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The perspective in news headlines/A perspectivizacao em titulos de noticias jornalisticas.

Introducao

Em textos jornalisticos, especificamente, em jornais impressos e digitais, diversos recursos sao utilizados para que a noticia chame a atencao de seus leitores, os compradores do produto-noticia. Para que os fatos saltem aos olhos, entram em cena recursos tipograficos (tamanho de letra, uso de negrito, italico etc.) e imageticos (figuras, fotos, tabelas, quadros etc.). Aquele que apresentar a noticia de forma mais "atraente" ganha o leitor e comprador. Lopes (2010) mostra que "os processos de selecao, organizacao, tratamento e apresentacao da informacao contem intencionalidade (...). A luta pela sobrevivencia de determinada 'faixa de mercado' condiciona a sua gramatica de producao" (LOPES, 2010, p. 5).

Dessa maneira, percebe-se que a apresentacao linguistica da noticia narrada tambem contribui de maneira significativa para um maior alcance do periodico. Ressaltar um dos participantes da cena mostrada, operar perspectivizacao, realizar focalizacoes e topicalizacoes sao recursos muito comuns em manchetes jornalisticas. Portanto, o presente artigo pretende mostrar como esses recursos linguisticos sao utilizados em diversos textos jornalisticos e de que maneira a apresentacao da noticia varia de um suporte a outro. Alem disso, pretendemos mostrar as situacoes de harmonia e desarmonia entre fluxo de atencao natural e linguistico, com base na Hipotese do Fluxo de Atencao (DELANCEY, 1981). Para tanto, foram coletadas manchetes que correspondiam a mesma situacao extralinguistica em um blog de noticias de alcance local (Blog Cardoso Silva) (1), um jornal de alcance regional (Jornal O Povo) (2) e outro de alcance nacional e internacional (Jornal O Globo) (3), de maneira a verificar como opera a perspectivizacao nesses tres suportes.

A teoria que dara conta da analise qualitativa sera a discussao de DeLancey (1981) sobre as nocoes de "ponto de vista e fluxo de atencao" e os pressupostos da gramatica funcional de Dik (1997a [1989], 1997b), que serao expostos na secao seguinte. Hipotetizamos que, no gerenciamento e na disposicao dos itens nas sentencas, os falantes as organizam de modo a ressaltar itens considerados mais importantes. Nesse sentido, concordamos com Camacho (2002), quando afirma que, "como as funcoes de sujeito e objeto podem ser atribuidas a termos com diferentes funcoes semanticas, e justamente essa atribuicao que reorganiza a orientacao basica inerente da predicacao" (CAMACHO, 2002, p. 261). Essas questoes serao discutidas na secao seguinte, intitulada "Referencial teorico". Logo, na secao posterior, explanar-se-ao os procedimentos metodologicos utilizados, seguidos da apresentacao e discussao dos resultados. Ao final, seguem-se as consideracoes finais e as referencias utilizadas na pesquisa.

1. Referencial teorico

As analises empreendidas aqui terao como base discussoes no ambito do funcionalismo linguistico. Nesta secao, discutiremos os postulados de DeLancey (1981), acerca de ponto de vista e fluxo de atencao; de Dik (1997a [1989], 1997b), acerca da tipologia dos estados de coisas, dos papeis semanticos e da hierarquia de animacidade; e de Camacho (2002), cujo texto traz uma aplicacao desses conceitos a dados do portugues. Esses autores ajudarao a fornecer as bases teoricas para a analise dos dados. Comecemos pela proposta de DeLancey (1981).

1.1. Ponto de vista e fluxo de atencao (DELANCEY, 1981)

DeLancey (1981) discute acerca das nocoes psicologicas de fluxo de atencao (doravante FA) e ponto de vista (doravante PV), conceitos bastante retomados pelos adeptos das teorias de cunho funcionalista em Linguistica. O autor retoma Fillmore (1977), inserindo essas nocoes numa visao de semantica que toma uma parte significante da estrutura semantica como uma lista de cenas prototipicas, especificadas por um conjunto canonico de participantes.

