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The press and the bush journalism genre in military regime/ A imprensa e o genero jornalismo do mato no regime military.

Introducao

Em representacoes contemporaneas a imprensa tem-se apresentado como a condutora do facho das liberdades individuais e coletivas e farol do espirito democratico. Acompanha, a uma distancia segura da contaminacao, o curso do poder, para recoloca-lo no fluxo da lisura moral e equidade social. Encarna Diogenes de Sinope a conduzir a lanterna a luz do dia, procurando pela honestidade nos seres humanos e a verdade encobertada pelo embuste. Tende, interiorizando concepcoes auferidas a ela no seculo XIX, a ser considerada a extensao da voz critica e o marco divisorio da insercao da humanidade no mundo moderno (2). E a pagina do jornal, na leitura inspirada de Marshall McLuhan, a expressao confessional comunitaria indutora a acao coletiva. Essa e a visao idilica e panglossiana evocada pelo fabulario midiatico.

A outra, para delinearmos a intencional perspectiva binaria, inserta a imprensa no rol das instituicoes representativas dos aparelhos privados de hegemonia sobre a sociedade, como faz Antonio Gramsci, ou dos aparelhos ideologicos do Estado, conforme interpretacao de Louis Althusser. A imprensa, na analise gramsciana, e elemento vivaz da estrutura ideologica do estrato dominante e, para Althusser, ao fazer parte, com os demais meios de comunicacao, dos aparelhos ideologicos da informacao, e, em conjunto com a cultura, familia, Igreja e sistemas escolar, juridico, politico e sindical, o reverbero material e simbolico dos valores e modos de producao da classe dominante.

O presente artigo propoe-se, a partir da postura das empresas jornalisticas nos episodios resultantes no golpe de Estado destituindo Joao Goulart da presidencia da Republica em 1964 e na validacao do regime militar cuja vigencia estendeu-se por 21 anos, e retomando a posicao majoritaria dos jornais no Imperio de ratificadores na quase totalidade da existencia do sistema escravista brasileiro, a conceituar como jornalismo do mato o genero midiatico abonador do periodo autoritario e distintivo da dubiedade da imprensa em representarse como baluarte democratico da sociedade, enquanto desempenhava, na verdade, o oficio de assessor, cumplice e publicista de um governo autocratico, repressivo e segregacionista.

A funcao capitao do mato

Ao denunciar na Camara dos Deputados, em 1887, desvio de funcao no Exercito brasileiro, com soldados a mando do oficialato cacarem escravos fugidos, Joaquim Nabuco asseveraria, indagando: "Ha profissao mais alta e mais honrosa do que a profissao de soldado? Ha profissao mais baixa e degradante do que a de capitao do mato?" (1949, p. 291). O parlamentar abolicionista associava a funcao de cacar pessoas ao ataque das aves de rapina as carcacas deixadas pelos predadores. Afora a abjecao a tarefa em si, havia o agravante de ser o capitao do mato, na maioria, negro ou mulato. Em 66 pedidos entre 1827 e 1829 a 26 camaras municipais fluminenses para o exercicio da captura a evadidos, norma estabelecida pelo Aviso Regio emitido pela Secretaria de Estado dos Negocios Estrangeiros e da Guerra, 19 candidatos foram caracterizados como negros, 16 pardos, um branco, um indio e 29 sem especificacao da cor. (3)

Alipio Goulart invoca a condicao de traidores da raca e pusilanimes a libertos e negros livres empenhados "no perseguir e aprisionar irmaos de sangue, ex-companheiros de infortunio", lista situacoes lucrativas da atividade, como recompensas oferecidas pelos senhores de escravo, propinas subtraidas dos afeicoados aos fugitivos, favores sexuais cobrados das esposas e maes dos profugos e revenda do capturado a terceiros em caso do valor empenhado for inferior ao preco ofertado por um novo proprietario, alem da intrinseca desconfianca com o oficio: "E que, negro ou mulato, embora liberto, o senhor somente ve sob a pressao social do regime: foi escravo tem que persistir escravo" (1972, p. 69 a 71).

