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The passage and the presence of Southern Je by Sao Paulo and Parana: an ethno-historical reflection/A passagem e a presenca dos Je Meridionais por Sao Paulo e Parana: uma reflexao etno-historica.

Introducao

Apresenca de populacoes de filiacao linguistica Je (Kaingang e Xokleng) no Sul do Brasil tem sido objeto de reflexao de muitos pesquisadores de diversas areas de conhecimento. A producao cientifica sobre elas remonta ao final do seculo XIX, teve continuidade por todo o seculo XX e ampliou-se no inicio do seculo XXI. Sao estudos com complexidades diversas, que envolvem a linguistica, a antropologia, a historia, a arqueologia e outras areas de conhecimento.

Aryon Rodrigues coloca a lingua Kaingang e Xokleng no conjunto das linguas da familia Je, a maior familia do tronco linguistico Macro-Je (1). As pesquisas linguisticas sobre os Je no Sul do Brasil balizam em 3.000 anos antes do presente o inicio das migracoes dessas populacoes para o sul (Urban 1998). Estabelece-se a hipotese de que os Kaingang e os Xokleng tiveram suas origens nos planaltos do Brasil Central, entre as nascentes dos rios Sao Francisco e Araguaia, e migraram para o sul.

Os estudos etnologicos sobre os Kaingang e os Xokleng reafirmam caracteristicas socioculturais que os conectam com os Je do Brasil Central. Destacam-se na sua organizacao social, relacionada aos Je, as metades exogamicas e residencia uxorilocal. Kimiye Tommasino em seus escritos sobre os Kaingang observa essa dualidade.

(...) segundo a tradicao kaingang, o Sol e Kame e a Lua e Kairu, o pinheiro e Kame e o cedro e Kairu, o lagarto e Kame e o macaco e Kairu, e assim por diante. A expressao sociologica mais forte desta concepcao dualista e o principio da exogamia entre as metades.

Segundo a tradicao kaingang os casamentos devem ser realizados entre individuos de metades opostas; os Kame devem casar-se com os Kairu e vice-versa. (Tommasino e Fernandes, 2003)

De forma geral os estudos etnologicos sobre os Kaingang e os Xokleng reafirmam caracteristicas socioculturais que os vinculam com os Je do Brasil Central. (Soares 2008).

As pesquisas paleoclimaticas do Holoceno tardio (Iriarte e Behling 2007) indicam que a ocupacao da regiao sul do Brasil por populacoes ceramistas da tradicao arqueologica Taquara/Itarare esta associada com a expansao da floresta de Araucaria, resultante de condicoes climaticas mais umidas na regiao, entre 1410 a 900 anos antes do presente, o que coincide com as datacoes obtidas pela arqueologia como veremos adiante.

Apesar dessas vinculacoes e permanencias entendemos que os Kaingang e os Xokleng nao vieram "prontos" do Brasil Central, mas ao se relacionarem com novos ambientes e com seus novos vizinhos implementaram mudancas em seus marcadores socioculturais. Historica e antropologicamente entendemos que os grupos etnicos nao sao entidades fechadas, nao estao isolados por fronteiras rigidas sem interacao com seus vizinhos e suas etnicidades nao sao dadas previamente. Entendemos os grupos etnicos como categorias atributivas e identificadoras empregadas pelos proprios autores com a intencao de organizar suas interacoes internas e com grupos externos. A consciencia etnica e tracada por um destino politico comum, e nao por uma "origem" advinda de um tempo imemorial, como se fosse uma heranca genetica. Como sugere Eric Wolf a "cultura" deve ser pensada em termos mais relacionais e menos essencialista:

Nosso desafio e compreender a cultura sempre em formacao, aprender a compreender como, em meio de uma acao em andamento, os protagonistas combinam praticas velhas e novas e figuracoes sempre novas e renovadas (Wolf 2003: 249).

Para compreensao do processo historico e sociocultural dos Kaingang e Xokleng entre si e com seus vizinhos, as populacoes Guarani e Xeta e, depois, os europeus e brasileiros propomos utilizar os pressupostos da etno-historia enquanto um metodo interdisciplinar. Por entender que ele conjuga dados e procedimentos de varias disciplinas: historia, antropologia, arqueologia, linguistica, geografia, ecologia, e outras, na construcao de explicacoes sobre o passado de populacoes indigenas. A metodologia da etno-historia propoe uma analise integrada que requer uma abordagem transdisciplinar, conjugando metodos das varias disciplinas, integrando dados de processos historicos, de cultura material e socioculturais, dados linguisticos, etno-cognitivos, cosmologicos e a valorizacao das tradicoes orais das populacoes estudadas (2).

Nao e proposito aqui fazer um balanco da producao sobre os Je do Sul, mas uma reflexao sobre os dados existentes nesta producao que nos permita uma melhor compreensao sobre as rotas de migracao de grupos Je para o sul do Brasil, pressupondo que na sua passagem eles deixaram suas marcas e seus vestigios em determinadas regioes dos estados de Sao Paulo e Parana.

Dados historicos sobre os Je do Sul no Parana e Santa Catarina

Ao se confrontar parte da documentacao dos jesuitas do seculo XVII, relatorios de expedicoes militares do seculo XVIII, relatorios dos presidentes da Capitania de Sao Paulo e da provincia do Parana, relatos de viajantes, relatorios de expedicoes e comissoes exploradoras do seculo XIX, com os mapas de John Henrique Elliot (3), elaborados entre os anos de 1840 e 1860, que retratam a cobertura vegetal de grande parte da regiao Sul, percebe-se que as populacoes Kaingang e Xokleng ocupavam preferencialmente as vastas areas de campos do planalto entremeadas de capoes de araucarias (Araucaria angustifolia) e faxinais, desde o Sul de Sao Paulo ate o rio Uruguai.

Em 1847, John Elliot elaborou o mapa chorographico de partes das provincias de Sao Paulo e Matto Grosso (Elliot 1847) e, em 1864, o Mappa chorographico da provincia do Parana (Elliot 1864). u primeiro faz parte do acervo da Iconoteca da Biblioteca Nacional e o segundo da Seccao Cartografica do Arquivo Nacional. Nesses mapas Elliot colore as matas de verde e os campos de amarelo, deixando um rico documento sobre a cobertura vegetal do Parana e do Mato Grosso entre os anos de 1847 e 1865.

Quando confrontados com as descricoes e os relatos da epoca, os mapas de Elliot nos dao uma clara visao dos territorios Kaingang e Xokleng entre os rios Paranapanema e Uruguai no seculo XIX, e nos mostram que os Kaingang e os Xokleng ocupavam extensas areas cobertas de campos naturais entremeadas de bosques de araucarias e algumas areas de matas proximas aos rios. Esses vastos campos entremeados de araucarias forneciam imensa quantidade de pinhoes, que constituiam um dos seus principais alimentos e tambem dos animais que faziam parte de sua dieta. Ainda hoje, podemos constatar remanescentes desses campos e pinheirais em varias partes indicadas por Elliot, e em muitos desses locais estao as atuais Terras Indigenas dessas populacoes. o cotejo dos mapas com a documentacao fornece outra informacao valiosa linguisticamente: os territorios tinham nomes indigenas, tanto as extensas areas de campos como os rios receberam nominacao kaingang e dessa forma eram conhecidos ate pelas populacoes nao indigenas que neles adentravam.