Em sua exposicao, DeLancey (1981) ainda mostra que os enunciados linguisticos descrevem eventos, imaginarios ou reais, pela invocacao de cenas prototipicas e pela identificacao de papeis dos participantes com entidades existentes no universo discursivo. Nem todos os aspectos do evento prototipico sao retratados com o mesmo nivel de interesse, ou seja, a lingua dispoe de recursos para destacar os itens mais relevantes. Nesse sentido, o FA e o PV sao os parametros a partir dos quais elementos linguisticos podem ser usados para destacar determinadas entidades envolvidas no discurso narrado. Marcacao de caso, concordancia verbal, marcacao de voz e ordem dos constituintes sao mecanismos que expressam o FA e o PV, como exemplificaremos a seguir.

No que se refere ao FA, ele determina a ordem linear dos sintagmas nominais (doravante SN's). Assim, os elementos sao organizados pelos falantes na ordem em que desejam ser ouvidos. O FA pode ser gerenciado por diversos mecanismos linguisticos, como ordens diferentes para os SN's, vozes verbais alternativas e topicalizacoes. O autor distingue um FA natural e um FA linguistico. O primeiro se refere a ordenacao temporal das fases do evento, como no exemplo (01):

(01) I drove from Bloomington to Philadelphia (DELANCEY, 1981, p. 633).

Eu dirigi de Bloomington a Philadelphia (4)

Ou seja, na realidade extralinguistica, o ponto de partida do FA natural e algo que se move de uma origem a uma meta. Quando, por exemplo, ha descompasso entre o FA natural e o linguistico, a sentenca se torna fortemente marcada, como em (02), requerendo motivacoes especiais para sua producao.

(02) I drove to Philadelphia from Bloomington (DELANCEY, 1981, p. 633).

Eu dirigi para Philadelphia de Bloomington.

Nas sentencas (01) e (02), o ponto de partida do FA e o sujeito da sentenca, mas o ponto de partida tambem pode ser a origem, como em (03), e nunca a meta, o que ocasionaria uma sentenca agramatical, como em (04).

(03) From Bloomington I drove to Philadelphia (DELANCEY, 1981, p. 633).

De Bloomington eu dirigi para Philadelphia.

(04) * To Philadelphia I drove from Bloomington (DELANCEY, 1981, p. 633).

* Para Philadelphia eu dirigi de Bloomington.

Segundo o autor, isso se da porque a origem representa o real ponto de partida do evento e e, portanto, forte candidato a ser ponto de partida linguistico. Dessa maneira, se ha uma relacao entre a estrutura semantica e cognitiva com a nocao de fluxo de atencao e se ha casos mais marcados que refletem um FA nao natural, sao resultados de processos, tais como topicalizacoes, tematizacoes etc. (DELANCEY, 1981).

DeLancey (1981), explicando com mais detalhes a questao do PV, mostra que nem sempre os eventos sao descritos de um ponto de vista objetivo e externo. O autor mostra que os tres papeis de participantes que os eventos prototipicos apresentam costumam ser preenchidos, em geral, por ate dois atores humanos. Desse modo, a sentenca pode ser narrada de um ponto de vista externo (observador desinteressado) ou mais interno (associado a um dos participantes). Por exemplo, no uso de verbos como "ir" e "vir", a escolha pela segunda forma, mais marcada, aponta a localizacao particular em que o falante esta ao descrever a cena. O gerenciamento do ponto de vista tambem pode ajudar a explicar desarmonias entre fluxo de atencao natural e linguistico, como, por exemplo, na sentenca (02). Provavelmente, nesse caso particular, o falante esta enunciando a partir da Philadelphia, por isso operou a ordem meta-origem, em desarmonia com o fluxo de atencao natural, que preve a ordem origem-meta.

Como as nocoes de FA e PV estao intimamente associadas aos participantes do evento, discutamos, na secao seguinte, a proposta de Dik (1997a [1989], 1997b) acerca dos tipos de estados de coisas, papeis semanticos e hierarquia de animacidade.

