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The impact of non-thrombolytic management of acute ischemic stroke in older individuals: the experience of the Federal District, Brazil/Impacto da adocao de medidas inespecificas no tratamento do acidente vascular cerebral isquemico agudo em idosos: a experiencia do Distrito Federal, Brasil.

O acidente vascular cerebral (AVC) e uma das principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo. No Brasil, segundo o Departamento de Informatica do Sistema Unico de Saude (DATASUS), a mortalidade por AVC varia de 13,8% a 20,6% na populacao acima de 60 anos, permanecendo como principal causa de morte e incapacidade nessa populacao (1-3). Sua gravidade na fase aguda depende da idade do paciente e do indice do AVC, que se correlaciona a extensao e a localizacao da lesao (4-6).

Entre os casos de AVC na populacao brasileira, o AVC isquemico (AVCI) representa, segundo diferentes estatisticas, de 53,0% a 85,0% dos casos (7-10). Uma revisao sistematica realizada em 2003 (11), incluindo mais de 3 500 pacientes de 20 ensaios clinicos, comparou o tratamento do AVCI agudo em unidades de AVC com o tratamento obtido em unidades hospitalares de cuidados gerais. Os autores concluiram que o tratamento em unidades de AVC reduz a mortalidade em 17%, a dependencia em 25% e a institucionalizacao em 24%. Alem disso, o tratamento na unidade de AVC foi associado a uma reducao de 2 a 10 dias de internacao. Os resultados mais favoraveis obtidos nesse tipo de unidade se devem a presenca de equipe multidisciplinar especializada no tratamento de pacientes com AVC e a adocao da alta precoce, no prazo medio de 7 dias (12, 13).

A evidencia acumulada comprova a eficacia da trombolise intravenosa com alteplase no tratamento do AVCI agudo (14). Entretanto, como essa eficacia depende da utilizacao de um protocolo especifico de administracao da alteplase em uma janela terapeutica maxima de 3 a 4,5 horas (4, 14-18), apenas entre 5% e 10% da totalidade dos pacientes com AVCI acabam por ser beneficiados. Portanto, as unidades de AVC adotam, alem do tratamento trombolitico, medidas inespecificas de estabilizacao clinica do paciente, como controle adequado de pressao arterial, glicemia e temperatura corporal e prevencao de edema cerebral. Essas medidas, consideradas como tratamento inespecifico do AVCI, demonstraram tambem ter grande relevancia na evolucao final do quadro, na mortalidade, no tempo de permanencia hospitalar e no grau de sequelas neurologicas (5-7, 11, 19-23).

O Brasil e um dos raros paises a dispor de estatisticas atualizadas sobre as internacoes por todas as causas reembolsadas pelo Sistema Unico de Saude em todo o pais (SUS). Esses dados sao disponibi-lizados pelo DATASUS no endereco eletronico www.datasus.gov.br, sob a denominacao de Sistema de Informacao Hospitalar (SIH) (12, 13, 15-18, 21-24). Os dados do SIH mostram as internacoes pagas pelo SUS e tem a finalidade de reembolso do procedimento realizado. Uma das vantagens do uso de dados utilizados para repasse de verbas e a baixa possibilidade de subnotificacao, o que levaria a perda de repasse dos valores. Por outro lado, pelo mesmo motivo, existe a possibilidade de fraude. Entretanto, esses dados tem sido subutilizados com fonte epidemiologica e ferramenta de monitoramento de politicas publicas.

Por outro lado, na ultima decada houve um crescente interesse no desenvolvimento de metodos de avaliacao da qualidade dos servicos no SUS. Em 2003 e 2012, o Ministerio da Saude propos o Projeto de Avaliacao do Desempenho dos Sistemas de Saude, o PROADESS, utilizando medidas de acesso, efetividade, eficiencia e adequacao (15). Varios estudos recomendam o uso da mortalidade hospitalar por AVCI ate 30 dias como medida de efetividade, tanto para o desempenho do sistema de saude em geral, quanto para o tratamento do AVCI. Ja a eficiencia pode ser avaliada pelo indicador tempo de permanencia, onde tempo de permanencia prolongado pode indicar maior gravidade do caso ou baixa eficiencia (12, 15, 25).

