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The tangible registers of Liene Bosque/Os registos tangiveis de Liene Bosque.

Introducao

A topografia unica de cada pele retem a identidade temporal do ser que nela habita. A epiderme dos corpos viventes e da materia muda sustem o paulatino aglomerado do devir. Nos dados desta condicao depreende-se que a familiaridade entre superficie e superficialidade ocorre apenas na etimologia de ambas as palavras, mas que esta proximidade se traduz erronea na semantica. Superficie, esboca-se aqui como a membrana que conecta o interior com o exterior permitindo o vinculo com a existencia material. O ente tocavel que e reciprocamente tocante, uma matriz codificada coligida pelo tempo.

Recordemos tambem que o contacto entre nos e os objetos ocorre na superficie. E no contexto desta complexa interacao entre o corpo e o espaco que o filosofo americano Eduard S. Casey estrutura o conceito "Skin Deep" (Casey, 2015), revelando-o como o processo pelo qual o nosso "ser-pele", embutido de toda a sua historia pessoal, jubilos e feridas a que foi sujeito, se correlaciona com as texturas dos lugares por onde habita e vagueia.

A experiencia do corpo vivo como entidade continuamente impregnada pela memoria coletiva, por intermedio da relacao com o espaco construido, assumese como foco de investigacao de Liene Bosque. A base do seu trabalho e, portanto, exploracao do "lugar" numa equacao que enquadra a experiencia sensorial de espacos urbanos e domesticos associada a contextos, memorias e historia.

Na sua pratica artistica, Liene, comeca por selecionar fragmentos da arquitetura, janelas, portas, ornamentos, puxadores, relevos da construcao ou pequenas formas caracteristicas da casa, para posteriormente obter moldes dos diferentes elementos, geralmente com latex ou porcelana. Os seus registos tangiveis, marcas proprias do espaco, endossam a matriz das suas construcoes tridimensionais.

"Interior/ Exterior" (2008) e uma obra "site-specific" realizada a partir do saguao de um predio olisiponense. Para a sua concretizacao a artista aplicou latex diretamente nos vidros e paredes da habitacao obtendo como resultado uma "pele-molde" das suas janelas. Esta pelicula flexivel, enquanto forma extensiva de contacto, absorve e reproduz a rugosidade imposta pela temporalidade, ou seja, revela os limites palpaveis do edificio mas simultaneamente da corpo aos residuos da sua vivencia imanente.

1. Reter a textura do tempo

A presenca de uma ruina exala cheiro e som de nostalgia, sintoma do palimpsesto mnemonico do lugar. Desde o inicio da sua construcao, que arquitetura estabelece vinculos com a vivencia fisica e psiquica de quem a habita. A textura arquitetonica absorve as camadas combinadas da vivencia do espaco, inspira os movimentos e os gestos do presente e expira ressonancias que murmuram atos passados. Se e verdade que os espacos que nos abrigam imprimem a nossa passagem, a veracidade mantem-se no reverso, todas as casas que habitamos condicionam o nosso diagrama de habitar. O ser abrigado sensibiliza os limites de seu abrigo e e reciprocamente tingido por este.

Liene Bosque afirma estar interessada na relacao entre pessoas e lugares, explora a experiencia sensorial dentro e cerca dos espacos arquitetonicos e simultaneamente procura reter para si a memoria das paisagens edificadas onde passa e vive. Indubitavelmente a sua proposicao artistica esta intimamente ligada com o seu percurso pessoal e academico. Liene Bosque (1980) nasceu em S.Paulo e vive desde 2011 em Nova Iorque. Entre 2006 e 2008 residiu em Lisboa onde realizou o Curso Avancado no Centro de Arte e Comunicacao Visual (Ar.Co), entre 2009 e 2011 estudou e viveu em Chicago. Segundo a artista o facto de ter saido do Brasil e ter vivido prolongadamente em outros paises fe-la sentir necessidade de fincar raizes onde estava a viver. Isso reflete-se no seu trabalho, no conceito, em pecas "site-specific" e atraves da pesquisa da historia e cultura do local onde se encontra. Tornou-se-lhe um exercicio continuo descobrir outras memorias para a construcao sua propria memoria pessoal.

