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The purposes of journalism: perceptions of media vehicles, journalists and readers/As finalidades do jornalismo: percepcoes de veiculos, jornalistas e leitores.

Introducao

O jornalismo e tomado como objeto de reflexao em diversas areas--como Direito, Medicina, Enfermagem e Economia--para debater questoes que afetam a vida em sociedade, ja que ele e historicamente legitimado por apresentar o que haveria de mais importante no cotidiano e serve como documento da memoria social. Muitas dessas pesquisas criticam o papel do jornalismo em alguma cobertura especifica, questionam a obrigacao do jornalismo no tratamento de determinada pauta, concluem que atualmente, com as mudancas tecnologicas, a funcao do jornalismo se alterou. Mas e necessario fazer uma pergunta "anterior": afinal, qual e a finalidade do jornalismo?

Para responder a essa pergunta, optei pela analise das percepcoes sobre as finalidades do jornalismo. Ao selecionar que sujeitos deveriam ser analisados, usei como criterio aqueles que estao envolvidos no contrato de comunicacao jornalistico, a partir da condicao de identidade ("quem diz e para quem"): veiculos, jornalistas e leitores (1). Foi assim que defini veiculos, jornalistas e leitores, que poem em relacao as instancias de producao e de recepcao (Charaudeau, 2007).

Os veiculos selecionados sao Folha de Sao Paulo, O Globo e O Estado de Sao Paulo, os tres maiores jornais de referencia brasileiros, cujo discurso foi mapeado em 38 documentos institucionais (principios editoriais, manuais de redacao, codigos de etica, editoriais). O discurso de 85 jornalistas brasileiros foi analisado em 40 documentos (biografias, livros, documentarios, trabalhos academicos e entrevistas). O discurso de 250 leitores foi encontrado em 279 comentarios postados em sites dos jornais Folha de Sao Paulo, O Globo e O Estado de Sao Paulo e nas paginas desses jornais no Facebook. A Figura 1 resume a construcao metodologica.

Para analisar o material advindo dos tres sujeitos, utilizo o aporte teoricometodologico da Analise do Discurso, cujo objetivo e entender o funcionamento dos discursos, "como" o texto e as falas significam. Ha gestos de interpretacao que, em suas diferentes materialidades, significam de diversas maneiras (Orlandi, 2007b). Assim, e a reiteracao de sentidos, na operacao do conceito de parafrase, que permite ao pesquisador compreender o funcionamento do discurso, chegando a resultados sobre os sentidos hegemonicos construidos por determinados sujeitos em determinados lugares de fala.

Compreendo que o jornalismo, como discurso, so existe na relacao entre os sujeitos da interlocucao (Orlandi, 2007a) e que todo discurso e norteado pelo que se imagina do outro e de si mesmo (Pecheux, 1993). O discurso reflete as caracteristicas da sociedade que o torna possivel e origina-se de sujeitos posicionados em um tempo e um lugar condicionados social e historicamente (Bakhtin, 1996; Maingueneau, 2008). Sendo o jornalismo um genero discursivo particular (Benetti, 2008), este discurso so acontece se os interlocutores reconhecerem as permissoes e restricoes que definem esse genero, de forma que entendo que os sujeitos estao ligados por um contrato de comunicacao (Charaudeau, 2007).

Um dos elementos desse contrato e a condicao de finalidade ("para que se diz"), a partir da qual decidi escolher o termo finalidade (2). Charaudeau afirma que a condicao de finalidade implica que todo ato de linguagem seja ordenado em funcao de um objetivo: a finalidade se define "atraves da expectativa de sentido em que se baseia a troca, expectativa de sentido que deve permitir responder a pergunta: 'Estamos aqui para dizer o que?'" (2007, p. 69). Essa e a questao que move os sentidos construidos por veiculos e jornalistas e que faz com que o leitor crie expectativas e faca exigencias sobre o jornalismo. Benetti (2008) entende que a condicao de finalidade (para que se diz) rege as demais condicoes do contrato (3).

Para cumprir suas finalidades, o jornalismo esta guiado por principios, e seu primeiro objetivo e oferecer o presente social (Gomis, 1991; Franciscato, 2005), reconstruindo cotidianamente os eventos que dizem respeito ao homem. O jornalismo e um sistema perito (Miguel, 1999), o que implica a crenca, por parte do publico, em sua competencia especializada. A credibilidade deriva da percepcao (historica e social) de que o jornalismo e uma pratica autorizada a narrar a realidade (Serra, 2006).

