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The language impairment in two subjects at risk development in an enunciative perspective of the language working/ O disturbio de linguagem em dois sujeitos com risco para o desenvolvimento em uma perspectiva enunciativa do funcionamento de linguagem.

* INTRODUCAO

Tradicionalmente, dos estudos que focam os disturbios de linguagem na infancia tem explanado os limites biologicos e linguisticos de casos clinicos [1-10], enquanto outros tem abordado as interacoes iniciais [11,12]. Sao recentes, por outro lado, os estudos em uma perspectiva enunciativa, em especial, aqueles voltados a natureza da relacao sujeito-linguagem. Destacam-se, neste campo, Surreaux [13] e Cardoso [14] que abordam tal relacao nos disturbios de linguagem, em uma perspectiva enunciativa. Tais autores, assim como Silva [15] no campo da aquisicao da linguagem, inauguram um novo pensar sobre a linguagem que traz contribuicoes importantes a clinica fonoaudiologica de intervencao precoce.

Silva [15], ao deslocar a perspectiva enunciativa de Benveniste para a aquisicao da linguagem, pressupoe que, por meio da enunciacao, a crianca inscreve-se na linguagem, porque emerge como sujeito de linguagem (constitui-se como eu) quando e constituida pelo outro (o tu). A relacao dialogica do eu e do tu marca um espaco de presenca (eu-tu) e, ao mesmo tempo, de ausencia (ele). Assim, a crianca na enunciacao, instaura-se no uso da lingua pela estrutura de dialogo, essencial para a constituicao do sujeito na linguagem [16]. Requer do outro que a torne sujeito [15], instancia-se na linguagem, lugar de habitacao das relacoes intersubjetivas e se apropria da lingua como sistema de unidades [14]. Os autores do campo enunciativo explicam que enunciar e assumir o lugar do eu no dialogo, para, em seguida, abandona-lo em favor de tu, para que este assuma tambem o lugar do eu.

Cardoso [14] entende que o disturbio de linguagem apresenta uma face especifica da relacao do falante com a lingua. Os erros ditos patologicos, que fazem presenca na fala, em uma concepcao de linguagem enunciativa, integram o conjunto de elementos, linguisticos e extralinguisticos, que possibilitam ao falante enunciar. A lingua compreende dois universos: o do repertorio dos signos (semiotico) e o do discurso (semantico). O signo deve ser reconhecido, e o discurso compreendido. No disturbio de linguagem, ha um problema de reconhecimento do signo (semiotico) ou uma dificuldade na compreensao da ideia (semantico), ou, ainda, ha os casos em que ambos os aspectos estao envolvidos. Nessa perspectiva, ve a fala desviante como uma forma de organizacao singular do sistema da lingua de um falante que, ao transformar a lingua em discurso por um ato individual, ascende a condicao de sujeito. Propoe que a unidade de analise dessa construcao, tendo em vista a importancia do adulto na mesma, deve ser o dialogo. Surreaux [13] afirma que pensar essas relacoes demanda levar em consideracao o sujeito que enuncia, do modo como e possivel enunciar naquele momento. Afirma ainda que e, a partir da sustentacao da fala sintomatica, que o terapeuta permite ao sujeito atendido se apropriar desta fala e produzir deslocamentos, ou seja, fazer uso criativo de seu sintoma para poder sair dele [17]. Para tanto, o terapeuta necessita estar capturado pelo funcionamento de lingua, e distinguir-se das abordagens que pensam a fala desviante apenas como sinal de sistema linguistico patologico [18].

Na clinica de bebes, o sintoma de linguagem geralmente se configura como ausencia de fala ou um pouco falar. Assim, torna-se interessante pensar numa hipotese sobre o funcionamento da linguagem de criancas em processo de aquisicao, pois, compreende-se que o discurso da crianca comporta as (ir) regularidades da lingua e a singularidade do sujeito que enuncia [13]. Tambem e importante pensar nas relacoes forma/sentido [14] e nos mecanismos e estrategias enunciativas de aquisicao presentes nesses casos [15].

O estudo de casos, apresentado neste artigo, provem de uma pesquisa longitudinal realizada em uma cidade de porte medio do Rio Grande do Sul, na qual os sujeitos foram acompanhados por meio dos Indices de Risco ao Desenvolvimento Infantil [19], cujos resultados quantitativos ja foram divulgados em outros artigos [20,21] Este estudo, de foco qualitativo, aborda o funcionamento de linguagem de dois meninos que chegaram ao processo terapeutico em idades diferentes.

Assim, o objetivo deste artigo e refletir sobre o funcionamento de linguagem, considerando as relacoes forma/sentido e os mecanismos e estrategias enunciativas na analise das manifestacoes da linguagem de dois sujeitos com risco para disturbio de linguagem e para alteracoes no desenvolvimento.

* APRESENTACAO DOS CASOS

Esta pesquisa esta vinculada a pesquisa "Funcoes parentais e risco para aquisicao da linguagem: intervencoes fonoaudiologicas" aprovada pelo Comite de Etica em Pesquisa da Universidade sob protocolo numero do CAEE n. 0284.0.243.000-09.

