Printer Friendly

The rewriting of trauma: contemporary Brazilian literature on the Shoah/A reescrita do trauma: a literatura brasileira contemporanea sobre a Shoah.

1. Revolvendo os arquivos do mal

Em "Narrar o trauma--a questao dos testemunhos de catastrofes historicas" (2008, p. 65), Seligmann-Silva afirma que "nas 'catastrofes historicas', como nos genocidios ou nas perseguicoes violentas em massa de determinadas parcelas da populacao, a memoria do trauma e sempre uma busca de compromisso entre o trabalho de memoria individual e outro construido pela sociedade". Em outro texto, tambem de 2008, o autor esclarece que essas narrativas do trauma

[...] compartilham, de modo geral, varias de suas caracteristicas basicas, a comecar pela afirmacao da necessidade de narrar o ocorrido e justificativa deste gesto como: 1) um impulso para se livrar da carga pesada da memoria do mal passado; 2) como divida de memoria para com os que morreram; 3) como um ato de denuncia; 4) como um legado para as geracoes futuras; e, finalmente, 5) como um gesto humanitario na medida em que o testemunho serviria como uma memoria do mal. (3)

Obviamente, essas afirmacoes estao objetivamente relacionadas ao testemunho de sobreviventes, porem podem ser extensivas a ficcao sobre a Shoah.

Se, a epoca em que esses dois textos de Seligmann-Silva foram escritos, a presenca do Holocausto na literatura brasileira era efetivamente "marginal", conforme afirmou o autor, na ultima decada, ela tem se tornado mais constante e talvez as ondas recentes de xenofobia ao redor do globo tenham contribuido de alguma forma para reacender antigos temores, trazendo a baila a necessidade de lembrar. E essa necessidade que remete os escritores, de origem judaica ou nao, aos arquivos, para deles extrairem a materia para a ficcao sobre a Shoah. Com o iminente desaparecimento daqueles que a vivenciaram, resta aos ficcionistas alimentarem-se da memoria alheia.

A incursao na memoria de outros implica revolver os arquivos individuais e coletivos. A Shoah faz parte dos "Arquivos do Mal", ou seja, arquivos que foram interditados, dissimulados e, em alguns casos, destruidos, para que nao fornecessem a comprovacao do horror a que muitos seres humanos foram submetidos.

Para estabelecer uma analogia entre o processo de ficcionalizacao e a leitura dos arquivos, partirei da concepcao derridiana, que poe em xeque a visao classica que concebe o arquivo como monumento de uma tradicao e, portanto, como refletor de uma experiencia historica, reduzindo-o a uma experiencia da memoria.

Ao relacionar o conceito de arquivo a memoria, pessoal ou historica, Derrida (2001) demonstra que ha uma tensao entre a manutencao (lembranca) e a repressao da memoria (esquecimento), esta ultima de modo consciente ou inconsciente.

Em Mal de Arquivo--Uma impressao freudiana (2001), Derrida nos faz lembrar de que a memoria e a historia so podem ser consideradas como textos que sofreram inumeras revisoes, decorrentes de repressoes, negacoes e censuras. Para Derrida, o arquivo nao pode ser reduzido a memoria, nem considerado uma massa documental fixa, um mero registro do passado. Assim, nao basta abri-lo para que todas as representacoes nele guardadas aflorem. Se, por um lado, o arquivo e o lugar da memoria, por outro, e tambem o espaco do esquecimento, do apagamento proposital de vestigios.

Por meio da consignacao do conteudo do arquivo a um guardiao e interprete, o arconte, e possivel ir alem da sua dimensao de fato e de verdade material, que, assim, transforma-se em verdade historica. Ao interprete/arquivista cabe nao so acolher aquilo que o arquivo contem sob a forma de repeticao, mas tambem a tarefa de relanca-lo em direcao ao futuro. Ha, portanto, multiplas leituras do arquivo possibilitadas pela condicao de posterioridade do interprete, que decidira tambem o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido. Segundo Derrida, em sua leitura freudiana do arquivo, e a pulsao de morte que promove o apagamento da memoria, por isso, ele a associa ao conceito de "mal de arquivo".

Neste artigo, buscaremos analisar como as leituras dos arquivos da Shoah se traduziram em ficcao. Para tanto, examinarei tres romances: Sonata em Auschwitz (2017), de Luize Valente, O cisne e o aviador (2015), de Heliete Vaitsman, e Nas aguas do mesmo rio (2005), de Giselda Leirner.

2. O machado e o mar congelado

[...] nos precisamos dos livros que nos afetam como um desastre, que nos
   atormentam profundamente, como a morte de alguem que amamos mais do
   que nos mesmos, como ser jogado em uma floresta longe de todos,
   como um suicidio. Um livro deveria ser o machado para o mar congelado
   dentro de nos.

   Franz Kafka


A epigrafe acima faz parte de uma carta escrita por Kafka ao seu amigo Oskar Pollak e diz respeito ao papel que a literatura deveria ter, segundo a visao do escritor. Para Kafka, o passado nao sera mais que passado se ficar retido apenas na memoria, congelado (HUYSSEN, 2000, p. 86). Assim, quando uma obra literaria representa o passado, ela deve ser orientada para o futuro, ressignificando o conteudo do arquivo.

Considerando o papel da literatura em seu dialogo com a historia, a reescrita do trauma se efetiva como o machado a romper o mar congelado que nos distancia do evento historico, relegado, senao ao esquecimento, a tessitura de uma couraca protetora que nos impede de revisitar o horror compartilhando a angustia e os estertores dos que o vivenciaram. A revisitacao dos arquivos da Shoah implica o ato de escrever para nao esquecer.

