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Towards a geography of everyday life: art and emancipation/Em torno de uma geografa do quotidiano: arte e emancipacao.

1. Alerta: viver pode nao ser nada de especial

A vida quotidiana encerra misterios na soma das pequenas coisas, na soma das pequenas atitudes. Ninguem vive sem passar uma parte muito importante da sua vida fazendo tarefas sem nada de especial, ou habitando espacos quotidianos, caseiros, sem muito interesse. E, contudo, essas acoes constituem a identidade profunda, a singularidade radica na banalidade. Na maior parte do tempo, os humanos tem pouco interesse, ocupados em repetir gestos e funcoes vitais.

O processo de banalizacao da existencia comeca a ganhar impulso com o dominio comercial e tecnologico: amortecer as dores, curar as doencas, diminuir os esforcos, distrair de modo industrializado, consumir a vida em embalagens ou pacotes de consumo. Este processo chama-se alienacao. A alienacao pode descrever-se simplesmente como o afastamento de nos mesmos.

2. Atencao: realidade e 'infirmitati'

Convivemos com a alienacao ha pouco tempo: ela e denunciada na sociedade industrial atraves da relacao prioritaria do homem com os objetos, e pela reducao crescente da relacao do homem consigo proprio, e com os seus semelhantes. O homem, mais rico, hoje, e no fundo muito mais pobre. Esta perda e profunda e esta assente num esquecimento generalizado, numa distracao festiva, colorida, mas tao absurda e inutil quanto um simples jogo video. A realidade cultural amoleceu e perdeu forca dramatica, adoeceu, sofre de "infirmitati" (Queiroz, 2016a; 2016b).

Assim se apontem instancias de auto-descolonizacao, de reflexao, de resistencia, de libertacao, de emancipacao: a arte pode ser uma delas. Mas exige-se dos artistas um olhar mais atento, talvez hoje mais dificil, porque e mais facil estar confortavelmente entorpecido. A arte deve permanecer no terreno, em incomodidade, em desacerto, em alavanca, em movimento: e hoje uma questao essencial de cidadania o lugar para a inquietacao (Queiroz, 2017), ou se quisermos, a clareza de exigir uma independencia funda que venca a casca fabricada pela industria em que a cultura desembocou.

3. Aviso: estamos a ser fotografados

Ha uma funcao superior dos artistas, como o perceberam os primeiros, atentos desde o inicio, ageis em apontar absurdos, ou em apresentar a cor verdadeira dos corpos humanos, na sua beleza e fraqueza profundas.

Estes corpos sao fracos e pedem algum verde nas carnacoes. Estes corpos anunciam os mortos dos absurdos belicos, das complicadas guerras, com um prazo curto e uma fome constante. O assunto da arte e aquilo que somos, desde o banal ao excepcional.

Talvez nunca tenhamos feito tantas autorrepresentacoes como nos media modernos. E, no entanto, o esgotamento torna o especime reduzido no seu valor, por uma inflacao iconica generalizada.

4. As obras vistas de fora

Raquel Pelayo (Porto, Portugal), no artigo "Aurelia de Souza: o Feminismo ao Espelho," debruca-se sobre a artista portuguesa de inicio do seculo XX Aurelia de Sousa (1866-1922), e particularmente sobre um auto-retrato com um laco, relacionando-o com um posicionamento sobre a questao de genero e da reivindicacao desta mulher artista em meio muito adverso no seu tempo.

Em "Leire Munoz: paisaje en proceso (work in progress)," de Ainhoa Akutain & Ana Arnaiz (Bilbau, Espanha) apresentam a exploracao paisagistica numa perspetiva atualizada de Leire Munoz (n. 1983, Getxo-Bizkaia, Espanha). Atraves de reposicionamentos espaciais, com imagens e sons, enfatiza a processualidade da paisagem e a sua dependencia da cultura na obra "Eco-Intervalo-Obstaculo- Resonancia-Reflexion" apresentada em 2017 na Galeria Carreras Mugica de Bilbau.

Daniel Wolff (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil) no artigo "A milonga gaucha na genese do Quinteto para violao e quarteto de cordas, de Fernando Mattos," aborda, na area da musica, o uso da milonga, som tradicional gaucho, como elemento original e gerador do Quinteto para violao e quarteto de cordas (2008), do compositor brasileiro Fernando Mattos (n. 1963, Porto Alegre, Brasil).

No artigo "Os registos tangiveis de Liene Bosque," Susana Pires (Lisboa, Portugal), apresenta a obra da paulista Liene Bosque (n. 1980, Sao Paulo, Brasil) com um foco nas instalacoes de janelas esfoladas pela descolagem superficies moldadas em latex. As janelas sao primeiro tapadas, para depois se arrancarem num processo entre o violento e o curativo destas aberturas das casas.

