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The thinking image in Cildo Meireles/A imagem pensante, em Cildo Meireles.

Je est un autre

Na instalacao Je est un autre (1997), o artista brasileiro Cildo Meireles celebra uma reflexao poetica de Rimbaud (1871). Ha um duplo interesse no circuito desse espaco elaborado para o centro de arte contemporanea Le Creux de l'Enfer, em Thiers na Franca: a vivencia experimental, topologica do circuito da agua, aventada ao espectador, e o alto indice conceitual da obra que atesta e problematiza o discurso social em arte. O projeto Je est un Autre, foi tracado para ocupar os dois andares do Le Creux de l'Enfer, sendo o espaco do andar de cima nominado Chove Chuva. Os dois andares da instalacao colocam em evidencia o que na fala do artista e o "bem mais precioso que temos": a agua. Ladeando a primeira sala da instalacao, e do lado de fora, ha uma bomba que puxa agua de um rio (que margeia a construcao) para alimentar os 1.000m de tubos que conduzem a agua num movimento repetitivo do exterior para o interior da sala e vice-versa, ou seja, os mesmos tubos retiram e devolvem a agua ao rio. Duas camaras de video filmam continuamente a absorcao, a entrada e a saida da agua conduzida pelos tubos transparentes que, no interior da sala, se enrolam em forma cilindrica e refletem o deslocamento da agua (Figura 1). As imagens filmadas sao projetadas ao vivo sobre duas telas situadas em torno da grande bola de tubos e esse dispositivo optico interage no circuito criando uma percepcao visual, espacial e temporal entre exterior e interior do espaco expositivo.

A segunda sala da instalacao, Chove Chuva, exige o deslocamento do espectador exposto a estrutura ambiental e imagetica do lugar. A partir do piso, que e coberto por almofadas de plastico transparentes cheias de agua, uma relacao dialetica e provocada por quatro monitores, que projetam imagens de chuva nas paredes da sala, e por uma cabine de cerca de 3 m, equipada por uma ducha de igual dimensao, com jato d'agua que desce incessantemente, sendo a agua recolhida por uma estrutura em inox. Essa Instalacao requer que o espectador estabeleca uma dimensao experimental continua com o espaco e com a proposicao do trabalho que solicita mente e corpo do fruidor. Dai a problematica da obra que, ao centrar sua repotencializacao na participacao ativa do espectador, deve patentear um "hiperestimulo" perceptivo e sensorial para operar com a proposta conceitual do trabalho.

Nos dizeres de Cildo Meireles o comportamento humano reverbera a ideologia do capitalismo industrial, "que e crescer, crescer, crescer, o que quer dizer que ele se funda no principio da infinitude. Ele diz: "o planeta terra e grande mas ele nao e infinito [...] sei que daqui a 20 anos no minimo 90% do planeta terra vai estar enfrentando o problema de agua potavel" (Meireles, 2013). E, na verdade Je est un autre parece repousar sobre alguma especie impossivel de equilibrio, e, por assim dizer, na tensao induzida por Rimbaud: "changer la vie".

O que se passa e que essa instalacao flui, em meio a tantas nuancas expressivas, no sentido poetico de levantar o impasse: o trabalho exige do observador a dificil adesao a falta e ao excesso de significados, mundo e arte, presenca e anonimato, misturam-se inextricavelmente na tensao contemporanea de um determinado inconformismo, atrasados em mais de seculo, aos sintomas de Rimbaud.

Como convem a este texto, optou-se pelo recurso retorico, mas tambem real, de fazer referencia a arte que se manifesta num campo alargado, a partir dos anos 1960, esgarcando as categorias artisticas referenciais da primeira metade do seculo XX e acentuando o fluxo entre arte e vida. Contudo, nao custa dizer que se deve ao crescente agrupamento das impressoes provocadas pelo mundo fenomenal onde se insere a arte moderna o caminho aberto para novos conceitos de imagem. Desenvolveu-se ali a significativa dimensao do "eu" polissemico de Rimbaud (Je est un autre), desenvolveu-se ali o sentido da eminencia de "imagem" como resultante da ampla rede de relacoes que a constitui, como propunha, por exemplo, Henri Bergson expressando a percepcao concreta complexa, instalando-se sempre em uma espessura de duracao. O que implica necessariamente tanto a intervencao da vivencia (a experiencia do espaco mental que figura na memoria, imaginacao), como o continuamente presente que seria tambem continuamente movente (trata-se da experiencia imediata, direta) (Bergson, 1975). Essa concepcao bergsoniana se sobrepoe a nocao desrealizadora de "imagem" pensada em termos de relacao exterioridade e interioridade. Sob esse angulo, uma obra de arte nao e a materializacao de uma ideia imaterial: a "ideia" em arte e, sobretudo, uma antecipacao dos seus efeitos, dos efeitos gerados pelo seu devir "materialidade". Assim:

A percepcao nada mais e, entao, do que uma selecao. Ela nao cria nada; seu papel e ao contrario, o de eliminar do conjunto de imagens todas aquelas sobre as quais eu nao teria qualquer preensao; a seguir, de cada uma das proprias imagens retidas, tudo o que nao interessa as necessidades da imagem que chamo de meu corpo. [...] ao colocar meu corpo, coloquei uma certa imagem, mas no mesmo gesto, a totalidade das outras imagens, ja que nao ha objeto material que nao deva suas qualidades, suas determinacoes, sua existencia, enfim, ao lugar que ocupa no conjunto do universo (Bergson, 1975).