Tal projeto de pesquisa realizou o acompanhamento longitudinal de um grupo de criancas a partir dos Indices de Risco ao Desenvolvimento Infantil (IRDIs) na realidade de cidade de porte medio. Para este estudo, a amostra de conveniencia constitui-se de dois sujeitos na faixa etaria de 2 anos, aqui nomeados como T e M. O criterio de selecao foi porque ambos desenvolveram disturbio de linguagem, e apresentaram risco ao desenvolvimento no estudo de coorte da pesquisa mais ampla. Foram excluidos, os bebes que apresentaram malformacoes congenitas, sindromes geneticas ou infeccao congenita detectadas no periodo neonatal, antes do inicio do estudo, pois essas por si so ja representariam fatores de risco para o seu desenvolvimento.

Os bebes e seus familiares foram contatados durante a realizacao da triagem auditiva neonatal realizada no Hospital Universitario. Nesse momento, os responsaveis foram convidados a participar e tiveram explicacoes detalhadas sobre os objetivos e os procedimentos da pesquisa, ressaltando-se seu direito de voluntariado e de sigilo de identidade. Quando autorizaram a pesquisa, assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Os pais e bebes foram acompanhados desde o primeiro ao decimo oitavo mes de idade, por meio da aplicacao dos IRDIs, de acordo com o previsto para cada faixa etaria e tambem por meio de entrevistas continuadas. Ressalta-se que no primeiro mes de coleta foram aplicadas entrevistas acerca da experiencia da maternidade [22] e escala de Beck [23] por psicologas, avaliada a linguagem aos 12 meses e 24 meses de modo qualitativo por fonoaudiologas. Assim, considerou-se para a analise deste artigo o historico de cada crianca no estudo de 1 a 18 meses, bem como a coleta especifica realizada aos 24 meses.

Os dois meninos foram filmados com seus familiares (mae, pai, irmaos) e com a pesquisadora na clinica escola do Curso de Fonoaudiologia, no qual se realizou a pesquisa. Pediu-se para mae (pai e/ou irmao) que brincassem com a crianca como em casa. As gravacoes foram analisadas e transcritas ortograficamente. Conforme Surreaux e Deus [24], a transcricao de dados linguisticos nos disturbios de linguagem e um ato enunciativo, no qual estao em jogo dois enunciadores: o que fala (na cena) e o que transcreve. Assim, na clinica de linguagem, configura-se como um recurso da escrita que permite escutar, perceber o que uma enunciacao singular evoca [24].

Na transcricao ortografica da cena os sujeitos sao indicados por suas iniciais T, M, as maes pela letra M, seguida da inicial dos sujeitos (MT, MM), o irmao a letra I seguida da inicial (IT), o pai de M como PM e a pesquisadora por P. Para transcrever os dados de linguagem utilizou-se as normas de transcricao adotadas pelo banco de dados Enunsil (Enunciacao e Sintoma na Linguagem) da pesquisa "Enunciacao e Disturbios de Linguagem", coordenada pelo Prof. Dr. Valdir do Nascimento Flores, junto ao Instituto de Letras da instituicao de origem [18]. Em cada inicio de transcricao e fornecido o contexto da cena enunciativa. Os atos de fala sao divididos em duas/tres colunas, conforme os interlocutores. As convencoes de transcricao encontram-se na Figura 1.

A analise de linguagem das criancas realizou-se pelos mecanismos enunciativos de Silva [15], de modo a verificar a sustentacao enunciativa da crianca, a partir das categorias enunciativas e seus mecanismos, a saber: 1[degrees] mecanismo enunciativo-as relacoes de conjuncao eu-tu e de disjuncao eu/tu, 2[degrees] mecanismo enunciativo-a semantizacao da lingua e a construcao da co-referencia pela diade (eu-tu)/ ele e 3 mecanismo enunciativo- a instauracao do sujeito na lingua-discurso. Tambem se recorreu ao trabalho de Surreaux [13] para se pensar em uma hipotese de funcionamento de linguagem singular aos tres casos, a partir da analise do sintoma, ou seja, do modo como o bebe pode enunciar na interlocucao com adulto familiar. O trabalho de Cardoso (14) propiciou a analise de linguagem a partir das relacoes forma/sentido e da distincao entre nivel semiotico e semantico.

O relato dos casos se dara pela exposicao do historico de cada crianca e por cenas enunciativas que revelam o funcionamento de linguagem das mesmas.

* RESULTADOS

A seguir sao apresentados os resultados, por meio de breve historico dos sujeitos, sobretudo em relacao aos indices de risco, e de recortes de filmagem das criancas, suas maes e pesquisadora em interacao.

O sujeito T.

T nasceu de uma gravidez nao planejada, pre-termo e nao teve nenhuma intercorrencia ao nascimento. O menino e o quarto filho de MT (27 anos) e esposo (29 anos), que tem ainda mais quatro filhos, duas meninas de (4 e 10 anos) e dois meninos (6 meses e 8 anos). A mae nao conta com auxilio de seus familiares nos cuidados do filho. Nas avaliacoes mostrava-se visivelmente cansada e depressiva. Todos habitam a mesma casa, e as criancas maiores frequentam a escola do bairro. A mae de T e dona de casa e tem o 1 grau incompleto, o pai trabalha como pedreiro e tem o 2 grau incompleto.

Na primeira fase dos IRDIs, a mae apresentou nivel moderado de depressao (resultado obtido a partir de avaliacao objetiva--Inventario de Beck [23]). Havia a ausencia do IRDI 2: ("A mae fala com a crianca num estilo particularmente dirigido a ela [manhes])". Salienta-se que quando a pesquisadora falou com o bebe utilizando o manhes, T respondeu com sorriso e vocalizacoes. MT apresentou dificuldade para sintonizar sua fala com as manifestacoes de T, evidenciando uma falha na interpretacao de suas acoes, embora pudesse estabelecer a sua demanda quando chorava (IRDI 1).

