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The inclusion of drilling contexts in training programs for the development of soccer players: a view of coaches from Portugal/ A INCLUSAO DOS CONTEXTOS DE EXERCITACAO EM PROGRAMAS DE TREINAMENTO PARA O DESENVOLVIMENTO DE JOGADORES DE FUTEBOL: A VISAO DE TREINADORES PORTUGUESES.

INTRODUCAO

O treinamento desportivo tem desenvolvido nos ultimos anos uma serie de pesquisas em busca de informacoes que melhorem o desempenho dos jogadores de futebol.

Essa busca por informacoes e pelo desenvolvimento cientifico da area certamente se traduzira em melhores condicoes de preparar os jogadores para os campeonatos a serem disputados, assim como acrescentara significativo aumento qualitativo na formacao de jovens jogadores de futebol (Leitao, 2004; Costa e Nascimento, 2004).

Visando essa busca pelo melhor desempenho, atualmente muitos professores, treinadores e preparadores fisicos entendem que o treinamento de futebol deve ser complementado com outras atividades, tais como musculacao, exercicios com pesos livres, circuitos de corridas intervaladas, entre outros, para a maximizacao da performance fisica (Frisselli e Mantovani, 1999; Bompa, 2002; Sargentim, 2012).

Entretanto, com o objetivo de desenvolver as componentes implicadas no jogo de futebol, diversos treinadores tem utilizado os contextos de exercitacao pelo fato destes facilitarem a organizacao do treino, favorecerem a participacao dos jogadores, alem de induzirem adaptacoes

fisiologicas relacionadas com a componente tatica que necessitam ser ensinadas ou treinadas (Greco, 1998; Silva, 2008).

Sao compostos por uma estrutura funcional utilizada por meio do metodo situacional, que e constituida por situacoes de jogo que envolvem um ou mais jogadores, onde realizam tarefas de ataque, de defesa e de transicoes, em atividades que consideram as caracteristicas do jogo formal.

Entretanto, o treinador recorre a variacoes do numero de participantes, do espaco, do tamanho da bola, e outras que considerar pertinente de acordo com seus objetivos. As regras utilizadas sao as mesmas do jogo formal, podendo ser adaptadas de acordo com as caracteristicas dos jogadores e das ideias que se pretendem treinar (Greco, 1998; Casarin e colaboradores, 2011).

Apesar da formacao dos profissionais de Educacao Fisica ter se alterado significativamente nos ultimos anos, torna-se importante afirmar que muitos dos estudos desenvolvidos em relacao as metodologias e acoes pedagogicas pautam-se em um metodo tradicional e tecnicista/analitico.

Um dos problemas evidentes no metodo tradicional e que ao utiliza-lo, os treinadores retardam o processo do ensino e do treinamento da capacidade de jogo ate que os jogadores consigam realizar o fundamento tecnico (Garganta, 1998).

E preciso salientar que a maioria deles nao conseguira executar os gestos tecnicos adequados, e assim ao insistir neste metodo, o treinador podera nao oportunizar outras formas de aprendizagem e treinamento mais gratificantes e que possam melhorar o rendimento.

Nessa perspectiva, existem poucos estudos na literatura brasileira que investiguem a importancia da utilizacao de metodos de treinamentos que absorvam os contextos de exercitacao ou jogos condicionados para o ensino e treinamento do futebol.

Considerando a pertinencia da utilizacao desses exercicios para a melhora do desempenho dos jogadores, este estudo possui como objetivo verificar os beneficios e a eficacia dos contextos de exercitacao na visao dos treinadores quando inseridos em programas de treinamento aplicados ao futebol.

MATERIAIS E METODOS

Este estudo, realizado na Europa, atende aos pressupostos eticos da Declaracao de Helsinki. Para atingir o objetivo proposto, realizou-se um estudo descritivo e exploratorio de cunho qualitativo. Esta abordagem possibilita maior aproximacao com o cotidiano e as experiencias vividas pelos proprios sujeitos (Minayo, 1993).

O processo de coleta de dados aconteceu nas dependencias da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, no ano de 2012. Para tanto, utilizou-se a entrevista semiestruturada, que e compreendida como um formulario compostos de questoes abertas que facilitam a obtencao de percepcoes do sujeito em relacao ao fenomeno abordado na pesquisa (Minayo, 2001).

