Printer Friendly

The sick building and the healthy building/O edificio doente e o edificio saudavel/El edificio enfermo y el edificio saludable.

INTRODUCAO

Podem parecer estranhas as expressoes edificios doentes ou edificios saudaveis, pois a objetos nao se colocam normalmente essas qualificacoes. Sao adjetivos, no entanto, que tem sido utilizados para, abreviadamente, indicar que existem ambientes fisicos que, por suas caracteristicas, sao provocadores de doencas ou facilitam a cura.

A afirmacao de que o ambiente e o grande responsavel pelo estado de saude humano nao e nova e remonta aos gregos, particularmente a Hipocrates que, em sua obra Dos Ares, Aguas e Lugares, defende a nocao da saude como um estado de equilibrio entre o homem e seu meio ambiente (BATISTELLA, 2017). O ambiente construido, com seu carater artificial, claramente pode expressar essa mutua influencia, pois, com o dominio tecnologico crescente, tornou-se possivel a criacao de espacos com desequilibrios sutis e enganadores.

Os ambientes de saude sao os mais representativos relativamente as condicoes fisicas que influenciam seus usuarios, pois sao frequentados por pessoas debilitadas e sensiveis as mais leves variacoes das condicoes do espaco que os envolve. Torna-se natural, portanto, considerar o seu estudo como paradigmatico para a conceituacao do que seria uma edificacao saudavel. Na edificacao para a saude sera possivel detectar claramente os fatores prejudiciais ao equilibrio do ser humano com seu meio, indicando aos abrigos edilicios das demais funcoes os principais pontos de cuidado.

No presente trabalho, serao levantadas as caracteristicas de uma edificacao saudavel tomando por base um levantamento de referencias que tratam da influencia do meio ambiente de edificacoes assistenciais na saude dos seus ocupantes. O objetivo proposto e a contribuicao ao debate das formas de projetar e construir edificacoes que realmente sejam adequadas a inducao do bem-estar fisico e mental das pessoas.

SINDROME DOS EDIFICIOS DOENTES

Fatores historicos complexos da civilizacao, como a revolucao industrial, a mecanizacao da agricultura, as revolucoes da informatica e dos servicos, obrigam o ser humano moderno a viver a maior parte do tempo no interior das edificacoes. Com a concentracao das pessoas nas cidades, as condicoes de salubridade dos ambientes interiores aos edificios passaram a adquirir importancia crescente enquanto influenciadoras do estado de saude das populacoes.

As condicoes de sub-habitacao a que sao submetidas vastas parcelas dos moradores das cidades constituem-se em causa principal de uma serie de doencas, notadamente as de veiculacao hidrica. As medidas de higiene adotadas em meio urbano, como o esgotamento sanitario e a agua tratada, sao os responsaveis diretos pela maior longevidade humana, evitando as epidemias que dizimavam vastas parcelas das populacoes de maneira periodica (JANSZ, 2011).

Com a invencao do ar-condicionado, o desenvolvimento tecnologico das estruturas de aco e concreto e do elevador, no inicio do seculo XX, passou-se a adotar construcoes verticalizadas, com janelas fechadas ou, mesmo, sem janelas, criando-se ambientes com pouca ou nenhuma troca com o ar exterior, ocasionando reacoes organicas adversas naqueles que os utilizam. A nao renovacao do ar, que aumenta o indice de gas carbonico, juntamente com a crescente adocao de materiais sinteticos--como colas, resinas e produtos de limpeza--, a falta de manutencao de filtros dos aparelhos insufladores de ar e residuos de fumaca de cigarros acarretam problemas respiratorios e alergicos associados ao ambiente construido (FINNEGAN; PICKERING; BURGE, 1984).

A expressao Sick Building Syndrome (SBS)--ou Sindrome do Edificio Doente (SED)--foi cunhada para expressar problemas de saude ocasionados pelas condicoes ambientais dos espacos reservados ao trabalho diario. Observou-se que algumas pessoas sao acometidas de sensacoes como dores de cabeca, nauseas, tonturas, problemas respiratorios e outras afeccoes somente enquanto estao no ambiente de trabalho. A caracteristica principal da doenca e a relacao dos sintomas com o ambiente, que desaparecem depois de poucas horas que o individuo deixa o local.

Pesquisas mais aprofundadas demonstram que os espacos fechados, submetidos diariamente ao ar condicionado, ou aqueles com deficiencia de ventilacao, sao os mais propensos a disseminacao dessa patologia. A partir da decada de 1980, diversas pesquisas foram efetuadas em ambientes de trabalho que utilizavam o ar-condicionado durante todo o dia, detectando-se, por parte de uma parcela dos usuarios, os sintomas. Com a continuidade desses estudos, foi demonstrado que outros fatores tambem seriam determinantes do malestar dos ocupantes das edificacoes, como os ruidos intensos e continuados, a falta de janelas que permitissem a visao exterior, entre outras caracteristicas.