No Distrito Federal, a terapia trombolitica endovenosa no AVCI agudo foi adotada na rede SUS em 2012, a partir da criacao de uma unidade neurocardiovascular no Hospital de Base, um hospital terciario um hospital terciario. Antes disso, em 2009, a rede SUS adotou para o tratamento de AVCI um protocolo que valorizava o uso de medidas inespecificas para controle clinico do paciente (7). A seguir, iniciou-se um processo de descentralizacao do atendimento dos pacientes com AVCI, que ate entao eram tratados principalmente no Hospital de Base, direcionando-os para mais quatro hospitais regionais de medio porte. O objetivo do presente estudo foi avaliar o impacto da adocao dessas medidas inespecificas e da descentralizacao do atendimento na rede SUS do Distrito Federal quanto a efetividade e a eficiencia do tratamento hospitalar do AVCI com base nos indicadores disponiveis no DATASUS.

MATERIAIS E METODOS

O presente estudo epidemiologico retrospectivo de controle historicobaseou-se em dados observacionais secundarios. Foram analisados dados de unidades de saude de grande e medio porte no Distrito Federal (7).

Em 2009, a rede SUS adotou no Distrito Federal um protocolo de medidas inespecificas para controle clinico dos pacientes com AVCI baseado nas diretrizes do 1 Consenso de Trombolise Endovenosa. Todos os hospitais de grande e medio porte do Distrito Federal foram orientados a adotar esse protocolo (7).

A seguir, iniciou-se um processo de descentralizacao do atendimento dos pacientes com AVCI, que ate entao eram tratados principalmente em um hospital terciario de grande porte (Hospital de Base do Distrito Federal). Com a descentralizacao, mais quatro hospitais regionais de medio porte e responsaveis por cerca de 70% do atendimento de urgencia no Distrito Federal passaram a atender tambem casos de AVCI, com apoio de 12 medicos neurologistas no periodo diurno. Esses medicos foram distribuidos nos hospitais regionais com apoio presencial em um periodo do dia, orientando as condutas dos medicos das emergencias e enfatizando o treinamento das equipes de saude das emergencias quanto aos procedimentos rotineiros no tratamento da doenca (3, 4, 7, 19, 20). Os pacientes com evolucao mais grave (queda importante do nivel de consciencia ou anisocoria) continuaram a ser encaminhados ao hospital terciario para acompanhamento.

Diante da impossibilidade de coletar dados primarios por um periodo longo em todas as unidades, optou-se por obter dados secundarios dos sistemas SIHD e SIH do DATASUS, utilizando o aplicativo TABWIN. Foram coletados dados de dois grupos: antes da descentralizacao e implementacao de medidas inespecificas no tratamento do AVCI; e depois da descentralizacao e implementacao de medidas inespecificas.

O universo de estudo foi composto pelas hospitalizacoes financiadas pelo SUS registradas com os codigos da Decima Revisao da Classificacao Internacional de Doencas e Causas de Morte (CID-10) para o AVCI e referentes a pessoas com 60 anos ou mais de idade ocorridas nos hospitais da Secretaria de Estado de Saude entre janeiro de 2007 e dezembro de 2011. Foram coletados registros com os seguintes diagnosticos: I63--infarto cerebral; I64--acidente vascular cerebral nao especificado como hemorragico ou isquemico; G45--acidentes vasculares cerebrais isquemicos transitorios; e G46--sindromes vasculares cerebrais que ocorrem em doencas cerebrovasculares.

A efetividade do tratamento hospitalar do AVCI foi avaliada atraves de acesso e mortalidade. A medida proposta para a avaliacao do acesso foi o numero de pacientes internados nos dois periodos (numero total e por unidade hospitalar). As medidas propostas para mortalidade foram a mortalidade hospitalar absoluta e a taxa de letalidade por AVCI precoce (mortalidade hospitalar ate o 7 dia) e tardia (mortalidade hospitalar ate o 28 dia). A taxa de letalidade e a porcentagem do numero de obitos por AVCI em relacao ao numero de internados por AVCI. Para avaliar a eficiencia, foram comparados o tempo de permanencia hospitalar, as diarias de UTI e o reembolso financeiro das AIH nos dois periodos analisados.