Tomaremos por emprestimo a figura do arconte, nao como guardiao, mas como interprete, para apresentar as autoras dos romances que examinaremos; e, em seguida, abordaremos os modos de apreensao dos dados historicos nas tres obras e a sua ficcionalizacao.

2.1. As arcontes: donas das vozes

Luize Valente e jornalista, pos-graduada em literatura brasileira. Descendente de portugueses e alemaes, com um bisavo paterno judeu, a autora rendeu-se ao fascinio por temas ligados a historia judaica e aos refugiados em tempos de guerra, produzindo, alem de livros de nao ficcao e documentarios, tres romances historicos: O segredo do oratorio (2012), Uma praca em Antuerpia (2015) e Sonata em Auschwitz (2017). A sua experiencia como jornalista e responsavel pela profunda pesquisa de campo realizada antes da escrita de cada um dos romances e pela reconstituicao do percurso dos personagens.

Em entrevista concedida a epoca do lancamento do romance Sonata em Auschwitz, Valente afirmou que a genese do romance deveu-se a um encontro, em 2015, com Maria Yefremov, uma sobrevivente do Holocausto, com mais de cem anos, mas ainda lucida, que deu a luz uma menina em Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Separada da crianca apos o parto, ela nunca mais teve noticias da filha. A visita ao "arquivo/monumento" Auschwitz-Birkenau e as cidades europeias em que o romance se desenrola durou quinze meses e proporcionou-lhe a oportunidade de entrevistar varios sobreviventes dos campos de exterminio. Como a propria autora atesta, todos os personagens sao ficticios, mas solidamente construidos a partir de dados reais.

Heliete Vaitsman e jornalista, tradutora, romancista e socia de uma agencia literaria. Foi colunista e redatora de O Globo e reporter do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. Graduada em comunicacao social e direito e pos-graduada em traducao, tambem atuou em assessorias de comunicacao e marketing e trabalhou no Banco Mundial, em Washington. Sua primeira incursao na literatura se deu por meio de Judeus na Leopoldina (2006), obra que, em uma perspectiva do entrelacamento entre Historia e memoria, resgata a saga de imigrantes judeus que, escapando da miseria e do crescente antissemitismo da Europa, conseguiram um novo lar no Rio de Janeiro da primeira metade do Seculo XX.

Em 2014, a autora lancou o seu primeiro romance, O cisne e o aviador, que focaliza as historias ficcionais de tres imigrantes judias--Frida, Rosa e Clara--que emigraram para o Brasil antes do Holocausto e que tem suas historias pessoais entrelacadas a de uma personagem real, Herberts Cukurs, um capitao aviador da Forca Aerea Letoniana, que, segundo o historiador Andrew Ezergailis (4), foi um dos lideres das atrocidades cometidas no gueto de Riga, estando diretamente envolvido em varios outros massacres de judeus.

O romance resultou de uma minuciosa pesquisa realizada no Arquivo Nacional e em periodicos da comunidade judaica, como Aonde vamos, Nossa voz e O espelho, alem da leitura de obras sobre a Shoah, devidamente mencionadas pela autora em uma nota ao final do livro. O cisne e o aviador foi um dos finalistas do Premio Sao Paulo de Literatura em 2015, na categoria autor estreante com mais de quarenta anos.

Giselda Leirner, artista plastica reconhecida internacionalmente, desenhista e escritora, e filha de judeus poloneses, que vieram para o Brasil na decada de 1920. E bacharel em Filosofia pela Universidade de Sao Paulo, com pos-graduacao em Filosofia da Religiao. Publicou dois livros de contos, A Filha de Kafka (1999) e Naufragios (2011), e dois romances, Nas aguas do mesmo rio (2005) e O nono mes (2008).

A tematica da Shoah, presente em Nas aguas do mesmo rio, encontra eco nas historias e testemunhos familiares. Em uma entrevista, a autora mencionou o fato de que um dos irmaos de sua mae, Jacub, casou-se com uma alema, com quem teve dois filhos. A epoca da Segunda Grande Guerra, sua esposa e o filho mais velho tornaram-se nazistas, fato que o obrigou a fugir com o filho mais novo para a Italia, onde permaneceu escondido por uma mulher crista durante toda a guerra.

O romance de Leirner, como afirma Seligmann-Silva na apresentacao, e privado de "emocionalismo", mas narra uma historia que nasce dos escombros do seculo XX e reverbera no presente.

2.2. As vozes que se enunciam

Em Sonata em Auschwitz, Amalia e uma jovem portuguesa, de ascendencia alema, cujo pai renegara a familia envolvida com o nazismo. No inicio do romance, ela vai ao encontro de Frida, sua bisavo centenaria, em Berlim, onde descobre que seu avo verdadeiro, Friedrich, fora um oficial do Reich.

Apos uma crise de consciencia, Friedrich tentara salvar uma recem-nascida judia, cuja mae, Adele, era prisioneira em Auschwitz. Nao tendo o apoio de Frida, a quem procurara para pedir ajuda, ele partira levando a crianca e desaparecera. O conflito familiar deve-se nao apenas ao fato de Friedrich ser nazista, mas tambem porque, devido a promessa feita a Adele no campo de concentracao, Friedrich nao voltara a ver a mulher e o filho.

O encontro entre Amalia e Frida resulta na promessa da primeira de tentar descobrir se Friedrich era o pai da menina que ajudara a salvar e se ainda estava vivo. Um retrato enviado do Brasil mostra que Adele e a filha, Haya, haviam se reencontrado, despertando em Frida a esperanca de que o filho nao esteja morto, conforme lhe disseram.