Arbustos extensos dependem da solidez do tronco para sustenta-los. Entre 1741 e 1760 foram empregadas expedicoes para dizimar em Minas Gerais o aglomerado quilombola do Campo Grande, onde residiam 15 mil negros fugidos e alguns brancos pobres em 27 quilombos. Para tornar o empreendimento atraente a capitaes do mato e soldados, o governo da capitania das Minas Gerais estipulou 32 oitavas de ouro por escravo devolvido, 20 oitavas por alforriado e 6 por cabeca ou par de orelhas do negro morto no assalto aos quilombos (Martins, 2008, p. 869). Tal procedimento seria normatizado. Em andancas pela capital da colonia e naquela epoca do imperio portugues, em 1819, o capitao da cavalaria prussiana Theodor von Leithold narraria a acao dos capitaes do mato no Rio de Janeiro e cercanias, a ele relatada:

Os capitaes andam armados, mas so empregam essas armas se encontram resistencia. Aos negros mortos em escaramucas com a policia cortam-lhes as cabecas. Entregues estas a Justica, sao elas espetadas em paus e colocadas nas esquinas das ruas principais como advertencia (Leithold; Rango, 1966, p. 44).

A figura do capitao do mato fazia parte do denominado por Alipio Goulart complexo do escravo fugido, estrutura fundamentada por instancias legais Livro V, titulo LXII: Dos coutos ordenados para se coutarem os hominiziados, e dos casos em que lhe devem valer, e Livro V, titulo LXIII: Dos que dao ajuda aos escravos cativos para fugirem ou os encobrem, das Ordenacoes Filipinas ou Codigo Filipino, promulgadas em 1603 pelo rei de Portugal Felipe I e em vigencia ate 1830--, regimentais--Ordem que se passou ao capitao do matto Joao Pires Pereira para fazer entradas,4 assinada pelo governador-geral Alexandre de Sousa Freire, em 18 de outubro de 1667; Patente de capitao do campo dos districtos do Rio Real, na pessoa de Salvador Dias,5 assinada por Joao Rodrigues de Vasconcellos e Souza, Conde de Castel-Melhor, do Conselho de Guerra, em 1 de abril de 1650; Regimento dos capitaes-do-mato baixado por D. Lourenco de Almeida, governador de Minas gerais, a 17 de dezembro de 1722 (Goulart, 1972, p. 286) --e instrumentais, com criacoes dos cargos de capitao do mato e congeneres capitao de assalto, capitao de campo--e as companhias de guardas campestres, companhias de guardas pedestres e companhias de guardas terrestres. Com a chegada da corte portuguesa em 1808, e toda a administracao real para fugir da invasao napoleonica a Portugal, integra-se ao complexo do escravo fugido uma quarta instancia: a comunicacional, representada pela imprensa. Candido Neves, personagem do escritor Machado de Assis no conto Pae contra mae, para exercer sua nova funcao, capitao do mato urbano, "lia os annuncios, copiava-os, mettia-os no bolso e saia as pesquizas" (Assis, 1906, p. 9).