Campos Gerais--Regiao 1 do mapa da tabela 2

A presenca de grupos indigenas nao falantes do Guarani na regiao dos Campos Gerais (area 1 no mapa da tabela 2) foi anotada no seculo XVII pelos padres jesuitas que ali fundaram Reducoes. A informacao esta em uma Carta Anua do Padre Antonio Ruiz de Montoya, de maio de 1625. Nela informa que tinha continuado sua viagem para o sul alem da Reducao de Sao Francisco Xavier (4) onde estava, e disse que tratou de ir as terras do cacique Pindoviu, mas os indios de Sao Francisco resistiram tenazmente a prosseguir com ele, indicando que os territorios dos Guarani iam ate as proximidades da Reducao de Sao Francisco Xavier depois, ao sul, comecavam os territorios dos Camperos temidos pelos Guarani (Cortesao 1951, p. 236).

O provincial Nicolas Duran descreveu os Camperos que habitavam os campos adiante da Reducao de Encarnacao. Eles eram chamados de Cavelludos porque tinham o cabelo comprido ate os ombros cortados na frente ate as orelhas (Cortesao 1951, p. 242). Tambem tinham o nome de Coronados, porque mesmo as mulheres e as criancas abriam coroas na cabeca como os padres. Essa informacao reforca a hipotese de serem eles os antigos Kaingang, porque eles eram conhecidos no Parana do seculo XIX como "indios Coroados", devido ao caracteristico corte de cabelo. ou entao poderiam ser ancestrais dos Xokleng, que ate o inicio do seculo XX tinham o habito de cremar seus mortos e enterrar os ossos que restavam em covas. No divisor de aguas dos rios Preto e Itapocu em SC, encontra-se um abrigo sob rocha, conhecido como "cemiterio dos botocudos". Nesse local o engenheiro Fernando oppitz fazia em 1886 medicoes das terras dotais da princesa Isabel e Conde D'Eu, quando encontrou no abrigo Ruckl restos de esqueletos de nove individuos, homens, mulheres e criancas, devidamente dispostos em covas e envoltos em cinzas, fazendo-o supor terem sido cremados antes de serem colocados ali (Oppitz 1886: 3). E, alguns anos depois, Jacques Ourique descreveu a tecnica de cremacao e enterramento dos mortos entre os Xokleng.

Para esta cremacao, collocam o corpo em uma area circular de terreno, previamente preparado e pisado, e sobre elle formam uma pilha conica de madeiras unidas na extremidade superior. Acessa a fogueira esperam que estejam tudo reduzido a cinza e, entao, enterram estas cinzas em uma pequena sepultura. (Ourique 1899: 350)

Telemaco Borba ja tinha anotado evidencias similares de enterramentos em regioes que estariam nos territorios descritos pelos jesuitas, como pertencentes aos indios Camperos e/ou Cabeludos. Em seu livro Actualidade Indigena escreveu que em suas andancas pelo municipio de Tibagi tinha observado quatro modos distintos de enterramentos indigenas. Dois eram as formas de enterrar os mortos que os Kaingang e os Guarani praticavam no final do seculo XIX e inicio do XX. Os outros, nos parecem anteriores a ocupacao do territorio pelos Kaingangues e Guaranis actuaes. Um deles era o enterramento praticado pelos Guarani em vasilhas ceramicas que ele encontrou nas imediacoes da Colonia Militar do Jatahy, e o outro eram os mounds (monticulos) muito comuns nos pontos mais elevados dos campos nas proximidades das florestas de pinheiros, que aparentavam os tumulos dos Kaingang da sua epoca.

Procedemos a excavacao de um destes monticulos; a um metro e cincoenta (1,50) de profundidade do solo, deparamos com uma lage de quarenta centimetros de comprimento sobre trinta de largura; removendo-a encontramos: carvao e cinzas sobrepostos a uma lage horizontal, e duas em sentido vertical. Depois temos procedido a outras excavacoes em monticulos semelhantes, e o resultado tem sido identico. D'ahi a conviccao de que estes monticulos sao tumulos ou sepulturas, de uma nacao ou tribu que uzava a cremacao de seos mortos. (BORBA 1908: 124-125) (5)

A descricao de Borba para enterramentos com cremacao nos Campo Gerais coincide com os relatos de Fernando Oppitz, Jacques Ourique e Jose Maria de Paula para descrever os enterramentos com cremacao dos Xokleng ao sul do rio Iguacu. Esse padrao de sepultamento: mounds sem cremacao dos Kaingang e mounds com cremacao dos Xokleng evidencia a presenca de populacoes Je nos Campos Gerais do Parana, nos campos e matas ao Sul do Rio Iguacu na serra catarinense.

Os Koran-bang-re: Campos de Guarapuava Regiao 2 do mapa da tabela 2

Os Koran-bang-re (6)--campos de Guarapuava --e o outro territorio ocupado pelos Kaingang e Xokleng, bastante conhecido nos registros historicos que remontam ao seculo XVIII. A presenca deles nessa regiao central do Parana pode ser inferida pela trajetoria da expedicao do primeiro governador do Paraguai Dom Alvar Nunez Cabeza de Vaca. Da foz do rio Itapucu em Santa Catarina o adelantado Dom Alvar rumou para Assuncao no final de 1541 onde chegou quatro meses depois. Sua expedicao era composta por 250 arcabuzeiros e balesteiros e foi acompanhada por centenas de indios Guarani. Quando chegava numa aldeia ele dispensava os guias guarani que o tinham guiado ate ali e contratava novos guias para o percurso seguinte. Dessa forma subiram a Serra do Mar, e chegaram ao Rio Negro (na altura de Rio Negrinho--SC), dali desceram ate a sua desembocadura no rio Iguacu. Desse ponto, em vez de seguir direto para oeste sempre na mesma latitude pelas margens do Rio Iguacu ate alcancar sua foz no Rio Parana, os seus guias guarani os conduziram para noroeste em direcao as cabeceiras do rio Tibagi, na atual cidade de Tibagi, de onde rumaram para oeste ate chegar ao rio Ivai e depois para sudoeste atravessando o rio Piquiri ate alcancar o rio Iguacu na confluencia com o Rio Parana, de onde seguiram ate Assuncao. (Cabeza de Vaca 1906) Para contornar os territorios dos Kaingang nas duas margens do Rio Iguacu, os Koran-bang-re (Guarapuava) na margem direita e os Krei-bang-re (Palmas) na esquerda, eles aumentaram a trajetoria da expedicao em mais de 500 quilometros.

O Barao de Capanema sustenta que Cabeca de Vaca deu uma volta de mais de oitenta leguas (560 quilometros), e pergunta o que levou Cabeza de Vaca seguir para o noroeste e nao seguir diretamente para o oeste pelas margens do Rio Iguacu? Seria porque esses territorios eram habitados por hordas bravias que seria necessario guerrear? Mais adiante ele responde que: o motivo que obrigava a evitar aquelle terreno eram seus habitantes, indios ferozes, mais valentes que os Guaranis. (Capanema 1889: 500-502).

As primeiras cidades espanholas fundadas no Guaira no seculo XVI--Ciudad Real na foz do rio Piquiri no Parana, Vila Rica do Espirito Santo no Rio Ivai--e as primeiras Reducoes Jesuiticas no seculo XVII foram construidas em territorios Guarani nas margens dos grandes rios do Parana.

