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The presence of Jose de Alencar's works in France (1863-1907)/A presenca das obras de Jose de Alencar na Franca (1863-1907).

Introducao

Os textos criticos veiculados na Franca sobre a literatura do Brasil apresentam, de maneira bastante corrente, queixas por parte de seus autores quanto a ausencia de obras literarias brasileiras traduzidas para o idioma frances. Ao longo de todo o seculo XIX, poucas foram, de fato, as iniciativas: Eugene de Monglave verteu Caramuru e Marilia de Dirceu ainda nas primeiras decadas do XIX; em 1875, Sant-Anna Nery publicou sua traducao de poemas de Goncalves Dias em uma antologia intitulada Un poete du XIXe siecle; em 1885, a antologia de poesias organizada por Melo Morais Filho, Parnaso Brasileiro, apareceu em frances atraves de traducao de Emile Allain (Cunha, 1997; Abreu, 2008). Somente em 1883 e que um romance brasileiro foi objeto de traducao, Inocencia, de Alfredo d'Escragnolle Taunay, publicado em folhetim, tendo sido veiculado no mesmo formato novamente em 1895 e editado em livro em 1896 (Heineberg, 2017). Anos mais tarde, a traducao de O Guarani foi publicada, integralmente, em folhetins em 1899 e difundida em livro em 1902. Em 1907, o romance Iracema apareceu traduzido em folhetim. Machado de Assis so teve uma obra transladada para o frances em 1910, Quelques Contes, publicado por Garnier Freres (Audigier, 2008); no ano seguinte, foi a vez de Memorias Postumas de Bras Cubas. Canaa, de Graca Aranha, foi vertido em 1910 (Cunha, 1997; Abreu, 2008). No entanto, a partir ja de meados do seculo XIX, nao faltaram tentativas de traducao em frances de obras de Jose de Alencar.

Primeiras iniciativas

Em 1863, o Diario do Rio de Janeiro publicou uma pequena nota sobre o periodico Le Bresil, no qual se destaca o inicio da traducao francesa do romance O Guarani:

Le Bresil--Publicou-se o 2[degrees] numero desta folha, contendo o resto dos documentos diplomaticos sobre a questao anglo-brasileira; e mais--Estrada de ferro de D. Pedro II--Cronicas das Belas-Artes--Questao Macau-chinesa Conflito dos vapores peruanos--Noticias da Europa--O cavalo dourado pelo homem--Extincao do pauperismo Fatos diversos--Comercio e o comeco da traducao francesa do romance Guarani (Diario do Rio de Janeiro, 18 jan. 1863) (1).

De acordo com as pesquisas de Ilana Heineberg, o periodico Le Bresil era editado por brasileiros no Rio de Janeiro e tinha por objetivo divulgar o pais na Europa, sobretudo na Franca. Mas teve uma existencia bem curta, contando apenas com oito numeros, o que permitiu a traducao e difusao de somente sete capitulos do romance (Heineberg, 2015). Nao ha informacoes sobre quem foi o tradutor e nao se explicitam as razoes da escolha de O Guarani para a difusao em suas paginas, mas e provavel que seus editores estivessem atentos ao tipo de narrativa que poderia causar interesse no leitor estrangeiro. As expectativas do publico europeu em relacao as obras do Novo Mundo giravam em torno de paisagens exoticas e de enredos voltados para temas historicos e indigenas (Brzozowski, 2001). O Guarani parecia atender a essa exigencia e estar mais apto a captar a atencao do leitor frances.

Esse romance recebeu no inicio da decada de 1870 outra traducao francesa, dessa vez possivelmente de forma integral. Sacramento Blake, no seu Diccionario bibliographico brasileiro (1899), indicou a existencia de uma traducao, realizada por Adolphe Hubert, que a teria remetido ao prelo em 1871. Essa versao foi referida pelo proprio Alencar em recibo, no qual fazia a cessao da propriedade perpetua ao livreiro-editor BaptisteLouis Garnier dos romances O Guarani, Luciola, Cinco Minutos e A Viuvinha e se comprometia a, segundo declarou, "[...] respeitar por um ano a permissao gratuita que dei a A. Hubert para imprimir a traducao francesa do Guarani" (Alencar, 23 ago. 1870). Infelizmente, nao ha noticia da efetiva existencia dessa edicao.

