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The rhetoric of the tragic in the baltazar serapiao's remorse/A retorica do tragico em o remorso de baltazar serapiao.

Introducao

O tragico, enquanto modo de representacao, esta associado a tragedia, manifestacao dramatica que conhece as primeiras reflexoes na Poetica de Aristoteles. No entanto, a essencia desse fenomeno pode ser encontrada em outras formas literarias. Seu principio constitutivo reside, em geral, no posicionamento do heroi diante de duas realidades distintas: a polis e a psyche. Estas duas realidades em confronto constringem-no a viver momentos de tensao que nao apontam saidas. O embate entre a esfera social e a psiquica responde pelo conflito (agon) que dilacera o homem, biparte-o no crucial impasse entre atender as forcas do consenso ou seguir as forcas internas, entre o dever ou o querer. A escolha por este ultimo vetor resulta na 'falha tragica', ou seja, mostra a dificuldade de o heroi reconhecer aquilo que e considerado aceitavel pelo seu contexto cultural e expoe uma resistencia para admitir a sua deficiencia humana (Lesky, 1971). Esta fragmentacao dolorosa (pathos), fruto de experiencias angustiantes, encontram-se em Edipo Rei de Sofocles, em Hamlet de William Shakespeare e em muitas outras obras cujos herois sao construidos pela cena dramatica. Se o tragico na dramaturgia se apresenta sobre esse vies, questiona-se: como se constitui o tragico no romance? Ele segue os mesmos preceitos da tragedia? Para responder essas perguntas, propomos partir do entendimento de que a tragedia nasce da acao e da linguagem da personagem, conforme nos ensina Aristoteles (2007), e deste principio teorico, caminhar para o conceito do tragico, com a contribuicao de outros especialistas no assunto. Neste trabalho pretendemos examinar os elementos estilisticos que permeiam o discurso e a acao do heroi, bem como gerenciam a construcao do tragico em o remorso de baltazar serapiao (Mae, 2010), de Valter Hugo Mae, enquanto filosofia que alicerca o modo de a personagem ver e compreender-se no mundo.

Para tanto, delineamos discutir primeiramente o conceito do tragico e, a seguir, iniciaremos a analise do romance, centrando a nossa atencao precipuamente em dois recursos estilisticos dominantes: a antitese e o oximoro, agenciadores do efeito de sentido tragico na narrativa. Observaremos que o discurso de Baltazar, o protagonista, parte de uma situacao de aparente equilibrio, acelera o andamento para um confronto intransponivel que se precipita no desfecho tragico.

Breves reflexoes sobre o tragico

Tendo como base as reflexoes de Aristoteles sobre a tragedia, Albin Lesky sistematiza os tracos constitutivos do tragico, amparado em uma citacao de Wolfgang Goethe que afirma: "Todo o tragico se baseia numa contradicao inconciliavel. Tao logo aparece ou se torna possivel uma acomodacao, desaparece o tragico" (apud Lesky, 1971, p. 25). Deste ponto, Lesky passa a analisar as antinomias que orientam a construcao do tragico enquanto conceito filosofico. Nesta linha de raciocinio, ele aponta tres requisitos indispensaveis para a materializacao desse fenomeno:

a) configura-se "[...] a consideravel altura da queda". Nas palavras do teorico, o tragico e "[...] a queda de um mundo ilusorio de seguranca e de felicidade para o abismo da desgraca iniludivel" (Lesky, 1971, p. 26, grifo do autor).

b) atribui-se o grau do tragico quando ocorre "[...] a possibilidade de relacao com o nosso proprio mundo" (Lesky, 1971, p. 26). So nos comove ou nos afeta "[...] quando nos sentimos atingidos nas profundas camadas do nosso ser" (Lesky, 1971, p. 27).

c) o terceiro requisito para a constituicao do tragico e a consciencia que o heroi tem de sua acao tragica e dos infortunios que dela provem (Lesky, 1971, p. 27).

Notemos que o primeiro componente do tragico apontado por Lesky diz respeito ao andamento da trama, isto e, apreende-se nela uma ruptura entre uma situacao de equilibrio, de felicidade na vida do sujeito da acao tragica, e uma vivencia de desgracas. O segundo situa o enfoque na recepcao; neste caso, o tragico configura-se no texto, creditado pela vivencia do leitor. O terceiro ingrediente focaliza o posicionamento critico do heroi diante da acao; a sua consciencia e condimento essencial para a existencia da acao tragica.

Convocamos um segundo teorico para iluminar a nossa reflexao sobre o tragico e para o exame do romance em foco. Referimo-nos a Peter Szondi (2004), que faz um percurso que parte de Aristoteles e passa por varios filosofos que se debrucam sobre a questao. Nesta linha de pensamento, Szondi compreende a existencia de duas grandes concepcoes sobre a poetica do tragico: uma que se funda nos preceitos de Aristoteles acerca da tragedia e ve essa forma artistica como sendo atemporal, isto e, que nao se afeta diante das conjunturas historico-culturais de cada sociedade. Outra, que surge no final do seculo XVIII, cujo grande expoente e Hegel, que entende o tragico como resultado da dialetica entre as linhas de forca do contexto socio-historico-cultural e as do individuo. Desse periodo em diante ate a contemporaneidade, os estudiosos desse assunto (Schelling, Hegel, Nietzsche etc.)--Szondi inclusive--buscam compreender o tragico, segundo a percepcao filosofica de cada epoca (Szondi, 2004). Ancorados nesta ultima formulacao teorica e levando em conta que o tragico se manifesta na acao e na linguagem, conforme o principio aristotelico mencionado (Aristoteles, 2007), estudaremos no corpus que a poetica do tragico se figura no discurso do protagonista.