Os hospitais alvos foram aqueles que passaram a contar com medicos neurologistas em suas equipes: Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), Hospital Regional de Taguatinga (HRT), Hospital Regional de Ceilandia (HRC), Hospital Regional do Gama (HRG) e Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). O HBDF e um hospital terciario e conta com equipe de neurologistas diuturnamente. Os demais sao hospitais de porte medio, com caracteristicas semelhantes, onde os neurologistas orientavam as condutas dos generalistas no periodo diurno. Os hospitais nao dispunham de unidade de AVC para tratamento trombolitico.

Para compensar o vies que poderia resultar da inclusao da primeira semana de internacao sobre a mortalidade hospitalar, pela maior possibilidade de refletir a gravidade do AVC, calcularam-se a mortalidade precoce, considerada a soma de todos os obitos por AVCI ocorridos ate o 7 dia de internacao, e a mortalidade tardia, considerada a soma de todos os obitos ocorridos entre o 8 e o 28 dias, ou seja, excluindo a primeira semana de internacao.

Os dados obtidos permitiram tambem calcular o tempo medio de permanencia, pela formula: tempo medio de permanencia = numero de dias de permanencia/numero de internacoes. Os dados obtidos foram alocados em tabelas de Excel e analisados utilizando-se o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versao 20.0, aplicando-se os testes de Komolgorov-Smirnov, qui-quadrado ([chi square]) e t de Student, aceitando-se como nivel de significancia P < 0,05.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa da Fundacao de Ensino e Pesquisa da Secretaria de Estado de Saude do Distrito Federal em 15 de maio de 2012 (protocolo 165/12). Os dados utilizados sao de dominio publico.

RESULTADOS

Com relacao a codificacao da doenca pela CID-10, observou-se que 83,2% das AIH foram codificadas como I64--acidente vascular cerebral nao especificado como isquemico ou hemorragico e 14,8% como I63--infarto cerebral. Apenas 2% utilizaram os codigos G45 e G46--acidentes vasculares cerebrais isquemicos transitorios e sindromes vasculares cerebrais que ocorrem em doencas cerebrovasculares.

A tabela 1 mostra um aumento de 119,8% no numero de pacientes hospitalizados com AVCI durante o segundo periodo (P = 0,0001). Ocorreu tambem aumento significativo no numero absoluto de obitos pela doenca (P = 0,01), mas houve diminuicao da taxa de letalidade no segundo periodo (P = 0,02). Observa-se tambem um aumento significativo na utilizacao de UTI (P = 0,0001). O numero medio de dias de hospitalizacao por paciente (P = 0,34) nao sofreu modificacao significativa. Houve aumento nos gastos com reembolso de AIH e aumento de 17,3% no valor medio das AIH reembolsados no periodo 2010/2011. Ainda de acordo com a tabela 1, o montante do reembolso das AIH sofreu elevacao de 189,4% (P = 0,04) no segundo periodo. Comparando-se o valor total de AIH entre os hospitais, nao houve diferenca detectavel.

A figura 1 mostra a comparacao dos dados do Sistema de Informacao de Mortalidade (SIM) com os dados utilizados no estudo (SIH). Houve um aumento significativo no numero de pacientes hospitalizados com a doenca, desproporcional ao numero registrado de obitos pela doenca no mesmo periodo.

Para avaliar a descentralizacao do atendimento, foi observada a frequencia de internacoes por AVCI por hospital (tabela 2). No primeiro periodo, o HBDF foi responsavel por 30,6% das internacoes, com queda para 24,9% apos a descentralizacao do atendimento. Nos outros quatro hospitais avaliados, houve aumento de 2 a 9% nas internacoes.

A tabela 3 mostra que a media de dias de internacao por paciente nao se alterou entre os dois periodos. Tampouco houve diferenca significativa entre o HBDF e os outros hospitais analisados como um unico grupo em relacao ao tempo medio de permanencia nos dois periodos. No total de admissoes, observou-se media de 9,9 dias (desvio padrao = 1,3) no primeiro periodo e 11,4 dias (desvio padrao = 3,0) no segundo.

