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The history of Afro-Brazilian childhood: eighteenth century disciplinarity, learning and playfulness in literary books/ Historia da meninice afro-brasileira: disciplinarizacao, aprendizado e ludicidades oitocentistas em mananciais literarios/ Historia de la ninez afro-brasilena: disciplinarizacion, aprendizaje y ludicidades ochocentistas en manantiales literarios.

Introduction

A diaspora dos inocentes

Base das relacoes de trabalho durante os periodos colonial e imperial, a escravidao negra no Brasil foi nutrida pelo trafico de africanos por mais de tres seculos (1530-1850). A intensificacao do rentavel negocio ocorreu nas primeiras decadas do seculo 16, quando o trafico transformou-se na maior transferencia forcada de homens escravizados que a humanidade ja conheceu (Maestri, 1996).

Alem da propria forca de trabalho, milhares de 'malungos' (africanos acorrentados, parceiros de viagem) carregaram tambem para as Americas linguas, culturas, crencas, tecnicas e tradicoes negroafricanas (Maestri, 1996). Manoel Moreno Fraginals (1989, p. 9-10), estudando o cotidiano dos africanos traficados para a America, ressaltou que
   [...] desapareceram, subitamente, nexos familiares e
   sociais, antigas hierarquias, ritos religiosos,
   paradigmas de comportamento, habitos alimentares
   e se lhes impunha, coercitivamente, um esquema de
   trabalho produtivo sem sentido para eles [...]


Na avaliacao do historiador Maestri (1988), quando foi cessado o trafico negreiro, em 1850, a Africa teria perdido no ambito demografico (mortalidade, migracoes espontaneas e compulsivas) cerca de 100 milhoes de homens, mulheres e criancas, deixando o continente negro esvaido, o que e explicado pelos mais de 'tres seculos de hemorragia continua'. Nas palavras do referido historiador, a diaspora forcada selou, portanto, os destinos da Africa. O desembarque na costa brasileira imprimia os sofrimentos vividos pelos africanos transladados a forca desde as longas caminhadas pelos sertoes africanos e feitorias de dominios do trafico:

[...] Os homens nus, os sexos desproporcionadamente grandes nos corpos magerrimos, a balancearem entre as pernas; mulheres curvadas, esqueleticas, os peitos caidos, as barrigas chupadas; as criancas, pequenos zumbis, so olhos [...] (Maestri, 1988, p. 32).

'Crioulinhos nus e de joelhos'

Jose Roberto de Goes e Manolo Florentino (2007) ressaltam que a crianca, sob cativeiro, havia de aprender oficios e tambem aprender a ser escrava. A aprendizagem tinha relacao com o nivel de 'adestramento' apresentado pela crianca escravizada, pois o trabalho era o dominio privilegiado da 'pedagogia' senhorial. Nao raro esse 'treinamento' era realizado sob a linguagem do chicote, parte intrinseca da escravidao. Nos idos de 1933, a despeito da importancia de seu trabalho, Freyre (1977) interpretava os castigos como funcao de manter a ordem patriarcal:

[...] O castigo ao escravo como o castigo ao filho da familia fazia parte de sistema de educacao, de assimilacao e de disciplina--o patriarcal--que nao podia desmanchar-se em ternuras [...] (Freyre, 1977, p. 33).

Os castigos jamais poderiam assumir a funcao educadora, conforme aduziu Freyre, pois o sistema negreiro se sustentava pelo terror constante revestido por seu duplo objetivo: sufocar rebeldias e garantir o pleno funcionamento da organizacao economica (Brazil, 2002). Fraginals (1989) lembra que, nas plantacoes escravistas das Americas, particularmente Cuba, era fragil, sobretudo durante o trafico, a relacao concreta entre producao e institucionalizacao familiar:

[...] Sob qualquer ponto de vista, a plantacao era uma empresa economica [...] [que] rompeu, no possivel, a continuidade das tradicoes africanas, cimentou-se sobre o desenraizamento de todo nexo de uniao, inclusive familiar, quando esta deriva(va) do fator incontrolavel da procriacao (Fraginals, 1989, p. 60).

Diante desse quadro, alguns estudiosos entenderam que afro-americanas escravizadas preferiam a morte de seus filhos a ve-los sob cativeiro. Aos cinco anos, os filhos de negros escravizados ja eram iniciados como trabalhadores dos nucleos de producao colonial. Nas Americas dos oitocentos, tornaram-se constantes os registros de observadores e viajantes mostrando cenas sobre o cotidiano de criancas, sob o regime escravista. Samuel Hazard viu, em Havana, 'crioulinhos nus e de joelhos' a suplicar bencaos aos visitantes (Fraginals, 1989).

Fraginals (1989) lembra ainda que, a partir de meados do seculo 19, algumas autoridades cubanas comecaram a se preocupar com as criancas negras abandonadas das cidades e dos campos. Era o inicio da utilizacao do discurso 'humanitario' explicado pela proibicao do trafico, desencadeado por volta da decada de 1830. Com a elevacao dos precos dos cativos, os senhores deram mostra de um crescente interesse pela sobrevivencia das criancas negras nascidas nos engenhos, aspecto que envolvia investimento na alimentacao, vestuario e cuidados nas doencas.

Crianca escravizada

Quando falamos em infancia no periodo escravista, especificamente no que se refere a idade, ha pouco consenso entre os autores. Alguns estudiosos, como Maria Lucia Barros Mott (1979), discutem que o tratamento e os cuidados necessarios a saude nao se diferenciavam nos primeiros anos para criancas livres e cativas. Mott, ancorada nos relatos de viajantes, da conta de que criancas pequenas eram tratadas com aconchego e afetuosidade pelos senhores:

Do nascimento ate aos dois anos, geralmente a crianca desfrutava do zelo e do aconchego da casagrande. Os moleques passavam o dia ao lado das criancas livres, seus futuros senhores, e brincavam durante todo o tempo em que a mae trabalhava (Mott, 1979, p. 60-61).

No entanto, esta situacao modificava-se quando advinha o "[...] momento crucial de se aprender a ser escravo, deixar as brincadeiras na sala e nos quintais da fazenda para enfrentar a dura rotina de tarefas" (Mott, 1979, p. 60-61).