Baltazar Serapiao (1): o conflito identitario e o amoroso

Cabe aqui uma pequena apresentacao de Valter Hugo Mae antes de examinarmos o conceito de tragico plasmado na obra, escolhida para corpus deste estudo.

Valter Hugo Mae, filho de portugues nascido em Angola, e romancista, poeta, cantor, artista plastico, escreve para o publico infantil, dentre suas muitas atividades. Dos romances escritos, analisaremos o remorso de baltazar serapiao (Mae, 2010), publicado em 2007, que pertence a tetralogia das minusculas, ao lado de: o nosso reino (2004), o apocalipse dos trabalhadores (2008), a maquina de fazer espanhois (2010). Segundo o escritor, a abolicao das maiusculas, ate mesmo para os substantivos proprios como os nomes das personagens e o seu proprio nome, visa [begin strikethrough]a[end strikethrough] "[...] acelerar" (Mae apud Nunes, 2010) a producao do texto e | aproximar a escrita do ritmo da fala, como ele conta a jornalista Maria Leonor Nunes (Mae apud Nunes, 2010). E possivel que esse procedimento nos primeiros romances seja tambem motivado pelo desejo de chamar a atencao do publico para a sua escrita transgressora.

A fabula da narrativa eleita para exame trata da tragica existencia do protagonista Baltazar Serapiao que vive dois grandes conflitos: o primeiro e o identitario, resultado dos boatos que apregoam que Baltazar e seus irmaos sao filhos da vaca Sarga e de seu pai. Em toda a narrativa, a personagem trava uma luta intensa entre o lado bestial, fruto da marginalizacao, da violencia e da coisificacao sofridas sob o jugo dos senhores feudais, Dom Afonso e Dona Catarina, e o desejo dela de afirmar a sua humanidade. O segundo grande conflito, relacionado ao primeiro, e do amor que Baltazar dedica a sua esposa, Ermesinda, que se mostra conturbado pelo ciume gerado pela suspeita de que Dom Afonso, que exige a presenca da bela jovem todas as manhas na casa grande, cobre dela favores sexuais. A suspensao da duvida, que envolve o suposto adulterio, ativa em Baltazar um comportamento animalesco que se manifesta mutilando o corpo da mulher amada, tal qual o seu pai fez a sua mae.

o remorso de baltazar serapiao (Mae, 2010) constroi um mundo de oposicoes. De um lado, o despotismo feudal, preconceitos, supersticoes, bruxarias e atrocidades de toda ordem que desumanizam as personagens, em especial Baltazar e seu pai; de outro, um caso de amor. Este contraponto pungente e criado por recursos retorico-estilisticos que polarizam as tensoes, agudizam os sofrimentos e eliminam a possibilidade de o protagonista escapar do desfecho tragico. Aproximemos as lentes desse universo ficcional e examinemos como se compoem no discurso as tensoes criadas por esse antagonismo.

Os dois primeiros paragrafos parecem dissociados do que ocorre no paragrafo seguinte da narrativa. Percorridas algumas paginas, o leitor comeca a deslindar que esse introito funciona como breve sintese do drama da familia Serapiao/Sarga e do posicionamento do heroi ao longo da trama, o qual se reafirma no seu final. Esse procedimento responde pelo carater ciclico da narrativa. O desfecho remete ao inicio. Nesse epitome compoe-se o cenario sociocultural de silenciamento da voz feminina, de discriminacao e de arbitrariedade patriarcal e feudal que o leitor encontrara na narrativa. Vejamos:

[...] a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde so diabo e gente a arder tinham destino. a voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a sarga, como lhe chamavamos.

mal tolerados por quantos disputavam habitacao naqueles ermos, batiamos os cascos em grandes trabalhos e estavamos preparados, sem o saber, para desgracas absolutas ao tamanho de bichos desumanos. Tamanho de gado, aparentados de nossa vaca, reunidos em familia como pecadores de uma mesma praga. maleita nossa, nos, reunidos em familia, haveriamos de nos destituir lentamente de toda a pouca anormalidade (Mae, 2010, p. 11).

No primeiro paragrafo Baltazar, a personagem-narrador, apresenta a imagem que ele tem do mundo feminino, herdada das formacoes discursivas de sua comunidade, especialmente de seu pai. A referencia a mulher se configura pela metonimia 'voz'. O discurso traz no seu bojo todos os tons do ideario judaicocristao medieval que ve a mulher como aquela que destruiu o homem, que o impediu de viver no paraiso. De acordo com esse quadro de valores, a mulher apresenta-se como traicoeira, desinteligente, aquem da Sarga, a vaca, e, como punicao de seu ato--o pacto que fez com Lucifer--, ela sofre no inferno.

O foco do discurso muda no paragrafo seguinte. Trata agora da insercao da familia Serapiao/Sarga na sua comunidade. Em um contexto sociocultural que reduz as personagens a infra-humanidade e zoomorfiza-as, a intolerancia passa a reger as relacoes sociais e a incutir nesse grupo social, principalmente em Baltazar, a premonicao, ainda inconsciente, de que o destino sera inexoravel. Este vaticinio de desgraca futura e marcado pela presenca de expressoes portadoras desse conteudo semantico, como em: "[...] estavamos preparados, sem o saber, para desgracas absolutas ao tamanho de bichos desumanos", "[...] pecadores de uma mesma praga", "[...] maleita nossa" (Mae, 2010, p. 11). Diante do que ate entao esta posto no romance, o leitor pode se perguntar se o que desencadeia o infortunio e a mulher ou o meio em que esse sujeito da enunciacao esta inscrito. Ou os dois elementos ao mesmo tempo. De pronto o leitor nao tem a resposta. Sera necessario aguardar o andamento da narrativa para erigir esse mundo romanesco, embora as bases dele ja tenham sido colocadas.

