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The perception of the young and long-lived elderly 'gauchos' (from the state of Rio Grande do Sul, Brazil) about the public spaces they live in/Percepcao dos idosos jovens e longevos gauchos quanto aos espacos publicos em que vivem (from the state of Rio Grande do Sul, Brazil) about the public spaces they live in/Percepcao dos idosos jovens e longevos gauchos quanto aos espacos publicos em que vivem.

Introducao

O crescimento do contingente populacional que reside em espacos urbanos no Brasil e evidente. Essa tendencia pode ser observada quando comparadas as estimativas de individuos habitantes de areas urbanas e rurais para o ano de 2050 no pais. A populacao nas grandes cidades esta estimada para mais de 200 milhoes de habitantes (1). Enquanto a perspectiva de individuos residentes em areas rurais se aproxima dos 20 milhoes (2). Em paralelo as estimativas de urbanizacao da populacao brasileira tem-se uma grande perspectiva de envelhecimento populacional, no qual a projecao de pessoas com 60 anos ou mais para o mesmo ano corresponde a 29% da populacao total brasileira (3).

Um pais urbanizado e com crescentes taxas de segmentos populacionais mais velhos necessita de planejamentos em longo prazo para garantir uma sociedade para todos. Enfatizar aspectos de habitacao, servicos de saude, meio ambiente, educacao e oportunidades para que as diversas faixas etarias possam estabelecer vinculos e integrar-se ao ambiente em que vivem torna-se essencial (4).

A construcao de sociedades integradas para todos pode ter inicio a partir das Cidades Amigas do Idoso. A Organizacao Mundial da Saude (OMS) define como cidade amiga do idoso aquela que estimula o envelhecimento ativo ao otimizar as oportunidades para a saude, a participacao e a seguranca, com o objetivo de aumentar a qualidade de vida no envelhecimento. Modifica e adapta suas estruturas de forma que a populacao idosa possa interagir com o ambiente comunitario nas suas diferentes realidades (5).

Aspectos do meio urbano sao determinantes de um envelhecimento ativo e saudavel, tais como a qualidade dos espacos abertos e predios, o apoio comunitario e servicos de saude, a comunicacao e a informacao, a participacao civica e o emprego, o respeito e a inclusao social, a participacao social, a moradia e o transporte (6).

A percepcao que os idosos possuem do meio urbano e determinante de suas relacoes com a cidade, um idoso que sente-se inseguro para sair as ruas, sem oportunidades de participacao e privado de mobilizacao por falta de uma estrutura urbana adequada, acaba enclausurado em sua residencia. Ja um ambiente sem obstaculos, que oferece condicoes confortaveis para movimentacao proporciona maior contato do idoso com a cidade (7).

Os idosos de diversas faixas etarias podem reagir diferentemente frente aos obstaculos do ambiente, para melhor captar essa diferenca surge a subdivisao dos idosos em longevos e jovens. Os longevos sao aqueles que possuem 80 anos ou mais de idade, sendo considerados idosos jovens aqueles que se caracterizam como nao longevos (60 a 79 anos) (8, 9). O Rio Grande do Sul (RS) e o quarto estado brasileiro com maior numero de idosos segundo o CENSO de 2010 (10), torna-se notoria a necessidade de garantir que os idosos jovens e longevos possam desfrutar de todos os bens que a sociedade possa lhes proporcionar.

O presente estudo tem como objetivo verificar a diferenca da percepcao que os idosos jovens e longevos do Rio Grande do Sul possuem do ambiente urbano em que vivem. Atraves da verificacao dessa diferenca de percepcao, poderao ser identificadas as necessidades especificas de cada um, enfatizando os dados relacionados ao grupo mais velho, uma vez que e um segmento com poucas referencias na literatura cientifica, carecendo de informacoes que possam qualificar as estrategias para o seu cuidado. Conhecendo a realidade desses idosos, podem-se evidenciar as caracteristicas positivas ou negativas que as cidades do RS oferecem para a interacao social desse contingente populacional, redimensionando acoes relacionadas a promocao da saude desta populacao.