Corrobora essa discussao a historiadora Mary Del Priore (2007), que divide a infancia em tres fases, as quais variavam de acordo com a condicao social e juridica dos pais. A primeira fase iniciava-se no nascimento e terminava aos tres ou quatro anos de idade, periodo que marcava o fim da amamentacao. Entre os cinco e sete anos, as criancas entravam na segunda fase, quando passavam a acompanhar os pais nas tarefas diarias. A terceira fase tinha inicio na transicao dos sete para os oito anos e ia ate os catorze anos, etapa de aprendizado para os infantes, como a pratica de pequenos trabalhos e oficios. Entretanto, a autora chama a atencao para a posicao economica e o status da familia e a realidade da crianca escravizada, que era diferenciada dos filhos dos escravizadores, pois estes, na idade entre 7 e 14 anos, eram destinados ao estudo das letras nas escolas regias.

Se ate os cinco anos de idade os filhos de um senhor de engenho brincavam e passavam a maior parte do dia com os filhos dos escravizados, a partir dos sete anos, a diferenciacao no que tange a ocupacao diaria comecava a separar as criancas. Enquanto os filhos da elite branca iniciavam os estudos das letras, a crianca sob cativeiro devia ser treinada e introduzida no processo produtivo por meio do convivio diario com a rotina dos pais e demais trabalhadores da senzala (Goes & Florentino, 2007).

Esta pratica foi definida por Maestri (2004a) como 'pedagogia da escravidao', na qual os escravizadores, para submeter plenamente o cativo, haviam de enquadra-lo, condiciona-lo e prepara-lo a vida sob a escravidao; ou seja, o escravizador precisava submete-lo a 'sua funcao de viver para produzir a maior quantidade de bens, com o menor gasto possivel'.

Na obra Historias e Memorias da Educacao no Brasil, organizada pelas pesquisadoras Maria Stephanou (2004) e Maria Helena Camara Bastos (2004), Maestri (2004a) discorre sobre a 'pedagogia do medo', como sendo a espinha dorsal da disciplinarizacao, do aprendizado e do trabalho durante o periodo escravista. Segundo as consideracoes do referido historiador, nao raro, as maes trabalhavam com os filhos presos por panos as costas, a maneira africana. Comumente, a crianca repousava

[...] a sombra de uma arvore, proxima aos locais de trabalho, o que ensejava inumeros acidentes. Recemnascidos e crioulinhos eram deixados aos cuidados de um cativo ou cativa velha, enquanto as maes trabalhavam [...] (Maestri, 2004a, p. 202).

Maestri (2004a) destaca a vivencia suavizada, como se fosse livre, do moleque em seus primeiros anos de vida, quando ele ainda podia movimentar-se nos cercanias da senzala e da casa-grande,

[...] sob a influencia cultural de uma comunidade da senzala absorvida pelas praticas produtivas. Aprendia o afro-portugues local ou portugues popular, sem receber treinamento especifico (Maestri, 2004a, p. 202).

No entanto, a partir dos seis ou sete anos, a crianca era introduzida na vida dos adultos. Inseridos no processo produtivo, sob o olhar vigilante do feitor, meninos e meninas eram empregados em atividades que nao exigiam grandes habilidades, considerando que estavam em processo de adestramento para o trabalho: "[...] Nos campos, ocupava-se em abrir porteiras, distribuir agua, levar recados, colher frutas, espantar passaros das rocas, vigiar animais, etc." (Maestri, 2004a, p. 203). No entanto, meninos sob cativeiro que apresentassem maiores habilidades no desempenho de tarefas e oficios especializados e semi-especializados nas fazendas tornavam-se carreteiros, vaqueiros, charqueadores, campeiros. As meninas, por sua vez, eram destinadas aos oficios de cozinheiras, copeiras, fiandeiras, entre outras tarefas. Mas, lembra Maestri, "[...] esse aprendizado era feito, sobretudo por imitacao, ao acompanharem e auxiliarem adultos afeitos a essas tarefas" (Maestri, 2004a, p. 203).

Pretinhos, 'comiloes inuteis'

Entendemos que a instrucao imposta ao negro pelo escravizador se fez por meios essencialmente violentos, na medida em que, aos olhos desse segmento, a crianca escravizada era mercadoria e, tambem, forca de trabalho em potencial. Nao raro, esse treinamento era realizado sob a linguagem do chicote, parte intrinseca da escravidao.

Conforme evidenciam os relatos de viagem esbocados por Mott (1979), registrados durante os oitocentos, a crianca escravizada era preparada para assumir funcao produtiva. Ou seja, a idade de cinco ou seis anos parecia ser a data-limite para a fase ludica dos pequenos escravizados, pois, a partir dai, eles apareciam desempenhando atividade laboral:

[...] no meio rural, as mulheres e as criancas desempenhavam frequentemente a mesma tarefa, como por exemplo, descascar mandioca, descarocar algodao e arrancar ervas daninhas (Mott, 1979, p. 6).

Nessa mesma linha interpretativa, a historiadora Cristiane Pinheiro Santos Jacinto (2008) destaca, com base em documentos da Junta de Classificacao de Escravos, registros eclesiasticos e jornais, a organizacao social dos trabalhadores escravizados em Sao Luiz do Maranhao, na segunda metade do seculo 19. No cenario urbano analisado pela pesquisadora, movimentavam-se negros libertos, escravizados e homens livres pobres. Mas, em relacao ao trabalho infantil, a autora evidencia que, desde muito cedo, meninos e meninas escravizados ja estavam inseridos no mercado de trabalho com profissao especifica. Ela tambem salienta que, em alguns momentos, aparecia algum tipo de limitacao em relacao a idade, porem essas criancas realizavam tarefas de adultos:

Francisca, parda de 6 anos, tambem [era] indicada como trabalhadora da lavoura e com boa aptidao para o trabalho: o mesmo [acontecia] com Amelia, parda de 3 anos, apta para os servicos domesticos [...] (Jacinto, 2008, p. 154).

Isto significa que criancas afro-brasileiras desempenhavam as mais variadas atividades laborais, entre elas, os oficios de costureiras, trabalhadoras nas lavouras, serventes, alfaiates e rendeiras, motivos pelos quais esse segmento era constantemente anunciado nos jornais por agentes escravistas que desejavam submete-lo aos trabalhos urbanos ou rurais.