O presente estudo ocorreu na ocasiao da participacao no Programa Ciencia Sem Fronteiras realizada no ano de 2012. A amostra do presente estudo foi composta por tres treinadores de futebol integrantes de categorias de base de equipes portuguesas participantes do Campeonato Nacional da I Divisao, que utilizam os contextos de exercitacao em seus treinamentos em Portugal. Todos eles ja participaram de competicoes internacionais.

Para realizacao das entrevistas, os individuos receberam esclarecimentos previos acerca do objetivo do estudo e, uma vez aceitando participar, foram agendadas as entrevistas de acordo com as suas disponibilidades, sendo estas realizadas de modo presencial. O consentimento dos sujeitos foi obtido por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) elaborado especialmente para essa coleta de dados, devidamente assinados pelos envolvidos e autorizando a publicacao do conteudo. Os tres treinadores foram nomeados por E1, E2 e E3, evitando a identificacao dos mesmos.

Para a coleta de dados, foi utilizado um gravador de voz Olympus vn-6800PC e posteriormente as entrevistas foram transcritas integralmente, para preservar o sentido e as ideias dos entrevistados para fins de analise. A analise dos dados teve como referencial metodologico a analise de conteudo, que permite a analise de comunicacoes por meio de procedimentos sistematicos e objetivos que descrevem o conteudo das mensagens (Bardin, 1977). Neste sentido foi realizada a analise tematica, que consiste em descobrir os "nucleos do sentido" que compoe uma comunicacao, no qual a presenca ou a frequencia tenha um significado para o objetivo analitico visado (Minayo, 1993).

RESULTADOS E DISCUSSAO

Para dar corpo a uma identidade coletiva dentro de uma equipe de futebol, os exercicios de treino tornam-se ferramentas essenciais dos treinadores. Sao eles que farao exponenciar as intencoes do treinador (E3).

Os exercicios podem variar em configuracao, dimensao, regras, objetivos, numero de jogadores e duracao. As modificacoes realizadas nos jogos possuem como meta atender aos objetivos da unidade de treino. Os exercicios surgem assim como um dos fatores que permitem e podem provocar adaptacoes nas varias dimensoes: psico-cognitiva, tactico-tecnica, tactica-individual e fisiologica (Katis e Kellis, 2009).

A nomenclatura utilizada na literatura e bastante ampla na definicao destes exercicios. Embora aparecam nomes como jogos reduzidos, "small sided games", entre outros, a entrevistada propoe que seja superado o conceito de exercicio para o de contextos de exercitacao.
   [...] um contexto diferencia-se
   de exercicios, exatamente pelo sentido
   que o contexto tem e o exercicio pode
   nao ter. Um exercicio tem
   normalmente associado um tempo,
   uma duracao "x", num espaco e com
   objetivos para desenvolver...Um
   contexto e diferente, e qualquer coisa
   que esta a trabalhar ali com
   determinado sentido, durante um
   tempo, com determinado espaco. O
   que isto significa? O contexto cria uma
   nocao de que ha ali muita coisa para
   alem daquilo que tu queres. (E2)


Segundo a entrevistada E2, o contexto diferencia-se dos exercicios porque busca aprimorar um criterio e esta orientado para a especificidade que se objetiva. Alem disso, os contextos devem possuir "abertura" para que os jogadores apresentem atitudes para alem daquilo que o treinador pretende. Um contexto de exercitacao representa uma "bacia de atracao de coisas que vao acontecer que tu proporcionas, 3x3, 4x4, 5x5, mas o jogar e mais orientado para aquilo que tu queres" (E2).

Portanto, se o treinador objetiva que a equipe, em organizacao ofensiva, tenha posse e circulacao de bola no campo de ataque utilizando os dois lados do campo, ao colocar traves laterais em um contexto de exercitacao, certamente havera mais "largura" na posse de bola do que se ele colocasse, por exemplo, uma trave central. Com as traves laterais, os jogadores podem obter sucesso no exercicio jogando em largura e as interacoes entre eles convergem para esse sentido (Costa e Nascimento, 2004).