Daniela Cidade (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil), "Giordano Toldo e a viagem: estrategias da fotografia como marca da transformacao do espaco urbano," aborda a proposta de Giordano Toldo (radicado em Rio Grande do Sul, Brasil) na serie "Em busca de Elliot Erwitt," para reflectir plasticamente sobre o espaco urbano e a experiencia com a cidade. Diz Toldo:

'Em busca de Elliot Erwitt' compoe fotos turisticas da cidade de Nova York. As fotografias de Erwitt me inspiraram a conhecer a cidade e em cada imagem ha um pouco de mim e um pouco de Erwitt. Um reencontro permitido pelo olhar. (Toldo, 2015)

No artigo "Porque a toalha de mesa apareceu na pintura de Adriane Hernandez?" Joao Carlos Machado (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil) interroga as pinturas recentes da artista Adriane Hernandez (radicada em Rio Grande do Sul, Brasil) onde as imagens de plantas, folhas e passaros sao cruzadas por padroes em xadrez como os de toalhas de mesa. A metafora da conexao que a mesa permite pode colocar-se a par com algum questionamento de genero, em torno da domesticidade.

Em "Violencias sin violencias en la obra de Manuel Franquelo-Giner," Andrea Dominguez (Pontevedra, Espanha), apresenta a obra de Manuel Franquelo (n. Madrid, 1990) que nas suas series fotograficas visita o tema do bio poder (Foucault, 2008), assim como nos objetos tridimensionais que amplificam carnes alimenticias processadas.

Hugo Moreira (Sumare, Sao Paulo, Brasil), em "Wilton Azevedo: do gesto grafico ao pixel," apresenta o designer Wilton Luiz de Azevedo (1958-2016, Brasil) e os seus video-poemas de influencia concretista.

Em "Jessica Mangaba: 'no Album,' uma memoria construida," Sandra Goncalves (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil) introduz a serie fotografica "No Album II" de Jessica Mangaba (n. 1988, Sao Paulo) que visita e ficciona as memorias de seu pai a partir de imagens pre-existentes refotografadas e fundidas com novas imagens, em busca de uma sintese mnesica.

Dora-Iva Rita (Lisboa, Portugal), em "A Materia da Escultura em Joao Castro Silva," apresenta o trabalho do escultor Joao Castro Silva (n. 1966), sobretudo as suas pecas em madeira. Escolhendo as madeiras rusticas de obras, as "madeiras de mare" trazidas pelas aguas, ou as madeiras de uma especie particular, a Criptomeria-japonica, sao a materia recondicionada onde e depois condensada uma nova espiritualidade.

O artigo "O que resta e o que se quebra na poetica da perda e da destruicao na casa labirinto de Raquel Andrade Ferreira," de Adriane Correa & Eduarda Goncalves (Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil) debruca-se sobre a obra de Raquel Andrade Ferreira (radicada tambem em Rio Grande do Sul, Brasil) especificamente sobre uma performance, "Narrativas de uma destruicao" de 2012, e uma instalacao, de 2013 "era domingo e o almoco havia sido servido". A questao de genero e revisitada atraves da destruicao fisica de objetos da esfera decorativa domestica ou das lides caseiras.

Claudia Matos Pereira (Brasil, e Lisboa, Portugal) no artigo "A poetica da materia natural que se transmuta em organicidade: o olhar ecologico da artista Semea Kemil," introduz a obra da artista plastica Semea Kemil (n. Ewbanck da Camara, Minas Gerais, Brasil). Sao estruturas arborescentes em paper clay que recordam a fragilidade da natureza.

O texto "'Entre Solaris e Nostalgias': fotografia e pintura nas obras de Jociele Lampert," de Andrea Bracher (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil) apresenta a recente serie de trabalhos e monotipias de Jociele Lampert (n. Santa Maria, Rio Grande do Sul, 1977). Jociele atravessa as referencias e convoca stillls cinematograficos de filmes de Andrei Tarkovski, como 'Solaris,' 'Andrei Roubliev' ou 'Nostalgia' recriando novas ficcoes e atribuindo aos materiais uma imobilidade pictural singular: como se o espectador assistisse do lado de tras do ecra as imagens interditas.

Sofia Torres (Porto, Portugal), no artigo "O Uncanny na obra de Michael Borremans," debruca-se sobre uma tendencia expressiva que se caracteriza pela expressao climatica angustiada, em que os corpos exibem uma solidao permanente e fragil, num desencantamento essencial, que pode recordar a obra de outros contemporaneos, como por exemplo Tiago Batista (Rocha, 2015), Marilice Corona (Bracher, 2015), ou tambem Jose Carlos Naranjo (Serrano Leon, 2016).