1.2. A estrutura da oracao, "estados de coisas", papeis semanticos e hierarquia de pessoa/animacidade (DIK, 1997a [1989], 1997b)

Dik (1997a [1989]) explica que o cerne da estrutura da clausula subjacente e formado por uma predicacao, dividida em tres niveis: a predicacao nuclear, composta do predicado e de seus argumentos; a predicacao central, que consiste da predicacao nuclear, estendida por operadores ([pi]1) e satelites ([sigma]1) do predicado; e a predicacao estendida, que se trata da predicacao central provida de um "Estado de Coisas" (doravante EsCo) variavel (e1) e modificada por operadores ([pi]2) e satelites ([sigma]2) da predicacao.

Ainda segundo o autor, a predicacao nuclear consiste de termos que designam entidades em algum mundo e de predicados que designam propriedades ou relacoes entre entidades. Essa predicacao nuclear designa um conjunto de EsCo, em que cada membro e definido por uma propriedade particular ou relacao designada pelo predicado. O termo "Estado de Coisas" e usado com o sentido de "alguma coisa que pode ser o acontecimento em algum mundo (5)" (DIK, 1997, p. 105). Sendo assim, como mostra o autor, e uma entidade conceitual, e nao o que pode ser localizado em uma realidade extramental ou existente no mundo real.

Os EsCo podem ser divididos em diferentes tipos, de acordo com seus valores para uma serie de parametros semanticos, entre os quais se incluem: [+ or -] Dinamico, [+ or -] Telico, [+ or -]Controle. Vejamos:

(05) John's money is in an old sock. [-din] (DIK, 1997a [1989], p. 114).

O dinheiro de John esta em uma meia velha.

(06) John cut down the tree for my sake. [+din] (DIK, 1997a [1989], p. 114).

John cortou a arvore por minha causa.

(07) John was painting. [-tel] (DIK, 1997a [1989], p. 108).

John estava pintando.

(08) John walked to the station. [+tel] (DIK, 1997a [1989], p. 109).

John caminhou ate a estacao.

(09) The tree fell down. [-con] (DIK, 1997a [1989], p. 112).

A arvore caiu.

(10) John opened the door. [+con] (DIK, 1997a [1989], p. 112).

John abriu a porta.

Os eventos descritos em (05) e (06) ajudam a explicar o traco [+ or -] Dinamico, que se relaciona com mudanca de estado. Em (05), nao ha mudanca, ja que o dinheiro de John continua na mesma posicao. Pelo contrario, em (06), operou-se mudanca no estado inicial da arvore, que foi cortada. Os exemplos (07) e (08) ilustram o segundo traco, [+ or -] Telico, relacionado ao ponto de termino da acao. O evento descrito em (07) e considerado [-tel], porque nao se observa um ponto natural de termino, ja que Jonh pode continuar pintando. Pelo contrario, em (08), a acao de caminhar ate a estacao e dada como finalizada, recebendo, portanto, o traco [+tel]. Com os exemplos (09) e (10), ilustramos o traco [+ or -] Controle, que se relaciona a uma entidade controladora do evento. Em (09), a queda da arvore nao foi voluntaria, ao contrario da abertura da porta em (10) por John. Por isso, o EsCo descrito em (09) recebe o traco [-con], enquanto o narrado em (10) recebe o traco [+con].

Os parametros descritos acima determinam os tipos de EsCo: acao, processo ou estado. Predicados de acao recebem os tracos [+din] e [+con], como ilustrado em (06), em que ha mudanca de estado controlada por uma entidade, John. Os de processo apresentam os tracos [+din] e [-con], como em (09), em que ha mudanca de estado, mas sem uma forca controladora. Ja os predicados de estado apresentam os tracos [-din] e [-con], como em (05), ja que a entidade "dinheiro de John" nao tem controle sobre seu estado.

Desse modo, e necessario postular uma tipologia em que os argumentos do predicado tambem assumem funcoes semanticas. Para Dik (1997a[1989]), o primeiro argumento (6) pode assumir, entre outras, as seguintes funcoes:

o Agente, quando a entidade controla a acao, como John, em (06);

o Processado, quando a entidade sofre/passa por um processo, como a arvore, em (06);

o Zero (0), quando se trata de uma entidade envolvida em um estado, como o dinheiro de John, em (05).

O teorico ainda pontua outros papeis tematicos, como objetivo, beneficiario, locativo, direcao, origem e referencia. De todos os papeis tematicos, o autor aponta o processado, o zero, o objetivo e o beneficiario como portadores do traco [+experiencia], ou seja, nesses casos, um ser animado percebe, sente, quer, concebe ou experimenta algo.

