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The new configurations of time and space and their impact on the journalistic labor/As novas configuracoes do tempo e do espaco e seus efeitos para o labor jornalistico.

Introducao

Havia um tempo em que, ao transpor os limites da casa burguesa para viver a experiencia das ruas, o sujeito urbano desperdicava o tempo para ganhar o espaco. Numa epoca de informacao virtual, em rede, economiza-se o tempo, encurtam-se seus atimos, a fim de se ganhar mais espaco.

Havia um tempo em que se perder na multidao, na massa da grande cidade, correspondia a um exercicio de ocultamento para perscrutar os tipos urbanos, perfilando-os tal e qual detetive que nunca e visto enquanto olha. Para isso, existiam, os flaneurs e os fisiologistas de Paris, especialistas em vagar pela cidade para perfilar os tipos urbanos, estrangeiros oriundos da vida domestica e privada da casa para compor o cenario publico e aberto da cidade e que seriam objeto de analise de Walter Benjamin (1994a) no livro que escreveu sobre o poeta Charles Baudelaire.

Em tempos de projecao da imagem, o livro do rosto (Facebook) e outros derivativos das redes sociais expoem quem ve e quem olha e o perfilado nao e mais o outro, mas o proprio sujeito, que se exibe em fotos de si mesmo (selfies). Se o objetivo do flaneur era observar o outro, ocultando-se no anonimato da multidao, hoje o Facebook, em sua maxima exigencia de que "tudo seja social", elimina o que tornava possivel o flanar: a solidao, o anonimato, o misterio, a observacao a distancia. Tal sistema de compartilhamento de tudo nos impede de sermos indiferentes. Nao estar em uma rede social remove-nos dos acontecimentos que ja nao se processam mais no palco da cidade, mas na sua versao virtual, no espaco da tela, onde tudo acontece porque pouca coisa acontece de relevante, onde todos aparentam ser o que muitas vezes nao sao. As relacoes sao intimas porque nao gozam da intimidade real e ambivalente proprias das relacoes humanas. Morozov (2012) argumenta que no "compartilhamento sem atrito" do Facebook, deve-se preocupar so com o que nao se quer compartilhar, porque tudo o mais sera compartilhado automaticamente.

Nestes desvios do privado ao publico, do espaco da casa para o espaco da rua, a prefiguracao do jornalista ja estava imbricada ate a raiz. Primeiro com o fisiologista parisiense, que daria lugar ao flaneur, cujo apogeu encontrou em Baudelaire sua maxima expressao. Ja no contexto brasileiro da virada do seculo XIX para o XX, com o cronista, prefiguracao do jornalista, cuja roupagem serviu tao bem a Joao do Rio, este Baudelaire dos tropicos, talvez o primeiro reporter brasileiro a submergir na cidade, documentando as ruas, os tipos, as pequenas profissoes ignoradas, os becos e o submundo, perdendo-se no meio da massa para dali extrair suas reportagens, ate hoje atuais.

Havia um tempo em que era necessario ao jornalista movimentar-se pela cidade no ritmo da tartaruga. Como nos lembra Benjamin (1994a), o flaneur levava este animal de estimacao para passear no intuito de se contrapor ao ritmo ditado pelo industrialismo iminente. Ocupar entao o espaco significava faze-lo de forma lenta. Dominar a cidade era entende-la em seus tracos enviesados, em suas esquinas abruptas, em seus meios de transportecada vez mais acelerados, em sua fauna de tipos, dos anodinos aos excentricos.

Hoje a cidade desaloja o jornalista, empurra-o para dentro do gabinete ou para os espacos intermediarios e seguros dos cafes. Nao mais os cafes cujas mesas eram colocadas no bojo das ruas ou das galerias, mas aqueles estabelecimentos franqueados que ficam abrigados nos corredores dos shoppings-centers.

Ligando estas duas pontas temporais do labor jornalistico, o presente artigo se propoe a analisar o quanto a urgencia do tempo provocou uma crise no espaco. Hoje, a atual configuracao do trabalho jornalistico a partir de uma logica de fluxo, de rede, de velocidade, leva o profissional a sentir cada vez mais no corpo e na vida mental a angustia de nao mais pertencer ao espaco e de nao poder acompanhar o ritmo veloz do tempo. Pede-se a ele cada vez mais e mais velocidade:

Nao e mais o tempo de passagem que serve de padrao para o espaco percorrido, mas sim a velocidade, a distancia-velocidade, que tornouse a medida, a dimensao privilegiada tanto do espaco quanto do tempo (Virilio, 1993, p. 44).

Este trabalho, que parte de uma reflexao hibrida e transdisciplinar formulada a partir de revisao bibliografica que abarca o campo da historia do Jornalismo, iluminada por teorias da Literatura, da Sociologia e da Filosofia, propoe analisar o quanto a nova configuracao do espaco, em diferentes tempos, condiciona uma nova morfologia do trabalho jornalistico. Para tanto, propoe tres deslocamentos espaciais que sao alegoricos do processo de formacao da atividade profissional, do seu entusiasmo pioneiro ao posterior desencantamento atual.

A primeira passagem (da casa a rua) alude a formacao dos primeiros jornalistas a desabitar a casa para ocupar a cidade no intuito de domestica-la.