Liene ambicionava ser cenografa, mas devido a inexistencia de um curso superior nesta area decidiu estudar Arquitetura e Urbanismo em simultaneo com um bacharelato em Artes Plasticas, ainda em Sao Paulo. Fascinada pelo processo criativo a sua pratica foi consecutivamente tornando-se mais solida e complexa. Em uma entrevista que lhe foi dirigida no espaco "Carpe Diem Arte e Pesquisa", onde esteve em residencia, Bosque, afirma que a sua passagem por Lisboa foi uma oportunidade decisiva para o desenvolvimento da sua linguagem pessoal. Em Lisboa, o foco da sua praxis estruturou-se pela repeticao do uso da arquitetura como matriz para moldes e impressoes com latex, acoes que permeiam o seu trabalho ate hoje. Porem, diz, foi durante o seu mestrado na School of the Art Institute of Chicago que o seu interesse pela historia bem como pela teoria da arquitetura e da cidade marcaram definitivamente o seu campo imagetico.

Apontamentos esquecidos do mobiliario urbano, edificios que foram sucessivamente alterados ou arquetipos do viver de determinada comunidade destacam-se como elementos de particular interesse para Bosque. De uma percecao atenta do lugar, seleciona e analisa fragmentos da construcao, para em seguida, cuidadosamente, prosseguir com o fabrico do molde. Hapticamente e de forma reversivel os seus moldes permitem-nos sentir o peso material e a espessura temporal do espaco em que vivemos.

As anamorfoses de Bosque herdam notoriamente o legado artistico de Heidi Bucher (1926-1993). A artista suica foi percursora na aplicacao de latex sobre casas e objetos. Foi em meados da decada de 1970 que comecou a desenvolver a nova tecnica na qual encharcava lencos de gaze na borracha de liquida, forrando meticulosamente superficies amplas. Bucher usou como suporte a casa dos seus avos e o seu proprio atelier. Os "Skinnings" (Figura 1) de Bucher sao as peles do lugar, mas sao tambem a fixacao de formas e volumes em planos translucidos, quase vestiveis, quase organicos. A justaposicao entre a fragilidade da materia usada e a escala destas obras remete-nos para uma relacao visceral com o espaco. Ante o resultado, somos levados a assistir a um antropomorfismo vulneravel dos nossos abrigos.

Bucher indagou como habitamos os espacos e como eles nos habitam, como eles conduzem as nossas memorias e acoes. Ao cobrir e posteriormente esfolar a sua casa de infancia, nao se ocupou apenas com a transferencia das organizacoes materiais e geometricas, ela acondicionou, reteve, resguardou a memoria dos volumes suturados da sua vivencia mas, seguidamente, puxou e arrancou com determinacao a casca da sua "concha" como um artropode a provocar a sua propria ecdise.

Ha uma organicidade, uma forca e uma densidade materica nas peles esfoladas de Bucher que nao encontramos nos trabalhos de Bosque. Mais silenciosa e subtil, Liene, apropria-se da tecnica mas certifica-se que o seu trabalho tem lugar proprio. Em a "Opennings" (Figura 2) o duplo da janela cede ao peso da gravidade. Tem a volupia de um quase tecido, e parece ate, para quem ve a primeira vez, que esteve sempre ali, que e parte integrada do lugar. Muda e harmoniosa trata-se de uma membrana que testemunhou todas as fendas e pequenos aglomerados da fenestra. Da fenestra, a mesma que se abriu e fechou anos a fio por tantas maos, e todas as maos deixaram uma particula de si. Longe de ser uma estrutura estatica e inerte, a verdadeira casa concentra esquemas de movimento e habitos que fazem parte da natureza do espaco da habitacao. Aquela membrana agora suspensa entre a zona inferior da janela e o chao reteve a rugosidade de todas essas passagens.

O campo gravitacional haptico de "Openings" desdobra-se em "Interior/ Exterior" (Figura 3), revertendo, nesta, a presenca da obra para o exterior do edificio. E se antes do tecido viscoso parecia condensar a quentura do lar, aqui o silencio e soberano. O saguao comum de predios altos parece nunca cumprir a sua funcao de partilha, e geralmente um terreno sem vida. Nesta obra as janelas de latex repetem-se modularmente a partir das diferentes aberturas. Materialmente identicas aquela anteriormente citada, estas aparentam ter-se mumificado em po de betao.

A percecao distinta de obras identicas justifica o argumento de que estas superficies flexiveis sao capazes de reter a natureza da substancia material que absorvem e reproduzem mas que simultaneamente expoem a fluidez da sua historia humana e temporal.

Para Liene Bosque o discurso material da obra e proficiente, afirmando o seu interesse por materiais que possuem memoria, saturados em si mesmos de significado.

