simultaneamente atingiram aos mais variados paises. Na Europa, nos Estados Unidos, na America

Latina e no Brasil tambem os confitos tornaram-se visiveis nas manifiestacoes do movimento negro, nos protestos contra a Guerra do Vietna, contra a presenca sovietica do leste Europeu; como tambem contra as inumeras ditaduras militares que varriam os paises latino-americanos, alem de um sem numero de fenomenos politicos, culturais e sociais que continuam ecoando ate hoje em nossas vidas.

Em 1968, nos Estados Unidos da America, sao assassinados Martin Luther King e Robert Kennedy, as contradicoes explodiam embaladas pelos protestos negros e contra a Guerra do Vietna, mas o conservadorismo politico se consolidou naquele pais que hoje detem o maior e insuperavel numero de armas registradas por habitantes e, assim, na pratica, manifiestam uma predilecao pela violencia sem comparacao no mundo.

Num outro contexto, dimensionando a importancia historica da Comuna de Paris Karl Marx escreveu "ha dias que valem por seculos na historia dos povos", assim, parafraseando esse autor podemos dizer tambem que existem anos que marcam profundamente a historia, esse e o caso de 1968.

Naqueles dias, no Brasil, muitas organizacoes politicas, operarias e estudantis de esquerda que haviam rompido com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), com a vida institucional, por conta das cassacoes, perseguicoes do Estado ou mesmo pelo afastamento de algumas correntes mais radicais do pensamento catolico, como e caso da Acao Popular (AP), optaram pela luta armada contra a ditadura civil-militar instalada no pais. Opcao essa que trouxe a morte tragica, o desaparecimento, a prisao arbitraria e a tortura para muitos que ousaram enfrentar a sanha autoritaria da ditadura militar, entao, vigente no pais (2).

Em 1968 tivemos nas cidades de Osasco (SP) e de Contagem (MG) a emergencia de um novo sindicalismo, fortemente implantando nas comissoes de fabricas, rompendo, na pratica, com o Sindicato de Estado vigente, com uma capacidade de mobilizacao politica e autonomia da classe operaria, ate entao inusitado, e oposto pelo vertice do sindicalismo servil e disciplinado que havia se constituido durante o Governo de Getulio Vargas (1930-1945).

Nao e nenhum exagero se afirmar que esse tipo de organizacao da classe trabalhadora e crucial para se entender a genese da Central Unica dos Trabalhadores (CUT) e do Partido dos Trabalhadores (PT) que hoje assumem um papel destacado no cenario politico e sindical nacional. Tambem importantes setores da Igreja Catolica passaram para a oposicao ao regime militar, como os partidos politicos, as organizacoes estudantis, operarias, camponesas e mesmo muitos intelectuais estavam proscritos, passaram dar voz aos perseguidos politicos, aos trabalhadores explorados, aos injusticados que a ditadura produzia todos os dias. Suas criticas, contudo, iam muito alem dos episodios que se produziam no Brasil e questionavam o proprio capitalismo e a sua essencia de exploracao. Suas criticas e diagnosticos sociais, reflexoes politicas e filosoficas sao a base do que convencionamos chamar de Teologia da Libertacao.

Praticamente 50 anos depois e possivel indagar: se produziu um tempo necessario para possibilitar uma reflexao critica sobre os acontecimentos e as repercussoes politicas e sociais daquele ano que para muitos iria mudar o mundo e o Brasil?

1. Dos guerrilheiros, suas organizacoes e formas de compreender a realidade brasileira.

Foi a partir de 1968 que um sem numero de organizacoes de esquerda que havia rompido com a linha pacifsta do Partido Comunista Brasileiro (PCB) ou mesmo algumas correntes mais radicais do pensamento catolico como e o caso na Acao Popular (AP) optaram pela luta armada. Mas, antes disso, os estudantes assumiram um lugar central entre os que se opunham ao regime autoritario.

Questionando a interferencia estrangeira na educacao, na economia e nos rumos da vida patria, protestavam nas ruas contra o famigerado Acordo MEC-USAID, o questionamento da presenca imperialista no pais, materializada na politica do FMI e o descompromisso entreguista de alguns setores das elites nacionais. Logo, nao se constituiu por acaso que muitos militantes do movimento estudantil assumiriam um papel destacado na opcao de luta armada contra a ditadura civil-militar que havia tomado de assalto o poder em 1964.

Nos primordios da decada de 1960, a universidade no Brasil era considerada um territorio livre e os debates que se produziam nos campi reivindicavam a revolucao e a propria questao da liberdade e autonomia universitaria articulavase com os projetos da nova sociedade que se buscava alcancar. Alimentado, assim, os sonhos de toda uma geracao de estudantes que parecia disposta a mudar o mundo com as suas proprias maos!

Entre esses jovens estava o estudante secundarista Edson Luis Lima Souto. Morto em pleno restaurante universitario do Calabouco, no Rio de Janeiro, transformou-se num marco de profunda indignacao e consternacao em todo pais. O seu trucidamento desnudava o carater arbitrario, a violencia de Estado patrocinada pelo regime militar e a efetivacao dos mecanismos coercitivos de controle social principalmente tornados visiveis com a edicao dos Atos Institucionais (AI), entre eles o AI-5, em 13 de dezembro de 1968.

A indignacao social causada pelo assassinato de Edson Luis, com um tiro no coracao, desferido pelo revolver do tambem jovem aspirante da PM Aloisio Raposo, espalhou-se rapidamente e levou uma multidao ao seu velorio que foi realizado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Os desdobramentos desse funeral podem ser considerados uma das primeiras manifiestacoes massivas contra o regime militar e sua pratica repressiva e cerceamento das liberdades civis.

