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To understand or defend the Holy Office? Negationism, apologetics and uses of the inquisitorial history in Para entender a inquisicao (2009), by Felipe Aquino/Entender ou defender o Santo Oficio? Negacionismo, apologetica e usos da historia inquisitorial em Para entender a inquisicao (2009), de Felipe Aquino.

Por que se defender a Inquisicao

No comeco do livro Para entender a Inquisicao, publicado pela primeira vez em 2009 e que chegou a nona edicao em 2016, o radialista, apresentador da tv Cancao Nova e missionario Felipe Aquino afirma que a arma mais utilizada contra a Igreja Catolica e, sem duvida, a Inquisicao (AQUINO 2016, p. 11) e completa que muitas vezes ela e mal interpretada e analisada fora do contexto social, cultural e religioso em que se realizou. Alem dos anacronismos, Aquino aponta para outra responsavel pelas analises falhas da historia dos tribunais: a ideologia. Diz que a Inquisicao e usada como uma forma macica de propaganda contra a Igreja Catolica, fazendo com que muitos jovens [...] passem a odiar a Igreja e se afastar da fe. Conclui que tais tribunais sao para os adversarios da fe catolica nada mais que "a marca do obscurantismo dessa epoca crista"--que, para o autor, e a Idade Media--e sao estudados com o unico objetivo de denegrir a imagem da Igreja, fazendo deles um simbolo de intolerancia, violencia e maldade catolicos. Assim, e normal que se desperte nas pessoas "de maneira facil a simpatia pelos perseguidos de qualquer ordem, mesmo que sejam culpados de erros graves".

Aquino (2016, p. 19) faz questao de destacar o fato de nao ser historiador, o que nao lhe impede, em suas palavras, de se basear em fontes historicas serias e, ainda, tomar uma posicao veemente sobre a historiografia tocante ao Santo Oficio. Os historiadores sobre o tema desconsideram, segundo ele, valores morais, eticos, politicos, religiosos e juridicos dos periodos em que existiram os tribunais. Trata-se de um procedimento tomado por inimigos da Igreja Catolica intencionalmente, constituindo uma narrativa anticatolica hegemonica que, por assimilacao aos valores modernos de tolerancia e nao violencia, facilmente convence leitores que se identificam com sujeitos e ideias perseguidos. Urge, assim, uma revisao historica, sem a qual, conforme o titulo indica, nao e possivel entender a Inquisicao, ja que a verdade historica sobre ela e encoberta por mediacoes permeadas por idealismos modernos.

Tal obra de Aquino se configura como atualizacao de uma escrita negacionista e apologetica da historia inquisitorial, afiliada a vertentes mais conservadoras da doutrina catolica, o que conecta o autor a uma tradicao de escrita da historia dos ditos tribunais que existe desde o seculo XIX. Trata-se de narrativas que consistem em produzir negacoes, feitas sob o pretexto de contextualizar fatos considerados infamantes sobre as Inquisicoes, como a violencia--sobretudo os autos de fe e torturas--e seu obscurantismo--censura de livros e da ciencia, alem das perseguicoes a grandes pensadores. A negacao e/ou minimizacao se estende ao envolvimento da Igreja Catolica na fundacao, funcionamento e procedimentos da Inquisicao. O argumento de Para entender a Inquisicao, tambem, conflui com a construcao de um regime de verdade no qual tais tribunais teriam sido uma especie de imperativo civilizatorio, de um lado, e uma invencao anticatolica da modernidade, de outro, nao se excluindo mutuamente ou se contradizendo. Assim, confere-se sentido historico a um tradicionalismo catolico atrelado a ideia de um Ocidente idealizado, exaltando-se valores antimodernos, conservadores e refratarios a ideais como o pluralismo religioso e as liberdades democraticas em geral.

Importante destacar oqueseentende como conservadorismo que, tomado no seu significado politico e historico, nao se resume a mera reacao ao que e considerado moderno. Uma definicao mais adequada seria a feita por Huntington (1957, p. 461), segundo a qual o conservadorismo engloba uma resistencia articulada, sistematica e organizada as mudancas, do ponto de vista pratico e teorico. No caso especifico de Aquino, observam-se aspectos como os que Quadros (2014) aponta sobre o neoconservadorismo dos Estados Unidos, similares a outros analisados em estudos sobre as novas direitas no Brasil em trabalhos como os de Pierucci (1987) e Cowan (2014), que sao o discurso da permanente crise moral na modernidade, a afirmacao da religiao -crista--como base de todos os valores e relacoes sociais, a rejeicao aos principios democraticos liberais e o apelo a um tradicionalismo construido sobre um discurso moralizante da vida publica.

A nocao de regime de verdade, proposta por Foucault (1988), tambem cabe ao proposito de se entender qual verdade Aquino disputa e com quem, sobre o passado inquisitorial, bem como problematizar o porque de o fazer. Conforme o autor frances, cada comunidade possui sua politica geral da verdade, que engloba tipos de discursos que uma comunidade acolhe e valida. Refere-se a mecanismos e instancias que permitem distinguir enunciados verdadeiros de falsos, sancionando uns e vetando outros, alem de procedimentos tidos por validos para a obtencao de vericidade. Tais regimes apoiam-se em instituicoes que transmitem e validam verdades de maneira a produzirem e a reproduzirem relacoes de poder ou, como no caso de Aquino com uma direita catolica, coesao identitaria.

Rever, negar e falsear o passado

Ha debates historiograficos acerca do uso de narrativas sobre o Santo Oficio como meio de ataque a Igreja Catolica. Bethencourt (2000, p. 335-376), bem como Marcocci e Paiva (2013, p. 433) mostram que a chamada lenda negra --termo que sintetiza a imagem negativa e, muitas vezes, superdimensionada da crueldade, incivilidade, do obscurantismo e do anticristianismo das Inquisicoes--foi formada ao longo da Idade Moderna, difundida por escritos como os do teologo neerlandes Von Limborch e por narrativas de ex-presos, como a de Charles Dellon e a do macom John Coustos, dentre outros, sobretudo na Europa protestante. Os argumentos dessas obras frequentemente confluiam com criticas fortes ao catolicismo em si. Importante frisar que no proprio clero catolico--como e o caso do padre Antonio Vieira--houve, tambem, a producao de criticas contra a Inquisicao (MATTOS 2014).

A lenda negra das Inquisicoes impactou em estudos historicos posteriores a extincao dos tribunais. Um trabalho que problematiza tal questao e o de Fernandes (2011), defendendo que, tributaria a tal lenda, se desenvolveu uma longa tradicao de pesquisas historicas que repetem varios erros metodologicos decorrentes do foco excessivo nos processos, motivado pela identificacao do historiador com vitimas das perseguicoes. Tal problema e acompanhado pela negligencia dos pesquisadores nas leituras dos manuais e regimentos inquisitoriais. Estes, segundo Fernandes, sao fundamentais para se cotejar as informacoes dos processos com o pensamento juridicoreligioso de contextos da Idade Moderna (raciocinio que vale tambem para as Inquisicoes medievais). Com tais problemas, o historiador fica fadado a reproduzir linhas gerais da lenda negra, de forma acritica e panfletaria.

Porem, ha um problema analogo e de sinal inverso: ao nao se contextualizar (ou o fazer de maneira enviesada) deliberadamente os procedimentos e o pensamento juridico inquisitoriais, tambem pode-se incorrer numa lenda branca da Inquisicao, segundo a qual a empatia com a vitima se desloca para a exaltacao de uma suposta brandura dos tribunais. Sao os apologistas, nos termos de Fernandes. Embora o autor nao aprofunde na discussao sobre eles, livros como o de Aquino mostram que eles existem e sao relativamente numerosos. Pergunto se essa literatura nao pode ser tratada como um tipo de revisionismo ou negacionismo, ou, pelo menos, se aproxima deles em sua construcao logico-narrativa.

