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The relationship between morphological awareness and contextual reading measured by the cloze Test/Relacao entre consciencia morfologica e leitura contextual medida pelo teste de Cloze.

A revisao de literatura sobre a tematica permite constatar que nos ultimos 30 anos houve um aumento expressivo do numero de estudos que investigaram a relacao entre a consciencia metalinguistica e a alfabetizacao (Bowey, 2005; Bradley & Bryant, 1983; Gombert, 1992; Plaza & Cohen, 2003, 2004). Dentre as habilidades metalinguisticas, tres se destacam por contribuirem de forma causal para o sucesso na alfabetizacao, quais sejam, a consciencia fonologica, a consciencia sintatica e a consciencia morfologica.

Dentre elas, a mais estudada e a consciencia fonologica, que pode ser definida como a habilidade de refletir sobre os sons que compoem a fala (Cardoso-Martins, 1995). Estudos demonstram que a consciencia fonologica ajuda na alfabetizacao, e que o treinamento dessa habilidade frequentemente tem sido utilizado visando a remediacao dos problemas de leitura (Bradley & Bryant, 1985; Cunningham, 1990; Goswami & Bryant, 1990). No Brasil os trabalhos de Capovilla e Capovilla (2000), CardosoMartins (1995), Guimaraes (2003), Maluf e Barrera (1997), e Santos (1996), so para citar alguns, confirmam a importancia do tema para a aquisicao da lingua escrita no portugues brasileiro.

Embora a consciencia fonologica geralmente esteja associada a decodificacao de palavras, diversos estudos tem demonstrado que essa habilidade contribui para a compreensao de leitura, a medida que favorece a leitura contextual (Rego, 1995; Rego & Bryant, 1993; Tunmer, 1990). Isso ocorre provavelmente porque a automatizacao da decodificacao acelera o processo de reconhecimento das palavras no texto o que, por sua vez, libera espaco da memoria para armazenamento do texto, facilitando o processo de compreensao (Stanovich, 1980).

A consciencia fonologica nao e a unica habilidade a facilitar o processo de alfabetizacao. Um novo corpo de evidencias vem se formando, apontando para o papel facilitador da consciencia morfologica na aquisicao da leitura e escrita (Carlisle, 1995; Deacon & Kirby, 2004; Nagy, Berninger, & Abbot, 2006). Sob essa perspectiva, a habilidade de refletir sobre os morfemas, menores unidades linguisticas que tem significado proprio, e chamada consciencia morfologica (Carlisle, 1995). Vale acrescentar que essa habilidade pode ajudar na alfabetizacao porque a ortografia de muitas palavras depende da morfologia. Palavras como "laranjeira", que tem ortografia ambigua, podem ser escritas de forma correta se soubermos sua origem: "laranja". Os significados delas podem ser igualmente inferidos na leitura, se o leitor souber o significado da palavra que as originou.

A explicacao da importancia do processamento morfologico para leitura e apresentada por Mann (2000), que aponta duas razoes para tanto. A primeira diz respeito a argumentacao de que a escrita pode ser analisada em varios niveis, que nao so o fonologico. Um deles e o nivel semiografico, que implica estabelecer como os grafemas representam os significados das palavras (Marec-Breton & Gombert, 2004). Considerando que os morfemas sao unidades de significado, pode-se hipotetizar que a consciencia morfologica pode facilitar a aquisicao do principio semiografico. A segunda razao refere-se mais especificamente a natureza da ortografia focalizada. Aqui e importante ressaltar que a argumentacao principal para a relacao encontrada entre o processamento morfologico e a alfabetizacao vem de pesquisas realizadas em falantes do ingles, lingua nativa de Mann (2000) e dos sujeitos por ela estudados.