Outro importante postulado do autor e a proposta de uma Hierarquia

de Pessoa/Animacidade (DIK, 1997a [1989]), que, segundo Camacho (2002), reforca a ideia de que o falante seleciona o mesmo SN para ponto de partida e fluxo de atencao. Ou seja, ha "prioridades" na apresentacao dos argumentos na sentenca. Abaixo, apresenta-se a proposta do funcionalista holandes:

[P1, P2] > P3 humano > animado > forca inanimada > inanimado

(DIK, 1997a[1989], p. 37).

Mais a esquerda na hierarquia esta o SN mais marcado, o que estabelece a concordancia verbal. Na extremidade direita esta uma caracteristica semantica que revela desarmonia entre FA natural e linguistico (CAMACHO, 2002). Aplicando essa hierarquia na analise da sentenca (06), por exemplo, observamos a prioridade dada ao agente (John - P3 humano) em detrimento da entidade que sofre o processo, a arvore (P3 - inanimado).

A Hierarquia de Pessoa/Animacidade, de Dik (1997a [1989]), ou Hierarquia de Empatia, em DeLancey (1981), revela que e mais natural que a sentenca tenha como PV um dos participantes envolvidos na situacao discursiva. Assim, Camacho (2002) teoriza que o PV mais natural da sentenca e aquele que se constroi a partir da perspectiva do falante, quando este e parte do evento relatado.

2. Metodologia

As sentencas analisadas aqui retratam cinco eventos que foram noticias em jornais durante os meses de agosto e dezembro de 2013, a saber: a negacao do pedido de semiaberto para Susane Richthofen, a vitoria da Selecao Brasileira sobre a selecao de Honduras, o assassinato de um promotor em Pernambuco, a greve da rede bancaria e a causa de apagoes no Nordeste. Esses eventos foram escolhidos, em principio, aleatoriamente, e depois, por terem sido relatados, unanimemente, nos tres veiculos de informacao escolhidos, e com titulos diferentes. As manchetes que desobedeciam a esses padroes de coleta foram descartadas.

As manchetes foram coletadas em tres fontes disponiveis na internet, considerando a regiao Nordeste do Brasil--um blog de noticias local ("Blog Cardoso Silva"), um jornal de alcance regional ("O povo") e outro de alcance nacional e internacional ("O globo"). O objetivo era observar como o fator alcance poderia tambem influenciar a construcao da perspectivizacao.

Ao todo, quinze sentencas, cinco para cada suporte, foram analisadas de acordo com os principios da gramatica funcional de Dik (1997a [1989], 1997b) e a Hipotese do Fluxo de Atencao de DeLancey (1981). Tambem se recorreu as consideracoes de estudos anteriores, em especial, o de Bertoque e Casseb-Galvao (2010), que analisou as construcoes de voz em titulos de noticias e manchetes de jornais e utilizou o suporte teorico de Givon (2001), autor tambem considerado nesta analise.

3. Analise e discussao dos resultados

Das quinze sentencas escolhidas para compor a analise, um pouco mais da metade delas (8/53,3%) revelou harmonia entre FA linguistico e natural. Segundo Pezatti (1994, p. 44), tal fato explica o porque de "ser a sequencia sujeito-objeto a ordem mais comum de palavras nas linguas humanas". A autora, tambem, guiada pelos conceitos de DeLancey (1981), explica que "o fluxo de atencao na sentenca transitiva parte do agente (Origem) para o paciente (Meta); e nos eventos de percepcao, o ponto de partida e o experienciador e o elemento percebido, Meta" (PEZATTI, 1994, p. 44). Essa relacao iconica, portanto, exerce forte influencia sobre a escolha do ponto de partida do FA nos enunciados linguisticos. Segue-se agora a apresentacao detalhada dos dados.

3.1. Casos de harmonia entre FA natural e FA linguistico

A primeira sentenca a ser analisada aqui se refere ao resultado do jogo entre Brasil e Honduras. A selecao brasileira ganhou com cinco gols contra nenhum de seu adversario. Observa-se o uso de verbos ou expressoes (em negrito) que revelam o impressionante placar:

(10) Selecao Brasileira deixa hondurenhos no chinelo com goleada de 5 a 0 ("Blog Cardoso Silva", 17/11/2013, grifos nossos) (7).