Assim, para posicionar o lugar de onde falo e analiso as finalidades do jornalismo, parto de alguns pressupostos. Entendo que o jornalismo implica reciprocidade, ainda que assimetrica, das relacoes entre jornalistas, veiculos e leitores; que os aspectos tecnologicos tem relacao com o papel social que as noticias desempenham em cada epoca e que, num contexto de jornalismo em rede (Heinrich, 2011), interacoes com novos sujeitos tencionam o campo jornalistico. Tambem penso que, apesar das transformacoes resultantes da tecnologia, existem valores inegociaveis e fundamentais para discutirmos as finalidades que o jornalismo deve cumprir para demarcar sua distincao em relacao a outros generos--como o publicitario, o cientifico ou o literario--e reiterar os vinculos com o publico a partir do contrato de comunicacao.

O que dizem veiculos, jornalistas e leitores

Na analise da percepcao dos sujeitos, interessa a compreensao que eles tem das finalidades do jornalismo. O mais relevante e que o sujeito fala estando em uma posicao de sujeito especifica, que e a de veiculo, de jornalista ou de leitor.

Apos a sistematizacao dos sentidos mapeados no discurso dos tres sujeitos, constatei que estao presentes as seguintes finalidades: a) fiscalizar o poder e fortalecer a democracia; b) informar; c) esclarecer o cidadao e apresentar a pluralidade da sociedade; d) verificar a veracidade das informacoes; e) selecionar o que e relevante; f) investigar; g) registrar historia e construir memoria; h) interpretar e analisar a realidade; i) defender o cidadao; j) fazer a mediacao entre os fatos e o leitor; k) integrar e mobilizar as pessoas; l) divertir (finalidade so considerada por veiculos e jornalistas, nao por leitores). Abaixo, apresento algumas reflexoes sobre o cruzamento das percepcoes entre os sujeitos, ilustrando-as com alguns exemplos de trechos e identificando em negrito as marcas que lhes dao sentido.

A pesquisa revela que veiculos, jornalistas e leitores percebem como principais as mesmas tres finalidades do jornalismo: esclarecer o cidadao e apresentar a pluralidade da sociedade; fiscalizar o poder e fortalecer a democracia; informar. Vemos, assim, que ha um imaginario bastante consolidado sobre o que esperar do jornalismo na sociedade. Os discursos que mapeei estao publicos, ajudando a retroalimentar esse imaginario cotidianamente.

Apesar desse consenso sobre as tres principais finalidades, tambem ha divergencias significativas entre os discursos dos sujeitos que dao indicios para se pensar a expectativa sobre as funcoes do campo. Uma delas e a diferenca de percepcao entre as finalidades de verificar a veracidade das informacoes e de selecionar o que e relevante. Jornalistas e leitores percebem as mesmas quatro principais finalidades para o jornalismo, mostrando que os jornalistas, como uma categoria profissional, estao mais em sintonia com os leitores do que com os veiculos enquanto organizacao (Figura 2).

Veiculos e jornalistas consideram que esclarecer o cidadao e apresentar a pluralidade da sociedade e a finalidade mais importante. Ao apontarem essa funcao como a mais significativa, veiculos e jornalistas constroem para si um lugar diferenciado de quem tem o saber e o poder para ajudar as pessoas a compreender seu mundo e para escolher que vozes devem representar a complexidade dos fatos. Fica claro o reconhecimento, por grande parte dos jornalistas, de que eles tem uma funcao publica a desempenhar e e essa crenca que estimula os profissionais na rotina diaria. A pluralidade e um valor central e definidor do jornalismo, e a informacao deve formar cidadaos mais esclarecidos sobre a diversidade do mundo.

Se nao serve para esclarecer, alertar, forjar consciencias e contribuir para a construcao de um mundo menos injusto e desigual, para que serve mesmo o jornalismo?--Jornalista Ricardo Noblat (Noblat, 2004).

Acho que a funcao do jornalista e relatar e organizar o seu relato trazendo uma interpretacao dos fatos, mas trazendo tambem, em contraposicao a isso, diferentes visoes sobre aquele mesmo fato, de forma a dar instrumentos para os leitores definirem a sua visao Jornalista Eleonora de Lucena (Abreu; Rocha, 2006).