A segunda passagem (da casa ao escritorio) resgata a formacao do gabinete de trabalho/redacao como o principio da desocupacao da cidade.

E a terceira passagem (da rua e do escritorio a casa), investiga o quanto o ciberespaco, praticado em todos os espacos e, portanto, em espaco algum, volatiza o aparelho sensorio do jornalista, repercutindo em seu corpo e desalojando-o tanto da casa quanto da rua. Neste nao lugar, neste home-office, que nao e nem casa (home) e nem tampouco escritorio (office), o jornalista economiza o tempo do deslocamento para dilatar o tempo do trabalho. E assim, na busca pela ubiquidade do tempo instantaneo das informacoes em tempo real, o jornalista contemporaneo perde tambem o espaco. Conforme Bauman (1998, p. 113), "uma vez disfarcado e nao mais um vetor, nao mais uma seta com um indicador, ou um fluxo com uma direcao, o tempo ja nao estrutura o espaco".

Alem de perder tais vetores, perde tambem a saude. Sao muitos os relatos de que o exercicio diario da profissao estaria levando os jornalistas as mais variadas doencas, ao sofrimento, a angustia, ao estresse e, pior cenario, ao silencio sobre sua condicao, o que potencializaria ainda mais o martirio.

O objetivo deste trabalho e, entao, investigar o quanto a aceleracao do tempo e a desestruturacao do espaco no labor jornalistico estariam afetando a saude do jornalista contemporaneo. Alem da pesquisa historica, utiliza como protocolo metodologico entrevistas semiestruturadas realizadas com profissionais que fazem uso do sistema de home-office ou do espaco semipublico dos cafes ou shoppings para exercer seu oficio.

Da analise efetuada, sobretudo fundamentada em documentacao, entrevista e em pesquisa historica e sociologica, e possivel recompor a existencia de tres passagens significativas que marcaram (e ainda marcam) modos de vida e expressoes da profissao de jornalista, o de ontem e o de hoje; o que ainda percorre a rua ou o que se recolhe a casa.

Primeira passagem: da casa a rua

O espaco da casa, com seus contornos familiares, muros, portas, umbrais, abriga o sujeito dos perigos da rua. Segundo Duby (2009), o verbo privar (domar, domesticar) significa extrair do dominio selvagem e transportar para um espaco protegido, seguro, tal qual uma fortaleza sitiada. Esse lugar e o espaco familiar da casa.

Para Bachelard (1988, p. 26), "a casa afasta contingencias, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. [...] A vida comeca bem, comeca fechada, protegida, agasalhada no regaco da casa".

Tambem Freud (1974) considera a casa para moradia um lugar seguro, substituto do utero materno, para o qual possivelmente todo homem anseia em retornar.

Mas a modernidade traria consigo um principio de inquietacao, de malestar, que desalojaria o individuo da casa burguesa empurrando-o para a rua (1). Segundo Morin (1977, p. 111), de ilhota de harmonia, "pequeno paraiso de conforto, de bem-estar, de status, lindamente decorado e arrumado", a casa torna-se tambem a sede de uma crise emergente, onde nos deparamos com aquele com o qual nao sabemos mais conviver: nos mesmos.

Porem, este desalojamento da casa seria vivido com certa resistencia. Conforme Benjamin (1994a), a burguesia se empenharia em buscar uma compensacao pelo desaparecimento dos vestigios da vida privada na cidade grande, apropriando-se cada vez mais de seus artigos e acessorios caseiros (capas e estojos para chinelos e relogios de bolso, para termometros, talheres e guarda-chuvas etc.), fixando sua marca nos objetos, enfeitando-os, cobrindo-os, tornando a casa um reduto apropriado contra a ameaca da perda de identidade.

Alem deste apego as coisas da casa, a rua tambem era entendida como uma ameaca. Se a vida privada e, segundo Duby (2009), uma vida de familia e, portanto, fundada na confianca mutua, o espaco da rua era visto como um dominio selvagem, estrangeiro. Se ao privado pertencem os seres e as coisas abrigados no circulo da familia, a rua pertence ao dominio dos nao familiares, dos estranhos. E, portanto, um lugar em que a desconfianca deveria prevalecer.

Fora para diminuir este estranhamento em relacao ao espaco da rua e a multidao de estranhos que por ela vagavam que teria surgido na Paris do comeco do seculo XIX, segundo Benjamin (1994a), a figura do fisiologista. Este tipo tinha por oficio aplacar o medo que as pessoas tinham da cidade descrevendo a primeira literatura sobre as ruas e os tipos que nela habitavam: a "panoramica". Dentro deste genero, havia os fasciculos em formato de bolso chamados de "fisiologias", que se ocupavam da descricao de tipos humanos que circulavam nas feiras de Paris. Mais tarde, dedicar-se-iam a consagracao da cidade, perfilando suas ruas, seus panoramas, tudo para tornar aprazivel a ameaca do outro estranho e do espaco "estrangeiro".

No contexto brasileiro, um dos maiores fisiologistas foi sem duvida o escritor Joao do Rio que nao so documentava os varios tipos que habitavam o espaco urbano (o cigano, o trapeiro, o apanha-rotulos, o selista, o cacador, o ledor, o tatuador, o vendedor de oracoes, o mercador de livro, o pintor da cidade, o velho cocheiro), como a propria rua se convertia num personagem. Para alem de ser "apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoacoes", considerava-a muito mais do que isso: "Ora a rua e mais do que isso, a rua e um fator da vida nas cidades, a rua tem alma!" (Joao do Rio, 2011, p. 29).