Esse fato pode ser observado na Figura 2 que mostra a interacao entre MT e T A pesquisadora (P) tambem participou do encontro.

Considerando a contextualizacao enunciativa, na cena, estao presentes, MT, T., P e a avo de T O bebe esta no colo da mae na avaliacao dos IRDIs (proxima aos 4 meses). P. pede a mae que ela converse com o bebe, como faz em casa.

Nesta cena, observa-se que a mae nao deixa turnos de "fala" para T em alguns momentos (linhas 1,2,3,4). Alem disso, o tom de sua voz e agressivo, em muitas vezes reprovando, o comportamento de T (linhas 1,4,9,11). Percebe-se que MT nao estava sintonizada as demandas de T., nao havendo o preenchimento de turno pelo outro (mae) de modo sintonizado, o que se materializa como uma dificuldade no primeiro mecanismo enunciativo observado por Silva [15], na fala sintonizada do tu (adulto) a demanda do eu (crianca).

MT interpretou os gestos de T na exploracao de seu rosto como uma agressao a ela. Salienta-se que na ocasiao, a mae foi convidada a participar de um grupo de maes que apresentavam sinais de depressao, porem, nao achou importante participar.

Durante a segunda e terceira fases de avaliacao, T. com 6 e 10 meses, respectivamente, nao houve indices ausentes na observacao da diade. Ao ser avaliada a quarta fase dos IRDIs, aos 13 meses, observou-se a ausencia do IRDI 16 ("A crianca suporta bem as breves ausencias da mae e reage as ausencias prolongadas"), e 18: ("Os pais colocam pequenas regras de comportamento para a crianca"). T nao ficava com ninguem alem da mae, pois chorava muito em sua ausencia. Alem disso, nenhuma regra foi inserida em sua educacao. Na presenca de estranhos, T. apegava-se mais a mae, que tambem relatou que ele era amamentado em livre demanda.

Aos 24 meses de T., foi realizada nova filmagem da interacao da diade e, neste dia, estava seu irmao com 8 anos (indicado na transcricao como IT). A Figura 3 apresenta recortes da filmagem realizada com o sujeito e seus familiares.

T., MT e IT estao presentes na cena, na qual ha brinquedos distribuidos pela sala. T e IT e MT exploram os brinquedos, mas o fazem de forma superficial.

Na cena 1 da Figura 3, observa-se que houve uma melhora em relacao a dificuldade de MT em dar turnos de fala ao filho, quando comparada a cena exposta na Figura 2, mas MT e IT falam quase que ao mesmo tempo (linhas 1,2,3), dando pouco tempo para que T. possa tomar uma iniciativa por conta propria, ou seja, MT e IT sao diretivos no dialogo com T (linhas 1,6). Pode ser que tais atividades sejam pela ansiedade do encontro, e por querem mostrar o que T. consegue fazer em termos de fala a terapeuta. Nessa angustia, MT e IT dao comandos, as vezes, dubios a T (linhas 47, 49).

Percebe-se que, no inicio da filmagem, MT interage com T, tentando interpreta-lo, este por sua vez, espelha a fala da mae ao enunciar "ao" (linhas 4,7) para "alo", reproduzindo o dizer do tu (MT) no discurso do eu (T). Ele passa da referencia mostrada a falada, conforme preve Silva [15] no segundo mecanismo, mas ha um funcionamento colocado a fala do outro. No entanto, cabe ressaltar que durante o todo da filmagem, a mae de T nao sustenta o filho enunciativamente, por muito tempo.

Na cena 2 (Figura 3), tambem, nota-se algo que e comum a toda filmagem, que nao ha espaco para uma brincadeira mais concentrada. T, assim como seu irmao, permanece agitado durante toda a filmagem, e a linguagem do adulto nao possui funcao reguladora de seu comportamento. Ainda, nesta cena, observa-se que a dificuldade de relacao entre a diade MT-T que era evidente na primeira fase dos IRDIs, retorna em muitos momentos, como nas linhas 17 e 19 em que a mae toma o espaco enunciativo de T e o contem em suas acoes, mostrando-se bastante irritada com o filho.

Ja nas linhas 20 a 45 da cena 3 (Figura 3) percebe-se os avancos de T. no nivel semiotico, pois esta utilizando recursos para a realizacao vocal da lingua, como os fonemas /k/, /p/, /v/, /t/, /m/ e a producao de silabas, e espelhando a fala de IT. Ha na cena um jogo de repeticao do dizer do tu no dizer do eu, que embora previsto como estrategia enunciativa para o estabelecimento de co-referencia, espera-se que nao seja a unica estrategia neste mecanismo, e que o dialogo nao seja direcionado apenas a demonstrar para os demais presentes o que o sujeito pode enunciar em termos semioticos. Parece, portanto, que IT esta mais preocupado em mostrar, a pesquisadora, o que T. pode falar do que em dialogar com ele. Nao parece haver uma expectativa em IT e MT de que T tenha algo a dizer por si mesmo. Eles nao proporcionam um dialogo que ancore producoes de sentido, ou seja, em que a forma seja mobilizada para produzir um sentido conjunto. Quando T se manifesta espontaneamente, a mae interpreta suas manifestacoes como grito. Esse fato foi observado nao so durante a filmagem, mas em outros atendimentos em que a familia nao parecia estar preocupada com a observacao do terapeuta.