Essa funcao tambem ocupa um lugar de destaque no discurso dos leitores (fica em terceiro lugar), indicando a percepcao de que o jornalismo contribui para dar conhecimento as pessoas e possibilita o acesso a diferentes pontos de vista.

O papel social, educacional e de utilidade publica desempenhado pelo Estadao ao longo de tantos anos se reforca a cada edicao. [...] A publicacao de ideias sobre o assunto, principalmente ouvindo as mais diversas posicoes, nos da a certeza de que a luta de muitos jornalistas, comecando pelos Mesquita, nao foi em vao. O jornalismo serio mais uma vez vence, ajudando a reforcar conviccoes, ate mudar de opinioes. E o verdadeiro papel da midia sendo exercido em sua plenitude--Leitor Estadao (4).

Para os leitores, a finalidade mais importante e fiscalizar o poder e fortalecer a democracia, que aparece de modo muito expressivo no discurso. Esse resultado demonstra que, para o leitor, o jornalismo tem um papel civico a desempenhar e deve estar ligado ao interesse publico e nao aos interesses individuais. O jornalismo serve para fiscalizar o Estado e fortalecer o sistema democratico: e esse o compromisso publico reconhecido pelo publico.

A imprensa no (B)brasil faz um papel importante principalmente de fiscalizacao e vigilancia ..., com a imprensa completamente ativa nossos dignissimos fazem todos os tipos de maracutaias e falcatruas ..., imaginem se nao tivessemos a imprensa ..., tudo passaria despercebido, as escondidas--Leitor Folha.

Para veiculos e jornalistas, a finalidade de fiscalizacao e de fortalecimento da democracia tambem e bastante ressaltada, pois aparece em segundo lugar. Para eles, esta embutido nessa finalidade que ao jornalismo cabe denunciar e tambem cobrar a tomada de providencia por parte das autoridades cabiveis.
   Como interprete do leitor, o Estado se sente no dever de publicar
   toda denuncia fundamentada que lhe chegue ao conhecimento. Alias,
   o jornal considera essa uma de suas funcoes sociais mais
   importantes, por estar diretamente ligada a defesa da moral
   publica e do dinheiro do contribuinte. O cidadao merece ser
   defendido em todos os planos, municipal, estadual e
   federal--Estadao.


E no discurso dos jornalistas que se encontram alguns sujeitos com uma visao mais ampla de "poder", indicando que ele nao se refere somente a governos, mas sim a poderes no geral (empresas, organizacoes, movimentos, ONGs etc.).

So porque os dados estao ali nao e que o trabalho do jornalista e pegar, olhar os dados e tudo bem. As vezes os dados estao errados, as vezes tem outras coisas mais importantes que nao tao ali, entao o trabalho do jornalista de ficar pressionando governo e [...] nao e so governo, sao poderes. Governos, empresas, organizacoes, movimentos e ONGs. Quem tem poder deve ser monitorado Jornalista Natalia Viana (Viana, 2012).

A contribuicao que o jornalismo da a democracia e destaque na fala dos tres sujeitos. Para veiculos, jornalistas e leitores, sem o jornalismo a democracia nao existiria da mesma forma no Brasil hoje.

Os sujeitos tambem percebem que o jornalismo serve para informar. Na analise, observei que ha dois niveis de compreensao sobre o papel de informar: a) como um processo finalistico, que possui um fim em si mesmo e nao precisa ser explicado; b) como um processo qualificado, que deve cumprir certas exigencias e distingue informacao (e conteudo) de informacao jornalistica. O primeiro nivel engloba o discurso de alguns jornalistas e leitores que tomam a informacao como mera transmissao, como uma acao operacional. A compreensao que norteia o discurso nesse nivel--e da qual eu discordo--e de que as informacoes estao "prontas" e o jornalista deve "apenas" relatar e informar, como se simples fosse e nao necessitasse de predicativos para qualificar uma informacao. Os veiculos nao apontaram essa compreensao meramente finalistica sobre o papel de informar.

A funcao primeira do jornalista e absolutamente simples: buscar e trazer informacao. Quando o jornalista comeca a achar que faz a historia, ou que tem uma funcao social, e fiscal, e juiz, ele esta errado.

[...] O jornalista e um pegador de noticia e um transmissor de noticia --Jornalista Miriam Leitao (Abreu; Rocha, 2006).

Jornalismo e relatar os fatos e deixar as pessoas pensarem sobre eles --Leitor Estadao.

JORNAL NAO PENSA, INFORMA, RELATA OS FATOS!!!--Leitor Folha.

O segundo nivel, como um processo qualificado--que e como entendo este"dever-ser"-, esta presente no discurso dos tres jornais e de alguns jornalistas e leitores, que constroem discursivamente o informar com predicativos, sem os quais se invalidaria classificar determinada informacao como jornalistica. Para os veiculos, a informacao deve ser exclusiva, util, completa, de qualidade, correta, confiavel e bem redigida. Para os jornalistas, informar significa apresentar fatos uteis, com criterios de selecao, com precisao, com consistencia e com originalidade. Para os leitores, a informacao deve ser imparcial, objetiva, antecipada, em tempo, completa, isenta, clara, correta e verdadeira.

O papel de verificar a veracidade das informacoes e percebido de forma diferente pelos sujeitos: aparece como um dos eixos importantes do discurso de jornalistas e leitores, mas esta apagado na compreensao dos veiculos. E esperado que grande parte dos jornalistas compreenda essa como uma finalidade do jornalismo: nesse papel eles se veem no processo de producao das noticias, conseguem materializar o desafio da sua atividade diaria e valorizar o que somente eles tem condicoes de buscar. Num contexto de excesso de informacoes, e o que singulariza o porque de se acessar um veiculo jornalistico e nao de outro tipo. Os jornalistas reconhecem que a capacidade de certificar informacoes e uma das vantagens que preservam em relacao aos algoritmos: o jornalismo serve para garantir que a informacao foi verificada.

O jornalista precisa estar sempre preocupado em buscar a verdade. Entao, e necessario checar, verificar as informacoes, ser independente. O que ele vai informar pode mexer com a vida das pessoas. Ele precisa ter consciencia da sua responsabilidade--Jornalista Alice-Maria (Abreu; Rocha, 2006).

O jornalismo e a expressao possivel da verdade. [...] O que diferencia o jornalismo e esse esforco de que cada fato que voce retrata voce conferiu, voce ouviu varias vezes, voce colocou-se [...] lealmente do ponto de vista adversario e, do ponto de vista do adversario, voce concluiu que aquilo realmente faz sentido--Jornalista Paulo Moreira Leite (Furtado, 2014).

Se esse sentido e esperado do discurso dos jornalistas, ja que faz parte de sua rotina profissional a checagem, por outro lado e bastante significativo e ate surpreendente que o leitor tenha uma expectativa do jornalismo baseada na pratica de verificacao. O leitor esta dizendo claramente: "a informacao que eu recebo tem que ser verificada, precisa, exata; quero ter a certeza de que ela foi apurada e checada", sob o risco de, se nao for, "eu avaliar como leviano, mau jornalismo, ficcao". Os leitores estao dando um recado aos jornais de referencia, que nao incorporam esse valor claramente no seu discurso institucional.

Hoje, tanto quanto ontem, precisamos de uma imprensa independente e escrava da verdade e do fato que se torna noticia Leitor Estadao.

Que reportagem esquisita, parece roteiro de ficcao: quem sao as fontes? E o de sempre 'pessoas proximas'? O julgamento acabou ha pouco, como poderia almocar com ele como se soubesse do resultado? Jornal ja comeca a criar narrativas. Impressionante. Daria para dissecar esse texto em uma aula de jornalismo do que nao se deve fazer--Leitor Folha.

A verdade, valor inestimavel ao jornalismo e bastante discutido na teoria, e inexpressiva no discurso dos jornais: somente um trecho da Folha e um do Globo traz esse sentido; o Estadao nao o mencionou. Por que a verdade nao e um valor fundamental no discurso dos diarios de referencia brasileiros? Penso que essa lacuna e resultado do apagamento da figura do jornalista no discurso dos veiculos. Considerar essa finalidade como relevante exige considerar a apuracao como determinante, exige reconhecer a existencia de um sujeito--o jornalista--que torna possivel "buscar a verdade" por meio de procedimentos empreendidos cotidianamente. No entanto, os jornais praticamente apagam a figura dos jornalistas no discurso institucional, nao os considerando como sujeitos ativos e fundamentais. Para os veiculos, o jornalista e apenas aquele que deve aprender ou ser treinado para cumprir as diretrizes da linha editorial.

Alem disso, os jornais parecem supor que a verdade e intrinseca a eles mesmos: se jornalismo e verdade, e se os veiculos sao o jornalismo, entao eles sao a verdade. Ao mesmo tempo, e uma estrategia: se eles enunciarem demais sobre a verdade, nao terao como responder todas as vezes em que ela nao for oferecida e for cobrada pelo publico.

Merece ressalva a diferenca sobre o papel de selecionar o que e relevante. Essa finalidade e uma das quatro mais importantes para os veiculos e e significativa no discurso dos leitores (fica em quinto lugar, mas muito proxima do quarto). No entanto, nao recebe destaque no discurso dos jornalistas. Para os leitores, creio que essa finalidade seja significativa porque eles esperam que o jornalismo condense as informacoes principais, fazendo a selecao correta do que eles "devem" e "precisam" saber. Essa expectativa e indicada como algo que de fato os leitores devem exigir, pois esta inscrita no discurso dos jornais de referencia brasileiros--cumpram eles essa finalidade ou nao, faz parte do "dever-ser" que buscam construir. Ao se posicionar sobre essa funcao, o leitor discute a relevancia das pautas, criticando os criterios para a escolha dos temas e tambem os enquadramentos utilizados.

Folha de S.Paulo :'Vanessa Gerbelli esta namorando protagonista de 'Malhacao', que e 17 anos mais novo'. Se isso e assunto relevante, nao quero nem imaginar o que a Folha de S.Paulo pensa que e irrelevante --Leitor Folha.

"Tanta coisa importante pra mostra ai vem mostra isso, o que de fato isso agrega a nossa vida? Nada. O que agrega de fato eles nao mostram, agora o que desagrega, a isso pra eles e importante. Que midia vazia essa nossa"--Leitor Globo.

Mas por que a finalidade de selecionar o que e relevante e tao importante para os veiculos e nao para os jornalistas, exatamente o contrario do papel de verificar a veracidade das informacoes? Minha hipotese e de que trazer para si o papel de selecionar coloca os jornais num lugar de importancia e de necessidade --e os veiculos afirmam constantemente nos seus discursos que querem se tornar imprescindiveis a vida do leitor. Diferentemente de verificar a veracidade das informacoes--que demanda a acao ou presenca do jornalista em algum lugar e entao coloca o jornalista como central -, a funcao de selecionar o que e relevante e mais subjetiva e editorial. Afinal, os criterios de relevancia nao sao estanques, variam conforme o veiculo, o publico e os contextos, fazendo com que os jornais tenham mais poder para decidir a relevancia dos assuntos.

Selecionar significa tambem priorizar assuntos, mesmo em detrimento de outros, de modo a concentrar o trabalho principal da equipe naquilo que a edicao julgar mais relevante--Folha.

Ja a finalidade de investigar e importante para os leitores e pouco expressiva para veiculos e jornalistas (somente o jornal Folha de Sao Paulo e dois jornalistas consideraram esse sentido). Claro que e preciso lembrar que o papel de fiscalizar o poder--importante para os tres sujeitos--requer que se investigue, entao a investigacao esta implicita nessa finalidade. Embora o jornalismo deva investigar todos os tipos de pauta, ao compreender o papel do jornalismo todos os veiculos e grande parte dos jornalistas relacionam a investigacao a vigilancia do governo. Os leitores tambem acionam esse sentido como fundamental, mas vao alem e percebem o investigar como necessario em diferentes pautas --pedem investigacao nos esportes, por exemplo. Para o leitor, e a finalidade de investigar que diferencia a parte informativa da opinativa num jornal e que garante um jornalismo questionador, "independente" e de boa qualidade. Acho surpreendente que nao apareca no discurso dos jornalistas com forca, mas fica claro que esta no imaginario do leitor que o bom jornalismo e investigativo e ele espera que essa finalidade seja cumprida.

E, sim, funcao da imprensa investigar. Se nao fosse a investigacao de dois reporteres do jornal 'Washington Post', na decada de 1970, nos EUA, o escandalo Watergate nao teria dado em nada. Mas gracas ao trabalho da imprensa o caso veio a tona e obrigou o entao presidente republicano, Richard Nixon, a renunciar--Leitor Estadao.