A mesma alma e aludida por Benjamin quando descreve a experiencia do frequentador da rua:

Uma embriaguez acomete aquele que longamente vagou sem rumo pelas ruas. A cada passo, o andar ganha uma potencia crescente; sempre menor se torna a seducao daslojas, dos bistros, das mulheres sorridentes, e sempre mais irresistiveis o magnetismo da proxima esquina, de uma massa de folhas distantes, de um nome de rua (Benjamin, 1994a, p. 186).

Benjamin descreve no excerto o flaneur, mas poderia estar descrevendo sem duvida um jornalista do comeco do seculo XX. Alias, ele mesmo trata de aproxima-los: "A base social da flanerie e o jornalismo. E como flaneur que o literato se dirige ao mercado para se vender" (Benjamin, 1994a, p. 225). Curioso constatar que Joao do Rio, muito antes de Benjamin, ja faria alusao ao flaneur (esse "pedestre da poesia da observacao") para explicar sua relacao de amor as ruas. "Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua e para mim um ser vivo e imovel" (Joao do Rio, 2011, p. 33). Afinal, segundo ele,

Para compreender a psicologia da rua nao basta gozar-lhe as delicias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. E preciso ter espirito vagabundo, cheio de curiosidades malsas e os nervos com um perpetuo desejo incompreensivel, e preciso ser aquele que chamamos flaneur e praticar o mais interessante dos esportes--a arte de flanar (Joao do Rio, 2011, p. 31).

Esporte esse praticado tambem pelo personagem Isaias Caminha, do primeiro livro do escritor Lima Barreto, publicado em 1909, um ano depois da cronica de Joao do Rio:

[...] quando desci a rua, ainda brilhava em frente a Prefeitura um combustor de gas. O ambiente nao era de luz nem de treva--era uma penumbra algodoada e nevoenta com que comecam certas manhas no Rio de Janeiro. Os raros transeuntes moviam-se esbatidos naquela ambivalencia indecisa. Andei. Ao chegar a Rua do Ouvidor, a rua dos lentos passeios elegantes, havia uma agitacao de mercado. Cestos de verduras, de peixes, de carnes, passavam a cabeca de mulheres e homens; os quitandeiros ambulantes corriam por ela acima; pequenas carrocas de hoteis caros davam-se ao luxo de atravessa-la em toda a extensao; e pelas soleiras das portas imensas moles de jornais diarios eram subdividos pelos vendedores de todos os pontos da cidade (Barreto, 2001, p. 68-69).

Alias, conforme Needell (1993), a Rua do Ouvidor converte-se num simbolo da imitacao do estilo de vida que se tinha nos bulevares europeus, com seus passeios diarios, os chas nas confeitarias elegantes e uma vestimenta copiada dos ultimos modelos de Paris e Londres. Com a vinda da corte portuguesa para o Rio e a imigracao dos primeiros colonos franceses, tornara-se um lugar onde florescia o comercio das modas e onde os melhores hoteis, cafes e confeitarias se instalariam. Seria nela que tambem Machado de Assis (2) extrairia os assuntos para as suas cronicas, alem da propria rua em si ser um tema constante. "Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bonde, que pode trazer-me a casa ou a Rua do Ouvidor, que e onde todos moramos", escreveria ele em cronica de 1889, compilada por Gledson (1996). Ali, "onde a vida passa um burburinho de todos os dias e de cada hora. Chovem assuntos modernos" (Gledson, 1996, p. 190). Assim descrevera a capacidade de tal rua de produzir noticias:

Para os que as buscam por todos os recantos da cidade, deve ter sido uma semana trapalhona; para mim, que nao as procuro fora da Rua do Ouvidor, a semana foi interessante e placida. Pode ser que erre; mas ninguem me ha de ver pedir noticias em outras ruas. As vezes perco uma verdade da Rua da Quitanda por uma invencao da Rua do Ouvidor; mas ha nesta rua um cunho de boa roda, que da mais brilho ao exato, e faz parecer exato o inventado. Acresce a qualidade de pasmatorio. As ruas de simples passagem nao tem graca nem excitam o desejo de saber se ha alguma coisa. O pasmatorio obriga ao cotejo. Enquanto um grupo nos da uma noticia, outro, ao lado, repete a noticia contraria; a gente coteja as duas e aceita uma terceira (Gledson, 1996, p. 242-244).

Como se ve, o fascinio da rua instigava nossos primeiros jornalistas, convidava-os a uma vida de aventuras e de registro dos assuntos modernos por ela produzidos: a expressao da velocidade, a exposicao da vida privada, as modas, os costumes, as noticias, o progresso. Era na rua que os tempos modernos se encenavam na novidade dos transportes publicos, no treinamento da fragmentacao de um olhar que precisava estar apto para os choques da vida moderna, na domesticacao do vizinho ameacador coabitante do mesmo espaco, na descoberta da caminhada pelas vias publicas, onde vez por outro o pedestre interrompia o passo para contemplar a multidao a partir de um cafe. Tal qual um flaneur para o qual

[...] os letreiros esmaltados e brilhantes das firmas sao um adorno de parede tao bom quanto a pintura aoleo no salao do burgues; muros sao a escrivaninha onde apoia o bloco de apontamentos; bancas de jornais sao suas bibliotecas, e os terracos dos cafes, as sacadas de onde, apos o trabalho, observa o ambiente (Benjamin, 1994a, p. 35).