(11) Brasil atropela 'selecao de MMA' de Honduras em jogo nada amistoso ("O povo", 17/11/2013, grifo nosso) (8).

(12) Selecao brasileira goleia Honduras nos EUA: 5 a 0 ("O globo", 17/11/2013, grifo nosso) (9).

Como era de se esperar, a codificacao linguistica revela a mesma ordem em que os eventos acontecem. O agente, a origem da acao, na posicao de sujeito, posicao tipicamente de referentes com traco [+humano] desencadeia uma acao, alterando o estado do referente na posicao de objeto. O sujeito agente ora e apresentado como um conjunto inanimado de elementos humanos (SILVA, 1991), nos exemplos (10) e (12), e ora e apresentado como o nome do pais-origem dos jogadores, em (11). O mesmo se da com o objeto.

Destaca-se aqui a noticia (11), em que, se nao houvesse a mencao a palavra "jogo", seria quase impossivel detectar apenas pelo titulo que se trata de uma partida de futebol. Das tres, e a noticia cujo evento real e o mais dificil de ser recuperado, exigindo mais atencao do leitor para sua interpretacao.

As noticias seguintes tambem foram amplamente divulgadas nos jornais do Brasil. Dias atras, os bancos estavam em greve e, todos os dias, o leitor esperava abrir o jornal e verificar o anuncio do fim da paralisacao, ate que, por fim, depara-se com as noticias abaixo:

(13) Rede privada encerra greve bancaria ("Blog Cardoso Silva", 12/10/2013) (10).

(14) Funcionarios de bancos particulares entram em acordo e encerram a greve ("O povo", 11/10/2013) (11).

(15) BB e bancos privados encerram greve em Sao Paulo ("O globo", 11/10/2013) (12).

A sentenca (14) traz como ponto de partida do fluxo de atencao natural e linguistico um sujeito com traco [+humano], o que confere validade a Hierarquia de Pessoa/Animacidade, apresentada em Dik (1997a [1989]). Nas sentencas (13) e (15), a proposta do autor se torna valida no sentido de que se podem considerar os referentes "Rede privada" e "BB e bancos privados", utilizados em sentido metaforico, referindo-se aos funcionarios dos bancos.

A noticia (15) tambem traz o destaque para o local onde os eventos se deram. O termo "em Sao Paulo", de acordo com Dik (1997a [1989]), funciona como satelite, termo que nao e necessariamente requerido pelo predicado, mas traz informacoes adicionais/opcionais pertencentes a localizacao do EsCo. Sendo opcional, sua presenca pode ser explicada por motivacoes especiais. Como "O globo" se trata de um jornal de alcance nacional e internacional, faz-se necessario pontuar onde se deram os eventos, situando o EsCo no espaco. De acordo com Bertoque e Casseb-Galvao (2010, p. 72), e comum, em jornais de largo alcance, "a referencia locativa nos titulos das noticias". Contudo, a informacao focal nao e o lugar onde se deram os fatos, mas o relato sobre os agentes que deram fim a greve. Desse modo, o escritor selecionou essas entidades como ponto de partida e dispos a informacao sobre o lugar dos fatos apenas no fim da sentenca.

3.2. Casos de desarmonia entre FA natural e FA linguistico

A proxima noticia a ser analisada foi divulgada por todo o Brasil e virou manchete de jornais durante muito tempo: o crime atribuido a Susane Richthofen, pelo assassinato de seus pais. O assunto foi amplamente comentado, caiu no anonimato, mas voltou a tona com o andamento do caso. Seguem as noticias abaixo:

(16a) Negado pedido de Susane Richthofen para cumprir regime semiaberto ("O povo", 01/12/2013 as 09h04) (13).

(16b) Ministro nega regime semiaberto para Susane Richthofen ("O povo"--01/12/2013 as 17h) (14).

(17) Ministro do STF nega pedido de transferencia de Susane Von Richthofen ("O globo", 02/12/2013) (15).