Iniciava-se, assim, um curto ciclo de manifiestacoes pacificas contra a ditadura militar e, logo depois, se produziu uma das maiores manifiestacoes realizadas, ate entao, contra a escalada de violencia que atingia os partidos politicos, a imprensa, os intelectuais e outros representantes da sociedade civil: a Passeata dos Cem mil.

A busca de uma saida pacifica para crise politica e que evitasse o confronto mostrou-se infrutifera, pois apenas sete dias depois do cortejo funebre de Edson Luis, em plena escadaria da Igreja da Candelaria, os cavalarianos da Policia Militar desciam o porrete nas costas dos que haviam acabado de participar da missa em memoria do estudante morto.

A partir dai verifcou-se a escalada da violencia policial e militar pelas ruas de todo pais, a opcao pela guerrilha urbana e o desfecho que o AI-5 produziu, ou seja, a implantacao de uma ditadura total, nao foi mera coincidencia. Ademais, diante da inviabilidade do regime militar suportar uma democratizacao estrutural do Estado, o que nao permitiria levar adiante os seus projetos economicos de integrar o Brasil nos canones da economia transnacional e do capitalismo internacional. Enfm, para os arautos do regime militar, como o ministro da Justica, Gama e Silva, nao havia saida dentro da ordem.

A perspectiva da guerrilha enquanto concepcao de enfrentamento armado contra a ditadura militar foi adotada por um sem numero de agrupamentos politicos que atuando na clandestinidade realizaram acoes armadas em diferentes regioes e estados do pais. Entre esses grupos, se notabilizaram a Acao Libertadora Nacional (ALN), comandada pelo ex-deputado federal e exmembro da direcao executiva do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Carlos Marighella, e a Vanguarda Popular Revolucionaria (VPR), liderada pelo excapitao do Exercito Brasileiro Carlos Lamarca.

Outro agrupamento formado com militantes politicos vinculados ao Partido Comunista do Brasil (PC do B), partindo de uma concepcao maoista de instalacao de focos de intervencao politica no meio rural, organizou no inicio da decada de 1970 um movimento guerrilheiro no sul do Para. Instalados numa inospita regiao do Araguaia, contando com um incipiente apoio da populacao local, algumas dezenas de guerrilheiros, vinculados ao partido, estabeleceram o que o general Hugo Abreu, comandante das tropas enviadas para sufocar o movimento revolucionario, classifcou como "o mais importante movimento armado ja ocorrido no Brasil rural".

Exageros a parte! Mas que muitas vezes foram utilizados para se justificar o exterminio dos membros desses grupos, durante o Governo do General Medici (1969-1974) e, em menor intensidade, no Governo Geisel (1974-1979), os agrupamentos identificados com a luta armada no campo e na cidade foram sendo localizados, perseguidos e eliminados, com a utilizacao de uma enorme mobilizacao de tropas e do aparelho repressivo do Estado.

No sul do Para, as forcas repressivas mobilizaram um impressionante contingente militar envolvendo, aproximadamente, vinte mil soldados para debelarem a aventura guerrilheira de algumas dezenas dos militantes do PC do B. O resultado desta ofensiva foi o assassinato de pelo menos 61 militantes das forcas guerrilheiras que atuavam no Araguaia. Entretanto, a repressao desencadeada contra os grupos que optaram pela oposicao armada ao regime militar acabou, tambem, atingindo um sem numero de pessoas que nao estavam envolvidas diretamente com a luta armada, muitas das quais, alem de presas de forma violenta e arbitraria, foram torturadas, mortas e enterradas em sepulturas clandestinas.

Alias, na luta contra as hostes repressivas do Estado militarizado foram mortas mais de uma centena de pessoas e outras tantas sao contadas como desaparecidas. Desaparecido e um eufemismo que se utiliza para se falar de alguns brasileiros que foram perseguidos, presos e trucidados ilegalmente pelo regime militar, e que nao tem, nem mesmo, o direito a uma sepultura digna e sobre a sua propria morte!

Tambem os acontecimentos do Primeiro de Maio de 1968, momento no qual alguns setores organizados do movimento operario e estudantes ligados aos grupos de esquerda expulsaram o governador e incendiaram o palanque instalado na Praca da Se, as greves operarias em Osasco e Contagem e seus desdobramentos politicos refetiam uma perspectiva foquista de luta revolucionaria. Uma concepcao que apostava na irradiacao da luta revolucionaria, que iria assim contagiando diferentes setores da sociedade, apos sua instalacao em pontos "estrategicos" do pais. Mas essa caracterizacao nao era exclusiva dessa ou daquela organizacao, elas formavam o pano de fundo das analises elaboradas pela quase totalidade das organizacoes de esquerda que optou pela luta armada contra o regime e que constituiram durante as decadas de 1960 e 1970 uma verdadeira constelacao de agrupamentos adeptos dessa tatica de atuacao politica.

2. As raizes dos movimentos de Osasco e Contagem

Os protestos contra os baixos niveis salariais e contra a politica de contencao das liberdades democraticas fzeram emergir as greves de Osasco e Contagem e as haveriam de transformar em "simbolos" da luta contra a ditadura militar. As raizes desses movimentos podem ser buscadas ainda em 1965 quando prosperou nas periferias de Sao Paulo e Belo Horizonte, grupos de base e estudantes universitarios que entao realizavam um intenso trabalho de agitacao social e propaganda politica em torno das pessimas condicoes de trabalho, arrocho dos salarios e do alto custo de vida.