Embora T possua estrategias do primeiro e segundo mecanismos enunciativos, elas estao restritas, pois nao se percebe a emergencia de estrategias mais elaboradas como a combinacao de palavras ou mesmo a iniciativa do dialogo por T e o reconhecimento desta iniciativa por IT e MT, esperadas para o segundo mecanismo. Em termos semioticos, ha restricao em relacao ao dominio dos recursos vocais, mas nao ha sinais fisiopatologicos, pois T nao parece ter dificuldades de memorizar/ reter o signo, tanto em sua dimensao vocal quanto em termos de significado.

T compreende frases e pode, quando concentrado, entender os enunciados do interlocutor. Ja no processo de semantizacao, observa-se que dominam estrategias em que sua fala ainda esta colada a fala do outro, e limita-se a repetir a producao do outro, nao sendo reconhecido quando utiliza os recursos linguisticos que possui para dizer o que deseja. De um modo geral, os dialogos nao se encaminham para uma elaboracao maior tanto do dominio semiotico de T., quanto com o estabelecimento de autoria em seu dizer.

O sujeito M.

M. nasceu aos 8 meses e meio de gestacao de uma gravidez planejada. E o menino e o 2[degrees] filho de uma familia que se constitui de sua mae (40 anos), seu pai (33 anos), e sua irma de 14 anos. Quanto a escolaridade, o pai tem o 1[degrees] grau completo e a mae, o 2 grau incompleto. A mae e dona de casa, e o pai trabalha como gesseiro. Possuem renda familiar de R$ 2000,00.

O bebe nao teve nenhuma intercorrencia ao nascer. Na avaliacao da primeira fase dos IRDIs, M. estava com um mes de vida; a mae estava bastante timida durante a filmagem, mas parecia estar bem e, conforme seu relato, o bebe ja procurava a voz dos pais quando falavam com ele.

Na entrevista inicial, a mae relatou que teve depressao por um ano devido a preocupacoes no trabalho, mas que resolveu sair para engravidar e melhorou. Tomou medicacao por poucos meses (receitada por clinico geral), parando por conta propria.

Entre um e oito meses M. nao apresentou risco ao desenvolvimento. Ja na terceira fase, quando estava com 12 meses, detectou-se ausencia do IRDI 12 ("A crianca estranha pessoas desconhecidas a ela"). Na ultima fase dos IRDIs, M. estava com 15 meses e muito apegado a mae, so ficava com o pai alem dela. A mae disse que ele passou a ter medo de caminhar desde que caiu. Na avaliacao so ficou no colo da mae, nao quis descer, nem brincar com as avaliadoras. M. ainda tinha livre demanda do seio a noite. Observou-se ausencia do IRDI 15 ("A mae alterna momentos de dedicacao a crianca com outros interesses") e 16 ("A crianca suporta bem as breves ausencias da mae e reage as ausencias prolongadas").

Aos 21 meses, M e sua mae retornaram para avaliacao; na Figura 4, observa-se, a interacao entre a mae (MM) e o bebe (M). Ha boa alternancia de turnos entre a mae e M., que o engaja na cena. Em alguns momentos, percebe-se que MM oferta varios signos em pouco tempo, isto parece ocorrer pela ansiedade devido a quase ausencia de fala de M; ele produz apenas algumas onomatopeias (linhas 8, 23).

Na linha 2 constata-se a instanciacao pelo tu (MM) de estruturas rotineiras da familia para o eu (M), que preenche seu lugar enunciativo com gestos. Outro momento interessante a ser observado nesta cena, e a rejeicao do M. quando a mae coloca o telefone perto de sua orelha (linha 28).

Na cena 1, do Figura 4, MM e M brincam sozinhos na sala, com os brinquedos disponiveis. A cena 2 da mesma Figura, mostra a interacao de PM e M, brincando sozinhos na sala.

Na cena 2, linha 31 (Figura 4) observa-se a presenca da estrategia do primeiro mecanismo enunciativo [15], de apresentacao pelo eu (M) de estruturas sonoras indistintas a partir da convocacao do tu (MM). Ainda nesta cena, observa-se boa alternancia de turnos entre o pai (PM) e M. O pai demonstra menor ansiedade em relacao a mae na oferta de signos a M. Nessa cena com o pai, novamente M. recusa-se a falar ao telefone (linha 49), o que e compreensivel ao se perceber que os recursos vocais de M. sao muito precarios.

Nota-se que tanto na cena com a mae quanto na cena com o pai nao ha a criacao de um tema para a brincadeira. M. vocaliza pouco, com algumas onomatopeias e prolongamentos de vogais, o que demonstra uma limitacao importante inclusive nas possibilidades de balbucio. Sua compreensao e satisfatoria, pois, consegue atentar aos pedidos da mae e do pai que, por sua vez, procuram sustenta-lo (via linguagem) especialmente por nomeacao de objetos. Assim, M. apresenta estrategias evolutivas iniciais, como a producao de estruturas sonoras indiferenciadas (comuns ao primeiro mecanismo enunciativo), mas o segundo mecanismo (relacionado ao estabelecimento da co-referencia verbal) esta ausente. Percebe-se que M. praticamente induz os pais a ocuparem turnos com nomeacao na tentativa de fazer o menino falar.