As manchetes (16b) e (17) revelam harmonia entre fluxo de atencao natural e linguistico, pois o verbo "negar" tem seus argumentos ordenados na direcao Origem-Objetivo-Meta. O destaque que se faz e para a sentenca (16a), em que se observa um processo de reducao da construcao passiva (BERTOQUE; CASSEB-GALVAO, 2010). Segundo as autoras, tal processo e um "enxugamento" textual, aproximando extensionalmente a construcao passiva a uma ativa. Elas mostram tambem que "a construcao passiva reduzida tem consideravel recorrencia na forma ergativa" (BERTOQUE; CASSEB-GALVAO, 2010, p. 72), como no exemplo abaixo, extraido do texto das autoras:

(18) Sepultada goiana (SujPac) morta em rodeio (ObjLoc) ("O Popular", 25/05/2009) [titulo da noticia] (BERTOQUE; CASSEB-GALVAO, 2010, p. 72, grifo das autoras).

A sentenca (16a) topicaliza a informacao que todos os leitores estavam esperando ha dias no transcurso do pedido de semiaberto para Susane Richthofen. Iniciar a manchete com "aceito" ou "negado" chama mais a atencao do leitor que esta acompanhando o caso.

As noticias seguintes, construidas em voz passiva, retratam o assassinato de um promotor pernambucano:

(19) Promotor e emboscado e assassinado em rodovia no Agreste Pernambucano ("Blog Cardoso Silva", 14/10/2013) (16).

(20) Promotor de Justica e assassinado com 20 tiros em PE ("O povo", 14/10/2013) (17) .

(21) Promotor e assassinado a tiros no sertao de Pernambuco ("O globo", 14/10/2013) (18).

As tres noticias destacam o promotor assassinado como ponto de vista do FA. Ele tambem acumula a funcao de sujeito paciente topicalizado. Esse realce tambem valida a Hierarquia de Pessoa/Animacidade de Dik (1997a [1989]), que poe em destaque referentes humanos como ponto de partida do FA linguistico. Assim, de acordo com Dik (1997a [1989]), sentencas como (22) seriam menos frequentes:

(22) Tiros matam Promotor de Justica.

Em (22), o termo "Tiros", com papel tematico de instrumental, e topicalizado e e o sujeito da sentenca, mas apresenta o traco [-humano]. Construcoes como essas precisariam de motivacoes especiais para sua producao.

As manchetes (19), (20) e (21) tambem apresentam, com unanimidade, a localizacao espacial do EsCo. A explicacao advem do fato de que nenhum dos meios jornalisticos selecionados para esta analise e de Pernambuco. Como dito anteriormente, a partir das reflexoes de Bertoque e Casseb-Galvao (2010), em geral, as noticias de jornais localizados em cidades onde se deram os fatos narrados nao apresentam satelites espaciais, por ele ser situacionalmente evocado (PRINCE, 1992); pelo contrario, quando a noticia e publicada fora do local dos eventos, faz-se necessario informar onde o evento se deu.

Quando se trata de um crime, os jornais se apressam em publicar o evento, mesmo sem conhecer o autor do crime, revelacao que demora muito tempo a ser descoberta. Dessa maneira, o agente nas referidas manchetes nao e apresentado, pois e um participante desconhecido. Por isso, ha desarmonia entre fluxo de atencao natural e o linguistico, ja que a sentenca nao pode ser construida sobre um agente desconhecido. A opcao, entao, e colocar em posicao inicial a entidade conhecida, como o "promotor", em (19), (20) e (21). Tal analise confirma a posicao de Bertoque e Casseb-Galvao (2010), que apontam a construcao de voz passiva como extremamente importante para a perspectivizacao, pois permite que se topicalize o paciente (vitima) e que se suprima o agente, dando saliencia ao fato.

Pelo contrario, quando o jornal tem acesso ao nome de suspeitos, eles sao apresentados, mas, geralmente, acompanhados de verbos conjugados no futuro do preterito, como em (23):

(23) Comerciante seria mandante de crime contra sem-teto do DF, diz delegado ("G1 --Globo.com", 06/03/2012)19.