Analisando mais de trezentos trabalhos relativos a questao da ventilacao em escritorios, Sundell, Levin e Novosel (2006) detectaram que haviam poucos casos de notificacao da sindrome apenas quando a troca de ar excedia a 25 litros por segundo por pessoa. Schettler (2006, p.4) constata a efetividade do aumento da troca de ar a partir de 10 litros por segundo por pessoa, na melhoria das condicoes internas do ar em escritorios. Wargocki, Wyon e Fanger (2000) demonstram uma forte correlacao entre qualidade do ar e produtividade em ambientes de trabalho.

Segundo Naimi (2013, p. 29), as condicoes mais frequentes para a deteccao da SED sao: falta de ventilacao, proximidade de ruas barulhentas, alta umidade, execucao de obras e mobiliario que utiliza resinas sinteticas. Graudenz e Dantas (2007) constatam que a maior incidencia da SED foi detectada em edificios recem-inaugurados (ate seis meses) e nos mais antigos. Nos edificios mais novos, considera-se a causa mais provavel a exalacao de resinas de mobiliario e carpetes e, nos mais antigos, a falta de limpeza de filtros de ar condicionado.

A pesquisa sobre o tema continua a despertar grande interesse em relacao a melhoria das condicoes de bem-estar no interior das edificacoes. As informacoes disponiveis servem para comprovar a influencia direta das condicoes do ambiente construido na saude dos seus ocupantes. Passam-se grandes periodos da vida diaria no interior de edificios, recebendo-se continuamente sua influencia. Nada mais justo que a preocupacao com esses ambientes seja decisiva para o estado de saude dos usuarios.

As condicoes de trabalho e habitacao devem ser consideradas na avaliacao da qualidade do espaco construido. Deve-se priorizar a adequacao ambiental em qualquer projeto arquitetonico ou obra. Com o claro desafio proporcionado pelas mudancas climaticas, que colocam em jogo a sobrevivencia da especie humana, a concepcao de edificios saudaveis torna-se primordial, significando um avanco qualitativo util para toda a sociedade.

EDIFICIOS SAUDAVEIS

Pode-se qualificar um edificio como ambientalmente equilibrado se nao provocar doencas. E famosa a frase de Florence Nightingale (1863), referindo-se aos hospitais, no prefacio de seu livro: "Pode parecer um principio estranho declarar como o primeiro requisito em um Hospital que nao deve fazer ao enfermo nenhum dano." (NIGHTINGALE, 1863, p. iii). Essa caracteristica, contudo, nao pode ser suficiente para os edificios de saude. Para esses estabelecimentos, o ambiente deve ser agradavel, convidativo, indutor do relaxamento, tranquilidade e alegria, deve ser um espaco curativo, saudavel. De meados do seculo XIX ate o inicio do seculo XX, quando da implantacao do partido pavilhonar em hospitais, observou-se um periodo em que as edificacoes eram consideradas verdadeiras "maquinas de curar", dando-se o devido destaque a questao ambiental. O progresso tecnologico, no entanto, acabou por sufocar esse paradigma (TOLEDO, 2006).

A urbanizacao do mundo moderno, com seu progresso material crescente, levou a medicina a priorizar o tratamento baseado em medicamentos sintetizados, esquecendo-se do papel essencial das condicoes ambientais para a recuperacao dos pacientes. Deve-se destacar que a cura, antes de tudo, e um processo natural (GUENTHER; VITTORI, 2008, p.77).

A medicao dos aspectos ambientais positivos nao se trata de tarefa simples. Nao ha, porem, espaco arquitetonico mais indicado para a analise das suas qualidades curativas que as edificacoes assistenciais de saude e, em particular, os hospitais, que tem a caracteristica de internar doentes, muitas vezes por longos periodos. Nesses lugares, as pessoas se encontram debilitadas, sendo mais sensiveis aos aspectos positivos da edificacao. Se as causas da SED atuam sobre individuos sadios, serao ainda mais rigorosas sobre os debilitados. A pesquisa ambiental em edificacoes de saude indica, para as demais tipologias de edificacoes, quais as caracteristicas fisicas favoraveis, nao somente para a manutencao e inducao do bem-estar, mas para a cura.