Esse romance tambem despertou o interesse de Adele Toussaint-Samson em traduzi-lo. No seu relato de viagem Une Parisienne au Bresil, publicado em 1883, Toussaint-Samson ofereceu suas impressoes do pais durante sua estadia no Rio de Janeiro. Nesse livro, a autora, que viveu no Brasil durante doze anos, entre as decadas de 1850 e 1860, conta anedotas sobre o dia a dia dos habitantes, seus costumes, fazendo comentarios ainda a respeito das atividades artisticas da cidade. Certamente, testemunhou o sucesso da recepcao de O Guarani durante a sua veiculacao nos folhetins do Diario do Rio de Janeiro, o que deve te-la levado ao entusiasmado registro:

Um de seus melhores romances e aquele que tem por titulo O Guarani, de Alencar, do qual me proponho a oferecer uma traducao, qualquer dia desses, ao publico parisiense. E uma pintura fiel da vida do indigena, que e, ao mesmo tempo, poetica e verdadeira. Eu traduzi ainda do "brasileiro" uma pequena novela intitulada Cinco Minutos, a qual nao falta originalidade; ela e tambem produto da pena de Alencar, cujo talento e incontestavel (Toussaint-Samson, 1883, p. 202, grifo nosso) (2).

Nao se tem noticias da publicacao de nenhuma das duas traducoes referidas por Toussaint-Samson. Em 1885, de acordo com informacao de Raphael Quintela, o jornal bilingue de propaganda Chronica Franco-Brazileira iniciou a publicacao de outra versao traduzida de O Guarani (Quintela, 2013). Ilana Heineberg deu continuidade as investigacoes a respeito e identificou que a traducao foi realizada por Alfred Marc, jornalista frances e viajante, autor de livros sobre o Brasil e redator da Chronica Franco-Brazileira (Heineberg, 2017). A revista, de direcionamento republicano, teve inicio em 25 de setembro de 1885, numero no qual veiculou em seu editorial, de autoria de Lopes Trovao, os propositos da publicacao. Dentre eles, tinha

[...] por intuito capital concorrer, na capacidade de todas as nossas forcas, para mais vulgarizar no Brasil costumes e instituicoes francesas de cuja adocao resultar-lhe-a utilidade evidente e para patentear a Franca os elementos de progresso que o povo brasileiro ja comecou de acumular e que ela podera aproveitar fecundamente no sentido dos seus proprios interesses legitimos (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 1).

A finalidade do periodico era, portanto, mostrar o desenvolvimento do pais atraves de textos publicados em frances, pois o redator entendia que, por meio desse idioma, seria possivel tornar o Brasil "[...] compreendido pela maioria do mundo civilizado" (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 2). Quanto aos artigos que versavam sobre a Franca, estes eram escritos em portugues, para assim efetivar a troca entre os povos dos dois paises. Em editorial em frances, os redatores acrescentaram: "Queremos mostrar a Europa os imensos recursos que o Brasil possui e lhe revelar os seus progressos artisticos, literarios, industriais, cientificos, agricolas, economicos" (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 11) (3).

Nesse intento de comprovar os avancos literarios brasileiros, o periodico publicou O Guarani em frances, mas apenas 12 capitulos do romance foram veiculados, entre 10 de outubro de 1885 e 15 de agosto de 1886, ano em que teve fim a publicacao do periodico. O primeiro numero da Chronica Franco-Brazileira ofereceu a seguinte nota de apresentacao da obra:

A partir do proximo numero, a Chronique Franco-Bresilienne oferecera a seus leitores da Europa uma amostra da literatura popular do Brasil. Escolhemos um romance famoso no outro lado do Atlantico, onde ele e considerado uma obra-prima. Le Guarani, de Jose de Alencar, e um estudo de uma extrema intensidade de vida, de um pitoresco notavel, de uma originalidade rara, que poe em cena esses indigenas indomitos, cuja reputacao ainda hoje e aterrorizante, e os Portugueses do tempo da conquista. Ele reproduz as peripecias dramaticas da colonizacao, e faz ressurgir para os leitores do seculo XIX um mundo quase inteiramente perdido. Le Guarani aparecera regularmente em folhetim a partir do segundo numero deste jornal (Chronica Franco-Brazileira, 25 set. 1885, p. 20) (4).