A esse respeito, Ina von Binzer (1982), preceptora alema encarregada de ensinar os filhos de algumas familias da nobreza brasileira no Brasil, entre os anos de 1881 e 1884, descreveu, em cartas enviadas a uma amiga residente na Alemanha, os aspectos sociais do Brasil durante o periodo escravista: "Neste pais os pretos representam o papel principal [...] todo o trabalho e realizado por pretos, toda a riqueza e adquirida por maos negras" (Binzer (1982, p. 34). Sem isencao de preconceito, Binzer registrou a utilizacao da mao de obra infantil nos trabalhos domesticos, sobretudo como forma de as criancas proverem suas necessidades basicas:

[...] [havia] um mulatinho de doze anos, com cara de malandro e uma invencivel predilecao pelas roupas sujas e pelas cambalhotas que se tornaram sua maneira habitual de andar; sua obrigacao e a de espantar as moscas, junto a mesa, com uma bandeirola [...] (Binzer, 1982, p. 19).

Desde a emancipacao politica do Brasil, ocorrida em 1822, a questao abolicionista tornou-se objeto de polemicos debates entre a classe politica imperial brasileira, representada pelos Partidos Liberal e Conservador. O assunto tornou-se mais relevante com a supressao do trafico de negros africanos, a partir de 1850, com a Lei Eusebio de Queiroz. Mas o processo de superacao do escravismo so ganhou carater verdadeiramente popular a partir de 1871, quando o parlamento promulgou a primeira lei abolicionista do Brasil, conhecida como Lei do Ventre Livre. A referida lei promovia a emancipacao lenta, gradual e indenizada, como estrategia de superacao sem 'traumas' para a elite proprietaria (Brazil, 2002).

Segundo Binzer, antes da Lei do Ventre Livre, as criancas eram vistas por seu escravizador como mao de obra futura, a ser engajada gradativamente no mundo do trabalho. Entretanto, com o advento da referida Lei, o quadro sofreu alteracoes: "[...] os pretinhos nascidos agora, nao tem nenhum valor para seus donos, senao o de comiloes inuteis" (Binzer, 1982, p. 34). Isso, na visao da autora, explicava a ausencia de projeto educacional que abarcasse esse segmento: "Por isso nao se faz nada por eles, nem lhes ensinam como antigamente qualquer habilidade manual, porque, mais tarde, nada renderao" (Binzer, 1982, p. 34). Na pratica, de acordo com a Lei do Ventre Livre, os filhos de negros escravizados seriam livres, mas o escravocrata deveria manter a crianca sob sua responsabilidade ate alcancar os oito anos e, so depois, poderia entrega-la ao Estado e receber sua fatia indenizatoria, paga em titulos publicos.

Meninas fiandeiras e moleques campeiros

Pelos estudos de Maestri (2004a, p. 192), no Brasil colonial e imperial,
   [...] a pedagogia servil foi abordada direta ou
   indiretamente por literatura produzida
   principalmente por clerigos, letrados e proprietarios
   de trabalhadores.


Esse tema permeou obras classicas escritas no periodo colonial, a exemplo de Benci e Antonil; literatura ficcional, em prosa, poemas e dramaturgia, escrita na segunda metade do seculo 19; e registros oficiais produzidos pelas leis emancipadoras criadas a partir da Lei Rio Branco, de 28 de setembro de 1871, com o objetivo de constituir um fundo para a compra de alforrias seletivas.

Nos livros de classificacao de cativos para serem libertados pelo Fundo de Emancipacao, as criancas escravizadas eram destacadas como mao de obra 'apta' para o trabalho. O rigoroso cotejo da lista oficial de pessoal das fazendas sulinas de Mato Grosso permite tambem constatar a existencia de criancas escravizadas atuando nas rocas, na cozinha, no trabalho pastoril. Meninas pretas e pardas, com idade entre 10 e 14 anos, eram comumente empregadas como pajens, fiandeiras e cozinheiras; meninos com idade que iam de 6 a 14 anos desempenhavam funcoes de lavradores e campeiros. Estas criancas, fora do alcance da Lei do Ventre Livre de 1871, eram, conforme ja referido, desde muito cedo, preparadas para assumir funcao produtiva. Para a historiadora Isabel Camilo de Camargo (2010), ate a promulgacao da referida Lei, as criancas eram vistas como valiosa mercadoria e, da mesma forma que seus pais, podiam ser vendidas, trocadas, negociadas e utilizadas como pagamento de dividas ou de impostos.

Meninice afro-brasileira nos escritos literarios

O uso de fontes nao tradicionais, como filmes, biografias e textos literarios, na construcao do discurso historico remonta, segundo Caire-Jabinet (2003), as abordagens dos anos 1960, quando a 'Nova Historia' trouxe o metodo estrutural para analisar, sobretudo, a cultura e a sociedade. No entanto, na decada de 1970, o historiador frances Marc Ferro percebia ainda a 'recusa inconsciente' de muitos historiadores em utilizar as referidas fontes na escrituracao da Historia. Ainda era forte a glorificacao da historia nacional, da historia politica, apesar do empenho e da insercao da cultura no centro das preocupacoes historiograficas. A epoca, 1971, Ferro valeu-se de uma alegoria para mostrar a permanencia da hierarquizacao das fontes que nada mais era do que a ordem e a subordinacao dos poderes, em pleno seculo 20:

[...] na frente do cortejo, desfrutando de prestigio, eis os documentos de Estado, manuscritos ou impressos... As biografias, as fontes de historia local, a literatura dos viajantes, formam a cauda do cortejo [...] (Ferro, 1976, p. 200-201).