E necessario discutir os usos dos termos na historiografia, diferenciando-os, a forma que Pereira (2015, p. 865-866) fez, em artigo recente, sobre negacao, revisionismo e negacionismo, aplicados ao tratamento da memoria e do passado. O primeiro define uma contestacao da realidade, fato ou acontecimento, na qual percebe-se uma dissimulacao da factualidade que ou procura negar o poder de veto das fontes ou fabrica uma retorica com base em provas imaginarias e/ou discutiveis/ manipuladas; o segundo trata de uma interpretacao livre, que nao nega necessariamente os fatos, mas os instrumentaliza para combates politicos do presente; o negacionismo, por sua vez, seria a radicalizacao da negacao e/ou do revisionismo, a falsificacao do fato. Aquino, em Para entender a Inquisicao, recorre, como pretendo demonstrar, a uma construcao mais proxima da negacao e do negacionismo.

Sobre reelaborar e reescrever o passado, Adorno (1995, p. 29-31), em texto classico, coloca questoes fundamentais. Para ele, tal procedimento nao significa, necessariamente, reelaborar algo que passou a serio, rompendo seu encanto por uma consciencia, ou, noutros termos, disputar-se uma verdade ou um esclarecimento historico no ambito cientificoacademico, constituido segundo protocolos e criterios de verdade. Pode ser, porem, encerrar tal passado e reconta-lo de outra maneira. Constitui reduzir alguma questao que remeta a ele, como um trauma, injustica ou evento limite, de maneira a circunscrever nesse recontar a historia apagamentos de memoria, fazendo com que na narrativa historica haja uma reelaboracao completa do que se pensa sobre contextos e eventos passados, sobretudo naquilo se relacionam com culpas de grupos hegemonicos do presente. Adorno sintetiza linhas gerais daquilo que e possivel encontrar em narrativas historicas negacionistas ou revisionistas.

O termo revisionismo em si e, comumente, associado a formas mais ou menos radicais de se questionar pontos sensiveis relacionados a historia da II Guerra Mundial e ao Holocausto. Tem suas origens nos anos 1950, ganhando forca duas decadas depois com as publicacoes de Faurisson. Na decada posterior, publicacoes de Nolte e Hillgruber deram outro folego para essa discussao, ao apontarem duas tendencias para esses estudos, sendo uma para negar a realidade das camaras de gas e execucoes em massa, no primeiro momento e, num segundo, voltado mais propriamente ao apelo para um debate publico e aberto, desconsiderando tabus em torno dos temas. Neste ultimo caso, ha uma tendencia clara de se minimizar os crimes do nazismo ou relativiza-los, ainda que haja algum nivel de reconhecimento e condenacao deles; no primeiro, a negacao e falsificacao do passado sao mais claros (FONTE; LOUREIRO 2010, p. 88-92). A origem dos revisionismos e suas intencionalidades ja foram bastante analisadas pela historiografia em trabalhos como os de Vidal-Naquet (1988), para o qual ha um assassinato da memoria nessa operacao de apagamento e atenuacao de culpas remetentes ao passado. Sao ideias ja um tanto rediscutidas e com seus debates ampliados. Afinal, como mostra Pereira (2015, p. 878-880), a construcao de concepcoes que aludem a negacoes, negacionismo e revisionismos sobre o que aconteceu e como elas se cristalizam e dao sentido a acoes do presente, ao que servem e o que significam, englobam processos bastante amplos e repletos de nuances. Envolvem um entrelacamento de concepcoes e disputas sobre o passado, fundado, muitas vezes, em retorica que idealiza, distorce ou justifica acoes consideradas intoleraveis aos valores contemporaneos e milita pela autoabsolvicao de algum grupo, tornando-se parte constituinte de sua identidade.

Pereira complexifica pressupostos classicos de Vidal-Naquet ao discutir disputas de memoria tocantes a Ditadura Militar Brasileira, mas cumpre aqui perguntar se operacoes similares podem ser feitas em relacao a um passado mais remoto. Um apontamento que sugere resposta positiva a isso vem em artigo de Loureiro e Sandra Della Fonte (2010, p. 91), quando discute o uso politico-pratico de negacoes sobre o passado colonial brasileiro. Demonstram isso analisando caso referente a empresa Aracruz Celulose, acusada em 2006 de distribuir uma cartilha em escolas de uma regiao no interior do Espirito Santo, onde ha interesses conflitantes entre a empresa e demarcacoes de terras indigenas. Na cartilha, se diz que os indios Tupiniquins e Guaranis nao estavam la quando a Aracruz se instalou, nos anos 1970. A acusacao, alem de focar no teor racista e discriminatorio do material, aponta para a intencao contida de disputar uma versao do passado na qual a posse da empresa sobre aquelas terras e legitima, negando a expulsao violenta dos nativos.

Ainda sobre a historia colonial do Brasil, e notavel a critica que Venancio (2018) publicou sobre o Guia do politicamente incorreto da Historia do Brasil (2012). Para Venancio, as revisoes, negacoes e reelaboracoes do passado feitas no livro por Leandro Narloch sobre temas da colonizacao brasileira, como a afirmacao da suposta culpa dos africanos na escravidao negra ou a dos indigenas na destruicao da Mata Atlantica, minimizam violencias historicas do processo colonial e se articulam com posicoes neoliberais, refratarias a conquistas de direitos por essas populacoes e seus descendentes. Uma conclusao parcial que se pode tirar desses apontamentos e de que ha uma estrutura logica no negacionismo historico que e aplicavel a varias realidades, nao somente as recentes.

No Para entender a Inquisicao, tal operacao e muito clara. Na obra, se usam as relativizacoes e negacoes da violencia cometida pelos tribunais catolicos como meio para uma critica a valores modernos, ou ainda para desqualificar uma historiografia tomada por secular e anticatolica. Ha uma particularidade, no caso, que e a intencao explicita, talvez seu objetivo central, de se defender a doutrina catolica da Modernidade. O negacionismo historico, por essa via, vai ao encontro do conceito filosofico-teologico da apologetica.

Negacao e narrativa apologetica

Em termos filosoficos, apologetica e definida, grosso modo, como a defesa de algo atraves de argumentos. Assim, a apologia a alguem ou a algo seria usar de argumentacao para justificar ou defender suas acoes e/ou ideias. Um texto paradigmatico para tal definicao e a Apologia de Socrates, dialogo no qual Platao defende seu mestre (SCHULER 2002, p. 57). Aplicado a teologia, o termo define o resguardo da doutrina a partir de uma reflexao critica que tenta apresentar o conteudo da fe diante das exigencias da razao (FISICHELA 2003, p. 44-45). Empregando a apologetica a escrita da historia das Inquisicoes, formou-se uma tradicao intelectual de revisoes historica sobre elas desde o seculo XIX. Essa tradicao tem de fundo a ideia de que essa forma de mediar o acesso ao passado inquisitorial traz em si a propria defesa da doutrina catolica e de um ordenamento social segundo seus valores.