Em "Vozes Dissonantes: a abstracao geometrica de Rose Lutzenberger," Paulo Gomes (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil) debruca-se sobre a escultora Rose Lutzenberger (n. Porto Alegre, RS, 1929) representada no acervo da Pinacoteca Barao de Santo Angelo, no Instituto das Artes da Universidade Federal de Rio Grande do Sul. A obra desta artista, da geracao de Ilsa Monteiro e Joyce Schleiniger, tanto em escultura como em serigrafia, insere-se na maxima exploracao formal da fase final do modernismo, convocando formas modulares geometricas e dinamicas ao mesmo tempo que se acendem as cores, e o funcionalismo se aproxima dos limites do seu formulario abstratizante e otimista.

Luisa Paraguai (Campinas, Sao Paulo, Brasil) no artigo "Sistema marginal: a colecao em Sara Ramo," aborda a obra desta artista espanhola, Sara Ramo (n. Madrid, 1975) mas crescendo entre Espanha e Brasil e hoje radicada em Sao Paulo. O seu trabalho, instalativo, baseia-se em grande parte na festividade e no deslocamento dos objetos quotidianos: ha uma escultura colorida em todos os objetos que nos rodeiam, nas casas que habitamos, deveriamos talvez ser mais felizes.

5. Carta a NASA

Um dos ultimos escritos do pintor portugues Miguel D'Alte (1954-2007) e uma carta a NASA. Um verdadeiro requerimento para sair da comunidade e da banalidade. Um pedido de resgate na forma de pequeno poema em prosa, aos "Exmos Senhores dirigentes da N.A.S.A.": "Levem-me a Lua para que se torne real a primeira obra de arte feita no nosso querido satelite."

Em linhas gerais poder-vos-ei desde ja deixar uma ideia do conteudo da obra do a realizar: sera um trabalho muito sintetico que represente os valores que julgo fundamentais--Amor, solidariedade, e fraternidade entre os seres humanos.

Tenho ja alguns estudos feitos e caso aceitem a minha proposta deslocar-me-ei aos E.U.A. a fim de falar mais pormenorizadamente convosco e apresentar uma maqueta do projecto. (Miguel D'Alte apud Pereira, 2018)

Esta carta deste grande e malogrado pintor transporta a solidao essencial, um segredo e um desejo. O desejo diz-se depressa e sabe-se que e impossivel. E a maqueta do projeto nao e novidade: e feita sem cessar, aqui na Terra, pelos mais atentos, os mais insatisfeitos, pelos mais resistentes, inquietos, pelos artistas enfim. E a arte afinal um assunto a que a NASA tem dificuldade em responder.

Referencias

Toldo, Giordano (2015) "About." In Giordano Toldo. Pagina oficial. URL: http:// giordanotoldo.format.com/about

Foucault, M. (2008). Nascimento da biopolitica: Curso dado no College de France (1978-1979). Sao Paulo: Martins Fontes.

Rocha, Susana de Noronha Vasconcelos Teixeira da. (2015). Tiago Baptista: as falhas que nos prendem ao chao. Revista :Estudio, <5(11), 165-174. Recuperado em 10 de abril de 2018, de http://www.scielo.mec.pt/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S164761582015000100017&lng=pt&tlng=pt.

Bracher, Andrea. (2015). Ensaio: Fotografia e Pintura nos trabalhos de Marilice Corona. Revista :Estudio, 6(11), 175-181. Recuperado em 10 de abril de 2018, de http://www.scielo.mec.pt/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S164761582015000100018&lng=pt&tlng=pt.

Pereira, Helena Mendes (Org.) (2018) Miguel D'Alte: palavras escritas a Lua. Astronauta Associacao Cultural. ISBN: 978-989-208369-8

Queiroz. Joao Paulo (2016a) "Educacao artistica, casos e realidades: 'infirmitati,' ou a fraqueza analogica". In Novos Lugares para a Educacao Artistica. Lisboa: Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa & Centro de Investigacao e Estudos em Belas-Artes. pp. 379-86. ISBN: 978-989-8771-44-5. URL: https://drive. google.com/open?id=131F9ZBSZr4VotjfN MIaT4iNeOuEigK2s

Queiroz, Joao Paulo (2016b) "Educacao artistica e a 'infirmitati,' ou a fraqueza analogica." Revista Materia-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 4 (2) maio-agosto: 12-17.

Queiroz, Joao Paulo (2017) "Cidadania e arte, uma questao de revolucao." Revista Croma. ISSN: 2182-8547, e-ISSN 2182-8717. Vol. 5 (10) pp. 12-7.

Serrano Leon, David. (2016). Obsesion y oscuridad en la obra de Jose Carlos Naranjo. Revista :Estudio, 7(13), 155-165. Recuperado em 10 de abril de 2018, de http://www.scielo.mec.pt/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S164761582016000100017&lng=pt&tlng=es.

Artigo completo submetido a 11 marco de 2018 e aprovado a 16 marco 2018

JOAO PAULO QUEIROZ, Portugal, par academico interno e editor da Revista Estudio.

AFILIACAO: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigacao e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal. E-mail: j.queiroz@belasartes.ulisboa.pt
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Title Annotation:1. Editorial
Author:Queiroz, Joao Paulo
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:2058
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