Assim, Ferro via a Historia como campo ainda marcado e compreendido pelo vies tradicional, pautado pelos registros dos poderes constituidos, pelos "[...] homens de Estado, diplomatas, magistrados, empresarios e administradores" (Ferro, 1976, p. 201). No entanto, a Nova Historia Cultural (NHC) estimulou o interesse de se utilizar a literatura como valiosa fonte historica. Com base nessa tendencia, entendemos que e possivel construir parte da historia infantil do segmento negro escravizado a partir de registros religiosos, cronicas coloniais, obras classicas e literarias do periodo imperial. Sao fontes reveladoras da rede de relacoes estabelecidas por trabalhadores e trabalhadoras escravizadas, manifestadas no ambito parental, no apadrinhamento e nas tarefas cotidianas. Materiais literarios do seculo 20 tambem oferecem preciosas, porem esparsas, contribuicoes a historiografia da crianca negra no Brasil. Elegemos, para um rapido exercicio de analise, os textos de Joaquim Manoel de Macedo (1869), Machado de Assis (1881), Jose Lins do Rego (1932) e Gilberto Freyre (1933, 1936). Em suas obras, e possivel encontrar, nao raro, cenas do cotidiano e teias de relacoes da crianca afro-brasileira durante o passado escravista.

Menina-mucama

Joaquim Manoel de Macedo foi membro do Instituto Historico e Geografico Brasileiro (IHGB), amigo do Imperador D. Pedro II e deputado pelo Partido Liberal (ala conservadora). A construcao do cenario urbano em seus escritos veio ressaltar o fortalecimento da classe media no Brasil do seculo 19. O livro As vitimas-algozes: Quadros da escravidao, escrito em 1869 por Macedo (1988), constitui-se de tres novelas que traduziram o universo dramatico da escravidao. Por meio das historias de Simeao, PaiRaiol e Lucinda, Macedo (1988) propos-se a convencer o publico-leitor (segmento senhorial) de que a escravidao criava vitimas-algozes e que, portanto, deveria ser eliminada, sem prejuizo aos escravizadores. (Brazil, 2002).

As novelas de Macedo surgiram no momento em que o escravismo tornava-se um sistema de producao em franco processo de superacao. Dos tres contos contidos na obra, emergiram de 'Lucinda, a mucama', as evidencias do quadro de relacoes da crianca afro-brasileira em meio as malhas da dominacao cotidiana. Numa mistura de ficcao e realidade, a trama envolveu Candida, uma menina branca de onze anos que ganhara, como presente de seu padrinho, a mucama Lucinda:

[...] Placido Rodrigues dirigiu-se imediatamente a porta, fez um sinal com a mao, e logo depois apresentou a Candida uma crioula de idade de doze anos [...] (Macedo, 1988, p. 166).

O discurso de Macedo, escrito no ano de 1869, traduzido na fala do personagem Placido Rodrigues, delineava as condicoes de vida dos cativos domesticos e a essencia do pensamento dominante em pleno processo de supressao do escravismo no Novo Mundo:

[...] Trago-te uma escrava quase da tua idade, a quem mandei ensinar de proposito para ser sua mucama: E voltando-se para a crioula, disse-lhe: -Lucinda, eis ai tua senhora [...] (Macedo, 1988, p. 157).

Placido, rico escravocrata oitocentista, acrescentou a afilhada: "Toma conta dela, Candida, e se te desagradar a figura, e nao gostares do servico dessa crioula, has de mo dizer, para que eu a troque por outra" (Macedo, 1988, p. 157). A menina Candida, em tom senhoril, perguntou a sua pequena prenda: "-- Que sabes tu fazer, Lucinda?--Engomo, coso, penteio, e sei fazer bonecas [...]" (Macedo, 1988, p. 157).

O conto de Joaquim Manoel de Macedo da conta do cenario vivido por inumeras criancas oitocentistas em condicao servil:

[...] [o presente-mucama] tinha sido longamente preparado para que se mostrasse precioso. Aos sete anos de idade [fora] mandada para a cidade do Rio de Janeiro, e ali entregue a uma senhora viuva que era professora particular de instrucao primaria [...] (Macedo, 1988, p. 166).

Observa-se, nesta passagem, o registro de profissionais dedicados a disciplinarizacao e ao preparo de cativos para o trabalho. Conforme Maestri (2004a, p. 204), nas cidades havia senhoras que ensinavam criancas escravizadas a "[...] limpar, lavar, bordar, cozinhar, sob remuneracao [do escravizador] e para usufruir do servico dos aprendizes".

A discussao realizada por Mary Karasch (2000) ancorada em um periodico que circulava na Corte, datado de 13 de outubro de 1821, corrobora o discurso ficcional de Macedo, no qual eram destacadas as praticas cotidianas de exploracao de pequenos aprendizes. Segundo Macedo, as meninas eram ensinadas por preparadoras de mucamas e de outras atividades. De outro lado, nao havia preocupacoes em introduzir conhecimentos concernentes as primeiras letras:

As poucas escolas urbanas estavam vedadas ao ingresso de negros livres, quem dira aos cativos. Ler, escrever e contar era habilidade rarissima entre os trabalhadores feitorizados (Maestri, 2004a, p. 205).

O discurso macediano e claramente tendencioso, sobretudo ao descrever as caracteristicas fisicas e morais da menina-sinha:

[...] O que mais enfeiticadamente radiava em Candida era o brilho [...] o perfume celeste da inocencia, dessa virginal, purissima, sublime insciencia do mal [...] chegara aos onze anos com a perfeita inocencia de sua primeira infancia [...] (Macedo, 1988, p. 161).

Segundo Flora Sussekind (1988), o conto 'Lucinda, a mucama' reproduz o discurso politico e literario do segmento dominante brasileiro durante o Segundo Reinado. Aparece tambem, nitidamente, o preconceito de raca ja bem enraizado e manifestado na descricao macediana da menina escravizada:

[...] Lucinda era aos doze anos de idade uma crioula quase mulher, tendo ja tomado as formas que se modificam ao chegar a puberdade [...] A crioula [...] era pois ja entao uma rapariga muito pervertida e muito desejosa de se perverter ainda mais [...] (Macedo, 1988, p. 161).

Ao propor aos escravocratas as vantagens da superacao do escravismo, Macedo reforcou explicitamente o preconceito antinegro, pois Lucinda trazia escondidos a imoralidade e os 'costumes licenciosos' da escravidao:

[...] suas irmas mais velhas [...] tinham-lhe dado as licoes de sua corrupcao [...] Assim, pois na casa de Florencio da Silva (pai de Candida) estava posto o charco em comunicacao com a fonte limpida [...] (Macedo, 1988, p. 166-167).