Os obitos por AVCI ate o 7 dia de internacao foram reduzidos no segundo periodo, em numeros absolutos, de 19 a 17. A maioria das mortes por AVCI em ambos os periodos ocorreu na fase tardia da doenca, a partir de 29 dias de internacao, correspondendo a 56% das mortes no primeiro grupo e 59,1% no segundo grupo.

A tabela 4 mostra a mortalidade absoluta e as respectivas taxas de letalidade entre os dias 8 a 28 de internacao, utilizando o teste t de Student. Houve um aumento absoluto na mortalidade, mas uma reducao da taxa de letalidade por AVCI (P < 0,01) nos hospitais HRC, HRG e HRAN no segundo periodo (P < 0,02). Houve aumento de 130,6% no total do valor de diarias de UTI no segundo periodo em relacao ao primeiro (P = 0,0001), tambem individualmente em todos os hospitais, com uma excecao, onde houve uma reducao de 3,1% .

O valor total de reembolso das AIH acompanhou o aumento do numero de internacoes no segundo periodo de 2010/2011 e sofreu elevacao de 189,4% (P = 0,04). Foi realizada comparacao do valor total de AIH para os idosos internados com AVCI entre cada hospital, nao havendo diferenca estatistica entre o HBDF e os outros hospitais dentro dos grupos.

DISCUSSAO

A busca de alternativas que permitam ao SUS obter maior equidade e qualidade de assistencia a populacao tornou-se urgente diante das desigualdades e da piora das condicoes de vida e saude das populacoes. Nesse contexto, a avaliacao de desempenho dos sistemas de saude tem um papel importante, podendo ser considerada instrumento de monitoramento da gestao de politicas publicas.

A literatura especializada (5, 10) aborda o AVCI de forma diversa do AVCH, porque eles diferem em sua fisiopatologia, mortalidade e condutas terapeuticas. No presente estudo, consideramos, por aproximacao, os casos de AVC nao especificados como isquemico ou hemorragico (CID-10 I64) como AVCI, porque a maior parte dos profissionais que realizam o preenchimento das AIH optam pelos codigos I64 e I61 (hemorragia intracerebral) e muito raramente por I63 (infarto cerebral). Adicionalmente, de 65% a 85% dos AVC sao isquemicos (5).

Varios autores (6, 8-11, 19) relatam melhor evolucao do AVCI agudo em unidades especializadas no atendimento ao AVC em comparacao com enfermarias gerais, o que pressupoe a existencia de equipe multiprofissional e especializada que funcione 24 horas por dia. Na realidade atual do SUS, ha grande dificuldade em constituir unidades especializadas, de alto custo, na maior parte das regioes. Dai a necessidade de promover formas alternativas de gestao.

As medidas inespecificas preconizadas no protocolo utilizado no Distrito Federal (7-11, 19)--como controle adequado da pressao arterial e da temperatura, elevacao de cabeceira, tratamento de infeccoes, metodos de controle do edema cerebral e prevencao de trombose venosa profunda--implicam em mudanca de conduta da equipe medica e de enfermagem. Elas parecem ter grande relevancia na evolucao final do quadro, na mortalidade, no tempo de permanencia hospitalar e no grau de sequelas neurologicas (4, 14-18).

Para que o protocolo fosse efetivamente implantado em uma rede heterogenea de hospitais como a do SUS do Distrito Federal, com todas as barreiras geograficas e politicas existentes, seria necessario dedicar maior tempo ao treinamento formal das equipes que atendem ospacientes com AVC, o que nao ocorreude fato, apesar das varias tentativas. No entanto, de forma alternativa, medicos especialistas em neurologia foramdisponibilizado em varias unidades, promovendo a difusao natural do conhecimento especializado. Os dados obtidos indicam que de fato houve descentralizacao do atendimento ao AVC no SUS do Distrito Federal, porque ha evidencias da redistribuicao dos pacientes, com aumento da participacao dos hospitais de porte medio no processo e reducao das internacoes no hospital de grande porte.