Nesse sentido, vale ainda lembrar que o principio alfabetico e o de que letras devem corresponder perfeitamente aos sons das palavras, mas que as linguas alfabeticas variam quando ao grau de correspondencia entre as letras e os sons da fala. No ingles essas relacoes sao mais opacas do que em ortografias como o finlandes, o portugues ou o espanhol. Muitas das irregularidades encontradas no ingles podem ser explicadas pela estrutura morfologica das palavras (Chomsky & Halle, 1968; Sterling, 1992). Por exemplo, no ingles a palavra 'heal' que rima com 'il' e a palavra 'health' que rima com 'elf' tem a mesma origem semantica; por isso sao escritas da mesma forma, embora sejam pronunciadas de forma diferente.

Nas linguas com ortografias mais regulares o processamento morfologico pode nao contribuir de forma significativa para aquisicao e processamento da lingua escrita, porque a maioria das palavras pode ser escrita aplicandose o principio alfabetico. Mann (2000) supoe que as linguas alfabeticas mais regulares podem ser mais dependentes da estrutura fonologica das palavras do que da estrutura morfologica.

Lehtonen e Bryant (2005) ressaltam que embora este seja um argumento valido, a hipotese de que a consciencia morfologica contribui para alfabetizacao, tambem nas ortografias regulares e pertinente, argumentando que essa e uma questao teorica que precisa ser mais bem investigada. De fato, no ingles, em uma serie de estudos que exploraram a relacao entre a consciencia morfologica e a alfabetizacao, Joanne Carlisle mostrou que a habilidade de refletir sobre os morfemas das palavras estava associada ao desempenho na leitura de palavras isoladas e, a compreensao de leitura (Carlisle, 1995, 2000; Carlisle & Fleming, 2003), e tambem ao desempenho da escrita (Carlisle, 1988, 1996).

Em acrescimo, e relevante ponderar que nao e apenas em linguas com estrutura fonologica opaca que a consciencia morfologica contribui para a aquisicao da lingua escrita. No frances, Cole, Marec-Breton, Royer e Gombert (2003) evidenciaram um fator facilitador da consciencia morfologica na leitura de palavras isoladas em criancas de primeira serie. Mesmo para a lingua portuguesa ja ha alguns estudos que tem mostrado a relacao entre a consciencia morfossintatica e a escrita (Queiroga, Lins, & Pereira, 2006; Rego, 1995).

Essa visao tambem e corroborada por Rego e Bryant (1993) quando argumentam que diferentes aspectos da consciencia metalinguistica podem contribuir de maneira diversa para a leitura e escrita. Na leitura, alem de processadas, as pistas grafo-fonemicas sao associadas aos sons das palavras. Neste caso, informacoes visuais, contextuais e fonologicas ja apresentadas no texto ajudam na leitura. A habilidade de refletir sobre a estrutura sintatica das sentencas, denominada frequentemente como consciencia sintatica, pode ajudar a crianca a utilizar pistas contextuais para ler. O uso de informacoes contextuais na leitura, conhecido como processo top down, torna-se importante para o leitor principiante ou para criancas com dificuldades de leitura que se valem do contexto para auxilia-las, haja vista a dificuldade que apresentam para a decodificacao das palavras (Nicholson, 1993; Stanovich, 1980).

Ainda nessa direcao, Rego e Bryant (1993) testaram essa hipotese em criancas inglesas. Verificaram que embora a consciencia fonologica e a sintatica contribuissem para uma porcao significativa na variancia em testes de leitura, no caso da escrita somente a consciencia fonologica contribuia de forma estatisticamente significativa.

Posteriormente, Rego (1995) investigou a contribuicao da consciencia sintatica para a leitura de palavras em isolamento e no contexto entre criancas brasileiras. Em um estudo longitudinal com criancas pre-leitoras, Rego mediu a habilidade das criancas corrigirem palavras desordenadas numa frase (tarefa de consciencia sintatica). Cerca de um ano mais tarde, a autora mediu a habilidade das criancas lerem pseudopalavras, palavras isoladas e palavras inseridas num contexto. Se a consciencia sintatica contribuisse para a decodificacao na leitura, entao os escores na tarefa de consciencia sintatica deveriam predizer os escores na tarefa de leitura de pseudopalavras.