Mais de duzentos anos depois de Cabeza de Vaca ter evitado os territorios dos Je outra expedicao militar comandada por Afonso Botelho entre 1768 e 1774 ingressou nos Koran-bang-re. Quando o sargento Candido Xavier chegou nas grandes aldeias ao norte do Porto das Capivaras no rio Iguacu, em sete de setembro de 1770, encontrou nas moradias dos indios diversos objetos e alimentos. Dentre os objetos recolhidos pelo comandante Paulo Chaves estavam machados de pedra, balaios de taquara, novelos de fios e duas vasilhas ceramicas: uma tigela de barro preto bem cozida e uma xicra pequena do mesmo barro. (Almeida et al 1956: 289). Essa referencia de 1770 evidencia que os Kaingang dos Koran-bang-re (atual Guarapuava) fabricavam e utilizavam artefatos ceramicos no cotidiano de suas aldeias. As pesquisas de arqueologia na regiao, relacionadas as prospeccoes realizadas por ocasiao da construcao da UHE Salto Santiago no rio Iguacu, registram artefatos ceramicos da Tradicao Itarare que muitos estudiosos relacionam como Kaingang.

Quarenta anos depois da expedicao de Afonso Botelho, descrita pelo comandante Paulo Chaves de Almeida, outro militar que esteve nas aldeias Kaingang descrita acima, comandou a invasao dos territorios Kaingang em Guarapuava. Diogo Pinto de Azevedo Portugal, comandando uma forca militar de mais de quatrocentos homens, conseguiu implantar a fortaleza de Atalaia no centro dos Koran-bang-re e iniciar a conquista da regiao para os grandes fazendeiros dos Campos Gerais. O padre Francisco das Chagas Lima, que acompanhava a expedicao fez relatos da presenca dos grupos indigenas na regiao, escreveu ele:

As diferentes hordas de gentios existentes pelos sertoes de Guarapuava sao: a dos Cames, Votoroes, Dorins e Xocrens. (...) A dos Xokrens, entre os rios Iguassu e Uruguay, ha pouco descoberta, julga-se nao chegar a 60 individuos. (LIMA 1842: 52)

O que o padre Chagas Lima chama de hordas dos Cames, Votoroes e Dorins eram os Kaingang que viviam mais proximos de onde estava a fortaleza de Atalaia, e depois a vila de Guarapuava, e os Xokrens era o grupo que estava alem do rio Iguacu. Anos mais tarde, em 1847, John Elliot gravou em seus mapas a presenca dos indios Chocres (Xokleng) ao Sul do Rio Iguacu entre os rios Chopim e Santo Antonio na divisa com a Argentina, confirmando assim o que se sabia desses indios nas vilas de Guarapuava e Palmas na primeira metade do seculo XIX. E a documentacao que segue sobre a regiao no seculo XIX e inicio do XX confirma a presenca dos Kaingang e Xokleng nesses territorios.

Os Kreie-bang-re: Campos de Palmas--Regiao 3 do mapa da tabela 2

O terceiro territorio formado de campos naturais e cobicados pelos fazendeiros de Guarapuava estava ao sul rio Goio-kovo (Rio Iguacu), eram os Kreie-bang-re (7)--Campos de Palmas. Eles se estendiam pelo planalto paranaense das cabeceiras dos rios Xupin (Chopin) e Xaembetko (Chapeco) ate onde iniciavam as matas que os separam dos Kampo-re ao oeste.

Um relatorio do presidente da provincia de Sao Paulo, de 1838, faz mencao aos indios que viviam nos Kreie-bang-re, e a incumbencia que tinha dado ao Tenente-Coronel Joao da Silva Maxado na organizacao das Companhias de Permanentes destinadas a conter os Indios selvagens no Campo das Palmas (Peixoto 1838: 6).

Os campos de Xanxare: campos da cascavel Regiao 4 no mapa da tabela 2

Em direcao sul, rumo a Provincia de Sao Pedro do Rio Grande do Sul, as areas de campos naturais se estendiam ate o rio Uruguai, o Goio-em dos Kaingang, mas nessas paragens, nas proximidades do medio rio Xaembetko (Chapeco) (8), estavam os campos denominados pelos Kaingang de Xanxa-re--campos da cascavel (9)

Os Kampo-re: campos das pulgas--Regiao 5 do mapa da tabela 2

Quem dos territorios Kaingang dos Kreie -bang-re e Xanxa-re rumasse para o oeste em direcao aos limites com a Argentina ainda encontraria os mesmos ecotonos habitados por grupos Kaingang e por eles denominados de Kampo-re (10) hoje municipio de Campo Ere. Eles estavam a oeste de Palmas, no divisor de aguas dos rios Xupin e Xaembetko, na picada para Corrientes na Argentina. Por essa via passou em 1865 a expedicao que foi ate a margem esquerda do rio Parana. Afirma-se que o grupo do cacique Viri vivia nesse local antes de 1843, quando se transferiu para a recem fundada vila de Palmas.

Os Kavaru-Koya: Sao Pedro das Missoes, Argentina --Regiao 6 do mapa da tabela 2

Ja os Kavaru-Koya (11), conhecidos pelos Kaingang do grupo do cacique Konda, foram explorados a partir da decada de 1860, quando o governo imperial autorizou e destinou verbas para abertura de uma estrada, que deveria ligar Palmas a Corrientes, na Argentina. Essa via de comunicacao seguia em direcao oeste pelos espigoes divisores das aguas dos rios Iguacu e Uruguai, cortava os territorios Kaingang de Kampo-re e chegava aos Kavaru-koya. Ali os grupos Kaingang do cacique Kanha-fe tinham estabelecido seus ema (aldeias) e eram senhores desses vastos territorios, que abrangiam partes do Brasil e da Argentina.

Os Min-krin-ia-re, Xongu ou Chagu: Laranjeiras do Sul--PR--Regiao 7 no mapa

Os territorios Kaingang tambem se estendiam a oeste e a noroeste de Guarapuava. Entre esta vila e o rio Parana estavam os Min-krin-ia-re, ou Xongu, (Chagu). Logo apos a ocupacao dos Koran-bang-re--Guarapuava--, em 1810, os fazendeiros fizeram varias tentativas de ocupa -los sempre esbarrando na poderosa resistencia dos Kaingang dos Min-krin-ia-re, ou campos do Xongu.

Xongu e o nome, no idioma dos kaingangues, de um pequeno arbusto espinhoso que da neste campo, mas os Kaingangues chamam ao campo, mais commummente: Mincriniare. Mim, Tigre, Crin, cabeca; Ia, abreviacao de iapri, caminho, Re, campo. Campo da cabeca do tigre no caminho. Contam que, os que iam adiante, na sahida deste campo, mataram um tigre, cortaram-lhe a cabeca, espetaram-na em um pao, e o fincaram no caminho, os que vinham atraz viam a cabeca e diziam--Mincrinia--Tigre, cabeca, caminho: Dahi proveio ao campo seo nome que foi substituido pelo outro de Xongu que alteraram em Xagu, e em seguida ficou com a grafia portuguesa de Chagu. (Borba 1908: 118)

Esses territorios Kaingang foram explorados em 1848 pelo engenheiro Pedro A.L. Scherer, numa expedicao que durou 9 meses e 25 dias. Ele fez uma descricao da regiao para o diretor dos indios Francisco Ferreira da Rocha Loures, em 04/10/1858. Conforme Scherer, os Min -krin-ia-re, ficavam a vinte e tres leguas a oeste de Guarapuava, tinham 1.600 bracas de norte a Sul e 1.800 bracas de leste a oeste de campos limpos, e eram divididos em tres partes por dois arroios (Scherer 1983: 11-12). Hoje parte dos Min-krin-ia-re (Campo da Cabeca da onca no Caminho) ou Xongu, foi transformado na Terra Indigena Rio das Cobras, nos municipios de Nova Laranjeiras e Espigao Alto do Iguacu.