A imprensa capita do mato da sociedade escravagista

O sociologo Gilberto Freyre catalogou ate a assinatura da Lei Aurea 10 mil anuncios sobre escravos no Diario de Pernambuco, desde 1825, e no carioca Jornal do Commercio, 1827, ressaltando o significado do material para a composicao historiografica e antroporracial dos negros africanos importados e traficados para o Brasil. Baseava-se nos detalhamentos dos tipos fisicos dos escravos procurados e ofertados e nas especificacoes culturais e linguisticas por meio das origens e caracteristicas tribais anunciadas. Havia ainda na materia coletada escopo para identificar, pelo estilo redacional dos textos, a expressao literaria e sintatica media, cotidiana, em contraponto ao empolado linguajar predominante nos artigos jornalisticos. Os anuncios expressavam-se, depurara Freyre, em "linguagem de fotografia de gabinete policial de identificacao: minuciosa e ate brutal nas minucias. Sem retoques nem panos mornos" (1979, p. 26). Acrescentariamos, sem delongas ou contornos: os anuncios naturalizavam os mecanismos de caca, compra e venda de seres humanos e esteavam a ate aquela epoca excrescencia-mor do obscurantismo humano, a escravidao.

O assujeitamento da imprensa ao sistema escravocrata deu-se desde os primeiros tres meses de vida. Assentada a estrutura administrativa no Rio de Janeiro, em maio e instituida a Impressao Regia e em 10 de setembro de 1808 lancado pela reparticao real a Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal editado no Brasil. Em 9 de janeiro e 24 e 25 de fevereiro do ano seguinte despontariam nas respectivas edicoes os pioneiros anuncios para captura a escravos transfugas. Os evadidos eram o escravo Matheus, caracterizado por dois talhos, um nas costas e outro na sobrancelha, o adolescente angolano Matheus, 15 anos, ainda sem conhecimento da lingua portuguesa porque adquirido havia pouco tempo no Cais do Valongo, porto da chegada dos navios negreiros e centro do mercado escravagista no Rio de Janeiro, e a mulata Dina, 25 anos, originaria da regiao do Cabo da Boa Esperanca, na Africa do Sul, e fluente em portugues e ingles. Durante 1809 o periodico, editado por oficiais da Secretaria dos Negocios Estrangeiros e da Guerra e lancado as quartas e sabado, publicaria outros 22 anuncios do genero.

Os comunicados, ainda esparsos e comedidos em publicacoes oficiais, caso da Gazeta do Rio de Janeiro, ou particulares com a autorizacao regencial, como a Idade d'Ouro do Brazil, lancada em Salvador em 1811, multiplicam-se com a revogacao em 1821 da exigencia do consentimento real para a circulacao dos periodicos. O noticioso Diario do Rio de Janeiro, "realmente o primeiro jornal informativo a circular no Brasil" (Sodre, 1999, p. 50) e "no qual gratuitamente se imprimao todos e quaesquer annuncios ou noticias particulares (que convenhao e seja licito imprimir) inclusive os dos divertimentos e dos expectaculos publicos" (6), nos 27 exemplares iniciais, correspondente a um mes, publicou 66 avisos com recompensas pela devolucao dos negros fugitivos, outros 56 com escravos a venda, 16 para aluguel, a maioria oferecendo ou requisitando amas de leite, e dois para compra e posterior revenda. O redator, reiteradas vezes, orgulhava-se dalgum anuncio resultar na captura, compartilhando o fato sob o titulo Noticias Particulares: "Tristao de Sa Cherem, faz publico que em o dia 4 de junho, recebeo da D. Anna de Castro, a sua escrava que a mesma sra. havia mandado annunciar neste diario no 1 [...] e para sua descarga se faz o prezente annuncio". (7)

I nsatisfeitos em apenas incrementar o comercio escravista, os jornais prestavam-se a ameacar, intimidar e delatar quem se dispusesse a acolher ou acobertar fugitivos. Anuncios invocavam os amparos legais, o citado titulo LVIII do Livro V das Ordenacoes Filipinas--"e quanto aos que derem azo, ou encobrirem, ou ajudarem os captivos fugirem, incorrerao nas penas sobreditas"--, e provisoes municipais e provinciais para intimar quem acoutasse ou consentisse com a presenca de escravos fugidos na casa ou propriedade. "Fugio hum escravo por nome Manoel, de Nacao Mocambique, com os signaes seguintes [...] o annunciante tem noticia que o mesmo escravo esta accoitado em huma casa nesta cidade, por enquanto se faz o prezente annuncio, para a todo o tempo senao chamar a ignorancia, e ficar sugeito ao que a ley determina; quem o conduzir a rua do Rosario n. 92, 2 andar, sera bem recompencado", alertava o Diario do Rio de Janeiro, na edicao do dia 6 de marco de 1826.