Segundo Marcocci e Paiva (2013, p. 449-468), no inicio do oitocentos se formou uma historiografia que se valeu de discussoes topicas como a da importancia das Inquisicoes para evitar as guerras de religiao nos paises ibericos e Italia, ou a que clamava pela necessidade de contextualizacao dos procedimentos inquisitoriais em sua epoca. Formouse uma tradicao historiografica que disputou espacos com uma outra tributaria da lenda negra. Essa historiografia foi motivada pelas disputas de memoria sobre o Antigo Regime, dentro da efervescencia politica daquele contexto. E o caso dos escritos de Joseph-Marie de Maistre (1852), importante contrarrevolucionario frances, que em texto apologetico sobre a Inquisicao ressalta tanto a necessidade de ela ser analisada criticamente conforme pensamento de suas epocas historicas, como tambem o devir historico dos tribunais na defesa de uma ordem e hierarquias sociais consolidadas. Tambem se desenvolveu uma vertente dessa historiografia em resposta a teses como as de Lea (1993, p. 531) e Herculano (2002) que atribuiram as Inquisicoes ibericas razoes para o atraso cultural, cientifico e economico de Espanha e Portugal. Destaca-se, ai, a obra de Menendez y Pelayo (1880, p. 197-412), que defendeu que os tribunais de fe foram o ultimo bastiao de resistencia da nacao espanhola e de sua tradicao catolica contra tendencias externas, como os efeitos das reformas protestantes e de correntes modernas como o jacobinismo e o enciclopedismo.

No seculo XX, aparecem novas discussoes topicas nessa escrita do passado inquisitorial. Um exemplo importante esta nas conhecidas Letters (2011), publicadas no contexto da II Grande Guerra por David Goldstein. Nas cartas 16, 17 e 18, se questiona a natureza preconceituosa das fontes que falam das perseguicoes inquisitoriais, alem de apontar a insistencia na narrativa de perseguidos pelas Inquisicoes como uma das causas da desagregacao e enfraquecimento das comunidades judaicas. Alem disso, Goldstein atribui uma origem na tradicao judaica dos fundamentos da perseguicao religiosa, que foram somente retomados pela Inquisicao. (1) Aquino, em blog no site da editora Cleofas (mesma do livro aqui analisado) publicou uma traducao parcial de uma das cartas de Goldstein, sob o titulo Por que ceus, um judeu como voce, haveria de se tornar Catolico? (2)

Martina, importante autor catolico e que escreveu a biografia do papa Pio IX, num dos volumes de sua Historia da Igreja Catolica (1974), menciona a importancia das Inquisicoes para o surgimento do processo investigativo criminal e do direito a defesa do reu, aspectos fundamentais ao direito liberal contemporaneo. Aponta, ainda, para uma relativa brandura dos tribunais de fe em relacao a justica secular, sobretudo entre a Baixa Idade Media e Idade Moderna. Martina endossa uma discussao topica bastante repetida na escrita apologetica as Inquisicoes, ao colocar nas palavras de Lea a afirmacao que se os cataros nao tivessem sido exterminados, certamente, a Europa voltaria a barbarie, (3) ressaltando uma possivel necessidade delas em nome da formacao do Ocidente cristao e da civilizacao.

Martina e uma das principais referencias de Aquino em Para Entender a Inquisicao. Porem, ha destaque maior de outra publicacao apologetica, de Joao Bernardino Gonzaga, intitulada A Inquisicao em seu mundo (1993). Ambas obras receberam imprimatur (aprovacao para publicar conforme os canones 824 e 832 do Direito Canonico) da diocese de Lorena, Sao Paulo. Essa obra, tal como a de Aquino, parte da mesma premissa de que a historia das Inquisicoes e usada como instrumento de ataque contra a Igreja catolica. A propria estrutura dos dois livros e muito semelhante e, como sera visto mais a frente, ha uma diferenca substancial nos capitulos finais.

De toda forma, o que se pretende frisar aqui e a insercao de Aquino e sua obra analisada numa tradicao ja longa de publicacoes apologeticas sobre a Inquisicao, constantemente atualizada. O autor busca frisar isso logo no inicio do livro, ao analisar o Simposio Internazionle di Studio sul Tema L'Inquisizione, realizado em 1998, promovido e organizado pela Comissao historico-teologica para a preparacao do Grande Jubileu, na qual o papa Joao Paulo II discursou na sua abertura (1998) e suas atas foram publicadas como livro (BORROMEO 2003). Aquino dedica um capitulo para falar do Simposio, dividido em dois subtitulos, e que e basicamente feito de citacoes, na maioria indiretas. De inicio, Aquino (2016, p. 20) destaca que se trata da reuniao de 30 renomados historiadores, listados ao final, conhecidos internacionalmente. As diversas citacoes, maior parte retiradas do portal catolico Zenit (4) e de fontes jornalisticas seculares como a Folha de S. Paulo (2004), destacam o reconhecimento da Igreja da necessidade de rever por sua propria inciativa os aspectos obscuros da historia da Inquisicao, "avaliando-os a luz dos principios do Evangelho". Completa, apontando que o objetivo do Simposio era o de fazer um correto juizo historico, sem prescindir dos condicionalismos culturais da epoca (AQUINO 2016, p. 21). Aquino conclui, citando o historiador Agostinho Borromeo, que o Simposio recolheu os elementos necessarios para fazer uma historia da Inquisicao [...] sem cair em preconceitos negativos ou na apologetica propagandista (AQUINO 2016, p. 22).

Na segunda parte da apresentacao sobre o Simposio, observase pouco rigor na separacao entre as Inquisicoes medievais e modernas, alem de haver grande destaque a numeros, segundo Aquino, baixos, de condenacoes a morte pela Inquisicao na Europa durante a Idade Media--o autor inclui ai numeros referentes as Inquisicoes Modernas de Espanha, Portugal e Italia. Esses numeros sustentam uma conclusao parcial, que, segundo o autor, "demoliram algumas ideias falsas sobre a Inquisicao". Que ideias falsas sao essas? Basicamente, um conjunto de pressupostos e informacoes que superdimensionam a violencia inquisitorial e que, como premissa do autor, predominariam na historiografia. Isso fica claro na mesma pagina em que fala sobre a caca as bruxas, na qual Aquino diz que alguns adversarios da Igreja falam absurdamente em milhoes de bruxas queimadas na fogueira, sem, no entanto, apontar nenhum historiador ou obra que tenha feito tal afirmacao (AQUINO 2016, p. 23). Mais a frente, retoma o ponto sobre a suposta afirmacao de que os tribunais do Santo Oficio tivessem vitimado milhoes de pessoas, mencionando Dan Brown, autor de best sellers polemicos como O Codigo da Vinci (2003), alem do prefacio escrito por Rose Muraro de uma versao em portugues do Martelo das Feiticeiras (AQUINO 2016, p. 122), no qual a autora nao faz tal afirmacao. O que Muraro diz (2016, p. 9-23) e que a construcao do feminino demonizado, observada no manual escrito por Sprenger e Kramer no seculo XIII, em grande medida, contribuiu para a producao de um arquetipo ligado a legitimacao de muitas violencias de genero que, ai sim, teriam vitimado milhoes.

Um falso problema--o suposto consenso na historiografia de que Inquisicao matou milhoes--, somada a comparacao de numeros de condenados sem um devido tratamento qualitativo, alem da assercao de que, sem duvida, este simposio representa o que ha de mais atual e historico no estudo da Inquisicao (AQUINO 2016, p. 24) formam o ponto de partida do Para entender a Inquisicao. Aquino apresenta o Simposio e suas atas como sendo uma referencia mais isenta e neutra em materia de criterios cientificos que as estudadas anteriormente, contaminadas por sentimentos contrarios a Igreja romana. Assim, logo de inicio, se introduz o argumento de que existiria uma historia verdadeira ou secreta das Inquisicoes que o leitor tera revelada para si nas paginas seguintes.