Em 1967, grupos de militantes sindicais formaram comissoes de "oposicao sindical", encarregadas de atuar nos sindicatos para recuperar os cargos eletivos ocupados por interventores mandatarios do governo ditatorial. Realizaram-se regularmente campanhas eleitorais para dotar as estruturas corporativas de alguma flexibilidade e legitimidade. A oposicao ocupou com estas campanhas o limitado espaco disponivel mobilizando os trabalhadores e valendo-se da oportunidade para elevar o nivel de consciencia dos problemas sociais e economicos que afetavam seus salarios e suas vidas.

As contradicoes da politica de "renovacao sindical" tornaram-se manifiestas nas eleicoes realizadas em 1967, no Sindicato dos Metalurgicos de Contagem, cidade operaria localizada nos arredores de Belo Horizonte, exatamente porque as oposicoes sindicais, que era baseada na representacao dos trabalhadores que atuavam no interior das fabricas, organizaram uma chapa para concorrer com os titulares oficiais.

O programa da oposicao continha uma analise da democratizacao interna da estrutura sindical, e preconizava claramente a direta participacao dos trabalhadores na administracao do sindicato. Tambem criticava a politica de contencao salarial do governo e a instituicao do Fundo de garantia por tempo de servico (FGTS) em detrimento da estabilidade no emprego arduamente conquistada pelos trabalhadores.

Na cidade paulista de Osasco a maioria dos grupos de base que atuavam no movimento sindical era ligada as pastorais operarias, ou as organizacoes politicas de esquerda que estavam proximas aos movimentos estudantis e de massa. Isto queria dizer politicamente que as maiorias desses militantes estavam presentes nos bairros e nas fabricas e frequentavam as assembleias sem levar em consideracao a linha sindical do governo, aplicada felmente pelos dirigentes sindicais da epoca.

Dessa sorte, no campo oposicionista o que se podia verificar eram esbocos de uma orientacao politica que apontava para o rompimento com a tradicao clientelista, buscando assumir uma postura de rebeldia frente ao Ministerio do Trabalho e aos dirigentes sindicais "oficiais" que sempre procuravam conciliar os interesses dos operarios com os dos governos e do patronato.

Embora existissem semelhancas nos movimentos deflagrados pelos trabalhadores metalurgicos de Osasco e Contagem, o contexto politico e sindical tambem tinha suas diferencas. (3)

A violenta greve que irrompeu em Osasco no ano de 1968, pode ser compreendida como um produto da ruptura ideologica e organizativa com as concepcoes do sindicalismo de Estado, pois sua origem e desenvolvimento buscavam se estruturar atraves de um incansavel trabalho de organizacao molecular e de permanente politizacao dos setores de base; que se colocavam em oposicao direta a politica salarial vigente do governo militar.

Criticavam tambem as concepcoes corporativistas do sindicato, seu carater verticalizado e o contumaz atrelamento ao Estado e sua politica de controle social, o que levou os dirigentes sindicais de Osasco, naqueles dias, a se afastarem tanto das propostas "conciliadoras" emanadas do MIA, quanto de quaisquer perspectivas de se associarem aos partidarios daqueles que preconizavam a necessidade de se constituir uma frente ampla e democratica para se combater os militares.

Para os metalurgicos de Osasco nao se tratava apenas de conquistar melhores aumentos na epoca do dissidio, tambem "existia, (...), uma questao politica":
[...] nossa visao naquela epoca. Estavamos ligados ao movimento de
massas, mas bastante comprometidos com as posicoes de uma ruptura com o
reformismo e de luta armada que a esquerda comecava a levantar.
Partiamos da mesma analise de conjuntura que o restante da esquerda
estava fazendo: o governo esta em crise, ele nao tem saida, o problema
e agucar o confito, transformar a crise politica em crise militar. Dai
vinha nossa concepcao insurrecionalista de greve: levar a massa,
atraves de uma radicalizacao crescente, a um confronto com as forcas de
repressao. Era a visao militarista aplicada ao movimento de massas.
Correspondia a uma determinada concepcao do processo revolucionario (4).


Osasco e Contagem como experiencias de "um novo sindicalismo" apontavam uma tentativa de ruptura com a tradicao de controle burocratico e de manipulacao politica muito presente na historia do movimento sindical brasileiro e ate entao vigentes. E demonstravam tambem que a luta politica dos trabalhadores deveria exigir um trabalho cotidiano de base a partir dos locais de trabalho. A grande inovacao das greves de 1968 esta associada ao fato de terem sido realizadas sem a acao de piquetes, iniciando-se dentro da propria fabrica, em horario de expediente.

Outra novidade, criada pelos metalurgicos de Contagem, mas levada a extremos pelos de Osasco, foi a ocupacao e o controle da propria fabrica, com os operarios assumindo os postos estrategicos da empresa, passando a dirigi-los, o que trouxe significativa mobilizacao proletaria na execucao dessa inusitada empreitada politica.

A reivindicacao dos operarios de Contagem e que se constituiu logo no primeiro dia do movimento, e depois encampada pelos operarios de outras fabricas, era a outorga de 25% de aumento salarial. O Ministro do Trabalho, coronel Jarbas Passarinho, foi chamado as pressas e voou para Minas Gerais com o intuito negociar com os grevistas. De forma ardilosa o presidente do Sindicato negou que a entidade tivesse promovido ou mesmo dirigisse a paralisacao (mesmo porque poderia sofrer intervencao da DRT em caso contrario), mas se solidarizava com os grevistas e chegou mesmo a oferecer o auditorio do Sindicato para as negociacoes.