Os resultados das correlacoes feitas entre as diversas medidas tomadas por Rego (1995) mostraram que a medida de consciencia sintatica correlacionou-se de forma estatisticamente significativa e positiva com a tarefa de facilitacao contextual, mas nao com a tarefa de leitura de palavras isoladas ou de palavras inventadas. O resultado da regressao multipla que avaliou a contribuicao dos escores na tarefa de consciencia sintatica para a leitura contextual um ano depois, mostrou um resultado estatisticamente significativo, mesmo depois de serem controladas a idade e os escores na tarefa de memoria de trabalho. A autora concluiu que, no caso do portugues, e provavelmente, de outras ortografias regulares, as pistas sintatico-semanticas nao ajudam no entendimento das regras de correspondencia entre letra e som como foi proposto por Tunmer (1990), mas sim na utilizacao de pistas contextuais na leitura.

Assim sendo, ha uma importante questao conceitual a ser discutida e mais bem investigada. Tambem e relevante acentuar que ate recentemente os termos 'consciencia morfologica' e 'consciencia sintatica' eram usados como sinonimos. Embora o emprego da expressao 'consciencia sintatica' tenha sido usado para tarefas que envolvem tanto aspectos mais gerais da sintaxe da lingua, quanto para tarefas que envolvem aspectos morfologicos, alguns autores ja fazem a distincao entre essas habilidades, preferindo a utilizacao do termo morfossintaxe ou consciencia gramatical (Bowey, 2005; Correa, 2005).

Considerando os aspectos assinalados, o presente estudo foi proposto com o intuito de investigar a relacao entre a consciencia morfologica, em particular a consciencia da morfologia derivacional, e a leitura contextual em uma amostra de criancas brasileiras. Julgou-se importante tambem explorar a especificidade desta relacao, visto que ha pesquisas que apontam para a existencia de correlacoes positivas e significativas entre a consciencia morfologica e a leitura contextual (Nagy et al., 2006). Porem essa relacao pode ser mediada pela consciencia fonologica (Deacon & Kirby, 2004). Diferentemente do aqui proposto, tais estudos tem sido realizados com criancas mais velhas.

Por ultimo, importa enfatizar que o presente estudo partiu do pressuposto de que a consciencia morfologica faz parte do conjunto de habilidades metalinguisticas relevantes para a alfabetizacao, pretendendo analisar o quanto da variancia do fenomeno seria explicado por ela. Dessa forma optou-se pelo controle da variancia atribuida a consciencia fonologica e pelo uso do teste de Cloze, visto que sua forma de elaboracao permite que se analise o quanto o leitor se apoia nas pistas do contexto e/ou em conhecimentos previos (Maki, Schields, Wheeler, & Zacchini, 2005; Santos, 2004; Santos, Primi, Taxa, & Vendramini, 2002). Em outras palavras, duas questoes foram propostas para ser investigadas, a saber, (a) A consciencia morfologica esta associada a leitura contextual? (b) Essa associacao se mantem se a variancia devida a consciencia fonologica for controlada?

Metodo

Participantes

A amostra do estudo foi constituida por 42 criancas, sendo 19 alunas da 1a serie e 23 da 2a serie, ambas do ensino fundamental de escolas particulares, situadas no interior de Minas. A media de idade das criancas de 1a serie foi de 87,5 meses (DP=3,93) e a da segunda serie 98,3 meses (DP=4,58). As criancas foram convidadas a participar atraves de uma carta convite. A participacao no estudo dependeu da autorizacao do responsavel atraves do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Instrumentos

Tarefas de Consciencia Morfologica

Tarefas de Decisao Morfo-Semantica -- Raiz (uma variacao de Besse, Vidigal de Paula, & Gombert, comunicacao pessoal, setembro de 2005). Inicialmente delineada para criancas mais velhas do que as que participaram deste estudo, o que levou a necessidade de simplificar a tarefa original. Assim, foi criada uma variacao da mesma visando investigar o conhecimento da raiz das palavras, visto que a crianca tinha que decidir qual palavra era da mesma familia que a palavra alvo. Utilizamos o termo variacao e nao adaptacao, pois se tratou de uma modificacao da tarefa e nao uma adaptacao da mesma para o contexto deste estudo.