Aquino recorre, na imensa maioria das vezes ao longo da obra, a citacoes de autores catolicos. Por exemplo, nas referencias bibliograficas sao listados 46 artigos da revista Pergunte e Responderemos, criada e editada pelo beneditino Dom Estevao Bettencourt, publicados entre 1961 e 2004. Tal periodico se apresenta como a primeira revista apologetica do Brasil. (5) Todavia, a obra nao prescindiu de mencoes a autores de fora desse nicho. Aquino cita, por exemplo, Francisco Bethencourt e sua Historia das Inquisicoes (2000) na bibliografia, embora nao apareca nenhuma mencao ao mesmo autor e obra no corpo do texto, alem de classicos como Henry Charles Lea e mencoes a um trabalho de Sonia Aparecida Siqueira, pesquisadora referencia sobre estudos inquisitoriais no Brasil. No capitulo sobre a Inquisicao Portuguesa, sua argumentacao e feita inteiramente organizandose uma sequencia de citacoes do artigo publicado pela autora (1996) na Revista do Instituto Historico Geografico Brasileiro, que acompanhou a transcricao dos regimentos do Santo Oficio de Portugal. Todas sao feitas indiretamente, por meio de um artigo de Dom Estevao Bettencourt, publicado na 460a edicao da Pergunte e Respondemos (AQUINO 2016, p. 186-196).

E recorrente, quando Lea e citado, Aquino frisar um possivel anticatolicismo do autor estadunidense. Por exemplo, no subcapitulo sobre a Cruzada contra o Albigenses, Aquino (2016, p. 93) afirma que "ate mesmo o historiador protestante Henry Charles Lea, avesso a Igreja (catolica)", teria endossado seu argumento de que a supressao dos cataros seria necessaria para se preservar a paz e seguranca na Europa, no seculo XIII, citando-o, tambem, indiretamente, atraves do terceiro volume do livro de Daniel-Rops, A Igreja das catedrais e das cruzadas. O mesmo procedimento se nota em outras citacoes indiretas de Lea e de Bartolome Benassar, retiradas da obra de Gonzaga, no subtitulo sobre o inquisidor espanhol Tomas de Torquemada. Nelas, Aquino defende o argumento de que a imagem negativa do famoso inquisidor geral do tribunal de Castela se deve a propaganda protestante, a erros da historiografia e, tambem, a abusos da monarquia na jurisdicao papal sobre os tribunais de fe. O autor sempre reforca que a nao ligacao de tais historiadores ao catolicismo os torna insuspeitos em afirmacoes que concordam com pontos centrais de seu livro (AQUINO 2016, p. 172-185). O que se percebe e que, apesar de o fundamento central da obra ser o de se revelar uma historia verdadeira e revisada da Inquisicao ao leitor, que foi historicamente ocultada por uma historiografia hegemonicamente secular e anticatolica, o recurso a essa ultima tem uma funcao indispensavel. Colocar nas palavras de historiadores seculares argumentos que sustentem sua apologia a Inquisicao e a doutrina catolica constroem, na narrativa, um efeito de verdade, vincado a nocao de neutralidade.

A discussao feita por Ankersmit (2001) acerca da posmodernidade, destacando as implicacoes sobre o acesso ao passado pela escrita e pesquisa historica pos-modernas e as consideracoes que fez a respeito da importancia da estetica na construcao dessas narrativas, traz alguns pontos que servem a reflexoes importantes sobre o livro de Aquino e obras similares. Em termos de implicacao ontologica quanto ao passado historico dessa forma de analise, Ankersmith diz que a multiplicidade de maneiras de narrar fatos e contextos passados faz com que o passado, propriamente, passe a ser entendido pelo historiador nao mais enquanto acessivel na sua totalidade, mas como apreensivel somente por meio de linguagem e construido enquanto discurso. Tal entendimento sobre alcance do conhecimento sobre o passado assume o lugar de sua abordagem enquanto coisa em si, em termos de hierarquia do que se analisa. Diante disso, a agudez, o estilo e a forma como se constroem narrativas historicas nao sao vistos mais como dissociados do seu conteudo. Eles produzem efeitos de verdade no texto, dentro de uma conjuntura em que objetivismo das grandes narrativas perde relevancia. O Para entender a Inquisicao apresenta uma construcao possivel sobre o passado inquisitorial, feita do ponto de vista apologetico. Sua forma de argumentacao busca criar ao leitor um efeito de acesso a um passado heuristico, ocultado por uma producao historica cujas analises sao, via de regra, turvadas por ideologias. E como se o leitor do livro de Aquino fosse convidado a ler uma grande narrativa, mas uma que seja alternativa aos canones classicos anticatolicos. Um passado total, mas oculto sobre a Inquisicao. A estetica da construcao narrativa adotada na obra, intercalando textos apologeticos com canones seculares do tema (ainda que citados indiretamente e lidos de maneira enviesada ou mesmo falsificada/distorcida, como o mencionado caso de Lea), tornase parte do conteudo dos argumentos que negam violencias do passado inquisitorial ou as minimizam como produtos de antipropaganda e/ou interferencias externas.

Cabe, tambem, questionar qual uso que esse tipo de mediacao com o passado inquisitorial, feita por Aquino, possui numa dimensao publica. Parte da resposta pode estar no ensaio feito por Rusen (2009, p. 168-170) sobre usos e sentidos do passado, pensando em categorias como memoria e consciencia historicas. Para ele, ha diferenca entre a memoria, constituinte de um passado que confere orientacao cultural a individuos e sociedades, e os procedimentos racionais do pensamento pelos quais o conhecimento do que aconteceu de fato e constituido criticamente. Esses procedimentos, tradicionalmente se interessam pelos modos de fazer e manter o passado no presente, nao estando necessariamente preocupados com a inter-relacao cultural entre memoria e expectativa e, por isso, ignoram o papel que as intencoes para o futuro colocam nas representacoes do passado. Porem, a narrativa historica, que constitui uma mediacao do acesso ao passado pelo presente, interseccionando a construcao critica da narracao do que aconteceu com memorias e expectativas do presente, conflui, de certa maneira, com a criacao de uma consciencia historica, que inclui em si a racionalidade dos mecanismos de producao de sentido do espirito humano, especialmente interessado nos modos de representacao que dao ao passado uma forma distintiva de historia (enquanto ciencia). Alem disso, essa consciencia historica tematiza o impacto da historia nas perspectivas futuras da vida humana. Tomando tais pontos, e possivel pensar que o Para entender a Inquisicao empreende uma construcao narrativa do passado inquisitorial com intencionalidade de conferir uma orientacao cultural e identitaria a grupos do presente, interessados numa autoabsolvicao quanto a possiveis problemas eticos de acoes da Igreja catolica, no presente e no passado. Ao mesmo tempo, toca a constituicao de sentido historico a um ideal de sociedade norteado por uma idealizacao de um passado medieval, orientado pelo e para o catolicismo.

Inquisicao e a Idade Media

Para entender a Inquisicao, segundo Aquino, e necessario analisa-la em seu tempo. E o tempo da Inquisicao e, na obra, a Idade Media, ainda que o termo corresponda uma caracterizacao mais valorativa que cronologica. Por exemplo, Aquino toma por Inquisicao quaisquer sistemas de punicao de diferenca religiosa empreendidos por Estados ou por grupos confessionais ou seculares em qualquer epoca. Assim, os valores da epoca--ou termos similares que Aquino usa ao se referir ao pensamento juridico e a principios etico-morais e religiosos do todos os periodos em que houve atuacao do Santo Oficio--acabam por se aplicar as justificativas de acao dos tribunais de fe medievais e modernos, catolicos e protestantes. Isso fica claro quando se observa que, apesar de se vincular a origem e a justificativa das Inquisicoes no direito, nos costumes e nos valores medievais, ha, na sequencia, capitulos sobre as inquisicoes da Espanha, de Portugal e Italia (AQUINO 2016, p. 153-185; p. 124-128), bem como sobre uma Inquisicao Protestante, (6) dentro da qual inclui um subtitulo chamado Massacres brasileiros, que trata de perseguicoes a catolicos por protestantes invasores franceses e holandeses durante a colonizacao, bem como de "martires eclesiasticos", mortos no processo de catequizacao de nativos, instigados por invasores que professavam confissoes reformadas (AQUINO 2016, p. 213-215). Ha tambem capitulos dedicados aos casos famosos, como os de Galileu, Giordano Bruno e a Noite de Sao Bartolomeu (1572), sendo os dois primeiros referentes aos tribunais da Inquisicao romana moderna, e o ultimo aos conflitos de religiao na Franca do processo das Reformas (AQUINO 2016, p. 226-238; p. 256-261; p. 262-267).