No final de abril, o General presidente Costa e Silva acabou assinado um decreto de emergencia, concedendo 10% de abono salarial, quantia que deveria ser compensada no dissidio de novembro. O resultado nao agradou aos operarios, nem a maior parte das organizacoes politicas, mas acabou representando uma vitoria efetiva dos metalurgicos mineiros (que prometiam voltar a greve para integralizar o aumento). Ate o dia primeiro de maio, a maioria dos trabalhadores continuou em greve. (5)

A greve de Osasco refetiu uma longa experiencia de organizacao politica e sindical, a partir dos locais de trabalho, envolvendo militantes da Frente Nacional do Trabalho (FNT), um agrupamento de advogados trabalhistas e operarios cristaos, que se apresentavam publicamente como opositores da direcao do sindicato por este, entao, serem pretensamente dirigidos por comunistas. Alem do que se propunham tambem a efetivar um trabalho de denuncias das degradantes condicoes laborais e de conscientizacao politica a partir dos proprios locais de trabalho.

Nas greves anteriores, os metalurgicos da Cobrasma ja haviam tido uma participacao destacada. Em outra destacada fabrica da regiao, a Braseixos, os operarios comecaram a se afastar da orientacao politica do PCB e de suas concepcoes sindicais por eles caracterizadas de cupulistas, passando a organizar o que fcou conhecido como "comites clandestinos de fabrica".

Tais comites, na epoca, tinham escassa representatividade; constituiam mais grupos de discussao e um molecular trabalho de propaganda politica, que editavam boletins, faziam denuncias e procuravam estudar a historia da classe operaria e a teoria revolucionaria do proletariado. Traziam em si um conjunto de concepcoes principescas e eram esses os principios que lhe davam certa unidade politica: defesa do socialismo, recusa das praticas conciliatorias de classe e a primazia da participacao e da acao direta das bases. Havia nos grupos uma evidente simpatia pela Revolucao Cubana e pela luta armada. Exceto em alguns momentos de maior mobilizacao (quando eram criadas coordenacoes para o melhor desenvolvimento de suas acoes) nao possuiam qualquer direcao regular e verticalizada. As reunioes de seus integrantes eram realizadas nos mais diversos lugares, mas sempre em funcao do cumprimento de tarefas ligadas a mobilizacao ou organizacao politica para movimentos concretos.

Em 1966, quando a UNE propunha o voto nulo, adotaram uma posicao singular: anular os votos para deputados e senador, mas participar ativamente da campanha no ambito municipal. Apoiou assim um candidato do MDB a prefeito, Guacu Piteri, e lancou candidato proprio (pela legenda de oposicao) a vereador; tambem fez propaganda de dois outros candidatos a vereador. Todos foram eleitos!

Aproveitando-se de sua presenca na Camara Municipal e relativa influencia na Prefeitura, tambem tentaram participar de Sociedades Amigos de Bairro e em campanhas de alfabetizacao de adultos. Depois de marco de 1968, ou seja, depois das passeatas em protesto que foram realizadas pela morte de Edson Luis, alguns militantes de Osasco entrariam no processo de luta ideologica que se travou substancialmente em toda esquerda sobre os rumos que deveriam ser tomados pelos que lutavam contra a ditadura militar. Tambem la, um dos pontos centrais do debate foi a questao da tomada do poder pela via armada.

Em 1967, a partir da Comissao da Cobrasma, com operarios de outras fabricas a FNT e o grupo de Osasco organizaram uma chapa para participarem das eleicoes sindicais. A FNT fcou com a maioria dos cargos, mas o grupo de Osasco teve maior influencia na defnicao do programa. Este colocou claramente a luta contra o arrocho, pelo direito de greve, pela organizacao de comissoes de empresa, pelo reajuste trimestral de salarios como reivindicacoes programaticas centrais; tambem propunha a adocao do sistema de contratacao coletiva de trabalho que era, na epoca, considerado uma grande e desconhecida novidade.

A chapa de situacao (Azul) foi encabecada por Henos Amorina (presidente do Sindicato dos Metalurgicos de Osasco de 1965 a 1967). Em quase todas as fabricas, os resultados acabaram revelando certo equilibrio entre as duas chapas. A contagem dos votos dos trabalhadores da Cobrasma decidiu as eleicoes em favor da Chapa Verde, liderada por Jose Ibrahim. Mas logo depois, em virtude das posicoes politicas assumidas publicamente pela nova direcao metalurgica de Osasco, o sindicato esteve prestes a sofrer uma intervencao da Delegacia Regional do Trabalho (DRT), inclusive, o presidente acabou suspenso do cargo por quinze dias.

Apos o fracasso do MIA, os dirigentes sindicais paulistas passaram a organizar uma "festa" para o primeiro de maio. A direcao metalurgica de Osasco foi convidada para os preparativos, o que fez articulando-se com as oposicoes sindicais, entidades estudantis e organizacoes politicas armadas para transformar a data comemorativa num dia de luta. Enquanto as direcoes pelegas convidaram autoridades e artistas para a solenidade do dia do trabalhador, a diretoria dos metalurgicos de Osasco mobilizou suas bases, fazendo propaganda de duas palavras-de-ordem: "Minas e exemplo de luta" e "Greve contra o arrocho".

Durante o Primeiro de Maio, Jose Ibrahim foi muito criticado por algumas organizacoes politicas estudantis, tendo sido classificado ate como pelego por nao ter aparecido na Praca da Se, embora o sindicato tenha fretado alguns onibus e custeado a ida de mais de mil trabalhadores ao ato. O risco de uma iminente intervencao da DRT foi a razao da ausencia de Ibrahim, levantada pela diretoria do sindicato e outros membros do grupo de Osasco.