Em "Surface Matters of aesthetics, Materiality, and media" (2014) a teorica Guiliana Bruno argumenta que a materialidade nao e uma questao de materiais mas sim a substancia das relacoes materiais e que isso vai contaminar o nosso sentido de espaco e de contacto com o meio ambiente bem como o da nossa experiencia de temporalidade interioridade e subjetividade.

Bruno acredita e defende que a tensao superficial e hoje uma condicao central na arte contemporanea e na arquitetura, sinalizando uma remodelacao da nossa relacao perceptiva com o objeto artistico e com os com espacos expositivos.

A sintonia entre o pensamento de Bruno e o projeto de Liene Bosque efetua-se sobretudo segundo duas linhas estruturantes. A primeira no sentido de que para Bruno repensar a materialidade significa accionar novas formas de conexao. Procura demonstrar que a fisicalidade de uma coisa que se pode tocar nao desaparece com a sua extincao e que esta pode vir transformar-se em outro meio expressivo. Bosque transforma as estruturas rigidas em materiais mais frageis e flexiveis, o seu trabalho concretiza-se pela transposicao de elementos formais entre diferentes naturezas materiais.

Segundo, ambas tem interesse em como atribuimos significados a locais e objetos e como essas experiencias podem servir como catalisador para alterar a perspectivas da vivencia coletiva dentro do dominio privado.

Nao obstante para Bruno a experiencia estetica e por natureza haptica, pois estabelece-se tangivelmente em uma relacao proxima e transitoria entra obra e observador. Paralelamente a pratica artistica de Bosque surge como indice revelador de um paradigma tactil que nos conduz a uma outra proximidade com a textura do tempo.

Conclusao

A pele nao e apenas o tecido que abriga os corpos, mas o meio atraves do qual o organismo se relaciona com o lugar. Nao esquecamos que estas peles sao superficies e que as superficies sao sempre peles. Sao os limites de outros limites.

A pele e sempre onde o dentro e o fora se relacionam e se distinguem. E um tecido que e ao mesmo tempo conjuntivo e disjuntivo.

Nas obras em estudo, "Openings" e "Interior/Exterior", modelo e objeto coadunam na qualificacao significativa, pois o elemento janela e por si um plano de interacao e transicao. Bachelard (2008) conferiu ao contorno que delimita o interior um percurso de sentidos opostos de variaveis contraditorias, a casa e nao casa, o aberto e o fechado, o aqui e o ali, o cosmos e o caos.

As membranas de latex de Liene Bosque transformam a topografia exterior dos edificios em geografias interiores. Ao moldar a tessitura de espacos domesticos, Liene, da existencia corporea a textura da vida privada de outros e por um breve momento permite-nos o acesso a materialidade densa dessa historicidade suspensa.

Referencias

Bachelard, Gaston (2008). A Poetica do Espaco. Sao Paulo: Martins Fontes.

Bergson, Henri (1990). Materia e Memoria: Ensaio sobre a relacao do corpo com o espirito. Sao Paulo: Martins Fontes.

Bruno, Guliana. (2014). Surface Matters of aesthetics, Materiality, and media. Chicago: University of Chicago Presss.

Kearney, Richard & Treanor, Brian (Ed) (2015). Carnal Hermeneutics. New York: Fordham University Press.

Nancy, Jean-Luc (2000). Corpus. Trad. Tomas Maia. Lisboa: Vega.

Agradecimentos

A autora e bolseira da Universidade de Lisboa, na Faculdade de Belas-Artes.

Artigo completo submetido a 4 de janeiro de 2017 e aprovado a 17 janeiro 2018

SUSANA MARIA PIRES, Portugal, artista plastica.

AFILIACAO: Universidade de Lisboa; Faculdade de Belas-Artes; Centro de Investigacao e Estudos em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas Artes 14, 1200-005. Lisboa, Portugal. E-mail: spires@campus.ul.pt

Caption: Figura 1. Fotografia de Hans Peter Siffert, 1979. Heidi Bucher durante a construcao de Skinning. Fonte: http://heidibucher.com/work/

Caption: Figura 2. Liene Bosque. "Openings", 2008. Latex. Dimensoes variaveis. Fonte: http://www.lienebosque.com/artwork/

Caption: Figura 3. Liene Bosque. "Interior/Exterior", 2008. Latex. Dimensoes variaveis. Fonte:http://www.lienebosque.com/artwork/
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Pires, Susana Maria
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:1990
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