Segunda passagem: da rua ao escritorio

Mas se o flaneur usava o muro como escrivaninha, a profissionalizacao do jornalista iria tira-lo tanto da casa quanto da rua para a funcionalidade de outra escrivaninha: a do escritorio. Precisamente o termo escritorio (do latim scriptorin) tem sua origem etimologica a partir deste mobiliario tipico encontrado nos gabinetes: a escrivaninha. Por essa razao, as atividades desenvolvidas nestes ambientes (leitura, escrita, contabilidade, calculo, projeto etc.) foram tambem denominadas "atividades de gabinete".

Tracando um panorama da historia do escritorio, poderemos usa-lo como metafora da transposicao do livro ao jornal e do literato ao jornalista. Tal qual o surgimento dos primeiros livros, durante a Idade Media os scriptoriums costumavam ser encontrados em mosteiros. O aparecimento das industrias, a partir de meados de 1860, demandou uma necessidade por espacos para a realizacao de atividades administrativas de controle da producao. Assim como os primeiros escribas, literatos ou jornalistas incipientes usavam os gabinetes de suas casas para exercer o oficio, empresarios acabaram construindo suas residencias sobre a loja ou fabrica de sua propriedade, e os afazeres de seus funcionarios, que muitas vezes acabavam residindo, no mesmo local, se confundiam com os afazeres domesticos. Tal qual o flaneur benjaminiano que, como vimos, converte os muros em escrivaninha onde apoia o bloco de apontamentos, os cafes tambem seriam utilizados por empresarios pioneiros para a realizacao de reunioes importantes de trabalho.

Porem, o aumento da populacao de funcionarios (copistas, contadores, bancarios, advogados etc) levaria tais empresarios a procurar espacos maiores para abriga-los e ja no final do seculo XIX surgem os primeiros escritorios comerciais nas cidades industriais dos Estados Unidos (3).

A parte as diferencas entre os paises e continentes, esse momento coincide com o percurso historico de afirmacao profissional dos jornalistas, que ocorreria na segunda metade do seculo XIX e nas primeiras decadas do seculo XX. Com a industrializacao da imprensa--que passa de "uma actividade artesanal, amadora e irregular" para uma "actividade regular, permanente, com grande forca no mercado e forte influencia na sociedade" -, criam-se empresas, cresce um mercado de trabalho e formam-se redacoes estabilizadas (Fidalgo, 2007). E assim, se o jornalista, tal qual flaneur ou fisiologista, migrou do espaco domesticado da casa para se aventurar na rua, transformando os cafes num ambiente fertil de trabalho, houve um momento em que a profissionalizacao da profissao levou-o de volta ao gabinete. Nao ao gabinete acolhedor da casa, onde os objetos pessoais residem em sua calma e imobilidade, mas ao escritorio da redacao, cuja disposicao dos moveis e arquitetura do lugar iriam refletir o aspecto hierarquico e paternalista que se estabelecia, e a velocidade das rotativas iria ditar o ritmo no qual o jornalista deveria deslizar a pena sobre o papel da agora producao em serie. Escritorio esse cujo dono do negocio, ou um intermediario seu na figura do supervisor, postado numa sala individual no nivel superior ou num mezanino, controlava os funcionarios e comunicava sua hierarquia. "A sala do chefe esta ericada de armas. Aquilo que, tomado como conforto, alicia quem entra, e na verdade um arsenal dissimulado. Um telefone sobre a escrivaninha toca a todo instante" (Benjamin, 1994b, p. 55).

Assim, conforme Fonseca (2004), no final do seculo XIX e inicio do XX, esse escritorio de layouttaylorista preconizava a segregacao espacial como meio de reafirmar as diferencas hierarquicas, visando o incentivo da competicao interna e o estimulo das performances individuais. A racionalizacao introduzida pela padronizacao do mobiliario e a rigidez do layout era uma forma de assegurar a disciplina e a linearidade do processo de trabalho. Esse novo tipo de escritorio, apesar de fisicamente separado da fabrica, apresentava uma organizacao espacial que lembrava a planta industrial: um grande salao central era destinado aos funcionarios dos escaloes inferiores (datilografos, estenografos, contadores, continuos, etc), onde as mesas eram dispostas em fileiras paralelas, numa mesma direcao, sob as vistas de um supervisor instalado defronte. Ao redor desse grande salao central, localizavam-se as salas privativas dos gerentes, que eram delimitadas por divisorias envidracadas. Os funcionarios dos escaloes mais altos ocupavam os pavimentos superiores e nesses, suas salas confortaveis e privativas, revestidas com acabamentos internos de qualidade, situavam-se nos pontos com melhor vista e insolacao (Fonseca, 2004).

Se essa era a organizacao do espaco de trabalho da maioria das empresas da epoca, nao seria diferente com a "fabrica de noticias" Lima Barreto (2001), no livro ja citado "Recordacoes do escrivao Isaias Caminha", documentaria os bastidores da imprensa brasileira na virada parao seculo XX e, de quebra, detalharia a sala da redacao de um jornal do periodo.