As correntes estudantis que hostilizavam Ibrahim acusando-o de pelego nao sabiam de dois fatos que estavam em curso: uma greve estava sendo preparada secretamente pelos trabalhadores de Osasco; como tambem, entre os trabalhadores, julgava-se fundamental continuar participando da diretoria do sindicato para poder preparar e deflagrar esse movimento paredista.

A greve de Contagem pegou o regime de surpresa, forcando-o a negociar e a fazer concessoes. Consistiu num primeiro "furo" no arrocho, mas este se continuasse a sofrer novas afrontas acabariam comprometendo por completo a propria politica economica governamental de controle salarial. A greve de Contagem teve implicacoes politicas na medida em que desafou a politica economica oficial vigente. Mas em julho, o fator surpresa ja nao existia mais. So um movimento extremamente organizado poderia ser vitorioso.

No final de junho, os estudantes paulistas haviam ocupado a Faculdade de Filosofa (Maria Antonia) e havia noticias de movimentos camponeses ocorrendo em Santa Fe do Sul (Sao Paulo). Alem disso, articulava-se a Frente Ampla com Carlos Lacerda, Jango e Juscelino, o que lancavam suspeitas de que uma hipotetica cisao no seio das classes dominantes estava em franco progresso. Esses simples fatos bastaram para cegar os olhos a conjuntura politica e para alentar a esperanca dos que entendiam que a mera entrada do movimento operario em cena poderia alterar fundamentalmente os rumos historicos do pais. Se a possibilidade de repressao quase imediata a greve era um dado quase palpavel, por outro lado, havia expectativas tao grandes que se acreditava na possibilidade de, pelo menos, o movimento grevista abalarem um pouco os solidos alicerces do regime ditatorial.

Um enviado do delegado regional do Trabalho, o General Moacyr Gaya, foi a Osasco dialogar com Ibrahim, que como no script que vinha de Contagem, procurou isentar o sindicato da responsabilidade pela greve. O Coronel Passarinho imediatamente partiu para Sao Paulo e montou seu QG no Palacio dos Bandeirantes. No comeco dessa mesma noite, a policia interveio. Primeiro na Lonaflex, depois na Cobrasma. Mesmo diante da rapida acao repressiva do governo, no dia seguinte, outras fabricas aderiram: Braseixos, Brown Boveri e, parcialmente, a Cimaf, a Eternit e produziu um total aproximado de 10 mil grevistas, algo impressionante e mesmo inusitado para aqueles dias marcados pela intensa repressao politica e social. Depois a policia investiu contra o sindicato, pois, ja havia sido decretada a sua intervencao.

No primeiro dia, foram realizados cerca de 300 a 400 prisoes na Cobrasma e aproximadamente 50 operarios ficaram detidos; no segundo dia, ocorreram algumas prisoes em igrejas e a cidade foi toda ocupada por policiais em duplas, com cachorros amedrontadores e armas de guerra em punho - a maxima governamental de que o pior inimigo era o interno mostrava-se a luz do dia.

No terceiro dia, mesmo sem um comando de greve, pois as maiorias dos seus lideres encontravam-se presos ou escondidos, o movimento continuou. Perseguidas e atuando de forma dispersiva, as liderancas tentaram conter o movimento buscando evitar um desastre ainda maior, ou mesmo uma derrota historica e que o prostrasse de forma irremediavel. Numa assembleia de estudantes em apoio aos grevistas, Manuel Dias do Nascimento, o Neto de Osasco, chegou a prometer "a continuacao do movimento com greves de grevilhas", ou seja, paralisacao um dia de uma secao, outro dia de outra e, num outro ainda seriam estimuladas as faltas dos moradores de um ou de outro bairro ao trabalho.

Apos o sexto dia, as fabricas de Osasco funcionavam normalmente. Inumeros trabalhadores foram despedidos, outros tiveram que ficar foragidos em funcao das buscas policiais que haviam se produzido desde o inicio do confito. Tempos depois, a maior parte das empresas, para evitar problemas, acabou atendendo algumas reivindicacoes especificas dos operarios e se chegou mesmo a oferecerem cotas variaveis de antecipacao salarial.

Em Contagem e Osasco restaram nucleos organizados. Em Contagem, em outubro ocorreu uma segunda greve, que foi preparada exclusivamente a partir das organizacoes que atuavam na regiao. So durou um dia, sendo dissolvida pela policia e o sindicato sofreu intervencao governamental.

Em Osasco, os nucleos restantes, em setembro e inicio de outubro, comecaram a se aglutinar para, de novo, reconstituir a oposicao sindical. Entretanto, as liderancas mais expressivas ja estavam mais voltadas para a vida interna de sua organizacao politica e se preparavam para "abandonar a cidade" em troca de realizarem a cada vez mais proxima opcao pela guerrilha. A dificuldade para reorganizar a oposicao sindical foi ampliada ainda mais quando os lideres de Osasco foram sendo presos um a um.

O principal desdobramento politico do movimento estudantil, na decada de 1960, que foi o enfretamento armado ao regime militar, o levou primeiro para fora do movimento operario e, depois para a derrota armada, infortunio que tambem haveria de se abater sob as principais liderancas operarias. O elo organico entre os movimentos de Osasco e Contagem e o movimento operario posterior foi precocemente abortado, mas a experiencia daqueles movimentos permaneceu. Primeiro eles foram tomados como exemplos pelo regime para intimidar a classe operaria, todavia eles precisam ser repensados e ajudarem a classe operaria a encontrar seus proprios caminhos de organizacao politica e sindical no Brasil.