Como foi dito, a caracterizacao do periodo medieval no Para entender a Inquisicao tem caracteristica valorativa mais evidente que a cronologica. Aquino, assim como sua principal referencia, Gonzaga, segue uma concepcao de medievo muito tributaria a utilizada pelo historiador, romancista e ensaista catolico frances Henri Jules Charles Petiot, que assinou maior parte de sua obra como Daniel-Rops. Tal concepcao aparece na sua monumental obra Histoire de l'Eglise du Christ, publicada em dez volumes entre 1948 e 1965. Alguns apontamentos feitos por Sorrel (2000, p. 672) a respeito da obra de Rops devem ser mencionados de maneira a entender parte da argumentacao feita por Aquino. Primeiramente, a concepcao de historia de Rops que, segundo Sorrel, deveria ser propositiva e prescritiva antes de cientifica--uma historia-licao. Assim, sua apologetica deve buscar edificar seus leitores segundo principios morais que o autor considera positivos sem prescindir de rigor e protocolos academico-cientificos, mas abrindo-se mao de um objetivismo, considerado contraproducente para o fim primeiro da narrativa historica. Alem disso, em Historia da Igreja Catolica, Rops (1991; 1993) nao abria mao de algum providencialismo, ao considerar pontos convergentes ao dogma na sua analise do passado, como a imutabilidade da Igreja em relacao as vicissitudes do tempo, o que provaria sua santidade e eternidade--ponto reafirmado por Aquino (AQUINO 2016, p. 62).

Acerca da concepcao de Rops sobre a Idade Media, varias vezes mobilizada pelo autor do Para entender a Inquisicao, importa aqui sintetizar alguns pontos gerais. Eles aparecem especialmente no terceiro volume da traducao para a lingua portuguesa da obra de Rops, o mais citado por Aquino, embora tambem haja mencoes ao segundo. Sao tres os pontos centrais: a) uma concepcao valorativa ambivalente sobre a Idade Media, pois, ao mesmo tempo que ela encerra barbarie, violencia e incivilidade, tambem e uma era do florescimento da civilizacao ocidental na medida em que e domada pelo catolicismo, formando o Ocidente cristao, sendo a Inquisicao parte desse processo. Isso explica um certo fatalismo historico, ao atribuir ao Santo Oficio tanto o papel de impedir o regresso a barbarie, como de ser marco civilizatorio do direito; b) admitese que houve violencia no processo ambivalente anterior, mas se isenta a Igreja catolica da mesma. A violencia e sempre produto de ingerencia das autoridades regias sobre assuntos eclesiasticos e inquisitoriais, de falhas isoladas do clero ou sao explicaveis, de maneira geral, tanto pelos valores da epoca, quanto pelas sobrevivencias do barbarismo no processo civilizatorio conduzido pela Igreja; c) ha uma caracterizacao da Europa ocidental entre o ano 1000 e o seculo XIV como a Primavera da Cristandade, quando o continente e civilizacao ocidental experimentaram seu auge de unidade, prosperidade, efervescencia cultural e cientifica, sempre guiados pela Igreja catolica e que, na medida em que se aproximou do Renascimento, conheceu sua decadencia, crescente e constante dali ate a contemporaneidade. Triunfalismo e decadentismo, juntamente, formam tal concepcao ambivalente da historia que tem um Ocidente catolico, idealizado no passado medieval.

Essa construcao da Idade Media aparece na explicacao de Aquino sobre como os tribunais do Santo Oficio foram aceitos plenamente em sua epoca. A principio, a obra apresenta o periodo medieval marcado pela precariedade, fervor religioso e violencia. Nas palavras do autor, a vida do homem medieval era de "muitos sofrimentos", pois "as condicoes materiais eram aflitivas", e "sabemos que o sofrimento coletivo e uma escola de vicios". Completa, afirmando que no seculo XI:

Diariamente essa gente via surgir bandos de barbaros normandos, de sarracenos, grupos de hungaros (magiares), destruindo aldeias, incendiando cidades, matando gente de toda a forma. Imperava ainda o barbarismo das segundas invasoes barbaras [sic]. Soldados mercenarios assaltavam e roubavam; e as frequentes guerras e crises na agricultura traziam bandos esfomeados para as cidades. E nao havia policia como hoje, patrulhando e mantendo a ordem (AQUINO 2016, p. 55).

A isso, segue uma descricao das pestes, comuns, segundo ele, pois a desnutricao e a falta de higiene causavam os horrores das epidemias que levavam a enterrar os mortos em valas comuns, criando-se um homem acostumado com a morte. Aquino ainda aponta que a expectativa de vida no medievo variava de 20 a 25 anos e que a "cada periodo de mais ou menos dez anos uma peste se repetia matando de 20% a 40% da populacao", embora nao cite a fonte desses dados (AQUINO 2016, p. 56-57).

Suas descricoes sao repletas de detalhes que ressaltam um clima violento e miseravel, no qual se produziu um homem insensivel a violencia e embrutecido pelo constante contato com a morte. Dessa forma rude de viver e ver o mundo surgiu um sistema penal tao duro quanto essa sociedade, na qual os procedimentos inquisitoriais eram plenamente aceitaveis. Seguindo significativamente as analises de Gonzaga (1993, p. 21-65), Aquino (2016, p. 105-107) descreve que do barbarismo do homem medieval surgiu uma justica chamada de feudal, sem presuncao de inocencia ou garantias aos acusados, baseada em sistemas como os ordalios e os duelos, dependentes sempre do arbitrio do senhor feudal e fortemente explicada pelo fervor religioso dos povos.

Porem, dialogando mais diretamente com Rops, Aquino desvia do mito da Idade das Trevas, de maneira ate mesmo a inverte-lo, transformando a Idade Media, ou parte dela, numa Idade do Ouro, com a Igreja catolica sendo sua guia. A violencia anteriormente apresentada formou um arquetipo de homem que possibilitou a Europa e a Cristandade conquistarem o mundo. Aquino diz que:

O homem da Idade Media era acostumado com esse sofrimento, isso fazia parte de sua vida; mas isso nao impediu que fosse grande o desenvolvimento das artes, da musica, da arquitetura, da escultura, da literatura, do teatro e das universidades, tudo impulsionado pela Igreja [catolica] (AQUINO 2016, p.57).

Numa epoca que, segundo Aquino, "tudo era por Deus e para Deus", todos os campos do pensamento floresciam sob a tutela da Igreja, que teve o papel de civilizar a populacao europeia, anestesiada pela precariedade e ainda herdeira de costumes barbaros. Assim, foi possivel levar tal ideal civilizatorio, formado pela Cristandade medieval, para o restante do mundo--num dos raros momentos do livro em que Aquino separa a Idade Media da Moderna com mais rigor:

Esse impulso ao conhecimento cientifico e tecnologico continuou nos seculos seguintes: no inicio do seculo XVII a Europa contava com 108 Universidades, enquanto o resto do mundo nao havia uma so [...]. Isso poe um problema ao historiador. Por que e que o desenvolvimento ocorreu somente em area crista, e nao fora desta? Por que, hoje ainda, dos dez paises mais evoluidos e ricos do mundo nove sao de tradicao crista? [...]: ha na mensagem crista alguma coisa que leva os germens do desenvolvimento e do progresso. A antropologia da Biblia exalta o homem e o poe no centro do universo. Alem disto, pregando a igualdade, ele cria uma sociedade livre, sem barreiras sacrais ou de castas; nao ha, pois, como se surpreender se, alimentado por tal mensagem, o europeu conquistou o mundo (AQUINO 2016, p. 33).