Era uma sala pequena, mais comprida que larga, com duas filas paralelas de minusculas mesas, em que se sentavam os redatores e reporteres, escrevendo em mangas de camisa. Pairava no ar um forte cheiro de tabaco; os bicos de gas queimavam baixo e eram muitos. O espaco era diminuto, acanhado, e bastava que um redator arrastasse um pouco a cadeira para esbarrar na mesa de tras, do vizinho. Um tabique separava o gabinete do diretor, onde trabalhavam o secretario e o redator-chefe; era tambem uma superficie diminuta, mas duas janelas para a rua davam-lhe ar, desafogavam-no muito (Barreto, 2001, p. 83-84).

Como se ve pela descricao de Lima Barreto, e como sempre ocorre em todos os momentos de transicao, duas formas conviviam lado a lado antes que uma suplantasse a outra em definitivo: o redator encarregado de escrever a noticia e o reporter que se limitava a obte-las pelas ruas da cidade. Para esse ultimo, o escritorio era apenas uma parada, uma estacao, na flanerie incessante pelo espaco urbano que ainda o seduziria por algum tempo. Afinal, como diria Machado de Assis em uma de suas cronicas compiladas por Coutinho (1959), "um historiador de quinzena, que passa os dias no fundo de um gabinete escuro e solitario, que nao vai as touradas, as camaras, a Rua do Ouvidor, um historiador assim e um puro contador de historias" (Coutinho, 1959, p. 361).

Terceira passagem: da rua e do escritorio a casa

Se para Machado de Assis o mais importante era ir as ruas buscar as noticias que a cidade oferecia em profusao, pede-se ao jornalista contemporaneo muito mais. Exige-se dele que desempenhe simultaneamente trabalhos de reportagem, redacao, edicao, documentacao, design, fotografia. Conforme Salaverria e Negredo (2008), esta acumulacao de tarefas nao e nova. Vem ocorrendo ha pelo menos meio seculo, quando os reporteres de rua se converteram em redatores de mesa. Soma-se a isso, conforme Salaverria (2006), o fato de os jornalistas terem de aprender as peculiaridades de uma nova plataforma de difusao (a rede) e, ao mesmo tempo, responder as demandas de um publico cada vez mais exigente e participativo.

Nao so a polivalencia (4), com sua economia de custos e de tempo, exigida pelas modernas redacoes estariam removendo os jornalistas do espaco da cidade. Hoje, e a propria cidade que entra em colapso. Os transportes publicos desalojam o pedestre, o rapido relance dos olhos transforma a faculdade da visao num olhar que enxerga sem ver, a domesticacao do vizinho que passa banaliza a sua presenca ate torna-lo indiferente, e o pedestre acelera o passo sem mais interrompe-lo na parada no cafe ao ar livre, posto que isso agora seria correr um risco. Nao e a toa que a questao da seguranca esta cada dia mais em pauta, desalojando o pedestre da rua e transpondo-o para "guetos voluntarios", como sao os condominios cercados de muros e com guardas 24 horas por dia, onde a logica funda-se na vigilancia e na distancia (Bauman, 2009, p. 39). E assim, "paradoxalmente, as cidades--que na origem foram construidas para dar seguranca a todos seus habitantes--hoje estao cada vez mais associadas ao perigo" (Bauman, 2009, p. 40).

O resultado disso e o retorno ao temor que o habitante nutria pela cidade e que teve que ser apaziguado pelos fisiologistas de Paris, conforme vimos com Benjamin. Pode-se dizer que da fisiologia passa-se a mixofobia que, conforme Bauman (2009, p. 43), e o medo de misturar-se. "Essa mixofobia nao passa da difusa e muito previsivel reacao a impressionante e exasperadora variedade de tipos humanos e de estilos de vida que se podem encontrar nas ruas das cidades contemporaneas e mesmo na mais 'comum' (ou seja, nao protegida por espacos vedados) das zonas residenciais" (Bauman, 2009, p. 43).

Se havia uma predisposicao do fisiologista a tornar o estranho familiar, pode-se dizer que o principio da mixofobia e manter o outro a distancia. Se havia uma intencao do fisiologista em absorver a diferenca, dissecando-a, pode-se dizer que a mixofobia mais do que a ignora, repele-a. "A mixofobia se manifesta como impulso em direcao a ilhas de identidade e de semelhanca espalhadas no grande mar da variedade e da diferenca" (Bauman, 2009, p. 44).