A experiencia das comissoes de fabrica, de atuacao nos sindicatos (ainda que atrelados), a luta contra o arrocho, pelo direito de greve realizando greves e pelo contrato coletivo de trabalho aparecem como luzes nao de um relampago perdido num dia de ceu azul, mas daquelas centelhas que iluminam os mais escuros dos caminhos.

Os acontecimentos de Osasco e Contagem nao podem ser menosprezados pelos artifces de nossa historia social, pois marcaram de forma substancial e com os tracos da rebeldia operaria os acontecimentos politicos registrados na sociedade brasileira em 1968, alem do que precisam ser lembrados os que ousam nadar contra a corrente e que projetam a historia como possibilidade e nao como fatalidade social.

CONCLUSAO

A partir de 1968 a classe trabalhadora, a juventude e os movimentos sociais tiveram que viver um periodo de fortes limitacoes em suas lutas e acoes cotidianas que acabariam soterradas por uma intensa e sistematica repressao estatal. As derrotas sofridas e as duras licoes que foram tomadas levaram os movimentos a desenvolver suas atividades na clandestinidade. Diante das circunstancias impostas pela repressao deflagrada pela ditadura militar, o trabalho politico acabou sendo realizado silenciosa e cotidianamente no interior das fabricas e a implantacao dessa perspectiva trouxe consigo elementos de "basismo" e autonomia operaria, sendo fundamental para o estabelecimento dos alicerces e a expansao do chamado "novo sindicalismo" que comecou a se apresentar a partir de 1977. Tais objetivos podiam entao ser identificados pela trajetoria politica da Oposicao Sindical Metalurgica de Sao Paulo.6

Mas, essa nao foi a regra. Diferentes agrupamentos resolveram radicalizar suas acoes na luta contra a ditadura e acabou optando pela guerrilha urbana ou rural como forma de combater a ditadura militar. Esse periodo acabou sendo marcado por sequestros de embaixadores estrangeiros e outras personalidades, assaltos a bancos, ataques a quarteis e varias proezas, muitas vezes desesperadas, outras heroicas de jovens lutadores das liberdades democraticas e do socialismo.

Apos a derrocada do movimento operario e do movimento estudantil e a ampliacao do aparato repressivo do Estado, centenas de operarios, trabalhadores rurais, estudantes, profssionais liberais e outros representantes das chamadas camadas medias da populacao, nao suportando as atrocidades do regime militar, se lancaram para a acao guerrilheira como forma de luta. Estes verdadeiros revolucionarios, contudo, nao dispunham das minimas condicoes para enfrentarem militarmente o poder do estado capitalista fortemente instalado no Brasil.

Tambem os movimentos sociais daqueles dias nao dispunham de liderancas de massas que fossem capazes de ciriblar o intenso controle social que o regime exercia atraves da manipulacao e controle dos meios de comunicacao de massa; transformados que foram em educadores sociais e responsaveis pela eficiente propaganda do Brasil potencia, pais do futuro e da Doutrina de Seguranca Nacional utilizando-se de slogans ufanistas como "Pra frente Brasil" ou, maquiavelicos, como o famigerado, "Brasil: ame-o ou deixe-o".

Naquele momento, pelas armas, nao era possivel vencer a ditadura militar. Mas, muitos tentaram como Lamarca o fez no Vale do Ribeira. Deu-se assim com a resistencia heroica de algumas dezenas de militantes do PC do B nas matas do Araguaia dizimados por milhares soldados do exercito brasileiro.

Do ponto de vista economico, a ditadura militar se esfor ci ou para garantir a implantacao do instrumental material, energetico, capatacao portuaria, estradas, mas tambem todo um aparato juridico mais adequado a instauracao e reproducao do grande capital internacional em nosso pais.

Foram anos de crescimento acelerado da economia brasileira que embalados pelas politicas de controle social, do arrocho salarial, de um endividamento externo sem precedentes e da total abertura do pais para o capital internacional, se chegou a crescer ate 10% ao ano. Os resultados deste enganoso "Milagre brasileiro" foi a producao de um acelerado crescimento sem distribuicao da riqueza socialmente produzida, que aumentou a concentracao de renda, as desigualdades sociais, a criminalidade e os confitos de classe.

Num quadro politico como esse talvez nao houvesse nenhum tipo de possibilidade de se organizar um poderoso movimento social, como aquele que mais tarde haveria de se constituir em torno do movimento das Diretas ja, traduzindo de forma emblematica um amplo enfrentamento democratico contra as forcas do regime militar. Naquele momento historico, os diferentes agrupamentos revolucionarios, ao fazerem sua opcao pela luta armada, refetiam muito mais uma acao de desesperanca do que uma possibilidade real de mudar os destinos do pais pelas armas.

Podemos dizer que o saldo deste processo foi extremamente negativo para o desenvolvimento dos movimentos sociais e sua vanguarda foi duramente atacada. As prisoes se encheram de trabalhadores e dezenas deles foram torturados e mortos pela ditadura militar.

Diante da impossibilidade de se realizar um trabalho de organizacao mais sistematico dentro das fabricas, uma parcela significativa da vanguarda do movimento operario que nao havia aderido a guerrilha, apontou uma alternativa para o desenvolvimento de sua acao politica: o questionamento e a busca de solucoes para os monumentais problemas enfrentados pela populacao trabalhadora nos bairros das periferias das grandes cidades.