Conclui que "sem esta nossa maravilhosa Europa, o mundo, como conhecemos, nao existiria". Essa conclusao do autor sobre o Ocidente cristao acaba por direcionar seu argumento apologetico, conectando a Idade Media das trevas a de ouro, tendo a Igreja como catalizador da transformacao de uma na outra. O Santo Oficio foi, para ele, um instrumento dessa transformacao.

Aquino, em algumas passagens, fala do historico de a Igreja nunca ter sido favoravel as conversoes forcadas, nem a penas a hereges. Tambem, que tais conversoes forcadas eram feitas somente pela autoridade civil. Aqui ha uma aparente contradicao, que e explicavel pela natureza apologetica do texto: ao mesmo tempo em que Aquino menciona o entendimento de que o Estado tambem zelava por assuntos religiosos baseado na teoria das duas espadas, e que a tolerancia religiosa era considerada indesejavel e prejudicial ao bem comum dos suditos (AQUINO 2016, p. 79-84; p. 28), o autor separa a acao e a decisao eclesiastica e, sobretudo papal, quanto aos assuntos da Inquisicao. Em outras palavras, injusticas puderam ser cometidas pelo Santo Oficio enquanto estivesse sujeito a interferencia dos monarcas, mas nunca por algum erro de julgamento de Roma. Por exemplo, atribui ao Estado e ao rei Felipe IV, o Belo, a condenacao dos templarios, ressaltando mesmo uma oposicao a ela feita pelo pontifice. Operacao similar em relacao a Joana D'Arc (AQUINO 2016, p. 216-225; p. 239-255).

Quando Aquino, enfim, analisa os erros cometidos por inquisidores, apresenta-os como "pecados dos filhos da Igreja", pelos quais a Santa Se nao e responsavel, dada sua natureza individual (AQUINO 2016, p. 130). Dentro da narrativa, esse ponto e reforcado, ao se reafirmar os dogmas da imutabilidade e infalibilidade da Igreja (AQUINO 2016, p. 17).

Para Aquino (2016, p. 100-110), concordando com Gonzaga (1993, p. 45-46; p. 79-91), a Inquisicao, apesar da mencionada resistencia catolica a quaisquer violencias em nome da religiao, foi produto de uma epoca de ouro da Cristandade e teve um papel fundamental para a construcao do Ocidente, em dois processos distintos e concomitantes. No primeiro, ela civiliza o direito feudal atraves do direito canonico, que teria introduzido garantias individuais, presuncao de inocencia, apuracao de delitos e penas mais brandas que a justica civil. Dessa forma, explica o autor, a Inquisicao foi um tribunal que "ajuda o herege", pois tende sempre a absolve-lo para a sua reconciliacao (AQUINO 2016, p. 98), contrariamente a "fabrica de culpados" descrita e analisada por varios historiadores sobre a Inquisicao (BENNASSAR 1979; SARAIVA 1994). No segundo, o Santo Oficio teria protegido a Cristandade de se afundar na barbarie que a ameacava, como no caso do catarismo, descrito como "seita revolucionaria" que objetivava destruir a Igreja, a que chamavam "sinagoga de Satanas", que rejeitavam a sua tradicao, moral, e dogmas, criando, segundo Aquino, um clima de guerra de religiao de ambos os lados. Estes lados seriam a Inquisicao, para proteger o Ocidente cristao catolico dos vicios, imoralidades e crimes dos cataros; e, de outro, os proprios, movidos pela heresia, em "bandos fanaticos, as vezes apoiados por nobres senhores que provocavam tumultos, ataques as igrejas e fazendas, na Franca, Italia, Alemanha, Paises Baixos [...]" (AQUINO 2016, p. 72-74). Importante frisar, ainda, que a violencia, licenciosidade sexual e mesmo invocacoes do demonio, feitas pelos cataros, segundo a descricao de Aquino, teriam sido enfrentadas pela Igreja, a principio, com missoes pastorais, e que o uso da forca veio com maior vigor da autoridade civil, aqui, separando funcionalmente as coroas e a Igreja, quando o assunto e a violencia inquisitorial.

Assim, a negacao de qualquer culpa da Igreja quanto a violencias e crimes que as Inquisicoes tenham cometido mistura-se no Para entender a Inquisicao com uma exaltacao dos tribunais religiosos como meios necessarios a construcao da civilizacao e evitar-se o retorno ao barbarismo. O negacionismo e o fatalismo historico, assim, encontram-se. Por outro lado, a mentalidade da epoca ou qualquer necessidade de protecao contra ameacas politico-religiosas sao muito menos destacadas quando o autor analisa a "inquisicao" protestante, na qual inclui perseguicoes religiosas empreendidas por anglicanos, calvinistas e luteranos, assim como quaisquer perseguicoes que tenham os catolicos no lado perseguido.

Existe uma clara diferenca nas justificativas e na mobilizacao de aspectos atenuantes de violencia. Em suma, sua caracterizacao da Idade Media--que vale tambem para a Moderna--ambivalente, ora barbara, ora dourada e guiada pela Igreja, serve na sua argumentacao para reforcar o papel civilizatorio da Igreja de Roma e da Inquisicao, mas tambem para destacar culpas de seus detratores. De fundo, ainda prepara a narrativa para seu climax: a critica ao Mundo Moderno.

Contra um mundo moderno em ruinas

Ao final do Para Entender a Inquisicao, Aquino desenvolve de maneira mais direta a resposta a questao colocada logo na Introducao, quando diz que narrativas do passado que condenam os procedimentos inquisitoriais sao movidas por um "moralismo historico", derivado de modernas opinioes politicas ou religiosas abracadas (AQUINO 2016, p. 14), incoerentes, segundo ele, com o fato de que:

Nosso seculo nao tem a minima autoridade moral para condenar a Idade Media e a Inquisicao; pois mesmo nos seus piores momentos, ela nao pode ser comparada com os horrores dos regimes totalitarios do seculo XX: a Primeira Guerra mundial matou cerca de 16 milhoes de pessoas; a Segunda fez 50 milhoes de vitimas; o nazismo assassinou 6 milhoes de judeus e o comunismo ateu levou a morte milhoes (AQUINO 2016, p. 272).

Nesse ponto esta a diferenca mais substantiva na organizacao da obra de Aquino com a de Gonzaga, que nao dedica partes especificas inteiras as questoes relacionadas ao presente. A pergunta colocada por Aquino, sobre se, do ponto de vista moral e etico, a modernidade pode condenar as Inquisicoes, tem por objetivo fomentar uma discussao etica no presente. Tal apontamento, desdobro num segundo: para o autor, estariam aqueles que defendem valores considerados modernos (tolerancia, igualdade, liberdade, etc.), estejam em quais grupos estiverem ou seguindo quais ideologias modernas seguirem (comunismo, socialismo, liberalismo, pos-modernismo, esquerdas, etc.), na contemporaneidade, aptos, do mesmo ponto de vista, a julgar a Inquisicao ou a Igreja catolica? O autor responde negativamente a isso, produzindo algum sentido historico para a rejeicao sistematica desses valores e ideologias, com todas as implicacoes etico-politicas que isso traz em si. A meu ver, tal uso do passado deveria provocar ao historiador sobre as Inquisicoes, em particular, e tambem noutros que se dedicam a temas de contextos pre-Revolucao Industrial, no geral, a reflexao sobre tais usos da historia.

Nesta altura do livro, Aquino foca no que denomina Outras Inquisicoes, partindo de outro falso problema segundo o qual a historiografia nao se dedica criticar, com a mesma veemencia que faz com a Inquisicao, outros grupos, eventos e contextos marcados por assassinatos, perseguicoes ideologicas e outras violacoes aos direitos humanos. O autor tenta demonstrar seu argumento, apontando que crimes cometidos no periodo do Terror, da Revolucao Francesa, pela Klux Klux Klan, nos EUA, ou as acoes contra as religioes feitas por governos revolucionarios motivados por um "comunismo ateu" na Uniao Sovietica, Cuba ou Camboja foram exponencialmente maiores que os atribuidos aos tribunais catolicos. Contudo, ao contrario desses, contariam com alguma absolvicao dos historiadores (AQUINO 2016, p. 272-277). Esses contextos e fatos, aos quais Aquino se refere como inquisicoes modernas, sao exemplificados em subtitulos em que o autor destaca perseguicoes a catolicos, construindo outro argumento importante: que os seguidores da Igreja de Roma sao, contrariando o que diz a historiografia secular, as maiores vitimas das perseguicoes religiosas, nao seus maiores culpados.

Aquino fala de uma Inquisicao japonesa, referindo-se aos missionarios portugueses que foram mortos no seu processo de expulsao do Japao, no seculo XVII (AQUINO 2016, p. 282), sendo esse o unico subtitulo, no capitulo, que nao trata do seculo XX. No titulo A Inquisicao espanhola do seculo XX, o autor se refere a Guerra Civil (1936-1939), na qual, segundo ele, as grandes vitimas foram os catolicos, pois "o odio a Igreja e aos fieis cresceu tanto que os assassinatos foram monstruosos por parte das autoridades do Estado, agentes comunistas e sindicalistas anarquistas". Tambem chama de Inquisicao mexicana uma "orientacao anticrista do Estado" do Mexico, que se cristalizou na Constituicao de 1917, mas que se estende a tudo que aponta como efeitos da secularizacao do pais apos a Revolucao de 1911, com acoes diretas contra bispos, padres ou ordens religiosas colocadas no mesmo patamar que a laicizacao da educacao, cemiterios e outros. Ao fim, no item As Inquisicoes, hoje, no Oriente, perseguicoes a catolicos em paises do mundo islamico e da Asia, como Mianmar e India, sao enumeradas, tendo como fonte de suas informacoes portais apologeticos catolicos (AQUINO 2016, p. 277-286). (7) Aquino conclui que:

Houve muitas "inquisicoes" no passado longinquo e no passado recente, mas so se fala daquela que envolveu a Igreja Catolica na Idade Media. Esta nao foi a unica e nem a pior de todas. Houve muitas que julgaram pessoas e as condenaram a morte pelo "crime" de defenderem suas ideologias ou crencas julgadas intoleraveis contra os "dogmas" do Estado. Essas "inquisicoes" ideologicas de varios tempos, fizeram muito mais vitimas, em nome dos seus intocaveis dogmas do laicismo, que a tao falada Inquisicao que aconteceu nos paises catolicos (AQUINO 2016, p. 281, aspas do autor).

Aquino, entao, fecha sua narrativa de maneira que as concepcoes negativas sobre a Inquisicao sao atenuadas e/ou negadas, alem de os proprios tribunais catolicos terem uma importancia para a construcao do Ocidente cristao (idealizado) fortemente exaltada. A isso se soma a afirmacao de haver uma negligencia dos historiadores ao nao condenarem perseguicoes empreendidas pelos dogmas laicos, a maneira que fazem com a Inquisicao. Tal operacao da a entender dois aspectos importantes: primeiro, que a modernidade secularizada comete atrocidades em funcao de suas doutrinas, e elas sao infinitamente piores que quaisquer outras atribuidas a ordem pre-moderna, conduzida pela Igreja catolica; segundo, que o moralismo historico dos que escrevem tradicionalmente sobre o passado e que predomina na condenacao da Inquisicao e da Igreja catolica e derivado da mesma modernidade e suas ideologias, naturalmente inimigas do catolicismo. Essas ideologias sao, mais que isso, fatores de degradacao da humanidade e de todas as sociedades. E possivel depreender da narrativa de Aquino algumas intencionalidades e usos praticos do passado (WHITE 2014, p. 3-24) que indicam, ao menos por alto, funcoes no debate publico das narrativas historicas para defender a Inquisicao ou similares.

Negacoes do passado, rejeicoes no presente e o papel do historiador

Na pagina Medieval Guido MXCVII, no Facebook, foi publicado em 31/10/2018 um meme que contem templarios carregando tochas em torno de uma sombra feminina voando em uma vassoura, uma bruxa. Nele ha uma mensagem dizendo "Feliz dia das bruxas" (Figura 1). Na postagem original, ha uma legenda que acompanha a imagem que diz "A todas as netas das bruxas desejamos os nossos votos de calor e afeto". E possivel identificar em publicacoes como essa um sinal de que alguns pontos ate aqui analisados de narrativas negacionistas-apologeticas como a de Aquino sao relativamente difundidos, cristalizados e apropriados. Alude-se, no meme, ao slogan feminista de que elas seriam "as bruxas que os inquisidores nao conseguiram queimar", misturado a um cliche sobre as Inquisicoes (queima as bruxas). Ha clara valoracao positiva do ultimo, ironizando e rejeitando o primeiro, o que aponta para o fato de que negacoes e falsificacoes do passado inquisitorial tenham, ai, servido de substrato a guerras culturais contemporaneas.

Entre medievalistas, tem se discutido com afinco como que leituras/negacoes de um passado pre-moderno podem servir de arcabouco para a formulacao de discursos politicoideologicos no presente. E o caso do ensaio de D'Arcens (2014, p. 11-18) a respeito do humor contemporaneo inspirado em cenarios medievais. Analisando os filmes L'armatta Brancaleone (1966) e Brancaleone ala Crociate (1970), renomadas comedias italianas, a autora, cruzando narrativa e referencias contidas nela com entrevistas do diretor Lorenzo Codeli, declarado socialista e antifascista, demonstra como a satira sobre a Idade Media, usando o ridiculo e a inversao de posicoes entre o europeu e o barbaro, serve de contraponto critico ao conservadorismo europeu, sobretudo no que toca a xenofobia. Mais recentemente, ha outro debate a respeito do fato de haver uma proliferacao, em grupos supremacistas nos Estados Unidos, de alusoes em seus nomes a termos como cruzadas, cavaleiros e outros associados imageticamente a Idade Media, e como isso funciona na construcao de sentidos historicos a grupos de extrema direita, nas suas formacoes identitarias (SYMES 2017; FRANKE 2017).

Assim, nao e estranho que negacoes e falseamentos da historia da Inquisicao, na forma tomada por Aquino, muitas vezes aparecam em publicacoes conservadoras diversas, articulando tal concepcao do passado com ataques a agendas progressistas. E o caso do uso do Para entender a Inquisicao como referencia pelo jornalista Reinaldo Azevedo (2012), entao ligado a revista Veja, no artigo E os milhoes mortos pela Santa Inquisicao? perguntam. E eu respondo. Azevedo se dirige a feministas, dizendo que "nao se aprende nos colegios e nos cursinhos" a contextualizar as Inquisicoes em seu tempo, como se nao houvesse "diferenca entre praticas do seculo 17 e do 21!". O jornalista cita Aquino, Gonzaga, Rops e outros fundamentando sua defesa da brandura dos tribunais inquisitoriais, alem do superdimensionamento de sua violencia nas narrativas historicas sobre eles em funcao de agendas de esquerda. Noutra publicacao, assinada por Emerson de Oliveira no blog Logos Apologetica e direcionada contra militancias ateistas, o trabalho de Aquino e referenciado para responder sobre o numero de mortos pelo Santo Oficio, em A Inquisicao e a Igreja Catolica--respostas aos criticos. (8) Tais criticos, no caso, seriam agendas secularistas, laicistas ou ateistas modernas.