Nesse rico contexto, e observando a afirmacao segundo a qual a "imagem pode ser sem ser percebida", observe-se que o conceito de "imagem" e eminentemente relacional e, ao mesmo tempo, nem um pouco desmaterializante: ao contrario, propoe Bergson, corresponde a propria materialidade. Mas o filosofo toma o cuidado de alertar que se as relacoes se dao no ambito da materia, e se existe uma rede de relacoes que a constitui, a materia nao deriva sua determinacao do que lhe viria (supostamente) "de fora".

Dai emerge um aspecto balizar da percepcao moderna que vai transitar na operatividade da percepcao contemporanea: o "ser relacional", Je est un autre, repotencializado na instalacao homonima de Cildo Meireles. Nesta, o artista propoe uma temporalidade que se desenvolve numa dialetica porosa entre o suporte visual e o pensamento teorico, e lida com um discurso ininterrupto de questoes diversas--conceitual, poetica, sonora, imagetica--que implica em submergir na estreita relacao entre identidade e alteridade. Que nao se entenda com isto, entretanto, a postulacao de um dualismo; mas o reflexo da constante tensao na qual o par arte e vida transita no campo ontologicamente configurado do trabalho de Cildo Meireles.

Nesse sentido, e no eixo conceitual de Bergson que implica o fato de tudo ser relacional, de tudo ser imagem, pontua-se que o processamento de imagens nao pulveriza a materia e que toda materia e nosso proprio corpo se resumem a imagens. O universo e o conjunto das imagens; o mundo material, um "sistema de imagens solidarias e bem ligadas". Imagem entre imagens, nosso corpo e um centro de acao. Nossa percepcao delineia "precisamente no conjunto de imagens as acoes virtuais ou possiveis>> da experiencia de nosso corpo, facultando-lhe um amplo espectro de possibilidades de acao.

Sal sem carne

Revela-se que em sua obra Bergson indica a conhecida experiencia do deja vu para atestar uma relacao de simultaneidade entre o presente e o vivido. E a rigor, se pensarmos o presente como o instante em que se instalaria nossa experiencia, teremos de "admiti-lo como pura ficcao". Justamente aqui pensamos encontrar o atalho mais promissor para uma aproximacao com a livre apropriacao poetica de Cildo Meireles, ao apreender uma imagem, em seu anonimato, e leva-la a compor uma peculiar tensao, um estado de ser, em sua obra. E o caso do carater notavel de uma mesma imagem fotografica presente em alguns trabalhos de Cildo Meireles, e sobre a qual ele diz:

Eu tinha feito um trabalho, que era o Sal sem carne, que era um disco, uma radionovela, e por Goias eu tinha chegado a um hospicio, esse hospicio mental. Eu nao sou fotografo, mas fiz uma serie de fotos. E quando eu voltei para Brasilia, comecei a revelar essas fotos do hospital mental [...] e sempre aparecia la no fundo um personagem, no mesmo canto [...] Entao eu tinha essa imagem e resolvi usar.[...] sao as fotos que eu usei no Zero Cruzeiro e no Sal sem carne [...] (Meireles, 2013).

No breve espaco que aqui se impoe, discorro sobre a apreensao dessa fotografia (Figura.2) em Sal sem carne (1975). O processo conceitual desta obra traz uma identidade densa de sentidos, suscitando interrogacoes a respeito de um territorio em que as tensas relacoes entre comunidades indigenas e colonizadores se desenrolam, evocando questoes ideologicas, restricoes etnicas, enfim, "o gueto". Ou seja, uma especie de "terceiro espaco" resultado de uma cultura hibrida que jamais se concilia.

Tal nocao e exemplificada no esforco pela causa indigena na qual o pai de Cildo Meireles trabalhou, e que indignado pelas atrocidades cometidas contra as tribos investigou os varios massacres impostos aos indios diante do poder de destruicao de fazendeiros locais. Anos depois, Cildo Meireles foi impedido de entrar no Parque Nacional, criado por seu pai, onde pretendia entrevistar um indio remanescente do massacre. "Com essa restricao, realiza, entao, seu trabalho com uma comunidade proxima, uma especie de "aldeia-rural-periferica-temporaria". Seus entrevistados sao, em suas proprias palavras, 'nem brancos, nem indios, mas todos miseraveis'. Para eles, explica Cildo, "eu fazia duas perguntas: Voce e um indio? Voce sabe o que e um indio? Eles respondiam que o indio comia carne sem sal e essa resposta aparecia como um grande diferenciador" (Grando, 2015).