O texto de Macedo, dirigido insistentemente ao mesmo tipo de interlocutor--que nada mais era que o escravizador -, nao deixa duvida, segundo Flora Sussenkind (1988), quanto ao esforco de buscar, por meio do exemplo de Lucinda, a coesao do segmento senhorial contra aquilo que classificava como 'os males da escravidao'.

Menino-diabo

E importante ressaltar a contribuicao de Machado de Assis para a abordagem da infancia da crianca negra, nos raros momentos em que se referiu aos negros escravizados ou afro-brasileiros em sua obra. Publicado em 1881, o livro Memorias Postumas de Bras Cubas e narrado por um defunto-autor, que apresenta a vida inutil e desperdicada do anti-heroi Bras Cubas (Nhonho). Feitas algumas digressoes, o narrador relata a infancia do personagem, a primeira paixao da adolescencia, aos 17 anos, pela cortesa Marcela, e seus estudos de Direito na cidade de Coimbra, Portugal. Os relatos da infancia do 'Nhonho' servem de pano de fundo ao perverso cenario do escravismo:

[...] Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de 'menino diabo'; e verdadeiramente nao era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquina e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeca de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, nao contente com o maleficio, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, nao satisfeito da travessura, fui dizer a minha mae que a escrava e que estragara o doce 'por pirraca'; e eu tinha apenas seis anos (Assis, 1978, p. 41, grifo do autor).

A narrativa da infancia de Nhonho, sobretudo no capitulo XI da obra, traduz o episodio da vida de criancas sob cativeiro:
   [...] Prudencio, um moleque de casa, era o meu
   cavalo de todos os dias ... fustigava-o, dava mil voltas
   a um e outro lado, e ele obedecia ... sem dizer
   palavra, ou, quando muito, um--'ai, Nhonho!'--ao
   que eu retorquia:--'Cala a boca, besta!' [...] (1978,
   p. 41, grifo do autor).


Quando Nhonho ficou adulto, o mesmo Prudencio ressurgiu atraves da caneta machadiana, especificamente no capitulo LXVIII da obra, sob o adjetivo de vergalho.

[...] Tais eram as reflexoes que eu vinha fazendo, por aquele Valongo [o mercado de escravos no Rio de Janeiro] fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu, mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praca. O outro nao se atrevia a fugir; gemia somente estas unicas palavras: - Nao, perdao meu senhor; meu senhor, perdao! Mas o primeiro nao fazia. Cada suplica, respondia com uma vergalhada nova.--Toma diabo! dizia ele; toma mais perdao, bebado!--Meu senhor! Gemia o outro. Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei ... Justos ceus! Quem havia de ser o vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudencio, o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo a pedir a bencao; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. -E sim, 'Nhonho' [...] (Assis, 1978, p. 116, grifo do autor).

Vitima da violencia do escravismo, o negro Prudencio, tantas vezes humilhado e espancado pelo menino escravizador, encontrou um meio de aliviar as marcas das pancadas recebidas no passado, transferindo-as a outro negro.

Menino de Engenho

Toda a obra de Jose Lins do Rego foi amplamente influenciada pelo universo rural nordestino, constituido de fazendas, senzalas e engenhos, aspecto que ensejou o surgimento de seu primeiro livro Menino de engenho, em 1932. Dono de extraordinario poder de descricao, Ze Lins, como foi carinhosamente chamado, concede um carater autobiografico a toda sua obra e reproduz em seus escritos a linguagem das rocas onde trabalhavam os negros escravizados e do ambiente dos engenhos de cana-de-acucar. Em Menino de Engenho, Carlos Melo, o personagem-chave da obra, narra saudosamente a infancia vivida no engenho nordestino de Santa Rosa. Carlinhos, orfao de pai e mae, foi viver no engenho Santa Rosa, pertencente ao seu avo materno, o Coronel Jose Paulino. A infancia de Carlinhos contou com a presenca terna de sua tia e com as relacoes extrovertidas, traquinas e libertinas de seus primos.

O cenario onde transitou Carlinhos era o mesmo onde se movimentaram seus pais, constituido por senzala e casa-grande, sobrevivencia material do passado escravista, a epoca da escrituracao do romance, ainda vivo na memoria coletiva dos habitantes do engenho Santa Rosa.

Para Andre Luiz dos Santos (2004), que analisou o livro de Jose Lins do Rego, as travessuras dos moleques faziam parte do universo infantil e se tornavam marcantes em sua fase adulta. A trama da obra passa-se num arco temporal posterior ao periodo escravista, mas as conversas das negras da casa-grande, envolvendo historias de assombracoes, funcionavam como se fossem permanencias do passado muito recente.

No texto A infancia em Menino de Engenho (2004), Andre Luiz dos Santos aponta Carlinhos como instrumento revelador do quadro das senzalas coloniais:

[...] Segundo o menino, as negras, mesmo depois da escravidao, continuavam no engenho vivendo da mesma maneira anterior. Morriam de velhas, trabalhando para o Senhor e recebendo o que vestir e o que comer [...] Alem das negras, os moleques participam ativamente. O sofrimento causado pelos meninos da casa-grande tem periodos de desforra por parte dos moleques. (Santos, 2004, p. 19-27).

Por meio do personagem Carlinhos, Jose Lins mostrara a permanencia da dominacao social do segmento branco sobre os negros. Essa dominacao materializava-se nas brincadeiras:

[...] Pediam-nos para furtar coisas da casa-grande para eles: laranjas, sapotis, pedacos de queijo. Trocavam conosco os seus bodoques e os seus pioes pelos generos que roubavamos da despensa [...] (Rego, 1987, p. 91).

Entretanto, conforme enfatiza Santos (2004), a vivencia do menino negro sob cativeiro era muito inferior, se comparada ao cotidiano do menino negro do periodo pos-abolicao, sobretudo no que diz respeito aos brinquedos: "O nao acesso ao mundo dos brinquedos infantis e uma especie de denuncia feita por Jose Lins atraves do menino" (Santos, 2004, p. 19-27).