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Restringir a acao do complexo do escravo fugido a imprensa correligionaria do regime monarquico escravista seria ingenuidade. A conivencia com o sistema da exploracao do trabalho escravo estendia-se a searas distintas. O periodico gaucho O Povo, porta-voz do movimento farroupilha e intitulado Jornal Politico, Litterario, e Ministerial da Republica Rio-Grandense, tendo por epigrafe "O poder que dirige a revolucao, tem que preparar os animos dos cidadaos aos sentimentos de fraternidade, de modestia, de igualdade e desinteressado e ardente amor da Patria" e o lema Liberdade, Igualdade e Humanidade estampados na capa, acolhia anuncios para captura de escravos, nos moldes das publicacoes monarquistas, com os tracos particulares--"com uma bicha na orelha e huma sicatriz na cabeca"; "beicos pintados tem huma sicatriz na extremidade da garganta procedida de hum ferimento, por elle praticado em accao de querer suicidar-se" (8)--, para facilitar o reconhecimento do fugitivo, e as devidas gratificacoes financeiras.

O flagelo do espirito capitao do mato jornalistico atingia tambem as hostes abolicionistas. Em um unico dia, em 1880, a Gazeta de Noticias, propulsora da campanha pelo fim da escravidao, impressora das intervencoes de Joaquim Nabuco na Camara dos Deputados e com Jose do Patrocinio como colunista, com o pseudonimo anarquista Proudhomme, publicaria seis anuncios da cata a escravos, nos quais, em dois deles, constaria a assertiva inquisitoria do "protesta-se com todo o rigor da lei contra quem lhe der couto" (9) O disparate motivou resolucao conjunta do movimento. Em junho de 1881 o mensario O Abolicionista, da Sociedade Brasileira Contra a Escravidao e dirigido por Joaquim Nabuco, notificava a determinacao encetada pelos abolicionistas: "Levantou-se ultimamente na imprensa abolicionista uma cruzada contra os torpes annuncios de fuga de escravos. [...] Tudo isso e profundamente immoral e depoe seriamente contra a nossa civilisacao. Alem d'isso, metade d'esses annuncios sao criminosos. A policia devia intervir: nao para perseguir o escravo fugido, mas para pedir informacoes ao senhor annunciante".

A medida foi efetivada somente entre os pares, porque na imprensa em geral seria ignorada. O diario catolico maranhense O Paiz, a nove dias do 13 de maio de 1888, veiculava a necessidade de "alugar uma negrinha ou um moleque de 10 a 12 anos, mais ou menos, que tenha bons costumes para o servico domestico". Na semana seguinte a assinatura da Lei Aurea termos do mesmo anuncio seriam atualizados aos novos tempos, trocando o "negrinha" por "rapariga", porem esquecendo de reciclar o verbo alugar.

O concorrente Diario do Maranhao, jornal do Comercio, Lavoura e Industria, no dia seguinte a abolicao da escravatura no Brasil, no editorial Elemento Servil--Abolicao, louvaria o ato da princesa imperial regente, D. Isabel, e exclamaria: "Reina no Maranhao verdadeiro prazer, e disso sao eloquente prova as manifestacoes, expansao do sentimento, e isso corrobora tudo quanto se tem dito, que esta provincia e e sempre foi amante da liberdade, foi a primeira a proclama-la, foi a primeira a cuidar da emancipacao, e preparar o espirito para o grande acontecimento que nivela o nosso paiz aos mais cultos da Europa" (10) Duas paginas adiante, na mesma edicao, o jornal ofertava, para alugar, "uma mulatinha de 14 anos de idade propria para todo o servico domestico". (11) Assim, consideradas as honrosas excecoes, a imprensa, do principio ao fim do Imperio, promoveria a nodoa da mentalidade escravagista.