Por motivos obvios, a parte da trama que se passa na Alemanha, nos campos de concentracao, assim como parte do encontro entre Haya, Adele e Amalia, e narrada por um narrador de terceira pessoa. A Amalia cabe narrar a sua percepcao dos fatos.

Em uma tentativa de conferir plausibilidade a narrativa, porem, ao mesmo tempo expondo-a como invencao, Valente faz uso de recursos paratextuais. Em Palimpseste, Gerard Genette define paratextualidade como um dos cinco tipos de relacoes transtextuais por ele abordados na obra e que se apresenta sob a forma de

Titulo, subtitulos, intertitulos; prefacios, preambulos, apresentacao, etc.; notas marginais, de rodape, de fim; epigrafes; ilustracoes; dedicatorias, tira, jaqueta [cobertura], e varios outros tipos de sinais acessorios, [...], que propiciam ao texto um encontro (variavel) e as vezes um comentario, oficial ou oficioso, do qual o leitor mais purista e o menos inclinado a erudicao externa nem sempre pode dispor tao facilmente quanto ele gostaria e pretende (GENETTE, 1982, p. 10).

Nas duas paginas que precedem o primeiro capitulo, ha dois mapas: o primeiro consiste em uma visao panoramica da Europa no periodo de 1939 a 1945; o segundo mostra as rotas das duas personagens que sustentam a trama, Adele e Friedrich. Em entrevistas, a autora admite ter percorrido parte dos trajetos empreendidos pelos personagens; havendo, inclusive, em seu site pessoal, fotografias dos locais que visitou durante a elaboracao do romance. Ao final, ha as arvores genealogicas de Amalia e Haya.

A sonata que Friedrich compoe e cantarola para Haya enquanto fogem e que da titulo ao livro foi efetivamente composta pelo maestro Antonio Simao especialmente para a personagem. Em "Consideracoes Finais", Valente menciona pessoas que, de algum modo, colaboraram para a execucao da obra, fornecendo dados que vieram complementar aqueles ja obtidos pela autora. Todas essas informacoes reveladas ao leitor demonstram o esforco da autora para contextualizar o romance e revesti-lo com uma roupagem de "verdade". Assim, se apresenta o carater paradoxal das narrativas contemporaneas sobre a Shoah. Ao mesmo tempo em que a ficcao tenta resgatar o conteudo do arquivo, recorrendo a outras narrativas de carater testemunhal no intuito de aproximar-se com a maior fidelidade possivel do evento traumatico, e justamente por ser fabulacao que obtem o distanciamento necessario para concretizar a escrita do indizivel. Para Semprun (1995),

[...] a realidade esta ali, disponivel. A palavra tambem. No entanto, vem-me uma duvida sobre a possibilidade de contar. Nao que a experiencia vivida seja indizivel. Ela foi invivivel, o que e outra coisa, como se compreendera facilmente. Outra coisa que nao se refere a forma de um relato possivel, mas a sua substancia. So alcancarao essa substancia, essa densidade transparente os que souberem fazer de seu testemunho um objeto artistico, um espaco de criacao. Ou recriacao. So o artificio de um relato que se possa controlar conseguira transmitir parcialmente a verdade do testemunho (SEMPRUN, 1995, p. 22).

O primeiro capitulo consiste no relato da fuga de Friedrich com o bebe e antecipa o drama de consciencia que o leva a tal ato, a culpa. O capitulo seguinte, temporalmente situado em 1999, desvenda os lacos da familia de Amalia. Hermann, seu pai, criara uma ficcao sobre si mesmo e a transmitira aos filhos: chegara a Portugal com cinco anos, fora alfabetizado em portugues, casara-se com uma colega da faculdade de Direito e juntos lutaram contra o regime de Salazar.

A ruptura da familia com os avos paternos, Gretl e Helmut, a quem a protagonista so vira uma unica vez, nunca fora explicada, pois, em sua casa, nao se falava sobre o passado. Fora com surpresa que, um pouco antes da viagem, Amalia ouvira uma conversa em alemao entre Hermann e Gretl, pois o pai sempre dissera que nao falava o idioma. A conversa, reveladora, mencionava pessoas que ela nem sabia que existiam, como a bisavo prestes a completar cem anos e a tia Ingeborg, que falecera recentemente. Ao inves de confrontar o pai, decide ir a Berlim e descobrir por si mesma.

A facilidade com que Amalia localiza Adele e Haya no Rio de Janeiro parece um tanto inverossimil e dissonante em relacao ao minucioso relato da trajetoria de Adele. Filha de um conceituado obstetra judeu, Kurt Eisen, Adele e sua irma Eva nao eram religiosas. Em sua casa, as grandes datas judaicas eram comemoradas mais por tradicao do que pela crenca. Quando houve a ascensao do nazismo, a familia comecou a sofrer perseguicoes: Kurt e o irmao perderam o direito de exercer suas profissoes, as filhas foram expulsas da escola e a grafica da familia fora destruida em um incendio criminoso. Mesmo tentando seguir o conselho do irmao Franz, que ja estava no Brasil com a familia, Kurt nao conseguiu os vistos que lhes permitiriam escapar. Episodios de violencia, como os pogroms (5), e o aprisionamento de Kurt culminam na decisao das mulheres da familia de partir para a Romenia, onde vivem os avos maternos. Apos um breve periodo de tranquilidade, em que Adele e Norman se conhecem e se casam, a perseguicao recomeca.