O problema, segundo Bauman (2009, p. 47), e que quanto maior e mais heterogenea for uma cidade, maiores sao os atrativos que podem oferecer, e cria-se, assim, uma experiencia ambivalente: se de um lado a variedade do ambiente urbano gera medo, por outro, esse mesmo "brilho caleidoscopio da cena urbana" seduz. Talvez este tenha sido o mesmo impasse vivido na cena urbana da Paris descrita por Benjamin no comeco do seculo XIX e que fez com que, apesar do medo, os habitantes da grande cidade transpusessem o conforto e a seguranca do lar burgues para se aventurar na imprevisibilidade da rua. E se a via de acesso a cidade tinha como limiar a porta das residencias, hoje ela e substituida, conforme Virilio (1993, p. 9), pela "superficie-limite" da "interface". "E interessante, portanto, abordar a questao do acesso a Cidade de uma nova forma: a aglomeracao metropolitana possuiu uma fachada? Em que momento a cidade nos faz face?" (Virilio, 1993, p. 9). Segundo Virilio, o espaco urbano perde cada vez mais sua realidade geopolitica em beneficio dos sistemas tecnologicos instantaneos de deportacao (de pessoas pelo remanejamento da producao, da atencao, do face a face humano, do contato urbano para a interface homemmaquina), a tal ponto que o autor se pergunta "se o que insistimos em chamar de ESPACO nao seria tao-somente a LUZ, uma luz subliminar, para-optica, em relacao a qual o brilho do sol seria apenas uma fase, um reflexo, e isto em uma duracao cujo padrao seria menos o tempo que passa da historia e da cronologia do que o tempo que se expoe instantaneamente" (Virilio, 1993, p. 49). E assim, "a antiga ocultacao publico-privado e a diferenciacao da moradia e da circulacao sucede-se uma superexposicao onde termina a separacao entre o proximo e o distante" (Virilio, 1993, p. 10).

Na primeira transposicao da porta que separava o espaco privado do publico os citadinos contaram com a ajuda do jornalista (na pele do fisiologista, do flaneur ou do cronista). Caberia a esse profissional ajudar o sujeito moderno a se adaptar a aceleracao, as rotinas de trabalho, a fragmentacao do olhar, ao vizinho ameacador, experiencias essas vivenciadas de forma inedita na grande cidade. Caberia a ele procurar desvendar e compreender como

a experiencia de viver nas grandes cidades modernas, planejadas em funcao dos novos fluxos energeticos e marcadas pela onipresenca das novas tecnicas, influencia e altera drasticamente a sensibilidade e os estados de disposicao de seus habitantes (Sevcenko, 1998, p. 522).

Caberia a ele dar conta das varias encenacoes e noticias que ocorriam concomitantemente e de maneira cada vez mais veloz no palco da cidade, a tal ponto que Machado de Assis, em cronica de 1892 sobre o atropelamento de um pedestre por um bonde, apontaria um principio de angustia no profissional escalado para acompanhar o novo ritmo dos acontecimentos:

Os acontecimentos parecem-se com os homens. Sao melindrosos, ambiciosos, impacientes, o mais pifio quer aparecer antes do mais idoneo, atropelam tudo, sem justica nem modestia... E quando todos sao graves? Entao e que e ver um miseravel cronista, sem saber em qual pegue primeiro. Se vai ao que lhe parece mais grave de todos, ouve clamar outro que lhe nao parece menos grave, e hesita, escolhe, torna a escolher, larga, pega, comeca e recomeca, acaba e nao acaba (Gledson, 1996, p. 160).

Machado de Assis jamais poderia supor que a impaciencia aludida por ele em 1892 atingiria o seu extremo hoje, na busca frenetica pela noticia em tempo real e na sua divulgacao instantanea no espaco cibernetico, e que o atropelamento mencionado por ele teria como vitima mais grave o proprio jornalista. Aquele que precisa produzir velocidade, suprimir a duracao, em suma, matar o tempo e ganhar mais espaco simultaneamente (5).

E assim matar o tempo e o espaco converte-se na condicao fundamental para a realizacao da atividade profissional do jornalista. Se ha poucos anos profissionais como Ricardo Kotscho (1986) preconizavam que lugar de reporter era na rua, hoje o jornalista "bate em retirada". Se, como vimos, jornalistas pioneiros transpuseram a porta que da acesso a cidade para se embrenhar num mundo de aventuras que so o espaco publico fornecia, hoje, na cidade sem portas, convertem-se em interlocutores em transito permanente. Ou talvez nem em "transito", uma vez que a ausencia de deslocamento tambem condiciona a economia de tempo. Antes mesmo do advento da Internet e de outros aplicativos de comunicacao instantanea, Virilio (1993, p. 14) ja reclamava de "um urbanismo sem urbanidade em que o tato e o contato cedem lugar ao impacto televisual".

[...] nao somente a 'teleconferencia', que permite comunicacoes a distancia, com o progresso inerente a ausencia de deslocamento, mas tambem a 'telenegociacao' que permite, ao contrario, tomar distancia, discutir sem se encontrar com seus parceiros sociais, onde existiria no entanto uma proximidade fisica imediata, em uma situacao de certa forma semelhante a dos maniacos do telefone, para os quais a situacao favorece o desvio da linguagem, o anonimato de uma agressividade telecomandada (Virilio, 1993, p. 14).

Ainda para o autor, esta substituicao da observacao direta dos fenomenos por uma "teleobservacao" e arriscada, uma vez que "a ausencia de percepcao imediata da realidade concreta engendra um desequilibrio perigoso entre o sensivel e o inteligivel, que so pode provocar erros de interpretacao" (Virilio, 1993, p. 23).

Assim, se na cidade murada, portais, muros, porticos delimitavam a cidade, na cidade contemporanea

a porta e aquilo que transporta veiculos, vetores diversos cujas rupturas de continuidade compoem menos um espaco do que uma especie de contagem regressiva em que a urgencia do tempo de trabalho aparece como centro do tempo e o tempo livre das ferias, do desemprego, como tempo de uma periferia, suburbio do tempo, aplainamento das atividades no qual cada um e exilado em uma vida privada, em todos os sentidos do termo (Virilio, 1993, p. 11).

