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The transfer of information for the development of small-scale fishing in the Amazon/La transferencia de informacion para el desarrollo de la pesca en pequena escala en el Amazonas/A transferencia de informacao para o desenvolvimento da pesca artesanal na Amazonia.

Introducao

Nas ultimas decadas, entidades publicas e privadas vem focando com expressiva atencao micros e pequenas empresas, principalmente com objetivo de tratar da geracao de emprego, renda e desenvolvimento local. Nesse contexto, o desenvolvimento dos 'arranjos produtivos locais' (APL) indica que a emancipacao economica e social de comunidades e regioes pode ser realizada por meio do empoderamento e aprendizado de seus agentes.

O empoderamento visto como um processo que ajuda individuos, ou grupos de individuos, a adquirir controle sobre suas proprias vidas, aumentando a sua capacidade de trabalhar com assuntos que eles mesmos definam como importantes (Eyben et al., 2008), significa, portanto, mais do que 'fazer escolhas', envolve diferentes etapas como a analise, a tomada de decisao e a acao e sua verdadeira ocorrencia manifesta-se quando o processo e auto-dirigido, ou seja, as pessoas tomam grande controle sobre suas vidas (Bartlett, 2008).

Todavia, Igliori (2001) afere que a aprendizagem ou o ato de aprender depende de varias outras variaveis, entre as quais destaca a transferencia da informacao, que, quanto mais organizada e inteirada no arranjo produtivo, maior sua absorcao pelos participantes e, consequentemente, maior a capacidade de geracao de conhecimento. Nesse sentido, entende-se que um dos fatores mais importantes dentro de um APL sao as trocas entre os participantes. Quanto mais intensa essa troca/transferencia, mais eficiente tende a ser a atividade que os participantes propoem ao mercado.

No que tange ao sistema produtivo do pescado, a comunidade de Vila Amazonia, distante cerca de 30 minutos (viagem em barco regional) da cidade de Parintins, AM, Brasil, desponta com potencial consideravel em termos de producao, uma vez que essa comunidade localiza-se a margem direita do Rio Amazonas e, por tal, vivencia dois periodos distintos ao que diz respeito ao pescado. Primeiro, a comunidade e agraciada com o fenomeno da piracema (periodo de reproducao de peixes), que propicia que grande quantidade de pescado seja capturado e comercializado, embora de forma rudimentar e levando a perdas consideraveis aos comunitarios. Segundo, porque, a comunidade apresenta areas propicias para a atividade de criacao de peixes em cativeiro.

Contudo, o acesso a politicas de extensao rural que venham a promover ou mesmo viabilizar empreendimentos direcionados e prejudicado pela inexistencia de informacao que coloque os pescadores no patamar de produtores em potencial e que, diante dessa condicao, viabilize aquele acesso. A inexistencia de informacao, portanto, contraria o que menciona Santo (2000) quando alega que a transferencia da informacao e uma caracteristica de suma importancia nos APL, visto ser responsavel pela partilha do conhecimento entre os agentes de um sistema produtivo.

De certo modo, no contexto da comunidade em estudo a atividade de producao de pescado em cativeiro desenvolve-se de maneira incipiente e, desta forma o esforco aqui empreendido objetiva estudar sobre o estagio de transferencia de informacao na pesca artesanal da Vila Amazonia e sua influencia no desenvolvimento dos APL, nessa cadeia de producao. O estudo parte da premissa de que a ausencia ou ineficiencia de um sistema de informacao prejudica consideravelmente o desenvolvimento do APL do pescado no contexto da Vila Amazonia.

Para isso, um estudo qualitativo foi conduzido, utilizando entrevistas com os sujeitos envolvidos para a coleta de dados, bem como captou ocorrencias de campo por meio de observacao. O ferramental analitico utilizou a analise de conteudo, orientada pelas categorias encontradas no referencial teorico especialmente envolvendo arranjos produtivos locais.

Embora a complexidade do objeto e a carencia de conhecimento previo sobre sua realidade tenham situado o estudo num ambito exploratorio, esse se propoe a servir como uma referencia para novos e aprofundados estudos que venham a auxiliar ao entendimento mais preciso das comunidades ou aglomeracoes produtivas semelhantes ao caso pesquisado, no sentido de acumular conhecimento para a descricao mais precisa da estrutura de geracao de emprego e renda e de sua relacao com qualidade de vida.