Os pares de palavra foram escolhidos em razao do numero de letras e da frequencia de ocorrencia na escrita, todas elas extraidas da tabela para primeira serie proposta por Pinheiro (1996). Como nao ha indices de familiaridade para o portugues as palavras foram pareadas por frequencia para garantir minimamente um equilibrio na familiaridade das palavras. A lista de palavras consistia de dez grupos de tres palavras envolvendo prefixos (Ex: Tornar -- Retorna -- Resolve) e dez grupos de palavra envolvendo sufixos (Ex. Pinta -- Tambor -- Pintor). As criancas poderiam obter um total de 10 pontos nessa analise.

Tarefa de Decisao Morfo-semantica (Besse et al., comunicacao pessoal, setembro de 2005). Nesta tarefa a crianca tinha que decidir se uma palavra era construida da mesma forma que as outras. A lista de palavras consistia de 12 grupos de tres palavras envolvendo prefixos (Ex. Cansar -- Descanso -- Desmaio) e 12 grupos de palavra envolvendo sufixos (Ex. Leite -- Ligeira -- Leiteira). As criancas poderiam ter um total de 12 pontos nessa tarefa.

Tarefa de Associacao Morfo-Semantica (Nagy et al., 2006). Nesta tarefa a crianca tinha que decidir se duas palavras eram da mesma familia ou de familias diferentes. Onze pares de palavras foram criados, seis pares pertenciam a mesma familia (Ex. banho-banheiro) e cinco eram de familias diferentes (Ex. chique-chiqueiro). Todas as palavras partilhavam do mesmo som inicial, de maneira que diferencas no desempenho nao poderiam ser atribuidas a semelhanca fonologica, mas ao conhecimento da relacao morfo-semantica das palavras. As criancas podiam ter um total de onze pontos.

Tarefa de Analogia Gramatical (adaptada de Nunes, Bindman, & Bryant, 1997). A tarefa inicial de Nunes et al. (1997) foi adaptada, considerando a especificidade da morfologia derivacional do portugues. Sob essa perspectiva, foram criados dez itens, a partir dos quais a crianca devia produzir uma palavra morfologicamente complexa a partir de uma palavra alvo, aplicando a mesma relacao de derivacao de um par previamente dado. O total de pontos possiveis era 10.

Tarefas de Consciencia Fonologica. Foi usada a versao brasileira adaptada por Cardoso Martins (1997) do oddity test de Bradley e Bryant (1983), investigando a categorizacao de rima e aliteracao. Nesta tarefa a crianca deve decidir qual palavra nao tem o mesmo som que outras em duas listas, sendo a primeira de rima (Ex. 'morcego', 'panela' e 'janela') e a segunda de aliteracao (Ex., 'selo', 'casa' e 'sopa'). Nesta tarefa eram 12 pontos possiveis no total.

Cloze: Teste de Compreensao de Leitura. O Cloze, tal como criado por Taylor em 1958 consiste de um texto do qual se suprimem alguns vocabulos, e se pede ao leitor que preencha os espacos com as palavras que melhor completarem o sentido do texto. Para o presente estudo foram escolhidos dois textos, cujas propriedades psicometricas ja tinham sido estabelecidas em estudo anterior no Brasil (Santos, 2005). Assim sendo, ja havia sido identificado que ambos apresentavam evidencias de validade (convergente e de criterio) e tambem indices de consistencia interna satisfatorios (a>0,70). O numero de acertos possiveis para cada um dos textos e de 15 pontos, perfazendo o total de 30 pontos quando se considera o conjunto das duas historias.