O mesmo exilio que vivenciavam os burgueses de Paris do seculo XIX antes de se aventurarem a transpor a porta da casa? Se nesse periodo, como bem observou Benjamin, o escritorio era o centro de gravidade do espaco existencial do burgues, com o advento da "informatica empresarial", conforme definiu Virilio (1993), ligada ao progresso da "teleinformatica" (nota-se que o autor ainda nao chegara a realidade das redes sociais), o "novo escritorio" nao e mais o comodo a parte, mas uma simples tela, o terminal de um "escritorio-visor" (Virilio, 1993, p. 58). Nele, as tres dimensoes do espaco seriam trocadas pelas duas dimensoes de uma tela (de uma interface) que substituiria nao so antigo comodo (com sua mobilia, seus documentos e planos de trabalho), mas que tambem economizaria o tempo de deslocamento de seu ocupante. Desta forma, alem da reorganizacao do espaco construido (urbano e arquitetural), haveria uma reducao dos espacos dos escritorios tradicionais e um reagrupamento de funcionarios em atividades nao centradas, resultando numa diminuicao de custos para as empresas (6).

Antunes (2009, p. 237) tambem preconiza, dentre as novas morfologias do trabalho, a expansao do trabalho a domicilio em varias partes do mundo, resultado da desconcentracao do processo produtivo, do crescimento das pequenas e medias unidades produtivas, da telematica e das tecnologias de informacao, alem do avanco das formas de flexibilizacao e precarizacao do trabalho. E denuncia que o trabalho produtivo a domicilio acaba por se mesclar com o trabalho reprodutivo domestico, aumentando as formas de exploracao do contingente, sobretudo, feminino. Alias, critica tambem que a tao propalada flexibilizacao pode ser entendida como "liberdade da empresa" para: desempregar trabalhadores sem penalidades, quando a producao e as vendas diminuem; reduzir ou aumentar as horas de trabalho; pagar salarios mais baixos do que deveria; subdividir a jornada de trabalho segundo a sua conveniencia; entre outras formas de precarizacao (Antunes, 2009, p. 234).

O trabalho a distancia, abordado por Virilio (1993) a cerca das experiencias francesas, em 1980, e por Antunes, ja no seculo XXI, pode ser verificada, e atualizada, na reorganizacao do mundo do trabalho jornalistico. Se a antiga escrivaninha do escritorio burgues deu lugar a tela do computador, no novo conceito de home-office, as gavetas virtuais do computador cedem lugar a "nuvem". O conceito de "computacao em nuvem" (cloud computing) refere-se a utilizacao de computadores e servidores compartilhados e interligados por meio da Internet, podendo os dados, ser acessados de qualquer lugar do mundo, a qualquer hora. E assim, o mobiliario solido e pesado do passado volatiza-se no espaco ate atingir a forma metaforica de uma nuvem cuja aproximacao no tempo pressupoe sempre um afastamento no espaco. E o espaco real das ruas, do tracado urbano, das relacoes de vizinhanca, da encenacao da vida, dos habitos e fazes mundanos, tao caros aos fisiologistas, flaneurs ou cronistas (nossos jornalistas pioneiros) esvazia-se, "como se o 'povoamento do tempo' das telecomunicacoes (liberacao de linhas, interrupcao...) substituisse subitamente o das antigas coabitacoes, o povoamento do espaco, a proximidade urbana real" (Virilio, 1993, p. 61). E a polis, que havia emprestado sua etimologia a palavra politica, dissipa-se ate "nao ser nada mais do que uma lembranca, uma rememoracao da unidade de vizinhanca, unidade esta que vem sofrendo continuamente os efeitos da mutacao dos meios de comunicacao de massa" (Virilio, 1993, p. 22). Ou nao estariam os meios de comunicacao apenas estampando a crise do tempo e do espaco encenados no palco da cidade?

Consideracoes finais

Procuramos neste artigo desvelar o quanto as novas configuracoes do tempo (cada vez mais acelerado) e do espaco (cada vez mais volatil) engendraram novas morfologias na pratica laboral do jornalista, como a expansao do trabalho a domicilio (home-office), a pratica do compartilhamento do escritorio (coworking), a flexibilizacao e a instabilidade no trabalho. A partir de uma revisao bibliografica sobre a tematica e de entrevistas realizadas com profissionais da area, partimos da hipotese de que tais mudancas na forma como o jornalista se relaciona com o espaco, encurtando cada vez mais o tempo, na captacao de informacoes que a cidade produz, repercutiriam na sua saude e na sua vida mental, causando a precarizacao do seu oficio. Trazemos a luz algumas doencas que, infelizmente, tornam-se cada vez mais comuns no metier, como os Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs), o fenomeno da morte subita, o aumento da dependencia quimica, a sindrome do panico, a depressao, os suicidios etc.