Como dissemos, a acao instala-se na narrativa a partir do terceiro paragrafo. Deste ponto em diante o leitor entra em contato com a historia de segregacao em que vive a familia Serapiao/Sarga. Mesmo nesse estado de marginalizacao, de miserabilidade, parece que a marcha dos acontecimentos flui em um aparente equilibrio, e, aos poucos, particularmente Baltazar comeca a sentir certas alteracoes que euforizam a sua existencia, causam-lhe ansiedade e despertam a esperanca de ser feliz. Sao os efeitos do seu amor a Ermesinda. Tao logo esse sentimento se manifesta, o pedido de casamento se realiza, a autorizacao dos pais e, sobretudo, de Dom Afonso se consumam. Introduz-se, porem, uma ruptura nessa sequencia de eventos alvissareiros que provoca o desequilibrio no protagonista e cria tensao na narrativa, materializada ora pela antitese, ora pelo oximoro. Serao essas figuras de linguagem que criarao o efeito tragico que passaremos a analisar. Como mencionamos anteriormente, ha dois conflitos importantes na narrativa: o identitario e o amoroso. No exame do texto, sera visto que eles acabam convergindo, se hibridizando, traduzindo um pathos, um sentimento, complexo, indissoluvel, em que nao e possivel identificar as fronteiras que separam um do outro.

Os fragmentos, transcritos a seguir, inauguram o conflito na narrativa, dialetizando posicionamentos antiteticos, que mostram que o protagonista expressa qualificacoes opostas acerca de um mesmo referente, em tempos e situacoes distintos da enunciacao--contrapontos que vao tensionar o que Baltazar idealiza (o querer) e o que o mundo se lhe impoe e o seu carater nao aceita (o dever).

[...] sem condicao nem honrarias que me levassem ali refinado ou melhorado, o que faria senao deixar que meu amor se notasse, ha tanto fulgurado para o interior de mim e intenso para sair a brancura do seu ser, e lho disse assim, depender de mim sera so digna sua pessoa, posta sobre meus bracos como anjo que o ceu me empresta, e deus tera sobre nos um gosto de ver e ouvir que inventara beleza a partir de nos para retribuir aos outros. Casai comigo formosa, tanto quanto meus olhos um dia poderiam ver (Mae, 2010, p. 39).

[...] meti-me em casa sem animo nem brio. trabalhar de cornos a mostra nao era coisa de aguentar, tentava justificar-me a minha mae, estropiada de tudo na cama onde meu pai a pusera, por ter de constatar a condenacao do sexo fragil. as mulheres sao frutos podres, como macas podres, raios hao de partir eternamente a eva por ter sido mal lavada de intencoes. e, quando a ermesinda puser aqui o pe, o primeiro que lhe acontece e ficar com ele torcido duas vezes o da mae, para nao se esquecer nunca mais. sem pio, que deve vir de artimanhas para me iludir, sera sem aviso e sem tempo algum que se tera torta para o curandeiro acudir (Mae, 2010, p. 52).

Os dois excertos oferecem-nos a primeira manifestacao de confronto que acolhera muitas outras na arquitetura do tragico. O primeiro diz respeito ao pedido de casamento que Baltazar faz a Ermesinda, um discurso que nos lembra as cantigas de amor. O sujeito poetico, podemos assim nomea-lo tal e a carga lirica do texto, vale-se do arcabouco cultural em que se cumpre a vassalagem amorosa. Aqui o amador se reconhece em uma posicao inferior ao objeto amado ("[...] sem condicao nem honrarias que me levassem ali refinado ou melhorado" (Mae, 2010, p. 39). Este assujeitamento afetivo refere-se tanto ao modo como ve a mulher amada--superior aos seus olhos--, quanto a pobreza em que a personagem vive. Na sequencia, o discurso trata da contencao amorosa. Assim como nas cantigas de amor, o amador nao pode manifestar publicamente a quem dirige os seus sentimentos, Baltazar, a principio, mostra que persegue esse ritual ate o momento do pedido "[...] ha tanto fulgurado para o interior de mim e intenso para sair" (Mae, 2010, p. 39). Se quando requesta Ermesinda ele infringe os principios das cantigas de amor, o conteudo semantico da selecao lexical que domina o discurso se encarrega de manter a concepcao da mulher amada no plano elevado. Enquanto as imagens "[...] brancura do seu ser" e "[...] anjo que o ceu me empresta" atuam como metaforas de pureza e de divinizacao, o lexico "[...] formosa" e a frase "[...] deus tera sobre nos um gosto de ver e ouvir que inventara beleza a partir de nos para retribuir aos outros" (Mae, 2010, p. 39) apontam para o sentido de que e a partir da amada e da conjuncao desta com o amador que Deus criara a beleza. Neste passo temos a repercussao de metaforas muito caras as cantigas de amor e a poetica classica e desta ultima citamos a camoniana. O poema "De quantas gracas tinha a Natureza", de Camoes (1963, p. 50), apresenta no primeiro terceto recursos estilisticos que colocam a beleza, a luz dos olhos da amada, acima daquela encontrada na Natureza. Assim dizem os referidos versos:
   Mas nos olhos mostrou quanto podia,
   E fez deles um sol, onde se apura
   A luz mais clara que a do claro dia (Camoes, 1963, p. 50).


Nesta estrofe, a metafora 'sol' sobreleva o sentido de luminosidade dos olhos da amada, enquanto a comparacao contida em "[...] a luz [dos olhos da amada e] mais clara que a do claro dia" (Camoes, 1963, p. 50) expressa a ideia de que e na amada que se encontra o conceito mais perfeito de luz. Situacao analoga acontece no discurso de Baltazar quando menciona que "[... deus] inventara beleza a partir de nos para retribuir aos outros" (Mae, 2010, p. 39). Este enunciado e portador da ideia de que o casal de amantes, cuja tonica e a mulher amada, representa a matriz da criacao divina.

Ainda nessa declaracao de amor introduz-se uma jura: "[...] e lho disse assim, depender de mim sera so digna sua pessoa, posta sobre meus bracos como anjo que o ceu me empresta" (Mae, 2010, p. 39). Esta promessa de amor expressa o proposito de Baltazar para o presente e para o futuro em relacao a Ermesinda. E o que ele deseja e nao o que a vida mostra, como veremos na outra citacao.

O segundo texto foi tirado do episodio em que Baltazar, atormentado pelo ciume da suposta relacao adultera entre a esposa e Dom Afonso, tenta escalar a janela da sala da casa grande para descobrir o que ocorria nesses encontros. Em meio a esse intento, Teresa Diaba, personagem marginalizada e considerada ensandecida pelo meio, puxa-lhe as calcas para fazer amor e ele cai, produzindo um barulho tao grande que chama a atencao do senhor feudal. Este, irado, joga-lhe um alguidar de agua e, como reprimenda, nao permite o regresso de Ermesinda a sua casa, nem ao trabalho com os queijos. Deste momento em diante o protagonista planeia castigar a jovem esposa para que, segundo o seu entendimento, ela aprenda a ser fiel.

Estendendo o nosso olhar para outra obra que tambem trata do ciume, alcancamos Othello (Shakespeare, 1996), escrita por volta de 1604 por Shakespeare. Na analise desse drama, Peter Szondi (2004, p. 103) considera que o ciume instaura uma dialetica que, as vezes, "[...] permite quase de imediato a mudanca para o comico". Semelhante andamento encontra-se nesse trecho da narrativa de Valter Hugo Mae. Se o estado emocional de Baltazar desvela angustia, o gesto de Teresa Diaba mostra a alegria do mundo dos prazeres; se a escalada na janela supoe cautela, discricao, para surpreender a possivel traicao, a queda exibe o segredo do ato. Assim, a acao de Baltazar, permeada de sofrimento, acaba por desvelar um vies comico para o leitor que ve o intento findar de modo ridiculo. Para a personagem, contudo, nada aconteceu de risivel. Ao contrario, a suspeita do adulterio, o ciume, e movel importante para maquinar a punicao de Ermesinda, a despeito de ela estar la por exigencia de Dom Afonso, a quem ninguem ousa desrespeitar, nem mesmo Baltazar. Ermesinda representa o pharmakos, a vitima a ser castigada pelo fato de Baltazar e a familia estarem circunscritos dentro de um sistema que nao aceita senao a obediencia cega aos senhores feudais. Ademais, o carater do protagonista, modelado pelo ciume, carrega em si a tragicidade, mesmo em nao colidindo com outra qualquer forca.

As metaforas 'frutos podres', 'macas podres', que referenciam Ermesinda no texto, fazem alusao ao arquetipo feminino que, segundo o ideario judaico-cristao, referenda Eva como a desencadeadora dos males da humanidade. Na sequencia, a comparacao "[...] ficar com ele [pe] torcido duas vezes o da mae" (Mae, 2010, p. 52) explicita que o protagonista tem um parametro de comportamento masculino que conflita com a sua jura de amor. Disse Baltazar (Mae, 2010, p. 39) no pedido de casamento: se "[...] depender de mim sera so digna sua pessoa, posta sobre meus bracos como anjo que o ceu me empresta".

Na narrativa sao relatadas violencias do pai contra a mae de Baltazar com o proposito de educa-la. E a partir desse modelo de marido que o protagonista, ironicamente, pretende tambem educar a esposa, tanto que o castigo que assevera lhe infligir e o mesmo que seu pai ja aplicara a sua mae. O desconhecimento do teor da relacao entre Dom Afonso e Ermesinda gera o ciume que, segundo a afirmacao de Szondi (2004, p. 103) em analise de Othello, "[...] e amor que destroi querendo proteger". Depreende-se que nesse jogo de percepcoes paradoxais--amar e proteger--se introduz o derruimento como forca que contribui para gestar o tragico, quer em o remorso de baltazar serapiao (Mae, 2010), quer em Othello (Shakespeare, 1996).

Os proximos fragmentos expoem que nas acoes da personagem a polaridade se reveste de um pretenso projeto de amor e de educacao da esposa. Vejamos o primeiro. Baltazar apresenta-nos a noite de nupcias em que ele e guiado pelos ensinamentos do senhor Santiago, o curandeiro, que dias antes viera inicia-lo no matrimonio. Esta personagem exerce na narrativa o papel daquele que cuida do corpo e da alma das personagens.

[...] disse a ermesinda que se estendesse nua na cama. que eu a queria ver a luz da vela, muito proxima de cada pedaco da sua pele. ela pareceu acalmar quando lhe pus a mao suave no contorno da anca. Lembrei-me, toca-lhe com leveza, tal fosse coisa de partir da casa de dom afonso. porcelana da colecao da dona catarina. toca-lhe por amor. e assim fiz, segundo as palavras do senhor santiago (Mae, 2010, p. 43-44).

Diante de Ermesinda nua, Baltazar lembra-se das recomendacoes do curandeiro e, neste ponto, o discurso indireto da personagem-narrador altera-se para o discurso indireto livre. Esta mudanca de voz resulta em acoes marcadas sob o ponto de vista do outro, que o protagonista absorve e cumpre cabalmente. Cada passo desse ritual amoroso esta vinculado a um modo de agir e a uma metafora criada pelo discurso do senhor Santiago. Assim, temos "[...] toca-lhe com leveza, tal fosse coisa de partir da casa de dom afonso" e, depois, "[...] porcelana da colecao da dona catarina. toca-lhe por amor" (Mae, 2010, p. 44). O curandeiro, ciente da nenhuma sensibilidade de Baltazar no trato com uma donzela, preocupa-se em introduzi-lo no mundo da ternura, do cuidado amoroso. Mais ainda: ele traduz esse comportamento em imagens do universo cultural do jovem para que ele aprenda bem a licao. "[...] coisa de partir da casa de dom afonso" e "[...] porcelana da colecao da dona catarina" (Mae, 2010, p. 44) sao referencias muito conhecidas da personagem. Por esse modo de ensinar, Baltazar estabelece uma relacao de contiguidade entre Ermesinda e os objetos de seus senhores; ele reconhece que o mesmo zelo e suavidade de toque que tem que dedicar aos objetos da casa senhorial, em igual medida ele deve proceder com a esposa.

O fragmento escolhido para fundar a relacao com o texto analisado poe a vista a cena da chegada de Ermesinda em sua casa, depois de ter ficado retida na casa grande por ordem de Dom Afonso, conforme ja nos referimos.

[...] e, quando a ermesinda veio, [...] preparada para se explicar, sabia eu, e surpresa com a minha aparicao gaguejou algo que nao ouvi, tao grande foi o ruido de minha mao na sua cara e tao rapido lhe entornei o corpo ao contrario e lhe dobrei o pe esquerdo em todos os sentidos. que te saiam os peitos pela boca se me voltas a encornar, definharas sempre mais a cada crime, ate que sejas massa disforme e sem diferenca das pedras e das merdas acumuladas, [...]. e assim ficou revirada no chao, esfregada de dores corpo todo, a respeitar-me infinitamente para se salvar de morrer, e como me deitei fiquei, surdo de ouvido e coracao, que o amor era coisa de muito ensinamento (Mae, 2010, p. 53).

Cumpre primeiro observar que Baltazar sabe que Ermesinda ira se justificar, muito embora ele conheca as razoes da demora da esposa. Por isso planeja agir antes que ela pronuncie a primeira palavra. Esta medida de silenciamento da voz feminina faz remissao ao primeiro paragrafo da narrativa, que funciona a modo de epitome, como ja foi dito. La vimos que a voz feminina e considerada pelo protagonista como "[...] perigosa e burra" (Mae, 2010, p. 11) porque engana o homem e o destroi. Baltazar nao quer que o discurso da esposa o seduza e o desvie de sua intencao. Pensando assim pratica violencias contra Ermesinda, silencia-a, mutila-a. Depois do castigo aplicado, permanece "[...] surdo de ouvido e coracao" (Mae, 2010, p. 53). Este enunciado reafirma a decisao tanto de silenciamento quanto de negacao da razao e de sujeicao do amor a situacao em questao. Que cotejo poderiamos fazer entre o fragmento acima e o anterior?

Por primeiro analisemos a questao do silenciamento. O contexto ficcional de o remorso de baltazar serapiao (2010) e uma representacao do sistema medieval. Neste, segundo Le Goff e Truong (2006), a mulher era vista como complemento da relacao sexual, submetia-se a vontade do marido em todas as circunstancias. A submissao referida pelos estudiosos encontra-se em Ermesinda. Ela se apresenta passiva, silenciada, enquanto Baltazar e ativo; so dele conhecemos as reacoes, os sentimentos. A jovem esposa reproduz a imagem de dependencia feminina construida pela cultura. Do exposto se conclui que, seja em uma situacao de suposto prazer, seja de crise, sempre a voz de Ermesinda e sufocada.

Observemos agora o tratamento que Baltazar dispensa ao corpo de Ermesinda nos dois extratos. No primeiro, Baltazar e orientado pela voz do outro para que aja com ternura e delicadeza. No segundo, age pelo ciume, pela pulsao animal; rejeita a ponderacao, ou recusa deixar-se levar pelo sentimento amoroso. O que se depreende desse comportamento conflitante e que Baltazar age de acordo com os dois modelos de atuacao masculina no trato com a mulher: o paradigma paterno que lhe ensina cometer atrocidades e o do curandeiro Santiago, que concebe a mulher como um ser a quem se deve dedicar extremo desvelo. Poder-seia perguntar como Baltazar se ve? A imagem que a personagem tem de si e herdada da sociedade feudal que concebe o adulterio feminino como uma desonra para o homem; por isso cobra da esposa a lealdade conjugal, a retidao. Entretanto, ao longo de toda a narrativa, por mais que Baltazar busque provas de qualquer infidelidade, ele nao as encontra. Esta ausencia da materialidade da transgressao produz efeito contrario ao esperado: em vez de eliminar a suspeita de culpa de Ermesinda e dar vazao a brandura, ao carinho, faz com que a duvida dele mais recrudesca.

O ciume gesta-se em si mesmo. Ele resulta da imagem que o sujeito tem de si. Em Othello (Shakespeare, 1996), por exemplo, e a personagem Brabancio, no inicio da peca, quem faz insinuacoes a Otelo de que Desdemona podera trai-lo, depois Iago, sobretudo, encarrega-se de alimentar a semente do ciume, refratando a imagem de Otelo que lhe convem, ou seja, apontando a inferioridade dele em relacao a Cassio, o suposto adultero. Enquanto este e jovem, belo, um cavalheiro que domina a arte do galanteio, da conversa nos saloes, Otelo se reconhece como velho, dono de um discurso rude, que so sabe contar historias das suas vitorias nas batalhas a servico do estado (Shakespeare, 1996). Esses sentimentos de inferioridade somam-se ao da exclusao, pelo fato de Otelo nao ser um europeu. Deste quadro psicologico, podemos dizer que a baixa autoestima e condimento vital para gerar o ciume. O mesmo sucede no romance portugues. Segundo a fala de Ermesinda e do proprio Dom Afonso, ela e tratada por este como "[...] donzela de casta" (Mae, 2010, p. 62), enquanto Baltazar reconhece a si e a sua familia "[...] aparentados de nossa vaca" (Mae, 2010, p. 11). Seu comportamento e sua fala inserem o grotesco (2) na narrativa: ele sai do discurso elevado que vimos no fragmento anterior e desce a terra, ao baixo corporal; ele deixa de ser o amador que cultua o belo, o cavalheirismo, o amor e passa a ser e a proceder como a especie de seu suposto parentesco. Esta condicao de animalizacao e relevante para a construcao identitaria de Baltazar e pode, de algum modo, ser tambem condimento para o ciume, como podemos ver no fragmento seguinte:

[...] e dom afonso ordenou, sarga prepara teus filhos, que o talento e tempo do mais novo sera oferta para sua majestade, [...].

[...] e eu [Baltazar] entrei em casa e chorei tal pedido, que nos elevaria muito acima da nossa condicao, e abracei o aldegundes amando-o. [...] la [na corte, eu] o [aldegundes] deixaria em aposentos melhorados para cumprir o que tivesse ate mo mandassem de recado a buscar novamente, quem sabe se para partirmos para novo lugar, para nova casa ou novo trabalho, conseguidos de maior riqueza para sairmos da condenacao animal a que estavamos acometidos (Mae, 2010, p. 106-107).

A passagem transcrita mostra que sair das terras de Dom Afonso significa para o protagonista dar novo rumo a sua vida. Por um lado, livra-se da filiacao da vaca Sarga, referencia que o rebaixa dentro da comunidade, reduz a sua autoestima e questiona a sua identidade. Por outro lado, sinaliza para a possibilidade de libertar-se da opressao que sofre sob os dominios do senhor feudal e do suposto assedio deste a Ermesinda. Baltazar e prisioneiro de uma vida extremamente pobre, mas acredita em poder ser feliz, escapar da condicao de vassalo, ao partilhar do possivel reconhecimento da arte de Aldegundes, seu irmao. Ele se aproxima do que Northop Frye (1973), na sua classificacao dos herois tragicos na Anatomia da critica, concebe como heroi dentro do modo imitativo baixo, porque Baltazar cria a ilusao de que pode viver a parte da arbitrariedade do mundo feudal em que esta inscrito, mudar a sua vida e o seu carater de homem ciumento. Segundo Frye (1973, p. 44), "[...] o pathos apresenta o heroi como isolado por uma fraqueza que fala a nossa simpatia porque se situa em nosso plano de experiencia". No caso de Baltazar a fraqueza e o ciume. Acerca desse sentimento, podemos ainda considerar a replica de lago a Otelo, ao descrever o ciume como "[...] um monstro de olhos verdes, que debocha da carne de que se alimenta" (3) (Shakespeare, 1996, p. 110), ou seja, essa paixao pode em momentos parecer estar sob controle ou extinta, no entanto, ela apenas repousa para posteriormente eclodir na primeira duvida que surgir. O ciumento nao consegue fugir de si mesmo. Ainda no que concerne a questao identitaria, Baltazar mostra-se cindido. Os seus atos aproximam-no do mundo animal a que a comunidade vincula o seu nascimento, mas o seu amor e o seu proposito de viver feliz concedem-lhe humanidade. Esta polaridade que vivencia e que lhe confere a dimensao tragica na narrativa.

As citacoes examinadas exibem variacoes de estados emocionais e de acoes do protagonista representadas, nesse primeiro momento, pelas antiteses na narrativa. No entanto, ao longo desta, a oposicao nao se plasma apenas como confrontacao de situacoes, atributos, ou estados que se revezam nos discursos do protagonista, expressos pelas antiteses, mas como um comportamento que encerra em si uma contradicao: Baltazar diz querer bem a esposa e ao mesmo tempo lhe impoe castigo; ama e, ao mesmo tempo, ameaca, silencia, aterroriza. Esta dialetica, nutrida pelo ciume, tece na narrativa um grande oximoro. Este recurso da retorica evidencia, ao contrario da natureza alternante da antitese, uma fusao de aspectos polares percebidos em um referente e expressos com palavras que traduzem ideias paradoxais, percepcoes de mundo antagonicas.

Analisemos agora a presenca desse recurso da retorica e observemos como o oximoro atua como mecanismo que agudiza ainda mais a tensao na narrativa e aponta para a 'conciliacao de contrarios', uma vez que a antinomia e a essencia dessa figura.

[...] dias calados se fizeram. muito mais porque dom afonso, assustado com escandalo que lhe aumentasse, abdicara das visitas, a desoras de dona catarina, por parte da minha ermesinda. [...] por isso nada fiz que se pusesse as avessas dessa paz, senao puxar as redeas da minha mulher que se arrastava em dores entre os queijos [em que trabalhava] e a casa, e perdera a lingua de dizer coisas [...]. e em dias desses eu estive muito atento a ama-la muito mais por sabe-la a retomar o seu lugar, estropiada do pe mas bela de sempre, rosto e figura feminina por que me apaixonei, era sem duvida a minha ermesinda, a minha doce mulher (Mae, 2010, p. 54).

A passagem transcrita surge depois do episodio ja comentado em que Baltazar e flagrado pendurado na janela com a intencao de olhar o que acontece no interior do salao da casa grande entre Ermesinda e Dom Afonso. Curiosamente, o enunciado "[...] nada fiz que se pusesse as avessas dessa paz, senao puxar as redeas da minha mulher que se arrastava em dores entre os queijos e a casa, e perdera a lingua de dizer coisas" (Mae, 2010, p. 54) inicia com uma denegacao de acao que se apresenta como uma pressuposta contribuicao da personagem para a manutencao da paz, seguida da exposicao da acao que desvela violencia, ato que contradiz o que foi previamente declarado. Pouco depois, a linguagem adensa ainda mais a oposicao por meio do oximoro. Em seu discurso, a personagem-narrador contrapoe: "[...] estive muito atento a ama-la muito mais por sabe-la a retomar o seu lugar", o que implica um amor orientado pela opressao; a seguir informa: "[...] estropiada do pe" (Mae, 2010, p. 54) que exibe uma aparencia de ser desfigurado pela barbarie da conduta do protagonista, para, a seguir, incorporar essa imagem a parte seguinte do sintagma, cujo eixo repousa na atemporalidade da beleza de Ermesinda "[...] bela de sempre, rosto e figura feminina por que me apaixonei" (Mae, 2010, p. 54).

Esta rotina de maus tratos e de declaracoes de amor comparece em outros trechos da narrativa expressa pelo oximoro. Proximo ao desfecho, temos outro momento em que Baltasar pratica violencia contra a mulher e depois foge da possivel punicao dos senhores feudais com Aldegundes e Dagoberto, deixando Ermesinda esvair em sangue no chao (Mae, 2010, p. 178). No dia seguinte da primeira parada dessa fuga, entretanto, surpreendentemente, a esposa aparece no esconderijo e Baltazar renova o seu discurso de amor vazado na crueldade:

[...] deixa-me ver-te de pe direito, minha ermesinda, deixa-me ver-te hirta para te apreciar dano e beleza que repartes. A minha amada nem se levantava por seus proprios apoios, havia que eu lhe deitar maos por debaixo, tronco a subi-la para, numa posicao breve, se deixar momentos segura, porque caia cansada a condoer-se, minha bela ermesinda, como estas. pe torto, mao para o ar, braco colado ao peito, outra mao nenhuma, olho so buraco e cabeca descarecada as peladas, altos e baixos a faltar redondez de cabeca comum. e tao aparecida continuas de beleza, pele lisa de tratamento cuidado, tao jovem, a minha amada ermesinda (Mae, 2010, p. 189-190).

O discurso do protagonista inicia-se com o desvelamento da intencao de contemplar 'dano e beleza' manifestos no corpo de Ermesinda. Esse primeiro oximoro funciona como uma sintese do que adiante se explicita, ou seja, despontam expressoes que traduzem as violencias de Baltazar que culminaram com a desfiguracao da aparencia da esposa, seguidas de sentimentos antagonicos a rudeza dos atos. Expressoes como 'minha bela ermesinda', 'tao aparecida continuas de beleza', 'minha amada ermesinda' soam estranhas diante do quadro das torturas impostas.

Para Baltazar, a mutilacao em nada diminui a beleza da esposa, assim como a sua relacao amistosa, cordial, para com ela e contraditoriamente impregnada de tirania. Esta aproximacao de opostos que se fundem exibe um jogo de oposicoes profundas e intrinsecas ao sentimento de Baltazar por Ermesinda, bem como revela um mundo as avessas, em que se conciliam a violencia e a ternura, a animalizacao e a humanidade, inscritas no sistema medieval. Outro comportamento vinculado a esse contexto cultural ja mencionado e presente nessa citacao e a sujeicao extrema da mulher a esse universo de barbarie. Ermesinda, assim como a mae e a irma de Baltazar, sucumbem nesse mundo em que as mulheres sao idealizadas na retorica do amor, mas torturadas e mortas no ambito do prosaico.

Consideracoes finais

Das reflexoes apresentadas, podemos dizer que tanto a antitese quanto o oximoro entretecem os fios discursivos para a construcao da tensao da narrativa. A trajetoria da personagem erige-se a partir do tempo da enunciacao, quando a personagem-narrador apresenta o contexto cultural que rege a narrativa e o ethos que a enforma. Nela sao exibidas as formacoes discursivas do mundo medievo que disforiza a mulher, silencia-a, nega-lhe a identidade e sufoca a escassa manifestacao lirica que, mesmo ao elevar a mulher ao divino, destitui-lhe a humanidade. Como agravante ainda desse contexto cultural, existe a arbitrariedade do senhor feudal, em torno do qual gravitam as personagens.

Nesse mundo de dominacao, o protagonista nao encontra liberdade para a escolha dos afetos e de sua imagem de sujeito. Seu destino e construido por forcas de opressao e de aniquilacao fisica e moral, quer ditadas pelo sistema feudal, quer pelo patriarcado, que entram em confronto com a busca identitaria e com o ideal de amor. Dentro desse universo sociocultural, parece pouco adequada a classificacao de Baltazar como heroi, caso se leve em conta as raizes epicas do romance. No entanto, Northrop Frye (1973) oferecenos uma possibilidade de classificar o protagonista como heroi no modo tragico imitativo baixo. Baltazar representa o homem comum que vive entre a tirania de Dom Afonso e a violencia gerada pelo ciume que ele aplica a sua esposa, na intencao de protege-la. Sua estatura epica fica comprometida por ele denegar o sistema que o oprime e, ao mesmo tempo, produzir a violencia. Este paroxismo e criado pelo ciume que responde pela 'queda', para usarmos a terminologia de Albin Lesky (1971, p. 26), ao considerar esse requisito como um dos tracos que compoe o estatuto do heroi tragico. Em o remorso de baltazar serapiao (2010), pode-se dizer que a seguranca no amor que prenuncia felicidade no inicio da narrativa rapidamente mostra-se ilusoria e sucumbe as desgracas sobrevenientes, que instalam a poetica do tragico. Inscrito numa sociedade em que exerce os papeis de opressor e de oprimido, destituido de sua identidade, impotente para reverter o seu destino, a personagem resvala, aniquilada, para o desfecho tragico. Esse amalgama de grandeza e pequenez humanas comove o leitor, que encontra na personagem a humanidade que a sobreleva e, ao mesmo tempo, a brutalidade que a rebaixa e a destroi. Ao final, o leitor e surpreendido pela inacao de Baltazar diante do estupro de Ermesinda praticado por seu irmao e por seu amigo.

[...] eu sentiria ate ali o remorso dos bons homens. como havia pensado, remorso duro de tao dignamente administrar a educacao da minha ermesinda. mas ate ali, pensei, ate ali, porque naquele momento, [...] ocorreu-me a falha grave do meu espirito, e tao amargamente me foi claro que, por piedade ou compreensao com meus companheiros, e talvez por ausencia da voz da minha mulher, passara para la do limite. o remorso dos bons homens ja nao me assistia, senao a burrice e ignorancia de quem abdicara da sua mulher (Mae, 2010, p. 193-194).

Pode-se dizer que, na citacao transcrita, o conflito maior de Baltazar nao e contra o mundo exterior, mas dentro de si, por sentir-se prisioneiro dos seus limites, de suas fraquezas humanas. Durante a narrativa, obsessivamente ele busca em vao uma prova da infidelidade. A ironia tragica estabelece-se no momento em que urge defender sua esposa do estupro, mas fica entorpecido. Baltazar acompanha essa cena final em suspensao, paralisado, ate o final tragico de Ermesinda. O remorso mencionado no titulo do romance nao se atualiza nos sentimentos do heroi nesse desfecho, como se explicita no jogo entre o tempo anterior a enunciacao--o tempo dos acontecimentos--e o tempo dela; entre o que 'ate ali' 'havia pensado' e o que, mediante o exercicio rememorativo, 'tao amargamente [lhe] foi claro'. Seu estado agonico prende-se aos polos de tensao: o possivel redirecionamento do sentimento amoroso a Ermesinda para o campo de ressignificacao da imagem dela e a visao machista que reduz a significancia da mulher em favor do sentimento de solidariedade ao homem (seus companheiros). Seria necessario que Baltazar tivesse dado um passo a mais na direcao do respeito a pessoa de Ermesinda e do amor que ele sempre afirmara dedicar a ela para que a lucidez lhe exibisse o desvalimento de sua esposa (em decorrencia dos maus tratos que ele lhe infligira) e a violencia do estupro. No entanto, sua letargia diante dessa cena soma-se ao peso secular de tantos outros gestos do mundo machista. No confronto entre o amor e, por extensao, a defesa de Ermesinda que o humanizariam e a forca do sistema patriarcal que reifica a mulher e o ata ao mundo da barbarie, vence esta ultima.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v41i1.43232

Received on June 11, 2018.

Accepted on December 17, 2018

Referencias

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Camoes, L. (1963). De quantas gracas tinha, a Natureza. In J. V. B. Feio & J. G. Monteiro (Ed.), Obra completa de Luis de Camoes, correctas e emendadas (p. 66). Rio de Janeiro, RJ: Aguilar.

Frye, N. (1973). Anatomia da critica (Pericles Eugenio da Silva Ramos, trad.). Sao Paulo, SP: Cultrix.

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Lesky, A. (1971). A tragedia grega (J. Guinsburg, Geraldo Gerson de Souza, & Alberto Guzik, trad.). Sao Paulo, SP: Perspectiva.

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Aurora Gedra Ruiz Alvarez

Programa de Pos-Graduacao em Letras, Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rua Piaui, 143, 01241-001, Sao Paulo, Sao Paulo, Brasil. E-mail: alvarez@mackenzie.br

(1) Esclarecemos que esta sendo adotado o uso das minusculas nos titulos e nas citacoes das obras referidas. Nas minhas consideracoes, sera observado o registro conforme as convencoes academicas para cada caso.

(2) O vocabulo grotesco e tomado aqui no sentido concebido por Mikhail Bakhtin (2002, p. 17) que o compreende como "[...] a transferencia ao plano material e corporal [...] de tudo que e elevado, espiritual, ideal e abstrato".

(3) "O, beware, my lord, of jealousy!/ It is the green-eyed monster which doth mock/ The meat it feeds on. [...]" (Act III, Scene 3, v. 165-167). Traducao nossa: "Oh, meu senhor, cuidado com o ciume!/ Ele e um monstro de olhos verdes, que debocha da carne de que se alimenta".
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Title Annotation:LITERATURE/LITERATURA
Author:Alvarez, Aurora Gedra Ruiz
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2019
Words:7023
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