Em companhia de sua tia Maria, o menino seguia rumo ao Engenho Oiteiro, um dos mais belos da varzea paraibana, e, ao longo da viagem, Rego descreve a belissima arquitetura da Casa Grande, dispondo de conforto, a nobreza dos ornamentos ambientais, contrastando com a inferioridade da senzala. Sao cenarios de dois mundos que compunham a vida cotidiana de criancas de elite da mesma faixa etaria do protagonista Carlinhos. A ausencia de brinquedo no universo da crianca negra, no periodo posterior ao fim do cativeiro, no Brasil, e ressaltada por Jose Lins do Rego na seguinte passagem:

[...] E eram mesmo abencoados por Deus, porque nao morriam de fome e tinham o sol, a lua, o rio, a chuva e as estrelas para brinquedos que nao se quebravam [...] (Rego, 1987, p. 97).

O menino freyriano

A obra Casa Grande e Senzala: formacao da familia brasileira sob o regime da economia patriarcal (1933) destaca a importancia da casa grande na formacao sociocultural brasileira e a senzala como complemento desta. Trata-se de uma obra sobejamente discutida e debatida por estudiosos, muitos dos quais reconhecem a importancia de seu pensamento para a compreensao da formacao da sociedade no Brasil. No entanto, nao poucos criticos revelam discordancias, deficiencias e limitacoes no discurso freyriano.

Apesar das divergencias, nao se pode negar a contribuicao do autor para a compreensao da infancia brasileira no periodo colonial, desvelando, nas casas-grandes e nas senzalas das fazendas de cana-de-acucar e cafe, as relacoes de tirania estabelecidas pelos escravizadores sobre os escravizados. Nessa obra, o autor enfatiza o eixo de analise para as relacoes raciais enquanto expressao das relacoes de classe. Freyre (1977) destacou tres etnias constitutivas da sociedade brasileira, europeia, africana e americana--para, sobretudo, referendar a hegemonia das elites brancas sobre os segmentos negros. Alem disso, e impossivel negar que Freyre (1977) interpretou o passado escravista como uma sociedade patriarcal 'benevolente', 'suavizada' pelas tradicoes portuguesas (Maestri, 2002).

De acordo com as proposicoes freyrianas, verificou-se, no Brasil, 'uma verdadeira confraternizacao de valores e de sentimentos' entre negros e brancos, responsavel por uma formacao social sui generis:

A casa-grande fazia subir da senzala para o servico mais intimo e delicado dos senhores uma serie de individuos--amas de criar, mucamas, irmaos de criacao dos meninos brancos. Individuos cujo lugar na familia ficava sendo nao o de escravos, mas o de pessoas de casa. Especie de parentes pobres nas familias europeias. Quanto as maes-pretas, referem as tradicoes o lugar verdadeiramente de honra que ficavam ocupando no seio das familias patriarcais. Alforriadas, arredondavam-se quase sempre em pretalhonas enormes [...] a quem se faziam todas as vontades [...] (Freyre, 1977, p. 346).

Gilberto Freyre sustentava a tese da harmonica relacao entre a casa grande e a senzala, entre o sobrado e o mucambo:

A mesa patriarcal das casas grandes sentavam-se como se fossem da familia, numerosos mulatinhos. Crias. Malungos. Muleques de estimacao. Alguns saiam de carro com os senhores, acompanhando-os aos passeios como se fossem filhos [...] (Freyre, 1977, p. 346).

A despeito do discurso patriarcal e benevolente presente na obra Casa Grande e Senzala: formacao da familia brasileira sob o regime da economia patriarcal, de Gilberto Freyre, algumas de suas teses foram retomadas para refletir, sobretudo, acerca da crianca brasileira. Estudos realizados, principalmente por Peter Burke (1997), revelam que, desde 1921, o jovem Freyre tinha a ambicao de tomar a crianca brasileira como tema de analise. Isso foi esbocado em Casa-grande & Senzala (1933) e aprofundado em Sobrados e mocambos (1936). Eis as palavras de Freyre:

O que eu desejaria era escrever a historia do menino - da sua vida--dos seus brinquedos, dos seus vicios - brasileiro, desde os tempos coloniais ate hoje [...] Sobre meninos de engenho, meninos do interior, da cidade. Os orfaos dos colegios jesuitas. Os alunos dos padres. Os meninos mesticos. De crias da casagrande. De afilhados de senhores de engenhos, de vigarios, de homens ricos, educados como se fossem filhos por esses senhores [...] (Freyre, 1979, p. 315).

Burke (1997) fez surpreendente descoberta sobre o projeto de Freyre em escrever a historia da crianca brasileira, revelando a versao publicada do diario de Freyre entre os anos de 1921 e 1930. Burke (1997) evidenciou o projeto freyriano de contar a historia da crianca no Brasil, mencionado no referido diario quase uma dezena de vezes:

Quatro dos artigos que escreveu para o Diario de Pernambuco nos anos 20 tratavam da infancia, das criancas e seus livros e brinquedos [...] (Burke, 1997, p. 3).

Peter Burke (1997) salienta que A nouvelle histoire francesa defendeu amplamente a utilizacao de novas fontes para responder as novas questoes levantadas sobre o passado. Conforme suas reflexoes, se JeanPierre Aron, Pierre Dumond e Emmanuel Le Roy Ladurie (1972) analisaram detidamente os exames medicos disponiveis nos arquivos militares para estudo sobre a historia do corpo no inicio do seculo 19, Freyre (1933), "[...] recorreu a um ambito extraordinariamente amplo de fontes para compor a obra Casa-grande e Senzala [...]" (Burke, 1997, p. 4). Para Burke (1997), a escrita de Freyre foi um notavel tour de force, sobretudo no que diz respeito as "[...] descricoes de escravos fugitivos--inseridas nos jornais por seus proprietarios [...]" (Burke, 1997, p. 4), a ponto de ser comparada ao estudo dos recrutas franceses realizado por Le Roy Ladurie.

Para escrever Sobrados e mocambos: decadencia do patriarcado rural no Brasil (1936), Freyre recorreu a uma significativa diversidade de fontes, impensada a epoca pelos estudiosos das ciencias humanas, associada a revista Annales, criada em 1929, dirigida por um pequeno grupo de historiadores, com destaque para Lucien Febvre e Marc Bloch. A proposta de considerar novos problemas, novas abordagens e novos objetos nas discussoes historicas, ainda era algo relativamente recente no meio cientifico (Burke, 1997). Na escrita de Sobrados & Mocambos (1936), Freyre lancou mao de diarios, iconografias, folclore, tradicao oral, arquivos pessoais, papeis de velhos engenhos, documentacao notarial, anuncios de jornais, inventarios post-mortem, teses de escolas de medicina, depoimentos de viajantes, literatura oitocentista, anuncios de cativos fujoes etc. (Maestri, 2004b).