A nota toca numa especificidade do romance que possivelmente favoreceu a sua repercussao no exterior. Trata-se de uma obra popular e, ao mesmo tempo, representativa da literatura nacional, constituindo-se num chef-d'&uvre da producao literaria brasileira. Ela tinha a capacidade, portanto, de envolver o leitor interessado em recreacao e tambem de dizer a respeito do desenvolvimento literario do Brasil aos leitores estudiosos e curiosos pelos progressos artisticos nos diferentes paises do mundo. Alencar procurou enriquecer a literatura do pais, sem perder de vista o dialogo com o publico de massa em sua intensa busca por ser compreendido e lido. Essas caracteristicas do fazer literario de Alencar favoreceram a sua repercussao entre leitores de diferentes lugares do mundo. O escritor tinha ainda a preocupacao de fazer a literatura brasileira conhecida no exterior, pois, dentre as atividades que Alencar realizou na Europa com o fim de difundir a sua producao e a literatura brasileira, consta a relacao que manteve com o brasilianista frances Ferdinand Denis, relatada por este em carta a Pereira da Silva em 14 de junho de 1876, e indicada na dedicatoria feita por Alencar a Denis no exemplar de Ubirajara que lhe foi ofertado pelo autor (Figura 1):

Cercado de uma familia numerosa, para a infelicidade de seus trabalhos literarios, e chegando aqui de improviso, numa estacao deploravel, ele viu sua saude declinar e a de sua mulher lhe causar algumas vezes preocupacoes; como consequencia, ele teve que adiar alguns de seus trabalhos literarios, para os quais, ao visita-lo, coloquei a disposicao meus livros e minha pessoa sempre que necessario (Denis, 14 jun. 1876) (5).

Em uma dessas trocas de visitas, Alencar lhe ofereceu um exemplar de Ubirajara autografado, conservado atualmente pela Bibliotheque Sainte-Genevieve, em Paris.

Durante sua vida, Alencar atuou em favor de sua projecao no exterior. Contudo, apenas no final do seculo XIX e que a traducao francesa de O Guarani chegou integralmente as maos dos leitores franceses, depois de contar com traducoes para o italiano, em 1864, o alemao, em 1872, e o ingles, em 1893. Em 1899 a obra apareceu publicada no rodape das paginas do jornal frances Les Droits de L'homme, sob o titulo Les Aventuriers ou le Guarani.

Aspectos da recepcao de O Guarani em lingua francesa

O primeiro capitulo do romance circulou no dia 15 de janeiro de 1899 e o ultimo em 11 de abril do mesmo ano, contabilizando 71 entregas. O jornal Les Droits de L'homme foi fundado em 1898, por iniciativa de Henri Deloncle, e tinha como orientacao o republicanismo, o anticlericalismo e o dreyfusismo (Heineberg, 2015). Contendo quatro paginas e custando 5 centavos, era herdeiro da empreitada editorial de massificacao da imprensa periodica ocorrida desde o Segundo Imperio, quando em 1863 Le Petit Journal passou a ser vendido por numero (o que pos fim a necessidade de assinatura mensal ou anual) e pelo valor de 1 sous (5 centavos de franco), procedimento que mudou a atividade da imprensa na Franca ao generalizar-se entre os concorrentes. Anne-Marie Thiesse mostra que o valor de um exemplar correspondia, na Belle Epoque, a 12,5% do preco de um quilo de pao; 17% do preco do litro de leite e 33% do bilhete de metro (Thiesse, 2000). Quanto aos salarios, as criancas ganhavam 1 franco por dia, as mulheres em media 2 francos e os homens, a depender da funcao, recebiam de 2 a 6 francos na provincia e ate 10 em Paris. Ou seja, o jornal passava a ser realmente acessivel ao povo. Alem disso, uma serie de leis concernentes a educacao, implementadas ao longo do seculo (Demier, 2000), favoreceu a formacao de uma massa de leitores, fator que permitiu o surgimento de um publico correspondente a ambicao de expansao da imprensa.

O tradutor de O Guarani, Louis-Xavier de Ricard (1843-1911) atuou intensamente na imprensa francesa. Manteve contato com literatos e participou do movimento parnasianista, o que lhe rendeu alguns livros de poesia. Mas seu engajamento maior residiu em principios anticlericais, republicanos, federalistas e no felibrige, estes dois ultimos consistindo na promocao cultural e politica da regiao do Sul da Franca, em que viveu e atuou boa parte de sua vida (Cabasse, 1977). Em 1882, partiu para a America do Sul, onde fundou alguns jornais: durante a residencia na Argentina, inaugurou o periodico L'Union Francaise; no Paraguai, o jornal Le Rio-Paraguai. Em 1885, instalou-se no Rio de Janeiro, cidade em que fundou Le Sud-Americain, ao lado de Georges Lardy, provocando algumas polemicas.