As pesquisas relativas aos ambientes de saude ja possuem um volume quantitativo e qualitativo que permite interessantes conclusoes sobre as caracteristicas de um edificio saudavel. Alguns desses estudos foram executados segundo a metodologia do "projeto baseado em evidencias" ou evidence based design. Essa designacao tem sido dada a uma corrente neopositivista de pesquisas na medicina que defende a comprovacao quantitativa dos procedimentos curativos e critica uma serie de consideracoes baseadas apenas no senso comum, sem nenhuma comprovacao de dados rigorosamente coletados. Malkin (2012) afirma que ja e possivel listar diversas caracteristicas ambientais como de influencia quantitativamente comprovada no restabelecimento da saude de pessoas internadas em hospitais, como o uso da iluminacao natural, que diminui os erros medicos; as vistas da natureza, que diminuem a dor e a reducao de ruido, que auxilia no tratamento de casos de depressao (MALKIN, 2012, p. 20).

De acordo com Verderber (2010, p. 67), a gestao ambiental curativa em uma edificacao de saude esta ligada ao controle das condicoes climaticas, a utilizacao da iluminacao natural, a facilidade de manutencao e reforma e ao proporcionar visuais agradaveis e o convivio com a natureza.

Os fatores que afetam positivamente a saude dos usuarios de um estabelecimento de saude podem ser considerados caracteristicas desejaveis dos edificios saudaveis. Nos estudos efetuados na literatura sobre o tema, observa-se que esses fatores podem ser englobados em tres setores: Higiene, Conforto e Sustentabilidade.

HIGIENE

Em relacao a higiene da edificacao, o primeiro ponto que se destaca nos estabelecimentos de saude e a necessidade de controle de infeccao. As Infeccoes Relacionadas a Assistencia a Saude (IRAS) constituem-se em permanente preocupacao dos orgaos responsaveis pela vigilancia sanitaria. Nao existem dados atualizados fidedignos sobre a incidencia de infeccao hospitalar no Brasil, mas Monteiro e Pedroza (2015) reportam uma pesquisa realizada em 1995, em 103 hospitais brasileiros de diversas capitais, onde foi encontrado um indice de 15,5%, sendo de 18,6% em instituicoes publicas. Acrescentam, ainda, que um estudo da OPAS/OMS descreve uma pesquisa executada em 14 paises, no periodo entre 1986 e 1985, onde foi encontrada uma taxa de infeccao hospitalar de 8,7%.

O controle de infeccao e um problema de grande magnitude, que interfere nos servicos prestados em ambientes de saude, colocando em risco nao somente o paciente, mas visitantes e funcionarios. Deve-se adicionar a questao a crescente resistencia dos micro-organismos aos antibioticos, fato que torna a simples frequencia aos hospitais um fator de risco.

A principal forma de transmissao de infeccoes e o contato fisico entre pessoas ou com equipamentos contaminados. Essa caracteristica torna a questao da lavagem das maos o principal requisito para o seu controle, impondo-se a necessidade de colocacao estrategica, e em quantidade suficiente, de lavatorios e dispensadores de alcool gel. Fiorentini, Lima e Karman (1995) ressaltam a necessidade de colocacao de lavatorios tambem em locais de confeccao e consumo de alimentos e junto a instalacoes sanitarias.

De acordo com Prado, Hartmann e Teixeira Filho (2013), a baixa adesao a lavagem das maos nos hospitais brasileiros se deve a falta de treinamento continuado das equipes de saude, escassez de lavatorios e sua ma localizacao, carencia de produtos de limpeza, falta de cultura de higiene e limpeza e lideranca administrativa que incentive o procedimento.

Correlacionado ao controle de infeccao hospitalar, esta a escolha de materiais de acabamento de pisos, paredes e tetos. A correta selecao dos materiais de acabamento e mobiliario e tarefa de especial importancia em um estabelecimento de saude, pois determina a facilidade de limpeza, durabilidade e eficiencia da manutencao. Os materiais de acabamento utilizados em estabelecimentos de saude sofrem acao constante de produtos quimicos causticos e abrasivos. A sua durabilidade envolve nao somente a resistencia, mas a manutencao que nao implique em trocas ou reparos frequentes. Deve ser acrescentada, ainda, a absorcao acustica, que interfere no conforto, principalmente de pacientes internados; a aparencia estetica, que influencia decisivamente no bem-estar dos usuarios, e o custo, que permita sua aquisicao e reparo (BICALHO, 2010, p. 75).

A RDC 50/2002 (BRASIL, 2004) divide os ambientes de um estabelecimento de saude em areas criticas, semicriticas e nao criticas, quanto aos cuidados de controle de infeccao. As areas criticas sao onde se dispensam cuidados a pacientes que estejam em risco de vida como em cirurgias, emergencias, terapia intensiva, hemodialise, hemodinamica--ou servicos de apoio a vida--como laboratorios, cozinha e lactario.