JORNALISMO CLASSE 'A'. Continuem assim, corajosos, independentes e investigativos--Leitor Folha.

A Figura 3 resume esse cruzamento dos sentidos das finalidades mais representativas do discurso dos sujeitos.

A finalidade de fazer a mediacao entre os fatos e o leitor e bastante discutida nas reflexoes teoricas sobre o jornalismo, mas nao e expressiva no discurso dos sujeitos. Quando mencionada, a mediacao aparece de forma pragmatica, ligada a linguagem, ao didatismo, ao tratamento da linguagem especializada para torna-la mais acessivel a diferentes publicos. Sao os jornalistas que tem uma compreensao um pouco mais problematizada sobre a mediacao, percebendo-a tambem no sentido de vinculacao com a cidadania. A analise indica que, no geral, a mediacao nao e considerada pelos sujeitos da forma como a analisamos teoricamente.

O papel de interpretar e analisar a realidade e percebido praticamente da mesma maneira entre os tres sujeitos, sendo necessario destacar que ele nao aparece no discurso do Estadao. Os sujeitos apontam que o jornalismo deve explicar a realidade, contextualizando as informacoes e tornando-as mais compreensiveis ao publico.

A finalidade de integrar e mobilizar as pessoas e mais importante para os jornalistas do que para os veiculos e os leitores. Para os jornalistas, esse papel reforca a imagem de que eles conseguem ajudar as pessoas a fazerem coisas em prol dos seus interesses, para desenvolver a sociedade e manter um espirito publico. Ja para veiculos e leitores essa finalidade e irrelevante.

O leitor e o sujeito que mais reconhece a funcao de registrar a historia e construir memoria, apontando o papel do jornalismo de armazenar os acontecimentos que serao usados no futuro como um retrato de determinada epoca. Veiculos e jornalistas indicam que o jornalismo pode ajudar a escrever um periodo e vai auxiliar no entendimento do que se passou no tempo que estamos vivendo.

O papel de defender o cidadao tambem e percebido praticamente da mesma forma no discurso dos sujeitos, os quais se referem ao papel do jornalismo de ajudar o cidadao no dia a dia, contribuindo para a "protecao" da sociedade. Eles dizem que o jornalismo e o "porta-voz" da sociedade, o "representante" dos interesses da maioria da populacao.

A funcao de divertir nao apareceu nenhuma vez no discurso dos leitores e surgiu somente na fala de um jornalista, sendo nula ou insignificante nesses sujeitos. No entanto, e apontada nos veiculos. Dois jornais de referencia brasileiros (Folha de Sao Paulo e O Globo) consideram que o jornal deve divertir, entreter e "fazer o leitor dar risada".

A analise demonstra ainda que e a relacao com o leitor que guia o jornalista e o veiculo discursivamente: os leitores sao uma instancia de legitimacao dos demais sujeitos. A Folha de Sao Paulo inclusive posiciona o leitor num lugar privilegiado em relacao a informacao, dizendo que ele sabe avaliar "melhor do que os jornalistas". Outra conclusao da analise diz respeito ao avanco da tecnologia. O leitor praticamente nao faz referencia a correlacao entre alteracoes tecnologicas e finalidades do jornalismo, ainda que ela esteja presente na fala de veiculos e jornalistas. Para esses sujeitos, ressaltar esse tema pode ser uma estrategia para dizer ao publico o quanto ele precisa do jornalismo. No entanto, o discurso dos leitores aponta que a exigencia deles em relacao as finalidades do jornalismo independe da plataforma.

A pesquisa revela tambem que os leitores sabem o que e jornalismo: as cinco principais finalidades para os leitores sao exatamente a combinacao das principais apontadas por veiculos e jornalistas--finalidades que recebem grande destaque tambem na teoria (Reginato, 2016) (5). Alem disso, o leitor tem expectativa em relacao as finalidades: e o que espera e exige que o jornalismo cumpra. O leitor reafirma seu vinculo com o jornal sempre que encontra uma finalidade sendo cumprida. Do contrario, se sente "desrespeitado" e "frustrado", ameacando cortar o vinculo com o jornal.

O que veiculos e jornalistas dizem se refere ao jornalismo que pretendem exercer ou que gostariam que fosse percebido pelos outros como se fosse sua pretensao. O que os leitores dizem faz referencia ao jornalismo que eles gostariam que existisse e a imagem de si que eles gostariam que fosse percebida pelos outros. Quando os sujeitos dizem algo sobre o jornalismo, temos rastros tambem do lugar que esses sujeitos constroem para si mesmos enquanto veiculos "responsaveis", jornalistas "compromissados" e leitores "exigentes e criticos".

As finalidades do jornalismo

Apos a sistematizacao dos discursos dos tres sujeitos, elaborei uma proposta sobre as finalidades do jornalismo. A partir da reflexao teorica e da analise do que dizem veiculos, jornalistas e leitores, entendo que o jornalismo tem 12 finalidades a cumprir: a) informar de modo qualificado; b) investigar; c) verificar a veracidade das informacoes; d) interpretar e analisar a realidade; e) fazer a mediacao entre os fatos e o leitor; f) selecionar o que e relevante; g) registrar a historia e construir memoria; h) ajudar a entender o mundo contemporaneo; i) integrar e mobilizar as pessoas; j) defender o cidadao; k) fiscalizar o poder e fortalecer a democracia; l) esclarecer o cidadao e apresentar a pluralidade da sociedade.

Nas finalidades que proponho, existem duas diferencas iniciais em relacao ao que categorizei a partir da percepcao dos sujeitos: a retirada do papel de divertir e o acrescimo da funcao de ajudar a entender o mundo contemporaneo. Considero que divertir nao e um papel que ele deva cumprir na sociedade. O jornalismo pode ser utilizado pelo leitor como uma forma de entretenimento, mas nao e sua finalidade. Tanto isso e verdade, que nao aparece no discurso dos leitores.

Inseri a finalidade de ajudar a entender o mundo contemporaneo porque considero que o jornalismo deve ajudar o leitor a entender sua epoca. Nao basta mostrar tendencias do que e "moderno" e de como o sujeito deve viver para estar de acordo com o "espirito do tempo"--nao e disso que trata essa finalidade. Entender o contemporaneo e dar sentido ao presente e permitir que o leitor tenha acesso a como funciona o mundo em que ele vive.

Essa proposta nao supoe que todas as finalidades do jornalismo devam ser cumpridas na mesma pauta, mas sim que o jornalismo precisa buscar alcancar essas finalidades para continuar sendo jornalismo. Afinal, todos os dias jornalistas escrevem noticias e disponibilizam textos que sao tomados como conhecimento por alguem. Essa atividade acarreta questoes para a vida pratica das pessoas e para a compreensao de mundo que elas tem, entao precisa estar comprometida com a vida publica.

Alem disso, considero que as finalidades estao entrelacadas. Por exemplo, para bem informar, antes preciso selecionar o que e relevante; ao fazer a mediacao entre os fatos e o leitor, posso contribuir para esclarecer o cidadao e apresentar a pluralidade da sociedade; ao integrar e mobilizar as pessoas, o jornalismo pode ajudar a fortalecer a democracia. Ja que o discurso nao e estanque, mas sim uma teia em que os significados vao sendo elaborados, a separacao das finalidades e um esforco de sistematizacao.

Penso que o bom jornalismo e aquele que cumpre as finalidades. E a finalidade que faz o jornalismo ser jornalismo. A democracia depende da qualidade desse campo, pois o jornalismo seleciona o que e relevante, visibiliza ou oculta problemas sociais e indica os enquadramentos a partir dos quais o mundo deve ser interpretado.

Consideracoes finais

A pesquisa indica que o jornalismo tem muitas finalidades a cumprir, contrariando a ideia de que o papel do jornalismo estaria reduzido na atualidade. Alias, e isso que os leitores nao so querem como de fato exigem e tem o direito de exigi-lo. Se os veiculos e os jornalistas efetivamente cumprem as finalidades aqui propostas e um questionamento que fica para ser respondido por pesquisas especificas. Minha intencao e pensar no "dever-ser" do jornalismo. As finalidades do jornalismo sao o eixo definidor de uma atividade que tem um compromisso etico e um papel social que nao pode ser substituido por outra instituicao.