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O jornalismo do mato da imprensa brasileira no regime militar

O incubado instinto de caca da imprensa brasileira afloraria na plenitude ja no segundo dia do golpe militar civil-midiatico de 1964. O Jornal, principal publicacao impressa do grupo midiatico hegemonico na epoca, os Diarios Associados, formado por 30 diarios, tres revistas, uma agencia de noticias, 25 radios e 70% das emissoras de televisao--a ponto do slogan ser"Onde houver um receptor de TV, ha sempre presente a imagem de um canal Associado" (Morais, 1994, p. 633)--, cobraria dos militares protagonistas da derrubada do governo constitucional do trabalhista Joao Goulart uma imediata operacao-limpeza, compreendendo "a higienizacao da vida publica brasileira" por intermedio da intervencao em centrais sindicais e movimento estudantil, exoneracao em estatais, supressao dos direitos politicos a parlamentares alcunhados comunistas e enquadramento na Lei de Seguranca Nacional a civis e militares associados ao governo deposto. (12)

A nominata dos candidatos a expurgos e outras providencias coercitivas seria apresentada pela Tribuna da Imprensa, do jornalista Helio Fernandes, contemplado com a cassacao dos direitos politicos por 10 anos pelo Ato Institucional no 1 em 1966, no primeiro governo militar, e degredado por meses na Ilha Fernando de Noronha em 1967, no segundo governo do regime militar. O editorial"Pela recuperacao do Brasil" (13) rogava aos novos mandantes providencias contra o presidente, ministros civis e militares, deputados, sindicalistas, lideres estudantis e diretores de estatais. "Nao se trata de vinganca, nem estamos aqui defendendo o esquartejamento dos derrotados. Mas quando o destino do pais esta em jogo, quando se trata de decidir a sorte dos que queriam comunizar o pais, nao podemos ser generosos ou sentimentais", justificava o jornal, com argumento similar ao dos senhores na aplicacao do suplicio a escravos fugidos, insolentes ou aquilombados.

Seria por demais prejudicial a imagem liberal e democratica da imprensa publicar indices autorais extensos. Entao, as publicacoes recorreriam a subterfugios sutis. Em 7 de abril os exemplares da Tribuna da Imprensa e O Globo continham a republicacao do anuncio veiculado em outubro de 1963 da fundacao do Comando dos Trabalhadores Intelectuais, com os nomes dos 13 diretores e 214 signatarios das areas do direito, arquitetura, literatura, ciencia, musica, teatro, artes plasticas, educacao, mercado editorial, cinema, radio e televisao, jornalismo e economia. A estrategia de tornar apocrifa a delatoria "transcricao paga por um grupo de democratas" passaria incolume se despercebida ficasse a mao editorial no cabecalho do anuncio. "Este e o manifesto do chamado Comando dos Trabalhadores Intelectuais, que trabalhou ativamente pela implantacao do governo comunista do sr. Joao Goulart. Republicando-o com todos os seus nomes, chamamos a atencao do alto-comando militar", era o da Tribuna; (14) "Este e o manifesto do chamado Comando dos Trabalhadores Intelectuais, que trabalhou ativamente pela implantacao do regime comunista no Brasil. Republicando-o agora, chamamos a atencao do alto-comando militar para os nomes que o assinaram", seria o do O Globo. (15)