Em areas criticas, frequentemente ha a necessidade de limpeza devido ao derramamento de sangue, secrecoes ou medicamentos. Bicalho (2010) destaca que pisos em areas criticas devem ter a menor absorcao possivel de agua, que facilita a proliferacao de micro-organismos. A RDC 50/2002 (BRASIL, 2004, p. 120) estipula um indice de absorcao de agua maximo para pisos em areas criticas de 4%. Essas areas possuem necessidade de protecao ambiental, assim como podem representar risco para outros ambientes. Os projetos desses espacos devem ser tratados de forma diferenciada, com a utilizacao de materiais faceis de limpar, que resistam a produtos acidos e basicos, alem de terem alta confiabilidade tecnica e resistencia ao choque e desgaste.

As areas semicriticas abrigam pacientes ou servicos de baixo risco, como ambulatorios, quartos, enfermarias ou salas de exames nao invasivos, como radiologia. Nesses ambientes, os materiais utilizados devem possuir a qualidade de facil assepsia, mas nao necessitam do mesmo nivel de limpeza e desinfeccao das areas criticas. Ja as areas nao criticas, como depositos, areas administrativas e sanitarios gerais, nao precisam de maior cuidado que qualquer edificacao.

Em relacao a questao do ruido, devem-se evitar materiais de acabamento refletores de som em locais de estadia prolongada de pessoas, como internacoes e esperas. Isolamentos acusticos devem ser seriamente considerados em casos de equipamentos medicos ruidosos (BRASIL, 2014).

Uma caracteristica particular dos estabelecimentos assistenciais de saude e a geracao de residuos solidos contaminados ou especiais, que exigem, na maioria das vezes, coleta e tratamento diferenciado. A norma RDC 306/2004 (BRASIL, 2006) trata detalhadamente dos diversos tipos de residuos de saude e especifica a necessidade de que cada instituicao possua um plano que garanta a correta segregacao na producao do residuo, bem como a guarda e destino final. Como exemplos de residuos de saude particularmente perigosos, pode-se destacar os infectados, as pecas anatomicas, os medicamentos e os elementos radioativos. Todos devem ser alvo de correta separacao no momento de sua producao, alem de ter destino final especifico.

A segregacao e coleta dos residuos solidos de servicos de saude e um fator importante a ser considerado no projeto de uma edificacao de saude, com a previsao de depositos para a guarda provisoria. A separacao por tipo de residuo deve ser efetuada na geracao, conforme as caracteristicas de risco a saude publica. Como o destino final dos residuos perigosos sao repassados a empresas especializadas, que possuem contratacao custosa, em alguns hospitais de maior porte sao projetadas unidades de tratamento simplificadas, que executam a triagem, esterilizacao e trituracao dos residuos que, dessa forma, perdem a patogenicidade e podem ser descartados ordinariamente. Os abrigos, internos e externos, devem prever separacao sinalizada para os residuos potencialmente infectantes, quimicos, perfurocortantes e anatomicos, alem das caracteristicas de acessibilidade, exclusividade, seguranca e facilidade de higienizacao (BRASIL, 2006, p.48).

CONFORTO

O esforco para criar um espaco humanizado e saudavel deve atender aos aspectos de conforto ambiental, ergonomico, de acessibilidade, seguranca, sinalizacao e, principalmente, valorizar as questoes subjetivas do usuario, dando confianca aqueles que os utilizam.

A questao da acessibilidade em uma edificacao de saude nao se restringe a disponibilizacao de condicoes de utilizacao satisfatoria por pessoas portadoras de deficiencias--grande parte dos usuarios de edificacoes de saude--, mas devem adequar-se a casos especiais, como ao transito de macas, o transporte de pessoas juntamente com os equipamentos de tratamento, alem de prever situacoes que envolvem a seguranca contra acidentes e incendio. Alem de atender a NBR-9050 (ABNT, 2015), devera observar o que estipula a RDC-50/2002 (BRASIL, 2004) e outras normas, como a NBR-9077 (ABNT, 2001).

Pacientes internados por longos periodos em hospitais frequentemente tem o ciclo circadiano prejudicado pela iluminacao artificial inadequada, pois o corpo humano se adapta ao periodo da luz solar para dormir, descansar e desempenhar suas atividades. A luz do sol tem atuacao no conforto mental, dando sensacoes de seguranca e tranquilidade, o que se reflete na recuperacao do paciente. A radiacao solar que atinge a pele, nao gera somente a vitamina D, necessaria para o equilibrio osseo e imunologico, mas favorece a producao de um conjunto de hormonios que dao equilibrio ao comportamento humano (CARDOSO, 2012).

Uma tendencia nos estabelecimentos de saude e a adocao de areas verdes e o cuidado paisagistico, induzindo ao contato com a natureza. A deambulacao precoce e incentivada com a criacao dos chamados "jardins terapeuticos", que apresentam vantagens nas unidades de internacao hospitalar, como permitir o recebimento de luz solar, o treinamento dos sentidos, a socializacao com outros pacientes, diminuindo a tensao nervosa e aumentando a aceitacao do tratamento (MARCUS, 2006). Del Nord (2011, p. 622) afirma que sera preciso uma atencao particular ao se planejar a maxima utilizacao da luz natural e do contato com o verde em estabelecimentos de saude.