O mesmo acontece na reproducao da discussao topica de haver distorcoes feitas pela historiografia sobre uma verdadeira historia da Inquisicao. E o caso do texto A verdadeira face da Inquisicao e os fatos manipulados pelos livros de historia, publicado no portal Catolicismo Romano e assinado por Monica Romano, apresentada como catequista no post. (9) Identico tom e adotado pelo proprio Aquino em seu blog, no portal da editora Cleofas, em texto que propoe fazer esclarecimentos sobre a historia inquisitorial. Seu primeiro subtitulo, Nao, o seu professor anticlerical e marxista nao contou a voce a historia real, documentada e objetiva, (10) e bem explicativo: o autor defende que a objetividade, necessaria a se alcancar a verdade historica sobre a Inquisicao, e encoberta pelo anticlericalismo e marxismo--aqui, tomado como sinonimo a qualquer tipo de agenda progressista--dos professores de historia e historiadores academicos. Por essa via, os acessos tradicionais ao conhecimento sobre passado sao questionados (ou sumariamente rejeitados?) em processo coevo a recusas de ideias e ideologias tidas por modernas. Importante, ainda, frisar a difusao dessas discussoes em varios programas de redes de televisao catolicas. (11) Assim, autores como Aquino podem ser, para alem da atualizacao contemporanea das narrativas negacionista-apologeticas sobre a Inquisicao, um elo entre a tradicao intelectual de escrita negacionista sobre os tribunais e as guerras culturais proprias do seculo XXI, marcadas pela reafirmacao de conservadorismos em diversos ambitos que tem um anti-intelectualismo como um dos meios de acao.

Diante disso, fica a pergunta a respeito de como o historiador pode lidar com esse tipo de narrativa do passado. Nicolazzi e Caroline Bauer (2016) apontam para duas questoes substantivas a serem tidas em conta diante de narrativas como a feita por Aquino: em primeiro lugar, e necessario o entendimento de que mentiras, amparadas com dados que podem ser falseados, enviesados ou distorcidos, podem assumir, em determinados espacos de circulacao, status de verdade; em segundo, que nao necessariamente tais dados precisam ser distorcidos ou falseados, mas podem ser organizados e performados de maneira a repercutirem mais amplamente, reforcando seu carater constituinte de identidades e de regimes de verdade. Assim, a refutacao baseada na critica academico-cientifica contra autores como Aquino, feita por historiadores profissionais, torna-se ao mesmo tempo ingenua e insuficiente. Ha dimensoes mais complexas na disputa por espacos e publicos, em relacao a suas verdades sobre o passado, com esse tipo de negacionismo. Nesse ponto, concordo com as observacoes de Araujo (2017, p. 191-216) sobre usos da historia na contemporaneidade, que propoe que a historiografia, entendida como o espaco privilegiado do historiador contar a historia baseada na analise critica e metodica de fontes e bibliografia, deixe de pensar-se como espaco irradiador de conhecimento historico, para ser um locus de acolhimento de outras narrativas. Assim, ela poderia lidar com um pressuposto basico das relacoes humanas: que todos os grupos e individuos, sendo historicos, tem um direito de produzir e apresentar suas proprias narrativas sobre o passado. Obras como a de Aquino nao deixam de suprir demandas por passado de grupos catolicos ultraconservadores que, como quaisquer outros, possuem esse tipo de anseio.

Ainda em concordancia com o mesmo trabalho de Araujo, e fundamental estabelecer parametros eticos, como o compromisso com a honestidade intelectual, verdade historica, direitos humanos e liberdades democraticas nesse acolhimento de narrativas. Parametros os quais Aquino claramente nao cumpre, importante frisar. As respostas a respeito de como se fazer isso em termos de pensamento critico nao sao faceis, estao em aberto e colocam questoes sobre todo o circuito de uma producao de conhecimento do passado, envolvendo sua escrita--por profissionais ou nao--, as midias em que circulam--livros, revistas, web 2.0 etc.--alem de sua recepcao e usos numa realidade cada vez mais complexa de narrativas fragmentadas e, por vezes, precariamente conectadas (MALERBA 2017, p. 135-174). No caso dessa forma de narrar a historia do Santo Oficio, fica ainda a necessidade de compreender os regimes de autonomia e producao de verdades aceitas como legitimas pelos publicos atingidos por Aquino ou a rede Cancao Nova. Compreender seus circuitos de producao, sua estetica de apresentacao e disputas por reconhecimento e legitimidade em espacos publicos e, ao mesmo tempo, combater seu negacionismo--e os efeitos dele--disputando tais regimes de verdade por vias distintas da afirmacao nostalgica da autoridade do historiador academico, aqui, se impoe como desafio.

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(1) As cartas de Goldstein sao encontradas facilmente em diversos sites de orientacao catolica conservadora ou ligados a correntes da Renovacao Carismatica. E comum que nao se cite quem traduziu.

(2) Disponivel em: https://goo.gl/CQwWrw. Acesso em 19 dez. 2018.

(3) Lea discute pontos de varios documentos dos seculos XII e XIII que justificaram a cruzada contra aos albigenses. Entre as acusacoes, consta a ameaca de espalhar a corrupcao e a barbarie em toda a Europa. O autor analisa criticamente tal ponto de vista, nao o reafirma (MARTINA 1974, p. 138-143; LEA 1887, p. 128-208).

(4) Portal dedicado a transmitir discursos e declaracoes do papa, alem de noticias sobre o Vaticano, bem como analisar noticias do ponto de vista catolico, tendo versoes em sete linguas (ingles, frances, espanhol, portugues, italiano, alemao e arabe). Disponivel em: https:// zenit.org/. Acesso em: 19 dez. 2018.

(5) Revista mensal, criada e editada pelo mencionado religioso e teologo da ordem de Sao Bento, no mosteiro da ordem, no Rio de Janeiro. Publicada entre 1958 e 2008, teve 555 numeros. O foco da revista era discutir temas diversos na perspectiva catolica. Disponivel em: http://www.pr.gonet. biz/revista.php. Acesso em 20 dez. 2018.

(6) Nao existiu uma "Inquisicao protes tante". Houve perseguicoes religiosas nesses contextos, com praticas e instituicoes, alem de fundamentacao juridica e teologica distintas das catolicas (BETHENCOURT 2000, p. 347)

(7) Sao os portais Zenit, Agencia Catolica de Informacoes, Fatima Apologetica e Veritatis Splendor. Disponiveis em: https:// www.acidigital.com/; https://www.veritatis.com.br/; <http:// www.olavodecarvalho.org/ http://www.fatima.org/. Acessos em 20 dez. 2018.

(8) Disponivel em: https://goo.gl/kkYWta Acesso em: 20 dez. 2018.

(9) Disponivel em: https://goo.gl/P7HkcZ Acesso em: 20 dez. 2018.

(10) Disponivel em: https://goo.gl/ NZtT2L Acesso em: 20 dez. 2018.

(11) Por exemplo, na entrevista dada pelo padre Wander Maia a rede catolica Seculo XXI, em 2016. Disponivel em: https:// youtu.be/ilH7Mt7BmgE. Acesso em: 20 dez. 2018. O proprio Aquino e apresentador da rede Cancao Nova.

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

Igor Tadeu Camilo Rocha

igortcr@gmail.com

Doutorando em Historia--CAPES/PROEX

Universidade Federal de Minas Gerais--Brasil

RECEBIDO EM: 15/MAO/2018 | APROVADO EM: 10/JAN./2019

Igor Tadeu Camilo Rocha

https://orcid.org/0000-0003-2660-8260

Caption: Figura 1--Disponivel em: https://goo.gl/oJN1tU Acesso em 28 fev. 2018.
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Author:Rocha, Igor Tadeu Camilo
Publication:Historia da Historiografia
Date:Jan 1, 2019
Words:10526
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