No exemplo (23), tambem se percebe que a manchete foi enunciada com a utilizacao de um verbo de elocucao, com mencao ao nome de quem proferiu. Tambem e comum o uso de expressoes como "De acordo com o titular da 33a DP", "Segundo a advogada que esta cuidando do caso" etc. Geralmente, a fonte dos dados e alguem de autoridade, como um de legado, por exemplo, o que da mais validade as informacoes. Tais atitudes tem o intuito de fazer com que o jornal nao se comprometa com a veracidade das informacoes, que podem ser negadas a qualquer momento.

Nas proximas manchetes a serem analisadas, tambem se observa, em duas delas, o uso de verbos de elocucao, como forma de apresentar informacoes sem se comprometer com seu valor de verdade:

(24) Queimadas provocaram apagao no Nordeste ("Blog Cardoso Silva", 28/08/2013) (20).

(25) Apagao no NE foi causado por queimada no Piaui, diz ministro ("O povo", 28/08/2013) (21).

(26) Queimadas foram responsaveis por apagao no Nordeste, diz ONS ("O globo", 28/08/2013) (22).

Nos exemplos (25) e (26), o jornal da voz a uma terceira pessoa, especialista no assunto, para que a informacao seja considerada valida. A manchete (24), veiculada no blog, nao traz esse argumento de autoridade, talvez porque, se a noticia for depois desmentida, nao sera uma falta tao grave como o seria em um jornal mais conhecido. Percebe-se tambem que as tres noticias apresentam a localizacao espacial do EsCo, por meio da insercao dos satelites "no Nordeste" e "no Piaui", mas, como nos exemplos anteriores, nao constituem a informacao mais saliente.

As manchetes (24) e (26) ressaltam o termo "queimadas" como ponto de partida do FA natural e linguistico. As queimadas, que funcionam como causativo, sao responsabilizadas pelo apagao no Nordeste. Nao ha mencao ao agente desencadeador das queimadas. A falta de mencao ao agente e a insercao de um referente com traco [-humano] e [-animado] servem para tirar a responsabilidade de um agente humano. E possivel tambem que nao se tenha mencionado o agente das queimadas por ele nao ser conhecido (GIVON, 2001).

A manchete (25) coloca como ponto de partida do FA linguistico o termo "Apagao no NE". Ha desarmonia entre o FA natural e o linguistico e, como pontuado por DeLancey (1981), a alternancia de voz gerencia o FA. Nessa situacao, a construcao passiva ressalta o paciente, tratando-o como topico. Segundo Bertoque e Casseb-Galvao (2010, p. 64), "a construcao passiva e a representacao linguistica de um EsCo, representacao esta que apresenta a circunstancia a partir do ponto de vista do argumento afetado pelo processo verbal, salientando o fato". Nesse exemplo, o agente, um causativo, e mencionado, alem de se topicalizar o paciente. DeLancey (1981) pontua que as passivas com mencao ao agente sao menos naturais do que as que nao o mencionam, pois as primeiras revertem o FA natural, mas as ultimas apresentam apenas uma das extremidades do evento.

Consideracoes finais

Este artigo se propos a analisar, subsidiado por uma visao funcionalista da perspectivizacao (DELANCEY, 1981), noticias de jornais, verificando como sao gerenciados o fluxo de atencao e o ponto de vista, apresentando os casos de harmonia entre FA natural e linguistico e as motivacoes para os desvios.

Os resultados mostraram que um pouco mais da metade das sentencas refletiu uma harmonia entre fluxo de atencao natural e linguistico, confirmando os postulados iniciais de DeLancey (1981). Os casos de desvio apresentavam outras motivacoes para sua producao, como, por exemplo, o uso de voz passiva para topicalizar um paciente, ressaltando seu carater de vitima (BERTOQUE; CASSEB-GALVAO, 2010).

Outra consideracao importante foi quanto a insercao de satelites locativos nos titulos das noticias. Verificou-se que jornais locais geralmente nao apresentam o lugar onde se deram os fatos, pois ja e uma informacao pressuposta. Por outro lado, jornais de alcance nacional ou internacional tem a tendencia de situar a localizacao espacial do evento.

Em estudos posteriores, sugerimos o trabalho com novos dados, de maneira a verificar o alcance das investigacoes de DeLancey (1981) acerca da tematica da perspectivizacao. Alem disso, as investigacoes acerca das propostas do autor poderiam, tambem, ser observadas em demais linguas, alem do portugues, como, por exemplo, no espanhol e no ingles.