Os Pahy-ke-re: Campos do Mourao--Regiao 8 do mapa da tabela 2

Ao noroeste de Guarapuava, nas cabeceiras do rio Piquiri comecavam os enigmaticos Pahy-ke -re. As informacoes sobre grupos Je nessa regiao remonta aos jesuitas no inicio do seculo XVII quando para ali vao fundar a Reducao Jesuitica de Concepcion de los Gualachos. Antonio Ruiz de Montoya numa carta anua de 1630, descreve a situacao dessa Reducao situada nas cabeceiras do rio Piquiri. Nela o padre Montoya registrou um ritual dos mortos com cantos e expressoes diferentes dos Guarani.

(...) combidan a todos los del pueblo para enbiar el alma del defunto al cielo y para esto se van al monte y hacen unas buenas cargas de leNa y las traen corriendo con muchas trompetas y greteria a casa del caciq adonde estan todos juntos yndios y yndias, y de alli salen corriendo diciendo todos estas palabras rica rica tapa tapa q quiere decir sube sube del campo, llevando aquellas cargas de leNa dando una buelta al deredor del cuerpo, y luego le pegan fuego, diciendo niyi chi cay catu tapli, humo negro sube al cielo (12).

Configura-se assim que as serras e planaltos das cabeceiras dos rios Piquiri e Corumbatai estavam ocupados por populacoes Je como descreveu Montoya.

Os campos do cacique Inhoo--Regiao 9 do mapa da tabela 2

Os territorios Kaingang do vale do rio Tibagi ja eram desde ha muito conhecidos e foram devassados por diversas vezes pelos conquistadores paulistas. Fernao Dias Paes Leme ali esteve em 1661, e ali ficou por tres anos tratando de submeter os caciques da nacao Guaina, antepassados dos Kaingang (13); em seguida, levou-os prisioneiros para Sao Paulo.

Na decada de 1840, Joao da Silva Machado, o Barao de Antonina, rico negociante de gado nos Campos Gerais e homem influente nos negocios do Imperio, mandou seus homens John H. Elliot e Jose Francisco Lopes, vasculhar os territorios Kaingang nas terras altas do rio Tibagi para ver se ali era possivel implantar novas fazendas de gado e buscar um caminho para o Mato Grosso via rio Tibagi e Paranapanema. No dia 4/12/1846, eles chegaram aos campos de Inhoo, que denominaram de Sao Jeronimo, e concluiram que eles eram suficientes para as instalacoes que o barao projetava. Isto e, um en treposto entre o futuro porto do Jatai no Tibagi, e a cidade de Castro. (Elliot 1948: 157-158). Anos depois, em 1873, o engenheiro ingles Thomas Bigg-Wither explorou o rio Tibagi com Telemaco Borba, e desenhou um mapa da provincia paranaense onde destacou os campos do cacique Inhoo.

Os campos divisores das aguas dos rios Tibagi e Pirapo--Regiao 10 do mapa da tabela 2

Os Kaingang que visitaram o aldeamento indigena de Sao Pedro de Alcantara nas margens do Tibagi em 1858, pertenciam ao grupo que vivia nos campos nos divisores das aguas dos rios Tibagi e Pirapo. Disseram que suas moradias ficavam a tres ou quatro dias a oeste, e que em tres ou quatro dias estariam de volta a Sao Pedro. Pela direcao indicada e o tempo que disseram gastar, mais a constante ecologica de que eles em determinadas epocas do ano, quase sempre ocupavam os terrenos altos de campos com capoes de pinheiros, suas moradias deveriam estar em algum lugar no divisor de aguas dos rios Pirapo e Tibagi, nas cabeceiras dos rios Vermelho e Bandeirante do Norte, que correm em direcao ao Paranapanema, e do ribeirao Tres Bocas, que corre para leste em direcao ao rio Tibagi, num local entre as atuais cidades de Rolandia e Arapongas--PR.

Os presentes que eles levaram para o Frei Timoteo nos revelam que esse grupo Kaingang tinha suas moradias em algum lugar do espigao citado, onde havia bosques de araucarias que lhes propiciavam farta coleta de pinhoes e de caca, como os porcos do mato--que se alimentavam dos pinhoes--cacados e doados a Frei Timoteo. Eles tambem tinham seus acampamentos de inverno nas margens do rio Tibagi, onde praticavam a pesca de pari. Pois ali, no mes de junho, frei Timoteo e o comandante da colonia militar foram visitar os Kaingang num lugar denominado Tres Bocas, no rio Tibagi. Eles estavam pescando num pari e eram em torno de 40 indios, que os receberam com grande alegria.

Os Kayowa, seus vizinhos na Colonia indigena de Sao Pedro de Alcantara, os chamavam de Guaiquere, Se de um lado, Guaiquere pode ser confundido com a palavra Paiquere, que era o nome que se dava aos campos a noroeste de Guarapuava, hoje municipio de Campo Mourao, por outro lado Teodoro Sampaio em o tupi na geografia nacional, afirma que gua-ya significa "o que mora em buraco; o encovado" (Sampaio 1987: 235). Se juntarmos essa informacao com a de que os ancestrais dos Kaingang viviam em casas subterraneas nos Campos Gerais, poderemos inferir uma explicacao para a denominacao que os Kayova davam aos Kaingang. Mas creio que esse tipo de informacao deve ser melhor equacionada com aprofundamento das pesquisas historicas e linguisticas.

De maneira geral, pode-se afirmar que a documentacao do seculo XVII ao XX confirma a presenca de populacoes diferentes dos Guarani nos campos e florestas entre os rios Paranapanema e Uruguai. Se por um lado, temos uma carta (mapa) da epoca feita por um especialista que viajou por toda a regiao nas decadas de 1840 a 1860, portanto conhecedor de seus aspectos fisicos, por outro, temos uma documentacao escrita por diversos sujeitos envolvidos na conquista desses territorios e que registraram tanto os aspectos geograficos como a sua ocupacao por populacoes indigenas com tracos fisicos, linguisticos e culturais coincidentes com os Je do Sul.

As pesquisas arqueologicas sobre os Je do Sul

Do ponto de vista da arqueologia, os pesquisadores do PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueologicas) definiram como tradicoes ceramistas--Itarare, Casa de Pedra, taquara, e tupiguarani--os diferentes tipos de material ceramico encontrados na regiao Sul do Brasil (14).

A possivel correlacao das tradicoes ceramistas Itarare, Casa de Pedra e taquara com as populacoes Je no Sul do Brasil, sao apontadas, com certa cautela por alguns pesquisadores do PRONAPA. Um dos seus expoentes, Igor Chmyz, assinala em alguns dos seus estudos a possibilidade de se relacionar as referidas tradicoes ceramistas aos povos Je do Sul. Divulgando os dados do sitio arqueologico PR UV A-1 (63) localizado no vale do rio Vermelho, na bacia do medio rio Iguacu, no municipio de Uniao da Vitoria no Parana, Igor Chmyz diz querer, com certa cautela, atribuir aos Kaingang a ceramica lisa, juntamente com outros elementos culturais que compoe o nivel arqueologico I, do abrigo sob-rocha. (Chmyz 1963: 509)

Um ano depois ele reafirmou essa correlacao com a mesma cautela.