Uma observacao interessante deste estudo e o aumento importante no numero de pacientes internados com AVCI apos descentralizacao do atendimento, sem alteracao significativa do numero de obitos hospitalares ou domiciliares. Portanto, a evidencia nao aponta para uma elevacao acima de 100% na incidencia da doenca, mas sim para uma ampliacao do acesso do paciente a Rede SUS.

A mortalidade e considerada uma medida importante da efetividade do cuidado hospitalar (12, 25), bem expressiva quando se refere ao AVCI, uma doenca que cursa com altas taxas de mortalidade. Foram utilizadas a taxa de mortalidade hospitalar tardia (mortalidade ate o 30o dia) e a taxa de letalidade, medidas preconizadas pela Organizacao para a Cooperacao e Desenvolvimento Economico (OCDE) para monitorar a qualidade do cuidado ao AVC. Quanto a taxa de letalidade, encontramos os valores de 6,5% antes e 3,7% apos a descentralizacao. Esses valores sao proximos a taxa media de 4,1% registrada em um estudo na Dinamarca e menores do que os 9,6% observados em 2013 na media dos paises europeus da OCDE (26). Em outro estudo brasileiro, que avaliou o Brasil de forma global, e nao apenas o Distrito Federal, a taxa de letalidade encontrada foi de 17,2% (27).

Observamos que a mortalidade em grande parte dos pacientes com AVCI ocorreu apos 30 dias de internacao, na fase sequelar da doenca, correspondendo a mais de 50% do total de obitos. Eles foram excluidos da analise de qualidade da atencao hospitalar por nao refletirem o cuidado na fase aguda da doenca, de acordo com a maioria dos autores (12).

A eficiencia do cuidado hospitalar foi medida pela media de dias de internacao e pela utilizacao de UTI. Observamos que a media de dias de internacao nao variou significativamente entre os hospitais estudados e tambem na comparacao do HBDF com os hospitais de medio porte. De forma geral, observou-se media de 9,95 dias no primeiro periodo e 11,44 dias apos a descentralizacao. Um estudo de coorte brasileiro com 729 pacientes relatou media de 10,8 dias de internacao, sem qualquer impacto com utilizacao de unidade de AVC (27). Estudos internacionais (3, 9, 13, 17, 18) mostram medias de internacao por AVCI variando de 5 a 15 dias quando em unidades de AVC, e de 14,4 a 16 dias quando em unidades gerais (9). A grande variabilidade deve-se a gravidade da lesao neurologica, a idade e a presenca de comorbidades, sendo muito frequentes as infeccoes respiratorias.

A eficiencia de um servico de saude pode ser avaliada atraves da relacao entre o impacto real de um programa (efetividade) e seu custo ou tempo medio de permanencia hospitalar e taxa de ocupacao dos leitos (13, 18, 22, 28, 29). Segundo Viacava (15), essas medidas devem considerar tambem as caracteristicas dos pacientes, das doencas que os acometem e o nivel de complexidade dos procedimentos necessarios. Possivelmente, houve maior eficiencia no cuidado no HBDF, uma vez que se trata de um hospital de grande porte, que no segundo periodo do estudo passou a receber os pacientes com quadro clinico de maior gravidade, procedentes dos hospitais de medio porte.

Observamos um aumento no reembolso de AIH com utilizacao de UTI de 130,6%, em proporcao superior a elevacao do numero de internacoes (P = 0,0001). Portanto, houve aumento significativo desse parametro com o processo de descentralizacao, se analisado de forma global. Acreditamos que o numero de pacientes internados com a doenca foi menor no primeiro periodo pela dificuldade de acesso, uma vez que, na ausencia do neurologista na maioria dos hospitais, eles eram encaminhados ao hospital terciario, que nao comportava todos.

Foram levantados, com relacao as AIH, apenas os valores pagos pelo SUS a titulo de reembolso, os quais estao muito aquem do custo real com os pacientes com AVC, que inclui custos diretos e indiretos. Estima-se que os custos com a internacao dos pacientes com AVCI no Brasil variem de 1 000 a 4 000 reais por paciente (18). Em comparacao, um estudo publicado na Franca em 2013 estimou o custo do paciente com AVCI em cerca de 16 000 euros apenas no primeiro ano da doenca, um montante que equivaleria, atualmente, a aproximadamente 185 000 reais (28).

O presente estudo apresenta limitacoes decorrentes do uso de dados secundarios. Estima-se subnotificacao de casos de AVCI, porque observamos baixo numero de registro de AVC como diagnostico secundario e a impossibilidade pelo sistema SIH-SUS de codificar mais de duas comorbidades. Como ja foi sugerido por outros autores (22, 23), o SIH-SUS poderia ser modificado para permitir o registro de varias comorbidades, no sentido de evitar diagnosticos inespecificos. Tambem deveria conter a informacao de mais de uma internacao para o mesmo paciente em periodo inferior a 30 dias. Por outro lado, os dados secundarios obtidos pelo SIH-SUS apresentam muitas vantagens, como o fato de serem de facil obtencao, terem cobertura de todo o territorio nacional e permitirem avaliar a mortalidade em qualquer periodo, as formas de alta hospitalar, a realizacao de exames de alta complexidade e o uso de UTI.

Em conclusao, houve melhora da efetividade do atendimento hospitalar ao AVCI em idosos internados no SUS do Distrito Federal a partir da descentralizacao e da utilizacao do protocolo de AVC, conforme demonstrado pelo aumento do acesso e pela reducao da letalidade da doenca. Nao foram observadas mudancas significativas na eficiencia do cuidado hospitalar ao AVCI, como demonstrado pelo tempo de internacao (permanencia), uso de UTI e quantia reembolsada pelas AIH.

Evidentemente, o presente estudo nao questiona a eficacia do tratamento trombolitico no AVCI agudo, mas propoe a descentralizacao do atendimento como mais uma alternativa, porque permite maior acesso dos pacientes aos servicos de saude, em uma doenca cujo tratamento e eminentemente hospitalar. E tambem necessario promover as medidas inespecificas do cuidado para diminuir as complicacoes clinicas da doenca e reduzir os danos secundarios ao edema cerebral.

Sugere-se uma analise rotineira de dados do SIH como metodo sistematico de monitoramento da qualidade da atencao hospitalar no AVCI no ambito do SUS, no que concerne ao acesso (frequencia), ao tempo de internacao (permanencia) e a taxa de letalidade entre o 8[degrees] e o 28[degrees] dia de internacao de pacientes com AVCI.

Conflitos de interesse. Nada declarado pelos autores.

Declaracao de responsabilidade. A responsabilidade pelas opinioes expressas neste manuscrito e estritamente dos autores e nao reflete necessariamente as opinioes ou politicas da RPSP/PAJPH nem da OPAS.

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Manuscrito recebido em 25 de junho de 2014. Aceito em versao revisada em 21 de abril de 2015.

Mirian Moura [2] e Luiz Augusto Casulari [3]

Como citar Moura MC, Casulari LA. Impacto da adocao de medidas inespecificas no tratamento do acidente vascular cerebral isquemico agudo em idosos: a experiencia do Distrito Federal, Brasil. Rev Panam Salud Publica. 2015; 38(1):57-63.

[1] Estudo realizado pela Coordenacao de Neurologia da Secretaria de Estado de Saude do Distrito Federal, Brasilia (DF), Brasil.

[2] Hospital Regional da Asa Norte, Secretaria de Estado de Saude do Distrito Federal, Brasilia (DF), Brasil. Correspondencia: Mirian Moura, mcmoura0812@yahoo.com.br

[3] Hospital Universitario de Brasilia, Brsilia (DF), Brasil.

TABELA 1. Indicadores relativos ao tratamento de acidente
vascular cerebral isquemico antes e depois da instituicao de
um protocolo de estabilizacao clinica sem uso de alteplase
em cinco hospitais do Sistema Unico de Saude, Distrito
Federal, Brasil

     Variavel         2006/2007   2010/2011   Variacao (%)    P (a)

Internados (No.)        2 369       5 207        119,8       < 0,0001
Obitos (No.)             409         521          27,3         0,01
Taxa de                 0,17        0,12          -5,0         0,02
  letalidade (b)
Dias na unidade de    1 442 290   3 326 301      130,6       < 0,0001
  terapia
  intensiva
Tempo medio de          15,8        11,3         -28,5         0,34
  hospitalizacao
  (dias)
Valor AIH (c) (R$)    1 004 860   2 908 450      189,4         0,04
Media valor            7142711    837 9604        17,3         0,02
  AIH (R$)

(a) Teste de Komolgorov-Smirnov.

(b) Porcentagem do numero de obitos por AVCI em relacao
ao  numero de internados por AVCI.

(c) AIH: autorizacoes de internacao hospitalar.

TABELA 2. Frequencia de internacao por acidente vascular
cerebral isquemico antes e depois da instituicao de um
protocolo de estabilizacao clinica sem uso de alteplase em
cinco hospitais do Sistema Unico de Saude, Distrito Federal,
Brasil

                2006/2007   % do    2010/2011   % do
Hospit (a,b)      (No.)     total     (No.)     total

HBDF               725      30,6      1 301     24,9
HRC                473      19,9      1 090     20,9
HRG                 44       1,8        585     11,2
HRT                  0      0,00        395      7,5
HRAN               339      14,3        357      6,8
Outros             788      33,2      1 479     28,3
Total            2 369     100,0      5 207      100

(a) HBDF: Hospital de Base do Distrito Federal; HRC:
Hospital Regional de Ceilandia; HRG: Hospital Regional do
Gama; HRT: Hospital Regional de Taguatinga; HRAN: Hospital
Regional da Asa Norte.

(b) Outros: Hospital Regional de Sobradinho, Hospital
Regional de Planaltina, Hospital Regional do Guara, Hospital
Regional de Brazlandia, Hospital Regional de Samambaia,
Hospital Materno-Infantil, Hospital Regional do Paranoa,
Hospital Regional de Santa Maria.

TABELA 3. Variacao do tempo medio de internacao em dias para
cada paciente > 60 anos com acidente vascular cerebral antes
e depois da instituicao de um protocolo de estabilizacao
clinica sem uso de alteplase na rede SUS, Distrito Federal,
Brasil

                     2006/2007               2010/2011

Hospital (a)    Media   Desvio padrao   Media   Desvio padrao   P (b)

HRAN            11,45       1,63        14,25       0,67        0,70
HRC             9,02        4,17        12,62       14,24       1,00
HRG             9,45        1,77        11,67       1,24        0,98
HRT               0           0          9,4        2,16         --
HBDF            8,28        2,99        6,06         0,5        0,66
Media           9,55        1,32        11,06       3,02        1,00

(a) HBDF: Hospital de Base do Distrito Federal; HRC:
Hospital Regional de Ceilandia; HRG: Hospital Regional do
Gama; HRT: Hospital Regional de Taguatinga; HRAN: Hospital
Regional da Asa Norte.

(b) Teste t de Student.

TABELA 4. Obitos e letalidade por acidente vascular cerebral
isquemico do 80 ate 280 dia de internacao antes e depois da
instituicao de um protocolo de estabilizacao clinica sem uso
de alteplase na rede SUS, Distrito Federal, Brasil

                         2006/2007

Hospitala    Obitos (no.)   Letalidade (%)

HRG               08             18,1
HBDF              38             5,2
HRT               00              0
HRC               37             7,8
HRAN              22             6,4
Outros            54             7,0
Total            159             6,7

                         2010/2011

Hospitala    Obitos (no.)   Letalidade (%)     Pb

HRG               31             5,3         < 0,001
HBDF              77             5,9          0,001
HRT               12             3,0          0,01
HRC               26             2,3          0,01
HRAN              09             2,5          0,02
Outros            41             2,6          0,02
Total            196             3,7          0,01

(a) HBDF: Hospital de Base do Distrito Federal; HRC:
Hospital Regional de Ceilandia; HRG: Hospital Regional do
Gama; HRT:
Hospital Regional de Taguatinga; HRAN: Hospital Regional da
Asa Norte.

(b) Teste t de Student.
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Title Annotation:Original research/Investigacion original
Author:Moura, Mirian; Casulari, Luiz Augusto
Publication:Revista Panamericana de Salud Publica
Date:Jul 1, 2015
Words:5209
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