* DISCUSSAO

Considerando os objetivos deste artigo alguns aspectos sao fundamentais: as possiveis relacoes entre risco ao desenvolvimento e a emergencia do disturbio de linguagem, a analise dos mecanismos e estrategias enunciativas e como emergem as relacoes de forma e sentido na interlocucao entre os meninos e familiares, e a importancia de se lancar uma hipotese de funcionamento de linguagem no processo de avaliacao da linguagem dos sujeitos.

Em relacao aos IRDIs, T apresentou alteracoes na primeira fase, o que demonstrava problemas no exercicio da funcao materna, e na quarta fase, com comprometimento da funcao paterna. M., por outro lado, apresentou alteracoes a partir da terceira fase, na qual entra em questao o exercicio da funcao paterna. Ambos apresentaram disturbio de linguagem, considerado aqui como uma condicao enunciativa restrita, o que comprova o valor preditivo dos IRDIs em relacao a risco ao desenvolvimento [19], pois, entre os aspectos instrumentais do desenvolvimento, encontra-se a linguagem. Tambem a presenca de estados de humor materno alterados, a depressao pos-parto de MT e anterior ao parto de MM, o que demonstra a importancia do acompanhamento da saude mental da gestante, como ja observado em outros estudos [12,20].

Aprofundando a relacao entre os eixos alterados nos IRDIs e o observado no funcionamento de linguagem, percebe-se que em T. houve problemas com o estabelecimento de demanda (ED) e suposicao de um sujeito (SS)19. Tais ausencias foram identificadas por meio da dificuldade de a mae sustentar uma protoconversacao com seu filho. MT nao conseguiu sintonizar suas expressoes as de T., pareceu ligada unicamente em expressar seus sentimentos de cansaco e desanimo na relacao com T. O estabelecimento da demanda e ressaltado com Kupfer [19] como o eixo que embasa toda a atividade posterior de insercao do sujeito no campo da linguagem e da relacao com os outros. A suposicao de um sujeito (SS) refere-se a uma antecipacao fundamental para o bebe acessar as significacoes oferecidas pela mae aos seus apelos e de como ela o ve. Observa-se que MT, nao estava sintonizada as demandas de seus filhos, e assim nao conseguia atribuir sentido (via linguagem) as manifestacoes dele. O modo como isso emergiu na interlocucao entre MT e T foi a dificuldade de preenchimento de turno por MT de modo sintonizado as manifestacoes de T Como efeito na relacao forma-sentido, percebe-se um desencontro nas cenas da Figura 2, em que a exploracao facial de T na mae e significada como uma agressao. O mecanismo esta presente, mas com um funcionamento peculiar que ira reaparecer nas cenas de T aos 24 meses. Em situacoes de disturbio de linguagem, pode ocorrer de os significantes nao encontrarem o significado, ou produzirem um encontro desarranjado [25].

As alteracoes da funcao paterna, detectadas na avaliacao de T apos 12 meses, superficializam-se em um comportamento agitado e hiperativo, ja evidenciado em outros estudos [26]. Kupfer e Bernardino [26], a partir dos resultados da pesquisa multicentrica IRDIs, observam uma relacao estatisticamente significante entre o sintoma clinico dificuldade de separacao dos pais, de um lado, e os sintomas clinicos agitacao motora, condutas agressivas e dificuldades de aceitacao da lei, de outro lado.

Tambem, na terceira fase dos IRDIs, o prolongamento do aleitamento por livre demanda ao seio por parte de T e MT parece ser uma forma de T. ter a mae para si, e demonstra a dificuldade na transicao alimentar e alteracao do eixo funcao paterna, tambem demonstrada em estudos quantitativos [21].

Ja no caso de M. ha alteracoes nas fases finais da avaliacao dos IRDIs, correspondente a alteracoes na funcao paterna. Embora o pai de M. esteja presente inclusive no processo terapeutico, pois foi o unico a participar da consulta fonoaudiologica, enfrenta maior resistencia da mae ao corte simbiotico. Observa-se uma mae protetora e ansiosa que tenta preencher as necessidades do filho por meio da nomeacao excessiva, ou seja, falando por ele. Diferentemente de MT em que o pai se faz presente em seu discurso, no caso de M. o pai esta ausente no discurso de MM.

A alteracao da funcao paterna, nos dois casos, demonstra a dificuldade na estabilizacao psiquica dos meninos. Essa funcao, devido a um trabalho de enodamento dos tres registros que ele lhe oferece: uma simbolizacao da falta, uma resposta ao real da angustia de castracao e uma contencao imaginaria para o corpo [26] e fundamental para o pleno acesso ao simbolismo. Enquanto em T a dificuldade na funcao paterna se superficializa na agitacao motora, em M. em um retraimento visto na falta de iniciativa no brincar e na inclusao do outro no mesmo. As cenas de brincadeira sao restritas nos dois casos, pois o corte simbolico nao permite que as criancas transitem para uma fase de maior exploracao simbolica dos objetos e pleno acesso a linguagem. Cabe ressaltar que nao se esta formulando uma relacao de causa entre alteracao da funcao paterna e problemas no brincar e na linguagem, mas tentando demonstrar a combinacao complexa e singular que uma alteracao na mesma imprime nas relacoes de cada menino com seus familiares.