Para Hamilton e Shepley (2010), os jardins em unidades de saude devem considerar a mobilidade reduzida dos pacientes e a criacao de areas para a interacao social, para a fruicao visual e a introspeccao. Janelas amplas, patios ou varandas podem ser utilizados para esse fim. Guenther e Vittori (2008) destacam a importancia de proporcionar vistas que tenham a presenca da agua, que possui um efeito tranquilizador.

Outro fator essencial no conforto de usuarios de estabelecimentos de saude e sua adequacao ergonomica (BRASIL, 2014). Os espacos, mobiliario e equipamentos devem estar adequados ao uso, de modo a proporcionar a manipulacao correta e que nao traga sequelas. Pode-se destacar, nesse item, o transporte de pacientes e insumos, a utilizacao de cadeiras, mesas, bancadas e a operacao de esquadrias. Os estabelecimentos de saude necessitam, com frequencia, levar individuos que nao estao em condicoes de se deslocar sozinhos para que efetuem diversas atividades. A disponibilizacao de guinchos, moveis ou adaptados em tetos, evita o esforco excessivo do paciente e do pessoal de enfermagem, o que pode ocasionar acidentes ou lesoes.

As cadeiras, mesas e bancadas sao comuns em varios espacos de prestacao de servicos de saude. Como o pessoal de enfermagem e pacientes possuem porte fisico variavel, e o trabalho nesse tipo de mobiliario exige tempo e esforco intenso, sera necessario que tenha a possibilidade de adaptacao a cada pessoa. O mesmo pode-se ressaltar em relacao a operacao de esquadrias, como portas e janelas, que nao devem possuir fechos que dificultem a acao de pessoas com deficiencias.

SUSTENTABILIDADE

O conceito de sustentabilidade na arquitetura, aplicado aos dias hoje, se refere a capacidade da edificacao controlar os seus residuos em geral e o consumo de insumos, de forma que a sua contribuicao ao meio ambiente nao comprometa geracoes futuras (BITENCOURT, 2006, p. 30). A exploracao desenfreada dos recursos naturais e a producao de residuos, notadamente na geracao de energia, demonstram uma atuacao predatoria do ser humano em relacao ao meio ambiente, fazendo com que o seu equilibrio se torne insustentavel.

Entre as medidas necessarias para a reducao do impacto ambiental de estabelecimentos de saude, podem ser citados: o controle, reaproveitamento e reciclagem dos residuos solidos, como ja ressaltado, o aproveitamento da ventilacao e iluminacao naturais e o incentivo a geracao de energia de forma limpa. Nao podera ser esquecido o processo de gerenciamento da construcao dos edificios. As obras deverao atender as condicoes da construcao "mais limpa", de forma a proporcionar a minima geracao de residuos e a utilizacao de produtos ecologicamente atestados (CARRAMENHA, 2010). Uma edificacao saudavel devera garantir a utilizacao de materiais em que suas condicoes de fabricacao e transporte sejam ambientalmente corretas.

A analise da questao ambiental envolvendo edificios de saude e essencial, principalmente devido as suas caracteristicas de uso de sofisticados equipamentos tecnologicos e alto consumo energetico (GUENTER; KARLINER, 2011). As variacoes climaticas, que ocorrem a nivel global, afetam a saude nao somente em relacao a maior incidencia de desastres naturais, mas a uma vasta gama de fatores. Segundo Guenter e Vittori (2008, p. 27): "Certos problemas de saude sao reconhecidamente associados as variacoes climaticas, poluicao do ar, contaminacao da agua e doencas ocasionadas por diversos vetores, como moscas, mosquitos e roedores."

Bitencourt (2006, p. 31) destaca que o impacto ambiental de estabelecimentos de saude esta atrelado a caracteristicas como: funcionamento intensivo nas 24 horas, geracao de circulacao de pessoas em grande numero, possuir distintos centros de trabalho, com demandas de insumos e energia diferenciados, exigindo reserva e grande magnitude de instalacoes. Pode-se acrescentar ainda: os sistemas construtivos, sua manutencao, fatores de humanizacao e de seguranca sanitaria ou biosseguranca.

Edificacoes de saude sao grandes consumidoras de insumos como energia e agua. Por frequentemente funcionar nas 24 horas do dia e possuir diversos setores que nao podem prescindir em nenhum instante do abastecimento energetico, as unidades de saude mais complexas sao obrigadas, por norma, a possuir geradores, baterias e condicao segura de fornecimento. Essas caracteristicas induzem a adocao de sistemas alternativos de geracao, como a solar e eolica. O pre-aquecimento da agua por energia solar ja pode ser considerado comum em grandes hospitais, bem como a geracao por combustiveis alternativos, como o GLP.