Desempenho Escolar. Foram utilizados os itens de leitura de palavras isoladas e escrita do Teste de Desempenho Escolar-TDE (Stein, 1994). Por meio deste instrumento, que apresenta propriedades psicometricas satisfatorias, incluindo evidencias de validade de criterio e bom indice de consistencia interna (a>0,70), foi avaliado o desempenho na leitura e escrita das criancas.

Inteligencia. Os sub-testes de Vocabulario e Digitos da Escala de Inteligencia Wechsler para criancas-WISC III (Wechsler, 1991) foram utilizados. Os escores ponderados foram selecionados para as analises estatisticas. Os coeficientes de fidedignidade para esses sub-testes foram calculados pelo metodo de Guttmam e mostram que apresentam bons indices de consistencia interna (coeficientes maiores que 0,60).

Procedimento

As criancas foram avaliadas individualmente em tres sessoes de 20 a 30 minutos. Na primeira delas foram realizados os testes de consciencia morfologica e de consciencia fonologica, aplicados tal como descrito a seguir.

Nas Tarefas de Decisao Morfo-semantica - raiz (uma variacao de Besse et al., comunicacao pessoal, setembro de 2005) era dada a seguinte instrucao:
   algumas palavrinhas sao da mesma familia do que outras. Por
   exemplo, a palavra 'conta' e a palavra 'reconta' sao da mesma
   familia. Ja a palavra 'bola' e 'rebola' nao sao da mesma familia.
   Eu vou falar para voce uma palavra e depois vou falar mais outras
   duas e voce vai me dizer qual das duas e da mesma familia da
   primeira.


Por fim, realizava-se um exemplo com a crianca: "a palavra 'gela' e da mesma familia que 'congela' ou 'conversa'?" Caso a crianca errasse, explicava-se a forma correta, e se acertasse iniciava-se a tarefa. Depois do exemplo, iniciava-se a aplicacao da tarefa, mesmo que a crianca nao conseguisse acerta-lo.

A seguir, aplicava-se a Tarefa de Decisao Morfo-semantica (Besse et al., comunicacao pessoal, setembro de 2005), dando-se a seguinte explicacao a crianca:
   em portugues ha palavras que sao da mesma familia, como, por
   exemplo, 'descobrir' e 'cobrir', ou seja, 'descobrir' vem de
   'cobrir'. Acrescenta-se uma pequena coisa no inicio para fazer uma
   outra palavra. Outro exemplo e o caso de 'desfazer' e 'fazer', onde
   acrescenta o 'des' no inicio de 'fazer'. Porem, ha palavras que
   tambem se iniciam por 'des', mas nao vem de outra palavra.


Depois dessas consideracoes, voltava-se a pedir para a crianca "entao qual a palavrinha que e feita da mesma maneira que 'descobrir'? E 'deslizar' ou e 'desfazer'?". Se a crianca respondesse corretamente, iniciava-se a tarefa; do contrario, oferecia-se a forma correta explicando a razao. Depois do exemplo iniciava-se a aplicacao da tarefa mesmo que a crianca nao conseguisse acerta-lo.

Ainda na mesma sessao era aplicada a Tarefa de Associacao Morfo-Semantica (Nagy et al., 2006) fornecendo-se a seguinte explicacao: "a palavra 'bola' e a palavra 'bolinha' sao da mesma familia. Ja a palavra 'bolo' e 'bolinha' nao". Depois, um exemplo era feito junto com a crianca: "a palavra bola e da mesma familia que boleiro?". Respondendo de maneira esperada, comecava-se a atividade e caso a resposta estivesse incorreta, dizia-se a palavra correta e apresentava-se novamente a explicacao do exemplo. Tambem neste caso, depois do exemplo, iniciava-se a testagem, mesmo que a crianca nao obtivesse nenhum acerto.