Apesar das consideracoes positivas realizadas por Burke (1997) referentes a obra mundialmente conhecida de Gilberto Freyre (1936), alguns estudiosos nao pouparam criticas:

Sobrados e mocambos constitui sentido e poderoso elogio [...] ao senhor de engenho [...] Freyre [...] com emocao e carinho, relata como viviam, como bebiam, como se banhavam; registra as supersticoes, as crencas, as lendas, as idiossincrasias, sobretudo dos senhores, sinhas, sinhozinhos, das casas grandes rurais e, principalmente, dos sobrados urbanos do seculo 19. (Maestri, 2004b, p. 13-14).

De acordo com essa tendencia critica, o sociologo baiano realizou um empreendimento, baseando-se em recordacoes pessoais, narrando suas vivencias nos engenhos e sobrados de seus familiares e conhecidos ou relatadas por escravizadores coevos da escravidao ou de confidentes ilustres:

[Freyre] refere-se a sua meninice de neto de gente, alem de patriarcal, rural, com sobreviventes, na convivencia domestica ou familial, de escravos ou de servos nascidos nos dias da escravidao [...] (Maestri, 2004b, p. 14).

O historiador lembra ainda que Freyre crescera ouvindo historias contadas no universo rural de sua familia:

[Freyre] crescera ouvindo historias da negrinha Isabel e aprendendo palavroes com o malungo Severino e ouvindo da negra Felicidade, outrora escrava de sua avo materna, suas experiencias dos dias antigos. Como em Casa Grande e Senzala o sociologo refere-se apenas rapidamente aos depoimentos e memorias dos cativos, apesar de escrever a quatro decadas da Abolicao, em epoca em que viviam ainda dezenas de milhares de homens e mulheres que haviam sofrido o cativeiro (Maestri, 2004b, p. 14).

No entanto, para Peter Burke (1991), o sociologo brasileiro saiu a frente, no que se refere ao interesse em estudar a familia, se comparado a obra L'enfant et la vie familiale en l'ancien regim (1975), de Philippe Aries, escrito em Paris em 1960. A grande contribuicao de Aries (2006) foi colocar a infancia no centro das discussoes historicas, empreendimento capaz de abrir caminhos para outros estudos sobre a historia da crianca, com base, sobretudo, nas fontes literarias, em diferentes regioes e periodos.

No artigo intitulado Gilberto Freyre e a nova historia, publicado em 1997, Burke lembra que a 'nova historia' francesa baseou sua pretensao e novidade tambem no desenvolvimento de novas abordagens e metodos, numa perspectiva multidisciplinar, procedimento empregado por Freyre ja nos anos 1930. Nessa aventura sociologica, Freyre trouxe a lume a historia da crianca afrobrasileira, com base, conforme ja referido, nas historias ouvidas na meninice e contadas por velhos trabalhadores domesticos, segundo as observacoes de Burke:

A historia da crianca atraiu seu interesse por si mesma, como uma desculpa para discutir sua propria infancia, e como um microcosmo da cultura brasileira. Embora Freyre nunca tivesse realizado seu plano original, nao o abandonou completamente. Se voltamos para Casa-grande & senzala, logo fica obvio que fragmentos substanciais do 'projeto secreto' estao embutidos no texto, indo das bonecas, pipas, pioes, bolas e outros brinquedos e jogos das criancas brancas, negras e indias ate o 'sadismo patriarcal', os estudos e a disciplina dos colegios jesuitas e a breve discussao sobre a educacao das meninas (Burke, 1997, p. 3-4).

Um fragmento do livro Casa-Grande & Senzala traduz a habilidade do 'nhonhozinho' no dominio sobre meninos escravizados desde as inocentes brincadeiras:

Mesmo no jogo de piao e no brinquedo de empinar papagaio achou jeito de exprimir-se o sadismo do menino das casas-grandes e dos sobrados do tempo da escravidao, atraves das praticas, de uma aguda crueldade infantil, e ainda hoje corrente no norte, de 'lascar-se o piao' ou de 'comer-se o papagaio' do outro; papagaio alheio e destruido por meio da lasca, isto e, lamina de vidro ou caco de garrafa, oculto nas tiras de pano do rabo (Freyre, 1977, p. 360, grifo do autor).

Outro jogo citado por Freyre (1977) refere-se a brincadeira do 'belisco', muito praticada por criancas dos seculos 18 e 19, senao vejamos:

Uma, duas angolinhas. Finca o pe na pampolinha. O rapaz que jogo faz? Faz o jogo do capao. O capao, semicapao. Veja bem que vinte sao. E recolha o seu pezinho. Na conchinha de uma mao. Que la vai um beliscao (Freyre, 1977, p. 360-361).

Essa brincadeira dava oportunidade aos meninos de beliscarem as 'crias' da casa. A brincadeira permitia o aperto doloroso nos participantes quando o verso alcancava trecho 'la vai um beliscao'. Os pequenos escravizados tinham medo de dar beliscoes fortes, ao passo que o aperto perpetrado pelos meninos brancos era lancinante. Na ultima frase reproduzida no verso, ampliava-se a pungencia da brincadeira, pois fazia parte do jogo todos baterem na crianca que fosse agarrada (perdedora): [...] E de rim-fon-fon. E de rim-fon-fon. Pe de pilao, Carne-seca com feijao [...] (Freyre, 1977, p. 361).

Com isso, Freyre mostrou o quanto era forte a relacao de superioridade estabelecida entre o pequeno senhor de engenho e o moleque escravizado. Para Andre Luiz dos Santos (2004), era nas atividades ludicas mais simples que se expressavam os sentimentos de dominacao do menino branco sobre o moleque negro, seu companheiro inseparavel:

A ideia da servidao nesse mundo infantil tem varias fases, comecando com as maldades nas brincadeiras de criancas, ate o ponto em que o moleque e vitima dos primeiros impulsos sexuais de seus pequenos senhores (Santos, 2004, p. 19-27).