Em relacao a economia de energia, deve-se destacar particularmente a busca pela utilizacao de meios naturais de aquecimento e ventilacao. Devido a importancia do gasto energetico de equipamentos de controle de temperatura, ventilacao e umidade, qualquer alteracao nessa variavel representa grande economia. Solucoes arquitetonicas, como a boa orientacao do edificio, brises, vidros especiais, teto verde, fachadas ventiladas, isolamentos termicos em paredes e tetos, podem ser decisivas em relacao aos custos de manutencao e a contribuicao social aos esforcos de menor emissao de CO2. Os tetos verdes, em especial, auxiliam no isolamento termico e captacao de agua da chuva, alem de proporcionar espacos adicionais para o lazer de funcionarios e pacientes (VILAS-BOAS, 2011).

O alto consumo de agua nos estabelecimentos de saude impoe que sejam considerados como essenciais o seu tratamento para reuso, as diversas formas de economia e o aproveitamento de agua da chuva. O tratamento dos efluentes liquidos, principalmente os provenientes de laboratorios, lavanderias e de cuidados com os pacientes, constitui-se em medida necessaria para a diminuicao do impacto ambiental.

Algumas unidades de saude, como hemodialise e laboratorios, necessitam de tratamento adicional da agua antes do consumo, o que pode ser estendido a toda edificacao, a depender da fonte de fornecimento. Seus reservatorios devem ter controle frequente de qualidade, garantida por exames laboratoriais. A quantidade e volume de camaras de reserva de agua potavel devera permitir o fornecimento continuo, mesmo nos momentos em que se efetuar a manutencao, limpeza, desinfeccao e controle de qualidade.

CONCLUSOES

Para a determinacao das caracteristicas de uma edificacao saudavel, o melhor modelo a ser estudado sao as edificacoes de saude, notadamente os hospitais. Nesses estabelecimentos e possivel efetuar medicoes e analisar os meios fisicos que favorecem a cura. Essas condicoes certamente serao uteis para pessoas saudaveis terem um espaco equilibrado e apto a preservacao de suas condicoes fisicas e mentais.

No quadro 01, pode-se observar um resumo das caracteristicas mais relevantes aqui levantadas para uma edificacao saudavel, indicando um caminho para a analise e confeccao de projetos arquitetonicos indutores de bem-estar fisico e mental.

As caracteristicas de Higiene, Conforto e Sustentabilidade podem ser consideradas os pilares de uma edificacao que, alem de nao provocar danos ao ambiente, permita o restabelecimento da saude de pessoas que eventualmente estejam debilitadas--e isso e particularmente importante na atualidade, quando se experimenta um aumento acelerado da expectativa de vida, o que implica na maior quantidade de pessoas idosas e com problemas de saude.

Logicamente a higiene sera essencial em um edificio saudavel. Os estabelecimentos de saude indicam que sera essencial a disponibilizacao, em locais estrategicos, de lavatorios, que induzam a lavagem das maos--principal forma de diminuicao da transmissao de infeccoes. A proximidade de instalacoes sanitarias e locais de alimentacao sao os pontos naturalmente indicados em todo tipo de edificacao.

Os materiais de acabamento em pisos paredes e tetos e as superficies do mobiliario deverao favorecer a limpeza e a manutencao. Aos residuos gerados pelas atividades desempenhadas nas edificacoes serao previstos locais adequados para a segregacao, guarda e coleta, facilitando o tratamento posterior.

Quanto ao conforto, a edificacao saudavel devera permitir a conservacao da temperatura e umidade agradavel utilizando o minimo de recursos artificiais. A iluminacao e ventilacao naturais devem ser incentivadas, com a adocao das tecnicas de protecao disponiveis. As areas verdes precisam ser utilizadas nao somente para o conforto visual, mas como locais de socializacao e caminhadas, facilitando os banhos de sol e o desfrute do ar puro. O ruido deve ser combatido, tomando-se as medidas de isolamento adequadas. Faz parte da edificacao saudavel a adocao do principio da acessibilidade universal, considerando que todos possuem periodos da vida em que estao com alguma incapacidade fisica.

O que as edificacoes de saude acrescentam em relacao a sustentabilidade ambiental sao as medidas que garantam o pleno fornecimento, sem interrupcoes, dos insumos basicos de agua e energia. A existencia de formas seguras de armazenamento da agua, bem como o incentivo a geracao de energia limpa, sao licoes dos estabelecimentos de saude para as edificacoes saudaveis. Pode-se, ainda, acrescentar o cuidado com o tratamento de efluentes contaminantes que despejem em mananciais.

O estudo continuado das melhores condicoes ambientais das edificacoes de saude sera essencial para o estabelecimento de ambientes saudaveis para todos os seres humanos. Um edificio saudavel deve induzir a habitos corretos, que mantenham o perfeito equilibrio fisico, mental e social do ser humano, desenvolvendo formas dinamicas de participacao das comunidades em que se inserem.

http://dx.doi.org/10.12957/sustinere.2017.29214

REFERENCIAS

ABNT--ASSOCIACAO BRASILEIRA DE NORMAS TECNICAS. NBR 9050: Acessibilidade a edificacoes, mobiliario, espacos e equipamentos urbanos. Rio de Janeiro, 2015.

ABNT--ASSOCIACAO BRASILEIRA DE NORMAS TECNICAS. NBR 9077: Saidas de emergencia em edificios. Rio de Janeiro, 2001.

BATISTELLA, Carlos. Saude, Doenca e Cuidado: complexidade teorica e necessidade historica. Disponivel em: http://www.epsjv.fiocruz.br/pdtsp/index.php? s_livro_id=6&area_id=2&capitulo_id=13&autor_id=&sub_capitulo_id=14&arquivo=ver_conteudo_2. Acesso em: 10 jun 2017.

BICALHO, Flavio C. A arquitetura e engenharia no controle das infeccoes. Rio de Janeiro: Rio Books, 2010.

BITENCOURT, Fabio. A sustentabilidade em ambientes de servicos de saude: um componente de utopia ou de sobrevivencia? In: CARVALHO, Antonio Pedro Alves de. (Org.). Quem tem medo da Arquitetura Hospitalar? Salvador: Quarteto Editora, 2006. p.13-48.

BRASIL. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (ANVISA). Conforto Ambiental em Estabelecimentos Assistenciais de Saude. Brasilia, 2014.

BRASIL. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (ANVISA). Manual de gerenciamento de residuos de servicos de saude. Brasilia, 2006.

BRASIL. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (ANVISA). Normas para projetos fisicos de estabelecimentos assistenciais de saude. Resolucao RDC/ANVISA no. 50, de 21 de fevereiro de 2002. 2a. ed. Brasilia, 2004.

CARDOSO, Joao D. Luminarias especiais para ambientes hospitalares de internacao prolongada. In: CONGRESSO BRASILEIRO PARA O DESENVOLVIMENTO DO EDIFICIO HOSPITALAR, 5, 2012, Sao Paulo. Anais ... Sao Paulo. 2012, p. 59-66.

CARRAMENHA, Marcia Maria Lisboa. Sustentabilidade em edificios de saude. In: CONGRESSO BRASILEIRO PARA O DESENVOLVIMENTO DO EDIFICIO HOSPITALAR, 4, 2010, Brasilia. Anais ... Brasilia, 2010, p. 71-82.

DEL NORD, Romano. The New Strategic Dimensions of the Hospital of Excellence. Firenze: Polistampa, 2011.

FINNEGAN, M.J.; PICKERING, C.A.C.; BURGE, P. S. The sick building syndrome: prevalence studie. British Medical Journal, London, v. 289, n. 8, December, 1984.

FIORENTINI, Domingos M. F.; LIMA, Vera H. A.; KARMAN, Jarbas B. Arquitetura na prevencao de infeccao hospitalar. Brasilia: Ministerio da Saude, 1995.

GRAUDENZ, Gustavo S.; DANTAS, Eduardo. Poluicao dos ambientes interiores: doencas e sintomas relacionados as edificacoes. Revista Brasileira de Medicina. Ano 2, n.1, fev. 2007. Disponivel em: http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=3497. Acesso em: 25 jun 2016.

GUENTHER, R.; VITTORI, G. Sustainable Healthcare Architecture. New York: John Wiley & Sons, 2008.

GUENTHER, Robin; KARLINER, Joshua. Agenda Global de Hospitais Verdes e Saudaveis, 2011. Disponivel em: <http://greenhospitals.net/wp-content/uploads/2012/03/GGHHA-Portugese.pdf>. Acesso em: 01 mar. 2016.

HAMILTON, D. Kirk; SHEPLEY, Mardelle McCuskey. Design for Critical Care: An Evidence Based Approach. Burlington, MA: Architectural Press--Elsevier, 2010.

JANSZ, Janis. Introduction to Sick Building Syndrome. In: ABDUL-WAHAB, Sabah A. (ed.) Sick Building Syndrome in Public Buildings and Workplaces. London: Springer, 2011, p. 1-24.