Metodos

O presente estudo caracteriza-se por ser de base populacional, observacional, descritivo, retrospectivo, com paradigma de analise quantitativa. Analisou dados oriundos do banco de dados da pesquisa Perfil dos Idosos do RS, realizada pelo Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS (IGG-PUCRS) em parceria com a Escola de Saude Publica do RS (ESP) nos anos de 2010 e 2011. O questionario aplicado aos idosos na pesquisa de base fundamentou-se no relatorio da Organizacao Mundial da Saude "Guia Global: cidade amiga do idoso". O instrumento final foi composto por 72 questoes fechadas com escolha simples ou multipla, agrupadas em 13 blocos tematicos sendo eles: dados gerais do idoso, caracteristicas do idoso e seu ambiente, transporte, habitacao, renda, saude, respeito e inclusao social, participacao social, civica e laboral, sexualidade, comunicacao e informacao, suporte comunitario e servicos de saude, composicao familiar e ocupacao.

A amostra estudada no presente estudo foi composta por 6913 questionarios respondidos por idosos de 60 anos ou mais, de ambos os generos, residentes em areas urbanas de 59 municipios do RS. Foram excluidos das analises os questionarios dos idosos que residem em areas rurais, o criterio de exclusao foi pagar o imposto territorial rural (ITR). O comprometimento cognitivo tambem foi um criterio de exclusao, identificado pela impossibilidade de memorizar duas de tres palavras solicitadas.

Foram analisadas as respostas de 5 questoes da pesquisa de base selecionadas a partir do seguinte tema: percepcao dos idosos jovens e longevos quanto aos locais publicos urbanos que frequentam. A coleta de dados retrospectivos ocorreu de fevereiro a marco de 2013. A analise dos dados foi realizada com cada um dos grupos etarios: idosos jovens (60 a 79 anos) e idosos longevos (80 anos ou mais), para que assim a diferenca de percepcao dos mesmos quanto ao ambiente urbano pudesse ser verificada.

As tabelas de cruzamento das respostas dos idosos jovens e longevos referentes as variaveis independentes (categoricas) foram testadas pelo Qui-quadrado. Foram considerados significativos os testes que corresponderam a um nivel de significAncia menor ou igual que 0,05. Os dados coletados foram tabulados atraves do software Epi Info, versao 3, 5.

O projeto de pesquisa que gerou o banco de dados foi aprovado pelo Comite de Etica e Pesquisa da Escola de Saude Publica e pelo Comite de Etica em pesquisa da PUCRS. Nessa pesquisa todos os entrevistados assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. O banco de dados analisado nao continha informacoes pessoais dos entrevistados, desta forma a analise foi feita respeitando o sigilo de suas identidades.

Resultados

Foram analisadas as respostas quanto a percepcao do ambiente urbano a partir de um questionario respondido por 6913 individuos, dentre estes, 6056 idosos jovens e 857 idosos longevos, sendo 51,6% mulheres e 48,4% homens. Nao houve diferenca estatisticamente significativa na distribuicao do genero entre os idosos jovens e os longevos.

Quanto a frequencia de sair de casa semanalmente, 6030 idosos no total de entrevistas analisadas responderam que saem de sua residencia com essa frequencia, sendo o percentual de idosos longevos que nao saem de casa semanalmente significativamente maior do que no grupo de idosos jovens (Tabela 1).

A falta de seguranca foi a maior dificuldade enfrentada para sair de casa, referida por 1378 entrevistados, tanto longevos como jovens, nao havendo diferenca estatistica entre os grupos. A dificuldade de locomocao foi a segunda opcao mais relatada, correspondendo a 166 idosos longevos e 424 idosos jovens, sendo significativamente mais frequente no grupo mais velho. O fato de nao se sentirem motivados foi mais referido entre os idosos longevos demonstrando diferenca estatisticamente significativa entre os grupos. A falta de ter com quem sair, a dificuldade de enxergar e a dificuldade com o transporte coletivo ou privado, obtiveram percentuais significativos e maiores entre os idosos longevos. As dificuldades encontradas pelos entrevistados foram percentualmente maiores entre o grupo mais velho, o que sugere uma maior limitacao destes para sairem de casa (Tabela 2).

Sobre a percepcao dos locais publicos frequentados, os ambientes inseguros foram relatados por 1590 idosos jovens e 215 longevos, somando 26,1% dos individuos entrevistados. Nao houve diferenca significativa entre os dois grupos, ambos percebem essa limitacao do espaco publico, conforme Tabela 3. A alternativa "poucos bancos ou em mal estado" foi significativamente mais relatada pelos idosos jovens (19,6%). Os locais publicos "sujos, sem limpeza" foram evidenciados por 1024 pessoas, nao obtendo diferenca significativa entre as duas faixas etarias. Ambientes pouco iluminados foram significativamente mais percebidos pelos idosos jovens, correspondendo a 542 participantes do estudo. No total, 1508 entrevistados declararam nao saber responder, pois nao frequentam os locais publicos, sendo este percentual significativamente maior no grupo mais velho (Tabela 3).