Considerando as relacoes entre forma e sentido, T possui um disturbio de linguagem em que e evidente um comprometimento maior do processo de semantizacao da lingua e M. possui uma restricao importante tanto no estabelecimento do dominio semiotico da lingua, quanto no processo de semantizacao dos poucos recursos que possui, o que compensa com a utilizacao de expressoes faciais, gestos e sons nao verbais [25]. Tanto a mae (MM) como o pai (PM) esforcam-se por tentar incluir M. em um funcionamento linguistico, mas seu dominio semiotico na epoca da filmagem, alem de limitar sua participacao no dialogo, cria uma ansiedade nos pais que provoca desencontros entre M. e os mesmos durante o dialogo, por exemplo, o excesso de nomeacao da mae em seus turnos. Esse comportamento no dialogo tambem foi observado em outros casos de limites biologicos para a linguagem em que as maes apresentavam depressao e/ou ansiedade [12]. Nos dois casos existe restricao de mecanismos e estrategias enunciativas [15], demonstrando que o funcionamento de linguagem esta por anunciar um sintoma, ou seja, um disturbio de linguagem.

Na analise dos dois casos, fica evidente a singularidade de cada caso no funcionamento de linguagem conforme aponta Surreaux [13]. Para Surreaux e Lima [27] falar desta singularidade implica considerar a particularidade por meio da qual um determinado falante fara seu percurso na apropriacao de uma dada lingua. T e M. apresentam comportamentos singulares nas interacoes com MT, IT, MM e MP, que apontam para a necessidade de lancar uma hipotese de funcionamento de linguagem. Esta inclui nao apenas o dominio semiotico da lingua, como tambem o modo como T e M utilizam seus recursos linguisticos na semantizacao da lingua, quando em interlocucao com seus familiares. A analise dos mecanismos e estrategias enunciativas permitiram identificar restricoes no processo de apropriacao da linguagem pelos sujeitos em interlocucao com a familia, que parecem fundamentais na discussao da proposta terapeutica, pois os distintos comportamentos dos meninos e da familia demandarao distintas abordagens em sessoes conjuntas entre familiares e sujeitos.

* CONCLUSAO

Os dois casos permitem pensar que a deteccao precoce de risco favorece o cuidado precoce em linguagem. De como o bebe enuncia e, da analise das acoes do interlocutor, no periodo de aquisicao da linguagem, pode-se perceber a emergencia do sintoma de linguagem.

Salienta-se ainda a necessidade de se considerar cada caso em sua forma particular de funcionamento da linguagem, pois os recursos para relacionar forma e sentido, bem como o uso de mecanismos enunciativos de aquisicao da linguagem emergiram de modo singular e com estrategias especificas, por vezes restritas, para cada sujeito e se relacionam com as acoes dos interlocutores. Isto demonstra a necessidade de identificar uma hipotese de funcionamento de linguagem no processo de avaliacao da linguagem infantil, para se pensar a terapeutica de modo a abranger os sujeitos e seus familiares.

Observa-se tambem a importancia da deteccao precoce de risco para o desenvolvimento a partir dos indices de risco ao desenvolvimento infantil, nao apenas para aspectos psiquicos, mas sua correlacao com o processo de aquisicao da linguagem. O acompanhamento de bebes por tais indices pode manter os profissionais de saude alertas ao risco de deficits de desenvolvimento associados aos de linguagem, por meio da protoconversacao inicial e da observacao dos sentidos veiculados entre o bebe e seus familiares.

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http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201410713

Recebido em: 13/06/2013

Aceito em: 13/11/2013

Luciele Dias Oliveira

Avenida Itaimbe, 655, ap 206-Centro

Santa Maria-RS-Brasil

CEP: 97050-331

E-mail: lu.fono1984@gmail.com

Luciele Dias Oliveira (1), Ana Paula Ramos-Souza (2)

(1) Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil.

(2) Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil.

Trabalho realizado no Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil.

Conflito de interesses: inexistente
Figura 1--Convencoes de transcricao [18]

(.) um ponto entre        Indica que ha uma pausa curta intra ou
  parenteses                interturnos
(...) tres pontos entre   Indicam que ha uma pausa longa intra ou
  parenteses                interturnos
PALAVRA letra maiuscula   Indica fala com intensidade acima da fala
                            que a rodeia
Pala- hifen               Indica corte abrupto de fala
( ) parenteses vazios     Indicam que o transcritor foi incapaz de
                            transcrever o que foi dito--segmento
                            ininterpretavel.
(( )) parenteses duplos   Indicam comentarios do transcritor sobre o
                            contexto enunciativo restrito

Figura 2--Cena de Interacao entre T, MT e P.

MT                       T                        P

1)T! ((em tom
aaressivo)) (...)

2) Uhn!~~~((a mae faz
forca para levantalo,
como se fosse muito
pesado)) (...)

3) Tua mae ta
estressada (.) T! ((a
mae pega o bebe de
frente e o faz olhar
para ela))

4) (...) Ohhhh!
Bebeee, bebeeee?!
((Fala em tom de         5)((T comeca a
repreensao))             colocar a mao na boca
                         da mae))

6) Aaah ((a mae
resmunga negando o
carinho e virando o
rosto))

7) (...)Uhumm! Nao me
belisca.

                         8) ((T geme e segue
                         com a mao na boca da
                         mae))

9)Nao e pra belisca
euuu! ((em tom de
reprovacao))

                         10) ((o bebe segue
                         tentando brincar com
                         o rosto da mae))

11) Uhmmm! Nao e pra
belisca a mae ((a mae
respira forte
parecendo irritada com
a brincadeira do
filho.)) (.)

12) Olha a vo. Cade a
vo? ((a avo materna
esta na sala. MT faz
isso para desviar a
atencao de T de seu
rosto.