Entao, o contexto de exercitacao devera ser um jogo que represente uma reducao sem empobrecimento do jogo formal. Para que isso aconteca, e preciso treinar em especificidade e respeitar a natureza do jogo de futebol (Maciel, 2011). Segundo o entrevistado (E1), o treinador "pode diminuir o grau de complexidade, mas sem perda de complexidade". E complementa: "a reducao sem empobrecimento so se da se de fato aquilo que e a natureza do objeto nao se perder". Os contextos de exercitacao deverao proporcionar interacoes multiplas levadas a efeito em conflitualidade, em confronto e possuidas de simulacro (E1), assim como deverao contemplar os diferentes momentos (organizacao ofensiva, transicao ataquedefesa, organizacao defensiva e transicao defesa-ataque) existentes em uma partida de futebol.

Dessa forma, a exemplo do jogo de futebol, que pode ser visto a luz da teoria da complexidade, nao e possivel "abordar a contradicao sem estar perante a contradicao" (E1). Ou seja: os contextos de exercitacao deverao proporcionar ao jogador vivenciar o Modelo de Jogo que se esta a criar nas suas mais diferentes escalas (individuais, setoriais, grupais, inter-setoriais e coletivas).
   No jogo, eu posso estar
   menos preocupado com o defender e
   mais com o atacar, mas se eu nao
   contemplar esta dialetica eu estou a
   reduzir com empobrecimento aquilo
   que e a natureza da coisa, dai que eu
   lhe diga, a dinamica, o tatico e a
   organizacao que a equipa manifesta.
   (E1)


Ao treinador compete ensinar aos seus "alunos" determinado "tema", e depois, em funcao das informacoes que eles tem acerca desse assunto, deixa-los ser conscientes, criativos e agentes diretos do processo:
   O jogador, por insuficiencia de
   saber o que e o individuo, do que e o
   jovem, e para eles simplificado
   resultando em empobrecimento. Que e
   o contrario do que e como pessoa, que
   e complexo, e do jogo, tambem
   complexo, e portanto, aquilo que
   promovem habitualmente no treino, ou
   seja, a "interacao" dos exercicios--que
   eu nao chamo de interacao
   porque promovem reacao, ele
   (jogador) nao e agente, e reagente e
   portanto ao ser reagente esta a fazer
   um ditado, nao esta a fazer uma
   redacao. Ele tem que saber fazer uma
   redacao ate para descobrir, ser
   criativo, ele tem que saber que tema e,
   e depois domina o tema melhor ou pior
   em funcao da informacao que tem do
   tema. Por isso eu lhe digo que a
   periodizacao e assente sobre as ideias
   e nao sobre comportamentos. (E1)


O entrevistado E1 deixa claro que os treinadores devem dar liberdade para que os jogadores possam ser criativos. Para isso trouxe a analogia de uma redacao. Se o jogador nao e criativo e agente direto da construcao do processo, ele acaba fazendo um ditado e nao uma redacao. Analogo a essa ideia, os treinadores de futebol devem expor nos treinos as ideias relativas ao Modelo de Jogo que se esta a criar e o que deve ser feito em campo. Sao os jogadores quem vao apresentar as solucoes e resolver os problemas apresentados, deixando-os livres para criar e tambem para jogar. O professor entrevistado (E1) chama de "conflito pernicioso" todas as tentativas de se treinar que fogem da essencia e da semelhanca do jogo de futebol:
   [...] voce tem que estabelecer
   o melhor possivel uma relacao de
   afinidade e nao conflitualidade do
   corpo com o corpo e os outros corpos,
   atraves da empatia, de uma infinidade
   de coisas. E hoje as neurociencias, ou
   pelo menos a neurociencia atrativa,
   trata disso de acordo com o padrao de
   funcionalidade e o padrao de
   problemas que se coloca, isto e, o
   padrao de problemas no futebol,
   embora com diversas nuances, tem
   uma matriz que e jogar futebol.
   Portanto, tudo o que seja perda dessa
   padronizacao, como Damasio diz,
   desse mapeamento, tudo que seja
   perda de semelhanca, e conflito
   pernicioso.


Damasio (1996) ainda refere que a tomada de decisao feita pelos humanos sofre influencia dos sentimentos. Nessa perspectiva, as tomadas de decisao sao feitas sob o controle de um sistema interno de preferencias e sob um conjunto externo de circunstancias. Portanto, cabe ao treinador fazer os jogadores vivenciarem suas ideias de jogo atraves do treinamento em especificidade gerindo os reforcos positivos e negativos.

Alem dos beneficios supramencionados, os contextos de exercitacao auxiliam no aprendizado tatico dos jogadores, exigindo uma coordenacao de acoes reais do jogo, assim como a recuperacao, conservacao e progressao da bola, triangulacoes, coberturas e suporte (Grant e colaboradores, 1999). Por isso, as experiencias variadas tambem concedem o desenvolvimento da velocidade de raciocinio e a velocidade de improvisacao (Paulo, 2009).

Os jogos situacionais 1x1+1, 2x1 e 2x1+1 possibilitam, respectivamente, desmarcar para criar espacos livres e oferecer-se para o jogo, trabalhar conceitos relativos a largura e profundidade com movimentacoes para criar espacos livres e, distribuicao no campo de jogo visando abrir espacos para facilitar a execucao de jogadas pelos companheiros (Greco, 1998). Estas situacoes de contextos de exercitacao em espaco reduzido permitem aos jogadores passar a bola ao companheiro de equipe melhor colocado ou manter a posse da bola para si, esperando o momento adequado para efetuar o passe (resolucao tatica), escolhendo a tomada de decisao tatico-tecnica mais adequada (Monteiro, 2012).

Nas diversas configuracoes que os contextos de exercitacao podem assumir, os jogadores desenvolvem uma boa visao, leitura e analise das situacoes taticas (macro e micro) do jogo em termos individuais e coletivos. Os espacos condicionados, as regras colocadas em jogo, o numero de jogadores, entre outros aspectos, permitem com que as ideias que se pretende treinar aparecam com maior frequencia durante o treino, permitindo a manifestacao e vivencia de determinados principios relativos ao modelo de jogo que se esta a criar (Tobar, 2013).

A pertinencia fisica e fisiologica dos contextos de exercitacao

Durante muito tempo, pensou-se que o aumento de massa muscular, mesmo que para esse ganho nao houvesse especificidade, fosse benefico para um jogador de futebol. Alguns autores ainda defendem a utilizacao de maquinas de musculacao, exercicios com pesos e outras formas de trabalhos para a preparacao do atleta de futebol (Frisselli e e Mantovani, 1999; Bompa, 2002).

Nao obstante, recentemente varios pesquisadores e pensadores de uma nova metodologia em futebol, denominada Periodizacao Tatica, apoiam-se na ideia de utilizarem-se os contextos de exercitacao, enquadrados dentro de uma determinada Especificidade, para o treinamento de jogadores de futebol (Marques Junior, 2012; Carvalhal, 2002; Pivetti, 2012).
   O principal argumento tem a
   ver fundamentalmente com o facto de,
   nem sequer ha uma semana, o premio
   Nobel de Quimica ter vindo
   precisamente justificar isso.
   Corroborando que a especificidade da
   adaptabilidade das celulas, e como
   sabes o nosso corpo e feito de celulas,
   e feita em funcao do contexto e dos
   estimulos que emanam do contexto.
   Portanto, se a Adaptabilidade que
   desejamos e em funcao de uma
   determinada modalidade, em termos
   mais globais, e mais concretamente
   em funcao de uma modalidade cujo
   processo de treino tenta modelar uma
   forma de jogar que vivenciamos
   regularmente, a especificidade que dai
   emerge ou a adaptabilidade que dai
   emerge e de facto a Especificidade
   que nos desejamos (E3).


O treinamento por meio dos contextos de exercitacao proprios do futebol enquadrados na Especificidade que se aspira faz todo sentido, uma vez que os musculos esqueleticos dos vertebrados apresentam uma extraordinaria capacidade para adaptarem-se as condicoes extrinsecas a que sao submetidos. Sao observadas modificacoes no perfil molecular e estrutural das fibras musculares de acordo com a demanda externa (Weeks, 1989).

A entrevistada (E2) auxilia na compreensao dessa situacao. Para ela, "na constituicao do musculo, ha um mapeamento sensivel, isto e, aquilo que fazemos mais vezes, o organismo, como um orgao inteligente, predispoe-te mais facilmente". Diz ainda que o que as maquinas de musculacao podem oferecer para jogar nao sao coisas antecipativas e nem desenvolvem a sensibilidade do musculo, nao o desenvolvem em termos de timing e em termos de ajustamento.

O treinador entrevistado (E1) refere que "a variabilidade de respostas que tens que dar no futebol nao consegue se concretizar numa sala de musculacao, num treino analitico". E complementa:
   A maneira como vamos
   metabolizar o ATP tem a ver com isso.
   Portanto, se aquilo que nos queremos
   e dar resposta a um conjunto de
   exigencias que nos sao colocadas
   num determinado contexto, cuja
   variabilidade em termos de pormenor
   e grande, porque e jogo, embora tenha
   um padrao de estimulos em termos
   globais, nao faz sentido fecha-los ou
   exercita-los ou tentar criar uma
   funcionalidade que para nos nao e
   nada representativa daquilo que e a
   atividade e daquilo que e a
   intencionalidade que deve estar a dar
   resposta aquela atividade (E3).


As falas do entrevistado E3 evidenciam a importancia de se utilizar os contextos de exercitacao para o treinamento de futebol. A variabilidade de respostas neste desporto e grande, entao os exercicios dentro do treino tambem devem ser representativos do tipo de funcionalidade que se deseja exponenciar. Assim, os musculos devem ser entendidos nao apenas como geradores de movimento, mas tambem orgaos que tem subjacentes determinada inteligencia ao adaptarem-se as intencionalidades (E3). E a plasticidade corporal, presente nao apenas nos musculos como tambem no cerebro, neuronios, entre outros.

Alem disso, a entrevistada (E2) refere que recentemente algumas descobertas no ambito cientifico afirmam a dupla funcao do ATP:

[...] recentemente sairam noticias que ate o proprio ATP tem uma dupla funcao, a funcao de servir como combustivel e para alem disso tem funcao sinalizadora. Dentro daquilo que sao as juncoes neuromusculares, o ATP consegue, por aquilo que sao as suas capacidades sinalizadoras, fazer com que o metabolismo tenha informacoes daquilo que se vai fazendo. Portanto o musculo e um orgao sensivel que concretiza aquilo que sao as intencoes e portanto aquilo que realmente faz a diferenca no musculo, nao e tanto a sua capacidade de potencia mas a sua capacidade de mapeamento do teu jogar.

A sensibilidade dos orgaos e sistemas que compoe o corpo humano refletem as atividades a que sao submetidos. A adaptacao, portanto, tem a ver com o tipo de estimulacao que temos. Assim, torna-se importante gastar o tempo de treino com especificidade.
   Se nos somos um sistema
   inteligente, eu gostava de perceber
   como as maquinas de musculacao
   tornam o musculo um orgao mais
   inteligente. Se fazem movimentos
   repetitivos, ha uma hipertrofia da
   unidade motora que ocupa espaco.
   Ocupa espaco, ha esse aumento, ha
   necessidade de um mapeamento
   completamente diferente porque a
   cabeca do axonio nao consegue ter a
   mesma sensibilidade quando tem 10
   unidades motoras ou quando tem 20
   unidades motoras em tamanhos
   diferentes. E diferente. O mapeamento
   quando fazemos a maquina de
   musculacao nao e um mapeamento
   que se traduz no jogo. Sao coisas
   diferentes. (E2)


A respeito da sensibilidade dos musculos aludida acima, varias sao as adaptacoes neurais capazes de aumentar a capacidade contratil muscular. Quanto maior for o numero de fibras musculares capazes de contrair ao mesmo tempo e maior for a coordenacao inter e intra-muscular, maior sera a capacidade de produzir forca. Esse recrutamento acontece gracas a inervacao que a unidade motora possui, envolvendo tanto fibra muscular quanto neuronio motor (Guedes, 2008).

Dessa forma, como os contextos de exercitacao reproduzem o que acontecera em jogo, havera contribuicao para a melhora dos movimentos realizados nas partidas de futebol e nas tomadas de decisao dos jogadores. Possivelmente, os musculos aperfeicoarao a inervacao recebida e o impulso nervoso das unidades motoras gracas aos movimentos especificos nos treinos, contribuindo para o aumento de propriocepcao e, com isso, melhorando o rendimento dos jogadores, gerando movimentos fortes e mais rapidos e diminuindo as chances de fadiga (Tobar, 2013).

Alem disso, os treinadores devem se preocupar nao somente com a potencia e o crescimento da massa muscular mas tambem com a sensibilidade que o Modelo de Jogo que se esta a criar solicita. O aumento de massa muscular proveniente da hipertrofia adquirida com as maquinas de musculacao demanda o mapeamento de uma parte nova, que nao existia a priori e que precisa ser educada. Seguindo essa logica, convem reforcar que ha claramente perda de proprioceptividade e nao ganho da mesma (Silva, 2008; Tobar, 2013).

Os contextos de exercitacao possuem elevada ligacao com os problemas apresentados no jogo, que contempla a presenca de adversario. Com estes exercicios e manipulando algumas variaveis, como espaco, numero de jogadores, numero de toques, tempo de exercitacao, entre outros, pode-se induzir o comportamento dos jogadores para resolucao de diferentes problemas do jogo de futebol (Sa, 2001).

Alem da propriocepcao e do ganho de forca, outros estudos indicam beneficios fisiologicos com a utilizacao dos contextos de exercitacao. Um estudo que comparou as respostas fisiologicas e metabolicas de contextos de exercitacao em espaco reduzido no futebol verificou que esse tipo de exercicio pode ser utilizado para promover adaptacoes especificas requeridas pela modalidade em resistencia aerobica, assim como melhorar limiar anaerobico (Koklu e colaboradores, 2012).

Quanto menor o numero de jogadores e do espaco de jogo, maiores sao as solicitacoes tatico-tecnicas e energeticofuncionais dos jogadores envolvidos com tal atividade. A reducao do numero de jogadores, assim como a reducao da duracao do exercicio provocam aumento da intensidade e das cargas perceptuais e fisiologicas (HillHaas e colaboradores, 2009). Outro estudo comparou os diferentes tipos de treino e de exercicios. Foi concluido que os jogos 4x4 e 8x8 com pressao ao jogador com a posse de bola produziram maiores medias de frequencia cardiaca do que o treino intervalado (Sassi e Reilly, 2005).

Ao analisar jogos (2x2, 3x3, 4x4 e 6x6, com pressao no meio campo adversario) em outro estudo dessa caracteristica (Little e Williams, 2006), foi verificado que a frequencia cardiaca apresenta valores entre 90-95% da frequencia cardiaca maxima, sendo considerados otimos exercicios para a melhoria do V[O.sub.2max]. Portanto, os contextos de exercitacao promovem adaptacoes tanto a nivel tatico-tecnico quanto a nivel fisiologico, beneficas para o incremento de desempenho.

Intervalos de recuperacao entre contextos de exercitacao

Verificada a pertinencia dos contextos de exercitacao para o treinamento do futebol, torna-se importante referir que o tempo de exercitacao e exposicao aos "estimulos" desses exercicios devem ser curtos justamente para que ocorra a mobilizacao da energia necessaria por meio da sintese de ATP-CP. Assim, consegue-se com os intervalos de recuperacao a adequada ressintese do ATP-CP por meio do metabolismo aerobico. Caso esse perfil de intermitencia nao for respeitado, nao havera garantia de que o metabolismo dominante seja, de fato, o anaerobio alatico (Tobar, 2013). Ocorre a utilizacao do oxigenio para a restauracao das moleculas de ATP-CP que foram utilizadas durante exercicios mais extenuantes, comumente chamado de debito de oxigenio alatico (Freitas e Maragon, 2004).
   [...] se voce fizer e vier e
   descansar, enquanto esta a descansar
   o aerobico toma conta de si, e vai
   fazer inclusivamente com que o
   residual de acido latico que ficaria na
   circulacao e depois iria para os
   musculos, possa ser varrido em
   funcao da entrada do aerobico que
   esta a acontecer, e retoma atraves do
   ciclo de Cori e possa outra vez
   funcionar (E1).


Portanto, se houver pouca disponibilidade de ATP nas celulas, o organismo ira recorrer a metabolismos de mais baixo consumo por unidade de tempo, condicionando toda a funcionalidade do corpo (sistema), solicitando vias metabolicas que nao se ajustam ao tipo de jogo desejado (E2). O objetivo e otimizar a relacao entre exercitacao/recuperacao, de maneira a maximizar a coordenacao metabolica entre a sintese e ressintese do ATP (Tobar, 2013). Assim, torna-se fundamental as intermitencias referidas dentro dos contextos de exercitacao.

Respeitadas as intermitencias dentro de um mesmo contexto de exercitacao para a regeneracao das vias metabolicas, tambem e imprescindivel notar que o organismo dos jogadores vai se adaptando e tornando o processo mais facil de manifestar:
   Nao somente o organismo em
   termos de fisiologia se torna mais
   capaz, como tambem as respostas
   que vao dando em treino, no que se
   manifesta como desempenho, vao
   melhorando e sendo mais
   consonantes com o que queres, a
   dinamica do dinamismo que pretendes
   vai ser mais deles e portanto mais
   expontanea e mais facil de manifestar.
   A forma como cooperam e mais
   funcional, e mais nao consciente! [... ]
   E verdade que no inicio os tempos de
   recuperacao tem que ser maiores e se
   calhar os de exercitacao menores, e
   que o treino deve ser mais
   fraccionado, mas tambem e verdade
   que quando a densidade aumenta
   tambem faz sentido que isso aconteca,
   nesses periodos da epoca os
   jogadores estao muito mais fatigados
   (E3).


Por isso, faz todo o sentido que no inicio do processo os periodos de exercitacao sejam curtos e os de recuperacao sejam maiores e, com o decorrer da temporada, os treinos passem a ser menos fracionados.

CONCLUSAO

Os resultados evidenciaram que os treinadores, preparadores fisicos e tambem professores de Educacao Fisica podem desenvolver suas equipes por meio dos contextos de exercitacao.

A caracteristica desses contextos, condicionando espacos, tempo, numero de jogadores, regras, entre outros, favorece o treinamento dos jogadores de futebol garantindo o trabalho tatico e tecnico em Especificidade e de acordo com as ideias que se pretendem treinar, respeitando a natureza do jogo de futebol e auxiliando na melhora das dimensoes fisicas e psicologicas. Se houver respeito aos intervalos de recuperacao, havera constantemente a reposicao dos estoques de ATP celular, o que proporcionara jogadores descansados e recuperados para ascenderem em termos de intensidade.

Como limitacao do estudo, verifica-se a participacao de uma pequena amostra. Diante da carencia de maior quantidade de estudos que investiguem as repercussoes fisiologicas agudas e cronicas decorrentes dos contextos de exercitacao em suas distintas configuracoes (2x2, 3x3, 4x4, 5x5, entre outros), sugere-se a necessidade de realizacao de pesquisas no ambito da fisiologia e da pedagogia do esporte visando explorar essa lacuna.

REFERENCIAS

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Recebido para publicacao em 10/08/2014 Aceito em 10/11/2014

Paulo Henrique Borges (1), Luciane Cristina Arantes da Costa (2) Jose Guilherme Granja de Oliveira (3), Vanildo Rodrigues Pereira (4) Wilson Rinaldi (5)

(1-) Universidade Estadual de Maringa (UEM). Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Avancadas em Futebol GEPAFUT. Membro do Grupo de Pesquisa Pro Esporte. Maringa-PR, Brasil.

(2-) Universidade Estadual de Maringa (UEM). Membra do Grupo de Pesquisa Pro Esporte. Maringa-PR, Brasil.

(3-) Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (UP), Porto, Portugal.

(4-) Universidade Estadual de Maringa (UEM). Maringa-PR, Brasil.

(5-) Universidade Estadual de Maringa (UEM). Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas Avancadas em Futebol GEPAFUT. Maringa-PR, Brasil.

E-mail:

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luarantescosta@gmail.com

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Author:Borges, Paulo Henrique; da Costa, Luciane Cristina Arantes; de Oliveira, Jose Guilherme Granja; Pere
Publication:Revista Brasileira de Futsal e Futebol
Date:Jan 1, 2015
Words:4897
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