A organizacao e o fazer politico nos arrabaldes dos grandes centros urbanos envolveu a luta por melhores condicoes de vida imediata e, assim, buscou construir mecanismos de auto-organizacao dos operarios produzindo manifiestacoes sociais das classes mais pauperizadas, possibilitando aos moradores alguns espacos de reivindicacoes dos seus mais elementares direitos de cidadaos, com isso gerando embrioes de uma vontade coletiva popular. Por conta disso, evidentemente, e importante reconhecer que o trabalho politico efetuado pela classe trabalhadora nos suburbios das grandes cidades tem a possibilidade de apontar as contradicoes da sociedade capitalista e reivindicar a sua superacao!

Talvez ate mesmo com a mesma radicalidade dos que haviam sido produzidos nas fabricas de Osasco e Contagem, ao impulsionar as lutas populares pela regularizacao de loteamentos clandestinos, instalacao de redes de luz e agua, transportes coletivos, em defesa da escola publica etc. e, numa conjuntura nefasta como aquela produzida pelo governo militar, nos primeiros anos da decada de 1970, o espaco politico conquistados nos bairros das periferias das grandes cidades brasileiras signifcou, inegavelmente, um avanco politico e organizativo bastante razoavel.

De fato, apos o estabelecimento de um governo golpista em 1964, podemos dizer que foi atraves de determinadas manifiestacoes coletivas das classes populares, que atingiram certo nivel de organizacao e coesao interna, vindo a constituir-se em movimentos sociais, que a participacao popular acabou se expressado no cenario politico nacional. (7)

A luta pelos transportes coletivos, escolas, por creches, postos sanitarios e de saude, areas de lazer e recreacao, pela moradia, pela legalizacao da posse da terra, etc., sao alguns exemplos dessas novas formas de participacao social que comecaram a surgir depois das duras licoes tomadas em 1968. Elas foram capazes de gerar e mesmo hoje em dia continuam gerados movimentos sociais variados, todos eles relacionados a reproducao da forca de trabalho.

O reconhecimento do movimento em direcao aos bairros nao signifcou dizer que o trabalho politico realizado dentro das fabricas havia sido totalmente abandonado. As lutas operarias continuaram inseridas no interior das unidades produtivas, mas de uma forma silenciosa e restrita. Nao se tratava, naquele momento, de procurar desenvolver acoes de massa, mas de propaganda circunscrita aos grupos de base, no interior das fabricas e nos bairros, com o objetivo de socializar experiencias entre as oposicoes sindicais e sindicatos combativos e, simultaneamente, se esforcar para implantar novos grupos de trabalhadores, ligados as vanguardas, nas unidades de producao.

Paulatina e interruptamente, o movimento operario acabou construindo um novo patamar de acao de massas que em menos de dez anos, nos meados da decada de 1970, ja foi possivel vislumbrar na forma de explosoes operarias massivas e violentas contra as difcilimas condicoes de vida e a superexploracao da forca de trabalho entao reinante.

Sabidamente nao foram apenas as licoes de 1968 que possibilitaram o desenvolvimento das lutas populares nos bairros da periferia, atraves dos chamados novos movimentos sociais urbanos. Existem muitos outros fatores e dentre eles podemos mencionar: a) a existencia de associacoes de moradores, b) os cursos de alfabetizacao de adultos que eram impulsionados pelas ideias e propostas de Paulo Freire, c) cursos tecnicos e profssionais, d) movimentos patrocinados pela Igreja Catolica, e) comunidades eclesiais de base etc. Esses movimentos abriram um espaco importante e necessario para a implantacao e consolidacao do trabalho politicos nos mais distantes suburbios das grandes cidades e nao podem deixar de serem mencionados quando buscamos entender o lento processo de construcao da democracia no Brasil.

Em nosso pais esse tipo de luta possibilitou a emergencia de alguns movimentos sociais urbanos de expressao significativa: o movimento pela Anistia em 1978-1979 e o Movimento contra a Carestia que comecou a se tornar mais visivel a partir de 1977. O primeiro embora tenha sido liderado por segmentos especifcos da populacao brasileira, expressou uma luta que era de toda a nacao, contra o arbitrio e o autoritarismo vigentes.

Outro elemento politico importante a destacar neste movimento foi o papel articulador que ele representou, para as forcas democraticas em geral e para os movimentos populares em particular. Com a decretacao da Anistia o movimento prosseguiu atraves da constituicao dos Centros de Defesa dos Direitos Humanos em praticamente todos os estados do pais e a sua presenca politica e de suma importancia na reconstrucao da memoria e da historia de incontaveis cidadaos que viveram com paixao e intensidade o ano de 1968 na sociedade brasileira.

FONTES8

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Faria, Hamilton A. "A experiencia operaria nos anos de resistencia (A oposicao sindical metalurgica de Sao Paulo e a dinamica do movimento operario)". Dissertacao de Mestrado, PUC-SP, 1986.

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Filho, Daniel Aarao Reis. A revolucao faltou ao encontro: os comunistas no Brasil. Sao Paulo: Brasiliense/MCT-CNPq, 1990.

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Ibrahim, Jose y Jose Barreto Campos. "Manifiesto de balanco da greve de julho". Em A esquerda e o movimento operario: 1964/1984. Volume I. A resistencia a resistencia: 1964/1971, editado pelo Celso Frederico. Sao Paulo: Novos Rumos, 1987.