De volta a Franca, passando por problemas financeiros (Peyronnet, 1997), exerceu com intensidade a atividade jornalistica e literaria, dando a estampa, dentre outros trabalhos, a sua traducao de O Guarani no jornal Les Droits de l'Homme, a qual possivelmente atendeu antes a interesses pecuniarios de Ricard do que ao afa de divulgar a literatura brasileira na Franca. A empreitada parece ter tido exito, pois logo em 1902 a mesma versao saiu em livro, a 3,75 francos (valor corrente dos romances populares na epoca), testemunhando um fenomeno comum no periodo, como mostra Thiesse (2000, p. 84): "Retomando um folhetim para uma publicacao em volume, o editor empenha seus recursos numa obra certa e ja conhecida, o que reduz os custos de lancamento e os riscos de fracasso" (6).

O editor Jules Tallandier, que adotou amplamente essa estrategia, havia adquirido os direitos de reproducao da traducao de O Guarani, incorporando-a ao seu catalogo. Conforme pesquisas de Matthieu Letourneux e JeanYves Mollier (2011), a livraria Tallandier investia por essa epoca em generos e formatos muito apreciados pelo publico de massa, dentre eles o romance de aventuras, que, em 1899, ganhou uma colecao propria pela casa, a Bibliotheque des Grandes Aventures, pela qual o romance de Alencar, dessa vez sob o titulo Le fils du soleil, foi publicado, conforme indicam as informacoes presentes na capa do livro reproduzida na Figura 2.

A atuacao de Jules Tallandier no negocio de livros populares, segundo Letourneux e Mollier, tornou-o um dos editores populares mais importantes de Paris, ao propiciar um desenvolvimento desconhecido ate entao a editora.

O percurso das traducoes desse romance de Alencar na Franca testemunha o modo de funcionamento do mercado de impressos nesse pais e confirma o perfil de obras brasileiras que poderiam constituir o interesse de um publico estrangeiro, pois ate entao apenas O Guarani havia recebido de fato uma traducao em frances, em detrimento de romances que tematizavam a sociedade brasileira da epoca, como Luciola, Senhora, dentre outros. Essa prevalencia do interesse pelo exotismo se verifica no proposito de publicacao de outro romance de Alencar que oferece uma imagem exotica do pais, O Tronco do Ipe, anunciado como obra em preparacao a partir do ano de 1905 por P.V. Stock editeur, em versao intitulada Le tronc de l'ipe: maurs bresiliennes, como exemplifica uma das paginas iniciais da edicao em livro de Le Crime de Lord Arthur Savile, de Oscar Wilde (1905), traduzido por Albert Savine, responsavel por uma serie de traducoes da casa, inclusive a desse romance de Alencar (Figura 3).

Ate o momento nao ha pistas que indiquem a efetiva publicacao dessa traducao de O tronco do Ipe. Entre 1906 e 1908, varias obras da editora continuavam anunciando o futuro lancamento do romance, sem que a publicacao tenha, aparentemente, ocorrido.

A incursao de Iracema em territorio frances

Em 1907, Iracema saiu traduzido em folhetim no jornal L'Action Republicaine, em versao de Phileas Lebesgue, e seria publicado em livro apenas em 1928. O primeiro folhetim abre com uma carta, mas em vez de ser a traducao da epistola original de Alencar destinada ao Dr. Jaguaribe, a qual enceta Iracema, trechos dela foram usados numa correspondencia transcrita no inicio do romance, assinada por Lucien e destinada a Georges, na qual se le a seguinte passagem, que muito se aproxima do texto de Alencar: "Il faut lire cela durant l'heure ardente de la sieste, quand le soleil darde a pic sur la campagne ses rayons de feu et que la nature est livree toute aux effluves puissants de l'irradiation tropicale" (L'Action Republicaine, 1907, p. 3). O trecho remete a seguinte passagem da carta de abertura do romance original:

Este livro o vai naturalmente encontrar em seu pitoresco sitio da varzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperanca do casal. Imagino que e a hora mais ardente da sesta. O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias natais; as aves emudecem; as plantas languem. A natureza sofre a influencia da poderosa irradiacao tropical, que produz o diamante e o genio, as duas mais sublimes expressoes do poder criador (Alencar, 1865, p. i-ii).

O 'Argumento historico', que na primeira edicao de Iracema aparece como nota ao final do volume, tambem se encontra traduzido, inserido como pos-escrito dessa mesma carta de Lucien, ainda no primeiro folhetim de veiculacao do romance. Lebesgue teve o cuidado de imprimir em sua traducao os elementos paratextuais de Iracema, criados por Alencar, para embasar a leitura da obra pelo leitor estrangeiro, mesmo que alterando o contexto da carta, o seu emissor e o destinatario. Iracema: conte bresilien foi publicado no espaco do folhetim do periodico entre os numeros 51 e 62, integralmente.