Quando questionados quanto as principais barreiras para atravessar as vias publicas, a maior dificuldade apontada foi a de que os carros nao param na faixa de pedestre, relatada por 1181 idosos jovens e 149 longevos, nao havendo diferenca estatistica entre os dois grupos (Tabela 4). A segunda caracteristica significativamente mais percebida, tendo seu percentual maior entre o grupo mais jovem (18,1%) foi a falta das faixas de seguranca. Os ambientes inseguros foram significativamente mais identificados pelos idosos longevos, correspondendo a 172 individuos. O tempo do sinal muito curto para pedestres foi significativamente mais enfatizado pelos idosos jovens (17,5%). Nao houve diferenca estatistica entre os idosos jovens e longevos quanto a percepcao das calcadas estreitas, mal conservadas ou inexistentes, sendo estas referidas por 1022 individuos. Os degraus (meio fio ou calcada) muito altos ou ingremes foram significativamente mais relatados pelos longevos (15,2%). A alternativa "nao sai de casa ou nao anda pelas ruas, so usa carro", foi identificada por 769 (11,1%) individuos, sendo estatisticamente significativa a maior prevalencia entre o grupo mais velho (Tabela 4).

Em relacao a percepcao dos banheiros publicos sao relatados o mau cheiro e a sujeira, sendo significativamente mais citados entre os idosos jovens, o que sugere que estes percebem mais essa caracteristica porque saem mais de casa, conforme Tabela 5. A alternativa falta papel higienico e/ou toalha tambem foi significativamente mais percebida pelos idosos jovens, com um total de 1212 dos entrevistados. Quanto a percepcao dos "banheiros escassos ou nao sabe onde tem" esta foi apontada por 788 (13,0%) idosos jovens e 121 (14,1%) longevos, nao havendo diferenca significativa entre os dois grupos. Enfatiza-se novamente o grande numero total de idosos longevos que responderam significativamente a alternativa "nao sai de casa, nao sabe informar", correspondendo a 182 entrevistados.

Discussao

No Censo de 2010 observou-se que 13,8% dos idosos tinham 80 anos ou mais, desta forma, a porcentagem de longevos entrevistados esta bastante proxima do percentual do Censo, sendo esta uma amostra com representatividade populacional. Quanto ao genero, esta pesquisa evidenciou que o percentual de mulheres foi maior que o dos homens. Fato tambem demonstrado em outros estudos onde as amostras sao compostas na maioria por mulheres (11-14). Na literatura internacional e relatado que os homens tem maior mortalidade quando comparados com as mulheres (15). Esse fato e relacionado por alguns autores com o tabagismo, sendo esse habito mais evidenciado no sexo masculino, gerando maior probabilidade de mortalidade por doencas respiratorias nesse grupo (16). Os homens tambem sao mais acometidos por doenca pulmonar obstrutiva cronica, insuficiencia cardiaca e todas as formas de doencas arteriais (doencas com maiores indices de mortalidade), sendo as mulheres mais acometidas por comorbidades como osteoporose e depressao. Demonstrando, portanto, alguns motivos destas serem a maioria na populacao idosa (17, 18).

Neste estudo, sobre a frequencia que os idosos saem de casa semanalmente, o numero de longevos que referiram nao ter esse habito mostrou-se significativamente maior. Um estudo realizado na Cidade de Palmeira das Missoes (RS), para avaliar a qualidade de vida e o nivel cognitivo de idosos participantes de quatro grupos da terceira idade que se reuniam semanalmente, onde realizavam atividades como oficinas de artesanato, danca, passeios, exercicios fisicos e socializacao, identificou que a porcentagem de participacao de idosos mais velhos foi inferior, predominando os idosos entre 60 e 69 anos e 70 e 79 anos (19). Estudos com esse mesmo tema abordam a importAncia das interacoes sociais para os idosos. E a partir do cotidiano de relacoes que os idosos tornamse conscientes de seus papeis como atores sociais, sendo capazes de contribuir para a sociedade (20).

Em relacao a falta de seguranca para sairem de casa, esta pesquisa demonstrou que tanto os idosos jovens, quanto os longevos, percebem a falta de seguranca como limitadora. A literatura demonstra a preocupacao da populacao em relacao a melhora da qualidade da seguranca publica, o que possibilita os individuos de frequentarem parques abertos na comunidade de forma mais tranquila. Portanto, a percepcao da falta de seguranca pode influenciar diretamente o uso de areas de lazer (21).