Essa parte da narrativa e permeada por referencias a fatos historicos, como a imposicao do uso da estrela amarela, o confinamento de judeus em Oradea, o confisco de bens e, por fim, o transporte de judeus hungaros em trens lotados, ao serem enviados para os campos. O romance reproduz os relatos dos arquivos historicos:

O cheiro da urina misturado ao do suor impregnava o ambiente. Quando o balde chegava na metade--assim se evitava que a urina fosse derramada e tornasse mais imundo o vagao--, era passado de mao em mao ate chegar a janela, de onde o conteudo era lancado (VALENTE, 2017, p. 228).

Quando Adele, gravida, e Eva sao separadas da mae em Auschwitz, elas se surpreendem com a aparencia das prisioneiras, esqueleticas e vestidas de trapos. Tambem nao lhes escapa a atencao o ceu cheio de cinzas e "o cheiro repugnantemente adocicado" (VALENTE, 2017, p. 248) que impregnava o ar. Mais tarde, descobre, por meio de uma prisioneira polonesa, que a mae fora levada ao crematorio: "Cutucou Adele no ombro e, em seguida, apontou o dedo para a densa fumaca negra, visivel atraves da janela.-- Sua mae esta la" (VALENTE, 2017, p.252).

Em passagens como essa, em que o horror se concretiza em palavras, a narrativa provoca no leitor uma reacao que, com as devidas proporcoes, se equipara ao trauma. Segundo Antonello e Gondar,

[...] a literalidade dos escritos [entendidos aqui como testemunhos, grifo nosso] convoca o leitor a experimentar o mesmo processo de despersonalizacao, proprio do trauma, do qual esses autores foram vitimas, o outro precisa suportar o testemunho para que ele ganhe status de verdade, de inscricao, de reconhecimento (ANTONELLO, GONDAR, 2013, p.169).

Na iminencia do desaparecimento daqueles que vivenciaram o Holocausto e podem dar seu testemunho, nao seria a literatura sobre a Shoah uma tentativa de dar forma a um sentimento comum aos sobreviventes, ou seja, a necessidade de escrever o indizivel?

Quando Primo Levi afirmou sua percepcao de que em sua lingua nao havia palavras que dessem conta de expressar a aniquilacao do homem (LEVI, 1988, p. 24), ele nao negou a sua necessidade de escrever, percebendo a escrita como a unica resposta possivel do eu ante a forca desagregadora do trauma. Dessa forma, para ele, a escrita se torna iteravel (LEVI, 1990). Segundo Derrida (1991), a iterabilidade evidencia a possibilidade de um signo ser repetido na ausencia de seu referente e, tambem, na ausencia de seu significado, ou seja, de produzir repeticoes que instauram uma diferenca, repetindo a alteridade. Nao seria essa a razao para o escritor contemporaneo debrucar-se sobre os arquivos do mal? A escrita produz uma memoria, torna-se uma especie de maquina produtora de relatos, que subsistirao a passagem do tempo, dando-se a ler e a reescrever repetidamente (DERRIDA, 1991, p.20).

O principal motif do romance, a par de sua aparente implausibilidade--visto que Friedrich sacrifica a propria vida e o reencontro com a familia para salvar a filha de Adele e o seu suposto marido-, ameniza os efeitos do trauma, tornando a leitura suportavel para o leitor, mas se distancia do testemunho. Maria Yfremov foi, talvez, a principal fonte na pesquisa realizada por Luize Valente, uma vez que o seu relato foi, segundo a autora, desencadeador da escrita. No entanto, uma consulta ao Museu da Pessoa (6) nos mostra que os fatos foram muito mais contundentes do que a representacao ficcional:

Um pouco mais longe estava o crematorio, que a noite nos podiamos ver como saia fumaca, esse fogo descer da chamine, esse cheiro de gente queimada. Quando chegamos no campo, soubemos o que eram esses fornos, porque umas mocas da Polonia, que conseguiam sobreviver ja ha alguns anos, nos contaram tudo. No nosso alojamento a maioria era hungara. Todas judias. Eu estava gravida de cinco meses quando me deportaram e sempre eu precisava me esconder para que nao descobrissem. Mas fiquei tao magra que nao dava mesmo para perceber e, dezoito de agosto, nasceu a menina. Nove meses certinho. La, nessa sujeira, nesses estabulos que foi o parto, uma parteira ajudou. Depois a responsavel por nossa reparticao disse que eu podia dar so uma olhada e, no dia seguinte, ja levaram a crianca ao crematorio. Isso eles faziam com todos (Depoimento de Maria Yfremov).

E a iterabilidade do testemunho que permite a sua recriacao, a pratica reiterativa pela qual o discurso produz os efeitos que ele nomeia. Nesse sentido, as narrativas contemporaneas sobre a Shoah forjam o testemunho, por meio de um narrador que se enuncia como um sobrevivente ou alguem que testemunhou o horror. Valente se apropria de dados da narrativa de Yfremov, mas a repete com diferenca.

Semelhantemente, Heliete Vaitsman se apropria de fatos historicos sobre o Holocausto. Reescreve as historias do arquivo, inserindo-as em um novo contexto. A historia de Cukurs e real, documentada em arquivos historicos, mas ao se entrelacar com as personagens ficcionais, as memorias destas evocam a literatura de testemunho, pois consistem em relatos sobre fatos historicos que antecederam e ocorreram durante o Holocausto. Os eventos narrados fazem parte de muitos relatos de sobreviventes, mas, ainda assim, a repeticao com diferenca produz uma outra dimensao do referente ausente.

Em O cisne e o aviador, o fio narrativo e puxado por Frida, uma senhora de 90 anos, que, sentindo a proximidade da morte, conta a neta a historia da familia. Ao rememorar o passado, ela afirma que chegara ao Brasil ha 72 anos e que nunca mais retornara a Alemanha, nem tampouco voltara a ler ou escrever em alemao, "lingua que ela jamais absolvera dos ultrajes cometidos" (VAITSMAN, 2014, p. 9).