O jornalismo nao precisa sempre, em todas as pautas, cumprir todas essas finalidades. Mas ele precisa te-las como horizonte para continuar sendo importante e necessario. Se nao as cumprir, o jornalismo corre o risco de perder leitores, de perder qualidade, de perder o que o singulariza enquanto genero discursivo. Corre o risco de, em ultima analise, deixar de ser jornalismo.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.3.29349

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Recebido em: 04/12/2017

Aceito em: 07/04/2018

Dados da autora:

Gisele Dotto Reginato | giselereginato@gmail.com Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Doutora em Comunicacao e Informacao pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestra em Comunicacao pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Membro do Nucleo de Pesquisa em Jornalismo (UFRGS/CNPq) e do Grupo de Estudos de Jornalismo (UFSMCNPq).

Endereco da autora:

Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao e Informacao da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS)

Rua Ramiro Barcelos, 2705 Campus Saude 90.035-007--Porto Alegre/RS

Gisele Dotto Reginato

Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao e Informacao da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil ORCID: 0000-0001-9973-8045

<giselereginato@gmail.com>

(1) A pesquisa e resultado da tese de doutorado "As finalidades do jornalismo: o que dizem veiculos, jornalistas e leitores', defendida no Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao e Informacao da UFRGS. A versao preliminar deste texto foi apresentada no 14 Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor).

(2) Apesar dessa escolha, que e teorica, tambem utilizo outros termos, como papel, funcao e dever. Ainda que essas palavras tenham particularidades de significado, tomo-as como sinonimos de finalidade.

(3) As demais condicoes do contrato sao: de proposito (o que se diz), de identidade (quem diz e para quem), de dispositivo (em que condicoes se diz) e textual (como se diz). O contrato de comunicacao implica a existencia de tres elementos: a) de pelo menos dois sujeitos em relacao de intersubjetividade; b) de convencoes, normas e acordos que regulamentam as trocas discursivas; c) de saberes comuns que permitem que se estabeleca uma intercompreensao do todo em certa situacao de comunicacao (CHARAUDEAU, 2007).

(4) Optei por preservar a grafia dos comentarios dos leitores como no original, ou seja, os eventuais erros de digitacao ou gramatica nos trechos foram mantidos.

(5) O mapeamento aponta quais sao as principais finalidades do jornalismo trazidas na teoria e quais os autores de referencia que as apontam, fazendo um percurso teorico de 1690 a 2015.

Caption: Figura 3--Principais cruzamentos das percepcoes dos sujeitos
Figura 1--Sistematizacao do corpus de analise dos sujeitos

Veiculos                   Jornalistas              Leitores

Folha de S.Paulo                85                250 leitores
O Globo                    jornalistas
O Estado de S. Paulo       brasileiros

O que analisar?          O que analisar?        O que analisar?
                       Falas de jornalistas       Comentarios

Materiais              (Biografias, livros,   (Em sites e paginas
institucionais            documentarios,        do Facebook dos
(Princfpios            trabalhos academicos     jornais Folha de
editorials, manuais       e entrevistas)      S.Paulo, 0 Globo e 0
de redacao, codigos                           Estado de S. Paulo)
de etica,
editoriais)

38                              40                    279
documentos                  documentos             documentos
analisados                  analisados             analisados

Fonte: autoria propria

Figura 2--Principais finalidades do jornalismo para veiculos,
jornalistas e leitores.

PRINCIPAL FINALIDADES
DO JORNALISMO PARA OS SUJE1TOS

Veiculos                Jornalistas

29%   Esclarecer o      27%   Esclarecer o      33%   Fiscalizar o
      cidadao e               cidadao e               podere
      apresentar a            apresentar a            fortalecer a
      pluralidade da          pluralidade da          democracia
      sociedade               sociedade

21%   Fiscalizar o      20%   Fiscalizar o      16%   Informar
      poder e                 poder e
      fortalecer a            fortalecer a
      democracia              democracia

19%   Informar          17%   Informar          15%   Esclarecer o
                                                      cidadao e
                                                      apresentara
                                                      pluralidade da
                                                      sociedade

12%   Selecionar o      10%   Verificar a       12%   Verificar a
      que e relevante         veracidade das          veracidade das
                              informacoes             informa0es

19% Outros              26% Outros              24% Outros

Fonte: autoria propria
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Title Annotation:JORNALISMO; texto en portugues
Author:Reginato, Gisele Dotto
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2018
Words:5537
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