A dificuldade de locomocao neste estudo foi maior no grupo longevo, sugere-se que isso ocorreu pelo fato desse grupo possuir mais morbidades e incapacidades. Um estudo realizado em Vicosa (MG) analisou a capacidade funcional de idosos longevos residentes em areas urbanas do municipio, identificando que a perda da capacidade funcional obteve associacao significativa com o fator "nao visitar parentes e/ou amigos uma vez por semana", como tambem "nao participar de alguma obra social ou nao participar de eventos sociais". O mesmo estudo tambem demonstra que as chances de pessoas com mais de 85 anos apresentarem dependencia funcional e tres vezes maior do que em pessoas com menos de 85 anos (22). Estudos internacionais chamam atencao para a possivel associacao das perdas funcionais e a maior chance de dependencia com o aumento da idade (23-26). Os dados aqui relatados corroboram com a necessidade de identificacao precoce, dos motivos que levam os idosos longevos a possuirem maior dificuldade de locomocao, para que assim, acoes de assistencia e prevencao possam ser direcionadas a esse segmento populacional.

Observou-se neste estudo que os idosos longevos sao mais afetados pela falta de motivacao para sairem de casa. Pode-se inferir que estes sejam mais acometidos por fatores que fazem com que os mesmos optem por ficar em suas residencias, como por exemplo, a depressao. Um estudo que corrobora com o presente achado, avaliou em Pelotas (RS) a frequencia de alguns sintomas depressivos na comunidade urbana de idosos do municipio. Foi demonstrado que as medias de sintomas depressivos (dentre eles, preferir ficar em casa e a falta de disposicao) sao mais frequentes em mulheres, com idades mais avancadas, e naqueles com baixa escolaridade (27).

A falta de ter com quem sair prevaleceu no grupo dos longevos no presente estudo. Em estudo que analisou duas comunidades de longevos em regioes diferentes do pais, uma em Ribeirao Preto (SP) e outra em Caxias do Sul (RS), demonstrou que em ambas as cidades existe um grande numero de idosos que moram sozinhos, sendo essa proporcao maior entre os gauchos (28). Fato este que corrobora com a hipotese de que muitos idosos longevos nao saem de suas residencias por nao terem companhia e ate mesmo apoio social adequado. No Guia Global Cidade Amiga do Idoso, a necessidade de reforco da rede de suporte comunitario aos idosos e enfatizada. Um estudo realizado em Porto Alegre (RS) para conhecer o perfil de idosos de uma determinada comunidade, destacou que quando questionados quanto ao apoio social informal, metade da amostra nao se percebeu recebendo esse apoio (29).

As dificuldades de enxergar e com transporte coletivo ou privado, mais citadas entre os idosos longevos, tambem foram evidenciadas nesta pesquisa como fatores contribuintes para que estes saissem menos de suas residencias. O grupo tambem relatou que o medo de se perder esta entre esses fatores. Sugere-se que o medo de se perder esteja associado a deficits relacionados a memoria dos idosos mais velhos. Estudos indicam que transtornos cognitivos, dentre estes, os problemas de memoria, sao mais frequentes conforme o aumento da idade e o envelhecimento (30, 31).

A percepcao de poucos bancos ou em mau estado foi referida, em sua maioria, pelos idosos jovens. Idosos de todo o mundo relataram no Guia Global Cidade Amiga do Idoso que sentem dificuldade de andar pela cidade quando esta oferece poucos lugares para sentar e descansar. Estudos evidenciam a diminuicao da capacidade funcional em idosos no Brasil no decorrer dos anos (32-34). A perda gradativa da capacidade funcional pode ser responsavel pela necessidade mais frequente dos idosos em sentar, de forma que a falta de banco ou bancos em estado precario podem impedir que o idoso usufrua dos atrativos que o meio urbano oferece.

Os ambientes publicos pouco iluminados foram mais percebidos nesta pesquisa como uma dificuldade para sair de casa pelos idosos jovens. Um estudo realizado em Florianopolis (SC) para expressar as caracteristicas das condicoes de vida e saude da populacao idosa demonstrou que um terco da amostra considerava sua visao ruim ou pessima. Entre os que diziam estar com alguma deficiencia visual, a maioria referiu que este problema atrapalha suas rotinas bem como a realizacao de algumas atividades desejadas (35). Sugere-se que a diminuicao da acuidade visual somada a ma iluminacao de alguns locais publicos, podem ser fatores que afetam diretamente a escolha destes por nao circularem a noite em ambientes da cidade, tendo assim, menos oportunidades de socializacao e deslocamento frente as suas diferentes capacidades.