Referencial Teorico

Em sua abordagem sobre Principios de Economia, publicada em 1920, Alfred Marshall destacou que a concentracao geografica e setorial das empresas, a instalacao de atividades (manufatura e servico) dos fornecedores e o conhecimento das pessoas sao os principais elementos para desenvolver uma localidade industrial (Igliori, 2001; Krugman, 1991). Porter (1986) descreveu essa concentracao, tambem identificada como aglomeracao ou cluster como "um agrupamento geograficamente concentrado de empresas inter-relacionadas e instituicoes correlatas numa determinada area, vinculadas por elementos comuns e complementares". De forma semelhante, Santos e Guarneri (2000) descrevem os arranjos produtivos locais ou APL como um fenomeno vinculado as economias de aglomeracao, associadas a proximidade fisica das empresas fortemente ligadas entre si por fluxos de bens e servicos.

Ainda, Souza (2009) afirma que um APL representa um conjunto de aglomeracoes economicas, que se desenvolvem por meio de caracteristicas locais, tendo como base a geracao de conhecimento endogeno, na qual a presenca da cooperacao esta relacionada a atividade principal destes agentes. Esse autor menciona que alem dos aspectos tecnicos que definem a forma de organizacao e estruturacao da cooperacao, ha o aspecto social que e fundamental no entendimento dos processos e acoes dentro das atividades dos agrupamentos. Esse aspecto e menos perceptivo para o observador, mas essencial para o entendimento nao somente dos fatores associados as relacoes sociais intergrupos, como tambem das formas de organizacao do trabalho e dos mecanismos de ascensao social.

As interacoes nesse ambiente cooperativo tem por base a transferencia de informacao, a qual atua como variavel essencial para a permanencia da organizacao no mercado. Segundo Drucker (1993), a informacao pode ser considerada a base para os processos de gestao e e representada pelo binomio informacao/conhecimento, os quais serao fatores determinantes ao sucesso. Nesse contexto, a comunicacao e considerada um relevante fator para que se estabeleca a transferencia de informacao/ conhecimento. Trata-se de um processo horizontal de conexoes o qual se baseia em interacoes entre os individuos, instituicoes e conteudos. (Simeao e Miranda, 2003).

De acordo com Barreto (2002), a informacao pode ser concebida como conhecimento comunicado e, desta forma, deve ser observado um conjunto de requisitos basicos como: a qualidade, relevancia e confiabilidade da informacao, codigo linguistico comum entre emissor e receptor e canais de comunicacao acessiveis e eficientes. Para esse autor, a transferencia de informacao possui conotacao de passagem, de deslocamento e de transmissao de conhecimentos entre os agentes locais. Contudo, para que o processo possa ocorrer de maneira otimizada e necessario que os grupos de agentes possuam relacoes culturais e lacos de semelhanca.

O processo de transferencia de informacao trata-se entao, segundo Miranda e Simeao (2003), de comunidades interpretantes, as quais tem a funcao de compartilhar os codigos apropriados para a acao de comunicar, de forma que, a medida que evoluem passam a criar novos conhecimentos e novas interpretacoes do conhecimento adquirido anteriormente. Assim, esses autores retratam que a informacao pode ser diretamente comparada com conhecimento, no sentido de que quem detem a informacao detem o conhecimento. Entendem, ainda, que a transferencia de informacao e um processo de transmutacao de conhecimento entre partes interessadas de modo que haja uma parte para a emissao da informacao e outra parte com atributos culturais semelhantes para a decodificacao do conhecimento.

A revisao bibliografica realizada para nortear o estudo permitiu a identificacao de cinco tematicas presentes que tratam de contextos ou ambientes relacionados ao aqui focado, as quais foram utilizadas como parametros para as observacoes e para elaboracao do roteiro de entrevista a ser aplicado aos pescadores e demais atores da atividade da pesca artesanal na comunidade da Vila Amazonia, sendo: caracteristicas locais; endogenia; comunicacao; proximidade fisica; atividade motriz.

Procedimentos Metodologicos

Trata-se de uma pesquisa exploratoria com abordagem dedutiva, visto que parte uma visao do coletivo, gerada pela literatura aqui selecionada referente a APL para o particular.

Inicialmente a pesquisa utilizou a tecnica de observacao in loco dos atores e das principais atividades pelos agentes integrantes da atividade objeto do estudo, a fim de se identificar preliminarmente os fatores geradores de entraves para a implantacao de um APL voltado a pesca artesanal. O processo de observacao contou com tres visitas nao agendadas, nas quais os pesquisadores acompanharam dois grupos de pescadores durante algumas horas de seu trabalho cotidiano.

Cerca de 30 dias apos o periodo de observacao, foram realizadas as entrevistas com os agentes envolvidos, sendo estas direcionadas a 20 pescadores, seis comerciantes de apetrechos de pesca, quatro comerciantes de gelo triturado e quatro comerciantes de pescado. Vale ressaltar que os dados coletados foram analisados levando em conta o contexto socioeconomico no qual os agentes estao envolvidos, ressaltando-se a utilizacao de indicadores de conjuntura que mais se aproximassem daquela realidade, conforme orientado por Vergara (2009).

Os dados foram analisados de forma qualitativa, segundo a orientacao da tecnica de analise de conteudo, sendo os mesmo organizados em etapas. O cruzamento das variaveis conhecidas com as os principais fatores de influencia para que se tivesse uma precisao satisfatoria no resultado da investigacao.

Resultados e Discusao

Os resultados evidenciam inicialmente que todos os pescadores entrevistados detem lacos familiares efetivados, ou seja, ja sao pais de familias sendo que alguns mantem casamento formal enquanto outros detem uniao estavel, com variabilidade do numero de componentes da familia. Uma parcela das familias conta com agregados que nao sao parentes, mas sim conhecidos quem moram e participam das despesas diretas do pescador sem deter vinculo empregaticio e nem contrato remunerado, por vezes ajudando na tarefa da pesca, em troca de abrigo e comida. Tais dados podem ser evidenciados na Tabela I.

De forma unanime, os pescadores entrevistados alegaram que possuem casa propria (em sua maioria dos casos sao moradias cedidas por orgaos ligados a reforma agraria local), com acesso a servicos de agua encanada e luz eletrica. Declaram tambem apresentar acesso a saude (existencia de uma unidade de saude local publica na comunidade).

No que tange a renda media dos pescadores, a situacao evidenciada torna aparente um maior grupo com manifestacoes acerca da nao obtencao de recursos suficientes (que segundo os atores atendem suas necessidades) para o sustento de suas familias, como registrado na Tabela II. Da mesma forma e evidenciado que entre os pescadores que se dedicam a uma segunda atividade para complementar a renda da familia, geralmente realizada na agricultura ou ainda dedicando-se a cultivos incipientes de produtos regionais e frutas de epoca como melancia, mamao, laranja e etc.

Por outro lado, cabe ressaltar que segundo Moreira et al. (2010) "o pescador profissional que exerce sua atividade de maneira artesanal, com fins de subsistencia e de comercializacao, tem direito ao seguro defeso". Este beneficio e comparado ao seguro-desemprego do pescador artesanal, pois tem a funcao de garantir assistencia financeira por periodo determinado ao pescador que se encontra proibido de exercer sua atividade profissional e que tem como unica fonte de renda o pescado.

Ainda, sobre a questao da renda, 12 respondentes declararam ter renda de ate dois salarios minimos e todos os respondentes declararam estar inseridos em programas sociais do Governo Federal, especialmente o Programa Bolsa Familia. O rendimento proveniente desse programa, segundo as manifestacoes dos entrevistados, estaria possibilitando a manutencao das criancas na escola e, portanto, indicando o atendimento a um de seus propositos.

Outro aspecto evidenciado pelas entrevistas refere-se ao envolvimento de membros da na atividade de pesca. Metade dos respondentes (10 casos) indicaram esse envolvimento de familiares tanto na atividade pesca ou mesmo no beneficiamento de derivados, como a farinha de peixe conhecida como piracui.

No grupo de pescadores entrevistados, encontrou-se metade com ate ensino fundamental incompleto e somente um caso com ensino fundamental completo, tornando aparente o afastamento dos pescadores da educacao formal (Tabela III).

Por outro lado, ha a tentativa por parte dos governos federal em amenizar tal situacao, por meio do oferecimento do Programa 'Pescando Letras' (projeto do Ministerio da Pesca com o intuito de alfabetizar pescadores em todo territorio brasileiro), ja em funcionamento e acessivel aos pescadores, fato este que podera contribuir para a melhora do nivel de escolaridade dessa populacao.

Por outro lado, a escolaridade dos filhos e descrita no grupo de forma mais favoravel, visto que mais da metade dos pescadores (12 casos) declararam a presenca de filhos com pelo menos o fundamental completo, sem distorcao entre serie e idade, ou seja, os filhos de pescadores apresentam compatibilidade entre a serie cursada e a faixa etaria de sua classificacao (Tabela IV).

Embora essa situacao possa contribuir no tempo para a geracao e fortalecimento do fluxo de conhecimento entre os participantes desse grupo de pescadores, ainda e incipiente o ambiente de conhecimento e de educacao formal para que se desenvolva e se transforme as informacoes sobre tecnicas de pesca, de comercializacao e de armazenamento de alavancar um processo de desenvolvimento.

Portanto, o ambiente de desenvolvimento estimulado pela transmutacao da informacao em dominio de novo conhecimento ainda e fragilizado, seja pela baixa escolaridade dos pescadores, seja pela nao incorporacao de novas tecnicas de pesca. Particularmente essa ultima questao apoia-se na manifestacao dos entrevistados sobre a manutencao de habitos, costumes e praticas de pesca aprendidos com antepassados, nao identificando-se qualquer evidencia de absorcao de conhecimento de nova tecnica de pesca proveniente de outra fonte de informacao.

A nao absorcao de tecnicas resultantes de um novo aprendizado inibe o aumento da produtividade e, consequentemente, do desenvolvimento da atividade. A regularidade na atividade e mantida por todos os pescadores conforme declaracao de realizacao das atividades de pesca mesmo em tempos de entressafra, periodo no qual o preco do pescado e mais alto, visto que a limitacao de oferta determinada pela dificuldade de captura.

Os atores descrevem que existem tecnicas e insumos diferenciados para os diferentes periodos e da especie a ser capturada: redes, no caso de captura de grandes cardumes; bubuia (especie de rede com elevadas alturas), no caso de pesca em aguas profundas; alem do uso de outros apetrechos menores como espinhel e tarrafas.

No que tange a embarcacoes, foi observado que todos os entrevistados possuem embarcacoes proprias, com variacoes de formato e tamanho ilustrado no Tabela V. A maioria dos pescadores possui embarcacoes de pequeno porte como canoas e bajaras, o que influencia desfavoravelmente na produtividade da atividade, visto que a baixa capacidade de transporte do pescado limita o volume e a diversidade de especies capturados, gerando um diferencial de custo negativo quando comparado aos resultados obtidos pelos pescadores com maior capacidade de captura.

Para uma empreitada de pesca o pescador necessita de recursos financeiros para custeio, reforcando a relacao direta entre o lucro e a quantidade e qualidade da especie capturada. As especies de maior valor e de facil comercializacao na regiao sao: tambaqui, curimata, tucunare surubim, jaraqui, pacu, pirapitinga, entre outras. Nao obstante, ha a retirada de um percentual de pescado para o proprio consumo, ou seja, para o sustento da familia. Neste sentido, os pescadores retiram em media ~10% do total capturado para a subsistencia da familia, quantidade geralmente conservada em salga, ainda que outras formas sejam utilizadas, mas de forma bem menos presente. Quanto a comercializacao, os resultados de entrevista e observacao evidenciam a ausencia de procedimento tecnologico de beneficiamento e agregacao de valor, sendo o pescado transacionado in natura.

Nesse processo de comercializacao e evidenciada presenca de um agente que faz a ligacao entre os pescadores e os comerciantes locais, chamado 'aviador'. Por falta de capital por parte do pescador para subsidiar os custos da 'empreitada' de pesca, o 'aviador' acaba por financiar a atividade do pescador e, em contra partida, obtem o direito de compra de toda a producao. Tal pratica tende a reduzir de forma significativa o poder de acumulacao de capital da atividade, visto que o financiamento da atividade feita pelo 'aviador' cria um laco de dependencia do pescador, culminando no pagamento de precos abaixo dos praticados no mercado. Assim, a maior incidencia de casos de pescadores que entregam seu produto a atravessadores e 'aviadores' consolida uma relacao de dependencia aparentemente prejudicial aos pescadores. A reducao dessa incidencia pode contribuir para a valorizacao financeiramente da atividade dos produtores locais.