MALKIN, Jain. Fulfilling the promise of evidence based design. In: CONGRESSO BRASILEIRO PARA O DESENVOLVIMENTO DO EDIFICIO HOSPITALAR, 5, 2012, Sao Paulo. Anais ..., Sao Paulo, 2012, p. 19-25.

MARCUS, Clare C. Healing Gardens in Hospitals. In: WAGENAAR, Cor (ed.). The architecture of hospitals. Rotterdam: NAiPublishers, 2006. p. 315-329.

MONTEIRO, Tarciane S.; PEDROZA, Robermam M. Infeccao Hospitalar: visao dos profissionais da equipe de enfermagem. Revista de Epidemiologia e Controle de Infeccao. V.5, n. 2, 2015. p.84-88.

NAIMI, Maryam. Effective of Sick Building Syndrome on Irritation of the Eyes and Asthma. International journal of Advanced Biological and Biomedical Research. Volume 1, Issue 12, 2013, p. 1529-1534.

NIGHTINGALE, Florence. Notes on Hospitals. 3rd ed. London: Longman, 1863.

PRADO, Maria F.; HARTMANN, Talita P.S. ; TEIXEIRA FILHO, Leone A. Acessibilidade da estrutura fisica hospitalar para a pratica da higienizacao das maos. Escola Anna Nery Revista de Enfermagem. V. 17, n. 2, 2013, p. 220-226.

SCHETTLER, Ted. Efectos de los edificios sobre la salud: ?Que es lo que sabemos? Science and Environmental Health Network. Instituto de Medicina (IOM), 10-11 de janeiro de 2006. Disponivel em: <http://noharm.org/lib/downloads/espanol/Efectos de los Edificios.pdf> Acesso em: 25 jun 2016.

SUNDELL, Jan; LEVIN, Hal; NOVOSEL, Davor. Ventilation rates and health: report of an interdisciplinary review of the scientific literature. Alexandria: National Center for Energy Management and Building Technologies Contact, 2006.

TOLEDO, Luiz C. Feitos para curar: arquitetura hospitalar e processo projetual no Brasil. Rio de Janeiro: ABDEH, 2006.

VERDERBER, Stephen. Innovations in Hospital Architecture. New York: Routledge, 2010.

VILAS-BOAS, Doris. Sustentabilidade em estabelecimentos assistenciais de saude: solucoes de projeto arquitetonico. Ambiente Hospitalar. Sao Paulo, v. 5, n. 8, 2011. p. 9-17.

WARGOCKI, P.; WYON, D. P.; FANGER, O. Productivity is affected by the air quality in offices. International Centre for Indoor Environment and Energy, Technical University of Denmark. Proceedings of Healthy Buildings, v. 1, p. 635-640, 2000. Disponivel em <http://www.senseair.se/wp-content/uploads/2011/0571.pdf> Acesso em: 25 jun 2016.

Antonio Pedro Alves de Carvalho

Prof. Doutor, Faculdade de Arquitetura

Universidade Federal da Bahia (UFBA)

[mail] pedro@ufba.br

Recebido em 18 de junho de 2017 Aceito em 13 de julho de 2017
Quadro 1: Caracteristicas do Edificio Saudavel

SETORES                              CARACTERISTICAS

Higiene            * Disponibilidade de lavatorios para higienizacao
                   das maos, notadamente proximos a instalacoes
                   sanitarias e locais de alimentacao;

                   * Materiais de acabamento e mobiliario de facil
                   limpeza e manutencao;

                   * Facilidades de segregacao, coleta, guarda e
                   tratamento de residuos solidos.

Conforto           * Manutencao de temperatura e umidade agradaveis
                   com recursos naturais;

                   * Uso da iluminacao natural;

                   * Disponibilidade de areas verdes;
                   * Controle do ruido;

                   * Condicoes de acessibilidade universal;

                   * Atencao ao lazer.

Sustentabilidade   * Adocao de sistemas construtivos ambientalmente
                   aprovados e que facilitem a manutencao e reforma;

                   * Seguranca no fornecimento de agua e energia;

                   * Possuir processos de aproveitamento e geracao de
                   energia limpa;

                   * Controle da qualidade da agua e dos efluentes
                   liquidos;

                   * Possuir sistemas de aproveitamento da agua da
                   chuva.

Fonte: autor
COPYRIGHT 2017 Universidade do Estado do Rio de Janeiro- Uerj
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2017 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:de Carvalho, Antonio Pedro Alves
Publication:Sustinere - Revista de Saude e Educacao
Date:Jan 1, 2017
Words:5177
Previous Article:Management of knowledge in the information society relations with the web/Gestao do conhecimento nas relacoes da sociedade da informacao pela...
Next Article:Narratives about the leprosarium on Pacuio Island or Aquariums in Porto Seguro: deforestation as sanitary-social vigilance and punishmen/Narrativas...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2020 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters