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The intellectual construction of the "South West Region" (USA): a reflection on the use of the concept of "cultural area" as an ideological tool/A construcao intelectual da "Regiao Sudoeste" (EUA): uma reflexao sobre a utilizacao do conceito de "area cultural" como ferramenta ideologica.

"Ortodoxias, tao brilhantes de tantos anos trabalhadas, nos escapam dos dedos e caem pela malha da peneira como areia. Nos podemos trabalhar sem elas".

(Lekson 2012: 1, trad. nossa).

Introducao

Oconceito de "area cultural", bastante em voga na antropologia no inicio do seculo XX, sugere a delimitacao de regioes geograficas onde se encontram sociedades humanas que, apesar de suas particularidades, apresentariam certas caracteristicas semelhantes que as distinguiriam de sociedades de outras areas culturais. O estabelecimento de fronteiras geograficas seria necessario para tornar possivel uma melhor diferenciacao entre areas culturais vizinhas. Estas fronteiras geograficas seriam, portanto, e acima de tudo, "fronteiras culturais" (Wissler 1923, 1927; Kroeber 1931). Como comenta Kroeber,

"... o conceito de area cultural possui um crescimento empirico, quase inconsciente. Ele provavelmente comecou, como nos diz Boas, com a classificacao das colecoes de museus de historia natural e geografia, ao inves de ter se derivado de esquemas evolucionistas (...) Em 1917, Wissler codificou as areas culturais dos nativos americanos (...) por meio da agricultura, das artes texteis, arquitetura, e etc." (Kroeber 1931: 4, trad. nossa).

Pode-se dizer que o conceito de "area cultural" (tambem denominado de "provincia cultural" ou "area etnogeografica"--Pauls 2014) foi moldado em uma epoca cujo pano de fundo, para os estudos em antropologia e arqueologia, era composto por ideias que valorizavam o difusionismo como fonte principal para a identificacao das mudancas ocorridas em uma dada sociedade (1). Crencas que valorizavam diferencas entre as supostas "racas" humanas se fortaleciam, bem como conviccoes baseadas nas diferentes "capacidades" de cada uma dessas "racas". Trabalhos como os de Friedrich Ratzel, por exemplo, cuja obra teria sido consideravelmente influente em sua epoca, exaltavam o valor dos mecanismos de difusao, e procuravam provar que estes possibilitariam o estabelecimento de "blocos de culturas similares adjacentes umas as outras (2)" (Trigger 1989: 151, trad. nossa). Enquanto as ideias de Ratzel tornavam-se populares na Europa, na America do Norte destacava-se Franz Boas, o qual procurava valorizar o fator "unico" de cada sociedade--que deveria ser compreendida em seus proprios termos. O "relativismo cultural" pregado por Boas, de modo geral, nao buscava apoio em padroes universais para comparar os graus de desenvolvimento de diferentes grupos. Cada grupo humano era visto sob a otica do particularismo historico, sendo produto de uma trajetoria especifica de desenvolvimento, no qual os mecanismos de difusao tinham um papel fundamental (Trigger 1989: 152).

Boas e seus seguidores procuraram trazer o conceito de "area cultural" para as classificacoes e exposicoes dos artefatos dentro dos museus, rejeitando o esquema expositivo baseado no ideal evolucionista europeu das "tres idades (3)". Um dos principais seguidores de Boas, Clark Wissler, teve um importante papel na consolidacao do conceito de "areas culturais", porem o pesquisador desenvolve o tema seguindo novos caminhos. Wissler, antes assistente de Boas, assumiu a curadoria do American Museum of Natural History (AMNH) apos a desistencia do mesmo. O pesquisador procurou manter de certa forma os esquemas de organizacao propostos por Boas para o acervo, mas nao acreditava totalmente no relativismo cultural como resposta definitiva para a compreensao das sociedades. Wissler buscou entao "um metodo que seria aceitavel para os particularistas e que tambem reinseriria as analises comparativas entre diferentes culturas, e a producao de afirmacoes moldadas como 'leis gerais' na antropologia" (Pauls 2014, s/p, trad. nossa). Sob essa otica, Wissler constroi seu conceito de "idade-area":

(Wissler) concorda que os elementos da cultura tinham uma tendencia geral de se difundir igualmente em todas as direcoes de seu ponto de origem (...) os elementos portanto de maior distribuicao poderiam ser os mais antigos (...) Wissler sentiu que essa distribuicao era a base para a inferencia de sua idade, e denominou esse conceito de "hipotese da idade-area". Muito criticado por ser muito simplista, o conceito logo perdeu tradicao academica. O conceito de area cultural, como um todo, entretanto, permaneceu. (Pauls 2014, s/p, trad. nossa).

Tambem segundo Wissler,

... o conceito de area cultural (...) tem sido utilizado principalmente por antropologos, mas agora esta recebendo bastante atencao de pesquisadores das areas biologicas e sociais em geral. A escola americana de antropologia social acredita que existiam diferencas regionais na cultura material, e tambem no comportamento, e que a evolucao social e em si regional. Isso nos leva a investigar (1) o problema ambiental na antropologia social; (2) a formulacao de dados regionais em termos de similaridades tribais (3) a distribuicao de tracos culturais especificos, estudando-os um de cada vez, como e feito pelos arqueologos. A arqueologia elimina os aspectos introspectivos e outros psicologicos da problematica cultural, mas da a perspectiva temporal, um dos requisitos para a compreensao da evolucao social (...) concluindo, nos vemos as areas culturais como uma formulacao que expressa o carater regional do comportamento social humano (Wissler 1927: 891, trad. nossa).

Mais tarde, os trabalhos de Kroeber viriam a promover ainda mais o valor do conceito de "area cultural (4)". Na publicacao "Cultural and Natural Areas of Native North America" (1931), Kroeber mostrava seguir algumas ideias de Wissler, organizando dados sobre sistemas de subsitencia, carateristicas de habitat e densidades demograficas, e comentando tambem sobre certos fatores ambientais deterministas.

Embora seja verdade que as culturas estejam enraizadas na natureza, e que portanto, nunca podem ser completamente compreendidas exceto com referencias ao local natural nas quais elas ocorrem, elas nao sao mais produzidas pela natureza do que uma planta pode ser produzida ou causada pelo solo no qual esta enraizada. As causas imediatas para o fenomeno cultural sao outros fenomenos culturais (...) mas isso nao impede o reconhecimento das relacoes entre a natureza e a cultura, tampouco a importancia dessas relacoes para a compreensao total de uma cultura (...) a ma interpretacao da determinacao das areas culturais esta em considera-las um fim em si mesmas. O conceito de uma area cultural e um meio para um fim. O fim pode ser a compreensao dos processos culturais tais como sao, ou dos eventos historicos de uma cultura (Kroeber 1931: 1, trad. nossa) (5).

Ja na decada de 1950, a arqueologia e antropologia experimentam um ressurgimento do interesse por linhas de pensamento que valorizam a questao evolucionista. A tendencia "neo-evolucionista", entretanto, de modo geral difere da perspectiva evolucionista do seculo XIX e inicio do seculo XX, principalmente por nao favorecer a criatividade humana, e pela crenca na influencia de aspectos deterministas no moldar das capacidades humanas (Trigger: 1989, p. 289). O conceito de "area cultural", nesse contexto, permanece, porem sofre releituras de pesquisadores de destaque na epoca, como a do aluno de Kroeber, Julian Steward. Steward foi responsavel pela edicao da serie "Handbook of South American Indians (6)", a qual descreve detalhes das sociedades das supostas "areas culturais" da America do Sul, em seis volumes (7). Os volumes enfatizam aspectos como as familias linguisticas; a regiao geografica; aspectos ecologicos dessas regioes (deterministas); alem da historia e das tradicoes dessas sociedades. A edicao de Steward traz a marca da "ecologia cultural", e de sua teoria de "evolucao cultural multilinear (8)". O autor e conhecido tambem por sua enfase em aspectos tecnologicos e economicos em suas analises de sociedades humanas.

O "Handbook of South American Indians" foi mais tarde seguido pela publicacao, tambem do Instituto Smithsonian, do "Handbook of Middle Segundo Marcus, o volume IV dessa serie, American Indians", editado por Robert Wauchope (9). que esteve sob a responsabilidade de Gordon F. Ekholm e Gordon R. Willey, estava:

preocupado com as fronteiras da Mesoamerica e de suas areas adjacentes (o Norte do Mexico, o Sudoeste dos EUA, o Sudeste dos EUA, a America Central e o Caribe) e com os possiveis contatos e relacoes com o Equador, os Andes e o Pacifico (....). Embora pareca relativamente completo em termos de problematica significativa e tratamento descritivo das areas relacionadas, ele foi criticado por falhar em distribuir as responsabilidades para assegurar uma cobertura apropriada; falhar em estabelecer descricoes monograficas das areas culturais e subareas em uma perspectiva apropriada; falhar na discussao das relacoes entre as populacoes sedentarias e nomades do norte; falhar em nao considerar propriamente o conceito de fronteiras das civilizacoes; e por falhar nao contrastando as situacoes das fronteiras ao norte (sedentarios versus nomades) e tambem ao sul (Marcus 1978: 89; 93-94, trad. nossa).