Queremos com certa cautela, atribuir aos Kaingang a ceramica lisa encontrada na superficie do jazimento de Passo do Iguacu, bem como aquela que, juntamente com outros elementos culturais compoe o nivel arqueologico II do abrigo sob-rocha PR UV L-23 (59): Casa de Pedra. (Chmyz 1964: 204)

Em outro estudo publicado em 1967 ele assume, com muita precaucao, a semelhanca existente entre a ceramica atribuida aos Kaingang e a da Casa de Pedra. (Chmyz 1967: 35). No sitio arqueologico PR UV 1 (Abrigo sob rocha Casa de Pedra) na camada estratigrafica II, foram encontrados fragmentos ceramicos com incisoes, que Chmyz correlaciona com os Kaingang.

Em escavacoes arqueologicas que efetuamos num abrigo sob-rocha (....) encontramos na camada arqueologica superficial, um caco de ceramica do tipo simples com gravuras nas duas faces (...). Consideramos, com certa cautela, o conjunto das evidencias da mencionada camada arqueologica superficial, juntamente com o caco descrito, como de tradicao Kaingang. (Chmyz 1968: 58)

Ele reafirmou essa mesma ideia em outro texto, mas procurou manter a mesma cautela dos textos anteriores ao relacionar a ceramica simples, que marca a ocupacao mais recente da Casa de Pedra (...) aos Kaingang. (Chmyz 1968: 50). E disse que estudando as tecnicas ceramistas dos Kaingang descritas por telemaco Borba (1908), Loureiro Fernandes (1941) e Alfred Metraux (1946), era possivel se fazer inumeras consideracoes comparativas deste povo Je com a ceramica da Tradicao Casa de Pedra (Chmyz 1968: 123; 1969: 120).

Ainda em 1969, Chmyz publicou as Novas manifestacoes da Tradicao Itarare no Estado do Parana, resultado da pesquisa do sitio arqueologico PR UV 17 Abrigo Bruacas, localizado entre os vales dos rios Palmital e Prata no medio rio Iguacu tambem no municipio de Uniao da Vitoria, e assim ele descreveu o material ceramico ali encontrado:

Quanto aos aspectos internos e externos da ceramica do Abrigo Bruacas, notamos uma semelhanca extraordinaria com os que descrevemos para a Tradicao Itarare (...): a mesma caracteristica da pasta, da coloracao das superficies e do afloramento dos antiplasticos. (...) Tambem nas formas e dimensoes do vasilhame, encontramos identidade perfeita com aquela tradicao. A classificacao das formas foi efetuada segundo os padroes estabelecidos para a tradicao Itarare. (...) As evidencias do abrigo estao estreitamente relacionadas com a tradicao Itarare (Chmyz 1969: 123)

A tradicao arqueologica Itarare definida por Igor Chmyz encontra-se dispersa em varios pontos do estado do Parana. Num primeiro momento ela foi localizada nos vales dos rios Paranapanema e Itarare. No rio Paranapanema ela aparece em muitos sitios ceramicos da Tradicao Tupiguarani. Como se tivesse expandido das cabeceiras do rio Itarare e Itapirapua para o vale do rio Ribeira e litoral, ela tambem foi localizada nas camadas superficiais de sambaquis do litoral do Parana. As pesquisas de Chmyz, nos vales dos rios Iguacu e Ivai, confirmam a presenca dessa tradicao tambem nos vales desses rios. E no rio Piquiri Chmyz diz estar propenso a relacionar a tradicao Itarare as casas subterraneas, (...) Quanto as casas subterraneas e aos aterros nao vemos dificuldades, pois sempre encontramos ceramica Itarare associada (Chmyz e Sauner 1971: 20) Apesar das indicacoes de cautela apontadas por Chmyz, e incontestavel as correlacoes que ele faz entre as tradicoes ceramistas Itarare/Casa de Pedra e os Kaingang.

Critico acido da definicao pronapiana de tradicoes e fases, e das interpretacoes do PRONAPA sobre a origem das populacoes produtoras da ceramica definidas como Itarare, Casa de Pedra e Taquara, Francisco Noelli busca conectar as populacoes que fabricaram esses artefatos ceramicos, com os ancestrais das populacoes Je no Sul do Brasil. Ele propoe que se abandonem os conceitos de tradicao e que se adotem as terminologias definidas pela linguistica e pela antropologia, e que se passe a estudar e gerar informacoes mais detalhadas sobre a continuidade historica entre os Je do Sul e seus ascendentes precoloniais (15).

Sustentado na tese de doutorado de Jose P. Brochado (16), Noelli (1999) propoe a superacao dos procedimentos do PRONAPA, e a necessidade de considerar todas as informacoes existentes, se quisermos ter uma nova visao sobre o processo de expansao dos grupos Je para o Sul do Brasil.

Discutindo os aspectos, caracteristicas e areas de ocorrencia da tradicao arqueologica Itarare-Taquara, bem como as hipoteses sobre a expansao dos Je no sudeste do Brasil, Astolfo G. de M. Araujo sugere possiveis rotas dessa expansao passando pelo estado de Sao Paulo. Uma delas seria que os ancestrais dos Kaingang e Xokleng se deslocaram do Brasil Central para o Sul passando por dentro do territorio hoje pertencente a Sao Paulo:

(...) provavelmente passando antes pelo sul de Minas Gerais, e que uma das possiveis rotas de expansao tenha sido ao longo da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar (...) seguindo pela regiao planaltica ate a regiao de Itapeva, no sudoeste do estado (Araujo 2007: 27)

Sobre a presenca dos grupos Kaingang no oeste de Sao Paulo, Astolfo Araujo defende dois cenarios possiveis: um deles seria que a presenca Kaingang na regiao se deve a expansao de grupos vindos do sul de Minas Gerais que ali se fixaram. Mais tarde os Kaiapo Meridionais ocuparam seus corredores de expansao e os grupos falantes do Tupi ao ocuparem o vale do Paranapanema teriam cortado seus contatos com os grupos que tinham migrados para o sul desse rio, isolando-os no oeste paulista entre os rios Paranapanema e Tiete. outro cenario possivel seria o do movimento de refluxo de populacoes Kaingang ocupantes de territorios ao sul do Paranapanema para os territorios do oeste paulista. Mas de acordo com Araujo isto poderia ter acontecido se:

Somente o esvaziamento populacional dos vales do Paranapanema e Tiete por conta do apressamento indigena feito pelos paulistas no seculo XVII (....) teria permitido aos grupos Kaingang o livre acesso ao oeste paulista a partir do Parana num movimento de refluxo. (Araujo 2007: 28)

Testando as proposicoes sobre os fluxos dos Je para o Sul do Brasil.

A proposicao de Noelli, de gerar informacoes detalhadas sobre os Je do Sul e correlaciona-las com seus ascendentes pre-coloniais, e as de Araujo sobre as rotas de migracao sao ainda tarefas a se realizar, e tera de responder muitas questoes dentre as quais: se essas rotas estao relacionadas aos ambientes de campos/ cerrados entremeados de florestas de araucarias; quais sao os marcadores de cultura material que poderemos elencar para estabelecer essas rotas; se existira uma cronologia adequada a essa rota norte sul trilhada pelos grupos Je em sua expansao para o Sul.