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Haveria perseguicoes personalizadas. A presenca da historiadora catedratica em Historia Moderna e Contemporanea, representante da Universidade do Brasil no Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiaticos e diretora da radio do Ministerio da Educacao e Cultura, nomeada em julho de 1963 e desonerada extra-oficialmente na tarde do 1 de abril de 1964, Maria Yedda Leite Linhares, no gabinete do reitor da universidade motivou a chamada "O reitor recebe a comunista" na capa do O Globo. (16) A materia incluia a docente no grupo a servico do comunismo internacional e, para lamento do jornal, ainda a solta: "Estamos certos que o seu tranquilo reaparecimento--no guiche do Ministerio e no gabinete do Reitor--alertara lembrancas esquecidas e concitara a adocao de medidas necessarias e urgentes". Maria Linhares seria inquirida em 1964 pela Comissao de Investigacoes da Universidade do Brasil, presidida por um general, arrolada em sete inqueritos policiais militares entre 1964 e 1966 e em abril de 1969 agraciada com a aposentadoria compulsoria pelo Ato Institucional no 5.

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A imprensa tornar-se-ia mural dos perseguidos pelo regime militar, a exemplo das secoes de anuncios nos tempos finais do Brasil colonia e todo o Imperio, e copista das versoes falsas do Estado militar para escamotear e legalizar crimes computados aos aparatos repressivos oficial e clandestino, costume senhorial de dar por fugido quem haviam assassinado. No cartaz "Terroristas procurados: ajude a proteger sua familia e a de seus familiares: avise a policia" e na lista dos principais terroristas procurados no Brasil, entregues pelos "orgaos de seguranca" aos jornais e cujo material rendeu a Folha de S. Paulo materias por quatro dias--28 de setembro a 1o de outubro de 1971--havia o nome do militante do Movimento Revolucionario 8 de Outubro (MR-8) Stuart Edgar Angel Jones, preso por agentes do Centro de Informacoes de Seguranca da Aeronautica (CISA) e morto na Base Aerea do Galeao em julho do mesmo ano, portanto antes da confeccao dos cartazes.

Dos 40 listados no documento reprisado por Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo, tres outros procurados--os dirigentes da Vanguarda Armada Revolucionaria Palmares (VAR-Palmares) Carlos Alberto Soares de Freitas, detido no Recife em fevereiro de 1971, e Mariano Joaquim da Silva, preso na rodoviaria da capital pernambucana em setembro de 1970; e o militante da Acao Libertadora Nacional (ALN) Paulo de Tarso Celestino da Silva, capturado no Rio em julho de 1971 (17)--naquela data estavam mortos e, somados a Stuart Jones, constariam no dossie dos 144 desaparecidos no Brasil, editado em 1984 pela Comissao de Familiares de Mortos e Desaparecidos do Comite Brasileiro de Anistia (CBA). Em 1971 o governo brasileiro sofria pressao interna, por parte da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e externa, por entidades internacionais dos direitos humanos, para dar explicacoes as acusacoes de torturas e desaparecimentos e um dos estratagemas foi inserir presos em situacao ilegal, ou ja mortos, nessas listas dos procurados enviadas e reproduzidas pela imprensa.

Outra artimanha do governo militar foi encaixar mortos da tortura clandestina institucional nos tiroteios com a guerrilha urbana. Caso tipico foi 17 de janeiro de 1973. Jornais publicariam o texto redigido pelo Servico de Relacoes Publicas do I Exercito da acao policial contra aparelho do Partido Comunista Brasileiro Revolucionario (PCBR) na ex-capital federal, no final do ano anterior. "Bastante nervoso, "Sandalia" [Fernando Augusto Valente da Fonseca] dirigiu-se a pe para o volks, sendo recebido a tiros. Em decorrencia, as equipes de seguranca se aproximaram, travando-se entao intenso tiroteio, apos o qual o fuscao se incendiou. No interior do carro, estavam mortos os terroristas Getulio de Oliveira Cabral (Gogo), Jose Bartolomeu Rodrigues de Sousa ("Tropi") e Jose Silton Pinheiro ("Soares")", descreveria a nota do Exercito (18). Na verdade, Fernando Augusto Valente da Fonseca, Getulio de Oliveira Cabral, Jose Bartolomeu de Sousa e Jose Silton Pinheiro foram mortos na sede carioca do Destacamento de Operacoes e Informacoes--Centro de Operacoes de Defesa Interna (DOI-CODI) e inseridos na cena do crime. (19)