A partir de tres passagens alegoricas destas (i)mobilidades no espaco partilhado da urbe--da casa a rua, da rua ao gabinete e do gabinete e da rua novamente a casa--todo um percurso que vai do encantamento ao desencantamento com o oficio e com a "musa urbana"(Joao do Rio, 2011). Do sentido organico da caminhada dos primeiros flaneurs ao olhar de passagem de quem acelera o tempo para suprimir o espaco, nao mais na cinestesia dos bondes ou dos trens, ou ate mesmo da fotografia ou do cinema, mas na tela vertiginosa dos tablets, iphones, computadores portateis que se deslocam a medida do nosso deslocamento, a necessidade de substituir em alta velocidade a realidade em si pela virtual. Do gabinete rigido do passado, de mobiliario de madeira e cores frias, ao escritorio multiplataforma convergente, cuja mesa central de comando, o "coracao da redacao", e a Internet, a rua se perde. Das grandes janelas ou terracos dos quais o jornalista contemplava a vida "la fora" as telas que se espalham pela redacao e trazem o mundo distante para perto, a rua se perde. Da casa acolhedora, "corpo de imagens que dao ao homem razoes ou ilusoes de estabilidade", como a definiu Bachelard (1988, p. 36), ao home-office que traz o escritorio para dentro do lar, a jornada de trabalho incha e o ambiente domestico nao disfarca a pressao por resultados. E a rua ainda se perde. Da experimentacao organica da rua pelos primeiros cronistas ao jornalista multifuncao, cuja experimentacao do espaco se da apenas pela tela "supersonica", algo indubitavelmente se perde.

Como conclusao preliminar, e a partir da analise destes tres deslocamentos significativos no tempo e no espaco, encontramos as marcas do que muda e do que se mantem nos modos de vida e nas expressoes do jornalista de ontem e de hoje. Desvelamos como a nova configuracao volatil do espaco--alem de remodelarem o lugar (o nao lugar que ocupa a desocupacao da cidade, a reconfiguracao do antigo escritorio num home-office) e o tempo (a aceleracao, o tempo continuo, a ubiquidade) do labor jornalistico--afetam o corpo e a vida mental daquele que o exerce. E o quanto o espaco-velocidade sem dimensao da interface virtual estaria desalojando o jornalista daquele que a principio era sua razao de ser: o lugar partilhado da rua.

Afinal, "e nos lugares que se forma a experiencia humana, que ela se acumula, e compartilhada, e que seu sentido e elaborado, assimilado e negociado. E e nos lugares, e gracas aos lugares, que os desejos se desenvolvem, ganham forma, alimentados pela esperanca de realizar-se" (Bauman, 2009, p. 35).

Assim, sao nos lugares partilhados da rua que se estabelecem a reflexao e o dialogo entre iguais ou estrangeiros, entre quem ameaca ou quem seduz.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2016.3.22607

REFERENCIAS

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Recebido em: 4/12/2015

Aceito em: 9/12/2015

Endereco da autora:

Jeana Laura da Cunha Santos <jeanasantos@terra.com.br>

http://lattes.cnpq.br/6553740826377786

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Rua Engenheiro Agronomico Andrei Cristian Ferreira, s/no--Trindade

88040-900--Florianopolis--Santa Catarina--Brasil

Jeana Laura da Cunha Santos

Mestre e Doutora em Literatura e Pos-Doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

<ieanasantos@terra.com.br>

(1) No artigo "Narrativas sobre a cidade: entre o medo e o fascinio" (Santos, 2014), publicado recentemente na revista Comunicacao, Midia e Consumo, discuto a questao, aqui retomada, do medo e do fascinio que a cidade exercia nos nossos primeiros escribas.

(2) Recupero aqui pesquisas realizadas para minha tese de doutorado intitulada "Experiencias pioneiras de Machado de Assis sobre o jornal'; defendida em 2002, na qual analiso a faceta jornalistica do escritor carioca em suas primeiras incursoes pela cidade por intermedio da cronica (Santos, 2002).

(3) Conforme o artigo "Escritorio: historia de produtividade, desconforto e poder", da Revista Voce S/A de 26 de jun. 2014, no ano de 1860 os Estados Unidos contavam com 750 mil pessoas trabalhando em escritorios. Em 1910, o numero saltou para mais de 4 milhoes (Tozzi, 2014).

(4) Para os autores, a polivalencia e funcional e midiatica. A funcional se produz quando o redator de antes passa a assumir tarefas distintas das de sua especialidade. A polivalencia midiatica se produz quando um jornalista cobre uma informacao para distintos meios (impressos, radiofonicos, televisivos, de Internet) de um mesmo grupo jornalistico.

(5) Uma pesquisa recente feita pelo psicologo, professor e pesquisador da Faculdade de Educacao da Unicamp e da Fundacao Getulio Vargas, Roberto Heloani, revela por que os jornalistas estao adoecendo como nunca. Os Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs), o fenomeno da morte subita, o aumento da dependencia quimica, a sindrome do panico, a depressao, os suicidios aumentaram assustadoramente na profissao. 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% estao na fase da exaustao, o que significa que de cada quatro jornalistas, um esta sofrendo por conta da enorme carga emocional e fisica causada pelo trabalho. Tais consideracoes foram extraidas do artigo de Elaine Tavares, publicado em 24 de agosto de 2010, no Observatorio da Imprensa.

(6) Para a reducao de custos, surge tambem o espaco denominado coworking, modelo de trabalho em que profissionais que nao necessariamente trabalham para a mesma empresa ou na mesma area de atuacao alugam e compartilham o espaco e os recursos de escritorio.
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Title Annotation:Jornalismo
Author:Santos, Jeana Laura da Cunha
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2016
Words:7087
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