A historia de Frida e identica a de muitos judeus alemaes, cujo vinculo com a origem limitava-se a judeidade (7), ou seja, a preservacao de certos habitos culturais, como as festividades e a alimentacao, tornando ainda mais dificil compreender o estigma que levara seus familiares aos campos de concentracao:

Ate o outono de 1937, papai e titio [...] mantinham a esperanca de que Hitler nao duraria no poder. O povo alemao nao se deixara contaminar pela falta de razao, Frida. Como alguem chegado da Austria pode fazer o que bem entender com os militares? [...] Raca nao era assunto tratado a mesa. Religiao muito menos [...] nossa pequena familia mantinha apenas um rito: a visita anual ao cemiterio judaico no aniversario da morte de mamae (VAITSMAN, 2014, p.18).

A narrativa compartilha com outros romances sobre a Shoah o tom de incredulidade que acometera os judeus nao praticantes do judaismo ao perceberem como a questao etnica passou a ser um fator preponderante de exclusao, a par dos servicos prestados pelos judeus as comunidades que os acolheram:

Nada aconteceu de repente. Nao houve um raio caindo sobre nossas cabecas; tudo na Alemanha de Hitler era explicado de maneira muito civilizada. Pequenas proibicoes aqui; pequenas proibicoes ali, e a gente ia se adaptando, supondo que ja havia restricoes suficientes. Como imaginar que depois de um anuncio assustador, novos anuncios viriam ate a vida se tornar impossivel? (VAITSMAN, 2014, p. 19).

O relato sobre a "Noite dos Cristais" (8) reforca a ideia de repeticao com diferenca. Vejamos como e narrado em Sonata em Auschwitz e O cisne e o aviador:

Afastou-se da janela em direcao a porta. Foi quando ouviram o vidro estilhacar. Subitamente o quarto foi invadido por uma lufada de vento acompanhada pelo som de gargalhadas e berros vindos da rua. A pedra caiu entre as duas camas. Os cacos se espalharam pelo chao e sobre a mesa de estudos debaixo da janela. Adele pulou da cama e se agarrou a Eva. Abracadas, se agacharam no pequeno espaco que sobrava entre o armario e a parede. Pela primeira vez, Adele sentiu o medo na irma. O corpo tremia todo. Adele apertou a mao dela entre as suas. Tambem estava apavorada (VALENTE, 2017, p. 107).

A Noite dos Cristais, em 9 de novembro de 1938, mostraria o equivoco das expectativas. Cacos de vidro de milhares de lojas depredadas pelos nazistas cobriram as ruas da Alemanha, apartamentos foram invadidos, os moveis jogados pelas janelas, os homens surrados e presos diante de familiares em panico. Assustadas, chorosas, nao tivemos tempo para preparativos. Fizemos as malas e partimos em 48 horas (VAITSMAN, 2014, p.27).

Ao contrario de Adele, que e enviada ao campo de Auschwitz com a familia, Frida e sua irma Helga escapam, viajando primeiramente para a Franca e, mais tarde, para o Brasil. Os ecos da perseguicao nazista chegam ate elas por meio das noticias de familiares e amigos. Assim, descobrem que o pai e o tio tinham sido enviados a Letonia em 1941 e mortos na floresta de Rumbula. A reacao de Frida, embora pareca dura e fria, se assemelha a de muitos sobreviventes, que optaram pelo silencio e o esquecimento: "Vou acender as velas uma vez por ano [...] mas nos outros 364 dias nao quero revolver as feridas. Tudo o que quero e sair do passado" (VAITSMAN, 2014, p.32). Essa reacao e explicada por Michel Pollak, em

"Memoria, esquecimento, silencio" (1989), em que ele aborda a relacao dialetica entre a memoria e o esquecimento. Conforme Pollak, alem da experiencia traumatica, que por si so ja seria uma forte razao para o silencio e a tentativa de esquecimento, havia tambem, em alguns casos, uma especie de culpa oculta, gerada pela propria condicao de sobrevivente, enquanto tantos haviam perecido.

Ainda segundo Pollak (1989, p. 4), os sobreviventes tambem buscaram poupar os descendentes de suas amargas lembrancas, rompendo o silencio apenas com a proximidade da morte, o que ocorre com Frida e com Rosa, outra personagem feminina do romance. No desembarque, trazendo ao colo Sofia Esperanza, a filha que tivera durante a travessia do oceano, Rosa reconhece um dos algozes, Herberts Cukurs, o aviador letoniano que fizera parte da milicia de Viktor Arajs, colaborador dos nazistas. Naquela epoca, ela estava escondida em uma granja e, por isso, escapara quando o gueto de Riga fora esvaziado e todos os judeus levados em marcha forcada a floresta de Rumbula, onde foram executados.

Assim como Frida fizera com a neta, Brigida, Rosa transmite a filha, Sofia, as memorias do que sucedera em Riga: primeiro, a ocupacao nazista e o envio de cerca de cinco mil judeus para a Siberia; e, em seguida, para os campos de trabalho:

Os judeus foram enviados para campos de trabalho, arrancados das filas de distribuicao de comida e das camas dos hospitais. Pode esbugalhar os olhos, Sofia, mas eu conto, continua Rosa: papai acabou igual aos outros, obrigado a tirar as roupas e a esticar os bracos antes de receber o tiro na nuca. Os nazistas queriam a Letonia judenfrei--livre de nos. Ricos e pobres, trabalhadores e doutores, tudo igual para eles (VAITSMAN, 2014, p. 110-111).