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O ultimo exemplo, selecionado por esse estudo, das manifestacoes do jornalismo do mato ocorreria em 1977. Expoente da extrema-direita, lider dos militares discordantes da distensao politica protagonizada pelo governo e candidato do grupo a sucessao do general-presidente Ernesto Geisel, o ministro do Exercito Sylvio Frota e exonerado em outubro e em represalia ao afastamento acusa haver "complacencia criminal com a infiltracao comunista e a propaganda esquerdista que se revitaliza diariamente na imprensa, nos setores estudantis e nos proprios organismos governamentais, os quais acolhem, no momento, nos escaloes de assessoramento e direcao, 97 comunistas militantes, conforme comuniquei ao Servico Nacional de Informacoes, marxistas que permanecem intocaveis, em suas atividades desagregadoras". (20) O documento passaria a circular pelo Congresso Nacional em novembro, a espera de divulgacao.

Pois o Estado de S. Paulo, no dia 24 daquele mes, e o Jornal do Brasil e diversas publicacoes pelo pais, no dia seguinte, postariam o index dos orgaos de seguranca compilado pelo Centro de Informacoes do II Exercito com 96 [um nome constava duas vezes] servidores publicos lotados em ministerios, estatais, fundacoes e em 10 governos estaduais. O Brasil tomaria conhecimento do historico dos citados, alguns ja falecidos, junto aos sistemas de informacao e seguranca do regime militar, da existencia de 12 potenciais agentes da KGB, servico secreto da Uniao das Republicas Socialistas Sovieticas (URSS), uma acusada de agiotagem, quatro funcionarias amasiadas [termo original] com subversivos e uma desquitada amasiada. O jornalismo do mato, com a inclusao da ficha politico-ideologica e estado conjugal, aprimorava dessa forma o anacronico recurso da indicacao das marcas pessoais para auxiliar a atividade persecutoria dos capitaes do mato, como fazia no seculo XIX nos anuncios sobre escravos.

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Consideracoes finais: o conceito Jornalismo do mato

O jornalismo do mato e o genero jornalistico derivado do enquadramento midiatico a superestrutura sistemica--entendendo a superestrutura como o estamento superior formatado pela instancia juridico-politica formadora do Estado e a instancia ideologica representada pelas expressoes culturais, ideologicas e morais (Althusser, 1985, p. 60)--e caracterizado pelo exercicio laboral apendiculado a estrutura repressiva do regime politico o qual afianca. Ao se sujeitar as atividades delativas, inquisitoriais e policialescas, o jornalismo do mato desempenha a funcao superior de legitimador regimental e a inferior de escabelo do descanso do senhorio e feitor do organismo coercitivo estatal. Autentica, dessa maneira, o fundamento reacionario acobertado nos dispositivos semanticos da retorica moralisseptica propria dos regimes ditatoriais, em especial os originados nas casernas.

A fonte do jornalismo do mato, durante o regime militar brasileiro, ao inves do acalantado ditirambo da colheita no mundo da vida, foi o veio freatico do imaginario das forcas basilares das duas decadas do autoritarismo, externado em versoes ministeriais ou dos vazamentos deliberados do organograma gerenciado pelo Servico Nacional de Informacoes e abastecido pelo suporte clandestino dos centros de informacoes das Forcas Armadas--Centro de Informacoes do Exercito (CIE), Centro de Informacoes de Seguranca da Aeronautica, Centro de Informacoes da Marinha (CENIMAR) e os DOI-CODI--e pelas subordinadas policias federal, civil e militar, principalmente as delegacias de ordem politica e social (DOPS).