E importante notar, nos comentarios criticos feitos ao volume IV (citados por Marcus acima), a presenca de uma forte preocupacao entre os pesquisadores, na epoca da publicacao do "Handbook of Middle American Indians", em definir e delimitar a "area cultural" Mesoamerica sob uma otica que preza a diferenciacao clara de suas fronteiras, principalmente em relacao as que demarcariam as terras a noroeste--aquelas habitadas pelos supostos "nomades" da regiao Sudoeste dos EUA.

Em 1978, surge ainda outra publicacao, o "Handbook of North American Indians", com a edicao de William C. Sturtevant. Seus volumes podem ser divididos em dois grandes grupos: os que descrevem informacoes de conteudo mais generalizado sobre a "grande area cultural America do Norte (10)", e os que descrevem as subareras ou "areas culturais menores" dessa regiao (11). As divisoes dessas "areas culturais" sao ainda usuais, e podem ser observadas no mapa apresentado a seguir (fig.1) (12).

O "Handbook of North American Indians" e descrito pelo proprio Instituto Smithsonian, ainda hoje, como:

uma enciclopedia que sumariza o conhecimento sobre os povos nativos ao norte da Mesoamerica, incluindo culturas, linguagens, historia, pre-historia, e biologia humana. E uma referencia padrao para o trabalho de antropologos, historiadores, estudantes, e leitores em geral. Autoridades no assunto contribuiram para os capitulos de cada volume. Volumes relativos a cada area contem capitulos separados para todas as tribos (Smithsonian Institute 2015, s/p., trad. nossa).

Nota-se aqui, nesse texto oficial, publicado no proprio website da instituicao em 2015, que foi considerado importante dizer que o "Handbook of North American Indians" trata de grupos indigenas "ao norte da Mesoamerica"--ou seja: foi considerado importante enfatizar que ha uma fronteira entre essa "area cultural", (uma area de "destaque"), e as demais areas, descritas simplesmente como "aquelas ao norte".

O Sudoeste como uma "exclusao": Areas que nao sao mesoamericanas

Pode-se dizer que a construcao do conceito "Sudoeste" esta intimamente ligada a construcao do conceito de "Mesoamerica"--mais precisamente, a construcao de suas "fronteiras geograficas"--do que nao e Mesoamerica. Paul Kirchhoff desenvolveu o conceito de Mesoamerica em 1943, influenciado pelas ideias de Wissler e Seler, fundamentado por "limites geograficos, composicao etnica e caracteristicas culturais na epoca da conquista" (Kirchhoff 1943: 94) (14). O proprio Kirchhoff, em artigo de 1954, admitiu que, dentre os criterios que o levaram a considerar a Mesoamerica como area cultural, estariam os que ditam que:

as areas culturais frequentemente coincidem com as areas naturais, mas quanto mais avancada uma cultural regional e, mais apta ela esta a vencer essas fronteiras (...); as culturas regionais sao caracterizadas por (...) uma organizacao geral que em parte se deve, e em parte se desenvolveu ao redor de um especifico item alimentar e producao de ferramentas (...); somente quando o tipo de producao e um numero consideravel de outros tracos e complexos sao encontrados juntos, e que um povo pode ser considerado parte de uma dada area cultural (...); culturas regionais (...) nao sao somente teoreticamente construidas, mas parte de uma realidade vivida antes de nos (...); nossa primeira tarefa analitica e localizar uma dada cultura individual em relacao a seus vizinhos, dando a ela um lugar dentro da cultura regional a qual pertence (...); os termos cultura regional e area cultural devem ser compreendidos como se referindo a um fenomeno espacial e temporal limitado (...); a maioria das areas culturais e subdividida em subareas, como resultado de um desenvolvimento divergente entre seus membros (Kirchhoff 1954: 530, trad. nossa).

Em 1960 Kirchhoff fez uma revisao de seu trabalho de 1943, na qual elaborou ainda mais certos aspectos de seu conceito. Em suas palavras, a publicacao de 1943 foi uma tentativa de assinalar o que os povos e as culturas de uma determinada parte do continente americano tinham em comum, e o que as separava das demais. Para tanto, me impus a limitacao de enumerar somente aqueles tracos culturais que eram propriedade exclusiva desses povos, sem tentar fazer uma caracterizacao da totalidade de sua vida cultural. A aplicacao rigorosa desse principio fez com que eu nao mencionasse no meu trabalho tracos tao fundamentais e caracteristicos da civilizacao mesoamericana, como a piramide, e tampouco foram analisadas a configuracao e estruturacao dessa civilizacao, que obviamente e mais do que a soma de suas partes (Kirchhoff 1960: 1, trad. nossa).

Nesta revisao, Kirchhoff manteve a divisao de elementos culturais em "tres categorias", como assinalado no Comite Internacional para o Estudo das Distribuicoes Culturais da America, de 1939 (15) ("elementos exclusivos de uma dada area"; "elementos que se encontrariam em uma ou mais areas culturais do continente americano"; e "elementos ausentes em uma dada area cultural" (Alba 2000: 124). Os elementos culturais considerados "mesoamericanos" perfazem um total de 44, e sao divididos em dez grupos relacionados a agricultura; a tecnologia e organizacao militar; as vestimentas e adornos pessoais; a arquitetura; aos registros escritos; aos sistemas de calendario; as celebracoes e festas tipicas e ao sistema de crencas e rituais religiosos, alem de incluir certos habitos ou costumes (como o de nomear pessoas de acordo com o dia de nascimento) e praticas de mercado (subdivididas em especialidades) (16). E importante destacar, mesmo nesse primeiro momento, que muitos desses elementos considerados por Kirchhoff como "tipicamente mesoamericanos" sao bastante discutiveis. Chama-se a atencao para itens como a presenca de quadras de jogo de bola (17); simbolos para numeros; anais historicos e mapas; e conceitos ligados a existencia de varios mundos (inframundos e mundos superiores); entre outros, como sendo elementos que estao presentes em areas do Sudoeste, e tambem em outras areas da America do Norte (como na regiao das Planicies e do Subartico) (18).

Os elementos comuns a Mesoamerica e a outras "areas culturais da America", estariam presentes nas seguintes areas determinadas por Kirchhoff (1960: 9- 11): no Sudoeste e no Sudeste da America do Norte; na area Chibcha (que corresponderia ao planalto central da Colombia, e que segundo o autor, deveria ser considerada excluindo-se aqueles povos que teriam afinidades "culturais andinas", como os Muisca); nos Andes; e na Amazonia (exclui-se da area tida como Amazonia o que Kirchhoff considerou como "area Chibcha"). Tais "elementos" tambem sao de natureza discutivel (19). Algumas caracteristicas, ou "elementos", tao comuns na regiao Sudoeste, como a construcao em adobe e em pedra, ou o uso de sandalias, foram considerados por Kirchhoff como "inexistentes" nessa area. O sacrificio humano tambem foi considerado como nao praticado no Sudoeste (20). Ja dentre os elementos "ausentes na Mesoamerica" listados por Kirchhoff (1960: 12), estao por exemplo adornos especificos de orelhas (encontrados no Sudeste e na area Chibcha); clas matrilineares (encontrados em todas as areas listadas por Kirchhoff, menos na Mesoamerica e nos Andes); a presenca de grupos cacadores-coletores (que o autor considerava serem comuns em areas do Sudoeste e do Sudeste dos EUA); armas envenenadas (que estariam presentes no Sudoeste, na Amazonia e na area Chibcha); e o ato de beber os ossos moidos de parentes mortos (Amazonia e area Chibcha). Entretanto o proprio Kirchhoff admite que que tais elementos poderiam estar presentes em areas mesoamericanas, representados por praticas de cunho similar, e em suas palavras, "mais evoluidas".

Especialmente sugestivo e o caso do costume de beber os ossos moidos dos parentes mortos, o qual parece corresponder dentro da Mesoamerica a um costume que talvez possa ser interpretado como uma fase mais evoluida da pratica, que teria tomado seu lugar: o costume de beber a agua com a qual se banhou um parente morto (Kirchhoff 1960: 12, trad. nossa).