Nesse aspecto, Santos (2004, p. 24-37) viu tambem "[...] a precocidade com que as criancas se inseriam na realidade do mundo dos adultos [...] outro fator que contribui para as atitudes voltadas para o sadismo". Freyre, ancorado nas narrativas de Henri Koster (1942), nos traz rica contribuicao a respeito das atividades ludicas ao discorrer sobre vivencias entre meninos e meninas no cotidiano escravista. O proprio processo de organizacao da producao detinha mecanismos para atender a logica do sistema de dominacao, que iam desde as relacoes infantis, como simples brincadeiras, que aos poucos se transformavam em atividades laborais efetivas. O moleque negro transformava-se no leva-pancadas, no boi de carga, no cavalo de montaria, no burro de liteiras do menino branco, e suas funcoes assumiam, nas palavras de Freyre, o carater de

[...] prestadio mane-gostoso, manejado a vontade por nhonho; apertado, maltratado e judiado como se fosse todo de po de serra por dentro [...] (Freyre, 1977, p. 332).

Consideracoes finais

A historia da crianca negra brasileira vincula-se ao passado escravista. Sua trajetoria, enquanto parte de um segmento social submetido ao cativeiro, caracterizou-se pela alienacao, ou seja, o negro morria escravizado e seus descendentes herdavam os pesados grilhoes do instituto da escravidao. Enquanto peca indispensavel ao escravismo colonial, o negro tornava-se alienado, assumindo, a partir dai, o carater perpetuo e hereditario (Goes & Florentino, 2007; Figueiredo, 2010).

Relatos de viagens, sobretudo os do seculo 19, textos literarios, documentos oficiais, enquanto representacoes de uma realidade exterior percebida, representam um dos suportes utilizados nas analises historicas. Ao iluminarem nuancas do cotidiano, sobretudo os aspectos simbolicos das relacoes cotidianas, das brincadeiras, dos vestuarios e das habitacoes do universo infantil, em particular; ao descreverem cenas rapidas ou breves incidentes humanos dos lugares narrados, cronistas e escritores classicos de nossa literatura enfatizaram situacoes eventualmente consideradas triviais ou simplesmente ficcionais por um analista apressado, mas prenhes de significado para o conhecimento da sociedade e de sua cultura.

No entanto, concernente aos escritos literarios, e preciso ressaltar que os mesmos nao podem ser vistos simplesmente como fontes historicas para o estudo da infancia negra, por exemplo, mas, sim, como 'representacoes' de uma determinada sociedade. Ou seja, a literatura abre possibilidades de reflexao acerca das temporalidades, das imagens e dos aspectos cotidianos do mundo social. A esse respeito, Pesavento (2006) observou que a producao literaria e um material que suscita debates quanto a verossimilhanca com a realidade, sobretudo no tocante ao mundo imaginario das personagens e situacoes recriadas.

Embora neste artigo nao tenha sido realizada critica literaria proficua, paramentada de seus suportes teoricos e metodologicos especificos, procuramos, a partir da historicidade das obras e dos escritores, refletir sobre a (in)visibilidade da crianca negra que, juntamente com cativos, nativos, agregados e mulheres, foi, por muito tempo, omitida como participe da historia humana. A leitura detida desse material revela que a crianca afro-brasileira era submetida e preparada para suas funcoes dentro da organizacao social.

Importante contribuicao a respeito tambem foi dada por pesquisadores como Fonseca (2002, 2007) e Ramos (2008), ao discorrerem sobre a educacao da crianca negra pos-Lei do Ventre Livre (1871). Aspectos registrados sobre esse tema nos textos literarios, ressaltando a ausencia de projeto de insercao de negros livres e cativos no universo das letras, sao analisados detidamente por Fonseca (2002) em Educacao e Escravidao, texto publicado pela Revista Brasileira de Historia da Educacao. Nessa analise, Fonseca ressaltou que todo o conhecimento, as aptidoes e o preparo da crianca beneficiada pela Lei do Ventre Livre permaneceram como prerrogativa do proprietario de escravizados, cujo interesse maior era garantir habilidades para o trabalho, ainda que o sistema escravista no Brasil estivesse em franco processo de superacao. Ramos (2008) procurou destacar o aspecto excludente da educacao para criancas nascidas apos a Lei do Ventre Livre. Diante do quadro de carencia de instituicoes escolares no Brasil oitocentista, torna-se dificil de acreditar que um proprietario de cativos pudesse investir no desenvolvimento da capacidade fisica, intelectual e moral da crianca, visando a sua melhor integracao individual e social, por meio da instrucao.

O fato de nao ter conseguido romper as distintas barreiras impostas a populacao negra desde a epoca da escravidao explica a razao pela qual este segmento e, ainda hoje, vitima dos altos indices de analfabetismo e exclusao educacional. Se, no mundo do trabalho, a partir da Abolicao (1888), o negro ficou visivelmente excluido, no campo educacional, a situacao tornou-se ainda mais dramatica. Mesmo com a superacao do escravismo, estereotipos de inferioridade e/ou superioridade raciais, teoria do branqueamento, tornaram-se mais evidentes, explicados pela permanencia da dualidade escravizador/escravizado no imaginario da sociedade brasileira. As escolas seguiram privilegiando os ideais aristocraticos fundados no passado escravista (Brazil & Garcia, 2008).

Doi: 10.4025/actascieduc.v38i2.23572

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Received on April 12, 2014.

Accepted on October 8, 2015.

Maria do Carmo Brazil (1) * e Luciana Figueiredo (2)

(1) Programa de Pos-graduacao em Educacao, Univerdade Federal da Grande Dourados, Rua Joao Rosa Goes, 1761, 79825-070, Vila Progresso, Dourados, Mato Grosso do Sul, Brasil. (2) Secretaria Estadual de Educacao de Mato Grosso do Sul, Dourados, Mato Grosso do Sul, Brasil.

* Autor para correspondencia. E-mail: mc.2708@hotmail.com.br
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Author:Brazil, Maria do Carmo; Figueiredo, Luciana
Publication:Acta Scientiarum. Education (UEM)
Date:Apr 1, 2016
Words:8029
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