Por ultimo, aplicava-se a Tarefa de Analogia Gramatical (adaptada de Nunes et al., 1997) com a instrucao de que muitas palavras poderiam ser relacionadas. A aplicadora apresentava um par de palavras relacionadas e pedia a crianca que depois de ouvir uma palavra que ela criasse uma outra palavra relacionada como no exemplo. A tarefa era iniciada sempre pelo exemplo: "pedra-pedreiro; leite?" e assim, sucessivamente, eram pronunciadas as demais palavras-alvo.

Na segunda sessao foram aplicados os dois textos de Cloze, sendo pedido a crianca que respondesse um de cada vez. Os textos foram sempre apresentados na mesma ordem. Solicitava-se que lessem a historia ate o fim e depois voltassem ao inicio e preenchessem os espacos com as palavras que julgassem dar mais sentido ao texto. No mesmo dia os dois sub-testes do WISC III (Vocabulario e Digitos) foram aplicados segundo o procedimento padrao de aplicacao. Na terceira e ultima sessao foram aplicados os dois sub-testes do Teste de Desempenho Escolar tambem seguindo o procedimento de aplicacao do manual.

Resultados

Este estudo se propos a investigar a relacao entre a consciencia morfologica e a compreensao de texto medida pelo Cloze. Para tanto, os resultados foram analisados em duas partes: na primeira parte exploramos a relacao entre as tarefas de consciencia morfologica e os escores no Cloze. Na segunda parte exploramos a especificidade desta rela cao, sendo que os resultados obtidos no WISC I foram utilizados como forma de controle da influencia do desenvolvimento cognitivo na aquisicao da leitura e escrita.

Correlacoes entre o Cloze e as Medidas de Consciencia Morfologica

Entre as tarefas de consciencia morfologica, apenas as tarefas de analogia gramatical e de associacao morfosemantica de Nagy et al. (2006) atenderam aos criterios necessarios para analises estatisticas parametricas. Assim, efetuaram-se provas de correlacao de Pearson entre essas tarefas, as tarefas do Cloze e essas medidas. Correlacionouse tambem os escores do Cloze como vocabulario e tarefa de memoria auditiva (sub-set do WISC). A Tabela 1. Mostra o resultado dessas correlacoes. Podemos ver pela tabela que os dois testes do Cloze correlacionaram-se de forma positiva e significativa com a tarefa de analogia (r=0,47, p< 0,01 para o Cloze 1 e r=0,52, p< 0,01 para o Cloze 2). Na tarefa de associacao morfo-semantica os coeficientes foram significativos e positivos para o Cloze 2 (r=0,25, p> 0,01 para o Cloze 1 e r=0,58, p< 0,01 para o Cloze 2). O resultado da tarefa de digitos tambem se correlacionou de forma significativa e positiva com os escores do Cloze e de consciencia morfologica (r=0,47, p< 0,01 para analogia; r=0,32, p< 0,01 para associacao morfosemantica; r=0,36, p> 0,01 para o Cloze 1 e r=0,52, p< 0,01 para o Cloze 2). Nao houve correlacoes significativas entre os resultados do Cloze e o da medida de vocabulario das criancas.

A memoria auditiva e uma medida de processamento fonologico, que se correlacionou tanto com o escore do Cloze como com o das medidas de consciencia morfologica. E possivel que a consciencia morfologica seja produto de uma habilidade metalinguistica mais geral resultante do processamento fonologico. Portanto esses resultados requerem que verifiquemos a especificidade da relacao entre consciencia morfologica e a leitura contextual, controlando a consciencia fonologica.

Correlacoes Parciais

Os resultados das correlacoes de Pearson indicam que quanto maior a pontuacao das criancas nas tarefas de consciencia morfologica melhor era o desempenho delas na leitura contextual, medida pelo Cloze. No entanto, como ja discutido na introducao desse trabalho precisamos saber se a consciencia morfologica contribui de forma independente para a leitura contextual. As medidas de consciencia fonologica nao atenderam ao criterio de normalidade, por isso utilizamos a medida de memoria auditiva como controle para a capacidade de processamento fonologico. Outro problema e que e provavel que o nivel de escolaridade da crianca (medido pela serie), contribua para o desenvolvimento das habilidades metalinguisticas, mas como essa variavel no nosso estudo e dicotomica nao poderia entrar como medidas nas correlacoes. Por isso as correlacoes parciais foram realizadas para as duas series de forma independente. A Tabela 2 mostra os resultados das correlacoes parciais.