                         13) ((T olha para a
                         camera filmadora))

14) Que mexe la? Nao
da pra ti mexe bebe.
Heinnn! ((pela
primeira vez na cena a
mae entra em sintonia
com o que o bebe
quer))

                         15) ((T nao olha mais
                         para a mae e sorri
                         para a pesquisadora))

                                                  16) O que voces
                                                  conversam em
                                                  casa?((pergunta para
                                                  a mae))

                         17) ((T se volta
                         novamente para mae e
                         retorna a mexer no
                         seu rosto))

18) Uhmmm! Ai, nao
belisca ((parece
bastante incomodada))
(.)

19) Nao belisca forte.

                         20) ((T sorri e olha
                         fixamente para mae))

21) Nao belisca. Nao belisca. Nao belisca. U.

22)Paraaaa ((fala em
intensidade bem baixa)

                         23) ((T continha
                         mexendo no rosto da
                         mae, que vira o
                         rosto))

24) Para bebe! (.)

25) Issss (.) para
quieto! ((tom
repreensivo))

                         26) ((T vira-se para
                         camera filmadora))

                                                  27) O que mais tu diz
                                                  pra ele em casa?

28) Ah! Digo bastante
coisa ...

                         29) ((T segue olhando
                         para a camera))

                                                  30) Fala! Ve se ele
                                                  olha pra ti.
                                                  ((dirige-se a mae))

31) Aahh! Quando ele ta intretido pra cima,
ele olha pra tudo e na da bola pra gente (.)

32) Tira a mao da boca ((tira a mao dele
da boca))

                         33) ((T olha para P,
                         sorri, se mexe e
                         aeme))

Figura 3--Cenas de Interacao entre T, MT e IT, aos 24 meses

MT                      T                       IT

CENA 1

1) Aqui o, vem! Liga
pra vo? Liga pra vo!
(pega T que esta em
cima da escadinha, na
janela)

                                                2) Liga pro pai pra
                                                ve como que ta o pai.

3)Aloo! (pega o
telefone e coloca na
orelha de T.)

                        4)Mae (.) aoo ((fala
                        ao telefone, enquanto
                        aperta o jacare, que
                        toca uma musica))

                                                5) Assim o faz assim
                                                (.) alo! ((T aperta o
                                                jacare))

6) Faz alo pra vo!
Alo vo!

                        7)Ao (( T sai com o
                        telefone na orelha e
                        carregando a rampa do
                        carrinho em direcao a
                        janela))

8) Pega o carrinho
dele la! ((MT levanta
e busca o carrinho e
pega a rampa))

                        9) Mae mae manhe,
                        pai, paie,((T vai com
                        o telefone em direcao
                        a mae e o coloca na
                        orelha dela))

10) Aloo paizinho
((MT coloca o
carrinho na rampa e o
faz descer))

                        11) Paiee! ((T tira o
                        telefone da orelha e
                        coloca na sua))

CENA 2

                        12) Ei, ei eieiei
                        ((olha pela janela e
                        grita, esta sobre a
                        escadinha))

                                                13)Ei! ((IT fala se
                                                aproximando de T.))

                        14) Ei ei, bo ... a
                        ((grita e aponta pela
                        janela))

                                                15) Carro! E o carro
                                                ((IT explica para T))

                        16)EI EI!

17) Nao e pra gritaa!
((fala de onde esta
sentada na cadeira,
voz em intensidade
forte))

                        18) AOOO! ((bate no
                        espelho com a mao))

19) ( ) ((fala baixo,
com T resmungando,
contem T motoramente
e o coloca no chao))

CENA 3

                        20) Aiee ((T ri e
                        sobe na escadinha
                        novamente))

21) T, T joga a bola
aqui pra mim ((T esta
perto da bola e MT
pede que ele jogue,
mas ele nao o faz))

                                                22) O la o, o o pai!
                                                chama o pai! ((Aponta
                                                para a janela, como
                                                se o pai estivesse la
                                                fora))

                        23)Paiee ((chama o
                        pai pela janela))

                                                24) E a Catia? Chama
                                                a Catia?
                        25) Catiaa! ((chama
                        a irma))
                                                26)Chama a Nicole.
                        27) NIM!
                                                28)Chama o Ruan!
                        29) UAN!
                                                30) Chama a mae!
                        31) Manhee!
                                                32)Chama a vo!
                        33) Voo.
                                                34)Chama o vo!
                        35)Vo vo.
                                                36)Chama o tio!
                        37) Tio.
                                                38) Chama o carro!
                        39) Cao!
                                                40)Chama a moto!
                        41) Mato
                                                42) Chama o predio!
                        43) Ta.
                                                44) Chama tudo!
                        45) ((T olha para IT
                        e ri)) (...)

Figura 4--Cenas de Interacao entre M, MM e PM, aos 21 meses

MM                                  M

CENA 1

1) Vou arrumar aqui (.) Olha aqui
o bum bum! ((prende o velcro do
tenis do filho e mostra o
carrinho que estava no chao))

                                    2) ((M movimenta um trenzinho no
                                    chao))

3) O! A musica. O a musica!
((mostra o jacare-com musica-
para M))

                                    4) ((Aperta o jacare para ouvi-
                                    lo, mas ainda mantem a outra mao
                                    no trem))

5) O o cavalinho o! O o
cavalinho! O cavalinho o!
((coloca o cavalo de plastico em
frente ao filho))

                                    6) ((M pega o cavalo de plastico
                                    na mao))

7) Olha aqui, olha os bichinho o.
O o elefante o, elefante! O o
leaozinho o, leaozinho. Poe o
cavalinho o? ah? ah?((mostra a
cesta de bichos de plastico para
M))

                                    8) Hum hum ((Vocaliza, pega da
                                    cesta a vaca e o coloca no chao
                                    com os outros))

9) Ah? O, tartaruga! ((mostra a
tartaruga a M.))