A titulo de teste e para exemplificar o calibre dessa tarefa, fizemos um exercicio trabalhando com os dados da tabela publicada por Noelli (2004). Ela esta organizada em ordem alfabetica, contendo os municipios dos estados de MS, SP, PR, SC, RS e alguns da Provincia argentina de Misiones. Destacamos dela os 68 municipios do Parana, que representam 17% do total, dos 399 do estado (Cf. Noelli et al 2003). Os dados arqueologicos produzidos no Parana ate agora sobre as Tradicoes ceramicas Itarare, Casa de Pedra e Taquara, e compilados por Noelli, nos permite duas observacoes: a primeira e verificar a distribuicao dessa ocupacao no estado, e a segunda constatar que essa ocupacao recua ate 1500 anos antes do presente.

Ao distribuirmos os municipios por bacias hidrograficas geramos uma espacializacao (Mapas, 1 e 2) que podera servir para verificarmos sua disposicao em relacao:

Ao ambiente natural: grandes cursos d'agua, relevo e cobertura vegetal, medias climaticas, etc.

A sua insercao em espacos conhecidos pela ocorrencia de outras manifestacoes de cultura material como Umbu, Humaita, Sambaquiana e a produzida pelos Guarani.

E a sua possivel coincidencia com os territorios ocupados pelos grupos Je descritos pela documentacao historica apresentada acima.

Espacializamos os dados para melhorar nosso foco de analise.

A espacializacao dos dados mostrou que eles estao em quase todas as regioes do Parana em menor proporcao na regiao noroeste, e os sitios datados mostram a profundidade temporal de sua presenca nas bacias dos rios Ribeira do Iguape, Iguacu e Piquiri.

Em seguida procuramos testar as hipoteses das rotas de migracao verificando a ocorrencia de sitios arqueologicos com a presenca das tradicoes ceramistas nas duas margens dos rios Paranapanema/Itarare e Itapirapua/Ribeira, que dividem geograficamente as Regioes Sudeste e Sul do Brasil.

Se os ancestrais do Kaingang e Xokleng foram as populacoes que produziram artefatos ceramicos definidos pela arqueologia como Tradicoes Itarare, Casa de Pedra e Taquara; e se eles trouxeram consigo a tecnologia de fabricacao desses artefatos, com certeza foram abandonando vasilhas ou fragmentos delas ao longo dos seus corredores de deslocamento. E ao cruzar os rios Paranapanema/Itarare e Itapirapua/Ribeira com certeza ali deixaram vestigios desses artefatos. Uma forma de testar essa hipotese, foi identificar os provaveis pontos de passagens, nesses rios, das populacoes Je para os planaltos do Sul.

Problema posto, levantamos junto ao CNSA/IPHAN todos os sitios arqueologicos cadastrados em todos os municipios lindeiros aos rios Paranapanema/Itarare e Itapirapua/Ribeira que contivesse a ocorrencia de material arqueologico relacionados as tradicoes citadas acima.

Foram pesquisados, no SGPA do IPHAN, um total de sessenta municipios nas duas margens do Paranapanema/Itarare. Nesses sessenta municipios estao cadastrados cento e noventa sitios nos municipios paulistas, e duzentos e cinquenta e quatro na margem paranaense, num total de quatrocentos e quarenta quatro sitios.

Nas duas margens dos Rios Itapirapua e Ribeira foram pesquisados tres municipios na margem direita paranaense, e onze municipios paulistas, num total de catorze municipios. Nesses municipios estao cadastrados cento e quatro sitios.

Constata-se que as duas margens do Paranapanema/Itarare estao repletas de ocorrencias de artefatos ceramicos da tradicao tupiguarani.

Confirma-se a ocorrencia de artefatos de tradicao Itarare em dois municipios da margem paranaense do Paranapanema: Porecatu e Andira. Nao encontramos correspondente dessa tradicao nos municipios opostos na margem paulista, pode ser por falta de pesquisas arqueologicas mais apuradas na margem direita de Sao Paulo. E necessario um aprofundamento das pesquisas, no lado paulista, para verificar se existe ocorrencia de ceramica da tradicao Itarare.

Enquanto ponto de passagem dos fabricantes da ceramica de tradicao Itarare, no rio do mesmo nome, podemos visualizar apenas os municipios de Fartura em Sao Paulo e seu oposto no Parana o municipio de Carlopolis, com a ocorrencia comum de sitios arqueologicos contendo artefatos da Tradicao ceramica Itarare. Isso pode caracterizar a regiao como local de passagem.

Ainda cabe ressaltar que se considerar que as Casas Subterraneas tambem podem ser marcadores da cultura material dos grupos Je no Sudeste e Sul do Brasil, outros corredores de passagens podem ser identificados nas cabeceiras do rio Itarare nos municipios de Bom Sucesso de Itarare em Sao Paulo, e Sao Jose da Boa Vista no Parana.

Nesse primeiro momento optamos pela base de dados do CNSA do IPHAN por ser uma base de dados institucionalizada e disponivel a todos pesquisadores. Num segundo momento a pesquisa deve percorrer toda a bibliografia sobre as tradicoes arqueologicas relacionadas aos Je do Sul, bem como entendemos ser imprescindivel a consulta nos relatorios de pesquisa depositados nas regionais do IPHAN do Parana e Sao Paulo.

A base de dados do SGPA do IPHAN apresenta distorcoes que podem comprometer a organizacao das informacoes. Por exemplo: os sitios cadastrados nos municipios paulistas, com excecao de um, informa apenas que existe material ceramico, mas nao informa a Tradicao. Isso pode ser por opcao do informante que nao concorda com o estabelecido pelo PRONAPA, pode ser por indefinicao dos artefatos, ou mesmo por descuido do preenchimento da ficha de informacoes.

Encontramos muitos municipios sem registro de ocorrencias arqueologicas registradas, apesar de estarem muito proximos e vizinhos a municipios com grande numero de sitios registrados. Isso pode ser resultante de: falta de pesquisa no referido municipio; registro do sitio no municipio vizinho mais antigo antes da separacao/criacao do novo municipio; pesquisa realizada no municipio com a ocorrencia de sitios arqueologicos mas ainda nao registrados no sistema de gerenciamento do IPHAN.

E por fim, uma concentracao de informacoes, no caso do Parana, nas areas pesquisadas por arqueologia de contratos (UHE, Linhas de Transmissao, Rodovias, e outros empreendimentos). Isso revela a necessidade de novos trabalhos de campos a partir da formulacao de problemas de pesquisa, e nao campos pautados apenas pela arqueologia de contrato.

Conclusao

Assumida a proposicao de que as populacoes produtoras da ceramica definida pela arqueologia como Tradicao Itarare, Casa de Pedra e Taquara sao os ascendentes pre-coloniais dos Je do Sul, e que a geracao de informacoes sobre eles deve incorporar dados das diversas disciplinas como propoe a etno-historia.

Partindo da hipotese que os grupos Je migraram do Brasil Central para o Sul, passando por Sao Paulo onde ocuparam as areas de cerrados, faxinais, campos das terras altas entremeados com florestas de araucarias, e ao chegarem nos vales dos rios Paranapanema, Itarare, Itapirapua e Ribeira, seguiram o mesmo padrao de ocupacao em direcao ao Sul e sudoeste, cruzando os rios Iguacu e Uruguai, chegando ate o noroeste do Rio Grande do Sul e nordeste da Argentina.

A compilacao dos dados arqueologicos realizada ate o momento mostra:

--A existencia de vestigios ceramicos da Tradicao Itarare, nas duas margens do baixo Rio Itarare nos municipios de Fartura em Sao Paulo e Carlopolis seu oposto no Parana, caracterizando a regiao como local de passagem dos Je para o Sul. E se considerarmos a ocorrencia de Casas Subterraneas como marcadores de cultura material dos Je do Sul, podemos identificar outros corredores de passagens dessas populacoes do Sudeste para o Sul nas cabeceiras do rio Itarare nos municipios de Bom Sucesso de Itarare em Sao Paulo e Sao Jose da Boa Vista no Parana

E as informacoes geradas pela pesquisa historica evidencia que:

--Os indios Guarani que guiaram a jornada do Adelantado Dom Alvar NuNes de Cabeza de Vaca em 1542, tracaram um roteiro de viagem levando a expedicao pelos Tekoha Guarani desviando-a dos territorios ocupados pelos Je tanto ao norte (Koran-bang-re--Guarapuava) como ao Sul (Kreie-bang-re--Palmas) do Rio Iguacu. Isso mostra a ocupacao Je nos campos entremeados de florestas de araucaria no inicio do seculo XVI;

--Os espanhois, no seculo XVI, evitaram fundar cidades nos territorios Je, suas cidades Ciudad Real del Guaira e Vila Rica del Espirito Santo, a segunda--foram fundadas nas margens do rio Piquiri e Ivai, em areas de floresta nos territorios de seus aliados Guarani;

--Os padres jesuitas tambem fundaram suas primeiras Reducoes nas margens do rio Paranapanema, Tibagi e Ivai, onde estavam os grandes Tekoha Guarani, evitando a penetracao nos territorios dos inimigos dos Guarani. So chegaram no alto rio Tibagi nos Campos Gerais e no alto rio Piquiri nos Pay-ke-re quando os Je permitiram pressionados pelos ataques dos bandeirantes paulistas em 1629;

--E os jesuitas quando iniciaram seus trabalhos junto aos Je registraram a realizacao de seus rituais mortuarios nas serras divisoras dos rios Ivai e Piquiri, e descreveram as caracteristicas fisicas dos indigenas Camperos e/ou Cavelludos, que habitavam os campos adiante da Reducao de Encarnacao nos Campos Gerais;

--Temos registros de enterramentos com cremacao para os Xokleng e sem cremacao para os Kaingang, no seculo XIX, em diversos pontos dos territorios tratados acima;

--Sabemos da existencia de artefatos ceramicos nos aldeamentos Kaingang de Guarapuava no seculo XVIII, em areas que ainda nao foram pesquisadas pela arqueologia;

--E, considerando as tradicoes orais dos Kayowa agregamos a informacao que eles apelidavam os Kaingang de Guaiquere (o que mora em buraco), isso reafirma a necessidade de conecta -los aos construtores das casas subterraneas no sul do Brasil.

No entanto, faz-se necessario ampliar metodologicamente os procedimentos de pesquisas que permita uma melhor compreensao sobre as rotas de migracao dos grupos Je para o Sul do Brasil.

Em termos arqueologicos as tarefas sao: realizar o levantamento de todos os sitios correlacionados aos Je do Sul, existentes em Sao Paulo e Parana, cadastrados no IPHAN, registrados nos Relatorios de Pesquisa e publicados na bibliografia arqueologica; redefinir os marcadores da cultura material dos Je do Sul incorporando, alem dos marcadores ceramicos, outros elementos como as armadilhas de pesca (Pari), casas semi-subterraneas enterramentos, pracas cerimoniais, areas entaipadas, artefatos liticos e outros.

Nos parametros da etno-historia e indispensavel espacializar a ocupacao dos Kaingang no estado de Sao Paulo. Isso significa: revisitar a documentacao colonial na busca dessa presenca; cotejar a toponimia paulista para verificar a existencia de nominacao Kaingang/Xokleng. Produzir mapas com a espacializacao dessa presenca nos estados de Sao Paulo e Parana; construir nessa espacializacao os possiveis corredores de migracao dessas populacoes por Sao Paulo e Parana.

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Lucio Tadeu Mota, Doutor em Historia. Professor no Programa de Pos-Graduacao em Historia da UEM e da UFGD. Pesquisador no Laboratorio de Arqueologia, Etnologia e Etno-historia da UEM. Bolsista Produtividade da Fundacao Araucaria PR. <ltadeumota@gmail.com>

(1) Sobre a Familia linguistica Je ver: RODRIGUES, 1986 e DAVIS, 1966.

(2) A discussao sobre a natureza da etno-historia esta condensada nos numeros da Revista Ethnohistory publicados entre 1954 e 1962. Cf. VOEGELIN 1954; WASHBURN 1961; VANSINA 1962; VALENTINE 1961; LURIE 1961; LEACOCK 1961; FENTON 1961; EWERS 1961; DORSON 1961; BAERREIS 1961; ADAMS 1962.

(3) John Henrique Elliot nasceu em 1809, nos Estados Unidos, ingressou na marinha brasileira e foi lutar na guerra cisplatina, onde foi preso em 8 de marco de 1827. De volta ao Brasil, passou a prestar seus servicos de mapista ao barao de Antonina --Joao da Silva Machado--que iniciava exploracoes nos territorios indigenas a oeste da estrada do Viamao, na decada de 1830. No inicio da decada de 1840, comecam a aparecer seus primeiros trabalhos: sao os relatorios das viagens que realizava com seu companheiro Joaquim Francisco Lopes, sob os auspicios do barao de Antonina, por todo o territorio do Parana e partes do Mato Grosso. Por longos anos, ele percorreu os vastos territorios entre os rios Uruguai e Paranapanema, descrevendo-os e as populacoes indigenas que ali habitavam. Morreu por volta de 1880, na pequena vila de Sao Jeronimo da Serra, no norte da provincia paranaense, localidade que Joaquim F. Lopes tinham apossado para o barao de Antonina, e que mais tarde, se transformou em aldeamento indigena e depois em vila da comarca de Castro. Sobre a biografia de Elliot, ver: Bigg-Wither 1974; Carneiro 1951; Martins 1944.

(4) Pressupomos que essa Reducao estivesse no local da atual Terra Indigena Apucaraninha, no municipio de Tamarana PR, hoje povoada pelos Kaingang. Sobre a retomada desses territorios no vale do Rio Tibagi pelos Kaingang nos seculos subsequente ao fim das Reducoes ver: Mota 1997; 2007 e 2014.

(5) Essa pratica de sepultamentos cremados foi relatada de forma mais esmiucada por Jose Maria de Paula que teve intenso contato com os Xokleng nessa regiao entre 1914 e 1922. Cf. Paula 1924; e ver ainda a descricao de Henry 1964.

(6) Conforme Borba 1908, p. 118, os campos de Guarapuava eram chamados pelos Kaingang de Coranbang-re. Coran, dia, ou claro, bang, grande, Re, campo: Campo do claro grande ou Clareira grande. Seguindo a convencao sobre a grafia dos nomes tribais, substituimos o c pelo k e adotamos a grafia de Koran-bang-re, em vez de Coranbang-re utilizada por Borba.

(7) Conforme Borba 1908, p. 118. Aos campos de Palmas chamam, os Kaingangues Creie-bang-re. Creie, pilao, Bang, Grande, Re, campo: Campo do pilao grande. Dizem que lhe pozeram este nome porque alli tinha um grande pilao, ou talvez monjolo, feito por um indio chamado--Nharaburo, Broto de milho. Seguindo a convencao sobre a grafia dos nomes tribais, substituimos o c pelo k e adotamos a grafia de Kreie-bang-re, em vez de Creie-bang-re utilizada por Borba.