Observou-se no presente estudo um percentual maior de idosos mais velhos que referiram nao saber responder sobre sua percepcao dos locais publicos, porque nao frequentavam os mesmos. Isso pode refletir a maior exclusao social deste segmento populacional. Enfatiza-se a necessidade de acoes concretas a partir das politicas publicas do idoso que garantam a maior participacao social desses individuos, tornando a cidade mais atrativa e acolhedora. O Estatuto do Idoso afirma que a protecao do envelhecimento e um direito social e que e dever do Estado assegurar ao idoso sua participacao na vida comunitaria (36).

Neste estudo foi expressivo o numero total de idosos que referiram a falta das faixas de seguranca e o tempo de sinal muito curto para pedestres como barreiras para atravessarem as vias publicas, particularmente, no segmento mais jovem. Em um estudo realizado na Cidade de Barreto (SP), a existencia da faixa de seguranca para travessia de pedestres nas esquinas, foi identificada como a caracteristica das calcadas e dos passeios publicos mais importante para a seguranca de individuos idosos, segundo a percepcao dos mesmos (37). As alteracoes fisiologicas do envelhecimento, tais como a dificuldade de locomocao e o aumento do tempo de reacao, somadas ao meio urbano mal estruturado e desorganizado, podem levar a um cansaco desencorajante para os idosos pedestres usufruirem dos lugares publicos (38).

Os degraus (meio fio ou calcada) muito altos ou ingremes foram mais percebidos pelos idosos longevos deste estudo. E dever do Estado assegurar que algumas barreiras arquitetonicas e urbanisticas sejam eliminadas, para melhor circulacao da populacao nos espacos da cidade. O Artigo 3o. da Lei 10.098/2000, afirma que o planejamento e a urbanizacao das vias publicas, dos parques e demais espacos comunitarios, deverao ser elaborados de forma que proporcionem acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, como no caso dos idosos longevos (39).

Os idosos jovens deste estudo perceberam mais o mau cheiro dos banheiros publicos, possivelmente porque saem mais de casa e utilizam mais esses espacos. E referenciada na literatura a diminuicao do olfato com o processo de envelhecimento (40). Mesmo podendo ter essa caracteristica tipica do envelhecimento o mau cheiro e referido, o que direciona para a realidade precaria da higienizacao de alguns banheiros publicos, afetando diretamente o uso destes pelos idosos.

A falta de papel higienico e/ou toalha nos banheiros publicos tambem foi uma caracteristica enfatizada pelos idosos jovens da presente pesquisa. Estudos demonstram que a populacao idosa e acometida por disturbios como a incontinencia urinaria, o que pode gerar a urgencia dos idosos para utilizacao de um banheiro publico (41, 42). Evidencia-se a importAncia da melhora dos aspectos estruturais destes banheiros de forma que a qualidade de vida da populacao idosa frequentadora de ambientes comunitarios nao seja afetada. Paises europeus tem direcionado a atencao para esses quesitos ao disponibilizar banheiros publicos de facil acessibilidade e inclusive com dispositivos autolimpantes (43).

Consideracoes Finais

Este estudo demonstrou a diferenca de percepcao que os idosos jovens e longevos gauchos possuem do ambiente urbano em que vivem. A percepcao de algumas dificuldades como poucos bancos, locais pouco iluminados, falta de faixas de seguranca, tempo de sinal muito curto para pedestres, degraus muito altos e mau cheiro dos banheiros publicos foi maior entre os idosos jovens. Ao mesmo tempo em que os idosos longevos perceberam menos esses fatores, o grupo referiu que frequentava menos os ambientes comunitarios, estabelecendo, assim, uma diminuicao da relacao desse contingente populacional longevo com suas cidades. Este tipo de achado apresenta-se como um dos principais fatores determinantes da qualidade de vida dos idosos longevos, sinalizando a necessidade de serem criadas estrategias que possibilitem ampliar a capacidade desses individuos sentiremse mais felizes e saudaveis no meio onde vivem.

A execucao de acoes formuladas a partir dos principios da solidariedade, democracia e participacao emergem como prioridades no combate as dificuldades apresentadas pelos idosos que participaram da pesquisa, as quais veem influenciando negativamente no seu estilo de vida. Como alternativa, por exemplo, da falta de iluminacao publica consideramos a importAncia do Estado se comprometer com a execucao de obras que melhorem a iluminacao nos espacos de uso comum das cidades do Rio Grande do Sul, tornando estes locais mais atrativos e seguros.

Poderao ser elaboradas, em parceria com os governos e a sociedade, estrategias para a utilizacao e melhoria dos recursos existentes nas comunidades como pracas, parques, espacos de convivencia, dentre outros. Viabilizar a utilizacao desses espacos podera promover bem estar e qualidade de vida da pessoa idosa. Em relacao as demais dificuldades apresentadas nesta pesquisa, deve-se pensar em um contingente maior de investimentos para a construcao de mais bancos e para melhorar a infraestrutura dos banheiros publicos.

A travessia de vias publicas apresenta-se neste estudo como uma das limitacoes encontradas pelos idosos jovens, justificada pela falta de faixas de seguranca. Nesse sentido destacamos a relevAncia da construcao de mais faixas de seguranca e a realizacao de acoes voltadas para a educacao no trAnsito, com foco na diminuicao dos acidentes que podem acometer esses idosos que circulam pelos espacos urbanos.

Acoes concretas a partir das politicas publicas ja existentes, que possibilitem uma coexistencia amigavel entre o idoso e o ambiente urbano, sao de suma importAncia para uma vida urbana satisfatoria. Em especial, enfatiza-se a necessidade de mais estrategias para o cuidado do grupo longevo, para que suas interacoes cotidianas sejam ampliadas e assim seja garantido o seu envelhecimento ativo. Novos estudos com essa problematica podem servir como alicerce para a construcao de um Brasil urbanamente mais acolhedor de seus idosos longevos.

Colaboradores

JHN Navarro, FP Andrade, TS Paiva, DO Silva, CF Gessinger e AJG Bos participaram igualmente de todas as etapas de elaboracao do artigo.

DOI: 10.1590/1413-81232015202.03712014

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(34.) Aires M, Paskulin LMG, Morais EP. Capacidade Funcional de Idosos Mais Velhos: estudo comparativo em tres regioes do Rio Grande do Sul. Rev Latino-Am Enfermagem 2010; 18(1):11-17.

(35.) Benedetti TB, Petroski EL, Goncalves LT. Condicoes de Saude nos Idosos de Florianopolis. Arquivos Catarinenses de Medicina 2006; 35(1):44-51.

(36.) Brasil. Lei No. 10.741, de 1o. de outubro de 2003. Dispoe sobre o Estatuto do Idoso e da outras providencias. Diario Oficial da Uniao 2003; 1 out.

(37.) Lunaro A. Avaliacao dos Espacos Urbanos Segundo a Percepcao das Pessoas Idosas--SP [dissertacao]. Sao Carlos: Universidade de Sao Carlos; 2006.

(38.) Micheletto TMGP. O Risco do Idoso Pedestre nas Vias Urbanas. Sao Paulo: Companhia de Engenharia de Trafego [Notas tecnicas]; 2011.

(39.) Brasil. Lei No. 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Dispoe sobreos criterios basicos para a promocao da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiencia ou com mobilidade reduzida e da outras providencias. Diario Oficial da Uniao 2000; 19 dez.

(40.) Lima JP. A Influencia das Alteracoes Sensoriais na Qualidade de Vida do Idoso. Rev Cientifica Eletronica de Psicologia [periodico na internet]. 2007 maio [acessado 2013 jun 9]; (8). Disponivel em: http://www.revista.inf. br/psicologia08/pages/artigos/edic08-anov-art03.pdf

(41.) Honorio MO, Santos SMS. Incontinencia Urinaria e Envelhecimento: impacto no cotidiano e na qualidade de vida. Rev Bras Enferm 2009; 62(1):51-56.

(42.) Abreu NS, Baracho ES, Tirado MGA, Dias R. Qualidade de Vida na Perspectiva de Idosas com Incontinencia Urinaria. Rev Bras Fisioter 2007; 11(6):429-436.