Seu tradutor, Phileas Lebesgue (1869-1958) foi um prolifico escritor frances, autor de poesias, romances e novelas, dramas e ensaios. Notavel em sua epoca entre seus confrades, foi chamado a colaborar com mais de 200 revistas (Beauvy, 2011). O papel de destaque que desempenhou nas letras resultou, principalmente, de seu interesse pelas diferentes culturas, sejam elas estrangeiras ou internas ao seu proprio pais (como Xavier de Ricard, foi felibre e promotor da cultural regional). Estudou muitos idiomas, aprendizado que lhe permitiu conhecer as literaturas dos mais diferentes paises, como atesta declaracao de Lucien Vuilhorgne em carta destinada a Lebesgue em 17 de fevereiro de 1896:

Que conhecimento profundo das literaturas comparadas evoca em meu espirito a sabia discussao na qual o senhor teve quase a unica e melhor participacao! Literatura hindu, lingua sanscrita, literatura celta, gaelica, nosso poeta tudo leu, tudo digeriu (Beauvy, 2004, p. 15) (7).

As trocas que estabeleceu com literatos de diversos paises lhe asseguraram um lugar de reconhecimento na promocao das letras estrangeiras, tornando-se muito requisitado pelos confrades para a composicao de traducoes ou artigos criticos. Lebesgue colaborou ainda com o Mercure de France, entre 1896 e 1940, assinando rubricas como "Lettres Portugaises"; "Lettres Norvegiennes", "Lettres Neo-grecques"; "Lettres Yougoslaves" e, por algumas vezes, "Lettres Bresiliennes". Do Brasil, introduziu no meio francofono, alem de Iracema, titulos como Janna et Joel, de Xavier Marques; Macambira, roman bresilien (1920) e La Tapera (1943), de Coelho Neto, alem do conto Um enfermeiro, de Machado de Assis (Beauvy, 2004). Graca Aranha apontou o prestigio de Phileas Lebesgue na difusao das letras brasileiras. Apos sua obra A estetica da vida ter sido comentada pelo escritor frances em texto critico publicado em Le Monde Nouveau, Aranha lhe escreveu em carta: "Gracas a autoridade de seu estudo magistral, uma grande curiosidade foi despertada em torno do livro, que repercute e que provavelmente aparecera em frances" (Beauvy, 2004, p. 489) (8).

Claudio Veiga (1998) aponta que Lebesgue encontrava-se com brasileiros na Franca e entretinha correspondencia com diversos escritores brasileiros, que lhe davam noticias sobre a literatura do Brasil e lhes enviavam livros dos autores nacionais. Provavelmente o contato com a obra de Alencar deu-se atraves desse intermedio. Phileas Lebesgue, apos a publicacao de Iracema em folhetim no jornal L'Action Republicaine, ofereceu-o a uma editora nomeada La Renaissance du Livre, que lhe respondeu: "Nao e preciso dizer que dedicaremos toda o nosso interesse na leitura de Iracema, vindo de voce. Envie-o entao" (Beauvy, 2004, p. 508) (9). No entanto, de acordo com Beauvy, a publicacao nunca veio a lume. O texto da traducao de Iracema foi preparado para edicao em livro apenas na decada de 1920, conforme se depreende em carta de Graca Aranha a Lebesgue: "Parabenizo-o por ter conseguido preparar a edicao de sua harmoniosa traducao desse poema tropical" (Beauvy, 2004, p. 508) (10).

Por essa epoca, Lebesgue se envolveu numa interessante polemica, na qual reclamou sua precedencia na traducao de Iracema. Segundo Beauvy, uma revista parisiense intitulada Le Soc anunciou a veiculacao no seu folhetim de uma traducao desse romance, alegando ser a primeira realizada em idioma frances. Suspeitando que sua traducao de Iracema estava sendo alvo de contrafacao pela revista, Lebesgue enviou a redacao uma carta, pedindo provas da efetiva existencia dessa segunda versao. Ainda de acordo com Beauvy, a publicacao na revista Le Soc acabou nao se concretizando. Iracema saiu novamente em 1928, em livro pela editora Gedalge, versao que oferece alteracoes em relacao ao texto inicial publicado no L'Action Republicaine, em 1907 (Beauvy, 2011, p. 220).