Kirchhoff considerou muito relevante estabelecer os limites geograficos da Mesoamerica, sendo que era tido que as fronteiras ao norte se distinguiam das fronteiras ao sul por "apresentarem um grau maior de mobilidade e incerteza" (Kirchhoff apud Alba, 2000:121). Ao Norte, as fronteiras mesoamericanas colidiam com zonas de "cultivo inferior (21)" (regiao de Sinaloa e da Costa do Golfo), e sobretudo com grupos de cacadores-coletores. Este seria, na opiniao do arqueologo Alba Gonzales, um dos componentes do conceito que teria gerado mais polemica entre os pesquisadores, especialmente nos ultimos anos, com o avanco das descobertas arqueologicas no norte do Mexico e no Sudoeste dos Estados Unidos. Segundo ele, estas "zonas de confluencia" fronteiricas apresentariam tracos culturais que tanto poderiam ser considerados como particularidades inerentes e exclusivas, como tracos mesoamericanos (no sentido que Kirchhoff da ao termo), o que dificultaria muito sua interpretacao (Alba 2000: 121).

O entendimento das "fronteiras geograficas" da Mesoamerica pode variar de acordo com as crencas de cada pesquisador que se debruca sobre o assunto. De modo geral, entretanto, elas excluem areas que pertencem aos atuais EUA. Algumas versoes do mapa, como a fornecida pela FAMSI (Fundacao para o Avanco dos Estudos na Mesoamerica, 2014), incluem ate mesmo, nessas fronteiras, o sitio arqueologico de Paquime, considerado geralmente como parte da Regiao Sudoeste. Os limites da area tida como Mesoamerica pela FAMSI, nesse caso, parecem coincidir exatamente com as atuais fronteiras politicas dos dois paises em questao.

Ja de acordo com outros mapas, como o visualizado na figura 1, divulgado pela Universidade de Maine Farmington, os "limites" da Mesoamerica esbarram ao norte em linhas que procuram excluir a area que hoje engloba o sitio de Paquime, pois esse seria um sitio pertencente a regiao de Casas Grandes, mais comumente definida como parte integrante da "area cultural Sudoeste". Destaca-se aqui que Paquime, um centro urbano de grandes proporcoes, esta incluido em uma area que Kirchhoff definiu como sendo habitada por grupos de "cultivo inferior" e por cacadores coletores.

A discussao do conceito de Mesoamerica, bem como de suas supostas "fronteiras", parece ter grande repercussao politica dentre os paises que estao hoje entre seus limites, principalmente no caso do Mexico. Segundo Rodriguez Garcia (2000), o termo "Mesoamerica" teria sido formado tendo como pano de fundo um ambiente politico de forte carater nacionalista, o qual propiciou seu uso ideologico, reforcando a onipotencia do Estado Mexicano.

Com seu nascimento marcado por uma revolucao social, a antropologia mexicana encontrou no governo populista de Lazaro Cardenas um ambiente propicio para oferecer razoes cientificas para as politicas de busca de identidade para a nacao mexicana. Nesta busca, os antropologos (...) centravam seus esforcos ao redor da definicao de um elemento aglutinante que criaria uma razao historica para consolidar o direito da nacao mexicana de emergir como um povo com desenvolvimento proprio (...) o Estado mexicano impos entao a sociedade o "direito" da apropriacao de sua grande riqueza ancestral (Rodriguez-Garcia 2000a: 47, trad. nossa).

Apropriacoes de carater politico do conceito de Mesoamerica acabaram por repercutir em intensos debates em meio a comunidade cientifica, que de certo modo ecoam ate hoje. O Instituto Nacional de Antropologia e Historia do Mexico (INAH), por exemplo, criou em 1997, o coloquio "Mesoamerica, uma polemica cientifica, um dilema historico". Rodriguez Garcia, um de seus fundadores, afirma que o artigo "O Leviata Arqueologico", de Vazquez Leon (1996), exerceu grande influencia sobre os arqueologos mexicanos na epoca de sua publicacao, e incentivou a criacao do coloquio. O texto de Vazquez Leon pode ser considerado uma analise sociologica sobre a arqueologia mexicana. Nele o conceito de Mesoamerica e relacionado com uma visao idealizada de um "Mexico Antigo", e tanto a arqueologia, como o Estado, estariam impregnados deste ideal de "passado glorioso" (Vazquez Leon 1996; Rodriguez-Garcia 2000b). Debates mais recentes comprovam que o tema ainda permanece controverso. Em novembro de 2008, foi realizado o coloquio "Caminhos da Antropologia: Historias e Epistemologias", no qual estudiosos como Good, Lopez-Austin e Millan, discutiram a "validade" da manutencao do conceito de Mesoamerica sob diferentes aspectos, incluindo questoes que tratam da grande diversidade de tradicoes culturais classificadas como "mesoamericanas".

Tambem no ano de 2008, Lopez Aguilar discutiu esta questao na ocasiao da "XX Feira Nacional de Antropologia e Historia (FLAH)" (22). O pesquisador argumentou que o conceito ditado por Kirchhoff tornou-se insustentavel sob a otica de uma antropologia que hoje da espaco a outras abordagens, distantes tanto deste modelo de recorrencia de certos "elementos culturais", como do conceito de "complexidade social" proposto por Steward (1948). O conceito de Steward suportava, de certo modo, a ideia de uma suposta "superioridade mesoamericana", tendo sido a area um berco para o desenvolvimento de "sociedades estatais". Lopez Aguilar tambem ressaltou o problema de assumir a Mesoamerica como um "territorio", e nao como um conceito aberto a discussao, que poderia levar em consideracao aspectos que nao necessariamente estariam ligados a fatores geograficos. Segundo ele, a construcao de um "mapa" foi considerada mais importante do que o proprio significado do termo.

Considerando-se esta perspectiva, pode-se dizer que a area da Mesoamerica seria, de certa forma, fundamentada e mantida nos dias atuais sob uma conotacao geografica permeada por ideais politicos, muito mais do que sob uma suposta uniformidade cultural capaz de diferencia-la plenamente de outras sociedades vizinhas (Lopez Aguilar 2000). Segundo Brotherston, que tambem ja havia chamado a atencao para esta questao anteriormente,

no curso de quatro seculos, os habitantes originais das Americas (...) passaram a ser considerados um fator marginal, ou mesmo totalmente prescindivel (...) o ataque inicial dos europeus sobre a America (...) se viu seguido por outra realidade mais complexa, constituida atualmente pelas diferentes nacoes da America Latina, Estados Unidos e Canada (Brotherston 1992: 22, trad. nossa).

Um exemplo claro da importancia da construcao de um "mapa" que excluisse as terras pertencentes aos EUA e o caso da area tida como "Oeste do Mexico" (tambem comumente chamada de "Ocidente do Mexico" ou "regiao Noroeste"). A area e geralmente considerada como "dentro dos limites da Mesoamerica", e inclui o oeste e o noroeste dos atuais limites do pais, correspondendo aos estados de Michoacan, Colima, Jalisco, Nayarit, Sinaloa e parte de Guanajuato (Williams 2011). A regiao e tida como "polemica" por muitos estudiosos, pois por vezes nao apresenta em sua producao material elementos que poderiam ser considerados "claramente mesoamericanos". Ha tanto similaridades estilisticas impressionantes, como outras que podem parecer, em uma analise superficial, bastante diferenciadas. Williams (2011) aponta para o fato de que a area, desde o inicio, foi considerada ou como parte da Mesoamerica, ou como uma regiao que mantinha com ela muitas similaridades. De acordo com Clement Meighan (1974), muitos autores acreditavam que a regiao deveria ou nao ser considerada como parte da Mesoamerica de acordo com o contexto de certos periodos. "Durante o milenio que precede a chegada dos espanhois, o Oeste do Mexico era uma variante regional da tradicao Mesoamericana" (Meighan 1974: 1260, trad. nossa). Importantes pesquisadores no contexto dos estudos mesoamericanos, tais como Lopez-Austin e Lopez-Lujan (1996), incorporam essa area a sua regiao de pesquisa. Hoje, o "Oeste do Mexico" e considerado, de modo geral, como uma area da "Mesoamerica redefinida" (Gorenstein 1996: 89).

Entretanto a regiao, como um todo, tambem guarda muitas similaridades com a regiao Sudoeste. Segundo McGuire (2011: 83-84), na decada de 1950 e no inicio da decada de 1960 houve a publicacao de diversos estudos que tentaram definir a extensao da area tida como Sudoeste. Todos eles incluiram certas areas do Oeste do Mexico (23). Jennings (1956: 116-117) e Reed (1964: 175), por exemplo, consideravam que o Sudoeste e areas do Oeste do Mexico tinham que ser tidas como uma so area cultural, que seria diferente das areas da Mesoamerica central. Em 1971 Kelley define quatro areas culturais menores para a regiao "noroeste" da Mesoamerica: Chalchihuites; o Vale de Malpaso (com a "fortaleza" de La Quemada como centro principal); os sitios ao longo da parte sul do estado de Zacatecas, relativos a area Bolanos (Juchipila-Bolafios); e uma area cultural que se estendia ao norte de Chalchihuites ate a fronteira Durango/ Chihuahua, descrita como uma "aberracao" e "submesoamericana", refletindo a mistura de formas arquiteturais supostamente mais simples e elementos semelhantes a expressao cultural Chalchihuites. Elementos de sociedades tidas como da Regiao Sudoeste, como Mogollon e Hohokan, tambem estariam presentes nestas areas (Neill 1998: 23).

Como apontado anteriormente, a FAMSI (Fundacao para os Avancos dos Estudos da Mesoamerica, 2014), considerou o sitio de Paquime como parte desta "subarea mesoamericana", alem de a denomina-la de "Noroeste". Ja Williams (2011) aponta a area como um importante corredor de troca de ideias e bens materiais, entre a regiao do Sudoeste e outras regioes mesoamericanas. Brotherston vai mais alem, e sugere que o Sudoeste como um todo seja chamado de "Noroeste", ou seja, parte da Mesoamerica (Brotherston 2012). De acordo com Lekson (2010), o termo "Noroeste/ Sudoeste" poderia traduzir uma "correcao" moderna (24). Por vezes a palavra "chichimeca" (o termo nahuatl para as terras ao norte da Mesoamerica) e tambem utilizada, embora englobe significados muito complexos, pois se refere tanto as areas geograficas, como aos povos que habitavam estas areas (25). Riley propos o termo "Grande Sudoeste" ou "Sudoeste Maior (26)", em uma tentativa de englobar na area o Sudoeste de "toda a America do Norte", buscando uma alternativa mais neutra (Riley 2005: 6). Como lembra Lekson, definir a regiao Sudoeste e complicado, pois a historia dos povos nativos transcende as fronteiras politicas modernas (...) de fato, nome "Sudoeste" e erroneo. O que nos chamamos de sudoeste dos Estados Unidos e de fato a fronteira noroeste da antiga Mesoamerica, e foi tambem por um tempo (...) o norte do Mexico (Lekson 2010: 14, trad. nossa).

Sobre as delimitacoes geograficas para a regiao Sudoeste

Assim como no caso da Mesoamerica, o estabelecimento das fronteiras do Sudoeste, esta "area cultural marginal", pode ser bastante variavel de acordo com as crencas e postulados admitidos por cada pesquisador (Lekson 2010: 13-14). Ressalta-se, no caso, a dificuldade na aplicacao do conceito, para uma regiao na qual tantos "tracos culturais" podem ser considerados tao semelhantes aos das "areas culturais vizinhas". Tambem devem ser destacados os "efeitos colaterais" das barreiras politicas construidas entre os Estados Unidos e o Mexico.

Ao "redor" da regiao Sudoeste, estao estabelecidas, alem da Mesoamerica ao sul, tambem as regioes tidas como "Grande Bacia" (ao norte), "Planicies" (a oeste), e "California" (a leste) (27). As areas culturais da America do Norte foram delineadas, a principio, com base nos trabalhos de Wissler (1922) e mais tarde de Kroeber (1931). Wissler delimitou a regiao Sudoeste agrupando sociedades Pueblo (assentadas), com outras sociedades nomades, como os Apache. As sociedades Pueblo, entretanto, passaram a ser o "modelo" que determinava o que era "do Sudoeste", cuja caracteristica mais notavel era a agricultura e as expressoes arquitetonicas. Ja para a area das Planicies, por exemplo, foi utilizado como principal criterio o sistema de organizacao social denominado como "bandos" (outra generalizacao, ja que alguns dos colegas de Wissler chegaram a afirmar que apenas metade de suas "tribos" poderiam ser classificadas como "bandos" (Woods 1934: 520). Embora tao problematicas quanto as fronteiras da Mesoamerica com o Sudoeste, de modo geral, a arqueologia acabou por se acomodar dentre estas linhas tenues, e de certa forma mantem, ao menos a grosso modo, as divisoes de Wissler. Como comentado, estas linhas divisorias sao estendidas ou diminuidas conforme o posicionamento dos pesquisadores.

Na visao de Lekson (2010, p.14-15) por exemplo, seria possivel utilizar uma "delimitacao (28)" assumidamente arbitraria, apenas com a finalidade de facilitar as analises propostas. Tal "delimitacao" deve ser pautada com o intuito de nao se deixar influenciar pela escolha de "tracos culturais" especificos, e sendo assim, os "limites" da area para o pesquisador foram estabelecidos apenas com base em feicoes geograficas. Sob sua visao, a regiao teria como "fronteira" norte as Montanhas Rochosas e a Sierra Madre; a leste o Rio Pecos; e a oeste o rio Colorado. Ao Sul estaria uma "fronteira fluida", nas planicies deserticas de Chihuahua e Sonora (29). Sua area total englobaria, portanto, territorios que se estendem desde os atuais estados do Arizona, Utah, Colorado e Novo Mexico (nos Estados Unidos), ate os estados de Chihuahua e Sonora (no Mexico). De qualquer modo, Lekson procura deixar claro que "a extensao social do antigo Sudoeste se expandia muito alem destes limites (...) que representam o coracao de suas civilizacoes" (Lekson 2010: 15).

Neste contexto, ha inumeros corredores naturais que facilitaram, acredita-se, os contatos e o comercio dentre os diferentes grupos do Sudoeste e das areas vizinhas. Destacam-se, de qualquer modo, a Sierra Madre e o Rio Grande, como duas grandes vias de comunicacao que favoreciam tambem o acesso as areas tidas como "mesoamericanas".

Sobre as delimitacoes "culturais e intelectuais" para a regiao Sudoeste

Nos fomos treinados para pensar que as sociedades nativas ao norte do Mexico nao poderiam ter sido grandes, complicadas, ou hierarquicas, porque nossos antepassados intelectuais acreditavam que estas sociedades eram "simples"- e ... "selvagens"! (Lekson 2010: 13, trad. nossa).

Os arqueologos ja rejeitaram em massa a ideia da invencao e da difusao como explicacoes adequadas para a mudanca cultural, mas o conceito de area cultural ainda implica em um contexto de centro-periferia, no qual a periferia e tida como um padrao cultural mais fraco (McGuire 2011: 84, trad. nossa).

A Guerra Mexicano-Americana (1846-1848), teve como resultado a anexacao de territorios hoje pertencentes aos estados do Texas, Novo Mexico, Arizona e California, pelo governo americano. Lekson se pergunta como seria escrita a arqueologia do Sudoeste, se tivesse sido feita pelos arqueologos do Sul, caso o Mexico tivesse vencido a guerra e ainda estes estados lhe pertencessem. Seria a regiao considerada como parte da Mesoamerica, entao? (Lekson 2010: 31). Provavelmente sim. Lewis Morgan, um dos mais importantes expoentes da antropologia americana, considerava que todas as sociedades indigenas da America, estivessem elas na Mesoamerica ou mais ao norte, estavam muito abaixo do nivel de "civilizacao (31)". Seu racismo vitoriano o impedia de acreditar, sejam quais fossem os dados apresentados, que os indigenas teriam atingido o mesmo nivel "civilizatorio" dos europeus (Harris 1968: 137-140; Lekson 2010: 220). As ideias de Morgan prevaleceram nos Estados Unidos, mas no Mexico, onde as "antigas civilizacoes" eram exaltadas patrioticamente, seu trabalho era ignorado ou rechacado, como demonstram os trabalhos de Manuel Gamio, Alfonso Caso e Ignacio Bernal (Bernal 1980: 143-144; Miller 2006: 370; Lekson 2010: 220).

Se as sociedades mesoamericanas eram tidas pelos antropologos seguidores de Morgan como "simples" (ou seja, nao tao "complexas como Estados europeus") e alem de tudo quase que "incapazes" do ponto de vista evolutivo, as do Sudoeste eram consideradas ainda mais "simplorias". Bandelier (um dos "pais" da arqueologia da regiao Sudoeste) trabalhou para que as sociedades do Sudoeste fossem vistas como desprovidas de estruturas hierarquicas, e inaptas a criar ou adotar inovacoes que as levariam para um maior desenvolvimento. "A ideia que podemos ter deste passado e muito modesta e despretensiosa (...) nenhuma onda de destruicao em grande escala, provocada pelos humanos ou pela natureza, parece ter interrompido o vagaroso e tedioso desenvolvimento destes povos antes da chegada dos espanhois" (Bandelier 1892: 592, trad. nossa). O Sudoeste era entao considerado uma area "desinteressante". Ainda mais desinteressante do que a Mesoamerica. A tendencia "simplista" tambem ecoou na etnologia do inicio do seculo XX. Ruth Benedict (1934) e Ruth Bunzel (1929, 1932), por exemplo, favoreciam a ideia de que a atual situacao social e politica dos indigenas Pueblo modernos seria a mesma dos seus ancestrais, os quais portanto, teriam vivido em sociedades igualitarias. Pouco teria se modificado em seus modos de vida desde entao.