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Carlos Bauer (1)

Universidade Nove de Julho (Brasil) Grupo de pesquisa HISULA - UPTC

Recepcion: 20/05/2017

Evaluacion: 08/09/2017

Aceptacion: 05/01/2018

Articulo de investigacion - Reflexion

DOI: https://doi.org/10.19053/01227238.8015

(1) Carlos Bauer e professor do Programa de Pos-Graduacao em Educacao (PPGE), da Universidade Nove de Julho (Uninove) e autor, entre outros, dos livros Historia e internacionalismo da Escola Nacional Florestan Fernandes, Introducao critica ao humanismo dialogico de Paulo Freire e A classe operaria vai ao campus. Esboco de historia social, trabalho precario, resistencia e ousadia na universidade brasileira contemporanea (publicados pela Editora Sundermann, in: www.editorasundermann.com.br). Correo eletronico: professorcarlosbauer@cnpq.pesquisador.br

(2) Para uma compreensao mais ampliada e documentada desse processo historico consultar, especialmente, o livro, de nossa autoria. Carlos Bauer, Contribuicao para a historia dos trabalhadores no Brasil. Volume II. A hegemonia vermelha. (Sao Paulo: Edicoes Pulsar, 1995), 282.

(3) Para o detalhamento dessa questao, conferir o trabalho de Francisco C. Wetfort, Participacao e confito industrial: Contagem e Osasco - 1968 (Sao Paulo: Cebrap, caderno 5, 1972).

(4) Jose Ibrahim y Jose Campos Barreto. "Manifiesto de balanco da greve de julho" em A esquerda e o movimento operario: 1964/1984. Volume I. A resistencia a resistencia: 1964/197, eds. Celso Frederico (Sao Paulo: Novos Rumos, 1987), 37.

(5) Consultar a compilacao documental reunida e publicada pelo professor Celso Frederico, A esquerda e o movimento operario - 1964/1984 - A reconstrucao. Volume III. (Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1991).

(6) Consultar, especialmente, a pesquisa de Hamilton A. Faria, "A experiencia operaria nos anos de resistencia (A oposicao sindical metalurgica de Sao Paulo e a dinamica do movimento operario)" (Dissertacao de Mestrado, PUC-SP, 1986).

(7) Sobre essa tematica, conferir, especialmente, a obra de Maria da Gloria Marcondes Gohn, A forca da periferia: a luta das mulheres por creches em Sao Paulo. (Petropolis: Vozes, 1985).

(8) Nota do autor. A Revista Historia de la Educacion Latinoamericana (Rhela), em seu numero 11, volume 28, correspondente ao segundo semestre de 2008, publicou uma excelente coletanea de artigos, versando sobre a importancia historica do movimento estudantil latino americano e a influencia politica do Maio de 1968, organizados pela professora Maria Cristina Vera de Flach, da Universidad de Cordoba (Argentina) e membro do Grupo de investigacion Historia y prospectiva de la Universidad

Latinoamericana (HISULA), no qual foram reunidos os seguintes articulistas e seus manuscritos: Javier Ocampo Lopez, Maestro German Arciniegas el educador, ensayista, culturologo e ideologo de los movimientos estudiantiles en Colombia; Hugo E. Biagini, La cultura de la resistencia juvenil y el proceso emancipador; John Jaime Correa Ramirez, Contra la despolitizacion de la memoria. Entrevista con Carlos Antonio Aguirre Rojas, A proposito de los 40 anos de mayo del 68; Jose Rubens Lima Jardilino, Os frutos de maio: resenha historica do movimento estudantil na America latina no inicio do seculo XX; Jesus Marquez Carrillo e Paz Dieguez Delgadillo, Politica, universidad y sociedad en Puebla. El ascenso del Partido Comunista Mexicano en la UAP, 1970-1972; Silene de Moraes Freire, Movimento estudantil no Brasil: lutas passadas, desafos presentes; Dora Pineres De La Ossa, Relacion universidad y sociedad, prensa y politica en los movimientos estudiantiles de los anos cuarenta en la Universidad de Cartagena; Norma Dolores Riquelme, Conformacion de los espacios de poder en el Gobierno de la Universidad Nacional de Cordoba (Argentina) a mediados del siglo XX; Jose Eustaquio Romao, Os frutos de maio de 1968 - O Grito dos Silenciados; Sergio Arturo Sanchez Parra, Violencia politica en Sinaloa: El caso de los "Enfermos" 1972-1978 (Los lugares y medios para la radicalizacion) e Luis Fernando Villafuerte Valdes, Una metodologia interpretativa para el estudio de los movimientos sociales. Enmarcamientos y cultura. Una vision desde Mexico.

Os artigos acima citados podem ser acessados, livremente, em http://revistas.uptc.edu.co/revistas/index.php/historia_educacion_latinamerican/issue/view/129

Tambem versando sobre essa tematica, Rhela, em seu Vol. 19 No. 28, de janeiro a junho de 2017, organizados pelo professor Alvaro Acevedo Tarazona, da Universidad Industrial de Santander (Colombia), trouxe a publicacao dos seguintes artigos: Movimiento estudiantil de Cordoba y su influencia en Honduras, de Orlando David Murillo Lizardo; ?Jovenes e indignados? La movilizacion social colombiana en el ano 2011, de Alvaro Acevedo Tarazona e Andres David Correa Lugos; Constantes en los movimientos estudiantiles latinoamericanos: Aproximacion a partir del caso chileno de 2011, de Andres Donoso Romo e Protesta y movilizacion estudiantil en la Universidad Industrial de Santander: la oportunidad politica, de autoria de Raquel Mendez Villamizar, Johana Linares Garcia e Hector Mauricio Rojas Betancur.

Os manuscritos podem ser consultados, livremente, em

http://revistas.uptc.edu.co/revistas/index.php/historia_educacion_latinamerican/issue/view/468
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Author:Bauer, Carlos
Publication:Revista historia de la educacion latinoamericana
Date:Jan 1, 2018
Words:8428
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