Jean-Michel Massa deteve-se nas diferenciacoes existentes na versao publicada em livro em 1928 em relacao ao texto original de Iracema, destacando alguns aspectos dessas alteracoes realizadas por Lebesgue. Chamou-lhe a atencao as omissoes de passagens tidas como eroticas, as quais Massa explica terem sido feitas em atencao aos propositos da colecao que o romance integrou e de seu publico (Massa, 1971, p. 49-55). Intitulada Collection Aurore, a iniciativa editorial foi designada pelo editor como uma "[...] nova colecao de obras que podem estar ao alcance de todas as maos" (11), como se pode ler numa das paginas iniciais da edicao de Iracema de 1928. Ela destinava-se, portanto, a um publico diverso, composto por homens, jovens e mulheres, que, segundo o editor, teriam acesso a obras preservadoras da moralidade. Massa entende que a traducao de Lebesgue buscou ocultar qualquer sugestao erotica presente na obra original, mas um cotejo entre a traducao publicada em jornal em 1907 e aquela editada posteriormente em livro revela que a primeira versao se ateve com mais fidelidade ao romance original, na qual constam, com as mesmas minucias descritivas da obra de Alencar, as passagens que Massa constatou terem sido suprimidas. Decerto, as condicoes de publicacao do romance no jornal nao sofreram as coercoes impostas para sua publicacao em volume, e o leitor do jornal L'Action Republicaine pode ter acesso ao teor do romance sem restricoes.

O mercado de traducoes na Franca

Diante da instigante entrada do romance de Alencar na Franca, da quantidade de iniciativas de traducao em lingua francesa e da tardia efetivacao desse intento, faz-se interessante verificar os dados sobre a presenca de traducoes no mercado editorial frances para se identificar o nivel de aceitacao da literatura produzida fora desse pais. Em Histoire des traductions en langue francaise (2012), Blaise Wilfert-Portal mostra que, entre 1840 e 1910, a tiragem de livros na Franca cresceu vigorosamente. Extraindo dados apresentados por Frederic Barbier em Histoire de l'edition francaise, o autor constata que a producao de livros entre 1840 e 1875 multiplicou-se por tres, indo de 4.630 titulos em 1840 a 14.195 em 1875, chegando a 20.951 em 1900.

Dentre as fontes para suas investigacoes sobre as traducoes literarias nesse periodo, Wilfert-Portal recorreu ao Catalogue General da la Librairie Francaise, de Otto Lorenz e Daniel Jordell. E importante destacar, como o proprio estudioso informa, que nao entram nas suas estatisticas as traducoes para o frances publicadas fora das fronteiras da Franca, como aquelas editadas na Suica, Quebec e Belgica, sendo este ultimo pais um importante centro editorial na epoca, cujas producoes e contrafacoes percorriam o mundo e tinham entrada inclusive na Franca. Tambem nao sao incluidas no seu levantamento as traducoes veiculadas em folhetim. Dessa forma, seus resultados devem ser ponderados. Em 1840, de um total de 924 titulos de prosa de ficcao, 73 eram traducoes, equivalendo a 7,9% da edicao de livros na Franca. Nas decadas seguintes, houve um aumento timido de titulos traduzidos publicados, alcancando um pico de 18% entre 1855 e 1859, com 257 traducoes de um total de 1.421 obras. Entre 1870 e 1875, a porcentagem foi inferior, 14%, mas a quantidade de obras traduzidas se manteve estavel. De 1.690 titulos, 249 eram traducoes. Na virada entre o seculo XIX e o seculo XX, quando apareceram as publicacoes da versao francesa de O Guarani, a porcentagem de traducoes girava em torno de 7%. No entanto, houve um forte aumento da quantidade total de titulos publicados. Entre 1900 e 1905, de 6.464 obras, 463 eram traducoes.

Wilfert-Portal compara os resultados a que chega aos apresentados por Franco Moretti (2003), em seu Atlas do romance europeu, que tambem explicita uma baixa presenca das traducoes na Franca e na Inglaterra entre o final do seculo XVIII e meados do XIX. A partir dos dados de Moretti e da historia da imprensa francesa, Wilfert-Portal propoe que os relativamente baixos indices de traducao literaria e o fechamento da Franca para a literatura estrangeira sao resultado da nacionalizacao da producao e do consumo de romances. O autor destaca o papel dos novos suportes, como o romance-folhetim e o formato popular in-18 (chamado formato Charpentier), na expansao do status nacional da producao literaria em oposicao a literatura estrangeira. Para Wilfert-Portal (2012, p. 291) (12), "Industrializacao e estruturacao nacional do mercado estao, dessa forma, estreitamente ligadas". A partir do conjunto de dados, Wilfert-Portal conclui:

Esses numeros apresentam um quadro bastante claro. De maneira geral, o mercado da literatura traduzida em frances fechou-se nitidamente, em proporcao, a ponto de se estabilizar a niveis muito baixos, proximos da situacao atual da Gra-Bretanha e dos Estados Unidos, os espacos literarios ricos e desenvolvidos mais fechados do mundo e, ao mesmo tempo, os mais fortes exportadores em direcao aos sistemas muito mais abertos a traducao, como os da Europa ocidental (2012, p. 305) (13).

Wilfert-Portal mostra que, num mercado cada vez mais competitivo, os editores procuravam variar suas ofertas para alcancarem uma fatia do publico. A traducao angariou algum espaco atraves, dentre outros generos populares, do romance de aventuras, com obras de autores como Fenimore Cooper, Mayne Reid e Marryat, escritores ao lado dos quais Alencar foi situado, cujos romances O Guarani e Iracema obtiveram sua entrada nesse mercado fechado e seletivo.

Consideracoes finais

Observando as caracteristicas dos suportes em que a traducao de O Guarani foi veiculada, folhetim de jornal diario e livro de colecao popular, esse romance pode parecer nao ter sido dado ao publico frances como uma obra nacional representativa da literatura brasileira, mas como um romance popular e de aventuras. Alem do mais, seu tradutor Xavier de Ricard nao pretendia com seu trabalho promover a literatura do Brasil ou prestigiar Jose de Alencar, como se depreende de suas palavras no prefacio a edicao em livro:

Nao costumo ceder a habitual mania dos tradutores de exagerar o valor e os meritos da obra que traduzem. Jose de Alencar tem certamente um lugar marcado e em um patamar de honra na literatura brasileira. Mas ele nao e um desses genios indispensaveis cuja ausencia causaria lacuna na historia intelectual da humanidade (Ricard, 1902, p. vi) (14).

No entanto, mesmo alinhado a uma forma de difusao popular, o romance correspondia a perspectiva exotica esperada para uma obra proveniente do Novo Mundo, fator que se fazia essencial para a originalidade literaria dessas jovens nacoes.

Phileas Lebesgue teve postura distinta a de seu homologo Xavier de Ricard quanto as letras brasileiras. Lebesgue dedicou seu empenho critico na redacao da coluna Lettres bresiliennes, do jornal Mercure de France, cultivou boa relacao com homens de letras brasileiros, dentre eles Graca Aranha, e resenhou e traduziu obras de autores do Brasil. O seu Iracema possivelmente nao teve a mesma acolhida popular que O Guarani, pois esperou mais de vinte anos para ser publicado em livro, apesar da boa relacao de Lebesgue no meio literario e de seu esforco em favor das letras brasileiras. Para alem dos percursos distintos sugeridos por essas duas obras no meio frances, vale ressaltar o pioneirismo desses romances na introducao da literatura brasileira na Franca, pais que desempenhava um papel de centro cultural na epoca, o que o tornava um mercado literario fechado, como mostram as interpretacoes de Wilfert-Portal (2002) e Franco Moretti (2003). Apesar das dificuldades, esses romances ousaram transpassar as barreiras e se colocaram no competitivo mercado editorial frances, redimensionando as trocas culturais em vigor na epoca entre Brasil e Franca e contribuindo para a divulgacao da literatura brasileira naquele pais, fator insistentemente buscado pelos homens de letras brasileiros, que viam na difusao europeia uma maneira de dar visibilidade a producao nacional.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v41i1.41666

Received on February 10, 2018.

Accepted on May 15, 2018

Agradecimentos

Este trabalho foi realizado com bolsa de doutorado da Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo (Fapesp).

Referencias

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Audigier, E. G. (2008). As traducoes francesas do conto "O Enfermeiro" de Machado de Assis. In XI Congresso Internacional da ABRALIC (p. 1-12). Sao Paulo, SP.

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Valeria Cristina Bezerra

Faculdade de Letras, Universidade Federal de Goias, Avenida Esperanca, s/n, Campus Samambaia, 74690-900, Goiania, Goias, Brazil. E-mail: valcrisbr@gmail.com

(1) Agradeco a informacao da existencia dessa nota a Rodrigo Camargo de Godoi.

(2)"Un de leurs (sic) [de la litterature bresilienne] meilleurs romans est celui qui a pour titre le Guarany, par Alaincar (sic), et dont je me propose d'offrir une traduction, un de ces jours, au public parisien. C'est une peinture fidele de la vie de l'Indien, qui est, en meme temps, poetique et vraie. J'ai traduit aussi du bresilien une petite nouvelle appelee Cinco Minutos, qui ne manque pas d'originalite; elle est due aussi a la plume d'Alaincar, dont le talent est incontestable". Todas as traducoes de citacoes usadas neste artigo sao de minha autoria.

(3) "Nous voulons decouvrir a l'Europe les immenses ressources que le Bresil possede; lui reveler ses progres artistiques, litteraires, industrieis, scientifiques, agricoles, economiques".

(4) "Des son prochain numero, la Chronique Franco-Bresilienne offrira a ses lecteurs d'Europe, un specimen de la litterature populaire du Bresil. Nous avons choisi un roman celebre au-dela de l'Atlantique, ou il est considere comme un chef-d'reuvre. Le Guarany de Jose d'Alencar, est une etude d'une extreme intensite de vie, d'un pittoresque acheve, d'une originalite rare, qui met en scene ces Indiens farouches dont la reputation est aujourd'hui encore terrifiante, et les Portugais du temps de la conquete. Il retrace les peripeties emouvantes de la colonisation, et ressuscite pour les lecteurs du XIXe siecle, un monde presqu'entierement disparu. Le Guarany paraitra regulierement en feuilleton, des le second numero de ce journal".

(5) "Entoure malheureusement pour ses travaux litteraires d'une famille nombreuse et, tombant tout a coup chez nous, dans une saison deplorable, il a vu sa sante decliner et celle de sa femme lui donner parfois de l'inquietude; il a du en consequence ajourner quelques-uns de ses projets litteraires, pour l'accomplissement desquels j'ai mis, en lui allant rendre sa visite, mes livres et ma personne a sa disposition, toutes les fois que cela pourrait lui etre necessaire".

(6) "Reprenant un feuilleton pour une publication en volume, l'editeur engage ses capitaux sur une reuvre sure et deja connue, ce qui reduit les frais de lancement et les risques de l'echec".

(7) "Quelle connaissance profonde des litteratures comparees evoque en mon esprit l'entretien savant ou M. Lebesgue avait presque la seule et meilleure part !! Litterature hindoue, langue sanscrite, litterature celtique, gaelique, notre poete a tout lu, tout digere".

(8) "Grace a l'autorite de votre etude magistrale une grande curiosite s'est eveillee autour du livre qui se repand et va peut-etre paraitre en francais".

(9) "Il va sans dire que nous apporterons toute notre sympathie a lire Iracema venant de vous. Envoyez done".

(10) "Je vous felicite vivement d'avoir reussi a faire l'edition de votre harmonieuse traduction de ee poeme tropical".

(11) "[...] nouvelle collection d'ouvrages pouvant etre mis entre toutes les mains".

(12) "Industrialisation et structuration nationale du marche sont ainsi etroitement liees".

(13)"Ces chiffres presentent un tableau assez clair. D'une maniere generale, le marche de la litterature en traduction francaise s'est nettement ferme en proportion, au point de se stabiliser a des niveaux tres bas, proches de la situation actuelle de la traduction en Grande-Bretagne et aux Etats- Unis, les espaces litteraires riches et developpes les plus fermes du monde, et en meme temps les plus puissants exportateurs a destination de systemes beaucoup plus ouverts a la traduction, ceux d'Europe de l'ouest".

(14)"Je ne crois pas ceder a l'habituelle manie des traducteurs de s'exagerer la valeur et les merites de l'reuvre qu'ils traduisent. Jose de Alencar a certainement une place marquee et a un rang fort honorable dans la litterature bresilienne. Mais il n'est pas un de ces genies indispensables dont l'absence ferait lacune dans l'histoire intellectuelle de l'humanite".

Caption: Figura 1. Detalhe do frontispicio de Ubirajara, pertencente a Ferdinand Denis. Dedicatoria assinada por Jose de Alencar.

Caption: Figura 2. Capa de Le fils du soleil, publicado pela editora Tallandier. Exemplar conservado na Bibliotheque Nationale de France.

Caption: Figura 3. Anuncio de Le tronc de l'ipe, presente em traducao francesa de livro de Oscar Wilde, Le Crime de Lord Arthur Savile (1905, p. ii).
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Title Annotation:LITERATURE/LITERATURA
Author:Bezerra, Valeria Cristina
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2019
Words:5938
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