Por outro lado, os estudiosos mexicanos seguiam enfatizando as "altas culturas" mesoamericanas, criando um contraste ainda maior no campo cientifico. Este contraste e comum ainda na atualidade. O pesquisador Aveni, por exemplo, acredita que ainda que os dados arqueologicos e etnograficos sobre a pratica da astronomia entre os grupos Pueblo norte-americanos nativos sejam relativamente escassos, esses indicam, como de se esperar (...) que os grupos Pueblo (...) utilizaram modos menos complexos que seus vizinhos do Sul para expressar seu conhecimento do ceu. Nao possuiam nenhum sistema de escritura, nem de anotacao elaborada que os ajudaria no desenvolvimento de uma astronomia cientifica. Nao e de se surpreender, pois, que as culturas do noroeste do Mexico e dos EUA nunca alcancaram a posicao de Estado ou imperio a que chegaram as civilizacoes Maia e Asteca (Aveni 2005: 415, trad. nossa).

Em 1983, em sua importante obra, "Arte Asteca", Pasztori generaliza os habitantes do norte da Mesoamerica, especificamente aqueles que habitavam as areas deserticas (que um dia abrigaram centros como Paquime), os descrevendo como "nomades vivendo em existencia precaria" que teriam "inveja" de seus vizinhos ao sul (32). Mesmo pesquisadores americanos atuais, como Riley, que admitem e procuram compreender as relacoes da Mesoamerica com o Sudoeste, reforcam a ideia de que as sociedades mesoamericanas seriam, mesmo assim, ainda muito mais "desenvolvidas". "Os efeitos do processualismo permanecem na recusa a enxergar os povos do Sudoeste e suas culturas como influenciadas significantemente pelas sociedades mesoamericanas maiores, mais antigas, e muito mais sofisticadas" (Riley 2005: 3, trad. nossa).

Antes de o processualismo ter se instaurado no pensamento arqueologico, em epocas permeadas pelo historico culturalismo, alguns poucos arqueologos como Di Peso, Kelley e Riley, chegaram a publicar suas teorias sobre as relacoes da Mesoamerica com o Sudoeste, favorecidas por migracoes e "difusoes" de artefatos e tecnologias. Esta linha de pensamento, entretanto, juntamente com a ideia de um Sudoeste "aberto a outras grandes areas culturais" foi geralmente posta de lado pelo processualismo, abracado com grande entusiasmo pela maior parte dos arqueologos americanos (Riley 2005: 2-3).

Pode-se dizer que a arqueologia do Sudoeste, de modo geral foi no passado (e em grande parte ainda e) produto de seguidores das ideias de Lewis Binford, que as reinterpretaram de acordo com seus proprios posicionamentos teoricos (tais como por exemplo Cordell e Plog (1979), e Gummernan (1988), expoentes do pensamento processualista). Sob uma otica por vezes bastante extrema, muitos dos arqueologos do Sudoeste acostumaram-se a enfatizar processos relacionados a sociedades especificas, ou mesmo ate a sitios especificos (tratados como laboratorios "desconectados" das interacoes regionais). Alguns dos estudos relativos a regiao Sudoeste suspeitam de que houvessem interacoes ate mesmo entre as ditas sociedades Anasazi/ Pueblo Antigo, Hohokan, Mogollon e Casas Grandes (tais como LeBlanc 1986). O sitio de Paquime, por exemplo, com seus inumeros testemunhos arquitetonicos de interacoes profundas nao somente com outras areas do Sudoeste, mas tambem com a Mesoamerica (33), e tratado por Whalen e Minnis (2003) como uma area que teria se desenvolvido independentemente, sendo que os elementos mesoamericanos la encontrados sao considerados apenas "emprestimos" que serviriam para garantir um certo status ao sistema ritual e a ideologia do poder politico local (34). De acordo com Lekson (2010: 249), os arqueologos americanos que se dedicam a estudar a regiao Sudoeste, de modo geral, foram treinados para nao dar credito a capacidade das populacoes preteritas de lidar com grandes escalas temporais e espaciais. Riley (2005: 2) chama esta tendencia de "Sudoeste nao contaminado". Lekson (2010: 249) aponta ainda para o fato de que ate mesmo o reconhecimento de que as sociedades do Sudoeste pudessem compartilhar de alguns elementos em comum, nao teria sido algo simples para a arqueologia americana (e de sob alguns pontos de vista ainda nao o e).

Segundo Lekson, dois grandes conceitos impedem que seja feita hoje uma arqueologia do Sudoeste livre de pre-julgamentos: a "muralha" erguida em 1848 entre o Sudoeste dos EUA e o Mexico, que torna os indios "mexicanos" ou "americanos"; e o ideal de Lewis Morgan, que ainda paira sobre a arqueologia. "Ambos sao reliquias do pensamento racista e colonial do seculo XIX, e ambos tem que ir embora" (Lekson 2010: 225, trad. nossa). Alem disso, Rojas (2005: 678), tambem alerta para o fato de que, ate mesmo na atualidade, "muitos estudiosos dos EUA ignoram o trabalho relevante de mexicanos publicados em espanhol, e muitos mexicanos parecem desconhecer publicacoes de cunho importantissimo publicadas em ingles. Alem disso, muitos estudiosos em ambos esses paises falham em citar nossos colegas europeus".

Como resultado destas crencas separatistas, tem-se hoje ainda, na antropologia e na arqueologia americana (de forma velada ou de forma aberta), a compreensao dos centros urbanos e dos grupos humanos da regiao Sudoeste em geral como "intermediarios". Ou seja, nao sao "civilizacoes complexas", de acordo com Morgan, ou "estados", nos termos de Service (1962), Sahlins (1963) e Fried (1967). Tampouco podem ser classificadas como "bandos", ou grupos de cacadores coletores. Chaco e Paquime, grandes centros urbanos do Sudoeste, tambem nao podem facilmente serem chamados de "tribos". Portanto seriam "sociedades intermediarias". Algo que se assemelha ao que se convencionou denominar de "chiefdoms" ("chefaturas"), ou para os povos da America do sul e central, de "cacicados (35)". Segundo Lekson, o termo 'intermediario' e uma categoria inutil--inutil mas com consequencias negativas. Para a arqueologia do Sudoeste, 'intermediario' significa que nos estamos absolvidos de pensar sobre Chaco e Paquime como estados (36), pois nos ja sabemos que eles eram "intermediarios". Nos limitamos, a priori, o que eles poderiam ou nao ter feito (Lekson 2010: 250, trad. nossa).

Em alguns estudos (tais como em McGuire 1995, e em Riley 2005) e comum que regiao Sudoeste como um todo seja considerada como "zona periferica" ou "marginal" da Mesoamerica, ou mesmo como uma regiao que teria sofrido forte "dominacao ideologica" por parte das "altas culturas" mesoamericanas. Como comentado acima, para alguns autores, como Brotherston (1992), nao haveria duvidas quanto a inclusao do Sudoeste na area mesoamericana, devido as semelhancas encontradas na cosmovisao adotada por estes povos. Para outros, como McGuire, estas areas seriam como "uma parte menor e muito distante do mundo mesoamericano" (McGuire 1995: 44, trad. nossa). Ja Riley teoriza que a regiao Sudoeste poderia ser considerada um "apendice dos estados civilizados da Mesoamerica", mas somente apos as mudancas drasticas ocorridas na regiao em cerca de 1200 d.C. e 1300 d.C. (Riley 2005: 12). De qualquer forma, ressalta-se que ainda hoje, a grande maioria dos "mapas" produzidos nao incluem estas areas dentre os limites da Mesoamerica, e desta forma, induzem a percepcao das sociedades do Sudoeste como "marginais".

Outros pesquisadores como Anderson (1999), por exemplo, procuram compreender a origem de supostas "chefaturas" do Sudoeste (forma como o autor compreende o "estado evolutivo" ou "forma de governo" atingida por esses grupos) tendo nao em mente a Mesoamerica, mas outras areas dos EUA. Tais areas, apesar de ainda "menos evoluidas" que a Mesoamerica, seriam um tanto "mais avancadas" do que as do Sudoeste. O autor entende que o surgimento do modelo de chefatura adotado no Sudoeste teria se dado, supostamente, primeiramente em Cahokia, no Medio Mississipi, sendo compreendido como uma "estrategia defensiva" adotada por esses grupos e/ou como produto da expansao do comercio e da competicao entre grupos de areas diferentes (Anderson 1999: 225-227). Ja para Lekson, os lideres do Sudoeste teriam voltado sua atencao para a Mesoamerica a fim de legitimar suas hierarquias e estabelecer novos modelos de controle e de poder politico, assim como teriam tambem se deixado influenciar pelos grandes centros do Medio Mississipi (37). No caso da proposta de Lekson, essa compreensao nao indica uma visao de grupos humanos que teriam sido passivamente influenciadas por outros de maior destaque, mas sim um contexto de interacao macrorregional.

Sob a perspectiva de uma rede de interacoes "macrorregionais", e necessario dizer tambem aqui que estudos comparativos entre grupos humanos de uma mesma grande regiao arqueologica, (ou "area cultural"), como a "Mesoamerica", nao sao incomuns, e se tornaram ainda mais aceitos apos a consolidacao das linhas pos-processuais no cenario da construcao do conhecimento em arqueologia. Um dos trabalhos mais importantes nesse sentido foi o realizado por Blanton e seus colaboradores (1993). Trigger (1989: 331) acredita que os estudos de Blanton estejam entre os mais relevantes trabalhos que vieram a chamar a atencao para as interacoes macrorregionais.

Seus estudos estabeleciam que arqueologia feita na Mesoamerica nao deveria considerar o desenvolvimento de nenhuma sociedade em isolamento. Ainda segundo Trigger, eles tambem teriam servido como alertas para as fraquezas presentes em concepcoes neo-evolucionistas e processuais das decadas de 1960 e 1970. Tais concepcoes enfatizavam geralmente apenas o desenvolvimento das sociedades em relacao a seu meio ambiente fisico e suas respectivas inovacoes independentes, sem considerar que "nao somente bens, mas pessoas, ideias, e ate mesmo instituicoes inteiras podem se espalhar de uma sociedade para outra" (Trigger 1989: 332, trad. nossa). Muito poucos mesoamericanistas, entretanto, fizeram comparacoes levando em consideracao a relevancia regional e o papel da regiao Sudoeste (ou de outras regioes mais ao norte) para as areas consideradas como Mesoamerica (Lekson 2010: 256). Existem, de qualquer modo, autores que procuraram desenvolver estudos mais amplos em relacao a este contexto de interacao. Os trabalhos de Wilcox (1986) e de Feinman, Nicholas e Upham (1996), por exemplo, podem ser citados como alguns dos mais relevantes neste sentido, alem dos estudos conduzidos por Lekson (2010). Lekson parte de uma perspectiva ampla, que relaciona os acontecimentos historicos ocorridos na regiao Sudoeste com a trajetoria das sociedades da Mesoamerica, alem de outros grandes centros urbanos ao norte. "Sociedades humanas (...) existem apenas no contexto de outras sociedades. Historias locais estao sempre envolvidas em narrativas muito maiores (...) nos devemos esperar interconexoes entre nossas areas culturais tao cuidadosamente construidas" (Lekson 2010: 8, trad. nossa).

Ainda neste contexto, tambem pode ser citada a pesquisa de Bars Hering (2015), cujo trabalho questiona as supostas "fronteiras culturais" existentes entre a Mesoamerica e o Sudoeste. Tal questionamento se da por meio de estudos que envolveram aspectos ligados as representacoes simbolicas e a cosmovisao, relativas a diversas sociedades presumivelmente inseridas nessas "areas culturais distintas". A constatacao da existencia de uma grande rede de transmissao de ideias entre a Mesoamerica e o Sudoeste, atesta, para a autora, um alto grau de interacao social, e em muito dificulta, portanto, a delimitacao de fronteiras geograficas e culturais arbitrarias (Bars Hering 2015:411).

Searcy (2010, p. 31) chegou a afirmar que a Mesoamerica era uma area que cobria inumeras sociedades com costumes, crencas, e sistemas religiosos diferentes. Entretanto, para ele o uso da palavra "Mesoamerica" seria ainda valido no sentido de que engloba uma grande area na qual seria possivel encontrar certo numero finito de "simbolos" em comum. Se a proposta de Searcy fosse levada em consideracao nesse caso (de que seria possivel delimitar uma "regiao" apenas com base na presenca de simbolos em comum), de acordo com Bars Hering (2015: 411), seriamos forcados a admitir que nao existiram "fronteiras", ou ao menos, nao fronteiras tao claramente e facilmente demarcadas, entre a Mesoamerica e o Sudoeste.

Consideracoes Finais

Como observado, a "area cultural Sudoeste" teve suas supostas "fronteiras", estabelecidas sobre bases conceituais bastante controversas. Apesar da grande polemica e da resistencia de muitos em enxergar as interacoes macrorregionais em ambitos "para fora dessa grande area cultural", existem, por outro lado, estudos, tais como os aqui citados (38), que apontam conexoes e contatos entre o Sudoeste e a Mesoamerica. Algumas pesquisas colocam inclusive em debate a questao do que poderia ser considerado "puramente mesoamericano" ou "puramente do Sudoeste" (tais como Lekson (2010) e Bars Hering (2015). Ja trabalhos como os de Bars Hering (2015), Crown (1994), Hays-Gilpin e Hill (1999), Lekson (2010, 1999), Mckusic (2001) e Schaafsma (2001), por exemplo, atestam tambem evidencias de contatos entre as ditas "subareas" do Sudoeste. Por que entao mantemos essas divisoes territoriais/ culturais artificiais ainda hoje?

A importancia do conceito de "area cultural" na antropologia americana da atualidade e expressa por Pauls como:

uma das lentes mais comuns atraves das quais cientistas sociais, e especialmente americanistas, enxergam seu trabalho. Ele continua a ser usado como uma ferramenta de ensino e como uma estrutura tipologica para ordenar o acervo de museus no seculo XXI, e se tornou tao imbuido na cultura popular que e tambem usada para organizar itens em exposicao no varejo--variando de artes decorativas, a musica ou a alimentos importados. Seus pressupostos fundamentais permanecem validos, e a maior parte dos cientistas sociais se especializa apenas em uma ou mais areas culturais (Pauls 2014: s/p, trad. nossa).

Ja McGuire descreve a importancia do conceito para a arqueologia contemporanea como uma "assombracao que paira sobre a pesquisa".

O conceito de area cultural afeta como nos postulamos nossas perguntas, como definimos as fronteiras de nossos estudos, que revistas lemos, com quais colegas falamos, a escola que devemos estudar, e uma duzia de outros aspectos no ambito da arqueologia, de modos sutis e complexos. Muitos arqueologos acreditam que a ideia de area cultural e simplesmente uma reliquia que foi deixada de lado; uma perspectiva teorica rejeitada, que portanto nao merece mais ser alvo de discussao na atualidade. Eles tem certa razao nessa opiniao, pois o conceito de area cultural e claramente produto do particularismo historico, e esta imbuido de tudo o que envolve o termo. Entretanto, apesar de suas obvias origens arcaicas, o conceito ainda sobrevive e esta firmemente estabelecido no estudo arqueologico das Americas (McGuire 2011: 79, trad. nossa).

Em seu artigo, McGuire (2011) reforca a problematica da questao da area cultural como fator limitador da pesquisa arqueologica. O autor faz uma longa discussao sobre como o conceito forca divisoes no campo de trabalho, dificultando e por vezes impedindo, mesmo que de uma maneira sutil e passiva, o dialogo entre pesquisadores "especialistas" em areas culturais diferentes. Segundo McGuire, tal fato se reflete tambem na organizacao de eventos, na formacao de colecoes em museus, e ate mesmo nas tecnicas e tematicas abordadas em campo e gabinete (sendo que grupos de especialistas em areas culturais diferentes, ao longo do tempo, desenvolveram seu modo particular de trabalho e preferencias de abordagem). O artigo em questao tambem levanta a problematica das divisoes arbitrarias das areas culturais, que em geral refletem muito mais uma necessidade academica, do que uma realidade aceita pelos povos nativos.

E preciso ter em mente que estas nomenclaturas e "subdivisoes", baseadas em posicionamentos teoricos, necessidades academicas e supostas evidencias arqueologicas, mantidas por vezes por configuracoes politicas da atualidade, devem ser consideradas passiveis de reinterpretacao. Os grupos humanos englobados por estes "conceitos"/ "areas" nao podem ser automaticamente encarados como supostamente "desconectados" ou "ideologicamente isolados" uns dos outros. Certamente essas "divisoes territoriais" nao correspondem a realidade vivida pelos mesmos, ou ao grau de interacao que esses poderiam possuir. Como bem disse Carrasco, ironizando nossos tao bem preservados paradigmas, nos trabalhamos duro tentando fazer com que os outros vejam as coisas de acordo com as ideias, que um dia recebemos, sobre como essas coisas deveriam funcionar--ou seja; nos "fixamos as lentes da disciplina" de modo que nos acabamos vendo apenas nossos proprios olhos com nossos olhos, e assim nos confundimos nosso proprio olhar com o que os olhos estao realmente vendo (...) nos insistimos em ver apenas reflexos do nosso proprio olhar, perspectiva ou disciplina (Carrasco 1997: 281, trad. nossa).

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Cassia Bars Hering (*)

* Doutora em arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo (MAE USP).

(1) Como lembra Trigger (1989: 150), os problemas socio-economicos que marcaram a decada de 1880 na Europa Ocidental foram responsaveis, em grande parte, por uma mudanca de paradigma nessas ciencias--as novas geracoes de intelectuais ja nao acreditavam mais nos beneficios do "progresso tecnologico", e na capacidade universal humana de atingir esse progresso.

(2) Ratzel, em sua obra "A Historia da Humanidade" (1885-1888) enfatizava a questao da "invencao unica"--considerando que certos artefatos (tal como o arco e a flecha) poderiam ter sido inventados apenas uma vez, em um dado contexto especifico, e entao teriam sido difundidos para todas as demais sociedades que ja os utilizaram ao redor do globo. O autor insistia na importancia da verificacao de todas as vias de possiveis mecanismos de difusao, antes que se pudesse arriscar dizer que um artefato teria sido inventado em mais de uma area (Trigger 1989: 151, trad. nossa).

(3) "Idade da pedra, bronze e ferro"--estabelecidas por Nicolas Mahudel (1734) como uma sequencia cronologica valida (Trigger 1989: 60). O conceito foi posteriormente consolidado por Thompsen, na primeira metade do seculo XIX, como uma ferramenta analitica nas classificacoes em arqueologia (Trigger 1989: 73-79).

(4) Segundo Moran (1994: 61-62), Kroeber a principio acreditava que os seres humanos estavam totalmente subordinados ao seu meio cultural--desenvolvendo a partir dai seu conceito de "superorganico cultural"--o qual dita que em todas as sociedades o padrao cultural subordina os individuos, atuando como "agente de forcas culturais inevitaveis". Entretanto, mais tarde o autor passa a dar tambem valor a fatores ambientais deterministas nesta conjectura.

(5) Nessa mesma publicacao, Kroeber propos divisoes para a America do Norte e Central em areas culturais, definido fronteiras para a regiao Sudoeste dos EUA, que incluiam areas do atual Novo Mexico, Arizona e o sul da California. As fronteiras ao sul, que fariam divisas com areas mexicanas, foram descritas por Kroeber da seguinte forma: "a questao das fronteiras Mexico-Sudoeste deve essencialmente ser deixada em aberto no momento presente" (Kroeber 1931: 32). A afirmacao de Kroeber, realizada na decada de 1930, soa atual, e ainda e debatida na arqueologia, como e comentado nesse presente artigo.

(6) Promovida pelo Instituto Smithsonian, entre 1940 e 1947.

(7) Embora com tons neo-evolucionistas, a obra ainda mantem a crenca em certos aspectos difusionistas. "Segundo Roosevelt (1980), ao lado da ecologia cultural, o difusionismo nao e de modo algum traco menor na historia cultural de Steward, sendo mesmo um tema de integracao. Desse modo, a explicacao difusionista nao se aplica somente as 'anomalias culturais' encontradas nas terras baixas, mas tambem as culturas bem definidas encontradas na floresta tropical" (Gomes 2002, p. 50).

(8) Julian Steward acreditava em uma linha de evolucao "mul tilinear" (ao contrario de seu contemporaneo Leslie White, o qual acreditava na "evolucao universal", influenciado principalmente por Lewis Morgan). Segundo Moran (1994, p. 67-68), "ao contrario de Kroeber, que buscava uma teoria geral, em suas pesquisas Steward tinha por meta aquilo que chamou de uma teoria de medio alcance (...) delimitou uma serie de fenomenos e procurou explicar as relacoes de causa e efeito entre eles (...) comparava tambem sociedades atraves do tempo e do espaco em busca de generalizacoes validas acerca do comportamento humano. A abordagem de Steward, ficou conhecida como 'ecologia cultural' (...) e enfatiza o estudo de populacoes humanas dentro dos ecossistemas (...) Em resumo, a abordagem ecologico-cultural postula uma relacao entre recursos ambientais, tecnologia de subsistencia e o comportamento necessario para aplicar a tecnologia nos recursos do ambiente".

(9) Segundo a avalicao de Marcus em 1978, esse seria "o trabalho mais ambicioso em termos de tratamento de area cultural ja produzido pelos antropologos americanos (...) a serie (...) segue claramente a tradicao de (...) Steward, mas com certas extensoes, modificacoes e melhorias. Ele ultrapassa seu predecessor em tamanho (16 volumes), em numero de categorias, e em combinacoes de descricoes detalhadas (...) regionais, temporais, e cobertura etnica, bem como na bibliografia" (Marcus 1978: 85, trad. nossa).

(10) Entre eles os volumes: I--Informacoes bibliograficas; vol. II--Os Indios na Sociedade Contemporanea; vol. III--O Meio-Ambiente, as Origens e as Populacoes; vol. IV--A Historia das Relacoes "Brancos --Indigenas"; e vols. XVI e XVII--Linguas.).

(11) Tais como os volumes V--O Artico; vol. VI--O Subartico; vol. VII--A Costa Noroeste; vol. VIII--A California; vols. IX e X--O Sudoeste; vol. XI--A Grande Bacia; vol. XII--O Planalto do Noroeste; vol. XIII--As Planicies; vol. IV--O Sudeste; e vol. XV--O Nordeste.

(12) Cada uma das "areas culturais" delimitadas para a America do Norte possui um volume proprio, com excecao da "area cultural" do Sudoeste, a qual possui dois volumes, divididos em grupos indigenas considerados como "Pueblo" e "Nao --Pueblo". Ambos os volumes foram editados por Alfonso Ortiz, um antropologo cuja postura foi considerada bastante controversa, tanto na academia, como dentre os indigenas (visto que Ortiz publicou certas informacoes privilegiadas a respeito dos grupos Pueblo Tewa sem sua autorizacao). Sua postura de suposta "superioridade academica" lhe rendeu inimizades dentre os informantes Pueblo, principalmente os mais idosos (Hall apud Johnson 1997, s/p).

(13) Mapa modificado e traduzido pela autora, com base em mapa divulgado pela Maine Farmington University (2011).

(14) E necessario destacar, de qualquer modo, que antes do estabelecimento do conceito por Kirchhoff, os estudos americanistas em um primeiro momento, de modo geral, utilizavam-se do termo "America Media", para referir-se a areas que podem ser consideradas concomitantes em certo grau. Esse conceito em muito fundamentava-se em aspectos geologicos. Apos o desenvolvimento do conceito de area cultural, entretanto, surgiram algumas primeiras tentativas de novas subdivisoes para as areas da America do Norte, como pode ser observado nos trabalhos de Wissler (1922) e Kroeber (1931) (como comentado na nota 6).

(15) Em 1939 ocorreu a primeira reuniao formal do Comite Internacional para o Estudo das Distribuicoes Culturais da America. Na ocasiao deste comite, foram discutidas questoes que tinham por objetivo criar parametros para o estabelecimento de areas culturais no continente americano. Tais ideias vieram a influenciar profundamente as construcoes teoricas de Kirchhoff.

(16) A lista completa e detalhada dos elementos culturais considerados "mesoamericanos" pode ser lida em Kirchhoff (1960: 8-9).

(17) Quanto as quadras de jogos de bola, Kirchhoff nao nega sua existencia em areas do Sudoeste, porem acredita que sejam elementos "tipicamente mesoamericanos que as vezes se encontram fora da Mesoamerica (...) como em algumas tribos de fora da Mesoamerica, mas junto a suas fronteiras (como o jogo com bola de borracha entre alguns grupos cacadores coletores do norte do Mexico), onde a difusao e inegavel" (Kirchhoff 1960: 8).

(18) Em Bars Hering (2015), esta exposta uma vasta discussao sobre a presenca destes elementos em areas da America do Norte de modo geral, com enfase a Regiao Sudoeste.

(19) Dentre esses elementos estariam por exemplo a ceramica e o cultivo de itens especificos como abobora, milho e feijao (presentes, segundo o autor, em todas essas areas citadas acima); o sacrificio humano, o cultivo da batata, a zarabatana e as cabecas trofeu (que estariam presentes em todas as areas citadas acima, menos no Sudoeste); o canibalismo (que estaria presentes em todas as areas citadas acima, menos no Sudoeste e nos Andes); a "confissao" (presente no Sudeste, na Mesoamerica e nos Andes); sandalias e construcoes de pedra ou barro (que estariam presentes em todas as areas citadas acima, menos no Sudoeste e na Amazonia); o cultivo do algodao (que nao estaria presente somente no Sudeste); terracos para cultivo, pontes suspensas, balsas feitas de aboboras (presentes na parte sul da Mesoamerica, na area Chibcha e nos Andes); cultivo de mandioca, pimenta, abacaxi, abacate, mamao, zapote e variedades de ameixa, presenca de certas racas de caes; presenca certas especies de patos; escudos manufaturados com tecidos, metalurgia, lancas (presentes em todas as areas citadas acima, menos no Sudeste e no Sudoeste); clas do tipo calupulli-ayllu, tirar o coracao dos homens vivos, jogar sangue de vitimas sacrificadas em santuarios (somente na Mesoamerica e nos Andes); entre outros (Kirschoff 1960: 9-11).

(20) Ver Bars Hering (2015: 228-232) para maiores detalhes sobre a questao da realizacao de sacrificios humanos na Regiao Sudoeste.

(21) Em oposicao ao cultivo realizado pelos povos considerados de "alta cultura" da Mesoamerica (Alba 2000: 121).

(22) A Feira Nacional de Antropologia e Historia (FLAH) e or ganizada desde 1988 pelo Instituto Nacional de Antropologia e Historia do Mexico (INAH).

(23) Autores como Jennings (1956), Reed (1964), Haury (1962) e Willey (1966), por exemplo--cada um com sua ideia propria de extensao de area a ser considerada.

(24) O mesmo termo e utilizado por Searcy (2010), que ao se referir a regiao usa as siglas "SW/NW" (em ingles)

(25) De acordo com Di Peso (1974: 48), por exemplo, a area tida como "Grande Chichimeca" incluiria "uma porcao do hemisferio oeste, que possui como fronteira ao leste a barreira natural do Golfo do Mexico--longitude 97[degrees]oeste; a oeste pelo Oceano Pacifico-, latitude 23[degrees]27' norte; e ao norte-38[degrees] de latitude norte" (trad. nossa).

(26) "Greater Southwest". O autor afirma que o termo nao foi bem recebido por arqueologos mexicanos, que o acusaram de utilizar um termo em ingles propositalmente para toda a regiao, o que atestaria supostamente uma visao anglo-americana preconceituosa. O autor nega que estas tenham sido suas intencoes (Riley 2005: 6).

(27) Ver mapa da figura 1

(28) O termo e mantido entre aspas, pois o proprio Lekson assume que estas delimitacoes podem e devem ser discutidas.

(29) De modo geral, essa "fronteira" sul e nao por acaso "definida" por Lekson de uma maneira "mais fluida e aberta", pois nao haveria feicoes geograficas marcantes nestes desertos que se estendem entre as fronteiras politicas dos atuais Mexico e Estados Unidos. Riley (2005: 6) tambem admite que a fronteira ao sul e um tanto "confusa". O autor tambem adota um territorio mais amplo para o Sudoeste, que engloba, em sua visao, alem dos estados mencionados acima, parte de Nevada, Texas e California.

(30) Como comentado anteriormente, e comum o estabelecimento de "areas menores", ou "subareas", dentro das grandes "areas culturais". De modo geral, a regiao arqueologica do Sudoeste e subdividida pelas areas Anasazi/ Pueblo Antigo, Hohokan e Mogollon. Essa divisao foi consagrada por Glad win, na primeira metade do seculo XX, e estrutura a pratica da arqueologia na regiao desde entao (Lekson 2010: 77). Gladwin levou em conta, como no caso das grandes areas culturais em geral, alguns "tracos culturais" que supostamente fariam essas areas diferentes umas das outras (embora mesmo estes sejam muitas vezes discutiveis (Bars Hering 2015). Uma outra "divisao" utilizada para periodos posteriores, inclui a area "Casas Grandes". "Exatamente onde Casas Grandes se encaixa nos esquemas classificatorios gerais do Sudoeste permanece ainda um problema. Arqueologos mexicanos, como Carmen A. Robes e Eduardo Noguera acreditam que a regiao seja Pueblo, assim como os americanos Edwin B. Sayles e Harold S. Gladwin" (Riley 2005:118). Ja Charles Di Peso (1974) considerava seu maior centro urbano, Paquime, como um "entreposto" mesoamericano. Deve-se tambem estar atento ao fato de que a area de Casas Grandes era antes ocupada por assentamentos considerados "do tipo Mogollon", com ceramica tambem semelhante. Entretanto, Mogollon e Casas Grandes sao tratados, pela grande maioria dos arqueologos, como padroes arqueologicos diferentes. Acredita-se que estas subdivisoes ainda serao muito debatidas. Cre-se ser necessaria ainda a conducao de mais estudos e analises nesse sentido.

(31) Baseado em seus pressupostos evolucionistas de "selvageria, barbarie e civilizacao" (Morgan 1877).

(32) "Uma grande diferenca entre as epocas Classica e PosClassica mesoamericanas vem das muitas ondas de invasoes nomades das regioes do Norte que adentraram o vale durante o Pos-Classico. A area desertica do Mexico sempre foi habitada por cacadores-coletores vivendo em condicoes precarias e nomades, e eles devem ter olhado para seus vizinhos do Sul, ricos habitantes de cidades, com inveja" (Paztori 1983: 43, trad. nossa).

(33) Vide Bars Hering, 2015, cujo tema do trabalho trata, de modo geral, das inumeras relacoes, de multiplas naturezas, entre o Sudoeste e a Mesoamerica

(34) "Nosso proposito e alertar os arqueologos para reconsiderar modelos baseados em origens distantes que ha muito domina ram a literatura de Casas Grandes (...) nos nao negamos a importancia de contatos distantes e "emprestimos" de outros locais. Elementos mesoamericanos claramente eram parte essencial do sistema ritual e politico da economia de prestigio que mantinha o poder em Casas Grandes (...) entretanto, nos interpretamos estes elementos como 'importacoes', usadas para aumentar o poder politico local" (Whalens e Minnis 2003: 328, trad. nossa).

(35) Os "chiefdoms" ("chefaturas") sao classificados como "sociedades redistributivas". Entretanto a redistribuicao pode ser caracteristica de muitas sociedades na escala de "bandos" a "estatais". As caracteristicas gerais de uma "chefatura" podem ser muito diversas, o que faz com que seja dificil definir suas formas de governo e poderio politico, alem de suas estratificacoes sociais. E tambem muito dificil precisar a divisao entre 'simples" "chefaturas" e sociedades tribais mais 'complexas' nestes termos (Gamble 2008: 173).

(36) O autor insiste em denominar certas sociedades como Paquime e Chaco de "estados", mesmo ciente da grande problematica em torno do termo, pois "os centros urbanos norte-americanos devem ser chamados de estados a fim de ocuparem o mesmo espaco intelectual que os centros do outro lado da fronteira do Mexico" (Lekson 2010: 223, trad. nossa).

(37) Outros autores, como Nelson, tambem trabalharam anteriormente com nocoes semelhantes. "Estilos mesoamericanos e praticas sociais se espalharam em direcao ao norte (...) a competencia na realizacao de rituais mesoamericanos e em praticas de guerra podem ter dado a alguns imigrantes uma base de poder (...) nenhuma sociedade do Sudoeste parece ter sido dominada pela Mesoamerica, e ainda assim elementos mesoamericanos--incluindo genes e linguagens--aparecem aqui" (Nelson 2000: 318-329, trad. nossa).

(38) Alem dos estudos ja citados anteriormente, destacam- se tambem os trabalhos de Beekman (2010), Crown (1994), Hays-Gilpin e Hill (1999), James (2000), Mathiowetz (2011), McKusic (2001), Reed, Wilson e Hays-Gilpin (2000), Schaafsma et al (2011), Schaafsma e Taube (2006), Van Pool et al (2006), entre outros.

Caption: Fig. 1. Mapa com as subdivisoes em "areas culturais" da America do Norte (13).

Caption: Fig. 2. Mapa com a localizacao aproximada na paisagem das "divisas" assumidas para o Sudoeste. Segundo Lekson, 2010. A esfera Casas Grandes localiza-se aproximadamente no local onde foi inserida sua denominacao. Fonte do mapa base: Google Maps, 2014. Concepcao artistica da autora (30).
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Author:Hering, Cassia Bars
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2015
Words:11846
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