Podemos observar que para as criancas de primeira-serie a relacao entre as tarefas de consciencia morfologica e o Cloze deixam de ser significativas quando se controla o processamento fonologico. No entanto, na segunda-serie a tarefa de analogia continua a contribuir mesmo depois de se controlar o processamento morfologico (r=0,49, p< 0,01).

Discussao

O presente estudo se propos a investigar a relacao entre os processamentos morfologico, fonologico e a leitura no contexto. Os resultados mostram que o processamento fonologico, medido pela tarefa de digito, contribui para leitura contextual. Tunmer (1990) considera que um importante aspecto da compreensao de leitura e tambem a utilizacao de pistas grafo-fonemicas associadas ao uso de informacoes contextuais.

Nossos resultados podem indicar que a hipotese de Tunmer (1990) e correta: algum tipo de processamento fonologico ocorre na leitura contextual, provavelmente quando a crianca parcialmente decodifica as palavras. As correlacoes com a consciencia morfologica parecem corroborar a ideia de que essa informacao relativa a decodificacao interage com informacoes

sintatico-semanticas oferecidas pelo conhecimento da morfologia da lingua.

A relacao entre o processamento da morfologia derivacional e a leitura contextual foi demonstrada atraves dos indices de correlacao obtidos. As correlacoes positivas e significativas entre a medida de leitura contextual (Cloze) e as medidas de analogia gramatical e associacao morfosemantica mostram que as criancas que tiveram maiores escores no Cloze foram aquelas com maiores escores nas tarefas de consciencia morfologica. Estes resultados sugerem que alem do processamento fonologico, o processamento morfologico contribui para leitura contextual. Embora correlacoes nao estabelecam relacoes de causa e efeito estes resultados indicam que essa questao deve ser investigada em estudos que possam estabelecer se ha uma relacao causal entre essas variaveis.

Os resultados aqui obtidos mostram tambem que a relacao entre o processamento morfologico e a leitura contextual e especifica. Mesmo controlando a variavel 'digitos' os escores da tarefa de analogia gramatical continuam se correlacionando de forma positiva e significativa com a tarefa do Cloze 1. No entanto, este resultado so ocorreu para as criancas de segunda-serie, o que leva a cogitar se o Cloze e uma medida apropriada para criancas de 1&&&&&&&&& serie, nao so por ter o seu lexico reduzido, mas principalmente pela precariedade de sua habilidade de escrita que pode ter sido responsavel pelas pontuacoes mais baixas. Vale lembrar que o estudo original de evidencias de validade e precisao dos testes aqui utilizados nao incluia amostras de primeira serie, embora outros o tenham feito (Carvalho, 2006; Cunha, 2006).

Porem, Rego (1995) num estudo realizado com criancas brasileiras ainda mais jovens que a desse estudo encontrou uma relacao entre a consciencia sintatica e a leitura contextual, mas nao com a consciencia fonologica. A autora concluiu que a utilizacao de pistas grafo-fonemicas nao ocorria na leitura no contexto no portugues.

A medida de consciencia fonologica utilizada pela autora diferiu da nossa, visto ter sido uma medida de aliteracao. Nossa medida envolveu, alem do processamento fonologico, o processamento da memoria de trabalho. Mais estudos sao necessarios para estabelecer qual e a relacao entre essas diferentes variaveis e a leitura contextual.

Uma hipotese possivel pode ser formulada se analisarmos os trabalhos de Nunes et al. (1997) que propuseram um modelo de desenvolvimento da relacao entre a consciencia morfologica e a escrita de palavras flexionadas. Os autores consideram que no comeco da aquisicao da escrita, a crianca precisa consolidar o conhecimento do principio alfabetico. Somente apos esse conhecimento estar consolidado e que a crianca comeca a levar em conta os aspectos morfologicos da lingua na escrita. Em acrescimo, observam que a consciencia morfologica comeca a ter um peso maior no conhecimento da escrita a partir da terceira ou quarta-serie.