O jornalismo do mato, nas eventuais aparicoes no confessionario da Historia brasileira, sempre silenciou ou se esquivou das responsabilidades como ativista politico, social e ideologico, contando com a conivencia da imprensa mainstream, fato atestado com o desmemoriamento estrategico perceptivel nas efemerides concebidas por ela mesma, como nas retrospectivas dos 50 anos do inicio do regime militar, publicadas em 2014, e dos 30 anos do ocaso dos governos militares, lancadas em marco de 2015. O jornalismo do mato, como seus antepassados do Imperio, demonstra dificuldades em assumir o carater retrogrado, sociofobico e avesso a movimentos progressistas, distributivos e contestatorios, como se os mesmos colocassem em risco a propria sobrevivencia. A reacao tem natural temor por avancar. O jornalismo do mato, em cruzar adiante com Diogenes, e ter seus feitos iluminados pela lanterna do filosofo grego.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729 2015.4.21341

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Recebido em: 14/7/2015

Aceito em: 04/8/2015

Endereco do autor

Alvaro Nunes Larangeira<larangeira@terra.com.br>

Universidade Tuiuti do Parana, Mestrado em Comunicacao e Linguagens.

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(1) Pesquisa desenvolvida com apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq) por meio da chamada MCTI/CNPq/MEC/CAPES no 18/2012--Ciencias Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas. Trabalho apresentado no GT de Historia do Jornalismo, no 10 Encontro Nacional de Historia da Midia/Rede Alcar 2015, evento da Associacao Brasileira de Pesquisadores de Historia da Midia.

(2) Ver o verbete Presse na Encyclopedie des gens du monde, repertoire universel des sciences, des lettres et des arts, p. 147, Tomo 20, 1844. Disponivel em: <http://aallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k215562c/ f147.hiahres>. Acesso em 12 de maio de 2015.

(3) Escravos fugidos, codice 360, Arquivo Nacional. In: BALDO, 1980, p. 104 a 108.

(4) Biblioteca Nacional, Documentos Historicos, vol. VIII, 1929, p. 329.

(5) Biblioteca Nacional, Documentos Historicos, vol. XXXI, 1936, p. 53 e 54.

(6) "Plano para o estabelecimento de hum util e curiozo diario nesta cidade', Diario do Rio de Janeiro, n. 1, 1 jun. 1821.

(7) Diario do Rio de Janeiro, 9 jun. 1821, p. 3.

(8) Edicao do dia 27 nov. 1839, p. 4.

(9) Gazeta de Noticias, 19 jan. 1880, p. 3 e 4.

(10) Diario do Maranhao, 14 maio 1888, capa.

(11) Diario do Maranhao, 14 maio 1888, p. 3.

(12) "Operacao-limpeza', O Jornal, 2 abr. 1964, p. 1.

(13) Tribuna da Imprensa, 2 abr. 1964, p. 1.

(14) Tribuna da Imprensa, 7 abr. 1964, p. 3.

(15) O Globo, 7 abr. 1964, p. 5.

(16) O Globo, 9 maio 1964, p.1.

(17) Comissao de familiares de mortos ..., 1995, p. 271, 351 e 366.

(18) Diario de Noticias (RJ), p. 11; Folha de S. Paulo, p. 4; Jornal do Brasil, p. 16.

(19) Comissao de familiares de mortos ..., 1995, p. 145, 151, 158 e 162.

(20) "A nota do ex-ministro", Jornal do Brasil, 13 out. 1977, p. 4.

Alvaro Nunes Larangeira

Docente do Programa de Pos-graduacao em Comunicacao e Linguagens da Universidade Tuiuti do Parana. Doutor em Comunicacao pela PUCRS e pos-doutor em Jornalismo pela Universidade de Coimbra.

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Title Annotation:Jornalismo
Author:Larangeira, Alvaro Nunes
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Oct 1, 2015
Words:4942
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