(43.) O Guia de Paris. Como funciona o banheiro publico em Paris [reportagem Blog]. 2011; janeiro. [acessado 2013 jun 9]. Disponivel em: http://oguiadeparis.blogspot. com.br/2011/01/como-funciona-o-banheiro-publico -em.html

Artigo apresentado em 11/04/2014

Aprovado em 13/06/2014

Versao final apresentada em 15/06/2014

Joel Hirtz do Nascimento Navarro [1]

Francini Porcher Andrade [2]

Tiago Sousa Paiva [3]

Diovana Ourique da Silva [2]

Cristiane Fernanda Gessinger [2]

Angelo Jose Goncalves Bos [1]

[1] Instituto de Geriatria e Gerontologia, Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul. Av. Ipiranga 6681, Partenon. 90619-900 Porto Alegre RS Brasil.joelhnn@hotmail. com

[2] Instituto Porto Alegre, Centro Universitario Metodista.

[3] Programa de Valorizacao do Profissional da Atencao Basica, Ministerio da Saude.
Tabela 1. Frequencia semanal que o idoso sai de casa.

                               Idosos Jovens   Idosos Longevos
                                   N (%)            N (%)

Sai de casa semanalmente       5.379 (90,8)      651 (77,5)
Nao sai de casa semanalmente     545 (9,2)       189 (22,5)

                                   Total        Valor p

Sai de casa semanalmente       6.030 (89,1%)   P < 0,001
Nao sai de casa semanalmente    734 (10,9%)

Tabela 2. Dificuldades encontradas para sair de casa.

                                       Idosos Jovens   Idosos Longevos
                                           N (%)            N (%)

Falta de seguranca                     1.188 (19,6)      190 (22,2)
Dificuldade de locomocao                    424 (7)      166 (19,4)
Nao se sente motivado (a)                 289 (4,8)        71 (8,3)
Falta de ter com quem sair                  180 (3)        46 (5,4)
Necessidade de banheiro com                 121 (2)        24 (2,8)
  frequencia
Dificuldades de enxergar                   95 (1,6)        40 (4,7)
Dificuldade com transporte coletivo       107 (1,8)          26 (3)
  ou privado
Dificuldade de comunicacao (ouvir          43 (0,7)        11 (1,3)
  ou falar)
Medo de se perder                          23 (0,4)        15 (1,8)
Outra dificuldade                          20 (0,3)         5 (0,6)
Nao observa nenhuma dificuldade        4.053 (66,9)      423 (49,4)

                                           Total           Valor p

Falta de seguranca                     1.378 (19,9%)      p = 0,079
Dificuldade de locomocao                  590 (8,5%)      p < 0,001
Nao se sente motivado (a)                 360 (5,2%)      p < 0,001
Falta de ter com quem sair                226 (3,3%)      p < 0,001
Necessidade de banheiro com               145 (2,1%)      p = 0,124
  frequencia
Dificuldades de enxergar                    135 (2%)      p < 0,001
Dificuldade com transporte coletivo       133 (1,9%)      p = 0,011
  ou privado
Dificuldade de comunicacao (ouvir          54 (0,8%)      p = 0,074
  ou falar)
Medo de se perder                          38 (0,5%)      p < 0,001
Outra dificuldade                          24 (0,4%)      p < 0,001
Nao observa nenhuma dificuldade        4.476 (64,7%)      p = 0,247

Tabela 3. Percepcao dos locais publicos frequentados.

                                       Idosos Jovens   Idosos Longevos
                                           N (%)            N (%)

Inseguros                              1.590 (26,3)      215 (25,1)
Poucos bancos ou em mau estado         1.189 (19,6)      138 (16,1)
Sujos (sem limpeza)                      912 (15,1)      112 (13,1)
Pouco iluminados                          542 (8,9)        47 (8,0)
Pouco arborizados                         486 (8,0)        41 (7,8)
Muitos degraus                            143 (2,4)        21 (2,5)
Nao observa nenhum desses problemas    1.873 (30,9)      224 (26,1)
Nao sabe responder (nao frequenta)     1.215 (20,1)      293 (34,2)

                                           Total           Valor p

Inseguros                              1.805 (26,1%)      p = 0,466
Poucos bancos ou em mau estado         1.327 (19,2%)      p = 0,014
Sujos (sem limpeza)                    1.024 (14,8%)      p = 0,124
Pouco iluminados                          589 (8,5%)      p < 0,001
Pouco arborizados                         527 (7,6%)      p < 0,001
Muitos degraus                            164 (2,4%)      p = 0,872
Nao observa nenhum desses problemas    2.097 (30,3%)      p = 0,004
Nao sabe responder (nao frequenta)     1.508 (21,8%)      p < 0,001

Tabela 4. Principais barreiras apontadas para atravessar as vias
publicas.