Referencias

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CAMACHO, Roberto G. O papel da estrutura argumental na variacao da perspectiva. In: KOCH, I. G. V. (org.). Gramatica do portugues falado. 2. ed. rev. Vol. VI: Desenvolvimentos. Campinas: Editora da UNICAMP--FAPESP, 2002. p. 259-279.

DELANCEY, Scott. An interpretation of split ergativity and related patterns. Language, Baltimore, v. 57, n. 3, p. 626-657, 1981.

DIK, Simon C. The theory of functional Grammar. Part 1 : the structure of the clause. 2 ed. rev. ed. Por Kess Hengeveld. Berlin, New York: Mounton de Gruyter, 1997a [1989].

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Data de envio: 01/05/2018

Data de aceite: 17/12/2018

Savio Andre de Souza Cavalcante *

Valdecy de Oliveira Pontes **

* Doutorando em Linguistica, pelo Programa de Pos-Graduacao em Linguistica da Universidade Federal do Ceara. Professor tutor do Instituto Universidade Federal do Ceara Virtual / Universidade Aberta do Brasil, nos cursos de graduacao Letras-Portugues e Letras-Espanhol, na modalidade a distancia.

** Professor Adjunto em Letras-Espanhol/ Letras-Portugues/Espanhol da Universidade Federal do Ceara.

(1) Disponivel em: <http://www.blogcardososilva.com.br/>. Acesso em: 08 jan. 2019.

(2) Disponivel em: <https://www.opovo.com.br/>. Acesso em: 08 jan. 2019.

(3) Disponivel em: <https://oglobo.globo.com/>. Acesso em: 08 jan. 2019.

(4) Todas as traducoes neste trabalho sao de nossa responsabilidade.

(5) Cf.: "something which can be the case in some world" (DIK, 1997a [1989], p. 105).

(6) Para detalhar a nocao de "primeiro argumento", Dik (1997a [1989]) sugere a leitura de Groot (1981).

(7) Link da noticia nao mais disponivel, ja que os arquivos do blog sao a partir de 2014.

(8) Link da noticia nao mais disponivel no site do jornal.

(9) Extraido de: <https://oglobo.globo.com/esportes/copa-2014/selecao-brasileira-goleia-honduras-nos-eua-5-0-10799498>. Acesso em: 07 jan. 2019.

(10) Link da noticia nao mais disponivel, ja que os arquivos do blog sao a partir de 2014.

(11) Link da noticia nao mais disponivel no site do jornal.

(12) Extraido de: <http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/10/bb-e-bancos-privados-encerram-greve-em-saopaulo.html>. Acesso em: 07 jan. 2019.

(13) Link da noticia nao mais disponivel no site do jornal.

(14) Link da noticia nao mais disponivel no site do jornal.

(15) Extraido de: <https://extra.globo.com/noticias/brasil/ministro-do-stf-nega-pedido-de-transferencia-de-suzane-von- richthofen-10946477.html>. Acesso em: 07 jan. 2019.

(16) Link da noticia nao mais disponivel, ja que os arquivos do blog sao a partir de 2014.

(17) Link da noticia nao mais disponivel no site do jornal.

(18) Extraido de: <https://oglobo.globo.com/brasil/promotor-assassinado-tiros-no-sertao-de-pernambuco10359124>. Acesso em: 07 jan. 2019.

(19) Extraido de: <http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2012/03/comerciante-seria-mandante-de-crimecontra-sem- teto-do-df-diz-delegado.html>. Acesso em: 07 jan. 2019.

(20) Link da noticia nao mais disponivel, ja que os arquivos do blog sao a partir de 2014.

(21) Link da noticia nao mais disponivel no site do jornal.

(22) Extraido de: <https://extra.globo.com/noticias/brasil/queimadas-foram-responsaveis-por-apagao-no-nordeste-diz-ons- 9734393.html>. Acesso em: 07 jan. 2019.
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Author:de Souza Cavalcante, Savio Andre; de Oliveira Pontes, Valdecy
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jul 1, 2018
Words:5139
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