(8) Telemaco Borba assim descreveu o significado dessa expressao Kaingang: Xa-embetko: Xa, salto, caxoeira, Embetko, um modo de cacar ratos a noite com fachos. Pela semelhanca que lhes pareceu, (aos Kaingangues) ter as pescarias de cascudos, a noite neste rio com a dos ratos, lhe puseram este nome, que os nossos alteraram ou abreviaram. (Borba 1908, p. 117). No curso da ocupacao daquela regiao os colonizadores alteraram o nome inicial Kaingang de Xa-embetko para Chapeco.

(9) os dicionarios Kaingang definem Xaxa ou Xanxa como sendo cobra cascavel; dessa forma, Xanxa-re seriam, os campos da cascavel, que mais tarde passou a ser grafado pelos colonizadores como Xanxere. Ver Val Floriana 1920.

(10) Conforme Telemaco Borba os territorios a oeste de Palmas denominados pelos nacionais de Campo Ere, eram chamados pelos Kaingang de Campo-Re: Campo, Pulga, Re, campo: Campo da pulga. (Borba 1908, p. 118) Seguindo a convencao sobre a grafia dos nomes tribais, substituimos o c pelo k e adotamos a grafia Kampo-re. Outros autores tambem tem a mesma definicao de Kampo para pulga, ver: Ambrossetti 1895; Baldus 1947. A denominacao Kampo-Re dada pelos Kaingang para aqueles territorios foi adotada pelos colonizadores e hoje e nome de uma cidade na divisa do Parana com Santa Catarina grafada como Campo Ere.

(11) Cavaru, e um emprestimo linguistico que os Kaingang fizeram para cavalo, e Ko em Kaingang e comer. Dessa forma Kavaru-koya pode ser entendido como lugar onde se matam e comem cavalos.

(12) Cf. Cortesao 1951. Wilmar da Rocha D'Angelis, interpreta essa frase do seguinte modo: A primeira expressao, que Montoya traduz por 'sube, sube del campo" pode ser interpretada como "re ka ta pa = campo-dentro ~ sair (ou: campo-dentro-por--sair). Ja a oracao completa e interpretada assim: nija sa kanhka tapry = fumaca + preta + ceu + subir, D'Angelis 2003.

(13) Sobre essa questao dos antepassados dos Kaingang existe uma longa discussao; para maiores informacoes sobre o assunto ver: Montoya 1639; Leme 1869; Sampaio 1897; 1903, 1914; Ribeiro 1908; Borba 1908; Freitas 1911, 1914; Ayrosa 1934, 1939; Taunay 1946, 1955; Edelweiss 1947; Cortesao 1951; Duran 1951; Schaden 1954; Abreu 1982; Holanda 1990; Monteiro 1992.

(14) Para uma analise critica das tradicoes arqueologicas dos Je do Sul ver: Noelli 1999, 2002, 2004

(15) Para um balanco da discussao arqueologica sobre a presenca dos Je no Sul do Brasil ver: Noelli 1999.

(16) Cf. Brochado 1984. Deve-se observar que Eurico th. Miller tinha sugerido em 1971 que: a ceramica nao Tupiguarani da area da araucaria, ou seja: que as Tradicoes Taquara e Itarare sejam consideradas tao somente como subtradicoes de uma unica tradicao (Pre-Kaingang), Miller 1971: 54. Mas foi Menghin o primeiro a propor a correlacao entre ceramica Eldoradense, nao tupiguarani, com as populacoes Je Meridionais, Menghin 1957.

Caption: Mappa Chorographico da Provincia do Parana com nominacoes Kaingang. Fonte: Elliot 1864.

Caption: Fig. 1. Mapa 1. Sitios arqueologicos Je do Sul no Parana. Fonte: Lucio Tadeu Mota--LAEE.

Caption: Fig. 2. Mapa 2. Sitios arqueologicos Je do Sul datados no Parana. Fonte: Lucio tadeu Mota--LAEE

Caption: Fig. 3. Mapa 3. Municipios com sitios arqueologicos nas margens dos Rios Paranapanema/Itarare e Itapirapua/Ribeira
Tabela 1: Caracteristicas socioculturais que vinculam os Je do Sul
Brasil com os Je do Brasil Central. Fonte. SOARES 2008: 63

Aspectos sociais                         Kaingang   Xavante   Bororo

Divisao em metades clanicas                 X          X        X
Pintura corporal identificando              X          X
  as metades
Mito de origem ligado as metades            X          X        X
Reciprocidade entre metades                 X          X        X
Exogamia                                    X          X        X
Patrilinhagem                               X          X
Matrilinhagem                                                   X
Casamento entre primos cruzados             X          X
Modelo de parentesco                     Iroques    Iroques    Crow
Uxorilocalidade                             X          X        X
Alternancia de poder entre as metades       X          X
  no grupo domestico

Tabela 2: A numeracao correspondente as regioes no mapa de Elliot
foi feita com dados de BORBA 1908.

Nominacao Kaingang para seus os territorios no seculo XIX

       Denominacao
Area   Kaingang                    Denominacao portuguesa

1      ?                  Campos Gerais
2      Koran-bang-re *    Campos de Guarapuava
3      Kreie-bang-re *    Campos de Palmas
4      Xaxa-re *          Campos de Xanxere
5      Kampo-re *         Campo Ere
6      Kavaru-koya **     Sao Pedro das Missoes--Argentina
7      Pahy-ke-re ***     Paiquere e/ou Campos do Mourao
8      Min-krin-ia-re *   Campos de Chagu, hoje Laranjeiras do Sul
9      Inho-ho ****       Sao Jeronimo
10     ?                  Hoje regiao de Rolandia Arapongas

Nominacao Kaingang para os rios da regiao Sul no seculo XIX

    Denominacao    Denominacao
N   Kaingang       Portuguesa                  Fonte

A   Goio-Covo      Iguacu        Aparece na documentacao pro-
                                 vincial do Parana e em mapas da
                                 primeira metade do seculo XIX.

B   Chopin         Chopim        Xu = "ruido que produz o fogo ao
                                 apagar-se na agoa" + pin = fogo.
                                 Apagou o fogo.

C   Xa-embetko     Chapeco       Xa = salto, cachoeira, + Embetko
                                 = "modo de cacar ratos a noite
                                 com fachos"

D   Goioaint       Uruguai       Goio = agua + aint = invadeavel.

E   Goiobang       Parana        Goio = agua + bang = grande

Tabela 3: Numero de sitios arqueologicos cadastrados no CNSA-IPHAN
nos municipios lindeiros das duas margens dos Rios Paranapanema e
Itarare. Fonte: Lucio Tadeu Mota--LAEE

Paranapanema / Itarare

Margem               Municipios   Sitios

Esquerda--Parana         31        190
Direita--Sao Paulo       29        254

Total                    60        444

Tabela 4: Numero de sitios arqueologicos cadastrados no CNSA-IPHAN
nos municipios lindeiros das duas margens dos Rios Itapirapua e
Ribeira. Fonte: Lucio tadeu Mota--LAEE

Itapirapua / Ribeira

Margem                 Municipios   Sitios

Direita--Parana            3          8
Esquerda--Sao Paulo        11         96
                           14        104
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Title Annotation:Texto en portugues
Author:Mota, Lucio Tadeu
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jul 1, 2016
Words:10173
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