                                       Idosos Jovens   Idosos Longevos
                                           N (%)            N (%)

Os carros nao param na faixa de        1.181 (19,5)      149 (17,4)
  pedestre
Falta faixas de seguranca              1.094 (18,1)      131 (15,3)
Ambientes inseguros                    1.051 (17,4)      172 (20,1)
O tempo do sinal muito curto para      1.059 (17,5)      126 (14,7)
  pedestres
Calcadas estreitas, mal conservadas      881 (14,5)      141 (16,5)
  ou inexistentes
Degraus (meio fio ou calcada) muito      686 (11,3)      130 (15,2)
  altos ou ingremes
Nao existe sinaleira (semaforo)           477 (7,9)        62 (7,2)
  para pedestres
Ruas e ambientes mal iluminados           270 (4,5)        43 (5,0)
Calcadas com muito vendedores e           205 (3,4)        24 (2,8)
  carros estacionados
Ciclistas nao respeitam os pedestres      115 (1,9)        25 (2,9)

Outro problema                             25 (0,4)         8 (0,9)
Nao apresenta dificuldade (exclui      2.081 (34,4)      194 (22,6)
  as outras)
Nao sai de casa ou nao anda pelas         564 (9,3)      205 (23,9)
  ruas (so usa carro)

                                           Total           Valor p

Os carros nao param na faixa de        1.330 (19,2%)      p = 0,141
  pedestre
Falta faixas de seguranca              1.225 (17,7%)      p = 0,046
Ambientes inseguros                    1.223 (17,7%)      p = 0,051
O tempo do sinal muito curto para      1.185 (17,1%)      p = 0,042
  pedestres
Calcadas estreitas, mal conservadas    1.022 (14,8%)      p = 0,141
  ou inexistentes
Degraus (meio fio ou calcada) muito      816 (11,8%)      p = 0,001
  altos ou ingremes
Nao existe sinaleira (semaforo)           539 (7,8%)      p = 0,511
  para pedestres
Ruas e ambientes mal iluminados           313 (4,5%)      p = 0,461
Calcadas com muito vendedores e           229 (3,3%)      p = 0,370
  carros estacionados
Ciclistas nao respeitam os pedestres        140 (2%)      p = 0,047

Outro problema                             33 (0,5%)      p = 0,038
Nao apresenta dificuldade (exclui      2.275 (32,9%)      p < 0,001
  as outras)
Nao sai de casa ou nao anda pelas        769 (11,1%)      p < 0,001
  ruas (so usa carro)

Tabela 5. Percepcao dos banheiros publicos.

                                       Idosos Jovens   Idosos Longevos
                                           N (%)            N (%)

Apresentam mau cheiro ou sao sujos     1.287 (21,3)      122 (14,2)
Falta papel higienico e/ou toalha        1.212 (20)        103 (12)
Sao escassos ou nao sabe onde se         788 (13,0)      121 (14,1)
  tem
Sao mal iluminados                        361 (6,0)        40 (4,7)
Sao de dificil acesso                     119 (2,0)        14 (1,6)
  (sem corrimao, muitos degraus)
Tem que ser pagos para usar (nao          112 (1,8)        15 (1,8)
  sao gratuitos)
Nao gosta de usar banheiro fora de     1.360 (22,5)      170 (19,8)
  casa
Nao observa nenhum desses problemas    1.955 (32,3)      268 (31,3)
Nao sai de casa, nao sabe informar        505 (8,3)      181 (21,1)

                                           Total           Valor p

Apresentam mau cheiro ou sao sujos     1.409 (20,4%)      p < 0,001
Falta papel higienico e/ou toalha        1.315 (19%)      p < 0,001
Sao escassos ou nao sabe onde se         909 (13,1%)      p = 0,369
  tem
Sao mal iluminados                        401 (5,8%)      p = 0,129
Sao de dificil acesso                     133 (1,9%)      p = 0,508
  (sem corrimao, muitos degraus)
Tem que ser pagos para usar (nao          127 (1,8%)      p = 0,839
  sao gratuitos)
Nao gosta de usar banheiro fora de     1.530 (22,1%)      p = 0,083
  casa
Nao observa nenhum desses problemas    2.223 (32,2%)      p = 0,553
Nao sai de casa, nao sabe informar        686 (9,9%)      p < 0,001
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Title Annotation:FREE THEMES/TEMAS LIVRES; articulo en portugues
Author:Navarro, Joel Hirtz do Nascimento; Andrade, Francini Porcher; Paiva, Tiago Sousa; Silva, Diovana Our
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Feb 1, 2015
Words:6184
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