Consideracoes Finais

Os resultados aqui apresentados parecem sugerir um modelo para a relacao entre o processamento morfologico e a leitura contextual. Na primeira serie, as criancas podem ainda estar com sua atencao focada na consolidacao do principio alfabetico. Por isso as medidas de consciencia morfologica podem nao ter contribuido de forma significativa e independente para a leitura contextual. A partir da segunda serie as criancas, ja com o principio alfabetico consolidado, podem comecar a utilizar outras informacoes linguisticas para compreender a complexidade do sistema ortografico no portugues. Esse modelo proposto deve ser testado atraves de estudos longitudinais que utilizem analise de caminho (path analysis).

Uma ultima questao de cunho metodologico diz respeito a maneira em que o Cloze foi aplicado e corrigido. Para evitar a subjetividade na avaliacao das respostas foi utilizada a correcao literal na correcao do Cloze. Dessa forma, sinonimos, palavras escritas de forma errada ou sem acento foram consideradas como erradas. Embora isso nao invalide o Cloze como uma medida de leitura contextual, faz com ele seja tambem uma medida de escrita. Estudos futuros podem separar essa variavel, pedindo para as criancas lerem o texto e completarem as palavras de forma oral.

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Marcia Maria Peruzzi Elia da Mota *, a, Rafaela Lisboaa, Jaqueline Diasa, Rhaisa Gontijoa, Nadia Paivaa, Stella Mansur-Lisboaa, Danielle Andrade Silvaa & Acacia Aparecida Angeli dos Santosb

(a) Universidade Federal de Juiz de Fora

(b) Universidade Sao Francisco

* Endereco para correspondencia: Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ciencias Humanas, Campus Universitario Martelos, Juiz de Fora, MG, Brasil, CEP 36036330. E-mail: mmotapsi@pesquisador.cnpq.br Agradecimentos ao financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq), Edital Ministerio da Ciencia e Tecnologia (MCT)/CNPq 50/2006 Ciencias Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas. Bolsista de Iniciacao Cientifica do CNPq Stella Mansur-Lisboa. Comite de etica: (protocolo Comite de Etica em Pesquisa (CEP)/ Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) 956 002 2007).

1a revisao: 04/06/2008

2a revisao: 15/09/2008

Aceite final: 10/10/2008
Tabela 1
Correlacoes de Pearson entre as Tarefas de Consciencia Morfologica
e o Cloze (* p <0,05 e ** p <0,01)

            Associacao
          Morfo-Semantica   Analogia        Digito        Vocabulario

Cloze 1     0,25              0,47           0,36            0,14
            p = 0,11        p = 0,002 **   p = 0,02 *      p = 0,36

Cloze 2     0,36              0,52           0,54            0,2
            p = 0,02 *      p = 0,001 **   p = 0,001 **    p = 0,15

Tabela 2
Correlacoes Parciais entre as Tarefas de Consciencia Morfologica
e os Escores no Cloze Controlando o Escore no Teste de Digitos
(* p <0,05 e ** p <0,01)

               Primeira Serie        Segunda Serie
Testes
de Cloze     Nagy     Analogia     Nagy      Analogia

Cloze 1      0,34       0,08      -0,03        0,49
           p = 0,17   p = 0,72   p = 0,88   p = 0,02 *

Cloze 2      0,35       0,37       0,20        0,09
           p = 0,14   p = 0,12   p = 0,37    p = 0,67
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Author:da Mota, Marcia Maria Peruzzi Elia; Lisboa, Rafaela; Dias, Jaqueline; Gontijo, Rhaisa; Paivaa, Nadia
Publication:Psicologia: Reflexao & Critica
Article Type:Report
Date:Jun 1, 2009
Words:5576
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