Rosa reencontra Cukurs mais uma vez, quando, no fim do verao de 1950, ao passear com o esposo, Iosse, e as duas filhas em um pedalinho na Lagoa Rodrigo de Freitas, este vira e, por pouco, as meninas nao morrem afogadas. Rosa e a responsavel pelo salvamento das filhas e se revolta quando o marido aceita um relogio Rolex prateado que o aviador lhe da como retribuicao pelo seu silencio. O reencontro traz de volta o passado que gostaria de esquecer e que Iosse parece ter apagado completamente da memoria. Ante o seu pedido de que se desfaca do relogio, ele argumenta que muitas pessoas foram forcadas a colaborar com os alemaes durante a guerra, como um amigo que ele tivera na juventude. Durante a guerra, Iosse fora obrigado a carregar maquinas e lenha para a Schutz polizei, no campo de Kaiserwald, do qual saira com a pele colando nos ossos, decidido a deixar o passado para tras.

O romance reproduz manchetes de jornais da epoca que noticiam as denuncias contra Cukurs, encabecadas pela Federacao das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro. O aviador ate entao tinha sido visto como um imigrante trabalhador, cujo negocio nao so ajudara a revitalizar uma zona problematica do Rio (9) como ainda se tornara uma opcao de lazer em uma cidade com o custo de vida ja bastante levado. A nota da autora, ao final do romance, explicita o percurso da pesquisa sobre ele. Todas as acusacoes tinham por base o depoimento escrito de quatro testemunhas, residentes no exterior, colhidos pelo Comite de Investigacoes de Crimes Nazistas nos Paises Balticos e enviados a Federacao pelo Congresso Mundial Judaico (AN, 26/09/1950: 43-48). Entretanto, a participacao de Cukurs nunca foi efetivamente comprovada.

Os arquivos historicos, principalmente os depoimentos colhidos por ocasiao do julgamento de Friedrich Jeckeln, foram tambem a fonte para a descricao do massacre na floresta de Rumbula, ocorrido em 30 de novembro e 8 de dezembro de 1941, no capitulo cinco do romance. Jecklen foi julgado em uma corte militar sovietica e enforcado em 3 de fevereiro de 1946.

Muito embora o romance gire em torno do modo como Frida, Rosa e sua amiga Clara reconstruiram suas vidas no Brasil depois de terem escapado do nazismo, sao os relatos ficcionais dos eventos historicos que trazem o maior impacto a narrativa.

O terceiro romance a que nos reportaremos neste artigo, Nas aguas do mesmo rio, e o menos convencional dos romances analisados. Parte do encontro entre Guitel, a narradora, e uma moradora de rua, Balkis, apelidada de Rainha, com quem a primeira faz amizade. A curiosidade impele a narradora a investigar a historia de Balkis, que, mesmo vivendo sob um viaduto em Sao Paulo, tem uma postura majestosa, que lhe valera o apelido.

Alguns encontros mais tarde, Guitel descobre que Balkis era a jovem que cuidara dela, quando estavam no campo de concentracao em Theresienstadt. Filha de poloneses que foram enviados a Auschwitz, Guitel, com cerca de quatro anos de idade, agarrara-se a jovem, quando a viu com o marido judeu, Vlado, na estacao em que seriam embarcados e enviados ao campo.

A estrutura da narrativa, similar a uma babushka russa, segundo Selligman-Silva (10), que apresenta o romance, e fluida, composta por tipos diversos de textos: autobiografia, confissao, diario intimo, cartas e testemunhos. Assim, numa sucessao de desdobramentos, entremeados por esquecimentos e silencios, as historias de vida das personagens vao sendo contadas.

Ao montar o quebra-cabeca, o leitor descobre que Balkis fora abandonada e acolhida pela viuva de um ex-diplomata americano, Mme. Harris. O marido de Madame era alcoolatra e afeito ao desperdicio, razao pela qual esta se vira totalmente sem meio de subsistencia apos a sua morte. Oriunda de uma familia abastada e radicada na Franca, Madame tinha sido educada com luxo e fartura. Apos a morte dos pais, ela acompanhara o marido ao Brasil e assistira-o dilapidar o que restara de sua heranca. Quando Harris morrera, ela decidira ficar no pais e, por falta de opcao, acabara por gerenciar uma especie de prostibulo de luxo, onde Balkis fora criada.

Quando tinha dezessete anos, Balkis casou-se com Vlado, um critico e artista tcheco, que a levou para Paris. Ate entao, ela desconhecia o fato de que ele era judeu e participava do movimento de resistencia. Ate que foram presos e enviados a Theresienstadt. Ao contrario das personagens dos outros dois romances, a quem coube narrar os acontecimentos decorrentes da Shoah, em Nas aguas do mesmo rio, e Balkis, uma brasileira a responsavel pelo relato:

O que e uma testemunha? O que sou? Sim, poderei falar, mas nao direi o indizivel. Nao saberia dize-lo. O inumano pode ser falado, pode ser contado? [...] por isso mesmo so contarei o que me manteve viva. A mim e a Crianca. Conto para mim mesma, para mais ninguem. Como Madame escrevia so para ela (LEIRNER, 2005, p. 37).

A fim de demonstrar que os processos mnemonicos retratados no romance sao analogos aos que os individuos efetivamente experimentam, recorremos novamente a Pollak (1992) e, particularmente, ao texto "Memoria e identidade social", em que ele analisa os mecanismos de organizacao da memoria:

Esse ultimo elemento da memoria--a sua organizacao em funcao das preocupacoes pessoais e politicas do momento--mostra que a mem6ria e um fenomeno construido. Quando falo em construcao, em nivel individual, quero dizer que os modos de construcao podem tanto ser conscientes como inconscientes. O que a memoria individual grava, recalca, exclui, relembra, e evidentemente o resultado de um verdadeiro trabalho de organizacao (POLLAK, 1992, p.204).