Cabe observar a diferenca entre o atravessador e o 'aviador'. Enquanto o atravessador limita-se a comprar o pescado do pescador e a comercializa-lo com preco maior, ou seja, o atravessador esta submisso ao preco de mercado do produto, o 'aviador' busca financiar a empreitada dos pescadores o que lhe confere exclusividade na compra e na determinacao do preco a ser pago pelo pescado.

Os poucos casos identificados de comercializacao direta do pescador para o consumidor final foram ilustrados na Tabela VI.

A pesquisa buscou identificar os equipamentos utilizados para a captura e conservacao dos peixes, como termicos de conservacao, arreios de pesca e de transporte destes e etc.

Tambem, como resultado das entrevistas e da observacao foi evidenciado que nem todos os pescadores entrevistados detem equipamentos adequados a pratica da pesca, conforme ilustrado na Tabela VII. Da mesma forma, o acesso a informacoes direcionadas sobre as possibilidades de aquisicao de equipamentos necessarios a realizacao do trabalho nao se efetiva e, portanto, as informacoes nao sao trocadas entre os pescadores. Nesse sentido, encontrou-se poucos entrevistados com conhecimento sobre linhas de financiamento disponiveis para a atividade. O circulo vicioso do acesso restritivo a informacao de financiamento, por exemplo, reforca o comprometimento da produtividade, em decorrencia do uso de equipamentos insuficientes ou obsoletos.

Por outro lado, um resultado que mostrou alta diversidade de comportamentos entre os entrevistados refere-se a duracao da 'empreitada'. Pelo menos tres situacoes foram evidenciadas: um grupo maior declara atuar cerca de 7 dias na atividade, com descanso de 3 dias; outro grupo declara atuacao em torno de 4 dias com 2 dias de descanso; outro grupo, ainda, declara atuar ate 30 dias na atividade de pesca com descanso de 7 dias ou ate quando apresentar estoque capturado.

O fato de perdurar mais na atividade esta intimamente ligado a busca de especies mais nobres e com maior valor de mercado como e o caso de especies de tambaqui, tucunare pescada, surubim e outras. Nao obstante, a forma de captura e a distancia alcancada para a mesma estao intimamente ligadas disponibilidade financeira do pescador para realizar uma pescaria.

Assim, quanto mais distante for o local de captura, mais recursos financeiros serao necessarios. Esse fato parece limitar o acesso de pescadores a atividades em tais regioes, ou, mesmo, ampliar os lacos de dependencia de novos entrantes ou atores presentes na atividade com o 'aviador'.

Os entrevistados alegam que trabalham sob o regime de economia familiar onde sao ajudados por parentes e, algumas vezes, por agregados e vizinhos. O pagamento desse trabalhador e realizado por meio de cotas de pescado.

De forma geral, os pescadores declaram nao possuir recursos de custeio e de capital para a manutencao de seus apetrechos de pesca e reparos de suas embarcacoes, sugerindo a fragilidade dessa comunidade a choques externos do ambiente.

Todos os entrevistados declararam filiacao ou inscricao em alguma representacao de classe. No caso dos pescadores de Vila Amazonia, os vinculos de afiliacao mais comuns sao com a Colonia de Pescadores Z17 e o Sindicato dos Pescadores SINDPESCA. Essas entidades sao pontos de contato dos pescadores com linhas de financiamento, mas aparentemente com pouca atratividade, visto que os pescadores mesmo reconhecendo a sua importancia, declaram que seus processos sao morosos e incipientes, especialmente na promocao e incentivo da atividade de pesca.

Por outro lado, as dois instituicoes apontadas alegam que estao em contato direto com o pescador, de modo que as formas de acesso a linhas de credito, de financiamento e de cursos tecnicos de agregacao de valor ao pescado possam ser por elas intermediados.

Quando de eventual contato para financiamento de aquisicao de material para a pesca, os pescadores nao sao informados sobre o programa de procedencia do recurso e principalmente quais as formas e condicoes que estariam disponiveis para os mesmos.

Contudo, mesmo nesse ambiente de restricao de informacoes, os entrevistados manifestam que, em parte, a troca de informacao ocorre, especialmente tendo como foco a atividade fim. Ilustra essa situacao, os relatos dos pescadores sobre a informacao aos companheiros de profissao sobre lagos favoraveis e sobre melhores compradores, caracterizando o espirito de cooperacao do APL.

Outros agentes entrevistados

Os comerciantes de pescado entrevistados declaram que sua atividade representa alem da subsistencia para um numero consideravel de familias, tambem uma forma concreta para o crescimento do empoderamento para a comunidade.

Esses agentes tambem declaram que as formas de trabalho do pescador artesanal ainda refletem meios rudimentares, herdados de seus antepassados, quando nao existiam recursos como os da atualidade.

Foi evidenciado por alguns comerciantes entrevistados que a formas de trabalho dos pescadores artesanais nao apresentam tanto impacto ao meio ambiente de modo que este modelo de trabalho seria o mais viavel para a regiao e sustentavel ao longo prazo.

O reconhecimento de ha deficiencia na transmissao de informacao declarada por esse grupo de comerciantes entrevistado reforca o circulo vicioso das dificuldades de desenvolvimento adequado para a regiao. Conforme os dados obtidos, as informacoes sao retidas como elemento de diferencial unitario. Essa centralizacao da informacao, bem como sua nao socializacao reforca o ambiente do nao desenvolvimento do APL voltado a pesca artesanal na comunidade.

A pesquisa pode identificar um conjunto de agentes, atores e instituicoes de fomento (Figura 1), entretanto neste cenario as trocas de informacao a fim de promover assistencia tecnica, ampliacao e coordenacao dos processos produtivos com o intuito de desenvolvimento da pesca artesanal na comunidade em estudo ainda e incipiente.

Consideracoes Finais

A regiao Amazonica desponta com um potencial consideravel para a exploracao de pescado de modo que se entende que a atividade representa elevado nivel de emancipacao socioeconomica para as suas cidades. Tambem, nessa regiao, a atividade de pesca esta intrinsecamente ligada nos costumes e cultura local.

No contexto da comunidade de Vila Amazonia a atividade da pesca pode tambem ser entendida com expressiva importancia para o sustento dos nucleos familiares locais, alem de sua intima relacao com o cotidiano, a cultura e as crencas locais. Contudo, os mecanismos utilizados e as restricoes impostas pela nao incorporacao de novas tecnicas, vem culminando, nos ultimos anos, com o nao acompanhamento das necessidades de mercado local. Essa situacao, tem provocado a perda de espaco dessa comunidade de pescadores para profissionais de outras regioes como tambem de outras comunidades, nas quais o desenvolvimento da pesca conta com formas modernas de cooperativismo e de interacao entre os comunitarios.

Parece evidenciado no estudo que um dos entraves ao desenvolvimento da pesca artesanal na comunidade da Vila Amazonia estaria vinculada a ausencia de fluxo continuo de informacao, o que inibe a geracao de novos conhecimentos sobre tecnicas mais modernas e, consequentemente, influenciando negativamente sobre a atividade de pesca do grupo de pescadores foco desse estudo.

A informacao e fator essencial ao desenvolvimento de qualquer atividade (Porter, 1986; Barreto, 2002; Schumpeter, 1997), de modo que a ausencia desta implicaria severamente em declinio da atividade. Da mesma forma, o ambiente de constantes alteracoes das relacoes de comercio e de mercado implica na necessidade real de desenvolver continuamente tecnicas de crescimento como tambem adaptacoes a mudancas, buscando a agregacao de valor a atividades inicialmente orientadas pela tradicao.

Com relacao aos pescadores da comunidade de Vila Amazonia, ha a potencialidade para a configuracao de um APL voltado para a pesca artesanal. Contudo, para que tal empreendimento se solidifique parece necessario a utilizacao de novos parametros.

A reconfiguracao no fluxo de transferencia de informacoes pode auxiliar no gerenciamento de novos rumos para a pesca artesanal na comunidade, fomentando a organizacao e cooperacao entre os atores locais.

A transformacao positiva na forma de transmissao de conhecimentos parece que tenderia a desencadear um novo tipo de relacao produtiva entre os agentes envolvidos, visto que esses apresentam as caracteristicas embrionarias para a constituicao de um APL, as necessidades operacionais que justificam a operacao em APL, bem como o espirito de cooperacao dinamizador da operacao do APL.

Contudo, a formacao e consolidacao dessa estrutura em comunidades de baixa densidade de informacao e conhecimento interno exigiria o apoio de agente externo que viabilizasse a estruturacao de mecanismos para acesso e troca de informacao, com vistas a sua transmutacao em conhecimento. Esse ambiente somado ao empenho dos agentes envolvidos atrelados em objetivos coletivos tenderia a formar o cenario para novos rumos da pesca artesanal na comunidade de Vila Amazonia.

Recebido: 12/06/2013. Modificado: 12/12/2014. Aceito: 16/12/2014.

Paulo Augusto Ramalho de Souza. Mestrado em Administracao, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil. Doutorando em Administracao, Universidade Municipal de Sao Caetano do Sul (USCS), Brasil. Profesor, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil. Endereco: Departamento de Administracao, FAC, UFMT. Cuiaba, MT, Brasil. e-mail: paramalho@gmail.com

Maria do Carmo Romeiro. Graduada em Economia, USCS, Mestrado e Doutorado em Administracao, Universidade de Sao Paulo, Brasil. Professora, USCS, Brasil. e-mail: mromeiro@uscs.edu.br

Cesar Augusto Amador. Graduado em Administracao pela Universidade Federal do Amazonas, Brasil.

Suellen Moreira de Oliveira. Graduada em Administracao, Faculdades Integradas Urubupunga, Brasil. Mestra em Agronegocios, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Doutora em Administracao, USCS, Brasil. Professora, Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil. e-mail: suellen. oliveira@ifms.edu.br

Elisandra Marisa Zambra. Graduada em Administracao, Faculdades Integradas de Sorriso, Brasil. Mestra em Agronegocios, UFMT, Brasil. Doutoranda em Administracao, USCS, Brasil. Professora. UFMT, Brasil. e-mail: elisandrazambra@gmail.com

REFERENCIAS

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Vergara SC (2009) Projetos e Relatorios de Pesquisa em Administracao. Atlas. Sao Paulo, Brasil. 94 pp.

TABELA I
TAMANHO DA FAMILIA DOS PESCADORES

2 pessoas      3-6 pessoas     6-8 pessoas    8-10 pessoas
2 pescadores   12 pescadores   4 pescadores   2 pescadores

TABELA II
RENDA MEDIA DOS PESCADORES EM SALARIOS MINIMOS

Ate 1 salario   1-2 salarios    2-4 salarios   4-6 salarios

2 pescadores    10 pescadores   6 pescadores   2 pescadores

TABELA III
ESCOLARIDADE DOS PESCADORES DA VILA AMAZONIA

Alfabetizado      Fund.          Fund.         Media        Media
                 incompl.        compl.       incmpl.       compl.

2 pescadores   8 pescadores   6 pescadores   1 pescador   1 pescador

TABELA IV FORMACAO EDUCACIONAL DOS FILHOS DOS PESCADORES

Fund. Incompl.   Fund. Compl.   Media incompl.   Media compl.

8 pescadores     6 pescadores    4 pescadores    2 pescadores

TABELA V TIPO DE EMBARCACAO DOS PESCADORES DA COMUNIDADE

Canoa              Bajara      Barco ate 11m   Barco mais
                                                 de 11m

12 pescadores   5 pescadores   2 pescadores    1 pescador

TABELA VI
FORMAS DE COMERCIALIZACAO DO PESCADO

Venda direta   Atravessador   Comerciante     'Aviador'

2 Pescadores   8 pescadores   6 pescadores   4 pescadores

TABELA VII
CONSIDERA SEUS EQUIPAMENTOS ADEQUADOS
AO TRABALHO

Adequado       Insuficiente     Razoavel

8 pescadores   6 pescadores   6 pescadores
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Author:de Souza, Paulo Augusto Ramalho; Romeiro, Maria do Carmo; Amador, Cesar Augusto; de Oliveira, Suelle
Publication:Interciencia
Date:Jan 1, 2015
Words:4678
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