                                    10) ((M encosta na tartaruga e
                                    retira o dinossauro da cesta))

11) Cade o outro o? O a vaca, o
vaca! ((puxa a cadeira pequena e
senta-se))

                                    12) ((M mexe nos bichos da cesta
                                    e retira o caval))

13) O! O cavalo! E o cavalinho?
O! O cavalinho, o,! Pocoto, poco-
to, pocoto. ((MM comenta sobre o
animal que M tem na mao))

                                    14) ((M olha os animais e os
                                    organiza lado a lado, joga alguns
                                    da cesta no chao))

15) O o au-au la o (.) pega o au-
au ((mostra o cachorro)) O, pega
o au-au. Cade o au-au? ((da
ordem)) (...)

16) Hum, o que que e esse ali?
(mostra o cachorro e, pergunta a
M))

                                    17) ((Enquanto a mae fala , M
                                    mexe nos animais da cesta)

18) O au-au, pega o au-au (.)
Onde ta o au-au?

                                    19) ((M pega os animais da cesta
                                    e os ordena no chao))

20) Onde ta o au-au? Pega o au-
au (.) onde ta o au-au?

                                    21) ((M pega o cachorro na
                                    cesta))

22) Olha o au-au! o, o au-au!
((pega o cahorro e e mostra para
M))

                                    23)Hummmm.

24) Onde ta o au-au? (...) Vamo
pega o cavalo o, o o cavalo. O o
cavalo, o.((da o cavalo para M))

                                    25) Uuuuu ((M anda com o cavalo
                                    no chao))

                                    26) Huhu ((Olha para os lados
                                    procurando novo brinquedo e pega
                                    a bola))

27) Olha o boi, o! (.) o vum-
vum. O o telefone, o. O o
telefone, o, aloo! ((mostra o
boi, o carro e o telefone na
sequencia, coloca o telefone
perto da orelha de M))

                                    28) ((M rejeita dizer algo ao
                                    telefone afastando-o com a mao.
                                    Pega o cachorro e o coloca em pe
                                    ao lado dos demais))

CENA 2

PM                                  M

                                    29) ((M da a roda do carro para o
                                    pai consertar))

30) Deu, o!O vunvum! (Da o carro
apos colocara roda))

                                    31) Eoaaaaaaa ((comemora e bate
                                    com as maos no chao))

32) Oba oba! O o auau: auauauauau
((comemora tambem,. Batendo o
cachorro no chao)) (...)

33) O M. esse? tem trenzinho, vou
te mostrar, o o trenzinho, tren-
zinho (.) foi la embaixo o
trenzinho.

                                    34) ((M pega o trem , explora o
                                    brinquedo novo))

35) Olha so, coloca aqui de novo,
a vaquinha o! A vaquinha, meu
amor! Eee ... ((Coloca a vaca em
cima do jacare. Fala em tom
suave, semelhante a um manhes))

                                    36) ((Pega a vaca e mostra ao
                                    pai))

37) O.O cavalo cavalo cavalo
((coloca o cavalo em cima do
jacare))

                                    38)((M se abaixa e coloca a vaca
                                    no chao, pega o cavalo que estava
                                    em cima do jacare e da ao pai))

39) E? O cavalo pro papai? E?
Cavalo pro papai, meu amor Hein?
((Fala em tom melodico, enquanto
o menino pega outros animais e da
ao pai))

                                    40) ((M pega dois animais do chao
                                    e da ao pai))

41) Credo! Que que e isso ai, que
que e? (.) E a vaquinha tambem?
(.) E a vaquinha e? olha so, o,
o, viu? ((comenta sobre o animal
que M tem na mao e coloca animais
lado a lado no chao))

                                    42) ((M abaixa-se para pegar os
                                    animais tambem, pega a vaca))

43) O o porquinho o, o o
porquinho! E a vaquinha, e, e?
(.) O o o pocoto, segura ele
((coloca mais animais perto de
M))

                                    44) Hum humhum ((M esta com uma
                                    mao nos animais e outra no
                                    telefone))

45) Mais um boi, o oo (.) Me da o
cavalo? (.) O cavalo? E?((coloca
mais um animal no chao e ganha de
M o cavalo))

                                    46) Humhim hum ((Da o cavalo ao
                                    pai))

47) Com a vaquinha aqui? (.) O
((coloca o cavalo ao lado da
vaca))

                                    47) ((M mexe com os animais e
                                    depois com o telefone))

48) ( ) Alo, diz alo, o? Fala alo
pra mamae! Alo! Alo, mamae
((coloca o telefone na orelha de
M e depois na sua))

                                    49) ((M recusa-se ao gesto do
                                    pai, esquivando a cabeca))

50) O que e hein? (.) aqui ta
outro o! ((coloca mais um anima
para M))

                                    51) Himhim ((MM olha para o pai e
                                    sorri))
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Author:Oliveira, Luciele Dias; Ramos-Souza, Ana Paula
Publication:Revista CEFAC: Atualizacao Cientifica em Fonoaudiologia e Educacao
Date:Sep 1, 2014
Words:7264
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