E possivel perceber que o esquecimento e fruto da organizacao da memoria de Balkis. Ela opta pelo apagamento de certos eventos e pela enfase em outros. A autora recorre aos arquivos historicos para engendrar a memoria de Balkis, como na passagem abaixo:

Por sorte ate agora nao fomos citadas nas eternas listas com nomes escolhidos para deportacao. Essas listas eram elaboradas por um grupo de velhos judeus eleitos num Comite de Anciaos. Tarefa diabolica para os que precisavam fazer a selecao e ate admitir pessoas de suas proprias familias [...] as deportacoes feitas em trens de carga se dirigiam a AuschwitzBirkenau, levavam seus passageiros para o exterminio em camaras de gas e crematorios [...] das pessoas que entraram em Theresienstadt, noventa mil foram enviadas a Auschwitz-Birkenau [...] somente dezesseis mil sobreviveram [...] porque eu e Crianca fomos poupadas? Nunca saberei (LEIRNER, 2005, p. 54).

Assim, a personagem descreve o campo de Theresienstadt e o modo como os nazistas criaram uma falsa imagem de "cidade doada aos judeus pelo Fuhrer", preparando-a para a visita das delegacoes do Comite Internacional da Cruz Vermelha e escondendo a sua verdadeira finalidade.

Um traco distintivo do romance de Leirner e o foco no periodo pos-libertacao dos judeus que sobreviveram a Shoah: "Ao chegarem os nossos libertadores, com suas armas reluzentes e negros tanques, nao sabiamos o que fazer. So viamos tudo com a indiferenca de quem, de tanto ver a morte, nao conseguia mais distinguir entre a vida e a sua ausencia" (LEIRNER, 2005, p. 58).

Outro aspecto que diferencia o romance de outros sobre o mesmo tema e o fato de a narradora nao ser judia:

Muitos judeus, devido as perseguicoes, tornaram-se mais tarde ateus. Eu, ao contrario, nao sendo judia, transformei-me em uma convicta portadora da estrela amarela. O sofrimento me fez judia. Como se assim tivesse nascido, passei a pertencer ao povo cuja existencia se deve ao suplicio (LEIRNER, 2005, p. 58).

A trajetoria de Balkis e a mesma de muitos sobreviventes, que buscaram retornar as cidades onde viviam antes de se tornarem prisioneiros. Ajudada por Bertha, uma judia de origem tcheca, Balkis e Crianca vao, aos poucos, retomando a existencia fora do campo. A necessidade faz com que aprenda a costurar e comece a trabalhar no intuito de retornar a Franca, o que acaba conseguindo, com a ajuda de um dos irmaos de Vlado. Mais uma vez a opcao pelo silencio, tipica das situacoes de trauma, e adotada por Balkis: "Nunca falamos de Vlado, nem da familia, ou do tempo passado em Theresienstadt ou em Praga. Sem estar morto, o passado teria de morrer e, para isso, o melhor a fazer era nao falar. Havia um acordo tacito entre nos" (LEIRNER, 2005, p. 71).

Balkis se descreve como "filha de uma mae que nao era minha, mae de uma filha que nao era minha. Esposa de um desaparecido que deixou poucos vestigios" (LEIRNER, 2005, p. 79). Apos localizar a avo de Crianca e envia-la juntamente com a neta para viver com uma irma no Brasil, Balkis se prepara para o retorno.

A alternancia de vozes narrativas, de Guitel a Balkis e vice-versa, permite que a historia seja contada por oticas diferenciadas. Cabe a Guitel narrar o que lhe sucedera apos a chegada ao Brasil e retomar o fio da historia narrando como reencontrara Balkis e a acolhera, compartilhando a sua solidao, ate a sua morte.

Como pudemos observar, nos romances examinados, as autoras procederam a investigacoes historicas, revolvendo os arquivos do mal. Conforme expusemos, o principio da iterabilidade permite a repeticao dos dados do arquivo com diferenca. A ficcao, por outro lado, torna possivel gerir os dados coletados e, a exemplo do que faz o historiador (POLLAK, 1992, p. 208), controla-los, nao em busca de uma presumida "verdade", mas de modo a espelhar uma reacao humana comum em situacoes traumaticas como a Shoah.

Se, conforme Pollak afirma (1992, p. 209), nos relatos dos sobreviventes era comum relatar o evento pessoal atribuindo-o a outra pessoa, de modo a torna-lo "dizivel", a ficcao ao assumir para si a tarefa de narrar o indizivel, a partir de um conjunto de relatos orais e de fontes documentais que a fundamentam, realiza o que Pollak denomina uma "transposicao necessaria".

Por outro lado, os romances examinados representam muito bem o apagamento proposital de vestigios por parte dos que sofreram o trauma. Notadamente, em O cisne e o aviador e Nas aguas do mesmo rio, a opcao pelo esquecimento e objetivamente expressa pelas protagonistas.

Consideracoes finais

Assim como as narrativas historicas sofrem revisoes decorrentes de repressoes, negacoes e censuras, a memoria e igualmente submetida a um processo de filtragem. Quando a obra ficcional tematiza as operacoes mnemonicas, ela o faz de modo analogo, em um jogo entre memoria e esquecimento.