Com a questao dessa cultura hibrida, o objeto disco Sal sem carne, concentra gravacoes num LP de 33 rotacoes, disco de vinil, mixado em oito canais, onde quatro se destinam a cultura portuguesa-branca e quatro a cultura indigena (Figura 2). Uma pluralidade de fotos de pequena dimensao, interligadas em formato de tiras sucessivas de negativos de filme, compoem a visualidade da capa e contracapa do objeto disco. Do mesmo modo que o olhar enfrenta uma dispersao lidando com a sucessao dessas pequenas fotos em tiras, o senso de direcao converge o olhar para as fotos estaticas e de maior dimensao, localizadas no espaco central da capa e contracapa. Dai uma identificacao com o tema do "gueto" se acentua, tanto pelo contraste visual da paisagem e pessoas de um estilo de vida particular, como pela presenca simbolica das imagens do centro do campo imagetico. Estas, em maior tamanho, representam, de um lado da capa, a imagem de um grupo de indios, e do outro lado a foto do personagem encolhido em um canto, feita por Cildo em Goias, a imagem do "excluido" que de costas e curvo se esconde no canto (Figura 3). A forca simbolica do conjunto de fotos solicita ser manipulada pela memoria cultural, atraves da qual o olhar pensante apreende, processa e problematiza o real.

E, nesse contexto de trabalho vinculado a experiencia do <<mundo-da-vida>>, territorio vivencial, definido por espacos densos de sentidos, onde o psiquico e o social se fundem aos tracos da memoria individual e coletiva, que Cildo Meireles constroi a serie Zero Cruzeiro (1974) (Figura 4). Na cedula, a imagem do homem de costas, recurvado em um canto, no anonimato, e uma especie de dispositivo para trazer o sentido do isolamento e da exclusao. Articula-se ali, tambem, um jogo conceitual com imagem e palavras: a inscricao "zero cruzeiro" impressa na cedula, acentua a reducao a "zero" do individuo marginalizado.

Na perspectiva inaugurada por Bergson, nosso corpo, com tudo o que o cerca, nada mais e do que "a porta movente que nosso passado empurra a todo momento para nosso futuro". Dito de outro modo, o corpo e imagem e objeto da percepcao; ele ocupa o centro da representacao de todas as imagens que gravitam em torno dele. Por extensao, as relacoes geradas no campo de imagens em Cildo Meireles tecem sentidos, ate certo ponto analitico, sobre o relacionamento do homem ante os processos de comunicacao que o envolvem, ante um contexto social preciso. Tentativas subjetivas, de explorar imagens do deja vecu e desloca-las a temporalidade do vir-a-ser. Espaco topologico, desestabilizador e, portanto, politico: passivel de envolver o espectador apelando para seus varios sentidos. Exatamente para que reencontre e disponha de uma leitura inteligente, uma experiencia estetica e reflexiva, solicitada pela arte contemporanea.

Referencias

Bergson, Henri. (1975). Matiere et vie (textes choisis). Paris: PUF.

Bergson, Henri. (2001) Matiere et memoire, in Oeuvres, t.l.Paris: PUF.

Meireles, Cildo (2013)., Revista Carbono, n.4, ISSN 2358-8047. URL: http://revistacarbono.com/artigos/04carbonoentrevista-cildo-meireles/ (consultado em 15 de ago. 2018).

Grando, Angela, (2015, dezembro)."Sal sem carne: para uma estetica do gueto". Artelogie, no. 8, URL: http://journals. openedition.org/artelogie/496; DOI:10.4000/artelogie.496

Freire, Cristina. (2015) Contexturas: Sobre artistas e/ou antropologos. Bienal de SP, catalogo..

Meireles, Cildo. (2013, 01 dez.). "Cildo Meireles e o filme 'Ouvir o Rio'. URL: https://www.youtube.com/watch?v=kK82fUNxHpE (Acesso em 05 nov. 2018).

ANGELA MARIA GRANDO *

Artigo completo submetido a 02 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Brasil, arte sonora e meios audiovisuais; teoria e critica da imagem.

AFILIACAO: Universidade Federal do Espirito Santo, Centro de Artes, LabArtes--Laboratorio de Pesquisa em Teorias da Arte e Processos em Artes e FAPES--Fundacao de Amparo a Pesquisa e Inovacao do Espirito Santo--atuacao como bolsista Pesquisador da FAPES--BPC.

Caption: Figura 1 * Cildo Meireles, Je est un autre (detalhe--1997), Instalacao, 2 projecoes de video filmadas ao vivo do circuito da agua de rio que passa pelos 1.000m de tubos transparentes. Centro de arte contemporanea Le Creux de l'Enfer, Thiers, France.

Caption: Figura 2 * Cildo Meireles, Foto em preto e branco (detalhe). Fonte: Herkenhoff, Paulo; Mosquera, Gerardo; Cameron, Dan. Cildo Meireles. Sao Paulo: Cosac & Naify, p.126.

Caption: Figura 3 * Cildo Meireles, Sal sem carne, disco de vinil gravado em oito canais e capa, 30,02 cm (disco), 31 x 31 cm (capa).

Caption: Figura 4 * Cildo Meireles, Zero Cruzeiro, 1974-1978, impressao offset s/ papel, 6.5 x 15,5cm.
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Title Annotation:2. Original articles/Artigos originais
Author:Grando, Angela Maria
Publication:CROMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2305
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