Na literatura contemporanea sobre a Shoah, a recorrencia a memoria e condicao sine qua non, pois ela e reelaborada pelo instrumental da ficcao de modo narrar o indizivel. Retomamos, assim, a citacao de Seligman-Silva que abre este artigo, afirmando que as narrativas ficcionais sobre o Holocausto cumprem de certa forma a funcao original dos relatos das testemunhas, ou seja, se constituem como atos de denuncia, como legado para futuras geracoes e como um modo de perpetuar a memoria do mal, para que, recordando-o, a humanidade nao o repita.

Sonata em Auschwitz e O Cisne e o aviador adotam um perfil hibrido, parte "representacionista", ou seja, visando a uma apresentacao "direta" e "objetiva" do fato historico, e parte assumidamente ficcional. Nas aguas do mesmo rio, por sua vez, envereda por outro caminho, refletindo as dificuldades e estrategias para se representar um fato historico que e considerado um evento-limite.

De um modo ou de outro, as tres obras examinadas ressignificam o conteudo do arquivo sobre a Shoah, ultrapassando a fixidez dos registros historicos e, tal como o machado de Kafka, estilhacando o mar gelado do nosso conhecimento sobre uma das maiores catastrofes da historia humana.

DOI: https://doi.org/10.12957/soletras.2018.33533

Referencias

ANTONELLO, Diego; GONDAR, Jo. A escrita do traumatico. Estudos da Lingua(gem)Vitoria da Conquista, BA, v. 11, n. 1 p. 165-185 junho de 2013.

DERRIDA, J. Limited Inc. Trad. Constanca Marcondes Cesar.Campinas, SP: Papirus, 1991.

--. Mal de arquivo: uma impressao freudiana. Trad. Claudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumara, 2001.

GENETTE, Gerard. Palimpsestes: la litterature au second degre. Paris: Editions. du Seuil, 1982.

LEIRNER, Giselda. Nas aguas do mesmo rio. Sao Paulo: Atelie Editorial, 2005.

LEVI, P. Os afogados e os sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

--. E isto um homem? Trad. Luigi Del Re. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

POLLAK, Michael. Memoria, esquecimento, silencio. Estudos historicos. Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

--. Memoria e identidade social. Estudos historicos. Rio de Janeiro, v. 5. n. 10, 1992, p. 200-212.

SELIGMANN-SILVA, Marcio. A literatura da Shoah no Brasil. Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, out. 2007, p. 1-13.

--. Reflexoes sobre a memoria, a historia e o esquecimento. Historia, memoria e literatura: o testemunho na era das catastrofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003, p. 59-88.

--. Narrar o trauma--a questao dos testemunhos de catastrofes historicas. Psicologia Clinica, Rio de Janeiro, vol.20, n.1, p.65-82, 2008.

SEMPRUN, J. A escrita ou a vida. Sao Paulo: Companhia das Letras,1995. VAITSMAN, Heliete. O cisne e o aviador. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. VALENTE, Luize. Sonata em Auschwitz. Rio de Janeiro: Record, 2017.

Enviado em: 09 de abril de 2018.

Aceito em: 23 de junho de 2018.

Shirley de Souza Gomes Carreira (2)

(1) A titulo de esclarecimento, apontamos as restricoes feitas por autores como Vivian Patraka e Marcio Seligmann-Silva ao termo "holocausto", que ambos consideram inapropriado. Segundo Patraka, a origem grega da palavra holocausto remete ao sentido de oferta queimada, sugerindo uma interpretacao crista da historia judaica. Tanto ela quanto Seligmann-Silva sinalizam que o termo Shoa e mais adequado tanto do ponto de vista academico quanto politico, por distanciar-se da ideia de sacrificio ritual.

(2) Doutora em Literatura Comparada (UFRJ). Professora Adjunta do Departamento de Letras da Faculdade de Formacao de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Docente permanente do Programa de Pos-Graduacao em Letras e Linguistica da UERJ, RJ, RJ, Brasil. E-mail: shirleysgcarr@gmail.com.

(3) Texto de aula, disponivel em: http://diversitas.fflch.usp.br/files/active/0/aula_8.pdf. Acesso em 21 dez. 2017.

(4) Andrew Ezergailis e professor aposentado da Faculdade de Ithaca, em Nova Iorque. Nascido na Letonia, escreveu a obra The Holocaust in Latvia, 1941-1945, na qual denuncia Herberts Cukurs.

(5) Palavra russa que significa "causar estragos, destruir violentamente".

(6) Disponivel em: http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/maria- yefremov-46729 Acesso em 02 de abr. de 2018.

(7) Vaitsman, em varias entrevistas, enfatiza a diferenca entre judeidade e judaismo, pois o primeiro termo reportase a manutencao da tradicao, enquanto que o segundo, a uma postura religiosa.

(8) Onda de violencia antissemita que ocorreu nos dias 9 e 10 de novembro de 1938. Os nazistas mataram judeus, incendiaram sinagogas, saquearam e destruiram lojas da comunidade judaica.

(9) Segundo Carvalho (2011, p. 12), desde o inicio do seculo XIX, a prefeitura do Rio de Janeiro enfrentava diversos problemas com a Lagoa, como a falta de oxigenacao, mortandade de peixes, desnivel, ligacao com o mar, enchentes etc., que impediam uma maior valorizacao do bairro e entorno.

(10) Orelha do livro.
COPYRIGHT 2018 Universidade do Estado do Rio de Janeiro- Uerj
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2018 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Carreira, Shirley de Souza Gomes
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2018
Words:6841
Previous Article:A literature of disassembly: interculturalities and policy in Snow by Orhan Pamuk/Uma literatura do desassossego: interculturalidades e politica em...
Next Article:Entrevista con Alberto Guerra Naranjo.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters